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(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO Programa de Pós Graduação em Psicologia da Saúde Mestrado em Psicologia da Saúde. KATIANE HOLANDA FUKAMACHI. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS ELEMENTOS ESTRUTURAIS DOS CÍRCULOS RESTAURATIVOS E DOS FENÔMENOS DO CAMPO GRUPAL. EM. PROCESSOS. ENVOLVENDO. RESTAURATIVA.. São Bernardo do Campo 2012. A. JUSTIÇA.
(3) KATIANE HOLANDA FUKAMACHI. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS ELEMENTOS ESTRUTURAIS DOS CÍRCULOS RESTAURATIVOS E DOS FENÔMENOS DO CAMPO GRUPAL. EM. PROCESSOS. ENVOLVENDO. A. JUSTIÇA. RESTAURATIVA.. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Psicologia da Saúde. Orientadora: Profª. Drª. Maria Geralda Viana Heleno. São Bernardo do Campo 2012.
(4) FICHA CATALOGRÁFICA F955d. Fukamachi, Katiane Holanda Descrição e análise dos elementos estruturais dos círculos restaurativos e dos fenômenos do campo grupal em processos envolvendo a justiça restaurativa / Katiane Holanda Fukamachi. 2012. 80 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia da Saúde) – Faculdade de Saúde da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2012. Orientação de: Maria Geralda Viana Heleno. 1. Justiça restaurativa 2. Facilitador 3. Setting 4. Campo grupal 5. Elementos estruturais I. Título CDD 157.9.
(5) Ao meu grande amor!.
(6) AGRADECIMENTOS. À minha família, pelo amor, carinho e atenção; As minhas amigas pelo incentivo, cuidado e, sobretudo amizade incondicional; À minha orientadora, Professora Dra. Maria Geralda Viana Heleno, pelo carinho, amizade e estímulo ao meu desenvolvimento pessoal e profissional; À Professora Marília Martins Vizzotto, pela presença afetuosa e cuidadosa me alertando sobre a importância de disseminar a Psicologia e o conhecimento científico; À Professora Tânia Elena Bonfim pela gentileza, paciência e apoio, e sua importante contribuição na construção desta dissertação; Ao Juiz Glauco Costa Leite pela essência colaboração para a realização da presente pesquisa; Ao Promotor Eduardo Dias de Souza Ferreira pela disponibilidade e pelas importantes contribuições na ocasião da qualificação; À Universidade do Algarve pela oportunidade de vivenciar as diferentes maneiras de se estudar e pensar a Psicologia. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), por ter subsidiado este trabalho; Ao Fórum de Ribeirão Pires e OAB de Ribeirão Pires, pelo espaço concedido para a coleta de dados da pesquisa; A todos que direta ou indiretamente me ofereceram apoio e incentivo neste percurso; E que certamente enriqueceu minha vida..
(7) Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade. Milan Kundera.
(8) RESUMO. FUKAMACHI, K. H. Descrição e análise dos elementos estruturais dos círculos restaurativos e dos fenômenos do campo grupal em processos envolvendo a justiça restaurativa. 2012. 80f. Dissertação (Mestrado) – Mestrado em Psicologia da Saúde, Universidade Metodista de São Paulo, São Paulo, 2011. Sabe-se que a violência é considerada um problema das sociedades atuais e a tendência é que aumente cada vez mais. Exigindo estudos e medidas multidisciplinares que possam dar outras respostas, para além do endurecimento das penas, como o reconhecimento de que o problema não está apenas com o ofensor. A Justiça restaurativa surge como uma nova maneira para enfrentar esse problema e uma de suas estratégias é o círculo restaurativo. Assim, objetivo desta pesquisa é descrever e analisar os elementos estruturais dos círculos restaurativos e os fenômenos do campo grupal. De uma amostra de dois processos restaurativos que envolveram pré-círculo, círculo e o pós-círculo mediados por um facilitador. Os dados foram analisados de forma qualitativa, considerando os elementos estruturais (setting) tais como cerimônias de abertura e fechamento, bastão de fala, processo decisório consensual e pelos fenômenos do campo grupal, resistência, actings (atuações) e insights (elaborações). Assim, este trabalho mostra que na realização dos círculos restaurativos que os aspectos psicológicos fazem parte do processo e demonstram grande importância para determinar seu fracasso ou êxito, ou seja, a elaboração de um Acordo e uma resolução consensual do conflito, promovendo a reparação e responsabilização das partes envolvidas em um conflito.. Palavras-chaves: justiça restaurativa, facilitador, setting, campo grupal, elementos estruturais..
(9) ABSTRACT Fukamachi, K. H. Description and analysis of the structural elements of restorative circles and the phenomena of the field group in processes involving restorative justice. 2012. 80f. Dissertação (Mestrado) – Mestrado em Psicologia da Saúde, Universidade Metodista de São Paulo, São Paulo, 2011. It is known that the violence is considered a problem in today's societies and the trend is to increase more and more. This requires multidisciplinary studies and actions which may give other responses, instead of just hardening of the feathers, as the recognition that the problem is not only with the offender. The Restorative Justice comes up with a new way to face this problem and one of their strategies is the restorative circle. The objective of this research is to describe and analyze the structural elements of restorative circles and the phenomena of the field group. From a sample of two restorative processes involving pre-circle, circle and post- circle mediated by a facilitator. Data were analyzed qualitatively, considering the structural elements (setting) such as opening and closing ceremonies, bat speech, consensual decisionmaking process and by the phenomena of the field group, resistance, actings and insights. This work shows that with the realization of restorative circles, the psychological aspects had great importance in determining the success or failure of the restorative circle in accomplishing the task proposed, namely the elaboration of an agreement and a consensual resolution of the conflict in order to, encourage reparation and accountability of the parties to the conflict.. Keywords: restorative justice, facilitator, setting, field group, structural elements.
(10) SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO.............................................................................................................. 11 1.1. Justiça restaurativa e os processos restaurativos..................................................... 15. 1.2. Considerações sobre conceito, técnicas e coordenador de grupo............................ 22. 1.3. Círculos restaurativos e os fenômenos do campo grupal........................................ 27. 2. MÉTODO........................................................................................................................ 30. 2.1. Local........................................................................................................................ 32. 2.2. Participantes............................................................................................................ 32. 2.3. Procedimento........................................................................................................... 32. 2.4. Aspectos éticos........................................................................................................ 33. 2.5. Análise dos resultados............................................................................................. 33. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO.................................................................................... 34. 3.1. Processo restaurativo 1............................................................................................ 34. 3.1.1. Pré-círculo 1..................................................................................................... 34. 3.1.2. Pré-círculo 2..................................................................................................... 36. 3.1.3. Pré-círculo 3..................................................................................................... 37. 3.1.4. Pré-círculo 4..................................................................................................... 37. 3.1.5. Pré-círculo 5..................................................................................................... 40. 3.1.6. Pré-círculo 6..................................................................................................... 41. 3.1.7. Pós-cículo........................................................................................................ 42 3.2. Processo restaurativo 2............................................................................................ 43. 3.2.1. Pré-círculo 1..................................................................................................... 44. 3.2.2. Pré-círculo 2..................................................................................................... 47. 3.2.3. Pré-círculo 3..................................................................................................... 52. 3.2.4. Pré-círculo 4..................................................................................................... 56. 3.2.5. Pré-círculo 5..................................................................................................... 60. 3.2.6. Círculo............................................................................................................. 63. 3.2.7. Pós-círculo....................................................................................................... 67. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................... 69. 5. REFERÊNCIAS.............................................................................................................. 71. ANEXOS Anexo A – Aprovação Comitê de Ética................................................................................. 76. Anexo B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.................................................... 78. Anexo C – Termo de Consentimento Institucional Condicionado........................................ 79. Anexo D – Carta de alteração do Título da Pesquisa............................................................ 80.
(11) 1 1. INTRODUÇÃO Sabe-se que a violência é considerada um problema das sociedades atuais e a tendência é que aumente cada vez mais. Rolim (2008) afirma que no Brasil a violência tem alcançado patamares dramáticos, mesmo reconhecendo que os dados apresentados sobre os índices de violência, ainda que altos, não representam fielmente a realidade, em função das subnotificações, exceto em relação às taxas de homicídio. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2010) ao apresentar os resultados da pesquisa Perfil dos Valores dos Brasileiros, identificou que 90,1% dos entrevistados têm a percepção do aumento da violência. Que, além dos homicídios incluem outras formas de violência, como: ações físicas, psicológicas e morais realizadas por indivíduos, grupos e nações, que perpassam as relações sociais e institucionais e geram grande sofrimento físico e mental. Deste modo, a violência é um fenômeno complexo e como tal levou a reflexão das questões teórico-empírica no contexto intra e interdisciplinar. Na psicologia as teorias sobre a Justiça originaram-se na Psicologia Social e do Desenvolvimento e segundo Sampaio; Camino; Roazzi (2009) carecem de pesquisas que focalizem aspectos teórico-técnicos intergrupal e societal da Justiça distributiva. Deste modo, a violência não pode ser compreendida apenas como um problema de Segurança Pública. Jorge (2002) discute sobre a violência como um problema de Saúde Pública, Minayo e Souza (1998) apresentam uma proposta de estudo e trabalho que engloba as áreas da saúde, pois no Brasil a violência exerce forte impacto nesse campo, levando suas vítimas a tratamento físico e/ou psicológico. A violência atinge as pessoas de modo a provocar graves prejuízos às suas vidas. Rolim (2008 p. 21) afirma “ninguém colocaria em dúvida, que o tema da violência – notadamente nos grandes centros urbanos – não pode ser tratada como uma questão entre outras”. A violência nos patamares atuais exige estudos e medidas multidisciplinares que possam dar outras respostas, para além do endurecimento das penas, como o reconhecimento de que o problema não está apenas com o ofensor. Neste sentido, cabe lembrar que as questões de justiça parecem bem naturais. Quando ocorre a violação de uma lei os ofensores devem ser punidos. Este é o.
(12) 2 paradigma retributivo que segundo Zehr (2008) monopolizou nossa sociedade, mas que não a melhorou. Na prática em delegacias especializadas (Delegacias de Defesa da Mulher e Delegacias Participativas), Heleno e Vizzotto (2009, 2008) destacam rotineiramente a busca de soluções para problemas que não são resolvidos de forma adequada por meio da justiça retributiva. Ao estabelecer culpa e punição ao ofensor, não dando atenção às emoções antecedentes e consequentes ao “crime”, tendo em vista que este caracteriza a perda da confiança depositada no relacionamento com o outro (Zehr, 2008). Endossando, que sob esse aspecto os operadores do direito necessitam considerar os danos. psicológicos. presentes. nessas. situações. (INTERNATIONAL. BAR. ASSOCIATION, 2010). Zehr (2008) propõe uma mudança nas lentes para observar a justiça. Em vez de justiça retributiva ele propõe a justiça restaurativa. A primeira definida como “O crime é uma violação contra o Estado, definida pela desobediência à lei e pela culpa. A justiça determina a culpa e inflige dor no contexto de uma disputa entre ofensor e Estado, regida por regras sistemáticas” (p.170). Enquanto a justiça restaurativa significa “O crime é uma violação de pessoas e relacionamentos. A justiça restaurativa envolve a vítima, o ofensor e a comunidade na busca de soluções que promovam reparação, reconciliação e segurança” (p.170). Ao considerar que o delito cria um vínculo hostil entre vitima, ofensor e comunidade, tratar o vínculo de modo a repará-lo seria um meio de restaurar o bem-estar da vítima, do ofensor e da comunidade. (ZEHR, 2008) Esse processo no qual vítima, ofensor e comunidade são envolvidos é denominada justiça restaurativa. Trata-se de uma forma diferente de fazer justiça. Não se trata da lógica da exclusão e da punição, mas do tratamento dos conflitos como questões interpessoais e sociais e não como atos infracionais (MELO; EDNIR; YAZBECK, 2008). Entretanto, cabe lembrar como aponta Benedetti (2009) que, apesar da justiça restaurativa ser um modelo alternativo de justiça, diferente do padrão tradicional rígido e baseado em leis, atualmente não se pode discutir seu caráter complementar, pois a punição como resposta ao crime não é debatida. No Brasil, a justiça restaurativa está ligada aos conflitos que não são observados na justiça tradicional, ou seja, justiça.
(13) 3 retributiva e que podem ser discutidos e solucionados por meio dos procedimentos utilizados na justiça restaurativa. Configura-se assim, o conceito viável para tratar uma grande demanda de situações que chegam às delegacias especializadas e aos Fóruns de Justiça, pois, entende-se que a justiça restaurativa seria o modelo para tratar as demandas sociais, familiares e de saúde mental de pessoas que buscam ajuda, nos diversos segmentos públicos e que não se configuram apenas de problemas legais, mas de conflitos familiares e interpessoais carregados de emoções. É importante ressaltar que, deve-se resguardar o cumprimento das leis e por isso a implantação de processos restaurativos depende de instâncias estaduais, municipais, de setores da Justiça, da Educação e da Saúde. É de fato um processo que envolve vários segmentos da sociedade. Assim, para que determinado conflito seja atendido por meio da justiça restaurativa faz-se necessário, principalmente, o apoio do poder judiciário. A. justiça. restaurativa. e. comunitária. envolve. processos. restaurativos. denominados círculos restaurativos que se caracterizam como um grupo para restauração das relações que por meio do diálogo procuram resolver conflitos. O grupo envolve vítima, ofensor e demais pessoas da comunidade que direta ou indiretamente são atingidas pelo conflito. E cabe a uma pessoa capacitada facilitar este círculo (MELO; EDNIR; YAZBECK, 2008). Entende-se que o psicólogo com conhecimentos de grupos e profissional que trata das relações humanas poderia ser um dos profissionais capacitados para coordenar e/ou oferecer apoio técnico/teórico na realização os círculos restaurativos. Em encontro realizado pelos Conselhos Federal e Estadual de Psicologia e representantes do Departamento de Política Judiciária, da Secretaria de Reforma do Judiciário – Ministério da Justiça e Conselho Nacional de Justiça, realizado no ano de 2006 discutiu-se a participação mais efetiva dos psicólogos na reconstrução do Poder Judiciário que abarca o reconhecimento da importância de meio alternativos de resolução de conflitos e a necessidade de profissionais capacitados no processo de modernização do Sistema de Justiça brasileira. Nessa ocasião a Juíza Germana Moraes, representante do Conselho Nacional de Justiça, diz que:.
(14) 4 “[...] há uma reclamação da sociedade sobre a falta de um profissional qualificado, como o psicólogo, que tenha as técnicas para resolução dos conflitos, isso porque nós, do Poder Judiciário, somos ensinados a resolver os conflitos de maneira impositiva. É uma questão de condicionamento. Quando queremos resolvê-los de uma forma consensual, não sabemos como fazê-lo, como atuar; então, temos que perguntar a quem tem experiência em mediar e resolver de forma consensual os conflitos” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2006). Em entrevista à jornalista Talita Bedinelli para o IDCB - Instituto de Direito Comparado de Brasília (2010) o juiz, coordenador do Projeto de Justiça Restaurativa no Distrito Federal, Asiel Henrique Sousa afirma que se faz necessária à avaliação do processo de justiça restaurativa por meio de pesquisas. E um dos empecilhos para a aplicação do processo, e do desenvolvimento de pesquisas, seria a falta de coordenadores/operadores do sistema capacitados. Em concordância, entende-se que tanto as pesquisas como a capacitação são fundamentais nesse processo. Mas, como capacitar sem o conhecimento do manejo do processo? Como capacitar sem a descrição sistemática e disciplinada de todo o processo que envolve as ações nos círculos restaurativos? Portanto entende-se que o trabalho de analisar os processos restaurativos aplicados na justiça restaurativa, especialmente, os círculos restaurativos é de fundamental importância. Complementa-se que este procedimento pode mostrar os reais alcances dos círculos restaurativos para abdicarmos da ideia de um processo que às vezes se assemelha a um remédio que vai curar todos os males da justiça tradicional (BENEDETTI, 2009). Neste sentido, Zehr (2002) defende que a justiça restaurativa não é um modelo puro que pode ser visto como ideal ou que pode ser simplesmente praticado em qualquer comunidade, mas a compreende como um campo de apredizagem, com práticas que emergiram de ideias novas e certamente novas práticas irão emergir através do diálogo e experimentação..
(15) 5 Ainda assim, partir do pressuposto de que “os círculos encarnam o desejo humano universal de estar ligado aos outros de modo positivo” Pranis, (2010 p.40) pode impedir que o facilitador do grupo alcance toda “uma série de fenômenos relacionais, desencadeados pelas motivações inconscientes dos atos humanos que merecem nossa atenção no entendimento do funcionamento grupal” (OSORIO, 2003 p.59). Pois, nem sempre os fenômenos relacionais são de natureza positiva. Os procedimentos restaurativos, os processos circulares e o papel do facilitador do círculo restaurativo foram descritos por alguns autores (PRANIS, 2010; MACHADO; BRANCHER; TODESCHINI, 2008; MELO; EDNIR; YAZBEK, 2008; EDNIR, 2007). Mas entendemos que pode haver grande contribuição da Psicologia no que se refere ao manejo dos círculos restaurativos para melhor compreender os fenômenos grupais (OSORIO, 2003). Assim, este estudo justifica-se com vista a contribuir com a ampliação do conhecimento científico junto ao desenvolvimento de métodos consensuais de resolução de conflitos, principalmente, aos processos baseados nos preceitos da justiça restaurativa. Aspirando prover conhecimento para completar as lacunas na prática dos processos restaurativos.. 1.1. JUSTIÇA RESTAURATIVA E OS PROCESSOS RESTAURATIVOS Jaccoud (2005) descreve que os modelos de organização social, das coletividades nativas e das sociedades pré-estatais europeias que privilegiavam as práticas de regulamento social centradas na manutenção da coesão do grupo sustentam o desabrochar da justiça restaurativa. Agregada ao movimento de descriminalização, a justiça restaurativa contou com inúmeras experiências do sistema penal a partir da metade dos anos setenta que se institucionalizaram nos anos oitenta com a adoção de medidas legislativas específicas em muitos países, atingindo uma expressiva expansão nos anos 90 com sua inserção nos processos penais mundo a fora. No delineamento histórico que embasa a justiça restaurativa a autora também considera os movimentos das sociedades contemporâneas ocidentais de contestação das instituições repressivas, da descoberta da vítima e da exaltação da comunidade (JACCOUD, 2005)..
(16) 6 Atualmente, a principal definição de Justiça restaurativa baseia-se na Resolução nº 2002/12 – do Conselho Econômico e Social da ONU traduzida do original por Pinto (s/d). E seus princípios básicos foram descritos por Prudente (2008): 1) Programa de justiça restaurativa: significa qualquer programa que use processos restaurativos e objetive atingir resultados restaurativos; 2) Processo restaurativo: significa qualquer processo no qual a vítima e o ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime, participam ativamente na resolução das questões oriundas do crime, geralmente com a ajuda de um facilitador. Os processos restaurativos podem incluir a mediação, a conciliação, a reunião familiar ou comunitária (conferencing) ou círculos decisórios (sentencing circles); 3) Resultado restaurativo: significa um acordo construído no processo restaurativo. Resultados restaurativos incluem respostas e programas tais como reparação, restituição e serviço comunitário, objetivando atender as necessidades individuais e coletivas e responsabilidades das partes, bem como assim promover a integração da vítima e do ofensor; 4) Partes: significa a vítima, o ofensor e quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime que podem estar envolvidos em um processo restaurativo; 5) Facilitador: significa uma pessoa cujo papel é facilitar, de maneira justa e imparcial, a participação das pessoas afetadas e envolvidas num processo restaurativo. A Resolução nº 2002/12 também estabelece as bases para utilização de programas de justiça restaurativa, ressaltando sua adaptabilidade a qualquer dos sistemas jurídicos dos Estados membros. Assim, os programas de justiça restaurativa podem ser usados em qualquer estágio do sistema de justiça criminal, desde que haja indícios que sustentem o recebimento de uma acusação formal para que ela possa ser iniciada. No Brasil, a justiça restaurativa foi introduzida formalmente em 2004, por meio do Ministério da Justiça, através da Secretaria da Reforma do Judiciário, que elaborou o projeto “Promovendo Práticas Restaurativas no Sistema de Justiça Brasileiro”, e, juntamente com o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento que apoiou três projetos-piloto de Justiça Restaurativa: Em São Paulo, na Vara da Infância e da Juventude da Comarca de São Caetano do Sul, no Juizado Especial Criminal do Núcleo Bandeirantes em Brasília/DF e na 3ª. Vara da Infância e da Juventude de Porto Alegre/RS. E concomitantemente a Secretaria da Educação e a coordenação do Centro.
(17) 7 de Estudos de Justiça Restaurativa da Escola Paulista da Magistratura viabilizaram o projeto: “Justiça e Educação em Heliópolis e Guarulhos: parceria para a cidadania” na cidade de São Paulo e em Guarulhos/SP. Compreende-se com a realização e publicação desses projetos que a justiça restaurativa repercute no Brasil, contribuindo com as inovações na resolução de conflitos no âmbito do Poder Judiciário. Porém, a justiça restaurativa ainda não tem um papel muito bem definido no sistema de justiça existente (retributivo), mas expressa a importância de se desenvolver um Sistema Restaurativo (EDNIR, 2007). Zehr (2008) contemporaneamente reconhecido por sua contribuição no ressurgimento da justiça restaurativa explica que o crime é uma violação de pessoas e relacionamentos que gera a obrigação de corrigir os erros em que cabe conjeturar sobre uma justiça que envolve a vítima, o ofensor e a comunidade na busca de soluções que promovam reparação, reconciliação e segurança. Prudente (2008) explica que a justiça restaurativa pode ser entendida como um processo cooperativo dedicado a melhor solução de um conflito. Que os envolvidos no conflito buscam juntos, corrigir as consequências vivenciadas por ocasião da infração, a resolução do conflito, a reparação do dano e a reconciliação entre as partes (VITTO, 2005). Em outras palavras, a justiça restaurativa desenrola-se com a participação coletiva e ativa das partes na construção de soluções para a cura das feridas, dos traumas e dos danos causados pela infração penal (GOMES PINTO, 2005). Zehr (2002) preconiza que a justiça restaurativa deve ser construída de baixo para cima, pelas comunidades em diálogo, avaliando suas necessidades, recursos e príncipios. Tendo os príncipios da justiça restaurativa como uma bússola que aponta a direção. A justiça restaurativa também abarca o termo “práticas restaurativas” considerando a possibilidade de se estruturar diferentes formas para conduzir encontros entre os envolvidos em um conflito. E especificamente o “processo restaurativo” que se constituí por uma sequência de encontros interligados, geridos por um facilitador (EDNIR, 2007)..
(18) 8 O processo restaurativo oferece uma dinâmica de crescente responsabilização que pode promover a capacidade das partes (vítima, autor e comunidade) de elaborarem soluções consensuais que respondam ao conflito e aos fatores que contribuíam para sua ocorrência de forma mais satisfatória (EDNIR, 2007). Como expressa Zehr (2008 p.192) é importante considerar o modo como se chega à justiça, declarando que “não é suficiente que haja justiça, é preciso vivenciar a justiça”. Deste modo, o processo restaurativo é composto por três etapas: Sendo a primeira, a realização do pré-círculo que visa definir o ato cometido e suas consequências. No pré-círculo o processo restaurativo se delineia, ao estabelecer quais as pessoas da comunidade podem colaborar para a resolução do conflito e identifica se existe o interesse das partes em continuar neste processo. Ainda, promove o estabelecimento de um vínculo de confiança dos participantes com o facilitador. A segunda etapa é o círculo, que une como iguais os atingidos pelo conflito (autor, receptor e comunidade à qual ambos pertencem), afim de, firmar um Acordo que visa: reparar danos; restaurar o senso de dignidade, segurança e justiça aos participantes; e reintegrar a todos na sociedade. A terceira etapa é o pós-círculo, que une as mesmas pessoas, mais os que surgiram para contribuir para o cumprimento do Acordo e para avaliar os níveis de satisfação de todos e decidir os próximos passos. Cabe salientar que a expressão “vítima” foi suprida por “receptor” para se evitar estigmas (EDNIR, 2007; MELO; EDNIR; YASBEK, 2008). O facilitador é elo que interage com os participantes (autor, receptor e comunidade) do processo restaurativo em todas suas etapas (pré-círculo, no círculo e no pós-círculo). O facilitador assume uma função muito importante no processo restaurativo e deve ser capacitado para tal função, que inclui ter uma boa compreensão das culturas regionais e das comunidades, atuar de forma neutra e respeitosa com o objetivo de promover a possibilidade de as partes por seus próprios meios encontrarem uma solução mais adequada ao caso (VITTO, 2005). Portanto, a realização de um processo restaurativo é voluntária, quanto à participação do receptor, autor e facilitador, de forma que caberá as partes optarem pela justiça restaurativa ou pela justiça tradicional. Estes podem revogar o consentimento, unilateralmente, a qualquer momento, durante o processo. A prática restaurativa em si deve ocorrer em local neutro, reunindo as partes e os facilitadores, preservando-se o.
(19) 9 sigilo do processo restaurativo, garantindo-se ainda o tratamento justo às partes e que seu teor não será revelado nos atos subsequentes do processo (SICA, 2007; PRUDENTE; 2008). Hopkins (2009) defende que é no círculo que se estabelece o ponto de partida para o trabalho restaurativo. Pois se configura como um espaço de poder compartilhado, onde as relações se organizam horizontalmente, e os presentes têm a possibilidade de tomarem decisões compartilhadas, livres das relações de poder verticais, o que possibilita a diminuição de atitudes punitivas neste espaço. Pois, o encontro busca não o culpado e sua pena, mas ações concretas que beneficiem a todos os envolvidos (EDNIR, 2007). Neste campo, Prudente (2008) expõe experiências no trabalho com círculos restaurativos em diversas vertentes: nas escolas com a participação de pais, professores e alunos; em comunidades onde líderes comunitários e os habitantes discutem problemas e propõem soluções para conflitos de vizinhança, violência doméstica, brigas de adolescentes, conflitos entre pais e filhos etc.; e no Fórum, onde magistrado e o promotor propõem a participação da vítima e do transgressor no círculo restaurativo que poderá ser realizado dentro do Fórum, respeitando-se os limites legais para sua realização. Vale ressaltar que os círculos são realizados pelo facilitador capacitado e não há presença do promotor e dos magistrados nos círculos, moldando-se um ambiente propício para que da melhor forma possível se possa chegar ao objetivo: a promoção da reconciliação e responsabilização entre todos os envolvidos. Assim, o círculo possibilita aos participantes a apropriação e a responsabilização por suas escolhas e pelas consequências destas. Destaca-se a participação ativa do facilitador na elaboração do acordo, contendo planos de ação que procuram restaurar a dignidade, a segurança, a confiança e a convivência de todos os envolvidos direta e indiretamente no conflito (EDNIR, 2007). Na Justiça restaurativa parte-se do princípio que na violência cria-se um vínculo hostil e que sua reparação seria o modo adequado de atender tanto o receptor como o autor (ZEHR, 2008). Pois, os participantes dos círculos tem o benefício de receber a.
(20) 10 experiência de vida e sabedoria do grupo fato, que segundo Pranis (2010), gera uma nova compreensão e solução do problema. Outra importante contribuição para a justiça restaurativa é o trabalho de Kay Pranis, a autora recomenda o uso de elementos estruturais nos processos circulares, explicitando sua importância para “criar um espaço onde os participantes se sentem seguros para serem totalmente autênticos e fiéis a si mesmos” (PRANIS, 2010 p.26). Os elementos estruturais são compostos pelas: cerimônias de abertura e fechamento marcam a abertura e fechamento do círculo e exercem a função de reforço do clima de otimismo e reconhecimento do trabalho de grupo, respectivamente; as orientações são os compromissos de cada participante em relação ao seu comportamento perante os outros em encontros realizados antes da formação do círculo; o bastão de fala é o objeto utilizado no grupo para oferecer aos participantes a segurança de que não serão interrompidos, de que poderão expressar o que está em seus corações e mentes sendo integral e respeitosamente ouvidos. O bastão é passado de mão em mão de modo que todos possam falar ou apenas ouvir de acordo com o seu desejo; o facilitador tem o papel de dar início ao espaço de respeito e segurança que os participantes precisam para se envolverem na partilha das responsabilidades pelo espaço e pelo trabalho em comum. Também são de responsabilidade do facilitador cuidar para que o desenvolvimento do círculo mantenha seus princípios e objetivos estabelecidos; e por fim, o processo decisório consensual é composto pelas decisões que satisfazem todas as partes, são soluções mais eficazes e sustentáveis, idealmente deveria ser uma conciliação pautada na solução do conflito promotora da restauração das relações (PRANIS, 2010). Pranis (2010 p.55) enfatiza que estes cinco elementos “construídos sobre o fundamento de valores partilhados e sabedoria tradicional – criam um continente a partir do qual as pessoas conseguem recorrer ao melhor de si para se aproximarem dos outros e formarem vínculos em níveis profundos”. Acrescenta ainda, a importância da preparação para a realização do círculo, desde o início os participantes precisam estar seguros para trazer a tona o conflito criando a possibilidade de resolução. Neste sentido, compete discorrer sobre a linguagem e a comunicação nos processos restaurativos, Rosenberg (2003) propõe a comunicação não violenta.
(21) 11 definindo-a em quatro componentes básicos. Explica que para exista uma comunicação empática entre os envolvidos em um conflito, estes necessitam ser capazes de observar o que está acontecendo na situação; depois identificar como se sentem ao observar aquela ação: magoados, assustados, alegres, divertidos, irritados, etc.; reconhecer quais de suas necessidades estão ligadas aos sentimentos que identificaram; e fazer um pedido específico, enfocando o que estão querendo da outra pessoa. Considerando receber as mesmas quatro informações dos outros, afim de, estabelecer um fluxo de comunicação dos dois lados, até a compaixão se manifestar naturalmente. Enfim, expressar-se com honestidade e receber com empatia. Rosenberg (2003) expõe sobre a importância de oferecer aos outros a oportunidade de se expressarem antes de começar a propor soluções ou solicitar ajuda, porque quando as pessoas conseguem reconhecerem abertamente o próprio sofrimento podem ter mais empatia consigo mesma para se aproximarem do outro com empatia. Esclarece. que. algumas. formas. de. comunicação. contribuem. para. o. comportamento violento em relação aos outros e a si próprio, como por exemplo, julgamentos moralizantes e juízo de valores, comparações, negação de responsabilidade pelos próprios atos; comunicação de desejos como exigências reforçam a postura defensiva e a resistência das pessoas e bloqueia a compaixão (ROSENBERG, 2003). Portanto, a comunicação estabelecida entre os participantes de um processo restaurativo necessita ser cuidadosamente olhada pelo facilitador, pois as maneiras como as partes se expressam, deve refletir o que sentem e desejam com honestidade e clareza, oferecendo ao outro, atenção, respeito e empatia. Ponderando sobre as contribuições dos diversos autores e, sobretudo o trabalho de Pranis (2010) e os subsídios compartilhados pelos trabalhos desenvolvidos pelos projetos brasileiros de Ednir (2007) e Melo; Ednir; Yasbek (2008), o processo restaurativo é uma série de passos e de intervenções, fundada na lei que para a sua realização faz-se necessário que uma pessoa ou as pessoas (partes) envolvidas em um conflito manifestem o desejo de participarem de um processo restaurativo e procurem e/ou seja, encaminhadas ao facilitador. Todo o processo deve ter atenção ao uso da linguagem, já que a comunicação no círculo tanto pode viabilizar sua dinâmica como atravancar o caminho para o Acordo..
(22) 12 Assim, o processo restaurativo necessita conter pré-círculo, círculo e o póscírculo mediados por um facilitador capacitado, estabelecida por uma comunicação que viabilize o diálogo entre as partes, amparada por elementos estruturais tais como cerimônias de abertura e fechamento, bastão de fala, processo decisório consensual e o próprio facilitador, aumentando as chances de se chegar a um Acordo e uma resolução consensual do conflito, promovendo a reparação e responsabilização das partes envolvidas em um conflito. Assim sendo, para se compreender os aspectos psicológicos que influenciam e embasam a realização do processo restaurativo analisado nesta pesquisa, entende-se como necessário abordar o conceito e a técnica de grupo, bem como, ponderar sobre a função de um coordenador de grupo.. 1.2. CONSIDERAÇÕES. SOBRE. CONCEITO,. TÉCNICAS. E. COORDENACÃO DE GRUPO Osório (2003) descreve o conceito de grupo como o conjunto de pessoas capazes de se reconhecerem em sua singularidade e que exercem uma ação interativa com objetivos compartilhados. Zimerman (1997) descreve algumas condições básicas para que exista um grupo: não é um mero somatório de indivíduos, mas sim, uma nova entidade com leis e mecanismos próprios e específicos; todos seus integrantes se reúnem em função de uma tarefa e de um objetivo em comum; deve ter comunicação visual e auditiva; com um setting específico com espaço, tempo e regras de acordo com as atividades propostas; que se organiza em função de sua totalidade e a serviço de seus membros; é uma nova totalidade e mantém preservadas as identidades de cada indivíduo; onde convivem duas forças contraditórias: uma tende à coesão, e a outra, à desintegração; com uma dinâmica grupal que se processa em dois planos: o da intencionalidade (grupo de trabalho) e o da interferência de fatores inconscientes (grupo de pressupostos básicos); que possui alguma interação afetiva; onde sempre existe uma hierarquização de posições e papeis; e por fim, a formação de um campo grupal em que gravitam fantasias, funções, resistências, transferências, etc. Segundo Zimerman (2000, 2004) o setting se institui fundamentalmente para a criação do campo analítico, criando um espaço novo que possibilita o indivíduo.
(23) 13 reexperimentar antigas e/ou fortes experiências emocionais, talvez mal resolvidas que possam encontrar outras soluções com uma nova experiência emocional. Assim posto, a determinação de local, horário, tempo de duração, entre outros, constituem as regras do jogo, ou seja, o setting, que são confiadas ao coordenador à função de regular o seu cumprimento, preservando uma atitude de acolhimento, respeito e empatia. (ZIMERMAN, 2000) O grupoterapeuta ou coordenador de grupo também tem o papel de amparar a função “continente” do setting que possibilita aos indivíduos serem capazes de integrarem suas necessidades e angústias e as do grupo. Esta composição forma o campo grupal. (ZIMERMAN, 2000) Sobre a relação que o indivíduo estabelece no grupo Bion (1970 p.86) diz: “Este se capacita a diferenciar de si como pessoa comum, sua ideia de ser onisciente e onipotente é um passo na direção de reconhecer a diferença entre o grupo como realmente é e idealizálo como corporificação da onipotência dos indivíduos que o compõem.” Osorio (2003 p. 59) diz que no funcionamento do campo grupal “ocorre uma série de fenômenos relacionais, desencadeados pelas motivações inconscientes”, que além do setting precisam ser considerados. São eles: a transferência – fenômeno pelo qual o paciente transfere para o analista os sentimentos experimentado em relação a pessoas significativas de seu passado; a contratransferência – são os sentimentos que o paciente desperta no analista ou coordenador do grupo; a resistência – são as forças inconscientes que se opõem ao processo terapêutico; os insights e elaboração – possibilidade do paciente compreender o que se passa em seu mundo interno; os actings (atuações) – manifestação no comportamento do indivíduo de sentimentos não elaborados (OSÓRIO, 2003). Baranger e Baranger (1969) concordam que o conceito de campo surge das características estruturais da situação analítica que conta com uma estrutura espacial e temporal, com dinâmicas determinadas, com finalidades gerais e momentâneas e principalmente com a intervenção do analista e sua necessária neutralidade e.
(24) 14 passividade. O que possibilita a pessoa perceber-se frente a si mesma envolta em um processo dinâmico. O conceito de vínculo também representa um importante campo de estudo no âmbito grupal. Fernandes; Svartman; Fernandes (2003) dizem que o vínculo engloba tanto o mundo interno quanto o externo e possui a função de continente para o indivíduo. O vínculo é caracterizado “como entidade interna e externa ao mesmo tempo e é a estrutura relacional que ocorre entre duas ou mais pessoas ou partes da mesma pessoa, podendo ser intrassubjetivo, intersubjetivo e transsubjetivo” (FERNANDES et. al. 2003 p.44). Zimerman (2004) define o conceito de vínculo como elos (emocionais) de ligação que unem duas ou mais pessoas. Trata-se de uma estrutura de vários significados que atingem as dimensões inter, intra e transpessoal, que para se tornar estável necessita da capacidade do indivíduo pensar suas experiências emocionais sem a presença do outro e é compreendido através da relação continente-contido. Pichon-Rivière (1980b) considera que a relação de objeto é a estrutura interna do vínculo, ou seja, propõe um tipo particular de relação com o objeto, relação essa dinâmica, com consequências na conduta do indivíduo e na relação interna e externa com o objeto, revelando a maneira como cada indivíduo se relaciona com o outro. Discorre também sobre o conceito de situação onde o meio (externo) é o agente e o conceito de conduta em que a personalidade é o agente de modificações, entendendo que existe uma permanente interação entre indivíduo e meio, “uma pessoa não pode representar uma conduta sem a estabelecer em relação com o outro” (PICHONRIVIÈRE, 1980b p.60). As formulações de Bleger (1983) sobre conduta e situação também se baseiam na relação do indivíduo e o meio, relação essa que emerge e se estabelece num dado momento. Mostrando que o conceito de conduta funda-se na inseparável relação da personalidade e contexto social na qual o ser humano está inserido, ou seja, a situação concreta em que as experiências vividas ocorrem, sejam elas individualmente ou em grupo..
(25) 15 Porém, o conceito de situação mostra-se amplo para o estudo dos fenômenos que ocorrem e que se propõe a estudar, e para atender essa necessidade descreve o conceito de campo como “[...] a situação total, considerada em um dado momento, quer dizer, é um corte hipotético e transversal da situação” (BLEGER, 1983 p. 37). Pode se dizer que é no campo que o objeto se revela, se transforma e não será o mesmo (BONFIM, 1998). Sendo o campo dinâmico é o que dá vida a conduta em uma constante interação. Entende-se que esse processo confere uma importante contribuição da comunicação, no que diz respeito à compreensão das relações que se estabelecem em um grupo. Pichon-Rivière (1980b) postula que a comunicação é essencial num processo de interação, tanto a comunicação verbal como a não verbal. Fernandes et. al. (2003) concorda que comunicar-se com o outro permite a ambos terem algo em comum, estabelecerem um vínculo. A comunicação sendo o principal meio de relação entre duas ou mais pessoas é ao mesmo tempo simples e complexa, pois muitas vezes pensa-se estar se comunicando, mas não há um dialogo e sim monólogos em que um não escuta o outro. Quando a comunicação é estabelecida em um grupo, faz-se se necessário o reconhecimento de possíveis dificuldades entre seus membros (ZIMERMAN, 2000). Segundo Zimerman (2000) a comunicação se processa em quatro associações: através do emissor, ou se seja, a pessoa que fala e seu discurso pode estar a serviço da comunicação ou da incomunicação, pois o ato de falar (comunicação verbal) está diretamente ligado à função de pensar. Outro elemento da comunicação é a mensagem, o conteúdo a ser transmitido que deve estar claro para o emissor, pois se isso não ocorre pode haver perturbações na comunicação. No processo de comunicação existe um canal que se processa a comunicação, podendo ele ser verbal e também não verbal, ou seja, expressões corporais, gestos, olhares, que também compõem a comunicação. O último elemento da comunicação seria o receptor da mensagem emitida pelo emissor, que a receberá e a perceberá de acordo com suas características emocionais, uma vez que, o grupo possibilita a constatação de que por mais adequada à emissão da mensagem e o canal utilizado para comunicação “uma mesma palavra pode adquirir significações totalmente diferentes de um indivíduo para outro” (ZIMERMAN, 2000 p. 171)..
(26) 16 Neste sentido, Fernandes et. al. (2003) explica que o papel do grupoterapeuta ou coordenador de grupo seria de estar atento e verificar as possibilidades comunicativas dele e do grupo, capturando-as e compreendendo os vínculos comunicativos. Considerando os fenômenos que ocorrem quando duas ou mais pessoas se reúnem, afim de, realizarem uma tarefa, resolverem um conflito e/ou trocarem experiências, amparadas por um setting que lhe dá consistência e constância permitindo que os fenômenos do campo grupal encontrem sustentação e possam ser acolhidos, cabe ressaltar a função do coordenador de grupo que embora já tenha sido mencionada no longo do texto vale destacar as qualidades esperadas no desempenho desse importante papel no trabalho com grupos. Zimerman (1997) descreve atributos desejáveis ao coordenador de grupo diante da vasta possibilidade de atuação nos diversos tipos de grupo, configurando um conjunto de características comuns ao profissional que deseja ter essa experiência. Primeiramente, expressa a importância do coordenador de grupo fazer algo que goste, pois um grupo funciona como um radar captando tudo o que é transmitido pelo coordenador, seja entusiasmo ou tédio; refere à condição do coordenador ser verdadeiro, para ter como discernir entre verdades, falsidades e mentiras que ocorrem no campo grupal; ser coerente em suas posições para não confundir o grupo; ter senso ético para garantir o sigilo e não faltar com o respeito para com o grupo; ser paciente no que tange ao tempo necessário para o grupo ou um de seus membros adquirirem confiança num contexto até então desconhecido; ser continente, ou seja, ser capaz de acolher e conter os fenômenos que ocorrem no campo grupal; ser capaz de conter suas próprias angústias; perceber se os membros do grupo têm a capacidade de pensar suas experiências emocionais e não simplesmente descarregá-las sob a forma de actings ou somatizações; discriminando o que é seu e o que é do outro; saber se comunicar adequadamente em sintonia com os membros do grupo; estar atento a sua personalidade e características; servir como um modelo de identificação; ser empático sendo capaz de se colocar no lugar de cada um do grupo e no clima grupal; ter a capacidade de síntese e integração, identificando algo em comum a todos os membros do grupo e juntar os aspectos dissociados e projetados em outros, para que os possibilitem reconhecerem suas partes frágeis, permitam-se angustiar-se, chorar e solicitar ajuda (ZIMERMAN, 1997)..
(27) 17 Pichon-Rivière (1980a) assinala que o coordenador com sua técnica favorece o vínculo entre o grupo e o campo de sua tarefa, além de, estabelecer no grupo uma comunicação viva e criativa. “O aprender a pensar, ou maiêutica grupal, constitui a atividade livre do grupo, que não deve ser regida pelas exclusões, mas, sim, pelas situações de complementaridade dialética (síntese)” (p. 127). Por fim, propõe-se com a apresentação dos conceitos psicológicos que permeiam as relações em grupo, atentar-se para o que ocorre nos processos restaurativos propostos pela justiça restaurativa. Pois, entende-se a Psicologia como um estudo que compreende as manifestações do ser humano em interação como o outro e o que acontece na realidade (BLEGER, 1983). Cabe ainda, ressaltar a importância do intercâmbio de conhecimentos de um trabalho interdisciplinar no contexto jurídico e seus benefícios na assistência às pessoas envolvidas em conflitos. Assim sendo, assinala-se que os conceitos apresentados não pretendem propor uma grupoanálise, mas sim, reconhecer a existência de tais fenômenos na apreciação dos. processos. restaurativos,. mais. especificamente. os. círculos. restaurativos,. contribuindo para o fortalecimento científico do desafio de se praticar uma justiça baseada em métodos consensuais de resolução de conflitos.. 1.3. CÍRCULOS RESTAURATIVOS E OS FENÔMENOS DO CAMPO GRUPAL Entende-se que no encontro de pessoas que mantém em comum um problema (conflito) e que se propõem a cumprir determinada tarefa para juntos encontrarem uma solução, dois aspectos que configuram esse espaço necessitam ser considerados: o setting e o campo grupal. O setting é definido para esta investigação como as regras acordadas entre o facilitador e os participantes. Envolve o convite às partes e comunidade para comporem o círculo, local, horário e tempo de duração, compromissos que devem ser aceitos por todos para a manutenção do espaço compartilhado. Alinhando-se positivamente aos.
(28) 18 princípios dos processos circulares constituídos através dos elementos estruturais estabelecidos entre o facilitador e participantes (PRANIS, 2010). No entanto, no momento em que pessoas se encontram, mesmo com o objetivo de reparar um conflito, geralmente, estão cheias de mágoas e ressentimentos, quando não de intensa raiva. A situação de união por meio do círculo, mesmo com todo cuidado no estabelecimento do setting, representada pelos elementos estruturais, pode não ser suficiente para conter tais emoções, surgindo no círculo aspectos negativos que se opõem ao objetivo proposto (Osorio, 2003). Portanto partimos do pressuposto que existe um campo grupal que está presente em qualquer situação de grupo e que tende a união e ou fragmentação. Posto isso, os círculos podem ser analisados pelos elementos estruturais (setting). e. pelos. fenômenos. do. campo. grupal,. que. são:. transferência,. contratransferência, resistência, insight e actings (OSORIO, 2003). Destes fenômenos relacionais interessa-nos no círculo restaurativo ter uma melhor compreensão sobre a resistência, os actings (atuações) e os insights (elaborações), pois, parece que na realização dos círculos restaurativos eles são de grande importância para determinar o fracasso ou êxito do círculo no cumprimento da tarefa proposta. A resistência é um fenômeno defensivo, que se expressa através de manifestações persistentes de hostilidade que mantém o individuo em sofrimento psíquico, porém podem ser superadas e se chegar à elaboração; as atuações (actings) são manifestações de sentimentos inconscientes que não foram elaborados pelo indivíduo. Trata-se de uma forma de comunicação que ataca, insulta e deprecia a si e/ou o outro, tornando-se grande empecilho para a resolução do conflito; e a elaboração (insight), é a compreensão que o indivíduo possui de seu mundo interno que gera a possibilidade de solução de um conflito. A possibilidade de insight ocorre quando o individuo é capaz de relacionar seus sentimentos às suas necessidades, mais ainda, quando o campo grupal é favorável. Entende-se que o campo grupal é favorável quanto menor for à resistência e menor a incidência de actings permeado pela manutenção do setting. No círculo restaurativo cabe fomentar a transferência positiva com a utilização dos elementos estruturais (setting), mas ter atenção aos fenômenos do campo grupal.
(29) 19 (resistência, atuações e elaboração), especialmente por entender que estas são determinantes para a resolução ou não do conflito. O círculo restaurativo lida com a possibilidade de ressignificação das experiências emocionais da transgressão, do poder, da disputa, da vingança, do desejo de punição, que é manifestada no conflito, possível por meio da reparação e responsabilização. Neste contexto, coloca-se a importância da capacidade do coordenador (facilitador) para identificar e discriminar os recursos do grupo para alcançar os objetivos propostos na tarefa. Ou seja, cabe discriminar em cada círculo restaurativo o interjogo que se estabelece entre autor, receptor e comunidade, para se criar a possibilidade de restauração e reparação dos vínculos. MacRae e Zehr (2004) corroboram que o papel do coordenador deve ser de imparcialidade e equibilibrio não podendo impor resultados ou soluções aos envolvidos em um conflito. No entanto, o coordenador é responsável pelo processo, afim de, garantir a elaboração de um plano viável, adequado e passível de acompanhamento. Em suma, o coordenador deve garantir que o processo e os resultados sejam guiados pelos princípios restaurativos. Assinala-se ainda, que os processos restaurativos, embora de grande importância, tendem a ser mostrados de forma muito positiva, não especificando na execução dos círculos àqueles aspectos psicológicos que fazem parte do processo e que garantem o êxito ou fracasso no alcance do objetivo proposto. Compreende-se que os círculos restaurativos promovem, em concordância com Benedetti (2009), a mobilização de emoções positivas entre pessoas que possuem relacionamentos mais próximos. Mas, apesar disso, lidar unicamente com os aspectos positivos não é suficiente para a resolução de conflitos. Sendo assim, define-se como objetivo desta pesquisa descrever e analisar o uso dos elementos estruturais propostos por Pranis (2010) e os fenômenos do campo grupal (resistência, atuações e elaboração) segundo Osorio (2003) que determinam e permeia o processo restaurativo, mais especificamente a realização do círculo restaurativo..
(30) 20 2. MÉTODO. A presente pesquisa delineia-se através do método qualitativo, considerando que método é um caminho, um modo de fazer algo, e especificamente o método científico é meio de se conduzir cientificamente os objetivos propostos nos diversos campos da ciência (TURATO, 2003). Grubits e Noriega (2004) compreendem o método científico como uma forma de proceder ao longo do caminho, constituído um instrumento básico que ordena o pensamento e estabelece a forma de proceder. E neste campo, explicam que o planejamento é essencial, através de um planejamento adequado, podem-se encontrar soluções diante das dificuldades que surgem na pesquisa. O planejamento, então, pode ser alterado tendo em vista a dinâmica e o compromisso com a aproximação da verdade dos fatos. Minayo (1996) reforça que o trabalho científico caminha sempre em duas direções: numa elabora suas teorias, seus métodos, seus princípios e estabelece seus resultados e em outra, inventa, ratifica seu caminho, abandona certas vias e encaminhase para certas direções privilegiadas. Esclarecendo que ao fazer tal percurso, os investigadores aceitam os critérios da historicidade, da colaboração, sobretudo, infligem-se da humildade de que qualquer conhecimento é aproximado, é construído. Na abordagem qualitativa o desenvolvimento de um trabalho deve considerar a relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito da investigação (GRUBITS E NORIEGA, 2004). O pesquisador não é um mero relator passivo, mas deve ser livre de preconceitos teóricos e pessoais com uma atitude aberta a todas as manifestações que observa. Esta possibilita o surgimento de uma relação dinâmica entre pesquisador e pesquisado. Os dados não são acontecimentos fixos, isolados, mas ocorrem em um contexto fluente de relações. Ludke e André (1986 apud Grubits e Noriega, 2004) referem que a pesquisa qualitativa impõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo investigada; a preocupação com o processo é maior que a preocupação com o produto; não busca necessariamente a comprovação de hipóteses,.
(31) 21 mas considera um quadro teórico que dê vida às discussões e conclusões; onde todos os dados da realidade são considerados importantes. Elegeu-se como caminho nesta pesquisa o clínico-qualitativo e compreensivodescritivo. Descrito por Turato (2003) como sendo o tipo de pesquisa que o pesquisador reconhece e acolhe as angústias e ansiedades do sujeito objeto do estudo. O pesquisador adota a atitude clínica: “É a postura de acolhida do sofrimento existencial e emocional do indivíduo alvo dos estudos do pesquisador, assumida por este profissional, que assim inclina sua postura escuta, seu olhar e suas múltiplas e interligadas sensibilidades, que interage com seus conhecimentos teóricos da metodologia de investigação em direção àquela pessoa a quem melhor quer conhecer e compreender. cientificamente,. empreendendo. de. forma. sistematizada uma pesquisa dos fenômenos como percebidos por este indivíduo” (p.240). Trata-se de um método por meio do qual se pode conhecer e interpretar as significações psicológicas ou psicossociais de indivíduos e grupos (TURATO, 2003). Ressalta-se, além da escolha da técnica de pesquisa é a capacidade do pesquisador de criticar “seus próprios pressupostos e as interpretações subsequentes de acordo com os dados, juntamente com o modo como os resultados são recebidos e por quem são recebidos, são fatores muito mais importantes para a possibilidade de uma ação emancipatória do que a escolha da técnica” (GASKELL e BAUER, 2002, p. 35). Cabe ainda, considerar dois fatores um o método de pesquisa e o outro a capacidade de discussão e análise crítica e criteriosa dos dados/resultados para que a pesquisa de cunho social alcance seus objetivos. Esses podem ser de transformação social ou da ampliação do conhecimento do fenômeno estudado..
(32) 22 2.1. LOCAL A pesquisa foi realizada na Cidade de Ribeirão Pires em sala cedida pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para a realização do processo de justiça restaurativa. O espaço atende as recomendações de neutralidade e sigilo propostas da prática restaurativa.. 2.2. PARTICIPANTES Nesta pesquisa o critério utilizado para a seleção dos participantes foi o envolvimento das pessoas (comunidade) com o autor e o receptor que concordaram em participar do processo restaurativo. Deste modo, as pessoas que formaram o círculo restaurativo além do receptor, do autor e facilitador, foram selecionadas pelo critério de julgamento. Conforme ressaltam Rea e Parker (2000) trata-se de um modelo em que o pesquisador utiliza seu critério profissional ao invés do acaso na seleção dos participantes. A amostra desta pesquisa foi composta por dois processos restaurativos que envolveram autor, receptor e comunidade mediados por um facilitador.. 2.3. PROCEDIMENTO O processo restaurativo iniciou-se em fase processual com a elaboração de Termo de Conciliação assinado pelas partes e Juiz, que sustentou aguardar a realização do processo de justiça restaurativa pelo prazo de seis meses. Ao se disporem a participar do processo de justiça restaurativa os participantes foram orientados a comparecerem em data e local pré-agendado para o primeiro encontro com a facilitadora, denominado pré-círculo. Neste encontro, esclareceu-se aos participantes que o processo restaurativo envolve uma série de encontros entre a facilitadora e os envolvidos no conflito, a saber, autor, receptor e comunidade separadamente, que se denominam pré-círculos. Estes utilizados para se compreender o problema, levantar a possibilidade de solução e identificar outras pessoas que possam colaborar para a resolução do conflito. Em seguida é realizado o círculo para o encontro entre os envolvidos no conflito e comunidade. Neste encontro, o objetivo é estabelecer um Acordo e a resolução.
(33) 23 consensual do conflito. Posteriormente, realiza-se o pós-círculo para acompanhamento das ações estabelecidas no círculo. Neste processo composto pelo pré-círculo, círculo e pós-círculo, considera-se o setting ou elementos estruturais: cerimônias de abertura e fechamento, bastão de fala, processo decisório consensual, bem como, a ocorrência de fenômenos do campo grupal, resistência, actings (atuações) e insights (elaborações). Com este processo esperava-se a resolução do conflito por meio do processo restaurativo ou a devolução do processo à justiça tradicional.. 2.4. ASPECTOS ÉTICOS. Conforme estabelece a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, o Projeto de Pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Metodista de São Paulo (anexo A). As pessoas que participaram do processo de justiça restaurativa também foram esclarecidas e convidadas a participar desta pesquisa. Após todos os esclarecimentos e com a concordância das partes foi assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo B). As questões éticas foram estabelecidas de acordo com as leis e regulamentações vigentes, preservando a identidade dos participantes de forma que não venham a sofrer nenhum dano decorrente da pesquisa. Assim, privilegiou-se o uso dos termos autor, receptor e comunidade e quando se utilizou nomes próprios eles eram fictícios.. 2.5. ANÁLISE DOS RESULTADOS Os dados foram analisados qualitativamente através dos elementos estruturais e dos fenômenos do campo grupal que emergiram nos processos restaurativos realizados. Os dados foram apresentados de modo descritivo e discutidos em interlocução com o referencial teórico apresentado na presente pesquisa..
(34) 24 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO. 3.1. Processo Restaurativo 1: O Conflito ocorreu em dezembro de 2009, quando foi registrado pela receptora um Boletim de ocorrência com a queixa de Ameaça e Injuria contra o autor. O processo foi encaminhado ao Fórum em janeiro de 2010 e em agosto de 2010 as partes assinaram em audiência de conciliação o Termo de Conciliação aceitando participar do processo restaurativo que se iniciou em setembro de 2010 com duração de seis meses.. 3.1.1. Pré-círculo 1: A facilitadora recebeu Nilza e informou sobre os procedimentos da justiça restaurativa e verificou se ela concordava em participar desse processo ao contrário de continuar com o processo na Justiça comum. Com a concordância da receptora iniciouse o pré-círculo1. Nilza informa que o Sr. Rogério, o autor, não virá porque ele está internado. A facilitadora orienta a receptora que estão dentro do horário e que vão iniciar o précírculo e se o Sr. Rogério chegar poderá entrar. Nilza concorda. Ela quer que Sr. Rogério conserte sua calçada porque ele a destruiu ao estacionar seu ônibus escolar e apresenta as fotos que tirou do local. A facilitadora pede que Nilza relate o motivo que a trouxe ao Fórum e o registro do Boletim de ocorrência. Ela conta que estava em casa e viu o gari limpando a rua, nesta ocasião pediu para que ele limpasse sua calçada também, porém, neste momento o Sr. Rogério que é seu vizinho apareceu e disse que ela era folgada e a ofendeu com palavras de baixo calão, além de dizer para o gari não limpar. Acrescenta ainda, que antes desse incidente o Sr. Rogério usava o terreno atrás de sua casa e estava aterrando a área, porém o terreno pertence ao Centro de Referência ao Idoso da região e é uma área de preservação. E ela fez uma denúncia contra o vizinho no departamento de proteção ambiental da Prefeitura. Neste momento a receptora relata histórias sobre a vida de outros vizinhos. Diz que Sr. Rogério teve uma amante e que sua esposa é uma “coitada” (sic), e acrescenta que deixaram uma carta anônima na casa do Sr. Rogério e pensam que foi ela, mas.
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