Colin Butler é médico epidemiologista, National Centre for Epidemiology and Population Health, Australian National University, Camberra ACT, Australia.
Carlos Matias Dias é médico de saúde pública, Centro de Epide-miologia e Biostatística, Observatório Nacional de Saúde, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, Lisboa.
O impacto das alterações climáticas globais
na saúde das populações
COLIN BUTLER CARLOS MATIAS DIAS
O efeito das alterações climáticas globais, nomeadamente o aumento da temperatura global, na saúde humana não pode deixar de interessar todos os grupos profissionais que trabalham na área da saúde pública. No entanto, esse inte-resse pressupõe o contacto com áreas do conhecimento tão diversas como a meteorologia, a geofísica, a química, a hidrologia, a sociologia, a história ou a antropologia. Este texto pretende resumir algum do conhecimento disponível sobre os aspectos mais importantes do aquecimento global, nomeadamente: a variabilidade natural do clima e o aque-cimento recente, o efeito de estufa, os efeitos do aqueci-mento global sobre a saúde das populações e, finalmente, as alterações climáticas e a disponibilidade de alimentos. Os autores realçam a importância de que todos os que trabalham na área da saúde pública valorizem a evidência de um aquecimento global real em curso e trabalhem entre si e com as populações para lhes facilitarem a informação mais actualizada sobre a necessidade e o modo de se pro-tegerem de um clima que, com muita probabilidade, será cada vez mais quente nas próximas décadas.
Introdução
A importância das condições climáticas na saúde humana são conhecidas de há longa data. Em Portu-gal, investigadores da área da saúde e da meteorolo-gia descreveram já há vários anos as associações que tanto o excesso de calor como o frio têm com os aumentos de mortalidade e morbilidade na nossa população (Rodrigues, 1978; Falcão, 1988; Pinheiro, 1990). Actualmente estão em fase de implementação em Portugal sistemas de vigilância de ondas de calor e de excesso de radiação ultravioleta que se pretende contribuam para a prevenção dos efeitos que estes factores têm sobre a saúde humana (Falcão, 1999; Henriques, 1999). Ambos estes sistemas demonstram a necessidade imprescindível de colaboração inter-disciplinar nesta área.
Os grupos profissionais que trabalham em áreas de interesse da saúde pública, em especial os profissio-nais de saúde pública, têm já hoje necessidade de acompanhar e interpretar a evidência disponível sobre o impacto que os factores climáticos e as suas alterações têm na saúde humana, já que, potencial-mente, podem afectar toda a população, ou seja, o seu objecto de trabalho.
No entanto, existem algumas dificuldades neste acompanhamento, umas inerentes à interpretação de informação que não está na esfera de especialização dos profissionais de saúde, nomeadamente a relacio-nada com aspectos meteorológicos, geofísicos e hidrológicos, outras resultantes da incerteza
asso-ciada a este tipo de fenómenos, sobre os quais não estão disponíveis séries temporais de medições adequadas à elaboração de previsões. Este texto tenta resumir algum do conhecimento actual sobre a ori-gem e o efeito do aquecimento global na saúde das populações.
A variabilidade natural do clima e o aquecimento recente
O ano de 1998 foi o mais quente a nível global, pelo menos desde 1400, tendo a temperatura atmosférica suplantado o anterior máximo verificado apenas um ano antes, em 1997. Alguma evidência deste aqueci-mento resulta de observações feitas em recifes de coral e em anéis de crescimento de árvores (Hegerl, 1998; Mann et al., 1998). Por outro lado, com base na medição da temperatura do ar com termómetros, iniciada no final do século XVII, alguns climatologis-tas afirmam que nove dos onze anos mais quentes desde então ocorreram desde 1983 (IPCC, 1996). Existe outra evidência científica que corrobora a tese de alterações climáticas a nível global nos últimos cem anos. Assim, os glaciares têm recuado significa-tivamente em várias partes do globo, a espessura das calotes geladas diminuiu em certas zonas do Árctico e sofreu um recuo de cerca de 25% em redor da Antárctica (de la Mare, 1997). Em algumas zonas temperadas a Primavera tem ocorrido mais cedo (Menzel e Fabian, 1999). Por outro lado, estima-se que desde 1900 o nível médio das águas do mar tenha subido 10 a 25 cm (Houghton, 1996), provavel-mente devido à expansão térmica dos oceanos e ao degelo dos glaciares, entre outras causas (Sahagian et al., 1994).
Por outro lado, parece também existir uma conside-rável variabilidade natural do clima a nível global, cujas causas ainda não são totalmente compreendi-das. Por exemplo, existe evidência de que entre o século XIV e os meados do século XIX a maior parte do continente europeu, da América do Norte e do Atlân-tico Norte eram mais frios não só do que actual-mente, mas também do que nos séculos anteriores. Este período, conhecido como «a pequena idade do gelo» está melhor documentado nas zonas em redor do Atlântico Norte, embora alguns autores admitam que possa ter tido uma expressão global (Grove, 1988; Hughes e Diaz, 1994). Este período mais frio teria sido uma das causas da malograda tentativa de colonização do Gronelândia pelos povos escandina-vos, iniciada tempos antes, juntamente com a da Is-lândia, durante um período mais quente designado por optimum medieval (também conhecido como «pequeno período de clima óptimo»), altura em que
o clima permitia ali a pastorícia (Hughes e Diaz, 1994; Gad, 1970).
Outros factos históricos a favor de uma «pequena idade do gelo» são a impossibilidade de, durante essa época, se obter trigo e outros cereais na Islândia e em muitas regiões elevadas da Europa do Norte, bem como as chamadas «feiras do gelo» que eram regu-larmente realizadas sobre os leitos gelados de muitos rios da Europa do Norte (Gad, 1970; Grove, 1988). O início do século XIX foi especialmente frio, e o ano de 1816 veio a ser conhecido como «o ano sem Verão». Nesse ano, as geadas parecem ter sido fre-quentes durante os meses de Verão, tendo destruído colheitas por toda a Europa (Grove, 1988). Inicial-mente, este período foi atribuído a um relativo «arre-fecimento solar» com diminuição da frequência de manchas e erupções solares. No entanto, actual-mente, pensa-se que terá resultado da enorme quan-tidade de poeira enviada para a atmosfera por uma série de erupções vulcânicas, das quais a mais mar-cada terá sido a do vulcão Tamboura, na Indonésia. Embora de forma menos marcada, pensa-se que a erupção do monte Pinatubo, nas Filipinas, no início dos anos 90 terá também resultado numa diminuição da temperatura global (IPCC, 1996).
Parece assim que, mesmo no período que se crê interglaciar, relativamente estável, em que vivemos actualmente, o clima a nível global pode sofrer alte-rações sem intervenção humana.
No entanto, a opinião de que a temperatura do pla-neta tenha aumentado durante o último século não é ainda hoje consensual. Assim, alguns autores argu-mentam que medições feitas por satélite revelaram uma diminuição da temperatura global de 0,13°C entre 1979 e 1994 (Balling, 1995), enquanto outros referem a natureza cíclica e a capacidade de auto--regulação dos fenómenos relacionados com o clima para relativizarem a importância do fenómeno (Steitz, 1996).
Apesar disto, a opinião de uma importante corrente de cientistas parece ser a de que existe de facto um aquecimento global recente em curso. Isto mesmo foi expresso pela primeira vez através do «Painel Inter-governamental sobre Alterações Climáticas» (IPCC), corpo científico multidisciplinar criado pelas Nações Unidas em 1988 com o objectivo de aconselhar os governos sobre este tema (IPCC, 1996). De entre as evidências disponíveis, o gráfico 1 mostra os afasta-mentos da temperatura média global relativamente a um período de referência (1950-1979) (Hadley Centre. Meteorological Office, 1997). É notório um aquecimento global desde meados do século XIX, um período de relativa estabilidade durante a década de 40 e novamente uma tendência de aquecimento durante as últimas décadas do século XX.
Figura 1
Afastamento (em graus centígrados) da temperatura média global e em cada hemisfério (1860-1998) relativamente à temperatura média global no período 1950-1979
Fonte: Reproduzido com autorização do Meteorological Institute, Hadley Centre, 1999.
°C 0,5 0,0 – 0,5 0,5 0,0 -0,5 0,5 0,0 – 0,5 1860 1880 1900 1920 1940 1960 1980 Hemisfério norte Hemisfério sul Global
Já o papel que a actividade humana terá tido neste aumento da temperatura permanece controverso. A corrente mais aceite relaciona o aumento da emis-são pelo homem de vários gases que, ao acumula-rem-se nas camadas mais baixas da atmosfera, con-tribuiriam para o aumento da temperatura global, através do potenciamento do chamado «efeito de estufa» (IPCC, 1996).
O efeito de estufa
Pode dizer-se que o efeito de estufa, cuja existência foi pela primeira vez postulada no século XIX, permite a vida na Terra, já que se calcula que, na sua ausên-cia, a temperatura média do ar seria de cerca de 18 graus centígrados abaixo de zero (Maskell et al., 1993).
O efeito de estufa resulta das propriedades físicas de armazenamento de calor de certos gases, incluindo o vapor de água, o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4). Por contraste, parece existir actual-mente um aumento da capacidade de retenção de calor pela atmosfera terrestre em consequência da actividade da população humana no planeta. O dió-xido de carbono parece ser o mais importante gás de estufa antropogénico, resultante principalmente da queima de combustíveis fósseis (European Commis-sion, 1990). Pensa-se que terá havido um aumento dos níveis de dióxido de carbono atmosférico de cerca de 280 ppm, antes da revolução industrial, para mais de 365 ppm actualmente (IPCC, 1996). Este facto é especialmente importante porque este gás parece permanecer na atmosfera durante, pelo menos, cem anos (IPCC, 1996).
A concentração do segundo gás de estufa de origem antropogénica mais importante, o metano, mais do que duplicou nos últimos dois séculos. No entanto, o metano tem uma permanência na atmosfera mais curta do que o dióxido de carbono e apenas contribui em cerca de um terço para o armazenamento da ener-gia radiante em comparação com aquele gás (IPCC, 1996). As principais fontes de metano são a produção de combustíveis, assim como a degradação anaeró-bica de matéria orgânica associada aos animais rumi-nantes e ao cultivo de arroz nas zonas húmidas (European Commission, 1990). Alguns autores suge-rem que o degelo acelerado na tundra árctica possa também estar a contribuir para o aumento da liberta-ção de metano para a atmosfera (Cicerone, 1988). O controlo das emissões dos gases de estufa antropogénicos, com o objectivo de diminuir o seu efeito no clima global, tem sido objecto de atenção e intensas negociações internacionais, incluindo a que se realizou na cidade japonesa de Quioto em 1997. No entanto, alguns autores admitem que, mesmo que o acordo de Quioto seja cumprido, o nível de dióxido de carbono na atmosfera poderá atingir 380 ppm em 2010, contra 381,5 ppm, se o não for (Bolin, 1998).
Os efeitos do aquecimento global sobre a saúde
Os efeitos do aquecimento global, que se espera venham a tornar-se mais notórios sobre a saúde e suas determinantes durante o século XXI, têm origi-nado uma extensa literatura (De Casas et al., 1995; Haines, 1993; Bouma, 1994; Last, 1994; Epstein, 1993; Haines e McMichael, 1997; McMichael e Haines, 1997; McMichael e Martens, 1995). O ponto fulcral e mais difícil na avaliação dos efeitos das mudanças climáticas, em especial do
aqueci-mento global, sobre a saúde humana resulta da necessidade de avaliar os riscos para as populações no futuro. Dada a inexistência de dados sobre um tempo passado suficientemente longo que permita a realização de projecções fiáveis, essa previsão dos riscos tem de recorrer à modelação matemática de sistemas ecológicos não lineares, com base em cená-rios hipotéticos e necessariamente incertos (Haines, 1997). Outras estratégias de investigação parecem ser o recurso a estudos sobre alterações climáticas regio-nais, consulta a painéis de peritos nesta matéria e a realização de estudos experimentais.
De uma forma geral, os efeitos do aquecimento glo-bal sobre a saúde têm sido classificados em «direc-tos» e «indirec«direc-tos».
De entre os efeitos directos, o aumento da tempera-tura no Verão é o mais óbvio e fácil de antecipar, havendo cientistas que antecipam um aumento da frequência de períodos de aumento significativo da temperatura ambiente (Kalkstein, 1993; Semenza, 1996).
Em Portugal, à semelhança de outros países, existe evidência dos efeitos do excesso de calor na saúde, especificamente na mortalidade, em situações de aumento de temperatura súbito e intenso, ou seja, durante as chamadas ondas de calor (Garcia, 1999; Marinho Falcão, 1988). Tem sido sugerido que as alterações climáticas podem também estar associadas a alterações na distribuição e frequência de outras doenças, como as respiratórias, através do aumento da concentração de esporos, fungos e poluentes, como o ozono, cuja produção é influenciada pela temperatura (Emberlin, 1994; McMichael e Haines, 1997). Menos estudado está o impacto directo do aumento da temperatura sobre o funcionamento social e a capacidade de adaptação das populações, factores determinantes da sua saúde.
De entre os efeitos indirectos, existe evidência de alterações na distribuição de alguns vectores, ou das doenças a eles associadas, como é o caso da malária (Loevinsohn, 1994; McMichael et al., 1996), entre outras.
No entanto, devido em parte ao facto de a maior parte destas doenças transmissíveis ocorrerem em zonas pobres e desfavorecidas do globo, a documen-tação da sua existência em épocas mais antigas não é satisfatória, o que dificulta a inclusão em modelos de previsão. Da mesma forma, além do clima, outras alterações ambientais, como a destruição das flores-tas e a urbanização, têm contribuído para alterar a distribuição e equilíbrio dos vectores e das doenças que eles transmitem (McMichael et al., 1996). Existe alguma preocupação de que o aquecimento global possa facilitar a reintrodução de doenças asso-ciadas a vectores na Europa e na América do Norte.
De facto, modelos matemáticos permitiram já prever que a percentagem da população que reside em zonas de potencial transmissão de malária possa aumentar do nível actual de 45% para 60% (McMichael e Haines, 1997; Martens, 1997).
No entanto, muitas doenças, incluindo a malária e a febre amarela, parecem ter sido frequentes em zonas da Europa e América do Norte, mesmo durante a pequena idade do gelo (Bruce-Chwatt, 1988; Zuleta, 1994). A sua reintrodução pode ser facilitada por um clima mais quente, mas tal parece pouco provável, desde que se mantenham medidas preventivas e de saúde pública adequadas.
As alterações climáticas poderão originar outros efeitos indirectos talvez mais perigosos, já que têm o potencial de operar em grande escala no tempo e no espaço. Estes incluem efeitos negativos na pro-dução de alimentos e danos nas infra-estruturas, resultantes quer da subida do nível médio do nível do mar, quer da frequência de situações climáticas extremas, relacionadas com um possível aumento da frequência do fenómeno El Niño (Feely et al., 1999; Trenberth e Hoar, 1996). Estes efeitos pode-rão, por sua vez, interagir, resultando em aconteci-mentos imprevisíveis, mas quase certamente adver-sos ao nível político, económico e social (Homer-Dixon, 1994). Num cenário pessimista os efeitos adversos sobre a saúde pública poderão desenrolar-se a nível global num período de décadas a séculos (IPCC, 1996).
As alterações climáticas
e a disponibilidade de alimentos
O aumento do dióxido de carbono actua como um fertilizante natural, em especial para as plantas, como o arroz, o trigo e a batata, que, segundo se crê, se desenvolveram numa época de grande concentração deste gás na atmosfera (IPCC, 1996). No entanto, as colheitas também dependem do grau de humidade e da precipitação, factores que alguns autores prevêem possam vir a sofrer alterações substanciais. Regiões situadas em latitudes elevadas, como o Canadá e a Rússia, podem vir a obter maiores colheitas de cereais, enquanto outras regiões, nomeadamente as regiões densamente povoadas no Sul do continente asiático, podem sofrer uma grande diminuição na sua produção alimentar.
A subida do nível médio da água do mar pode tam-bém impedir a produção alimentar nalgumas das zonas costeiras mais férteis e intensamente cultivadas do globo, como são os deltas dos rios. Se, como foi recentemente sugerido, a estabilidade das calotes geladas dos pólos estiver também ameaçada, estes
efeitos podem assumir uma maior magnitude, podendo assistir-se durante os séculos mais próximos à inundação em grande escala das zonas costeiras em todo o planeta (Oppenheimer, 1998; Rignot, 1998). Globalmente, o IPCC conclui que os efeitos adversos suplantarão os efeitos benéficos, caso se confirme uma alteração climática com aquecimento global (Reilly, 1997). Assim, num mundo mais povoado, as assimetrias regionais no acesso a alimentos podem vir a ser ainda mais exacerbadas, em especial em populações económica ou politicamente débeis (Sen, 1993).
Conclusão
Parece haver poucas dúvidas de que durante o último século ocorreu um aquecimento global significativo. Embora a discussão sobre a contribuição da activi-dade humana para este aumento continue ainda hoje, parece existir uma corrente maioritária de opinião na comunidade científica que a considera significativa. Dado o corrente aumento do nível de industrialização de países densamente povoados, como, por exemplo, a China, parece pouco provável que a concentração dos chamados gases de estufa estabilize durante as próximas décadas, facto ainda mais agravado pela longa permanência do mais importante desses gases, o dióxido de carbono, na atmosfera (Bolin, 1998; Butler, 1994; Butler, 1997).
Os efeitos do aumento da temperatura sobre o corpo humano podem ser prevenidos através da implemen-tação de sistemas de vigilância, de actividades de promoção da saúde junto da população e da constru-ção de edifícios e habitações desenhados com o objectivo de minimizar a concentração térmica e faci-litar a dissipação do calor. No entanto, é muito pro-vável que a tecnologia de condicionamento do ar permaneça em grande parte inacessível às popula-ções economicamente mais débeis, pelo menos a nível individual ou familiar.
Os efeitos das doenças transmissíveis relacionadas com vectores podem, em grande parte, permanecer confinados aos países mais pobres. No entanto, os países mais ricos e desenvolvidos terão forçosamente de investir em sistemas de vigilância modernos, ade-quados e especificamente direccionados para impedir a ocorrência de novas epidemias.
Mais preocupantes e mais difíceis de predizer pare-cem ser as consequências económicas, sociais e polí-ticas das alterações climápolí-ticas, que podem ver os seus efeitos prolongados ao longo de décadas ou séculos (McMichael, 1993; Homer-Dixon, 1994). Apesar da evidência científica, e da mesma forma que a indústria tabaqueira lançou durante décadas
campanhas de contra-informação sobre a associação entre o consumo de tabaco e a ocorrência do cancro do pulmão, parecem hoje existir interesses económi-cos e polítieconómi-cos análogos que põem sistematicamente em dúvida a existência e a magnitude da componente antropogénica no fenómeno de aquecimento global, dificultando a interpretação dos factos e a implemen-tação de medidas eficazes de diminuição da produção de gases de estufa pela humanidade (Beder, 1998; Edwards, 1997; Malakoff, 1998).
Aqueles profissionais que trabalham nas várias áreas de interesse da saúde pública, em especial os profis-sionais de saúde pública, podem ter dificuldade em avaliar por si sós e de forma independente as evidên-cias discordantes que lhes são referidas no debate sobre a mudança climática global em curso. Por outro lado, mesmo que essa mudança seja aceite, ela pode ser considerada por alguns pouco importante, dadas as longas escalas de tempo e o grau de incer-teza envolvidos. Neste cenário talvez seja útil que os profissionais de saúde pública reflictam no entendi-mento que têm sobre «medicina preventiva» e tracem paralelos com outras áreas da sua actuação neste momento em que a nossa sociedade globalizante está apostada em prosseguir uma enorme e não contro-lada experiência com os seus sistemas de suporte de vida, incluindo a estabilidade climática e a poluição. Parece óbvio que o risco de que algo corra mal é elevado e que o custo de reparar tal erro será também muito elevado e mesmo inatingível para as gerações futuras.
De entre os passos que podem ser dados para tentar diminuir de forma significativa as emissões de gases de estufa para a atmosfera parece inevitável a transi-ção da utilizatransi-ção de combustíveis fósseis para outras fontes de energia renovável, ainda mais porque alguns autores antecipam a coincidência do início da escassez real daqueles combustíveis com alterações climáticas globais mais evidentes (von Weizsacker, 1997).
Finalmente, parece indispensável que os profissionais de saúde púbica, em conjunto com profissionais de outras áreas do conhecimento, trabalhem com as populações de modo a facilitarem-lhes a informação mais actualizada sobre a necessidade e o modo de se protegerem de um clima que, com muita probabi-lidade, será cada vez mais quente nas próximas décadas.
Agradecimentos
Os autores agradecem à Dr.a Maria João Pinto, à Dr.a Susan
Butler e ao Dr. Marinho Falcão a revisão e comentário do manuscrito.
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Summary
THE IMPACT OF GLOBAL CLIMATE CHANGE ON POPULATION HEALTH
The effect of global climate change, namely global warming, on population health is an important issue for all professional groups that work in the field of public health. However, its assessment involves knowledge from areas unfamiliar to public health practice including meteorology, geophysics, chemistry, hydrology, sociology, history and anthropology. This paper summarizes some of the evidence on global warming and its population impact, namelly: climatic variability, the green-house effect, the effects of global warming on human health and finally the effect of climate change on food supply. The authors also stress that all public health professionals should continue to rely on the work of other professionals to assess, monitor and reduce the effects of continuing global warming upon the population health.