Mídia e Sexualidade Precoce: até onde vai a influência?
Rejâne Bastos Pereira 1 Maria Fátima Andriolo Abel – Orientadora²
Angela Biasuz – Orientadora³
Resumo
Este artigo refere-se a uma pesquisa de opinião realizada com estudantes da 7ª série da Escola Municipal Ruy Henrique Nicoletti – São Marcos – RS.
O tema pesquisado foi a sexualidade, tendo em vista a sexualidade na adolescência está sendo descoberta cada vez mais cedo. Isso gera dúvidas e ansiedade por isso a necessidade de buscar respostas com o próprio grupo de convivência: família e colegas da escola.
Ao escolher o projeto o primeiro passo foi cada aluno apresentar um tema que julgasse importante e o grande grupo fez suas considerações para o tema mais polêmico: sexualidade foi considerada a questão mais importante, pois nos iríamos precisar fazer uma maior e melhor investigação.
Essa pesquisa tem o objetivo de identificar o grau de influência da mídia e as atitudes da família na precocidade sexual dos adolescentes a fim de melhor entender esse comportamento e implementar ações que orientem as famílias frente à situação. As famílias estão participando com interesse das atividades de pesquisa na qual elas são questionadas pelos alunos.
Os dados coletados apontam para a confirmação da grande influência da mídia nessa precocidade, pois um dos gráficos nos mostra que 81% dos alunos preferem assistir na televisão, na seguinte ordem: filme em primeiro lugar e novela em segundo.
Contribui também para confirmar e nos preocupar os gráficos que os mostram que a maioria dos entrevistados está na faixa etária de dez e onze anos e em seus momentos de lazer preferem assistir televisão. Dessa forma, percebe-se a importância do papel da escola e da família na formação de valores positivos junto aos adolescentes, pois o espaço deixado por esses será preenchido pelos valores transmitidos pela mídia, nem sempre positivos.
Palavras chave: sexualidade, família, mídia, precocidade, valores.
Introdução
O presente artigo refere-se a uma pesquisa que pretende identificar o grau de influência da mídia na precocidade sexual dos adolescentes na atualidade. Foi realizada através da metodologia de pesquisa de opinião, dentro do Projeto NEPSO, Nossa Escola Pesquisa Sua Opinião, com alunos da sétima série.
Alunos sentem a necessidade de entender porque as meninas “se jogam” para os meninos. Os alunos sentem necessidade de entender o porquê de alguns comportamentos
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Professora Pesquisadora – Formada em Geografia Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS)
² Professora da Rede Municipal de Ensino de Caxias do Sul, Licenciada em Ciências Exatas e Matemática pela UCS/RS, Especialista em Ação Interdisciplinar pela FAI/ISEI/SC.
³ Professora da Rede Municipal de Ensino de Caxias do Sul, Licenciada em Educação Física pela UCS/RS, Especialista em Educação do Movimento pela UCS/RS
das meninas. A sexualidade na adolescência está sendo descoberta cada vez mais cedo, gerando dúvidas. Surge, então, a busca por respostas e pessoas que os ouçam e conversem para diminuir a enorme ansiedade desse período. Com este trabalho, pretende-se esclarecer estudantes sobre essa fase, pois muitos adolescentes antecipam e atropelam as etapas naturais do desenvolvimento do ser humano devido a informações desencontradas.
Para isso, nos propusemos a verificar qual o grau de relação entre a mídia e a precocidade sexual dos adolescentes e até infantes, a fim de entender certos comportamentos e implementar ações que orientem as famílias frente à situação.
1. A Busca
Sexualidade é inerente ao ser humano, são mudanças no corpo físico e se refletem no emocional. Segundo Valman,
O desenvolvimento emocional de seu filho não ocorre no mesmo padrão do físico. Adolescentes que parecem crescidos, e exigem privilégios de adultos, podem ainda ser emocionalmente imaturos, confusos e carentes de confiança.(1997, p.26)
Essa afirmativa nos confirma que a adolescência é uma fase de contestação entre valores recebidos e valores vividos. O jovem sente-se influenciado pelos valores que a mídia também divulga, muitas vezes contrários aos recebidos pelos pais.
Na maioria das vezes, a falta de diálogo, o total silêncio por parte dos pais e professores, os quais somente dão explicações sobre o corpo humano e as funções de reprodução, não atendem as necessidades dos jovens. Muitas vezes, os próprios professores não se sentem aptos a abordar o assunto sexualidade.
A orientação sexual, para ser bem entendida, deve ser feita com afeto, exemplificando situações. O ideal, portanto, é que seja feita pelos pais que, na maioria das vezes, sentem-se constrangidos e acabam por agravar a situação, aguçando ainda mais a curiosidade do adolescente. Conforme a psicóloga Seger2, percebe-se uma precocidade comportamental, em resposta a estímulos e sugestões da sociedade, crianças adotam
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Coordenadora do departamento de psicologia clínica da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
posturas e atitudes pré-adolescentes mais cedo. Mostrar o sentimento que deveria envolver pessoas do sexo oposto que se aproximam, com proposta de se relacionar, devem ser os valores a serem enfatizados sempre que surgirem ou forem propostas situações de conversas e questionamentos.
Para realizar este trabalho, os alunos exploraram o assunto através de consultas bibliográficas, palestras, círculo de conversas, questionamentos e indagações com a família, reportagens e pesquisaram a opinião de outros colegas. Através da aplicação de questionários e de posse de suas respostas, fez-se a tabulação dos dados colhidos e a posterior análise, relacionando-os com as suposições enumeradas a priori. A mais comentada e esperada das respostas tabuladas é a que nos norteou para entendermos o fato das meninas, em sua maioria, estarem despertando mais cedo para o sexo oposto.
Alguns resultados da pesquisa nos levam a confirmar algumas das hipóteses levantadas pelo grupo, como o que se refere às atividades de lazer, apresentado a seguir:
em seus momentos de lazer prefere:
14%
48%
24%
14%
brincar ler conversar assistir televisão Gráfico com respostas de Meninas
Em seus momentos de lazer prefere: 11% 7% 9% 73% brincar ler conversar assistir tv
Gráfico com respostas de Meninos
Estes resultados nos fazem refletir sobre o poder da mídia frente às pessoas de maneira geral. A maioria dos meninos (72%) prefere assistir televisão em seus momentos de lazer e a maioria das meninas (48%), também. Sabemos que grande parte dos canais de televisão apresenta elevado número de novelas e filmes em sua programação. Os filmes em sua maioria são de ação e violência (explosões e tiros) e as novelas mostram cenas cada vez mais sensuais (insinuações, apelos sexuais). Ler, brincar e conversar foram escolhidas por 52% das meninas e 27% dos meninos entrevistados.
2. A Descoberta: Meninas e Meninos
Dos entrevistados, a maioria são meninas que estão na faixa etária compreendida entre os dez e onze anos e preferem as novelas. Em uma das perguntas, 58% das meninas responderam que, em sua maioria, os adolescentes estão pensando mais cedo em sexo. Por
outro lado, 61% das meninas não admitem sexo antes do casamento o que nos leva a concluir que o interesse delas é apenas no namoro.
Para os meninos, o sexo antes do casamento pode acontecer. A esse resultado podemos atribuir dois motivos: um cultural, onde para os homens sempre foi permitido e até seria constrangedor casar virgem e outro, a pouca valorização do sexo hoje em dia, a facilidade de aquisição de contraceptivos e preservativos que previnem, além da gravidez, o contágio de doenças.
O dado mais relevante desta pesquisa que nos mostra que a grande maioria dos entrevistados, quando em seus momentos de lazer, prefere assistir televisão,nos indica o elevado grau de influência que a mídia pode exercer na formação dos adolescentes, pois está constantemente presente na vida dos mesmos. Confrontando esse resultado com o resultado que indica que a maioria dos entrevistados nunca conversa com os pais ou responsáveis sobre sexo, leva-nos a supor que infantes e adolescentes estão se utilizando da mídia para conhecer e sanar suas dúvidas. Os alunos, ao entrevistarem os pais e avós, sentiram-se contagiados e empolgados ao saber que seus antepassados recentes também passaram pela mesma fase que eles estão passando. O namoro dos avós foi a pergunta que mais os emocionou, pois descobriram que muitas avós casaram-se cedo, mas sabiam cuidar da casa, cozinhar e atender os filhos. Desta forma, os jovens pesquisadores concluíram que não é a idade mas a responsabilidade que determina o relacionamento, pois suas avós continuam casadas ou já são viúvas, mas não se separaram dos seus maridos como acontece muito hoje.
3. Considerações Finais
Este trabalho de pesquisa foi desenvolvido nas aulas de Educação Social onde foi possível associá-lo aos conteúdos de ética e política. Por meio dele, foi possível fazer com que a turma percebe-se seu valor e seu potencial, despertando a motivação.
Os alunos gostaram de todas as etapas de realização da pesquisa. Sentiram vergonha no pré-teste, entrevista de amostragem, pois os entrevistados eram alunos maiores que eles.
As conclusões a que chegamos, com a realização deste trabalho, nos surpreenderam. Os resultados obtidos nos remetem à reflexão sobre o que a mídia nos
oferece como entretenimento, a forma como estamos orientando nossos adolescentes quanto as suas atitudes e o seu grau de satisfação ao incorporarem ao seu dia-a-dia essas atitudes no dia-a-dia. A liberalidade feminina, influenciada pela mídia, e a liberdade dada pela maioria das famílias aos adolescentes são fatores significativos dentro dessa revolução sexual que estamos vivendo, onde os valores morais estão se modificando rapidamente. Novos valores morais estão surgindo, são lançados todos os dias, mas estão sendo pouco ou nada discutidos pela sociedade. Simplesmente, estão se incorporando ao nosso presente sem que façamos um questionamento quanto a sua interferência no futuro de nossa sociedade.
Ao serem comparadas as respostas de meninos e meninas sobre o que faziam em seus momentos de lazer, ambos nos disseram que preferem assistir televisão. Esse resultado demonstra claramente o grau de influência que a mídia está exercendo sobre a formação dos adolescentes, antecipando etapas, as quais, naturalmente, só se manifestariam muito mais tarde. Estes dados nos deixam apreensivos e mostram que a orientação adulta e responsável aos infantes e adolescentes se torna, cada vez mais, fundamental. Devemos retomar urgentemente valores morais esquecidos pela modernização da sociedade, através do diálogo e do exemplo.
Como desdobramento deste trabalho, estamos nos propondo a elaborar questões a respeito de tema sexualidade direcionadas às famílias, a fim de levá-las à reflexão para que se dêem conta de sua importância e se questionem sobre a melhor forma de ajudar seus filhos, dando seu exemplo de vida, independente de terem sidos pais antes do desejado ou não. Na escola, pensamos em produzir e distribuir material de informação, sensibilização e conscientização, principalmente nas aulas de Educação Social e Ciências. O tema não se esgota com a realização desta pesquisa. Por isso, temos a intenção de fazer novas pesquisas, não só em material didático, mas também com novas entrevistas com colegas e ex-alunos da escola que, devido à falta de informações, foram pais muito cedo ou têm que cuidar dos irmãos mais novos. Os conhecimentos produzidos na realização desta pesquisa devem ser ampliados e divulgados para que a realidade constatada possa ser modificada e os jovens adquiram referências mais positivas do que as transmitidas pela mídia.
Referências Bibliográficas
Coleção Sexo e Sexualidade - Ed. BrasiLeitura
EGYPTO, Antonio Carlos - Sexo, Prazeres e Riscos – Ed. Saraiva.
RADESPIEL, Maria - Alfabetização sem segredos: Oficina 05, Contagem – MG - Ed. IEMAR. 1998.
SILVA, Edna e César Nunes – A Educação Sexual da Criança.
SUPLICY, Marta e outros – Sexo se Aprende na Escola – Ed. Olho d’água. TIBA, Içami – Adolescência: o despertar do Sexo – Ed. Gente.