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47186751 Luis Roberto Salinas Forte O Bom Selvagem (1)

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Índice

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O autor

O autor

Capítulo 1 — Polêmicas e paradoxos

Capítulo 1 — Polêmicas e paradoxos

Capítulo 2 — A caminhada de um solitário

Capítulo 2 — A caminhada de um solitário

Capítulo 3 — Soc

Capítulo 3 — Sociedade versus natureza

iedade versus natureza

Capítulo 4 — As peripécias da desigualdade

Capítulo 4 — As peripécias da desigualdade

Capítulo 5 — Liberdade e igualdade

Capítulo 5 — Liberdade e igualdade

Capítulo 6 —

Capítulo 6 — Repercussões

Repercussões

O autor

O autor

A reportagem que transcrevemos abaixo foi publicada pelo jornal

A reportagem que transcrevemos abaixo foi publicada pelo jornal Folha de S. PauloFolha de S. Paulo do diado dia 5 de agosto de 1987, com o título "Morre aos 50 anos o filósofo Salinas Fortes". Nela 5 de agosto de 1987, com o título "Morre aos 50 anos o filósofo Salinas Fortes". Nela pode-se pode-sentir a corrente de energia que Salinas captava e transmitia, e que está prepode-sente nas se sentir a corrente de energia que Salinas captava e transmitia, e que está presente nas páginas

páginas deste livrodeste livro..

Morreu ontem aos 50 anos, pouco depois da zero hora, o professor Luiz Roberto Salinas Fortes, Morreu ontem aos 50 anos, pouco depois da zero hora, o professor Luiz Roberto Salinas Fortes, do Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Salinas, como era conhecido do Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Salinas, como era conhecido na universidade, onde lecionava Ética e História da Filosofia desde 1965, sofreu um enfarto na universidade, onde lecionava Ética e História da Filosofia desde 1965, sofreu um enfarto do miocárdio. O corpo foi velado das 12 às 16h no salão nobre do prédio da Administração do miocárdio. O corpo foi velado das 12 às 16h no salão nobre do prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, de onde foi conduzido para Araraquara (273 km a noroeste de da Faculdade de Filosofia, de onde foi conduzido para Araraquara (273 km a noroeste de São Paulo), sua cidade natal. O enterro está previsto para as 9h de hoje. "A grande descoberta do São Paulo), sua cidade natal. O enterro está previsto para as 9h de hoje. "A grande descoberta do Salinas foi desmontar uma interpretação sobre Rousseau que durava três séculos", dizia Salinas foi desmontar uma interpretação sobre Rousseau que durava três séculos", dizia Marilena Chauí, 45, professora de Filosofia da USP, visivelmente emocionada no velório. Marilena Chauí, 45, professora de Filosofia da USP, visivelmente emocionada no velório. "Ele mostrou que tanto o Rousseau político quanto o literato são uma única pessoa", "Ele mostrou que tanto o Rousseau político quanto o literato são uma única pessoa", explicava, referindo-se à tese de livre-docência de Salinas, batizada de "Paradoxo do explicava, referindo-se à tese de livre-docência de Salinas, batizada de "Paradoxo do

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O autor

O autor

Capítulo 1 — Polêmicas e paradoxos

Capítulo 1 — Polêmicas e paradoxos

Capítulo 2 — A caminhada de um solitário

Capítulo 2 — A caminhada de um solitário

Capítulo 3 — Soc

Capítulo 3 — Sociedade versus natureza

iedade versus natureza

Capítulo 4 — As peripécias da desigualdade

Capítulo 4 — As peripécias da desigualdade

Capítulo 5 — Liberdade e igualdade

Capítulo 5 — Liberdade e igualdade

Capítulo 6 —

Capítulo 6 — Repercussões

Repercussões

O autor

O autor

A reportagem que transcrevemos abaixo foi publicada pelo jornal

A reportagem que transcrevemos abaixo foi publicada pelo jornal Folha de S. PauloFolha de S. Paulo do diado dia 5 de agosto de 1987, com o título "Morre aos 50 anos o filósofo Salinas Fortes". Nela 5 de agosto de 1987, com o título "Morre aos 50 anos o filósofo Salinas Fortes". Nela pode-se pode-sentir a corrente de energia que Salinas captava e transmitia, e que está prepode-sente nas se sentir a corrente de energia que Salinas captava e transmitia, e que está presente nas páginas

páginas deste livrodeste livro..

Morreu ontem aos 50 anos, pouco depois da zero hora, o professor Luiz Roberto Salinas Fortes, Morreu ontem aos 50 anos, pouco depois da zero hora, o professor Luiz Roberto Salinas Fortes, do Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Salinas, como era conhecido do Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Salinas, como era conhecido na universidade, onde lecionava Ética e História da Filosofia desde 1965, sofreu um enfarto na universidade, onde lecionava Ética e História da Filosofia desde 1965, sofreu um enfarto do miocárdio. O corpo foi velado das 12 às 16h no salão nobre do prédio da Administração do miocárdio. O corpo foi velado das 12 às 16h no salão nobre do prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, de onde foi conduzido para Araraquara (273 km a noroeste de da Faculdade de Filosofia, de onde foi conduzido para Araraquara (273 km a noroeste de São Paulo), sua cidade natal. O enterro está previsto para as 9h de hoje. "A grande descoberta do São Paulo), sua cidade natal. O enterro está previsto para as 9h de hoje. "A grande descoberta do Salinas foi desmontar uma interpretação sobre Rousseau que durava três séculos", dizia Salinas foi desmontar uma interpretação sobre Rousseau que durava três séculos", dizia Marilena Chauí, 45, professora de Filosofia da USP, visivelmente emocionada no velório. Marilena Chauí, 45, professora de Filosofia da USP, visivelmente emocionada no velório. "Ele mostrou que tanto o Rousseau político quanto o literato são uma única pessoa", "Ele mostrou que tanto o Rousseau político quanto o literato são uma única pessoa", explicava, referindo-se à tese de livre-docência de Salinas, batizada de "Paradoxo do explicava, referindo-se à tese de livre-docência de Salinas, batizada de "Paradoxo do

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Espetáculo (Política e Poética em Rousseau)", defendida em 1983. Nos últimos meses, Salinas, Espetáculo (Política e Poética em Rousseau)", defendida em 1983. Nos últimos meses, Salinas, que também trabalhou como jornalista, estava reescrevendo a tese para publicá-la em forma que também trabalhou como jornalista, estava reescrevendo a tese para publicá-la em forma de livro.

de livro.

 Teatro e filosofia  Teatro e filosofia

Antes de derrubar um mito que perdurou por três séculos, na análise de Chaui, Salinas Antes de derrubar um mito que perdurou por três séculos, na análise de Chaui, Salinas viveu alguns momentos importantes dos anos 60 e 70 — o existencialismo, o teatro Oficina viveu alguns momentos importantes dos anos 60 e 70 — o existencialismo, o teatro Oficina e a experiência da repressão política (ver abaixo trecho da autobiografia "Retrato Calado" e a experiência da repressão política (ver abaixo trecho da autobiografia "Retrato Calado" escrita no período 75/77 em Paris). Estudante da Faculdade de Direito da USP, onde se escrita no período 75/77 em Paris). Estudante da Faculdade de Direito da USP, onde se diplomou em 1960, Salinas foi ator da primeira montagem do Oficina, "A Ponte", de Carlos diplomou em 1960, Salinas foi ator da primeira montagem do Oficina, "A Ponte", de Carlos Queiroz Telles, em 1958. Longe do palco, acabou se tornando uma espécie de ideólogo do Queiroz Telles, em 1958. Longe do palco, acabou se tornando uma espécie de ideólogo do Oficina, fermentando entre os atores discussões filosóficas que não costumavam freqüentar Oficina, fermentando entre os atores discussões filosóficas que não costumavam freqüentar o meio teatral. "O Oficina, antes de ser um grupo de teatro, era um grupo de discussão o meio teatral. "O Oficina, antes de ser um grupo de teatro, era um grupo de discussão filosófica", lembra o jornalista e analista econômico Marco Antonio Rocha, 51, ator do Oficina filosófica", lembra o jornalista e analista econômico Marco Antonio Rocha, 51, ator do Oficina nos anos 60. "E o principal formulador dos debates era o Salinas . "

nos anos 60. "E o principal formulador dos debates era o Salinas . "

Como professor da USP, onde se tornou bacharel em Filosofia em 1964, Salinas iniciou em Como professor da USP, onde se tornou bacharel em Filosofia em 1964, Salinas iniciou em 1965 uma série de três estágios que fez na França. De 65 a 67, estudou em Rennes, onde 1965 uma série de três estágios que fez na França. De 65 a 67, estudou em Rennes, onde começou a pesquisa que desembocaria em sua tese de doutorado —"Teoria e Prática na Obra de começou a pesquisa que desembocaria em sua tese de doutorado —"Teoria e Prática na Obra de  Jean-Jacques Rousseau"

 Jean-Jacques Rousseau", defendida em 1974, defendida em 1974, e , e que que resresultultou ou no no livliv ro ro "R"Rousseousseau: au: da Teoria da Teoria àà Prática", editado pela Afica em 1976, ainda em catálogo. De 75 a 77, aproveitou-se de uma Prática", editado pela Afica em 1976, ainda em catálogo. De 75 a 77, aproveitou-se de uma bolsa na École de Hautes Études et Sciences Sociales, de Paris, para fugir de "veladas bolsa na École de Hautes Études et Sciences Sociales, de Paris, para fugir de "veladas perseguições da repressão militar", como diz Rubens Rodrigues Torres Filho, 45, professor de perseguições da repressão militar", como diz Rubens Rodrigues Torres Filho, 45, professor de Filosofia da USP. Em 78 ele voltaria à mesma escola para um semestre de estágio. Não era a Filosofia da USP. Em 78 ele voltaria à mesma escola para um semestre de estágio. Não era a primeira vez que Salinas sentira a intolerância do regime militar — em 1970 foi preso duas primeira vez que Salinas sentira a intolerância do regime militar — em 1970 foi preso duas vezes, uma no Dops e outra no DOI-Codi. "Numa das vezes ele ficou 24 horas em um vezes, uma no Dops e outra no DOI-Codi. "Numa das vezes ele ficou 24 horas em um 'pau-de-arara', passou a ter problemas vasculares e flebite, o que resultou na amputação de um de-arara', passou a ter problemas vasculares e flebite, o que resultou na amputação de um dedo do pé", recorda Chauí. Nesse estágio na França, Salinas trabalhou com o filósofo Claude dedo do pé", recorda Chauí. Nesse estágio na França, Salinas trabalhou com o filósofo Claude Lefort, de quem traduziu para o português o livro "Formas da História", editado pela Lefort, de quem traduziu para o português o livro "Formas da História", editado pela Brasiliense em 1979 e fora de catálogo. Considerado um grande tradutor do francês, Brasiliense em 1979 e fora de catálogo. Considerado um grande tradutor do francês, realizou, ainda, a versão de "A Imaginação", de Jean-Paul Sartre, publicada em 1964 e realizou, ainda, a versão de "A Imaginação", de Jean-Paul Sartre, publicada em 1964 e esgo

esgotada, e de "A Lógtada, e de "A Lógica dos ica dos SSentienti dos"dos", , de de GileGiles s DeleDele uze, uze, ededitaitada da em 1em 1974 974 pelpela Pea Persprspecectiva tiva ee esgotada.

esgotada.

Ligado ao existencialismo quando o movimento estava em voga nos anos 60, Salinas, junto Ligado ao existencialismo quando o movimento estava em voga nos anos 60, Salinas, junto com o professor Fausto Castilho, ciceroneou Sartre no Brasil em 1968. O livro "Sartre no com o professor Fausto Castilho, ciceroneou Sartre no Brasil em 1968. O livro "Sartre no Brasil — Conferência de Araraquara", editado pela Paz e Terra em 1981, que está em sua Brasil — Conferência de Araraquara", editado pela Paz e Terra em 1981, que está em sua segunda edição, é um outro trabalho do Salinas como tradutor. "O Iluminismo e os Reis segunda edição, é um outro trabalho do Salinas como tradutor. "O Iluminismo e os Reis Filósofos", uma obra de iniciação publicada pela Brasiliense em 81 e esgotada, mostra outra Filósofos", uma obra de iniciação publicada pela Brasiliense em 81 e esgotada, mostra outra faceta do domínio que Salinas tinha da filosofia francesa. "Ele encontrou uma linguagem faceta do domínio que Salinas tinha da filosofia francesa. "Ele encontrou uma linguagem para o público leigo sem rifar o rigor", analisa Torres Filho.

para o público leigo sem rifar o rigor", analisa Torres Filho. Rigor e invenção

Rigor e invenção

"Em seu trabalho filosófico ele sabia conjugar muito bem o rigor com a invenção", define "Em seu trabalho filosófico ele sabia conjugar muito bem o rigor com a invenção", define Ant

Ant onioni o o CanCan diddido, o, 70, profes70, professor apossor aposentado da entado da USP e amigo de USP e amigo de Salinas desde Salinas desde quando ele quando ele eraera garoto. "Ele era um talento filosófico, um talento como escritor e tradutor", diz Gérard Lebrun, garoto. "Ele era um talento filosófico, um talento como escritor e tradutor", diz Gérard Lebrun, 57, professor do departamento de Filosofia da USP. "O Brasil e a Universidade perdem um dos 57, professor do departamento de Filosofia da USP. "O Brasil e a Universidade perdem um dos seus mais sérios investigadores em História da Filosofia", acredita Celso Favaretto, 46, seus mais sérios investigadores em História da Filosofia", acredita Celso Favaretto, 46, professor da Faculdade de Educação da USP.

professor da Faculdade de Educação da USP.

O rigor que Salinas imprimia às suas pesquisas filosóficas, uma herança de professores O rigor que Salinas imprimia às suas pesquisas filosóficas, uma herança de professores como Bento Prado Jr., Gilda de Melo e Souza e Ruy Fausto, foi uma das vertentes que o como Bento Prado Jr., Gilda de Melo e Souza e Ruy Fausto, foi uma das vertentes que o conduziu à abordagem original sobre Rousseau. "Não era uma questão de reabilitar conduziu à abordagem original sobre Rousseau. "Não era uma questão de reabilitar Rousseau. Ele ia ao texto e encontrava material para reflexão", diz Torres Filho. A esse rigor, Rousseau. Ele ia ao texto e encontrava material para reflexão", diz Torres Filho. A esse rigor, ainda segundo Torres Filho, Salinas unia frieza e emoção.

ainda segundo Torres Filho, Salinas unia frieza e emoção.

"Ele conseguia que a Filosofia fosse um instrumento de leitura do presente", afirma Franklin "Ele conseguia que a Filosofia fosse um instrumento de leitura do presente", afirma Franklin Leopoldo e Silva, 39, chefe do Departamento de Fi

Leopoldo e Silva, 39, chefe do Departamento de Filosofia da USP. A partir da idéia delosofia da USP. A partir da idéia de

representação — um conceito comum no mundo poético e político —, Salinas organizou neste representação — um conceito comum no mundo poético e político —, Salinas organizou neste ano, junto com o

ano, junto com o professor Milton Meira do Nascimento, um colóquio sobre o Congressoprofessor Milton Meira do Nascimento, um colóquio sobre o Congresso constituinte, que resultou no livro "A Constituinte em Debate", editado pela Sofia Editora. No constituinte, que resultou no livro "A Constituinte em Debate", editado pela Sofia Editora. No livro, Salinas assina dois ensaios —"Democracia, Liberdade e Igualdade" e "Rosa de livro, Salinas assina dois ensaios —"Democracia, Liberdade e Igualdade" e "Rosa de Luxemburgo e a Constituinte de 1917". Salinas deixou dois filhos — André, 21, do seu Luxemburgo e a Constituinte de 1917". Salinas deixou dois filhos — André, 21, do seu casamento com Ana Maria Cerqueira Leite, e Marina, 6, com Maria Alice Rufino. casamento com Ana Maria Cerqueira Leite, e Marina, 6, com Maria Alice Rufino.

"O magricela sorri dentro do elevador. Sorri o magricela, irônico, dentro do elevador. O "O magricela sorri dentro do elevador. Sorri o magricela, irônico, dentro do elevador. O sorriso irônico acompanha o pequeno grupo no qual, obviamente contrafeito, desempenho sorriso irônico acompanha o pequeno grupo no qual, obviamente contrafeito, desempenho o papel de paciente ao longo do trajeto tortuoso pelos corredores que ligam a sala da o papel de paciente ao longo do trajeto tortuoso pelos corredores que ligam a sala da recepção da Ordem Social ao pequeno compartimento usado como câmara de tortura, recepção da Ordem Social ao pequeno compartimento usado como câmara de tortura, alguns andares acima no velho edifício do largo General Osório. Antes de chegar ao destino alguns andares acima no velho edifício do largo General Osório. Antes de chegar ao destino então ignorado, iludo-me, embalo-me com a esperança de que o cortejo só vai me então ignorado, iludo-me, embalo-me com a esperança de que o cortejo só vai me acompanhar até uma cela, onde, como pouco antes me assegurara um dentre os eficientes acompanhar até uma cela, onde, como pouco antes me assegurara um dentre os eficientes agentes de segurança, na pior das hipóteses, ficarei 'detido', como se diz, por alguns dias, tal agentes de segurança, na pior das hipóteses, ficarei 'detido', como se diz, por alguns dias, tal com

como — espero — oco — espero — ocorreorrera dra da outra vez, na OBa outra vez, na OB AN, dAN, de one onde há de há alguns alguns mmeses fora leses fora liberadoiberado depois de dez dias de detenção. Mas as coisas agora seriam bem diferentes e logo, logo seria depois de dez dias de detenção. Mas as coisas agora seriam bem diferentes e logo, logo seria dado ao protagonista que vos fala, a ocasião única, o privilégio imerecido de vir a conhecer dado ao protagonista que vos fala, a ocasião única, o privilégio imerecido de vir a conhecer o famoso instrumento de tortura já há muitos anos corriqueiramente utilizado por nossas forças o famoso instrumento de tortura já há muitos anos corriqueiramente utilizado por nossas forças

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policiais em toda a vastidão do território nacional.

Só quando chegamos percebo, de repente, o que me espera e entendo o sorriso. É que o tal do magricela nervosinho e gozador me mandara carregar, envolto em jornais, para disfarçar, nada mais, nada menos do que o aparelho de choque a cujas iluminações, dali a pouco, paudiararizado, viria eu a ser submetido graciosamente. O grupo explode em gargalhadas quando o pacote é desembrulhado, deixando a descoberto aquela sorte de pequeno realejo, cubo de madeira com uma manivela pendurada de um dos lados. E eu, atônito, catatônico, arremessado de repente em meio ao inferno, transferido de súbito para esta dimensão nova onde tudo se passa velozmente, embora dure uma eternidade e embora se propague pela eternidade afora.

Cessados os efeitos da piada, o mesmo frenético funcionário ordena: —  Tira a roupa!!!

— Como, por quê?...

—  Tira a roupa! — vocifera. Fera. — Mas, por que, será mesmo preciso?...

A insólita pergunta tem como efeito imediato irritar o tira que, redundante, exclama ainda: —  Tira a roupa, porra!"

(Retrato Calado, São Paulo, ed. Marco Zero, 1988.)

"Rousseau, o bom selvagem" é um livro póstumo. Foi escrito com a intenção original de apresentar a iniciantes o pensamento do filósofo suíço. Este propósito levou-nos a incluir a obra na coleção "Prazer em Conhecer", fato que a engrandece.

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Rousseau é, por excelência, o autor sobre o qual todo mundo se julga apto a

discutir, sem se dar ao trabalho de er de fato sua obra. Quem fez essa observação,

 por volta de 1912, foi o filósofo francês Henri Bérgson (1859-1941). Ainda hoje

muito se discute acerca de Rousseau, como ocorreu em 1750, data da

 publicação de seu primeiro livro —

Discurso sobre as ciências e as artes

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e mais ainda depois que ele foi transformado no principal profeta dos

revolucionários franceses do século XVIII, a começar pelo próprio

Robespierre (1758-1794), chamado " O incorruptível ", que foi o grande

lí-der da Revolução Francesa. Desde então Rousseau não cessou de provocar

uma acalorada controvérsia. Associado definitivamente ao destino da

Revolução Francesa, o filósofo desperta o ódio de alguns e a veneração de

outros. Nessas condições, uma multidão de idéias preconcebidas dificulta

o trabalho daqueles que se dispõem a ir ao encontro de seus textos.

Mas novas dificuldades nos esperam, numerosas dúvidas nos assaltam. Como

classificar essa vasta obra? Estaríamos diante de um texto filosófico

 propriamente dito? Há quem duvide, já que, na sua aparência, ele não tem

muito a ver com obras tradicionalmente classificadas como "filosóficas",

 pois Rousseau cultivou os gêneros mais variados.

Logo depois de seu primeiro livro, ele compôs uma ópera, intitulada

O adivinho

da aldeia.

Escreveu, mais tarde, dois dicionários: um de música e outro de

 botânica. Em sua juventude, aventurou-s e pelo terreno do teatro,

escrevendo a peça

Narciso ou O amante de si mesmo.

Bem mais tarde,

escreveu um romance,

 J úlia ou A nova Heloísa,

um diálogo à maneira de Platão,

e o livro de

Confissões

à maneira de santo Agostinho. [Platão (428-348 a.C.):

filósofo grego, discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles, é autor de

diálogos filosóficos, particularmente a

República,

o

Fedro,

o

Fédon.

Santo

Agostinho (354-430), bispo de Hipona, teólogo e filósofo. Obras principais: A

cidade de Deus, Confissões.]

O próprio livro

Emílio ou Da educação

talvez a mais importante de suas

obras, parece gozar de um estatuto híbrido, anfíbio: começa como um

sisudo tratado de pedagogia e acaba como um romance de amor.

Como se isso não bastasse, o recurso constante ao paradoxo e uma aparente

variação no pensamento não comprometeriam a unidade dessa obra ou sua

coerência? Com efeito, são muito freqüentes as teses inusitadas e muitas

 parecem idéias opostas ou até contraditór ia s. "P refir o ser home m de

 paradoxos a ser homem de preconceitos" — dizia Rousseau. De fato, todos

os seus textos estão repletos de frases chocantes, de teses esdrúxulas, pouco

comuns, que já no seu tempo indispunham contra ele o leitor impaciente.

Um exemplo? Tal é a eloqüência com que Rousseau investe contra a

civilização e suas conquistas, que ele ficou visto por boa parte de seus

leitores — a começar pelo ilustre Voltaire, que contra ele logo se

 posicionou — como um intolerável detrator das Luzes e defensor da barbárie,

querendo apenas escandalizar. O século XVIII é chamado de Século das Luzes

graças ao notável movimento de idéias de que foi palco e que se costuma

designar por Iluminismo ou Ilustração, devido à sua entusiasmada

valorização dos poderes da razão humana.

A grande

Enciclopédia,

editada por Diderot e d'Alembert em Paris e cuja

 publicação se estende por mais de vinte anos, é a imagem mais completa do

espírito filosófico da época. Daí a designação "enciclopedistas" atribuída aos

filósofos do século XVIII.

Ao ler o

Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre

os homens,

depois de tê-lo recebido das mãos do próprio Rousseau,

Voltaire escreveu com ironia ao autor: "Nunca se empregou tanto espírito

em querer nos tornar bichos. A gente fica com vontade de andar de quatro

ao ler vosso livro". Voltaire (1694-1778), cujo nome verdadeiro era François

Marie Arouet, era filósofo, p oeta, dramaturgo e um dos principais nomes do

século XVIII. Dezoito anos mais velho do que Rousseau, era por este

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considerado o grande mestre de sim geração

Outros comentadores acreditaram ver uma contradição entre as teses desse

Discurso sobre a desigualdade

e a obra intitulada

Do contrato social.

 Na primeir a, o autor parece defender um individualismo radical,

fazendo da sociedade a fonte dos males de que padece o homem.

 N a s e g u n d a , a o contrário, parece def ender um coletivis mo, à medida

que promove, por exemplo, a idéia da excelência da pátria e do

interesse coletivo, que deve prevalecer sobre o interesse individual.

A distância entre ambos parece tão grande que Émile Faguet,

 p r of es s or e c r ít ic o francês do século XIX, se espa ntava: "O

Contrato social

é um trata do do Estado déspota escrito por um anarquista".

Se não temos necessidade, aqui, de aderir aos paradoxos de Rousseau,

 podemos, ao menos, acompanhá-lo no repúdio aos pr econceitos. Embora

reconhecendo as dificuldade dessa obra e a ambigüidade de um texto que não

tem a nitidez e 1: nearidade dos tratados filosóficos convencionais, não

fiquemos com a idéia superficial de que nos achamos diante de um simples

caluniador da cultura, de um defensor das trevas ou de um "profe ta

dark

antiiluminista". É mais correto considerá-lo como o crítico ou o pré-crítico

das Luzes, muitas vezes até excessivo em su polêmica, mas também

especialmente clarividente.

Se alguma autoridade nos é necessária, fiquemos com a d grande filósofo

Emmanuel Kant, que era um admirador de Rousseau e o chamou de "Newton

da moral". Kant dizia ser necessário lê-lo várias vezes, pois só depois de

termos deixado de nos seduzi pela magia de seu belo estilo, é que podíamos de

fato apreciar profundidade de seus pensamentos. [Emmanuel Kant (1724-1804;

filósofo alemão do século XVIII, autor da

Crítica da razão pura

Isaac

 Newton (1642-1727), matemático, físico, astrônomo e filósofo britânico. Em

1687, formulou a teoria da atração universal entre os corpos.]

Quanto às contradições e incoerências, passemos a palavra Rousseau:

Escrevi sobre diversos assuntos, mas sempre nos mesmos princípios:

sempre a mesma moral, a mesma crença, as mesmas máximas e, se

quiserem, as mesmas opiniões.

(Carta a Beaumont)

Por que não abrir para ele, logo de início, um crédito de confiança?

 Textos selecionados

Os fundamentos

Na Carta a Beaumont, Rousseau se defende das acusações de impiedade e irreligião, lançadas pelo arcebispo de Paris, Christophe de Beaumont, ao censurar o livro Emílio através de uma condenação solene, um mandemento, datado de 20 de agosto de 1762. Nessa carta, Rousseau também resume, em várias passagens, os princípios centrais de sua filosofia.

O princípio fundamental de toda moral sobre o qual raciocinei em todos os meus escritos e que desenvolvi neste último com toda a clareza de que era capaz, é de que o homem éum ser naturalmente bom, amando a justiça e a ordem; que não há perversidade original no coração humano e que os primeiros movimentos da natureza são sempre retos. Fiz ver que a única paixão que nasce com o homem, a saber, o amor de si, é uma paixão em si mesma indiferente ao bem e ao mal, que não se torna boa ou má a não ser por acidente e segundo as circunstâncias nas quais se desenvolve. Mostrei que todos os vícios que se imputam ao coração humano não lhe são naturais; disse a maneira segundo a qual eles nascem; segui, por assim dizer, sua genealogia e fiz ver como, pela alteração sucessiva de sua bondade natural, os homens se tornam afinal o que são.

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Expliquei ainda o que entendia por essa bondade original, que não parece deduzir-se da indiferença ao bem e ao mal, natural ao amor de si. O homem não é um ser simples; ele é composto de duas substâncias. Se nem todo mundo está de acordo com isso, nós dois, o senhor e eu, estamos e tentei prová-lo aos outros. Isso provado, o amor de si não é mais uma paixão simples, mas tem dois princípios, a saber: o ser inteligente e o ser sensitivo, cujo bem-estar não é o mesmo. O apetite dos sentidos tende ao do corpo e o amor da ordem, ao da alma. Este último amor, desenvolvido e tornado ativo, traz o nome de consciência, mas a consciência não se desenvolve e não age a não ser com as luzes do homem. É somente por essas luzes que ele chega a conhecer a ordem e é somente quando a conhece que a consciência o leva a amá-la. A consciência é, pois, nula nohomem que nada comparou e que não viu suas relações. Nesse estado, o homem só conhece a si mesmo; ele não vê seu bem-estar oposto nem conforme ao de ninguém; não odeia nem ama nada; limitado exclusivamente ao instinto físico, é nulo, é animal; foi o que fiz ver em meu Discurso sobre a desigualdade. [Ambição]

Quando, por um desenvolvimento, de que mostrei o progresso, os homens começam a lançar os olhos sobre seus semelhantes, começam também a ver suas relações e as relações das coisas, a adquirir idéias de conveniência, de justiça e de ordem: o belo moral começa a tornar-se sen-sível, e a consciência age. Então eles têm virtudes, e se também têm vícios, é porque seus interesses se cruzam e sua ambição desperta à medida que suas luzes se estendem. Mas enquanto há menos oposição de interesses do que concurso de luzes, os homens são essencialmente bons. Eis o segundo e stado.

Quando, afinal, todos os interesses particulares agitados se entrechocam, quando o amor de si posto em fermentação se torna amor-próprio, tornando o universo inteiro necessário a cada homem, torna-os todos inimigos natos uns dos outros e faz com que ninguém encontre seu bem a não ser no mal de outrem. Então a consciência, mais fraca do que as paixões exaltadas, é abafada por elas e não fica na boca dos homens mais do que uma palavra feita para se enganarem mutuamente. Cada qual finge então sacrificar seus interesses aos do público, e todos mentem. Ninguém quer o bem público a não ser quando concorda com o seu; assim, esse acordo éo objeto do verdadeiro político que busca tornar os povos felizes e bons. Mas é aqui que começo a falar uma língua estranha, tão pouco conhecida do leitor quanto de vós.

Eis, monsenhor, o terceiro e último termo, para além do qual nada resta a fazer, e eis como o homem, sendo bom, os indivíduos tornam-se malvados. É a buscar como seria preciso fazer para impedi-los de assim se tornar que consagrei meu livro. Não afirmei que na ordem atual a coisa fosse absolutamente possível, mas afirmei de fato e afirmo ainda que não há, para chegar ao fim buscado, outros meios além daqueles que propus.

* * * * *

 Tenho grande vontade, senhor, de adotar aqui meu método ordinário e de dar a história de minhas idéias como resposta a meus acusadores. Acredito não poder melhor justificar tudo o que ousei dizer a não ser dizendo ainda tudo o que pensei.

Assim que estive em condições de observar os homens, olhava-os fazer e os escutava falar; depois, vendo que suas ações não se pareciam com seus discursos, buscava a razão dessa dissemelhança e encontrava que ser e parecer, sendo para eles duas coisas tão diferentes quanto agir e falar, esta última diferença era a causa da outra e tinha ela própria uma causa que me restava buscar.

Encontrava essa causa na nossa ordem social, que, em todos os pontos contrária à natureza que nada destrói, tiraniza-a sem cessar e a faz sem cessar reclamar seus direitos. Segui essa contradição em suas conseqüências e vi que ela explicava sozinha todos os vícios dos homens e todos os males da sociedade. De onde concluí que não era necessário supor o homem malvado por sua natureza, quando era possível marcar a origem e o progresso de sua maldade. Essas reflexões me conduziram a novas pesquisas sobre o espírito humano considerado no estado civil e eu encontrava que então o desenvolvimento das luzes e dos vícios se fazia sempre na mesma proporção, não nos indivíduos, mas nos povos — distinção que sempre fiz cuidadosamente e que nenhum daqueles que me atacaram jamais foi capaz de conceber.

(10)
(11)

Nasci enfermiço e doente; custei a vida a minha mãe, e meu nascimento

foi a primeira das minhas infelicidades.

É nesse tom melodramático, tão ao gosto de Rousseau, que ele se

refere, em suas autobiográficas

Confissões,

ao seu nascimento e

à morte da mãe como conseqüência do parto. Nascido a 28 de

 ju nh o d e 1 7 12, em G e n eb r a , filho de Isa a c Roussea u e d e

Suzanne Bernard, Jean-Jacques, segundo filho do casal, ficará marcado

 pelo acontecimento trágico. O recém-nascido Jean-Jacques foi entregue aos

cuidados de uma tia, Suzanne Rousseau, que, ajudada pelo pai dele,

encar-regou-se de sua primeira educação. Seu irmão, François, sete anos mais

velho, depois de abandonar a casa paterna em 1721, nunca mais deu notícias

à família.

Do pai, relojoeiro de profissão e cidadão orgulhoso, Jean-Jacques herdou a

veneração pela mãe, o respeito pela cidade natal e a paixão pelos livros. A

insuperável saudade da esposa fazia Isaac Rousseau pedir ao filho, de

apenas seis anos de idade, que lesse em voz alta, antes de dormir, velhos

romances da biblioteca da mãe, religiosamente conservados. Aos oito

anos, servindo-se da biblioteca paterna, Rousseau lê historiadores e moralistas,

 particularmente o escritor grego Plutarco (50-125 d.C.), autor de

Homens

ilustres.

Em 1722, em conseqüência de um violento desentendimento com um capitão

da reserva, Isaac Rousseau deixou Genebra e foi morar em Nyon, também na

Suíça. Jean-Jacques, com dez anos, ficou sob a tutela do tio Bernard e,

com o primo Abraham, foi enviado como pensionista em casa do pastor

Lambercier, em Bossey, nas cercanias de Genebra. Até sua saída definitiva

da cidade natal, em 1728, ele se entediava nos lugares em que era colocado

como aprendiz, inclusive no ateliê de um mestre gravador com o qual,

surpreendido lendo às escondidas durante o período de trabalho,

desentendia-se freqüentemente. Num domingo, depois de ter saído a

 passeio com amigos pelos arredores da cidade, ao voltar encontrou fechadas

suas portas e decidiu, então, tentar a vida mundo afora. Tinha apenas

dezesseis anos de idade. Este foi o início de sua vida nômade.

Tendo obtido uma carta de recomendação do padre de Confignon,

dirigiu-se a Annecy, na França, onde pediu proteção e asilo a madame de Warens,

 personagem que teve influência decisiva sobre ele: "Esta época de minha vida

decidiu o meu caráter".

Madame de Warens, protestante de origem, recentemente convertida ao

catolicismo, matinha, graças ao auxílio de Vitor-Amadeu II, duque de

Sabóia e rei da Sardenha, uma espécie de pensão para jovens

desencaminhados, aos quais, além de catequizar, dava abrigo.

Jean-Jacques, também protestante de origem, tornou-se logo o seu predileto, e

não apenas se converteu ao catolicismo como passou a nutrir por ela uma

 paixão que, embora intensa, nunca deixou de ser platônica. Sob a pr oteção

de "Maman", como a apelidou, Jean-Jacques entregou-se aos estudos,

complementando sua formação de autodidata. É nessa época que desponta

e se firma também a sua outra grande paixão e primeira vocação: a música.

 Nesse período, Jean-Jacques fez pequenas viagens, inclusive com uma

rápida passagem por Paris, mas sempre retornando a Annecy, para perto de

"Maman", e depois para Chambéry, para onde ela se mudou.

Aqui começa, desde minha chegada a Chambéry até minha partida para

Paris em 1741, um intervalo de oito ou nove anos durante o qual minha vida

(12)

foi tão simples quanto doce.

Confissões - Livro II

Em 1734, por um curto período, foi a Besançon, onde estudou composição

musical com o abade Blanchar. De volta a Chambéry, onde se instalou com

madame de Warens em uma casa de campo chamada Charmettes, sofreu um

acidente quando se dedicava a experiências de Física, e quase ficou cego. Foi,

então, a Montpellier para se submeter a um tratamento médico. Ao

retornar, uma enorme desilusão o esperava: sua querida "Maman" estava

vivendo maritalmente com um jovem suíço. Profundamente ferido,

decidiu ir embora, apesar de madame de Warens insistir em que ficasse,

garantindo-lhe que todos os seus direitos se conservavam. Jean-Jacques

dirigiu-se primeiro a Lyon, onde foi preceptor durante um ano. Depois,

carregando consigo numerosas cartas de recomendação e um projeto de

inovação da notação musical, foi tentar a sorte na capital.

Em Paris, as primeiras obras (1741-1754)

 Não se passou muito tempo até qu e, gr aças às recomenda ções de que

dispunha, Rousseau conseguisse que a Academia de Ciências tomasse

conhecimento de seu projeto, em relação ao qual parecia nutrir grande

expectativa. Mas a Academia não o julgou favoravelmente.

Rousseau dava lições de música para sobreviver. Ao mesmo tempo travou

relações com algumas das personalidades mais influentes do então

efervescente mundo cultural parisiense. Freqüentou madame Dupin, o

teatrólogo Marivaux e o escritor Fontenelle. Tornou-se amigo de Diderot,

que já era um escritor conhecido embora ainda não se tivesse dedicado à

grande empreitada de sua vida: a organização e edição da

Enciclopédia

francesa. Essa obra é o monumento intelectual do Século das Luzes, no

qual melhor se materializa a verdadeira revolução cultural, já em curso

antes da chegada de Rousseau.

Paris era a grande metrópole européia, o epicentro das novas idéias. Era ali

que se forjavam os instrumentos ideológicos de que a burguesia, classe em

ascensão, se serviria na investida contra os privilégios feudais da aristocracia

em decadência. Ali se fixou o destino do escritor Rousseau. Antes disso,

 porém, ele permaneceu por mais de um ano em Veneza como secretário da

embaixada francesa, voltando a Paris depois de um desentendimento com o

embaixador.

Em 1745, conheceu Thérèse Levasseur, com a qual, embora sem nutrir

grande paixão, viveu de 1749 até o fim da vida, chegando a ter cinco filhos.

Rousseau os abandonou, um a um, em um orfanato parisiense, alegando

não ser capaz de educá-los por falta de condições econômicas. O fato não

apenas foi fonte incessan te de remorsos para ele, como também muito

explorado mais tar de por seus inimigos. É também desse período sua

 primeira ópera:

As musas galantes.

Em 1749, o importante filósofo e matemático d 'Alembert, colaborador de

Diderot na direção da

Enciclopédia,

convidou Rousseau — e ele aceitou — a

escrever para essa obra os verbetes sobre música. Nesse mesmo ano, depois de

 provocar escândalo nos meios conservadores e devotos, com sua

Carta sobre

os cegos,

Diderot ficou aprisionado durante três meses no castelo de Vincennes,

nos arredores de Paris. Por ocasião de uma de suas visitas ao amigo,

Rousseau leu no jornal

Mercure de France

o enunciado da questão proposta pela

(13)

Academia de Dijon para o prêmio de "Moral" do ano de 1750.

Profundamente instigado pela questão — "Se o restabelecimento das ciências e

das artes contribuiu para purificar os costumes" — ele compôs

imediatamente um texto que ficou famoso, a

Prosopopéia de Fabrício.

Fabrício foi um cônsul romano entre 282 e 278 a.C. e ficou célebre por sua

simplicidade de costumes. Em sua

Prosopopéia

(figura de retórica que significa

"personificação"), Rousseau empresta a palavra a Fabrício e, por seu

in-termédio, lamenta a corrupção de costumes que, a seu ver, é característica da

civilização. Mostrou-o a Diderot, que o encorajou a dar seqüência a suas

idéias e a participar do concurso; nasceu assim o primeiro

Discurso,

que

obteve o primeiro prêmio.

Escritor da moda

Logo publicado, o

Discurso

explodiu como uma bomba, transformando seu autor

em escritor da moda. Fugindo do sucesso — sua incontornável timidez dificultava

a freqüência aos salões da aristocracia, onde triunfavam seus colegas

enciclopedistas — Jean-Jacques entregou-se, solitário, a um ofício que, pelo resto

da vida, assegurou sua sobrevivência copista de partituras musicais.

Ao mesmo tempo em que polemizava com autores que se lançaram à

refutação de seu

Discurso,

compôs outra ópera,

O adivinho da aldeia.

Representada em 1752 em Fontainebleau perante o próprio rei Luís XV, obteve

sucesso total. Impressionado, o rei o convocou para uma audiência,

 prometendo-lhe uma pensão. Atacado por um acesso de inibição,

Jean-Jacques não compa receu e, em conseqüência, perdeu a pensão. Seus amigos,

especialmente Diderot, começaram a se impacientar diante de suas

esquisitices e de sua desatenção às conveniências mundanas.

Ainda em 1752, Rousseau provocou novamente uma polêmica enorme, ao

escrever a

Carta sobre a música francesa,

em que exalta a música italiana

e critica a francesa. Publicou ainda uma peça teatral escrita na juventude,

Narciso ou O amante de si mesmo,

acompanhada de um importante prefácio.

A Academia de Dijon, em 1753, forneceu nova ocasião para a elaboração

de outra obra de envergadura: o

Discurso sobre a origem e os

fundamentos da desigualdade entre os homens,

com o qual concorre

também ao prêmio da Academia. Dessa vez, não obteve o primeiro lugar. O

novo

Discurso,

 porém, é incomparavelmente superior ao primeiro, em

importância.

Em dezembro desse mesmo ano, ferida pelas críticas de Rousseau, a Ópera de

Paris retira a permanente que lhe concedera.

Cidadão de Genebra

Acompanhado por Thérèse, nosso autor se distanciou de Paris: pela primeira

vez, depois da sua "fuga", retornou a Genebra. Calorosamente recebido em 1754,

abjurou o catolicismo e foi reintegrado solenemente tanto na religião

 protestante quanto em sua condição de cidadão genebrino. No ano seguinte,

de retorno a Paris, entregou aos editores o manuscrito do

Discurso sobre a

desi-gualdade,

ornamentado por uma inspirada

Dedicatória a Genebra,

redigida

durante a viagem e assinada: J.-J.

Rousseau, cidadão de Genebra.

Publicado,

esse novo

Discurso

reacendeu as paixões polêmicas. Rousseau o enviou a

Voltaire, pois o considerava o grande mestre de sua geração. Voltaire não

(14)

apreciou o livro e o comentou sarcasticamente. A resposta de Rousseau, por

sua vez, foi bastante polida, mas a partir daí as relações entre ambos, até

então amenas, embora distantes, converteram-se em hostilidade aberta. No

ano seguinte retornou a Paris, protegido por uma das grandes estrelas dos

salões, madame d'Epinay, instalou-se em uma residência chamada

L'Ermitage, situada em Montmorency, nos arredores de Paris. Uma série de

mal-entendidos contribuiu para opô-lo cada vez mais a seus ex-amigos

filósofos, também chegados a madame d'Epinay, com a qual ele acabou por

se desentender, sendo obrigado a mudar de casa. Foi aí, em meio às

dificuldades crescentes de relacionamento com os antigos companheiros, que

 produziu outras de suas obras mais importantes. Em 1758 redigiu a

Carta

a d'Alembert sobre os espetáculos,

que contém uma crítica contundente ao

teatro francês e marca propriamente sua ruptura definitiva com Diderot e os

enciclopedistas. Aí também redigiu

 J úlia ou A nova Heloísa, Do contrato

social

e

Emílio ou Da educação.

Exílio e perseguição

Logo depois de impresso na Holanda, em 1762,

Emílio

foi condenado

 pelo Parlamento de Paris à fogueira, e seu autor à prisão. Aconselhado e

auxiliado por amigos que permaneceram fiéis, decidiu fugir. Foi para a

Suíça, onde imaginou que seria bem acolhido. Mas estava muito

enganado. Da pequena aldeia de Môthiers-Travers, onde se instalou,

também foi obrigado a fugir depois que camponeses enfurecidos ameaçaram

depredar a "morada do ímpio". Em 1766 refugiou-se na Inglaterra a convite do

filósofo e historiador escocês David Hume (1711-1776), autor dos

Ensaios sobre

o

entendimento humano.

Enquanto isso, no continente, suas obras

continuavam sendo hostilizadas pelas autoridades civis e eclesiásticas, protestantes

e católicas. O

Contrato social,

também publicado em 1762, foi condenado em

Genebra e

Emílio

foi queimado em praça pública, em Paris. Considerado ofensivo

à religião católica, foi condenado também pelo arcebispo de Paris, Christophe de

Beaumont. Voltaire escreveu contra Rousseau uma violenta sátira intitulada

Carta

do Sr. Voltaire ao Dr. J . -J . Pansofo.

A partir de então, sob o ferrão da

 perseguição, começaram a acentuar-se seus sentimentos persecutórios e

ele acabou por se indispor também com Hume, imaginando-se alvo de

uma grande conspiração internacional comandada pelos filósofos.

Em 1767 voltou à França, instalando-se provisoriamente em Trye.

Desejoso de voltar a Paris, depois de acalmados os ânimos contra ele,

escreveu ao ministro Choiseul, que lhe concedeu a utorização para voltar.

Instalado em um pequeno apartamento da rua Platrière, decidiu escrever

as Confissões para defender-se de seus acusadores. Esse texto foi lido por

ele mesmo no salão de madame de Egmont, mas a reação do público foi

de indiferença.

Dedicando-se sempre à cópia de partituras musicais, escreveu várias

obras, dentre elas os Diálogos, nos quais faz novamente sua defesa, e

Devaneios de um caminhante solitário, texto em prosa poética que

contém algumas de suas mais belas páginas.

 Nos últimos anos de vida, dedicou-se com intensidade crescente a outra

 pa ixão antiga: a botânica. Desde o retor no a Par is, sua saúde e a

inflamação da bexiga, de que sofreu por toda a vida, pioraram

consideravelmente. A 2 de julho de 1778 morreu subitamente, em

(15)

circunstâncias não inteiramente esclarecidas.

Em 1793, depois da Revolução Francesa, a Convenção, órgão

revolucionário máximo, decidiu a solene transferência dos r estos mortais

de Rousseau da ilha de Choupos, onde fora enterrado, para o Panteão de

Paris, monumento dedicado aos heróis da pátria.

Obras

Desta relação omitimos as peças de teatro — com exceção da principal —

assim como as obras musicais.

1750 — Discurso sobre as ciências e as artes. O autor rejeita a idéia de que o Renascimento das artes e das ciências — que se costuma datar dos séculos XV e XVI — tenha contribuído para o aperfeiçoamento moral dos homens. Defende a tese da influência perniciosa do cultivo das artes e das ciências sobre os costumes. Publicado no volume Rousseau da coleção Os pensadores, Nova Cultural.

1755 — Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. A desigualdade de condições que se observa entre os homens em nossa sociedade não é natural ao homem, mas decorre da própria evolução social, especialmente a partir da instituição da propriedade privada. Publicado no volume Rousseauda coleção Os pensadores, Nova Cultural. 1756 — Cartas sobre a Providência. Polêmica de Rousseau com Voltaire a respeito da interferência da Providência Divina nos assuntos humanos e a propósito do terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755. Não há tradução para o português.

1758 — Carta a d'Alembert sobre os espetáculos. Resposta de Rousseau ao verbete da

Enciclopédia sobre Genebra, redigido por d'Alembert, que propõe a introdução naquela cidade de um teatro nos moldes franceses. Rousseau rejeita a idéia e critica o teatro francês, apontando os malefícios que sua introdução acarretaria para a República de Genebra. Obras completas, Ed. Globo.

1761 — J úlia ou A nova Heloisa. Cartas trocadas entre dois personagens — Júlia e Saint-Preux  — ligados por uma paixão poderosa, mas separados pelos preconceitos. Não há tradução.

1762 — Do contrato social. Uma comunidade autêntica é aquela na qual a vontade geral, extensão da vontade dos cidadãos livres, é a autoridade soberana. Publicado no volume

Rousseau da coleção Os pensadores,Nova Cultural.

Emílio ou Da educação. Acompanhando desde a infância a formação de um personagem imaginário, Emílio, Rousseau reconstitui a imagem do homem natural, critica a instituição pedagógica vigente e assenta as bases de uma nova educação. Publicado em português pela Difusão Européia do Livro.

1763 — Carta a Christophe de Beaumont — Resposta ao arcebispo de Paris que condenou o

Emílio.Não há tradução.

1764 — Cartas escritas da montanha. Resposta de Rousseau às Cartas escritas do campo,

do procurador-geral genebrino Tronchin, na qual ele se defende das acusações contra o

Contrato e oEmílio.

1765 — Projeto de Constituição para a Córsega. A pedido de Buttafucco, personagem importante na política da ilha de Córsega, Rousseau se faz de legislador.

1768 — Dicionário de música.

1772 — Considerações sobre o governo da Polônia. A convite de nobres poloneses surretos, Rousseau propõe um projeto de reforma do governo e das leis polonesas, aplicando os princípios do Contrato. Publicado em edição bilíngüe pela Brasiliense.

Obras publicadas postumamente:

1782 e 1790 — Confissões.Penetrante estudo autobiográfico ou auto-analítico. 1782 —

Devaneios de um caminhante solitário.

1790 — Diálogos. Rousseau juiz de J ean-J acques.

1805 — Cartas sobre a Botânica.

1924 a 1937 — Correspondência geral.20 volumes.

Ensaio sobre a origem das línguas. Estudando a origem e a evolução das línguas, Rousseau investiga também a evolução da música. Escrito por volta de 1759. Publicado no volume Rousseau da coleção Os pensadores, Nova Cultural.

Os textos selecionados deste livro foram retirados das edições brasileiras. Os

não editados em português são de responsabilidade do autor. (NE)

(16)

Cronologia

28 de junho de 1712 — Nascimento de Rousseau, em Genebra, Suíça.

1714-1727 — Na Inglaterra, reinado de Jorge I. Criação do parlamentarismo moderno, baseado no poder da maioria.

1715 — Morte de Luís XIV, que representou o auge do absolutismo na França. 1719 — Publicação do Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, que ilustra algumas idéias que serão retomadas por Rousseau.

1722 — Jean-Jacques passa a estudar na casa do pastor Lambercier.

1723 — Fim da regência do duque de Órleans e início do reinado de Luís XV na França.

1728 — Rousseau foge de Genebra, encontra a madame de Warens em Annecy, França, e converte-se ao catolicismo.

1741 — Rousseau chega a Paris.

1745 — Jean-Jacques liga-se a Thérèse Levasseur, sua companheira de toda a vida e com quem teve cinco filhos.

1749 — O filósofo redige o Discurso sobre as ciências e as artes, publicado no ano seguinte. 1752 — Apresentação da ópera O adivinho da aldeia perante Luís XV, que convida Rousseau para uma audiência, a que o filósofo não comparece. A Enciclopédia é condenada pela primeira vez.

1754 — O filósofo visita Genebra e abraça de novo o protestantismo.

Publica o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens.

1756 — Rousseau passa a morar nos arredores de Paris. Começa a escrever o romance Júlia ou A nova Heloísa, publicado em 1761.

Início da Guerra dos Sete Anos, entre França e Inglaterra.

1760 — Inicia-se na Inglaterra a era do maquinismo e da grande indústria.

1762 — Recém-publicados, o Emílio e o Contrato social são condenados pelas autoridades francesas e suíças. Rousseau busca refúgio em várias localidades européias e acaba estabelecendo-se, em 1766, na Inglaterra, com David Hume.

1767 — Estabelece-se em Paris.

1774 — Começa o governo de Luís XVI. 1776 — Independência dos EUA.

Rousseau escreve os Devaneios de um caminhante solitário, publicado em 1782.

2 de julho de 1778 — morre Rousseau, e é enterrado na ilha de Choupos. Durante a Revolução Francesa, em 1793, seus restos mortais são colocados no Panteão de Paris, dedicado aos heróis da pátria.

1789 — Começa a Revolução Francesa.

Entrada em vigor da Constituição americana, que segue inspiração rousseauniana.

Conjuração Mineira, no Brasil, cujos participantes utilizaram especificamente as obras de Rousseau.

 Textos selecionados

Autoconhecimento

Uma dimensão relevante da obra rousseauniana é o autoconhecimento, que se exprime especialmente nas Confissões, nos Diálogos e nos Devaneios. Nessas obras, Rous - seau volta-se a si mesmo e tenta compreender-volta-se, buscando acompanhar, especialmente nas Confissões,a gênese de sua carreira literária e de seus males. Nota-se como se reproduz na tentativa de auto-interpretação, de conhecimento de si, o mesmo esquema — um "natural" bom corrompido pela vida em sociedade — que vimos atuando em outros planos.

Os dois textos foram extraídos respectivamente dos livros I eVIII das Confissões.

[Quem sou!]

Lanço-me em uma empreitada que nunca teve nenhum exemplo e cuja execu ção não terá imitador algum. Quero mostrar a meus semelhantes um homem em toda a verdade da natureza; e esse homem serei eu mesmo. Apenas eu. Sin to meu coração e conheço os homens. Não sou feito como nenhum daqueles que vi; ouso acreditar que não sou feito como nenhum daqueles que existem. Se não valho mais, ao menos sou outro. Se a natureza fez bem ou mal em quebrar c molde no qual me lançou, é sobre o que não se pode julgar a não ser depois de eu ser lido.

Que a trombeta do Juízo Final soe quando quiser; virei com este livro na mão apresentar-me diante do soberano juiz. Direi altivaapresentar-mente: eis o que fiz, c que pensei e o que fui. Disse o bem e o mal com a mesma franqueza. Não cale nada de mal, nada acrescentei de bom, e se me ocorreu empregar algum ornamento indiferente, foi apenas para preencher um vazio

(17)

ocasionado por minha falte de memória; eu pude supor verdadeiro o que eu sabia ter podido

sê-lo, jamais c que sabia ser falso. Mostrei-me tal qual fui, desprezível e vil quando o fui, bom generoso, sublime, quando o fui: desvelei meu interior tal como tu próprio o vis. te. Ser eterno, reúna à minha volta a inumerável multidão de meus semelhantes que escutem minhas confissões, que gemam de minhas indignidades, que se ruborizem com minhas misérias. Que cada qual descubra, por sua vez, seu coração aos pés de teu trono com a mesma sinceridade; e, depois, que um só te diga, se ousar:fui melhordo que este homem (...)

[O primeiro Discurso]

Neste ano de 1749, o verão foi de um calor excessivo. Contam-se duas léguas de Paris a Vincennes. Sem condições para pagar fiacres, às duas horas da tarde eu ia a pé quando estava só e ia depressa para chegar mais cedo. As árvores da estrada, sempre desbastadas à moda da região, não davam quase sombra alguma e freqüentemente, esmagado de calor e de cansaço, eu me estendia no chão não podendo mais continuar. Eu procurava, para moderar meus passos, ler algum livro. Um dia peguei o Mercure de France e, enquanto an-dava, percorrendo-o com os olhos, topei com a seguinte questão proposta pela Academia de Dijon para o prêmio do ano seguinte: Se o progresso das ciências e das artes contribuiu para corromper ou purificar os costumes.

No instante dessa leitura vi um outro universo e me tornei um outro homem. Embora eu tenha uma lembrança viva da impressão que recebi, os detalhes me escaparam desde que os depositei em uma das minhas quatro cartas ao Sr. de Malesherbes.

(...) O de que me lembro bem distintamente dessa ocasião é que, chegando a Vincennes, eu estava numa agitação que era quase delírio. Diderot percebeu; eu disse a causa e li para ele a Prosopopéia de Fabrício, escrita a lápis sob um carvalho. Ele me exortou a desenvolver minhas idéias e concorrer ao prêmio. Eu o fiz, e a partir desse instante eu me perdi. Todo o resto de minha vida e de minhas infelicidades foi o efeito inevitável desse instante de desvio. Meus sentimentos se alçaram com a mais inconcebível rapidez ao tom de minhas idéias. T odas as minhas pequenas paixões foram esmagadas pelo entusiasmo da verdade, da liberdade, da virtude, e o que há de mais espantoso é que essa efervescência se manteve em meu coração durante mais de quatro ou cinco anos a um grau tão alto talvez quanto o tenha jamais estado no coração de um outro homem.

Os Espetáculos

No século XVIII a arte do teatro passa por uma extraordinária expansão e discute-se muito sobre as virtudes do teatro, se ele é ou não uma boa escola de moral e bons costumes e a ele os philosophes dão grande importância. Na sua famosa Carta a d'Alembert sobre os espetáculos, Rousseau toma partido em relação ao teatro e condena o teatro à francesa, examinando a questão dos espetáculos a partir de uma ótica eminentemente política. Os dois trechos seguintes são extraídos dessa longa Carta:

Perguntar se os espetáculos são bons ou maus em si mesmos é formular uma questão muito vaga; é examinar uma relação antes de ter fixado os termos. Os espetáculos são feitos para o povo e é somente por seus efeitos sobre ele que se pode determinar suas qualidades absolutas. Pode haver espetáculos de uma infinidade de espécies; há de povo a povo uma prodigiosa diversidade de costumes, de temperamentos, de caracteres. O homem é uno, confesso-o; mas o homem modificado pelas religiões, pelos governos, pelas leis, pelos costumes, pelos preconceitos, pelos climas torna-se tão diferente de si mesmo que não se deve mais procurar entre nós o que é bom aos homens em geral, mas o que é bom para eles em tal tempo ou em tal país. Assim, as peças de Menandro, feitas para o teatro de Atenas, estavam deslocadas no de Roma; assim, os combates de gladiadores, que, sob a república, animavam a coragem e o valor dos romanos, não inspiravam, sob os imperadores, ao populacho de Roma, mais do que o amor do sangue e a crueldade: com o mesmo objeto oferecido ao mesmo povo em diferentes tempos, ele aprendeu primeiro a desprezar sua vida e, depois, a brincar com a de outrem. (...)

[Festas públicas]

Como! Não deve haver, então, nenhum espetáculo em uma república? Ao contrário, deve haver muitos. É nas repúblicas que eles nasceram, é em seu seio que os vimos brilhar com um verdadeiro ar de festa. A que povos convém melhor reunir-se freqüentemente e formar entre si os doces laços do prazer e da alegria do que àqueles que têm tantas razões para se amar e para permanecer para sempre unidos? Já temos várias dessas festas públicas; tenhamos mais ainda e só ficarei mais encantado. Mas não adotemos esses espetáculos exclusivos que encerram tristemente um pequeno número de pessoas em um antro obscuro; que os mantêm temerosos e imóveis no silêncio e na inação; que não oferecem aos olhos mais do que clausuras, pontas de ferro, soldados, aflitivas imagens da servidão e da desigualdade. Não, povos felizes, não são estas as vossas festas! É em pleno ar puro, é sob os céus que deveis vos reunir e vos entregar ao doce sentimento de vossa felicidade.

(...) Mas quais serão, afinal, os objetos desses espetáculos? O que é que se mostrará neles? Nada, se quiserem. Com a liberdade em toda parte, onde reina a afluência o bem-estar também reina. Plantai no meio de uma praça um mastro coroado de flores, reuni em torno o povo e tereis uma festa. Fazei ainda melhor: dai os espectadores em espetáculo; tornai-os eles

(18)

próprios atores; fazei com que cada um se veja e se ame nos outros, a fim de que todos sejam melhor unidos...

O segundo

Discurso,

que trata da desigualdade, tão mal rece b i d o p o r

V o l t a i r e , é e n t u s i a s t i c a m e n t e s a u d a d o p o r u m d o s g r a n d e s

 p ens a dor es do s éc u lo X X , C la u de L é vi S tr a u ss ( na s c ido e m

B r u x e l a s , 1 9 0 8 ) , c o m o o l i v r o q u e f u n d o u a a n t r o p o l o g i a

o c i d e n t a l . O q u e é e n t ã o o

h omem

segundo o autor do

Discurso?

(19)

são maus, inimigos uns dos outros, buscando o tempo todo a melhor

forma de tirar partido, ou de fazer mal ao semelhante. Teria então razão

o filósofo inglês Thomas Hobbes, ao dizer que "o homem é o lobo do

homem" e vive em guerra permanente com seus semelhantes? [Hobbes

(1588-1679), autor do

Leviatã,

conduziu a filosofia política a um momento

elevado de reflexão.]

Rousseau concorda em certo sentido, mas se permite introduzir uma

correção no ensinamento de Hobbes. Os homens são maus, mas não

intrinsecamente, não enquanto portadores dos atributos da espécie

homem.

A

essência, a

natureza

do homem é essencialmente boa; o que vemos diante de nós é

uma degradação, uma degenerescência dessa

natureza

originária, em si mesma

límpida e rica em potencialidades. Deformado, o homem de hoje pouco tem

a ver, a não ser talvez a mera aparência, com o homem selvagem ou com os

homens da Antigüidade clássica, os gregos e os romanos. Como explicar essa

alteração? Em que consiste a corrupção?

Para penetrar no conteúdo das teses de Rousseau sobre o homem, vamos

antes recorrer ao

Emílio,

a última de suas "grandes obras".

Segundo Rousseau, para melhor apreender a ordem entreseus escritos, é

necessário começar pelos últimos, pois só nestes é que ele chega até os

 princípios fundamentais de seu "sistema". Referindo-se à própria obra, Rousseau

escreveu:

Eu tinha sentido desde minha primeira leitura que estes escritos

caminhavam em uma certa ordem que era preciso encontrar para seguir a

cadeia de seu conteúdo. Acreditei ver que esta ordem era inversa à de sua

publicação e que o autor, elevando-se de princípio em princípio, não tinha

atingido os primeiros a não ser em seus últimos escritos. Era preciso, pois,

para caminhar por síntese, começar pelo final. E foi o que fiz, atendo-me

primeiro ao

Emílio.

Uma profissão de fé

 No

Emílio,

inserido no corpo de seu livro IV (ao todo são cinco livros), há

um opúsculo famoso:

Profissão de fé do vigário de Sabóia.

Texto notável

e autônomo no interior do livro, ele pode ser lido assim como uma espécie

de

Discurso do método

de Rousseau. [O

Discurso do método

foi escrito

 pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650) que é considerado o

fundador do nacionalismo moderno.] Na Profissão de fé, tomando posição

com relação a várias questões filosóficas tradicionais, o autor nos expõe

os princípios mais gerais sobre os quais se fundamenta o conjunto das

suas proposições sobre o homem.

O problema de que parte Rousseau é o mesmo de Descarte: sobre o que de

sólido é possível apoiar nossas certezas e nossa idéias sobre as coisas? Mas

ele adotou um caminho totalmente d verso para resolvê-lo. Para Rousseau as

evidências serão de ordem diferente daquelas em que se apóia seu colega do

século anterior Para Descartes as bases são apenas intelectuais; o critério para

avaliar a certeza de uma idéia é a

clareza e distinção.

Rousseau reclama outro

critério de certeza: age como os empiristas, que valorizam as evidências e a

experiência dos sentidos. [O principal representante do empirismo é o inglês John

Locke (1632-1704).] Mas tomando um caminho diferente dos empiristas,

Rousseau convoca uma dimensão do homem para além do intelecto e dos

sentidos é preciso levar em conta o homem em sua totalidade, como

coração, como sensibilidade moral:

(20)

 Trazendo, pois, em mim o amor da verdade no lugar de toda filosofia, e por

método uma regra fácil e sim pies que me dispensa da vã sutileza dos

argumentos, reto mo, pois, a partir dessa regra o exame dos conhecimentos

que me interessam, resolvido a admitir como evidentes todos aqueles aos quais

na sinceridade de meu coração eu não poderia recusar o meu consentimento;

co mo verdadeiras, todas aquelas que me parecerão ter um ligação necessária

com estas primeiras e deixar todas a outras na incerteza, sem rejeitá-las nem

admiti-las e sem me atormentar em esclarecê-las quando não levam a na da

de útil para a prática.

 Nesse texto, assistimos a um duplo deslocamento no modo tradicional de tratar as

questões filosóficas.

Em primeiro lugar, a atividade de conhecimento não é mai deixada com

exclusividade ou ao puro intelecto ou às impressões sensíveis. No

conhecimento acha-se comprometido o homem na sua totalidade e,

 portanto, ta mbém o seu sent imento e suas "paixões". Trata-se, pois, de uma

recusa do intelectualismo e do racionalismo...

Em segundo lugar, também o âmbito da investigação sofre uma alteração.

As questões sobre as quais podemos exercer nossa curiosidade dizem respeito à

esfera da "prática", aos nossos deveres e à nossa conduta. Antecipando-se

a Kant, Rousseau partiu da convicção de que é limitada a capacidade

humana de conhecimento. Orgulhoso, o homem quer "tudo penetrar, tudo

conhecer" e se esquece de perguntar em primeiro lugar pela potência de sua

faculdade de conhecer:

Pequena parte de um grande todo, (..) somos bastante vãos para querer

decidir o que é este todo em si mesmo e o que somos em relação a ele.

Então, o que é possível conhecer? Até onde podemos nos aventurar? Guia-nos

uma bússola segura, fornecida por nossa própria natureza: trata-se do

"interesse", palavra tomada no sentido mais amplo possível e que inclui a

dimensão moral. Tudo aquilo que diz respeito à nossa sobrevivência, ao

nosso bem-estar e à nossa conduta em relação aos semelhantes, é suscetível

de ser conhecido com segurança. As questões que realmente interessam e são

dignas de nossa atenção não são, pois, questões puramente especulativas, sem

relação com a prática da vida e que só alimentam um delirante orgulho ou uma

 pretensão descabida.

Ordem e caos

Com base nesse método, Rousseau chega a algumas verdades fundamentais. Em

 primeiro lugar, partindo da observação do universo que o circunda, chega à

idéia de Deus, concebido como uma causa primeira que move o universo e anima

a natureza:

Quanto mais observo a ação e a reação das forças da natureza agindo umas

sobre as outras, mais acredito que de efeitos em efeitos é preciso sempre

remontar a alguma

vontade

como primeira causa, pois supor um progresso

das causas ao infinito é não supor nenhum.

Existe, pois, uma causa primeira do universo, ao que se convencionou chamar de

Deus, uma vontade criadora. Rousseau se utiliza aqui da tradicional prova

da existência de Deus percebida através dos efeitos de sua ação. Só que, na

sua perspectiva, a prova vem reforçada pela aceitação do coração.

Referências

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