T í t u l o : História Mística de Portugal A u t o r i a : Pedro Silva
E d i t o r : Luís Corte Real
Esta edição © 2007 Edições Saída de Emergência R e v i s ã o : Idalina Morgado
C o m p o s i ç ã o : Saída de Emergência, em caracteres Minion, corpo 12 D e s i g n d a c a p a e i n t e r i o r e s : Saída de Emergência I m p r e s s ã o e a c a b a m e n t o : Guide - Artes Gráficas, Lda. 1 ª e d i ç ã o : Junho, 2007
I s b n : 978-972-8839-98-7 D e p ó s i t o L e g a l : ??????/07
E d i ç õ e s s a í d a d e E m e r g ê n c i a
Av. da República, 861, Bloco D, 1º Dtº, 2775-274 Parede, Portugal T e l e Fa x : 214 583 770
Agradecimentos Gostaríamos de mostrar total gratidão, em primeira instância, ao nosso editor,
pela confiança demonstrada nas nossas capacidades e pelo apoio incessante, desde o primeiro momento, para a concretização do presente trabalho.
De um modo geral a todos os ensaístas que se vêm dedicando ao tema da História de Portugal, sem os quais teria sido impossível apreendermos parte das noções aqui expressas. Aos leitores que se interessam pelo nosso trabalho, principalmente
Índice
Introdução 11
1. Início Mágico 17
2. Divindades e Cultos Pré-Cristãos 32
3. Influências Externas 48
4. nascimento da nação Portuguesa 65
5. Heróis Portugueses 82
6. símbolos nacionais 102
7. Monarcas e as suas Histórias secretas 115
8. Locais Místicos 132
9. Figuras da Cultura 145
10. Lendas de Portugal 155
11. Portugal, um País Católico 165
12. Portugal: Passado, Presente e Futuro 174
bibliografia 182
Introdução
Ao fim de uma década de intenso labor literário, entendemos que havia chegado o momento de nos abalançarmos para um projecto mais ambicio-so. na verdade, a história de um ensaísta não ficará completa enquanto não redigir um tratado sobre a sua própria visão do país que o viu nascer.
Porém, tal tarefa é, ao contrário do que possa pensar-se, pelo menos no nosso ponto de vista, deveras complexa.
Em primeiro lugar, porque consubstancia remexer nas nossas pró-prias raízes, indo beber da fonte antiga onde navegaram os antepassados que tanto prezamos.
numa segunda via, ambicionarmos escrever sobre algo que, de for-ma tão empolgante, tivemos oportunidade de ler, pela pena de alguns dos maiores historiadores portugueses, é motivo de receio para qualquer jovem ensaísta.
Em terceiro, e último, aspecto, a grande verdade é que, tendo sempre primado por uma tríade de objectivos prefixados para cada obra, isto é, rigor, isenção e objectividade, essa preocupação surge redobrada quando o tema a tratar é Portugal, o país que nos viu nascer e que desperta na nossa pessoa um sem-número de emoções agradáveis e um orgulho infindável.
Efectivamente, sempre fomos apaixonados pela História, apesar de termos trilhado, academicamente, caminhos diversos. De paixão passou a obsessão e, felizmente, desde o início do novo milénio tornou-se profissão.
Durante anos, mais concretamente entre finais da década de oitenta e finais da seguinte, procurámos angariar a mais vasta bagagem cultural que foi possível.
O nosso principal interesse baseava-se na História de Portugal. Auto-res que aprendemos a Auto-respeitar, tais como Alexandre Herculano, José Verís-simo serrão, José Hermano saraiva ou José Mattoso faziam parte do nosso dia-a-dia.
Apenas com os verdadeiros mestres pode um discípulo aprender com qualidade. Tem sido essa a nossa máxima de vida.
Posteriormente, dedicámos a nossa atenção, de forma simultânea, com a História de outros países, nomeadamente os anglófonos. Compor-tamentos sociais como o fenómeno da escravatura, da actividade de socie-dades secretas ou ordens militares e religiosas foram motivo de análise e comparação entre diversos países e respectivas culturas.
Entendemos também que deveríamos conhecer mais sobre outros grandes impérios medievais, no caso a Espanha, a França ou a Holanda. sem sombra de dúvida, todos eles tinham muito que contar, pejados de personalidades extraordinárias e histórias fantásticas.
Mas, devemos confessar, quanto mais conhecíamos o que outros ha-viam feito, mais nos sentíamos interessados pelo que os nossos antepassa-dos tinham legado à posteridade.
Passámos, então, a viajar dentro de Portugal, sempre com finalidades históricas.
Deste modo conhecemos grande parte dos monumentos pré e pro-to-históricos portugueses, assim como castelos, fortalezas e demais lugares de cariz mais religioso, sobretudo igrejas, conventos, mosteiros e algumas sinagogas.
segundo o trajecto previamente traçado a partir dos magníficos tra-balhos de investigadores como José Leite de Vasconcelos, Francisco Mar-tins sarmento, Adriano Vasco Rodrigues ou Vieira de Guimarães, calcorre-ámos o país, sabendo que cada pedra contava uma pequena história.
Custava, também, por vezes, apercebermo-nos do desprezo com que monumentos de transcendental importância eram tratados. Daí que tenhamos procurado incentivar, em todos os nossos trabalhos, o gosto dos leitores pelo património arquitectónico, mediante, naturalmente, as nossas humildes capacidades.
Em cada pequeno castro (antiga povoação fortificada) ou imponente fortaleza que visualizámos, por mais que tivessem sido maltratados pelas agruras do tempo, tomámos respectivas notas, percebendo que cada um dos quais significava um pedaço do passado de Portugal.
Centenas, se não milhares, de horas foram empregues, em viagens de norte a sul do país, analisando pedra por pedra, registando fotograficamen-te o que ainda resta de fotograficamen-tempos idos. no final de cada jornada, retirávamos as nossas próprias conclusões.
Esses factos têm dado origem a vários trabalhos de cariz ensaísti-co, felizmente bem recebidos pelos leitores de ambos os lados do Oceano Atlântico.
Mas havia algo que constantemente pululava na nossa mente. Um objectivo fixo e que, em crescendo, nos ia impelindo a tomar a atitude de escrever uma História de Portugal.
Uma vez mais, e depois de conhecer os factos tradicionalmente acei-tes, sentimos que o momento era de analisar autores que, durante décadas, se haviam dedicado ao chamado outro lado da História, isto é, à sua verten-te mística, esotérica ou misverten-teriosa.
de Freitas, Teixeira de Pascoaes, André Jean Paraschi, Dalila Pereira da Cos-ta, António de Macedo ou António Telmo representam uma importante fase ensaística nacional que tem sido extraordinariamente bem seguida por investigadores que tanto prezamos, entre eles destacando nomes como os de Eduardo Amarante, Vítor Manuel Adrião, Rainer Dahenhardt, José Me-deiros, Victor Mendanha, Manuel J. Gandra ou s. Franclim.
Todos eles primaram pelo rigor na sua análise. E todos têm vindo a acrescentar algo mais à cultura portuguesa.
Quando o leitor vislumbra uma obra na prateleira de uma livraria, porventura desconhecerá as dificuldades subjacentes à sua criação. Redigir um texto no campo do ensaio nada tem que ver com o simples debitar de palavras. Envolve imensa dedicação, total concentração e a dádiva interior, no que à intelectualidade diz respeito.
É assim que, nas palavras do grande poeta português Fernando Pes-soa, “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce…”
Foi desse modo que, após anos de análise e preparação cultural, sen-timos que o momento havia chegado. Finalmente decidimos escrever uma «História Mística de Portugal».
O momento, segundo cremos, não poderia ser mais oportuno. Du-rante séculos, o sentimento da dita portugalidade baseava-se, sobretudo, como oposição à invasão militar da nação. Ou seja, não havia sido fácil a independência da coroa vizinha de Leão e Castela e os primeiros portugue-ses não queriam, naturalmente, perder algo que tanto lhes havia custado a alcançar.
naturalmente, com os seus altos e baixos, o país foi vivendo sempre ao sabor dessa sensação de independência, quer em relação a elementos da mesma religião quer através da reconquista, pela qual os muçulmanos foram forçados a retirar da Península Ibérica.
A época áurea dos Descobrimentos encheu os habitantes deste pe-queno rectângulo à beira-mar plantado de grande orgulho. Mas o declínio do mesmo levou o país a uma depressão que, de lá para cá, tem oscilado entre a euforia desregrada e o pessimismo latente.
O período conhecido historicamente como de ditadura em nada aju-dou a que os portugueses pudessem, finalmente, levantar a moral, olhando de igual para igual as demais nações, como acontecera em tempos anterio-res.
Grande parte do século XX foi passado sob a égide de um regime opressivo, demasiado concentrado nas ideias de uma só pessoa, com a sua visão muito própria de um país fechado ao exterior e socialmente contido. Agitar a bandeira portuguesa, por exemplo, deixou de ser um acto natural, passando a ser forçado.
Como bem sabemos, tudo o que seja obrigatório tem tendência para se tornar pouco atraente.
A chegada da revolução de 1974 trouxe a tão ambicionada liberdade. O povo ansiava por se libertar das amarras ditatoriais. Tal foi conseguido de uma maneira que poderemos considerar tipicamente portuguesa – o mais brando possível, atendendo às circunstâncias, evitando abusos que, infelizmente, foram comuns em outros locais.
Mas, de certo modo, a opressão fora tanta que, por um lado, houve, posteriormente, o mau aproveitamento da liberdade, incorrendo alguns em excessos desnecessários e, por outro, a grande maioria da população vivia ainda sob o medo, desta feita meramente psicológico, mas, ainda assim, forte.
na verdade, os símbolos nacionais pareciam demasiado interligados com o período da ditadura. Ter orgulho neles parecia agora o mesmo que compactuar com um passado de repressão. Deste modo, o medo perma-necia.
Por isso mesmo, este é o momento ideal para uma obra desta índole. Pela primeira vez desde o momento da libertação social, os portu-gueses voltaram a perder o medo de agitar as suas bandeiras, de ter orgulho nas cinco quinas e o patriotismo verdadeiro, que nada tem que ver com fascismo ou demais regimes autoritários, parece querer irromper do seio de uma nação tantos anos oprimida.
Conhecer o nosso próprio passado, aprender sobre os magníficos feitos de um vasto leque de homens e mulheres que, ao longo dos tempos, atingiram cometimentos à partida considerados impossíveis parece-nos a melhor forma de acreditarmos que o futuro é possível e que, naturalmente, dependemos, única e exclusivamente, de nós mesmos e das capacidades com as quais nascemos.
Para além disso, numa altura em que o europeísmo vem abraçando todos os países do continente em que nos inserimos, é altura de perceber-mos a importância das boas relações com todos os que nos rodeiam, per-cebendo que a visão solitária do português de costas viradas para o mundo, como aconteceu durante grande parte do século passado, por via de uma ditadura longa, está hoje em dia, felizmente, ultrapassada.
Em termos culturais e linguísticos, brasil, Angola, Moçambique ou Timor são espaços fantásticos de percepção do que fomos e das sementes que deitámos na Humanidade.
A língua portuguesa é ponto de união entre milhões de pessoas pelo mundo fora.
no que ao campo social, político e económico diz respeito, a aber-tura de fronteiras demonstra que a Europa, e os demais países que dela
fazem parte, nos acolhem e abraçam fraternalmente sabendo que ambas as partes só têm a ganhar com o óptimo relacionamento e a troca de conhecimento.
Portanto, a hora é chegada para conhecermos, ainda melhor, a nossa própria História e que possamos orgulhar-nos dela, da mesma forma que os nossos vizinhos conhecem e respeitam os seus antepassados.
Assim, faz todo o sentido que, ao contrário das múltiplas obras que abordam a visão tradicional, ou académica, da História de Portugal, exista também uma nova visão do passado do país. Uma nova abordagem, sem dúvida, mas sem deixar de obedecer aos requisitos típicos de um texto en-saístico.
Por mais estranho que possa parecer ao entendimento, o facto é que analisar os aspectos místicos, misteriosos ou esotéricos de uma nação não equivale, de forma automática, a deixar de ter um texto com rigor, objecti-vidade e, naturalmente, com base em documentos históricos e na análise de factos concretos, do mesmo modo que um cientista tira as suas conclusões com dados que lhe são fornecidos.
Obviamente que o leitor português, independentemente do grau de conhecimento que possua do passado de Portugal, não deixará de sentir que nada acontece por acaso.
Há uma linha de acontecimentos que se interligam e que, nas páginas seguintes, lhe darão uma aprendizagem diferente daquela que é tradicio-nalmente ensinada nos bancos da escola.
O que está para lá da História tradicional é exactamente o ponto de partida e de chegada para o presente trabalho.
Também por isso, e pela dificuldade própria de discorrer sobre factos que, não parcas vezes, apenas se conseguem perceber através da leitura nas chamadas entrelinhas, este foi um livro que demorou imensos anos a ger-minar, como frisámos anteriormente.
A obra que agora publicamos, intitulada propositadamente «História Mística de Portugal», pretende ser, simultaneamente, motivo de aprendiza-gem cultural, orgulho histórico e confiança em como todos nós, habitantes deste espaço que os Lusitanos tão fervorosamente defenderam, podemos e devemos acreditar que o futuro nos será risonho.
E, tal como os primeiros navegadores portugueses, tiveram de en-frentar tanto as vicissitudes provocadas por embarcações que os abalroa-ram e assaltaabalroa-ram, como as intempéries da natureza, hoje em dia temos a felicidade de olhar para o nosso passado e perceber que é possível, com força de vontade, dobrar o Cabo das Tormentas, tornando-o no Cabo da Boa Esperança.
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente Clareou, correndo, até ao fim do mundo
E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou, criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal! …
Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Pedro silva
1. Início Mágico
Apesar do descuido com que o passado pré-histórico de Portugal foi tra-tado durante demasiado tempo, felizmente, as décadas mais recentes têm--nos proporcionado a grata felicidade de verificar que tal espaço temporal deixou de merecer apenas breve referência, muitas vezes como nota de ro-dapé, para passar a ser elemento preponderante nos primeiros capítulos das obras de cariz histórico.
Efectivamente, é mais que evidente a noção de que o conhecimento do passado prefigura o vislumbre do futuro. Temos defendido, ao longo dos nossos trabalhos, a ideia de rotatividade dos ciclos históricos de Portugal.
Grosso modo, o ciclo Atlante (que mais correctamente se defenderia por megalítico), de grande expressividade ao nível místico, terá sido sucedi-do pelo ciclo Templário (o qual veio a incluir os Descobrimentos, provavel-mente o mais áureo de todos os momentos da história nacional) e tem-se sonhado com o ciclo sebastiânico (dito do Quinto Império, ou período de relevo, no qual Portugal seria novamente uma nação próspera e na lideran-ça mundial).
Como se pode observar, em todos há pontos que se cruzam, mor-mente o relevo do místico e esotérico. se o tempo pudesse ser divido deste modo, poderíamos acreditar, como muitos o fazem, que Portugal é, desde sempre, uma nação escolhida.
Atente-se que o termo em questão, que aqui utilizamos, foi tudo me-nos inserido de forma despropositada. Jesus Cristo, o Messias, era mais co-nhecido por o Escolhido, pelo facto de ter sido ungido e de ter nascido sob o signo astrológico que o colocava como rei dos reis.
Ora, a grande labuta intelectual de grande parte dos investigadores dos mistérios, por vezes insondáveis, deste nosso Portugal, é encontrar uma explicação racional para a tese defendida de esta nação, aparentemente en-colhida, ou empurrada para o canto do enorme continente europeu, ter sido criada sob uma égide de transcendental importância.
Vejamos: de modo algum a nossa dimensão territorial ou a própria localização espacial foram motivos adversos no passado. Um país pequeno como o nosso permitiu que nos tornássemos uma das nações mais antigas, no que à definição de fronteiras e independência política e social diz respei-to. Para além disso, somos, simultaneamente, o espaço que fecha a porta da Europa mas que, por outro lado, a abre para o dito Novo Mundo. Em último
lugar, olhemos para sul e perceberemos que praticamente tocamos África, esse grande continente que, desde sempre, nos cativou.
Ora, pensando desta maneira, a importância estratégica de Portugal passa a ser fenomenal. Foi assim que personalidades históricas como D. Afonso Henriques, são bernardo de Claraval ou o Infante D. Henrique en-cararam este espaço. sem derrotismos, sem menosprezos auto-inflingidos ou a tradicional sensação de pequenez.
Acreditamos piamente que encararmos os factos de forma racional, e com elevada dose de optimismo, far-nos-ia sentir melhor.
Independentemente desse facto, a grande verdade é que os ciclos atrás referidos, no caso uma tríade, com o último ainda por cumprir, possibilita- -nos, pelo menos, sonhar com a ideia de Portugal ser uma nação especial.
Para nós, portugueses, sê-lo-á certamente.
Mas será que estas teorias ultrapassam os limites das nossas fron-teiras?
Ao contrário de outros povos, esta crença de um país escolhido para representar algo de diferente não tem absolutamente nada que ver com as tradicionais visões de superioridade que tantos povos e culturas defende-ram, seja ao nível físico (como os mitos da raça ariana e superior que do-minaria o mundo, envolvidos em pangermanismos criados em torno das lendas nórdicas) ou mesmo militar (de onde podemos destacar o Império Romano e a figura dos imperadores-deuses, de onde distinguimos Júlio César que, ainda em vida, era venerado como divindade do panteão roma-no ou os exemplos de Átila, o Huroma-no ou Gengis Khan e os seus poderosos guerreiros mongóis).
basicamente, Portugal seria o país escolhido no que ao misticismo di-zia respeito. Um espaço onde as demais culturas pudessem viver livremen-te, sob a égide da paz e do amor fraternal (mais intenso que o comum, co-notado com o aspecto carnal), um exemplo para a própria Humanidade.
Esta é, grosso modo, a visão de um Portugal seleccionado para algo mais do que uma mera nação.
Qual a nossa opinião? não deixa de ser muito curioso que os legados megalíticos aqui encontrados sejam de tão elevada monta, assim como o facto de os Templários aqui surgirem pouco depois de terem sido criados na cidade santa de Jerusalém e, de pronto, com tal poderio que aos historia-dores tem deixado farta curiosidade.
Também é de estranhar como D. Afonso Henriques, apoiado apenas por meia dúzia de nobres e um punhado de homens valentes, terá consegui-do uma tão rápida independência de uma das mais fortes nações da época e que estando a mesma tão unida ao papado romano, este não tenha hesitado em dar o seu aval à cisão do Condado Portucalense da coroa leonesa.
“Há uma história oculta de Portugal. não dizemos isto no sentido em que de tudo se pode afirmar ter um aspecto oculto. Pensamos que houve entre nós, senão connosco, uma organização esotérica que, de uma forma perfeitamente consciente e intencional, procurou a partir desta pátria, a que deu existência, redimir o mundo do mal e da divisão.”1
A grande dúvida, efectivamente, é perceber até onde vai a veracidade histórica comprovada pelos documentos e pela interpretação dos analistas, e onde começa a teoria especulativa (isto se consideramos que a mesma existe).
Um simples tratado histórico jamais dará a resposta a esta angustian-te dúvida. Mas, de todo um conjunto de investigações, segundo estamos em crer, sairá a conclusão que todos ambicionamos. Para tanto, este trabalho é evidentemente uma humilde contribuição, uma pequena gota de água que pretende encher o oceano do nosso conhecimento cultural enquanto povo historicamente relevante.
Como terão a oportunidade de verificar, pela leitura da presente obra, um longo caminho foi já percorrido. Mas permanece sempre a porta aberta da curiosidade pois, por cada resposta ofertada, duas questões aparecem.
Porventura o momento não tenha ainda chegado para termos todas as explicações que ambicionamos. Talvez, até, existam verdades que nem se devam conhecer por não estarmos preparados para elas.
Mas, se nos perguntassem, de forma directa, se consideramos Portu-gal uma nação escolhida, de pronto teríamos de anuir.
Criando uma civilização espiritual própria, subjugaremos todos os povos; por-que contra as artes e as forças do espírito não há resistência possível, sobretudo quando elas sejam bem organizadas, fortificadas por almas de generais do espírito.
Fernando Pessoa
• O primeiro habitante de Portugal, o menino do Lapedo
Fruto do intenso labor de dezenas de arqueólogos, o espaço físico de Por-tugal, no que à pré-história diz respeito, tem vindo a ser, lenta mas cabal-mente, desvendado.
sabe-se, então, com grande certeza, que, até à data, não existe qual-quer vestígio, em Portugal, com datação anterior a 700 mil anos (o período chamado de Plistocénio Inferior). Era a fase dos chamados homens de
andertal, os quais, comummente, têm sido apelidados de rudes.
A análise rigorosa ao seu comportamento, no entanto, tem vindo a desmistificar essa ideia. Os achados líticos, isto é, os tradicionais monu-mentos de pedra (sejam eles castros, antas ou menires) demonstram que a consciência destes primeiros seres humanos era mais racional do que à partida seria de esperar.
seja como for, e evitando o avanço demasiado lesto, concentremo- -nos em uma data muito especial, localizada temporalmente há 25 mil anos atrás.
O local? Abrigo do Lagar Velho, no distrito de Leiria. Aí, incrustada entre as povoações de Palmeiria e Carrasqueira, corre a ribeira da Caran-guejeira. Exactamente nessa zona encontra-se a gruta do Lapedo, tornada famosa a partir do natal de 1998.
A razão? Aqui foi encontrada a sepultura de uma criança, com cerca de quatro ou cinco anos, que passou a ser conhecida como o mais antigo habitante que se conhece do espaço físico de Portugal.
Obviamente, tal facto obteve larga repercussão junto da opinião pú-blica. Cronologicamente, o menino do Lapedo era o nosso familiar mais afastado temporalmente.
Porém, as revelações que a sua análise trouxe ao nosso conhecimento ainda nos deixaram mais boquiabertos.
Apesar de ser um elemento tipicamente arcaico, nada em si consubs-tanciava o típico atraso cultural e físico com o qual até aí se conotava esta raça humana.
“De um modo geral, o tipo físico da criança do Lapedo é, sem dú-vida, anatomicamente moderno, isto é, o partilhado por todas as popula-ções humanas actuais, que, por isso (e pela sua infertilidade generalizada), se considera pertencerem a uma só espécie zoológica, o Homo sapiens. O queixo muito bem definido, os incisivos e caninos de pequeno tamanho, as proporções do púbis, por exemplo, aproximam-na claramente de nós e afastam-na dos nossos antepassados de tipo físico dito arcaico”2.
A par desse facto, a análise exaustiva do seu método de enterramento levou a concluir que existia um fundo cultural comum em toda a Europa. Para tanto, ressalve-se o uso intensivo do ocre vermelho, a purificação pré-via da fossa sepulcral e até o uso na testa do menino de um ornamento cons-tituído por uma junção de dentes de pequeno roedor ou mamífero (crê-se que, com grande probabilidade, de um veado).
Mas, se no campo arqueológico este foi um achado fundamental, também na vertente histórica não deixou de o ser.
Durante muito tempo, as afirmações, de certos estudiosos, sobre as capacidades dos nossos antepassados eram encaradas com algum desdém. A partir desse momento, todos puderam perceber que, pelo menos, há 25 mil anos atrás, os habitantes do espaço físico português eram fisicamente similares a nós e que, obviamente, tínhamos bem mais para descobrir e aprender com eles do que aquilo em que havíamos acreditado durante de-masiado tempo.
Para compreender a identidade e a personalidade deste povo que tem por sím-bolo a esfera armilar como imagem da harmonia do mundo, será necessário remontar à mais alta antiguidade. Na história, como na natureza, nada se perde. Mesmo das civilizações e das culturas remotíssimas, profundamente enterradas nos recessos do tempo aparentemente perdido, algo de exemplar e resistente subsiste numa tradição, numa forma, num canto, num verso ou numa palavra.
António Quadros
• Manifestações simbólicas (práticas funerárias)
Atentemos, em primeiro lugar, no que escreveram alguns dos mais brilhan-tes estudiosos da pré-história portuguesa para, posteriormente, tirarmos as nossas conclusões.
“O homem de Neander já enterrava os seus mortos, e essa inumação reveste um carácter intencional. O cadáver era acompanhado de objectos pessoais ou de oferendas, o que faz pensar numa crença na imortalidade. A própria posição dos esqueletos parece revelar uma preocupação religiosa. (…)
A morte devia impressionar profundamente o homem primitivo. (…) A morte será a destruição? A rigidez do morto faz pensar no adorme-cimento. Durante o sono mantemos uma actividade psíquica. O primitivo quando dormia entraria num reino mágico, misterioso. (…) O homem do Paleolítico temia a morte porque sabia que tinha de morrer. (…)
Quarenta mil anos nos devem afastar das primeiras pinturas. (…) A arte é a projecção dos nossos centros de interesse. Povos caçadores, pensa-vam na caça. As cavernas pintadas podem ser santuários. (…) Religiosidade, naturalmente, tinham-na. A religião nasceu com o homem. A religião é um fenómeno humano, quer se trate do culto ao sol, ou do culto à ciência”3.
pos-terior à morte física deu lugar à profunda veneração pelos mortos, mate-rializada no extraordinário desenvolvimento das práticas funerárias. (…) Em certas áreas portuguesas a sul do Tejo, a raridade de grutas e abrigos sob rocha, onde, de acordo com o ritual neolítico, se pudessem inumar os corpos, contribuiu para o aparecimento de túmulos de pedra, individuais, com cerca de um metro de altura, de planta rectangular ou trapezoidal e com as lajes de granito totalmente talhadas.”4
“Assim como não encaram a morte como um facto natural, os primi-tivos não entendem a sua consumação em termos puramente fisiológicos. A morte só se completa com as cerimónias fúnebres. são estas que, ao atri-buir ao defunto o seu novo lugar, num espaço simbólico bem demarcado (que pode variar com a categoria social a que ele pertencia), permitem à sua alma a integração na comunidade dos mortos, no seio da terra, que passará a habitar. A morte é pois um rito de passagem, ou melhor, um conjunto de ritos, de separação, de margem e de agregação, sendo os deste último tipo os que têm maior importância. (…)
Torna-se evidente que, nas religiões megalíticas, se associam duas linhas de força: a crença na vida após a morte, relacionada com o culto dos antepassados, e a ligação da pedra à eternidade e de continuidade da vida”5.
Assim sendo, há, naturalmente, que convir que havia uma consciên-cia mágica ou espiritual na mente dos primeiros habitantes de Portugal.
Partindo deste pressuposto inabalável, estava dado o mote para que todos os que, desde o século passado, haviam estudado esta área tão longín-qua da história nacional começassem a obter o reconhecido mérito acadé-mico e que uma nova geração de autores pudesse expressar, de forma ensa-ística, o relevo da pré-história para o conhecimento do que fomos, somos e seremos.
É assim que chegamos ao fenómeno que mais tem entusiasmado os estudiosos do chamado pré-Portugal e onde, por mais estranho que isso possa parecer, vamos buscar algumas das manifestações místicas mais in-crustadas na alma portuguesa, o Megalitismo.
• Megalitismo
A origem deste é, hoje em dia, assaz conhecida. Resulta da fusão entre os termos gregos mega (grande) e lithos (pedra), resultando em algo de enor-mes dimensões e construído utilizando como única material a pedra.
Em Portugal, o mesmo aparece em torno do VI milénio a.C., mas o seu apogeu está datado apenas quatro milénios depois. De distribuição irregular dentro do nosso território, onde a zona mais a sul se destaca pela maior quantidade de elementos líticos, o facto é que o megalitismo surge por via de um sedentarismo das populações em geral, após séculos a viver em constante mutação, pelo facto de sobreviverem através daquilo que a terra fornecia.
Agora, pelo contrário, tinham alguns conhecimentos de agricultu-ra, possuíam alguns utensílios (na sua maioria pequenos seixos rudemente talhados) que os auxiliavam no capítulo do cultivo e da caça, pelo que, a pouco e pouco, houve um assentamento colectivo.
Esta é, obviamente, a explicação académica. Mas existe uma outra razão para o surgimento deste fenómeno megalítico: a consciência mística dos habitantes de então.
Por mais discussão que este tema ainda levante, a grande verdade é que a grande maioria dos autores sente-se hoje à vontade para afirmar que “o megalitismo é um fenómeno que se integra obviamente no comporta-mento simbólico do homem das sociedades arcaicas e, mais particular-mente, no comportamento religioso. Falamos realmente aqui de religião mais num sentido genérico e comportamental (…) uma vez que não pode-mos aceder às religiões pré-históricas como sistemas ideológicos senão de forma indirecta, através dos restos materiais existentes no solo”6.
Ainda que o termo arcaico seja utilizado de forma amiúde, quiçá como meio de precaução, estes são notórios focos de pré-religiosidade, um termo que aqui aplicamos em contraposição ao que actualmente conhece-mos por fenómenos de fé e devoção.
O primitivo homem, estamos em crer, desconhecia as razões exactas que o impeliam a desenhar no interior das cavernas, assim como não sabia correctamente a função de inumar os seus defuntos. Mas nem por isso dei-xava de o efectuar pois um apelo interno impelia-o nesse sentido.
Já vimos como a visão do corpo humano em decomposição terá sido a razão para a prática do enterramento. Mas o modo como o corpo era nor-malmente colocado, em posição de decúbito frontal, como que simulando a instalação do feto no ventre materno não é tão inocente quanto possamos pensar. Assim, enterrar um ente querido com os seus haveres pessoais só pode ter como finalidade que este, em um outro mundo, possa continuar a utilizar os seus objectos de sempre.
Em trabalhos anteriores, analisámos como a questão da mudança en-tre dia e noite, sol e Lua, luz e en-trevas se tornou muito apelativa ao homem primitivo. Era, por assim dizer, o facto mais concreto, e visível, de mudan-ças extraordinárias que tomavam lugar de forma constante.
Ora, os primeiros habitantes de Portugal passaram, a par dos seus congéneres europeus, a perceber que havia uma rotatividade do seu próprio elemento. Mas, curiosamente, perceberam que o dia chegava sempre após o mergulhar nas trevas. O mesmo poderia acontecer com os seus defuntos.
Para além disso, a expressão pictórica, principalmente nas paredes de grutas e cavernas, tem muito pouco de aleatório. As cenas retratadas, fossem a caça ou a pesca, vasculham profundamente as entranhas psíquicas desses homens e mulheres. Aquela era a sua realidade, o seu dia-a-dia. Um mau dia de caça significaria a fome. Contavam com uma normal sucessão de acontecimentos quotidianos para sobreviverem.
Do mesmo modo que, actualmente, vislumbramos no apelo a uma entidade divina superior os mais diversos pedidos místicos: (um milagre, uma bênção, entre outras), também o homem antigo começou a sentir a necessidade de se expressar para além do básico.
“Apontemos antes do mais que as primeiras expressões estéticas, espi-rituais, mágicas, simbólicas, religiosas e inteligentes do homo sapiens terão sido as pinturas e as gravuras deixadas nos tectos ou nas paredes das recôn-ditas câmaras em grutas abrigadas das terríveis glaciações ou frios, há vinte, trinta ou quarenta mil anos.
(…) não nos parece, ao contrário do que afirma Aarão de Lacerda, ser possível desligar inteiramente a intencionalidade mágica de uma inten-cionalidade religiosa. Mais: sob a representação simbólica do duplo da presa de caça, sob a sua síntese simbólica figurando toda uma espécie, sob os rituais encantatórios que em seu redor se desenvolvem, há uma mitologia, uma religião e até uma teologia virtuais e embrionárias. (…)
Um abismo de tempo, de mentalidade e de etnia parece separar a arte rupestre da arte neolítica e megalítica. Em sete ou oito mil anos quanto de enigmático, praticamente incognoscível se terá passado, embora com a lentidão de uma época entre todas opaca e dificilmente investigável da história humana.”7
A par das pinturas, manifestou-se, em Portugal, uma outra faceta do megalitismo, exactamente aquela que lhe dá o nome e da qual mais se tem escrito – o fenómeno das pedras.
Este divide-se em quatro grandes figurações:
1. Dólmenes: tratam-se de monumentos tumulares colectivos, cons-tituídos por uma câmara onde uma grande laje se assenta sobre as demais pedras verticais. Igualmente conhecido por anta, existem dos mais diversos feitios, havendo os que possuem corredor interno e outros de enormes
di-mensões passando, naturalmente, pelo mais simples. Em conjunto com o dólmen, podia ser associada a mamoa, desde que um montículo de terra fosse preenchido, na zona superior, por seixos;
2. Tholoi, conhecidos no plural por tholos, são monumentos, normal-mente, de maiores dimensões que os dólmenes, diferem dos demais espa-ços de inumação pelo facto de apresentarem apenas lajes de xisto, e não enormes pedras, a cobrir a cúpula. Para além disso, no nosso país, os tholos conhecidos possuem corredor, característica peculiar que os torna monu-mentos deveras curiosos;
3. Menir é, basicamente, uma pedra de grandes dimensões em posi-ção erecta. Procurando significar o campo da fecundidade, e assemelhan-do-se ao falo masculino, o menir obtém a sua voz das divindades ctónicas para, de forma vibrante, empunhar o seu meato em direcção ao céu, espaço físico que os antigos muito temiam. Quando se dá a colocação de vários menires, agrupados de forma intencional, estamos a falar de cromeleques;
4. Grutas artificiais, como o próprio nome indica, tratam-se de es-paços escavados pela mão humana, protegidos da área dita pública, ou co-mum, e pensados inicialmente quer para inumações, como o caso já abor-dado da criança do Lapedo, quer também como local de práticas pictóricas e, por assim dizer, de manifestações místicas.
Em Portugal, as pedras re-velam um mundo oculto vastíssimo. Foram (e ainda são) parte integrante da vivência do sagrado dos povos que por cá passaram ao longo de milénios. São uma parte fundamental da identidade do Portugal Desconhecido nas grandes cidades, mas enigmaticamente ainda bem vivo nos meios menos povoados. Não existe, em certas zonas do país, povoação que não tenha – e não sinta orgulho por esse facto – a «pedra da moura», o «penedo do galo», etc. (…) A «eternidade» da pedra exerceu um grande fascínio sobre a consciência humana.
Paulo Alexandre Loução
• Pedras mágicas
Já fizemos questão de o frisar diversas vezes e, sendo uma convicção intrín-seca, continuaremos a efectuá-lo sempre que necessário: uma pedra não é apenas algo frio e imutável.
Efectivamente, a pedra, enquanto objecto amorfo, não passa disso mesmo. Mas, com a actuação da mão humana, passa a ser algo completa-mente diferente, moldado com coração e, como tal, passando a ter sentido e, quiçá, sentimento.
Atendendo a isso, não é de estranhar que possamos apelidar as pe-dras de mágicas. E porquê? Porque nos fazem rir, chorar e até devotar o mais profundo da nossa fé, tudo perante um simples seixo ou uma mais elaborada construção lítica.
Atentemos no simbolismo daquilo que apelidamos de petrus: “O valor da pedra enquanto símbolo está relacionado com o con-texto de vida específico que é o tempo: enquanto representação do Ar-quétipo da matéria, é a substância física do mundo, que depois é impreg-nado pelo espírito vivo. A matéria é em si própria totalmente incons-ciente e simboliza as profundezas da inconsciência. Quando trabalhada, representa a união do espírito e da matéria, do que está acima e do que está abaixo, sem que qualquer deles seja intrinsecamente masculino ou feminino, se bem que o feminino seja frequentemente associado com o inconsciente e a terra.”8
Em Portugal, felizmente, o leque de possibilidades de visualização de monumentos pétreos é amplo. Já redigimos, inclusivamente, um roteiro místico de Portugal, que passa pela grande maioria dos locais pré e proto--históricos mais profundamente marcados pela importância da pedra en-quanto fenómeno de devoção.
no presente caso, optámos por uma singela selecção de locais para sobre eles discorrer um pouco, atendendo à sua importância na dupla fun-ção mística e histórica.
Em primeiro lugar, o Santuário de Panóias, localizado no concelho de Vila Real. Trata-se de um local óptimo para todos aqueles que, pela pri-meira vez, pretendem tomar contacto com o fenómeno megalítico na sua função mais mágica.
Igualmente conhecido por Fragas de Panóias, é, basicamente, um re-cinto construído entre os séculos II e III, portanto mais recente do que os seus congéneres pré-históricos mas, ainda assim, onde o fenómeno lítico possui a expressão máxima.
Aqui podemos encontrar grandes fragas (termo mais utilizado no norte do país) criteriosamente dispostas e escavadas que, em tempos, ser-viu de local para a prática de rituais mágicos, dedicados ao altíssimo Serápis, uma divindade infernal do panteão romano.
Andando pelo espaço em questão sente-se, naturalmente, uma aura profundamente mística e, apesar do passado mais próximo não ter sido ge-neroso com o monumento, a sua grande maioria resistiu à passagem do tempo, permitindo-nos, ainda hoje, visualizar as inscrições cravadas nas pedras, entre as quais destacamos as seguintes:
“G. C. Calpurnius Rufinus consagrou dentro do templo (templo enten-dido como recinto sagrado), uma aedes, um santuário, dedicado aos Deuses Severos.” (inscrição número 2)
“Aos Deuses e Deusas e também a todas as divindades dos Lapitaes, Gaius C. Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial, consagrou com este recinto sagrado para sempre uma cavidade, na qual se queimam as víti-mas segundo o rito.” (inscrição número 3)
É deste modo que, se dúvidas existissem, se confirma a utilização an-tiga deste monumento.
num segundo espaço, no caso o Cromeleque dos Almendres, desta feita no Alentejo, está bem próximo à linda cidade de Évora. É um espaço vibrante, apontado como observatório astronómico e que tivemos oportu-nidade de visitar algumas vezes.
na realidade, como tivemos oportunidade de informar anteriormen-te, um cromeleque resulta da distribuição criteriosa de menires. no caso, tratam-se de 92 actualmente (pois crê-se que, no passado, tenham sido mais de uma centena), tornando-se o maior conjunto estruturado de menires da Península Ibérica.
Tendo dimensões aproximadas de sessenta por trinta metros, terá sido construído em torno do milénio V a.C. Como sobreviveu em tão boas condições até aos dias de hoje só pode ser explicado pela perseverança pró-pria da pedra, como o próprio termo em latim indica.
Em terceiro lugar, destaque para a Pedra Formosa, que foi encontrada na Citânia de briteiros, próxima a Guimarães, a cidade que foi berço da nação portuguesa, até 1897. Actualmente repousa no museu da sociedade Martins sarmento.
Com, aproximadamente, três metros de largura por dois de altura, esta pedra é deslumbrante aos olhos de todos os que encarem a História como algo fascinante.
Tocar-lhe é sentir o apelo do passado, as vivências daqueles que fize-ram o dia-a-dia de Portugal muito antes da nossa existência.
Hoje em dia sabe-se que pertencia a um conjunto funerário, edifica-do em torno edifica-do primeiro século da nossa era, e as representações pictóricas que nela foram cravadas levam-nos a um outro local dentro do nosso país, mais concretamente são Pedro do sul.
É em serrazes, uma pequena aldeia da região de Viseu, que se localiza a famosa Pedra Escrita.
na verdade, este quarto destaque, no nosso mini-roteiro dos espaços onde reinam pedras mágicas, é um monólito construído tendo o granito como material utilizado.
datado do século X a.C., de acordo com a análise efectuada pelo geógrafo Amorim Girão.
Convém aqui fazer um paralelismo entre a Pedra Formosa e a Pedra Escrita, tendo como base as gravuras nelas existentes: a existência de um culto solar (outros crêem lunar) que, conforme iremos abordar em capítulo posterior, esteve na base das primeiras manifestações místicas em Portu-gal.
A grande diferença surge no facto de a Pedra Escrita, pelas suas ca-racterísticas, ser menos trabalhada esteticamente, mas mais aproveitada para inscrições gráficas. Aqui surgem, então, cenas primitivas da caça, acti-vidade fundamental para os homens de então.
Rumemos, agora, a Trás-os-Montes, para encontrar, em Murça, a cé-lebre Porca, quinto e último destaque entre as chamadas pedras mágicas portuguesas, que, de acordo com insigne investigador nacional, não é um animal tão incomum de ser representado.
“na área correspondente à antiga Lusitânia e, em particular, na região transmontana, encontram-se inúmeros exemplares de quadrúpedes de pe-dra chamados porcas ou berrôas. Está, neste caso, a célebre Porca de Murça, de carácter eminentemente lunar, símbolo de fecundidade e abundância.”9
Efectivamente, muitos mais exemplos poderiam ser dados. Partir à descoberta depende de cada um e Portugal, sem sombra de dúvida, possui um vasto leque de oferta monumental.
É que, para além do fenómeno pétreo, existe também uma outra fa-ceta do nosso país – a existência de locais mágicos por natureza!
Os símbolos são imagens, os mitos são narrativas e os ritos são encenações simbólicas dos mitos. Toda a misteriosa História de Portugal está, assim, im-pregnada de imagens simbólicas (como por exemplo a cruz templária e a es-fera armilar), de narrativas míticas (como por exemplo o Milagre de Ourique ou a não-morte de D. Sebastião), de encenações mítico-simbólicas (como por exemplo o culto do Divino Espírito Santo).
António de Macedo
• Locais mágicos
Para que um determinado espaço físico possa ser considerado mágico, é na-tural que possua características especiais. Das nossas viagens pelo Portugal
místico, dois locais em particular ficaram-nos na retina do mistério pelo facto de não lhes conseguirmos dar interpretação concreta.
Aliás, no que ao primeiro deles diz respeito, até hoje, ninguém conse-guiu explanar convenientemente qual a função do mesmo.
Ora, estamos, naturalmente, a falar de Centum Cellas.
“Uma insólita construção em pedra, com 12 metros de altura, três andares e um número desusado de janelas, chama a atenção de quem se aproxima da vila beirã de belmonte, no distrito de Castelo branco, não só por se tornar estranha na paisagem como por se localizar a poucas dezenas de metros da estrada municipal que leva à povoação de Colmeal da Torre.
Depois de muitos séculos de existência, chegou até nós baptizada com o nome de Centum Cellas, que em português se pode traduzir por Cem celas, embora esteja posta de parte a possibilidade de algum dia ter funcionado como cadeia já que nunca poderia conter uma centena de celas no seu interior. Por outro lado, os Romanos – ao engenho romano a atribu-íram durante muito tempo – nunca construatribu-íram prisões daquele tipo num país ocupado pois, em tais circunstâncias, até nas estruturas dos acampa-mentos das legiões empregavam a madeira.
Aliás, por mais congressos, mesas-redondas e investigações aturada-mente levadas a efeito sobre tão enigmática construção, ninguém parecia saber qual a primitiva serventia do edifício, erguido numa encosta suave e na cota dos 490 metros, considerado Monumento nacional pelo decreto 14425, de 14 de Outubro de 1927.
Valerá a pena verificar até onde chegaram as divergências, entre his-toriadores e arqueólogos, a respeito da função desta torre a parecer mais inspirada na arquitectura da América pré-colombiana do que no estilo im-posto pelos arquitectos de Roma.”10
se o autor atrás citado vislumbra na enigmática construção ideia ori-ginal dos Edomitas, um povo natural da Idumeia, que seriam construtores de templos e descendentes de Esaú, já bluetau, um historiador do século XVIII, a coloca como romana e possível local de desterro de são Cornélio. na mesma obra, referência para a análise de Ricardio belo, que a define como hospedaria romana, e não prisão, uma interpretação que se nos afi-gura assaz interessante e que vai um pouco de acordo àquilo que também pensamos. Por fim, Adriano Vasco Rodrigues define-a como pretório de um acampamento romano e Manuel João Calais acredita que fosse um templo cristão do século III ou IV.
na verdade, todas estas possibilidades são devidamente fundamen-tadas e, como tal, todas possuem larga possibilidade de estarem correctas.
O grande entrave à solução da questão é que jamais teremos a confirmação factual de qual a função de Centum Cellas, perdida que ficou nos meandros temporais.
Hoje em dia é, sem sombra de dúvida, um espaço a visitar, com os chamados olhos de ver. Porque um país que tenha a honra de poder dar a visitar espaços como este, intrigantes, esteticamente relevantes e historica-mente fundamentais, terá sempre de sentir-se bem consigo mesmo.
Mais para sul acabamos por encontrar, no território alentejano, a Gruta do Escoural, ponto de chegada no que às viagens deste capítulo diz respeito.
É aqui que, pela primeira vez, nos deparamos com as mensagens mís-ticas legadas pelos nossos antepassados.
“Em Portugal, a primeira gruta decorada com pinturas e gravuras rupestres foi descoberta em 1963, no Escoural. (…) O percurso principal da gruta, com cerca de cinquenta metros, orienta-se no sentido norte-sul, a contar da entrada primitiva. (…) nesta cavidade subterrânea identifica-ram-se catorze pinturas e três gravuras. (…) A iconografia da arte paleolíti-ca do Escoural é constituída por duas figuras híbridas, uma das quais com cabeça de cavalo e parte de um corpo humano e outra representando a cabeça e o pescoço de uma ave com corpo a tender para o antropomórfico e, ainda, por desenhos de cavalos, bois e cabras e por alguns sinais”11.
A reter o facto de se tratar de um espaço, ainda hoje, extremamente bem conservado e visitável.
Para além dos factos visíveis, que são, efectivamente, as representa-ções de bovídeos, cavalos, cabras e aves, surgem os pormenores misterio-sos. E o Escoural tem-nos em grande quantidade.
no entanto, para nós, fixemo-nos em dois.
O primeiro, as duas figuras híbridas que surgem no espaço da gruta, uma delas tendo como composição uma cabeça de cavalo com corpo hu-mano (centauro) e a outra uma cabeça de ave com membros de Homem (Abraxas?).
se quanto à primeira figura, ou seja, o centauro, estamos a lidar com a mitologia grega, rapidamente adaptada pela iconografia cristã como repre-sentação da bestialidade infernal, um demónio tentador das donzelas, não deixa de ser ainda mais curiosa a possibilidade de vislumbrar a representa-ção de um arcaico abraxas na Gruta do Escoural.
As pedras abraxas eram utilizadas na Antiguidade como amuletos por seitas gnósticas, sendo que o Abraxas seria uma divindade que incor-porava, de forma simultânea, o bem e o Mal. Mais importante ainda, era
um deus único, a representação monoteísta, em uma época que o polite-ísmo reinava. Qual a razão da sua hipotética presença é um mistério que permanecerá por desvendar - a menos que aceitemos essa ideia de pré-re-ligiosidade pela qual nos temos vindo a debater ao longo desta e de outras obras de nossa autoria que abordam este tema.
Mas, para além da gruta propriamente dita, o Escoural revelou-nos, posteriormente, algo mais, porventura ainda mais importante.
“Muito recentemente um caçador, José Carvalho, descobriu na mes-ma região do Escoural umes-ma pequena estatueta que os arqueólogos Prof. Veiga Ferreira e G. Zbyozewski identificaram como uma Vénus, isto é, uma representação da Deusa-Mãe, ligada aos cultos da fertilidade, que terão nas-cido no período aurinhaco-perigordense. Esta, esculpida em osso de rena, datada provavelmente de 17000 anos a.C., tem apenas dois exemplares se-melhantes, um em Istrutiz, outro em Laugerie basse, ambos em França.”12
Portugal, um país marcadamente mariano, não poderia, naturalmen-te, deixar de ter um passado ligado ao culto da deusa, do chamado sagrado feminino.
não será assim, então, tão estranho aceitar que neste pequeno rec-tângulo à beira-mar plantado se tenha decidido são bernardo de Claraval – a primeira personalidade, pós-Concílio de nicéia, em 325, a resgatar o culto da Virgem Maria – apoiar incondicionalmente a instituição de uma nação independente, fortalecendo-a com o braço armado dos cavaleiros templários.
Isto sem esquecer, obviamente, que a zona centro de Portugal possa ter sido espaço físico para as célebres aparições de nossa senhora.
sem dúvida, o culto da chamada Grande Deusa, ou Deusa-Mãe, faz parte integrante do passado mais remoto de Portugal, como pudemos com-provar acima e, de forma mais detalhada, veremos no capítulo seguinte.
A própria criação de Portugal foi «imaginada» por uma elite espiritual, cuja expressão mais visível terá sido São Bernardo de Claraval.
2. Divindades e Cultos Pré-Cristãos
• A Grande Deusa ou Deusa-Mãe
se, como vimos anteriormente, o menir, fenómeno megalítico de grande expansão no nosso país, funda a sua origem no culto masculino da ferti-lidade, a terra, por consequência, era o espaço feminino. Era aqui que este monumento fálico era cravado, como que solicitando a uma entidade supe-rior que as colheitas fossem de modo a alimentar todas as bocas da família. não apenas no passado mais longínquo assim sucedia. Vários autores relatam factos extraordinários que tomaram lugar na cultura portuguesa em século passado, tais como a prática do acto sexual no campo cultivado, de modo a fertilizá-lo, ou o roçar do órgão sexual feminino em pedras cul-tuais para lhes ser ofertada a graça de engravidar.
não há modo de escapar-lhe: a agricultura surge como consequência natural da sedentarização das populações megalíticas e, com esse facto, o papel da mulher ganha um destaque superior ao que até aí tinha sucedido. A fertilidade do campo é comparada à da mulher.
“O campo é uma entidade feminina por natureza, e mesmo a ori-gem do mundo é frequentemente ligada à visão fecunda do Céu e da Terra, através, por exemplo, das propriedades seminais da chuva. Até o arado, de invenção relativamente tardia, será visto facilmente como o elemento que abre a terra, permitindo a sua fertilidade. são frequentes, nas sociedades agrárias, os mitos e os ritos relacionados com a fecundidade da terra, como, por exemplo, no segundo caso, a prática de relações sexuais sobre o campo lavrado, o parto sobre o solo, e a deposição do recém-nascido no mesmo. (…) O culto da deusa-mãe, comum a todas as grandes culturas mediterrâ-nicas antigas, assenta aqui as suas raízes”13.
Deste ponto de vista, que corroboramos, a visão feminina da natu-reza irá impregnar o ambiente mágico das primitivas sociedades agrárias. Atentemos nas misteriosas palavras que, sobre o universo da mulher, nos são ofertadas por um dos mais importantes estudiosos do misticismo em Portugal, de modo a aquilatarmos da força que tem a união de um casal, sendo que, a nosso ver, tal como reporta o texto em questão, a balança pen-de para a visão-fêmea.
“A imagem da mulher desperta o espírito vital, o pássaro adormecido no coração. A regra a seguir depois consiste em intensificar a energia que foi posta em movimento. Desde então, o amor assenhoreou-se, de facto, da minha alma, que logo a ele se uniu; e passou a ter sobre mim tanto ascenden-te, a exercer tal domínio, ‘pela força que lhe dava a minha imaginação’, que eu era obrigado a satisfazer tudo quanto exigia.”14
O ovo, sinónimo da gravidez, ganha também novos contornos e, ain-da actualmente, a sua utilização no ciclo pascal tem muito que ver com o renascimento que sucede na Primavera, sendo cristianizado como a ressur-reição de Jesus Cristo.
na verdade, tudo isto está interligado, mesmo que a grande maioria de nós não perca muito tempo a analisar tais factos.
A própria representação da Grande Deusa obedece, sempre, a pa-drões rígidos: seios volumosos (simbolizando a quantidade de leite neces-sária para alimentar todos os seus filhos, isto é, os habitantes do planeta terrestre), ancas desenvoltas (associadas ao facto de comummente se consi-derar que as mulheres com esse arquétipo físico serem melhores parideiras) e ventre descomunal (espaço necessário para dar vida a todos os que dela descendiam).
Ao longo dos séculos, muitas divindades ocuparam este lugar de su-prema sacerdotisa da Humanidade.
Mut, a deusa egípcia, conhecida como abutre divino (um animal que no Antigo Egipto era sinónimo de protecção), era senhora de Isheru, a sul de Karnak e o seu nome, bem a propósito, significa mãe.
Também a civilização suméria tinha em Ereshkigal a sua divindade feminina mais notória, no caso rainha dos mortos e do mundo subterrâneo. na verdade, tratava-se de uma deusa dos grãos, simbolizando, deste modo, o crescimento dos cereais e, tal como escrevemos acima, intimamente uni-da à agricultura.
Já na Antiga Grécia, Vénus era a representação da grande deusa da natureza, comparável ao culto sírio da Astarte. Era, regra geral, represen-tada como dominando todo o mundo, senrepresen-tada no seu trono divino, com uma bonomia natural do sexo feminino e uma candura própria de quem, no entanto, não evitava o lado mais sensual e afrodisíaco.
Mas, muito provavelmente, é na babilónia que surge o mais antigo culto que se conhece, sob o nome de Lilith, por muitos conhecida como a deusa negra, amante do Lúcifer, ou anjo caído em desgraça, o antigo mais brilhante dos ajudantes divinos de Deus que, pretendendo saber mais do que o seu mestre, de pronto foi expulso do Céu.
A origem do seu nome é incerta, quiçá suméria, mas desmontando a raiz etimológica, talvez a possamos considerar como Grande Mãe. Uma análise menos superficial revela-nos que Lilith foi invocada como lasciva e “rainha da noite”. Esta foi uma consequência natural da actuação da mitolo-gia judaica que a definia como demoníaca, sendo que anteriormente havia sido a rainha dos céus.
seja como for, este culto foi transportado para Portugal, não havendo confirmação alguma de que aqui tenha crescido a partir do nada. E a im-portância deste culto está mais que atestada, não apenas pelas nossas pala-vras, mas pelos estudos de diversos autores.
“Dalila Pereira da Costa, a autora de alguns livros importantes para toda a arqueologia de tradição portuguesa, como nomeadamente A Nau e o Graal (1978), publicou recentemente a obra Da Serpente à Imaculada (1984), onde estuda exaustivamente a tradição dos cultos terrestres, ma-ternais e lunares da Grande Deusa-Mãe em solo português, antecedentes do culto de Maria, como Virgem e Mãe, que estará no cerne da nossa religião cristã, desde os começos da nacionalidade e protegendo o seu território como terra de Santa Maria.
Como disse, se do Paleolítico Superior não possuímos já representa-ções antropomórficas da Deusa-Mãe (…) nada nos poderá levar a negar a existência do seu culto aqui neste território: o bétilo ou a arvora tendo sido então suportes ou representações da deusa. Ídolos semelhantes a custo saídos dessas primitivas representações, surgirão já no neolítico, como por exemplo o pequeno ídolo feminino de Carrazeda de Alvão, no qual, tal como nessas representações avultam os seios e o púbis, como sinais da sua força de fecun-didade, ou o ídolo da jazida de Comporta (Setúbal), de forma anicónica e com tatuagens. E acrescenta: tudo leva a crer que aqui, tal como no resto do mundo, só a partir do neolítico se teria verdadeiramente criado a sua reli-gião, como religião organizada. Representações oficiais e astrais, como aqui das mais correntes nos dólmenes deste período, nos poderão levar a supor que a Deusa já era adorada e cultuada como rainha do céu e da terra, mãe dos vivos e dos mortos, num culto inseparável de fertilidade e funerário: ainda, com o seu poder de fazer germinar os grãos e ressuscitar os mortos, ele surgirá na época do domínio, sob o nome de Atégina.
(…) Para Dalila Pereira da Costa, a tradição mais antiga seria a do culto da Deusa-Mãe”15.
Efectivamente, a noção de protecção de que o ser humano necessita para se sentir bem consigo mesmo tem origem antiga. não é, assim, à toa que este culto se tenha diversificado, passando de mera ligação agrária, para
a sensação de conforto divino e, igualmente, a crença de imortalidade, de onde destacamos os dólmenes, ou monumentos funerários que pretendem representar a possibilidade de os defuntos ressuscitarem no futuro.
“se como vimos já havia no paleolítico superior um semblante do culto, embora mágico, da Deusa da fecundidade, representada nas Vénus de formas femininas exageradas nas ancas e no ventre, este culto amplia-se e associa agora uma crença na imortalidade pessoal, sem dúvida relacio-nada nos seus modos com a observação da semente que, lançada à terra, morre e contudo engendra uma nova planta.
A Terra-Mãe, a Deusa-Mãe de todas as grandes religiões posterio-res, é sentida, escreve Eliade noutro livro, como a matriz universal, como a fonte ininterrupta de toda a criação. A morte, em si própria, não é um fim definitivo, não é a aniquilação absoluta, tal como é por vezes concebida no mundo moderno. A morte é assimilada à semente que, enterrada no seio da Terra-Mãe, fará nascer uma planta nova. Pode assim falar-se de uma visão optimista da morte, pois a morte é considerada como um regresso à Mãe, uma reintegração provisória no seio materno.
E o pensador romeno acrescenta: eis porque, a partir do neolítico, en-contramos o enterro em posição embrionária, como se se esperasse a todo o momento que regressassem à vida. Os próprios dólmenes, onde os mortos são assim colocados, têm analogia com o útero feminino. E um ciclo com-pleto, do nascimento pelo útero ao retorno ao útero e à vida embrionária dentro do ventre obscuro e silencioso da Mãe. Os dólmenes eram inteira-mente cobertos pela mamoa, um aglomerado de areia, terra, brita, de tal modo que se fazia a escuridão completa no seu interior.”16
Assim sendo, talvez possamos considerar esta divindade feminina como a mais completa de todas as que temos vindo a estudar. Inclusiva-mente, a Deusa-Mãe consegue, de forma simultânea, ser rainha, deusa e mãe. se o paralelismo nos é permitido, é por tal facto que, ainda actual-mente, a mulher é louvada, pois consegue desmultiplicar-se por tarefas tão díspares quanto esposa, mãe e profissional.
seja como for, o facto que convém ressaltar é que este culto é ances-tral, quiçá unido à própria consciência mística do ser humano e, mesmo que pensado como agrário e lunar, veio a fundir-se naquilo que chamamos de protecção divina, cristianizado de modo a que não se perdesse nas bru-mas do tempo.
sentirmo-nos eternamente reconfortados pela mão que embala o ber-ço é algo de que o ser humano preferiu não abdicar. E se a função agrária tem vindo a passar para um plano secundário, a sua actuação no campo da
visão de imortalidade da alma parece ressurgir com grande fulgor no culto mariano, o qual passou por uma fase de grande esquecimento forçado até reaparecer sob a égide de são bernardo de Claraval no seio da cavalaria templária.
“se a Ordem tomou como patrono s. João Evangelista, associou-lhe, sob a influência de s. bernardo, a Virgem Maria, a qual se apresenta, de facto, como uma remanifestação da grande protectora genésica dos povos pré-cristãos como Isis, Ishtar, Annita, Vénus Urânia – a sofia dos Gregos – ou a Dé Ana, a Virgem devendo gerar, Virgini pariturae, cuja vinda era es-perada pelos Celtas. no pensamento bernardino e templário, o tema maria-no é recorrente, encontrado num grande número de orações, muitas vezes impregnadas de grande beleza, de um despojamento muito cisterciense e de uma mística profunda. Pode citar-se a que foi pronunciada pelo irmão Amaury de Limoges, à guisa de louvor (1310): Santa Maria, Mãe de Deus, (…), Mãe sempre virgem e preciosa, ó Maria, salvação dos enfermos, consola-dora dos que a vós recorrem, triunfaconsola-dora sobre o mal e refúgio dos pecadores arrependidos, aconselhai-nos, defendei-nos. Defendei a nossa religião (a Or-dem), que foi fundada pelo vosso santo e caro confessor, o Bem-aventurado Bernardo, com outros sábios homens. Arquétipo da mulher sublimada, a Virgem é a via por onde passa a força cósmica, servindo e animando toda a criatura que a descobre. É a intermediária que permite ao Verbo incarnar e simbolizar o Amor real e indiferenciado, perpetuamente vivo, tornando-se a Mãe ou a senhora, no sentido cavaleiresco do termo.
(…) A temática mariana conheceu dois níveis de interpretação: um nível exotérico, reservado aos irmãos comuns, com base estritamente de-vocional, em que a Virgem era entendida como a mãe de Cristo, conforme os ensinamentos da Igreja de Pedro, e um nível esotérico e simbólico, sem marilatria, em que Maria, imagem velada da Pistis Sophia, era a schékinah da Cabala que designa a presença imediata de divindade no seio do mundo. (…) Ela é o laço que liga o finito ao infinito, os mundos superior e inferior, mediador que faz comunicar Deus e os homens. Estas concepções podem ser ligadas às últimas palavras pronunciadas por Cristo ao morrer, relatadas no Evangelho de João: Então Jesus, vendo sua mãe e junta dela o discípulo amado, disse a sua mãe ‘Mulher, eis o teu filho!’ Em seguida disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’ e desde aí o discípulo a guardou em sua casa. (…)
no séc. XII, sto. Amadeu de Lausana, monge em Cister no tempo de bernardo, escreveu estas soberbas linhas: O Espírito Santo desceu sobre outros santos; sobre outros descerá; mas sobre ti [a Virgem] ele descerá de novo, porque, entre todos e sobre todos, escolheu-te para que ultrapassasses a universalidade daqueles que antes de ti vieram, ou depois de ti virão, pela
ple-nitude da graça (…). E quando ele te tiver cumulado, pairará sobre ti e serás levado pelas tuas águas, para de ti fazer uma bem melhor e mais maravilhosa obra do que quando, levado ao princípio sobre as águas do abismo, dispunha a matéria da criação de maneira a tomar forma e a tornar-se o mundo. Tudo isto explica a extrema devoção que o Templo votava à Senhora Santa Maria, em quem colocava, nas suas orações, o começo e o fim da religião”17.
E, convenhamos, Portugal adoptou o culto de Maria, com a mesma pujança com que os seus antepassados tinham acolhido a ligação com a Grande Deusa.
De um momento para o outro, a profusão de espaços monumentais, ou meramente religiosos, intimamente ligados a esta devoção foi extraordi-nária. Isto leva-nos, naturalmente, a acreditar que, na sua grande maioria, pura e simplesmente as populações locais trataram de cristianizar um an-cestral culto agrário ou lunar, de modo a que a íntima união mística entre a deusa e os seus apaniguados não fosse quebrada.
Obviamente que tal relação nem sempre foi fácil, como escreve um prestigiado autor, devoto investigador das primícias da nacionalidade por-tuguesa.
“A implantação do culto mariano foi bastante controversa entre as diferentes igrejas do cristianismo dos primeiros séculos. Esse facto, aliás, aconteceu com a maioria dos dogmas que acabaram por vencer, sendo hoje, no geral, considerados os esteios revelados das actuais teologias cris-tãs. Logo nos primeiros séculos do cristianismo, os gnósticos coliridianos transferiram o culto de Astarté, a deusa síria, para Maria como Virgem e Rainha dos Céus, tendo sido perseguidos pelos cristãos ortodoxos por here-sia. Porém, nos séculos IV e V, começaram a surgir muitos templos dedica-dos à Virgem Imaculada, e foi só no Concílio de Éfeso, em 431, que Maria recebeu o epíteto de Mãe de Deus. Esta divinização tardia da Virgem Maria surgiu como necessidade de cristianizar os velhos cultos à Deusa-Mãe. Essa cristianização (quase só mudança de nome) foi um êxito histórico. na Fri-gia os locais de culto a Cibele converteram-se em igrejas dedicas à Virgem Maria, como aconteceu com a caverna próxima de Antioquia, antigo lugar de Cibele, hoje dedicada a nª senhora. (…)
Essa cristianização permitiu que, com outro nome, os povos da cris-tandade continuassem a adorar a Deusa-Mãe. A forma praticamente nem mudou, existindo, por exemplo, muitas imagens de Ísis amamentando Ho-rus, tal como acontece com a nª sr.ª do Leite.
(…) Em Portugal, existem inúmeras particularidades relacionadas com as múltiplas tradições da Nossa Senhora dos mil nomes, que merecem
um estudo esotérico e antropológico. Uma dessas particularidades é a rela-ção da nossa senhora com a caverna ou a gruta iniciática, o útero da Ter-ra-Mãe. Da mesma forma que na antiga Terra das Serpentes os dólmenes inseridos nas mamoas seriam a imitatio da caverna primordial, local, por excelência, do culto à Deusa-Mãe, ainda hoje existem santuários marianos em Portugal inseridos em grutas, podendo citar-se como exemplos: Nª Sr.ª da Lapa, em sernancelhe, Nª Sr.ª do Carmo, em Guimarães, e Nª Sr.ª da Estrela, na Redinha.”18
Apesar de nem todos os historiadores estarem de acordo quanto a esta afirmação, os nossos estudos tornam possível que nos atrevamos a afir-mar que Portugal é, na sua essência, um país afir-mariano, criado originalmente sob a égide da Grande-Deusa, culto ancestral e confirmado entre nós des-tes tempos bem remotos e, posteriormente, cristianizado na visão da nos-sa senhora19, a que personalidades como D. Afonso Henriques, primeiro
monarca da nação, e o monge cisterciense são bernardo ajudaram a dar forma.
Mais tarde, os sucessivos elementos que tornaram esta nação uma realidade limitaram-se a moldar o culto de modo a que os portugueses se sentissem de tal forma aconchegados no seio divino que, ainda actualmen-te, corre a noção de que Portugal é um país intocável pelo facto de ter a protegê-lo a rainha dos céus, a senhora de branco que vela constantemente por nós.
naturalmente que as aparições marianas, datadas do século XX, a isso não são alheias. Por outro lado, os portugueses também não se fazem rogados no que diz respeito a prestar a devida homenagem à protecção di-vina da Virgem.
“O que sensibiliza é a predominância de Maria (…) Maria é com-panheira. Por influência de Cister e da mariologia de s. bernardo, parece estar no princípio e fim da Ordem, mas ela serve apenas de escada: a consagração a Maria ordena-se à consagração de Jesus. O ofício matinal de nossa senhora é compulsivo, segundo o artigo 7º da Regra, mas nas suas festas, sob o seu maternal amor, o jejum era mitigado. no mais, tudo se consagra a Maria, por isso a razão de se considerar a Ordem templária uma Ordem mariana, se bem que ordenada ao Filho e, por seu Filho, ao Pai. (…) na essência, porém, o ano mariano templário acompanha todas as principais festas marianas, que a Ordem de Cristo manteve e ampliou.
(…) O mapa de Portugal abunda nas invocações templárias de santa Maria, por vezes com outro nome, como se vê em nossa senhora da Flor