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ARTICLE IN PRESS. Churg-Strauss syndrome: case series

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www.revportpneumol.org

SÉRIES

DE

CASOS

Síndrome

de

Churg-Strauss:

casuística

T.M.

Alfaro

a,∗

,

C.

Duarte

a

,

R.

Monteiro

a

,

A.

Simão

a

,

S.

Calretas

a

e

J.M.

Nascimento

Costa

a,b

aServic¸odeMedicinaInterna,HospitaisdaUniversidadedeCoimbra,Coimbra,Portugal bProfessordeMedicina,FaculdadedeMedicina,UniversidadedeCoimbra,Coimbra,Portugal

Recebidoa1dejaneirode2011;aceitea29deagostode2011

PALAVRAS-CHAVE Síndromede Churg-Strauss; Vasculite; Revisão; Casuística

Resumo AsíndromedeChurg-Strauss(SCS)éumavasculitesistémicanecrotizante,queafeta osvasosdepequenoemédiocalibreeseassociaagranulomaseosinofílicosextravasculares, eosinofiliaperiféricaeasma.

Éumasíndromerara,deetiologiadesconhecidaequeafetaambososgénerosetodosos gruposetários.

OsdoentescomSCSgeralmenteapresentamboarespostaàterapêuticacom glucocorticoi-des,emboraasrecidivassejamfrequentesapósasuasuspensão.Odiagnósticoeterapêutica atempadalevamgeralmenteaumbom prognóstico,comumasobrevivência de90%um ano apósodiagnóstico.

NesteartigoéapresentadaumabreverevisãodaSCS,comparticularatenc¸ãoaodiagnóstico, terapêuticaeprogressosrecentesnestaárea.

Deseguida, osautores apresentam e discutemascaracterísticas clínicas, laboratoriaise imagiológicasdequatrodoentesinternadosnumServic¸odeMedicinaInternacomeste diagnós-tico.Otratamentoinstituído,asrespostasobservadaseoseguimentodoscasossãotambém descritos.

© 2011SociedadePortuguesa dePneumologia. PublicadoporElsevier España,S.L.Todosos direitosreservados. KEYWORDS Churg-Strauss syndrome; Vasculitis; Review; Caseseries

Churg-Strausssyndrome:caseseries

Abstract Churg-Strausssyndrome(CSS)isasystemicnecrotizingvasculitisofthesmalland mediumvessels,associatedwithextravasculareosinophilicgranulomas,peripheraleosinophilia andasthma.

Thisisararesyndromeofunknownetiology,affectingbothgendersandallagegroups. CSSpatientsusuallyrespondwelltosteroidtreatment,althoughrelapsesarecommonafter itends.Timelydiagnosisandtreatmentgenerallyleadtoagoodprognosiswitha90%survival rateatoneyear.

Autorparacorrespondência.

Correioeletrónico:[email protected](T.M.Alfaro).

0873-2159/$–seefrontmatter©2011SociedadePortuguesadePneumologia.PublicadoporElsevierEspaña,S.L.Todososdireitosreservados.

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AbriefreviewofCSSispresented,withparticularattentiontodiagnosis,therapyandrecent developmentsinthisarea.

Theauthorsthenreportanddiscusstheclinical,laboratoryandimagingcharacteristicsof fourpatientsadmittedtoanInternalMedicineDepartmentwiththisdiagnosis.Thetreatment, responseandfollow-upofthecasesarealsodescribed.

© 2011SociedadePortuguesa dePneumologia. Publishedby Elsevier España,S.L.All rights reserved.

Introduc

¸ão

Definic¸ãoeepidemiologia

A síndrome de Churg-Strauss (SCS), também denominada angeíte granulomatosa alérgica é uma vasculite sisté-micanecrotizante,inicialmentedescritapelospatologistas J.ChurgeL.Strauss,numasérie deautópsiasdedoentes com asma grave1. Estes doentes apresentavam

hipereosi-nofiliaevasculitesistémica,enquantooexamehistológico demonstrava granulomas extravasculares, eosinofilia teci-dularevasculitenecrotizante.

A descric¸ão de mais casos levou a uma melhoria da definic¸ão,sendoquehojeemdiaoscritériosdeclassificac¸ão do American College of Rheumatology (ACR) em doentes com vasculiteem biopsia são os maisaceites2. Estes

cri-tériosincluemasma,eosinofilia periféricasuperior a10%, monooupolineuropatia,infiltradospulmonaresmigratórios, patologia dos seios paranasais e eosinófilos extravascula-resna biopsia.A presenc¸adequatrodestes critériosnum doente com vasculite demonstrada por biopsia tem uma sensibilidade de 85% e uma especificidade de 99,7% para SCS2.

ASCSéumadoenc¸amuitorara,comumaincidênciade 1a7 casospormilhãodeindivíduos por ano3,4.Adoenc¸a

afeta igualmente ambos os sexos e pode surgir em qual-queridade,comumaidademédiaàdatadaapresentac¸ãode 50anos5,6.

Etiologia

AetiologiadaSCSé desconhecida.Ashipótesespropostas incluemumprocessoautoimune,possivelmenteassociadoa fatoresgenéticoseambientais7.

Os antagonistas dos recetores dos leucotrienos (ARL), incluindoozafirlucasteeomontelucasteforamassociados aodesenvolvimentodeSCS,naúltimadécada.Esteefeito relaciona-seprovavelmente comasuspensão dos corticoi-des após o início da toma de ARLs em doentes com SCS atéentãoatenuado,ouaprescric¸ãodeARLsadoentescom asmaprogressivaqueeranarealidadeSCSprogressivanão identificada8,9. Defacto, existem relatos decasos deSCS

apósoiníciodecorticoidesinalados10eomalizumab11eum

estudocruzadorecentemostrouqueváriasdasmedicac¸ões decontrolodaasmaestãoassociadascomoiníciodeSCS, suportandoahipótesequeoqueseassociaaoiníciodaSCS éumagravamentodaasmaenãoumfármacoespecífico12.

Fisiopatologia

AfisiopatologiadaSCSéinsuficientementeconhecida.Uma característicaparticulardadoenc¸aéaproeminente eosino-filiasanguíneaetecidular,queserelacionacomaatividade da doenc¸a13. Em doentes com a patologia ativa, os

eosi-nófilosexpressammarcadoresdesuperfíciedeativac¸ão14e

segregam proteínas quelevam a dano tecidular15. A

eosi-nofilia pareceser mantida peloaumento dalibertac¸ãoda IL-5,produzidaprincipalmenteporlinfócitosTh2ativados16.

Com efeito, oanticorpo anti-IL5 mepolizumab mostrou-se eficaz na SCS refratária,num estudo recente17. Embora a

SCS seja principalmente associada a um perfil Th2, estu-dosrecentestambémdemonstrarampossíveisdesequilíbrios naatividadedoslinfócitosTh118,Treguladores19 eTh1720.

Os anticorpos anticitoplasma do neutrófilo (ANCA), espe-cificamente antimieloperoxidase parecem ter um papel patogénico naslesõesde vasculite,possivelmente através da ativac¸ão de neutrófilos, levando à libertac¸ão de espé-ciesreativasdeoxigénioeenzimasproteolíticas21.Ospapéis

propostos para os eosinófilos e ANCA na patogénese da doenc¸aestãodeacordocomasrecentesdescric¸õesde dife-rentes manifestac¸ões da doenc¸a em doentes com e sem ANCA.

Manifestac¸õesclínicas

As manifestac¸õesclínicasdaSCSsãogeralmentedescritas emtrêsfases:

Aprimeirafase(prodrómica)podedurarváriosanos.As característicaspredominantessãoaasmaatópicaearinite, geralmentededifícilcontrolo.

Nasegundafase(eosinofílica)observa-seumainfiltrac¸ão tecidularintensaporeosinófilosemváriosórgãos,incluindo ospulmõeseotratogastro-intestinal(GI),eventualmente evoluindoparasíndromedeLoefflerougastroenterite eosi-nofílica.

A terceira fase (vasculítica) é caracterizada por uma vasculitesistémica acentuada,em queos sintomasgerais geralmenteprecedemoenvolvimentodosváriosórgãospor esteprocesso22.

Um dos sistemas que é frequentemente afetado pela vasculite é o sistema nervoso periférico, com envolvi-mento dos vasa vasorume desenvolvimentode mononeu-rite multiplex23. O trato GI é também afetado, tendo

como manifestac¸ões a dor abdominal, gastroenterite ou mesmo um quadro de abdómen agudo24. O envolvimento

(3)

SíndromedeChurg-Strauss:casuística 3 cardíacopodeapresentar-secomomiocardite,insuficiência

cardíaca,pericarditeoumesmo vasculitecoronáriae con-sequenteisquémiamiocárdica.Cercademetadedasmortes relacionadascomaSCSsãocausadasporlesõescardíacas25.

Osistemarespiratórioéenvolvidoemvirtualmentetodos osdoentes,nãosócomasmanaprimeirafaseclínica,mas tambémcominfiltradosnaradiografiadetórax,queestão presentes em 37 a 77% de todos os doentes. O derrame pleural tambémpodeserobservado em atéumterc¸odos doentes26---28.

A doenc¸a renal clinicamentesignificativa é menos fre-quenteemenosgravequeemoutrasformasdevasculite24.

Subtiposdedoenc¸a

Estudos recentes demonstraram a existência de duas populac¸ões diferentes de doentes com SCS. Os doentes ANCA positivos(40% nestesestudos)apresentammais fre-quentemente manifestac¸ões relacionadas com a vasculite incluindoenvolvimento renaledosistemanervoso perifé-rico,assim comohemorragia alveolar, púrpurae vasculite na biopsia.Osdoentes ANCA negativostêmmais frequen-tementemanifestac¸õesrelacionadascoma infiltrac¸ão por eosinófilos,incluindosintomascardíacos,pulmonarese sis-témicos. A relevância destes achados na terapêutica e prognósticodaSCSnãoéaindaclara29.

Achadoslaboratoriaisediagnóstico

OdiagnósticodeSCSestágeralmentedependenteda aná-lise histológica, embora esta possa ser desnecessária, se odoenteapresentareosinofiliaeasmanifestac¸õesclínicas típicas.Asamostrasdetecidomaisfrequentementeobtidas provêmdotratogastro-intestinal(enterocoliteeosinofílica com vasculite granulomatosa ou necrotizante) e da pele, onde podemserencontrados váriospadrões delesão (até nomesmo doente),incluindo granulomasextravasculares, vasculiteleucocitoclásticaepoliarteritenodosacutânea.

Asbiopsiasdonervomostramfrequentementevasculite necrotizante epineural. O pulmão é também frequente-mente biopsado, revelando padrões de asma brônquica, pneumoniaeosinofílicaegranulomatoseextravascular30---32.

OsdoisachadosmaissugestivosefrequentesdeSCSsão vasculitenecrotizanteegranulomasextravasculares necro-tizantes, com infiltrados eosinofílicos. Estes achados não são,noentanto,patognomónicos33.

Nasanálisessanguíneasdestaca-seumaumentodos mar-cadoresdeinflamac¸ãoeumaeosinofiliaperiféricaintensa. Os títulos de IgE e de fator reumatoide também estão frequentementeelevados.OsANCAestãotipicamente pre-sentes (40 a 70% dos doentes), mostrando um padrão peri-nuclearemquasetodososcasos(p-ANCA)5.

Odiagnósticodiferencialincluiasíndrome hipereosino-fílicaidiopática,apneumoniaeosinofílicacrónicaevárias outrasformasdevasculitesistémica5,34,35.

Tratamento

O tratamento da SCS é similar ao de várias outras vas-culites de pequenos vasos. A base do tratamento são os

corticosteroides em doses elevadas que são geralmente iniciados numa dose de 1mg/kg/dia (máx. 60mg/dia) de prednisolona, mantida até ao controlo dos sintomas, com regressão lenta (durante um ano). Em doentes que apresentam fatores que predizem um mau prognóstico (envolvimentodosistemanervoso central,renal,cardíaco ougastro-intestinal),acombinac¸ãodecorticosteroidescom ciclofosfamidaproduziumelhoresresultadosnocontroloe manutenc¸ãodaremissão6,comparativamenteaos

corticoi-des isolados e é assim recomendada para a induc¸ão de remissãopelasrecomendac¸õesdaEuropeanLeagueAgainst Rheumatism(EULAR) para a abordagemdas vasculites de pequenose médiosvasos.Nocaso dedoenc¸aque nãopõe emriscoavidaouórgãos,omesmodocumentorecomenda ousodemetotrexato comoumaalternativa menostóxica àciclofosfamida.Paraa manutenc¸ão deremissãoé usada acombinac¸ãodecorticoidesemdosesbaixascom azatiopi-rina,leflunomidaoumetotrexato36.

Os doentes que não respondem ou recidivam apesar da terapêutica adequada são sujeitos a outras terapêu-ticas, incluindo o micofenolato mofetil37, imunoglobulina

humana intravenosa38 e agentes biológicos incluindo o

rituximab39,ointerferão-alfa40,41,eomepolizumab17,42.

Prognóstico

Naausência de tratamento, a SCS pode ser rapidamente fatal após o estabelecimento da vasculite. O tratamento comcorticoides levaa uma respostasignificativa em 90% dosdoentes,emboracercade20%venhamanecessitarde terapêuticacitotóxicaadicional.

O tratamento altera drasticamente o prognóstico dos doentescomSCS(até90%desobrevivênciaaumano).No entanto,apósasuspensãodoscorticoides,observa-se reci-divaematé25%dosdoentesnosprimeiroscincoanos,sendo aasmaeasinusiteasmanifestac¸õesmaisfrequentes43.A

maioriadasrecidivasapresentaumaboarespostaaos corti-coides.Aprincipalcausademorbilidadecrónicaemdoentes comSCSéadoenc¸aneurológica37,43.

A mortalidade nos doentes com SCS é geralmente o resultado de envolvimento cardíaco ou GI, com miocar-dite,insuficiênciacardíaca,pericardite,oumesmovasculite coronárianoprimeiroehemorragia,perfurac¸ãoounecrose entero-cólica no segundo. O acidente vascular cerebral hemorrágicopodesertambémumacausademorte.

Através da análise de um elevado número de casos, Guillevinecolaboradoresreconheceramcincofatores asso-ciadosaumpiorprognóstico,quandopresentesàalturado diagnóstico(cardiomiopatia,envolvimentodoSNC,doenc¸a GI grave, insuficiência renal com creatinina superior a 1,58mg/dleproteinúriasuperiora1g/dia)44.

Métodos

ForamincluídostodososdoentesinternadosnumServic¸ode MedicinaInterna quecumpriamoscritériosdediagnóstico daACRparaSCS,duranteumperíodode24anos.As carac-terísticasclínicas,laboratoriais,imagiológicaseosdadosdo seguimentoforamobtidosatravésdaconsultadosprocessos clínicos.

(4)

Tabela 1 Características clínicas dos doentes à altura do diagnóstico: (MM: mononeurite multiplex; PN: polineuropatia; RP:radiculopatia). Doente 1 2 3 4 Idade 46 34 60 53 Género F M F M Asma(anos) +(2) +(4) +(9) +(3) Sinusite + + + + Sintomassistémicos + + + +

Sistemanervosoperiférico MM PN PN RP

Gastrointestinal + - + + Cardiovascular - - - + Renal - - - -Pele + + - +

Resultados

Doentes

Foramincluídos quatrodoentes (2H/2M), com umaidade médiade48anos(34-60).

Resumosdoscasos

Doente 1. Uma doente do sexo feminino, de 46 anos apresentou-se com perda de peso, parestesias, mialgias, artralgiaseperdadeforc¸amuscularnosmembrosinferiores no último mês e dor abdominal, diarreia, febre e sudo-resenoturnanosúltimosquatrodias.Tambémsequeixava detosseprodutivae agravamentodadispneianosúltimos dias. Os antecedentes patológicos incluíam asma e sinu-site nos últimos dois anos. O exame físicorevelou lesões maculo-papulares no pé esquerdo, hiporreflexia generali-zadaeperdadaforc¸amuscularnosmembrosinferiores.As análisessanguíneasmostrarameosinofiliamarcadaea biop-siacutâneamostrousinaisdevasculitecomeosinófilosnas paredesdosvasos.Otratamentocomprednisolonaoralem doseelevadaeciclofosfamidalevouaumarápidaresposta eadoentemanteve-seassintomática.Trêsanosmaistarde foidiagnosticadaumarecidivaquefoitratadacomomesmo regime,combonsresultados.

Doente2. Um doente dosexomasculino, de34 anosfoi internadodevido a queixasde astenia, anorexia,mialgias difusaseperdadepesonasúltimastrêssemanas.Tambémse queixavadedispneia,tosseprodutivaelesõescutâneasnos membrosinferiores.Dosantecedentesdestacava-seasmae doenc¸adosseios paranasaiscompolipose háquatroanos. Oexamefísicofoicompatívelcompolineuropatia.Os tes-tessanguíneosrevelaramumaeosinofiliasignificativaeaTC torácicarevelouuminfiltradopulmonar.Abiopsia dapele mostrouaspetos degranuloma deChurg-Strauss e eosinó-filos extravasculares. O tratamento com prednisolona em doseelevadacausouumamelhoriarápidaesignificativaeo doentemantém-seemseguimentoporasmacontrolada.

Doente 3. Uma doente do sexo feminino de 60 anos apresentou-se com dor e parestesia na mão esquerda e perna direita há umasemana e dor abdominal e diarreia hádoismeses.Tinha-lhesidodiagnosticadaasmaerinitehá 9anos.Noexameneurológicoapresentavaataxiaeperdade forc¸amuscularnosmembrosinferiores.Ostestessanguíneos

mostraram eosinofilia marcada e a imagiologia torácica revelou infiltrados pulmonares migratórios. A biopsia da mucosa cólica foi compatível com colite eosinofílica. Foi tratadacomprednisolonaegabapentina eposteriormente ciclofosfamidaev,masmantevequeixasneurológicas signifi-cativas.IstolevouaousodeimunoglobulinahumanaEVcom melhoriaapós6ciclos.

Doente 4. Doente do sexo masculino, de 53 anos com uma história de 4 meses de vasculite cutânea nos mem-bros inferiorese dorabdominale diarreia noúltimomês. Osantecedentesincluíamasmadesdehá3anos,alcoolismo até18mesesantesemiocardiopatiadilatadacom insufici-ênciacardíacagravehádoisanos.Oexamefísicomostrou hiporreflexia,hipostesiae petéquiasnosmembros inferio-res.As análises ao sanguerevelaram eosinofiliae umaTC dos seios paranasais mostrou sinais de sinusite.A biopsia damucosacólicafoicompatívelcomcoliteeosinofílicaea biopsiacutânearevelouvasculiteeosinofílica.Otratamento comprednisolonacausouumarápidamelhoriadetodasas queixas,masodoentefaleceuduassemanasapósaalta,de causaindeterminada.

Descric¸ãodacasuística

Características clínicas. As características clínicas dos doentesestãoresumidasnatabela1.

Todososdoentesapresentavamenvolvimentosistémico, pulmonar e do sistema nervoso. Os sintomas sistémicos incluíramfebre,perdadepesoemialgiasdifusas.Todosos doentes tinhamasma,e doisapresentavam também quei-xasdeagravamentodadispneiaetosseprodutiva.Embora apenas dois doentes se queixassem de parestesias, todos apresentavam alterac¸õesnoexameneurológico, incluindo fraquezamuscularem doisdoentesehipoestesianos qua-tro.OtratoGIestavaafetadoemtrêsdoentes,comdiarreia edorabdominal.

Foramencontradasalterac¸õescutâneasemtrêsdoentes (sinaisdevasculitenosmembrosinferiores).

Apenasumdoentetinhaenvolvimentocardíaco,queera provavelmentepreexistenteàSCS,umavezqueteveinício antesdetodosossintomas,excetoaasma,eestava prova-velmenteassociadoaoabusoalcoólico.Nãoforamrelatadas alterac¸õesrenais,oftálmicasouarticularesemnenhumdos doentes.Nãoforamtambémdescritasalterac¸õesdosistema nervosocentral.

(5)

SíndromedeChurg-Strauss:casuística 5 Tabela2 Característicaslaboratoriaisdosdoentes(VS:velocidadedesedimentac¸ãoeritrocitária;PCR:proteínaCreativa ---normal<0,5;IgE:imunoglobulinaEtotal;N/D:nãodisponível).

Doente 1 2 3 4

Leucócitosperiféricos(céls/mm3) 26.500 19.100 44.200 15.800

Eosinófilosperiféricos(céls/mm3) 10.600 8.800 35.300 7.800

VS(mm) 56 53 17 82

PCR(mg/dl) N/D 5.9 3 9

Fatorreumatóide(UI/ml) N/D 0 2.650 301

IgE(UI/ml) N/D 8.950 0 2.320

ANCAs N/D Neg Neg Neg

Antecedentes patológicos. Dos antecedentes patológicos dosdoentesrealc¸a-seodiagnósticopréviodeasmaemtodos eles, dois dos quais medicados com ARLs. Um dos doen-tes apresentava miocardiopatia dilatadacom insuficiência cardíacagrave,provavelmentedevidaaalcoolismocrónico.

Alterac¸ões laboratoriais. O resumo das características laboratoriaisdetodososdoentes éapresentado natabela

2.

Todososdoentestinhamleucocitoseeeosinofiliaàaltura do diagnóstico, com os eosinófilosno sangue periférico a variar entre os 7800 e os 35.000 G/L. A velocidade de sedimentac¸ãoeritrocitáriaestavaelevadaemtrêsdoentes. OsníveisdeIgEforamquantificadosemtrêsdoentese esta-vamelevados em dois deles.Três doentes foramtestados paraANCA,masnenhumfoipositivo.

Três doentes apresentavam alterac¸ões relevantes na radiografiadetórax,comapenasummostrandoos infiltra-dosmigratóriosgeralmenteassociadosàSCS.ATCtorácica foirealizada em três doentes, revelandoalterac¸õestanto nointerstíciocomonosgrandesbrônquios(fig.1).

Análisehistológica. Todososdoentestiveramconfirmac¸ão histológicadodiagnósticodevasculite.Doisforamsujeitosa biopsiacutânea,umabiopsiadamucosacólicaeoquartofoi sujeitoabiopsiacutâneaedamucosacólica.Asbiopsiasda mucosacólicamostraramaspetosdecoliteeosinofílicaativa

Figura 1 Tomografia computorizada de alta resoluc¸ão do doente1 mostrandoum infiltradoparenquimatoso na língula elobo inferioresquerdoeespessamentointersticial peribron-covascular.

(fig.2)easbiopsiasdapelerevelaramaspetosdevasculite eosinofílicaemdoisdoenteseoaspetotípicodogranuloma deChurg-Straussnoutro.

Tratamento. Todososdoentesreceberamtratamentocom altasdosesdecorticoidessistémicos(≥1mg/kg/diade pred-nisolonaouequivalente).

Observou-seumarespostaimediataerelevanteemtodos os doentes, com melhoria de todas as queixas exceto as neurológicas em doisa quatro dias.As queixas neurológi-casobrigaramàadic¸ãodeoutrofármacoemtrêsdoentes, nomeadamenteciclofosfamidanumcaso,gabapentina nou-troegabapentinaeciclofosfamidaseguidosdegabapentina eimunoglobulinahumanaEVnoutro.

Seguimento. Nenhumdosdoentesfaleceuduranteo inter-namento.Trêsestavamassintomáticos à alturadaaltado hospital,12a46diasapósadatadeinternamento.Ooutro doentemantevequeixasneurológicasimportantes (pareste-siasdosmembrossuperiorescomperdadefunc¸ão).

Um dos doentes foi perdido para o seguimento após 3anos.Outrofaleceuduassemanasapósaalta,em casa, provavelmentedevido a agravamento dasua insuficiência cardíacasecundária a miocardiopatia dilatada que estava presenteantesdodiagnósticodeSCS.Osoutrosdoisdoentes mantêm-seemseguimento,umdeles(doente3)mantendo queixasdeasmaeparestesiaintensasdosmembros superio-resqueapenasmelhoraramapós6ciclosdeimunoglobulina humana endovenosa. O outro doente (doente 2) mantém apenasqueixasdeasma.

Recidivas. Foiregistadaapenasumarecidiva,nodoente1, trêsanosapós o diagnóstico,caracterizada por poliartral-gias,lesões cutânease leucocitose com eosinofilia, todas com umaboa resposta à terapêutica com prednisolona e ciclofosfamida.

Discussão

Ascaracterísticasclínicasedemográficasdosnossosdoentes sãosimilaresàsdecasuísticaspreviamentepublicadas45---47.

OfactodedoisdosdoentesestaremmedicadoscomARLs antesdodiagnósticonãoéparticularmenterelevante,uma vez que esses fármacos são frequentemente prescritos a doentescomasmaatópica,talcomo osdoentes comSCS. Uma discussão detalhada daassociac¸ão entre ARLs e SCS estáparaalémdesteartigo epodeserencontradanoutro local9.

Éimportante,noentanto,sublinharaaltataxade envol-vimentoneurológiconosnossosdoentes,emboraapenasum

(6)

Figura2 Biopsias cólica (esquerda)ecutânea (direita) mostrandoum infiltrado densodeeosinófilos namucosa cólica enas paredesdosvasosdapele(HE400x).

demonstrasseoachadoclássicodemononeuritemultiplex. Aradiculopatiajáfoidescritapreviamentenumdoentecom SCS,maspareceserumachadoraro48.

Considerandoasanálisessanguíneas,édesalientarque nenhumdos três doentes testadosfoi positivo para ANCA ao contrário damaioria das sériespublicadas. Isto deve-seprovavelmenteaopequenonúmerodedoentesnanossa série.

Asdificuldadesnotratamentodascomplicac¸ões neuroló-gicassãotambémrelevantes,emboraistotambémjátenha sido referido noutras séries. Os bons resultados obtidos com o uso de imunoglobulina após a falha dos corticoi-des, gabapentina e ciclofosfamida já foram previamente descritos49.

Embora apenas estejam disponíveis dados de segui-mento a longo prazo para dois doentes, a ausência de mortalidade durante o internamento está de acordo com o bom prognósticoreportado na literatura, após diagnós-ticoeterapêuticas atempadosecorretos.Emboraumdos doentestenhafalecidoduassemanasapósaalta,tal acon-teceu, provavelmente, devido à sua patologia cardíaca prévia.

Emconclusão,aSCSéumadoenc¸arara,masdefácil diag-nóstico,casoexistaumaltograudesuspeic¸ão.Éimportante quetodososclínicosquelidamcomdoentescomasmaou vasculitetenhamconhecimentodascaracterísticasclínicas, imagiológicaselaboratoriaisdestadoenc¸a,umavezquea terapêuticaatempadaecorretatemconsequências impor-tantesquernaqualidadedevidaquernasobrevivência.

Conflito

de

interesses

Osautoresdeclaramnãohaverconflitodeinteresses.

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