27 de junho de 2017
Desaceleração na América Latina: o papel dos fatores
externos
•
O crescimento econômico tem sido decepcionante por toda a região, a despeito de preços de ativos bem
comportados. Essa frustração com a atividade pode ser atribuída a fatores e eventos idiossincráticos, mas
suspeitamos que determinantes comuns tenham um papel tão ou mais importante.
•
A propósito, identificamos três fatores externos (crescimento mundial, crescimento da China e risco de
crédito soberano de países emergentes) que explicam uma grande parcela do crescimento de cada um
dos principais países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru).
•
De fato, a maior parte da desaceleração observada nos países da região ao longo dos últimos anos
pode ser atribuída principalmente a um cenário externo mais adverso em relação ao do período de
expansão dos termos de troca.
•
Em alguns países (principalmente Brasil, mas também Chile e Colômbia), contudo, o crescimento está
pior do que seria justificado pelas variáveis externas, indicando que fatores idiossincráticos também têm
sido um entrave ao crescimento.
Entre 2004 e 2007 e entre 2010 e 2012, com o boom de commodities e elevado crescimento mundial, a região
1cresceu em média 5,6% a.a. Em período mais recente (2013-2016), no entanto, houve uma desaceleração
considerável, e o crescimento médio recuou para 1,9% a.a.
1
Estamos considerando apenas as principais economias da região para o cálculo desta média simples: Argentina, Brasil,
Chile, Colômbia, México e Peru.
5,6%
1,9%
-2%
-1%
0%
1%
2%
3%
4%
5%
6%
7%
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
Desaceleração na América Latina nos
últimos anos
Esse padrão foi observado em todas as principais economias da região, e a sincronia nos movimentos sugere
que foram fatores externos (e não idiossincráticos) que provocaram tal desaceleração.
Para testar essa hipótese, estimamos um modelo para cada um dos países da América Latina analisados, em
que o crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) é explicado por um conjunto de variáveis
internacionais. O valor projetado por esse modelo determina qual deveria ter sido o crescimento econômico
levando em conta apenas os fatores externos comuns às economias emergentes.
Para obter as variáveis explicativas, usamos a Análise de Componentes Principais (Principal Component
Analysis - PCA). Com isso, podemos transformar um conjunto grande de dados em um número menor de
variáveis, os chamados componentes principais.
Partimos do crescimento de uma amostra de economias emergentes
2no período de 2000 até 2016 e extraímos
os componentes principais, isto é, extraímos a tendência comum à variação do PIB desses países. Excluímos
desse grupo os países da América Latina para que não haja nenhum tipo de endogeneidade, isto é, para que
os componentes principais expliquem a tendência comum de diversas economias emergentes sem serem
impactados pelo crescimento da própria América Latina.
Utilizaremos nas regressões apenas os dois primeiros componentes principais como variáveis explicativas, já
que eles explicam mais da metade da oscilação do PIB dos países emergentes na nossa amostra. Mais
especificamente, o primeiro componente explica 50%, enquanto o segundo explica 21%. O primeiro
componente principal é fortemente correlacionado ao crescimento do PIB global. Já o segundo componente
parece estar relacionado ao crescimento da China ponderado pelo tamanho da economia chinesa
relativamente ao de outras economias emergentes (isto é, uma medida para o “impulso” da China às
economias emergentes) e com o risco de crédito soberano de países emergentes ex-América Latina
3(uma
medida de condições financeiras para economias emergentes).
Os gráficos abaixo mostram a comparação entre o crescimento observado em cada país e os projetados
usando apenas os fatores externos. O poder explicativo das regressões (medido pelo R2) é elevado, ou seja, o
crescimento mundial, o impulso fornecido pela China e a percepção de risco de economias emergentes
capturam parte relevante da dinâmica de crescimento dos países da América Latina.
2
República Tcheca, Hungria, Índia, Indonésia, Polônia, Rússia, África do Sul, Tailândia, Turquia.
3O impulso fornecido pela China para as economias emergentes é medido pela variação do PIB nominal da China dividido
pelo PIB nominal dos emergentes (ex-China). A aversão ou apetite aos ativos de risco de economias emergentes é medido
-15%
-10%
-5%
0%
5%
10%
15%
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
Argentina
Fonte: IMF, Itaú
Realizado
Projetado com base nos
fatores externos
Crescimento anual
R2 = 56%
-6%
-4%
-2%
0%
2%
4%
6%
8%
10%
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
Brasil
Fonte: IMF, Itaú
Realizado
Projetado com base
nos fatores externos
Alguns pontos interessantes podem ser extraídos desses gráficos:
•
Boa parte da desaceleração observada na América Latina nos últimos anos pode ser atribuída ao cenário
internacional menos benigno do que aquele observado no período que antecedeu a crise de 2008.
•
Em alguns países, no entanto, fatores idiossincráticos (o resíduo de nossas regressões, ou a distância nos
gráficos entre o crescimento observado e o projetado a cada instante) tiveram um papel relevante.
•
Em particular, no Brasil houve uma profunda recessão nos últimos anos, que não é explicada pelos fatores
externos. O modelo corrobora que a deterioração dos fundamentos da economia brasileira nos últimos
anos teve um papel relevante na contração da economia.
•
Em menor medida, o Chile também vem apresentando desempenho pior do que o cenário externo sugeriria
(possivelmente uma consequência das incertezas geradas pela agenda de reformas). Na Colômbia, a
atividade também vem mais recentemente apresentando uma performance pior do que a apontada pelo
cenário externo.
-3%
-2%
-1%
0%
1%
2%
3%
4%
5%
6%
7%
8%
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
Chile
Fonte: IMF, Itaú
Realizado
Projetado com base
nos fatores externos
Crescimento anual
R2 = 77%
0%
1%
2%
3%
4%
5%
6%
7%
8%
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
Colômbia
Fonte: IMF, Itaú
Realizado
Projetado com base
nos fatores externos
Crescimento anual
R2 = 69%
-6%
-4%
-2%
0%
2%
4%
6%
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
México
Fonte: IMF, Itaú
Realizado
Projetado com base
nos fatores externos
Crescimento anual
R2 = 66%
0%
1%
2%
3%
4%
5%
6%
7%
8%
9%
10%
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
Peru
Fonte: IMF, Itaú
Realizado
Projetado com
base nos fatores
externos
Crescimento anual
•
Por outro lado, no México a economia tem apresentado desempenho mais robusto do que o apontado pelo
modelo. Em nossa opinião, parte da explicação está nas reformas implementadas recentemente (como a
do setor de telecomunicações e a trabalhista), que permitiram uma melhora nos salários reais e forte
expansão do emprego formal, impulsionando o consumo. O bom desempenho da economia americana
relativamente à economia global também pode explicar por que o México está crescendo acima do
projetado.
•
Interessante notar que, na Argentina, os fundamentos externos foram consistentes com a recessão sofrida
pela economia no ano passado. De fato, o crescimento da Argentina se mostra mais sensível aos fatores
externos. Em nossa opinião, as políticas macro praticadas no país ao longo de boa parte das últimas duas
décadas têm tido caráter pró-cíclico, exacerbando, assim, as flutuações causadas pelas mudanças no
cenário externo.
Observamos que, de acordo com nossas próprias projeções, os fatores externos são consistentes com uma
aceleração em 2017. A economia global provavelmente irá crescer com mais força, e o segundo componente
principal (que combina o impulso da China com condições financeiras para mercados emergentes) também
aponta para uma taxa de crescimento mais forte na região. De fato, projetamos que o crescimento na América
Latina em 2017 ficará acima do de 2016, sobretudo pela saída de Argentina e Brasil da recessão. Notamos,
contudo, que, mesmo com condições externas mais favoráveis, projetamos uma leve desaceleração neste ano
para México, Peru e Colômbia. Enquanto, no Chile, vemos o crescimento estável em relação ao registrado no
ano passado.
Julia Gottlieb
João Pedro Bumachar
Anexo: Identificação do primeiro e do segundo componente principal
Ao longo do texto, argumentamos que o primeiro componente principal estava relacionado ao crescimento
mundial, enquanto o segundo era uma função do impulso fornecido pela China para economias emergentes e
do apetite por ativos de risco. Aqui, mostramos como chegamos a tais conclusões, econometricamente.
Começamos regredindo o primeiro componente principal no crescimento mundial. Os resultados são
apresentados na tabela e no gráfico abaixo. O poder explicativo desta regressão é elevado, indicando que o
crescimento mundial captura boa parte da evolução do PC1.
Coeficiente
P-Valor
Constante
-5,7
0,00
Crescimento do mundo
150,4
0,00
R2
Variável dependente: primeiro componente
(2000 - 2016)
O segundo componente principal, por construção, é ortogonal ao primeiro. Ou seja, esse componente não tem
qualquer relação com o primeiro. Assim, regredimos o segundo componente principal no idiossincrático do
impulso fornecido pela China e no idiossincrático do apetite/aversão ao risco, ou seja, nas parcelas do impulso
da China e da percepção de risco que não dependem do crescimento mundial
4. Os resultados são
apresentados na tabela e no gráfico abaixo. O poder explicativo desta regressão também é elevado, indicando
que o crescimento da China e a percepção de risco de emergentes captura boa parte da dinâmica do PC2.
4
Isso é feito extraíndo o resíduo de uma regressão do impulso da China no crescimento mundial e do logaritmo do EMBI
também no crescimento mundial.
-8,00
-6,00
-4,00
-2,00
0,00
2,00
4,00
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
Primeiro componente principal
Fonte: IMF, Itaú
Realizado
Projetado
Coeficiente
P-Valor
Constante
0,1
0,70
Impulso da China
36,2
0,00
EMBI
-1,5
0,00
R2
Variável dependente: Segundo componente
(2000 - 2016)
83%
-3,00
-2,50
-2,00
-1,50
-1,00
-0,50
0,00
0,50
1,00
1,50
2,00
2,50
00 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16
Segundo componente principal
Fonte: IMF, Itaú
Realizado
Pesquisa Macroeconômica – Itaú
Mario Mesquita – Economista-chefe
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