VOLUME XIX 1 9 7 6
FACULDADE DE DIREITO
evolução da humanidade, a c n ideraçã ahistóri(/ do mod de produçã capitali ta. Vt::jam c 111 e rclaci na este facto com a teoria do excedente.
A geração do exc dente e a sua apropriaç:' por uma classe social que não participa directamente no process produtivo remete a análise para a temática da e:\ploração. Mas a luta de cla es põe neces ariamente em questão o istema vigente, pelo que se torna óbvi que paradigma básico da ciência económica burgue a se apresenta inc011l-patí el com uma teoria da expl ração económica. A socie-dade tem que ser harmoniosa para er eterna (136).
e o exc dente económico é a parcela do produto tot.-u que não e tá imediatamente IIillwladn à reproduçã do istema, incluindo nesta o consumo Ilecessário dos produtores directos, é claro que o excedente económico constitui aquela parte da produção anual de uma sociedade cujo uso é, em princípio, discrício/Ulrio. E dizemos em princípio, porque a utilização do excedente não é algo de indeterminado, antes depende da estrutura económica, social e política das sociedades
(137).
Precisamente porquetc-se P. M. SWEEZY, «Toward a critique f economicst, MOI/ti"!, Review,
Janeiro de 1970, págs. 1-9, e também T. S. KUHN, Tile strl/cture o{
sciell-tific rel'o/,ltiol/, University of Chicago Press, 1962.
(136) Veja-se também J. ROBINSON, II/trodl/cci611 a ln ecollomia marxista, Iglo XXI, México, 196 , p. 21.
(137) O excedente destina-se a usos que são tão necessários ao sistema em que se gera como o consumo dos produtores directos e, neste sentido, é totalmente errado tratar o excedente gerado numa sociedade como produção upérRua. A confusão sobre este ponto levou H. PEARSO a negar a validade do conceito de excedente num artigo que significativamente intitulou «The economy has no surplus: Critique oi a theory of developmentt (em Trade alld II/arket iII the ear/y
ell/pires, K. POLA VI e outros, ed., Glencoe, The Free Press, 1957). Veja-se também a e te respeito: «The economy has no surplus ?, de M. HARRlS, AII/ericall Alltilrop%gist, n. 061,1959, págs. 185-199; e .A note
ão as institUlçoes que delimitam o sistema económico
as responsáveis tanto pela dimensão como pelo modo de
utilização do excedente (incluindo o que deve entender-se por consumo necessário), é que a análise do excedente leva
logicamente ao estudo dos modos de produção alternativos,
à racionalidade comparada dos sistemas ecoll6micos para prover às necessidades sociais; ao estudo das diversas formas de desper-dfeio (138). Vemos que também nesta perspectiva se questiona a vigência do sistema. Nas palavras de Baran: « ... O próprio conceito de excedente económico potencial transcende o horizonte da ordem social existente» (139). Só que assumir esta
posição pressuporia considerar «o presente como história».
A noção de excedente no quadro da teoria dos
sistemas económicos pode contemplar-se em função da capacidade de crescimento inerente a cada sistema, o que, no fundo, é uma ideia que já está contida no parágrafo anterior. Não obstante, importa desenvolver, dentro de certos limites, uma teoria do crescimento que não interfira com o paradigma básico (140). O certo é que o problema of clariflcation on economic surplust , de G. DALTON, AlIlerican AI/tllro-pologist, n. o 62, 1960, págs. 483-490.
No caso concreto de DALTON, é de sublinhar o facto paradoxal de postular um conceito de excedente que pretende operativo (de acordo com a ua metodologia própria), o que claramente reduz o seu interesse te6rico, e, não obstante, não consegue demonstrar de modo nenhum a sua
suposta utilidade prática, a menos que se eliminem os seus pressupostos de partida, porque para chegar à conclusões que DALTON extrai é irrelevante o conceito de excedente (consultem-se as págs. 488 e ss.). (138) A teoria dos sistemas econónúcos deve explicar porque é que o excedente se materializa, digamos, em pirâl1Údes, catedrais ou instalações indu triais. É evidente que uma parte do produto social deve consistir em bens necessários de consumo para a subsistência da população trabalhadora, mas tal não carece de maior explicação.
(139) P. A. BARAN, La ecollolllía política deI creci/l1iellto, F. C. E., México, p. 41.
(140) Não é casual que o renovado interesse pela problemática do crescimento venha acompanhado em algtms casos pela reposição
central que ab rve a atenção do economi ta , sobretudo
a partir do triunfc do marginali mo é da utilização
óptima do recurso dados, os movimento «na margem»,
mais do que increment dos referidos recursos. Por
conseguinte a temática da aCHI1H~lação foi relegada para
egundo plan e com ela o intere se que merece o conceito de excedente económico (141).
A este modo de er poderá bjectar-se que também
os economista clássicos foram o porta-vozes da burguesia
a cendente-consciente ou inc nscientemente, isso é o que
meno importa-c, apesar de tudo elaboraram uma teoria do valor na qual o conceito de excedente ocupava um lugar central, end certo que a sua análise estava limitada pelo
paradigma básico da ciência económica burguesa. Não
ha erá uma contradição na nossa maneira dever o problema? O que acontece é que temos que contemplar a econo-mia política clássica em toda a sua complexidade dialéctica: os clás ico foram alústóricos na medida em que não
compreenderam que o capitalismo é um sistema econónúco transitório (o que, justamente, Marx lhes reprovou); daí as suas debilidades. Mas, por outro lado, viram o carácter
contingente das formações econónúcas pré-capitalistas,
o qual procuraram pôr a claro por todos os meios em
da questão do ex edente. De qualquer modo, parece acertado concluir que os limites dentro dos quais pode actuar autonomamente o conceito de excedente são bastante restrito .
(141) CHARLES BEITELHEIM cita também, como causa secundária do desaparecimento da noção de excedente económico, «a preocupação do formalismo e de grande rigor nas di posições. (.EI excedente econó-mico, factor há ico de uma política de desarrollot, em Planeaci6tJ y crecimiellto acelerado, F. C. E., México, 1965, p. 110). Se tivermos em conta as dificuldade analíticas que este conceito apresenta, não é reaj-mente de e tranhar que o profis ionais da economia e sintam melhor instalados na elaboração de modelos mais ou menos sofisticados do que no estudo do sempre escorregadio conceito de excedente.
nome da «razão objectiIJ{[» (142); aí reside o seu progressismo.
Os condicionalismos que pesavam sobre a sua análise
- e não poderia ser de outra maneira - impediram-nos de
desenvolver uma teoria da exploração, mas favoreceram o estudo de problemas que incidiam directamente no terreno dos sistemas económicos e na teoria da acumulação.
Torna-se interessante analisar, já mais em concreto,
o modo como as alterações metodológicas e
epistemoló-gicas que se produzem do seio da ciência econ6mica
afectam o conceito de excedente económico e conduzem
fmalmente à sua liquidação.
1. Relativamente à perspectiva subjectivista, a questão
crucial que deve assinalar-se é a passagem do objecto da
análise da produção para o consumo, da oferta para a
procura, do valor para a utilidade, das relações sociais
estabe-lecidas entre os homens através das coisas às relações que se
estabelecem entre o homem e as coisas (através dos homens).
Na realidade, a evolução não é tão esquemática.
Desde a perspectiva ricardiano-marxista, em que as
rela-ções de produção constituem o centro de gravidade da
análise económica, até à perspectiva praxeol6gica de
Robbins, medeiam uma série de perspectivas intermédias.
Com a «economia vulgar») passa-se das relações de
pro-dução às relações de troca e, até ao advento do
margina-lismo, não prepondera na análise o «lado da procura»,
havendo mesmo que distinguir, dentro desta corrente
doutrinal, virias posições. Não são iguais, por exemplo,
a escola austríaca e a escola de Lausana, nem é o mesmo
falar de utilidades ou de «preferências», de uma oferta dada
de factores ou de factores que têm um preço de oferta
d óptica abertamente wUlaterai ou de sínteses supo
ta-mente dialéctica (recorde-se a afirmação de Marshall de
que são a dua lâmina da tesouras que determinam o
preç ). No entant ,quai quer qu ejam e ta perspectivas,
todas elas assental1lnuma teoria su!Jjectiva do IIa/or e « ... uma
teoria-procura
é
uma generalização acerca do consumoe da troca, acerca da relação entre os homens como
consumidore e a mercadoria resultantes da produção.
Qualquer problema que inclua conceito de excedente é
um problema acerca da cone ão entre um rendimento dado e a actividade produtiva. Leva implícito, por
conse-guinte, um conceito de custo. Custo e excedente aparecem aqui como termo correlativo. Um princípio que
inter-preta o valor puramente em termos de procura só pode
definir a «contribuição» produtiva de uma pessoa ou de
uma classe de acordo com o valor do que resu Ira; não
pode defini-la de acordo com a actividade ou processo
em que a contribuição tem ori~elll, uma vez que não
inclui nenhuma declaração acerca de uma relação produtiva
desta classe. Por conseguinte, qualquer participação na
produção que consiga um preço, qualquer agente que
apareça no mercado, tem necessariamente que ter feito
uma «contribuição», considerando esta como sinónimo do
valor que os consumidores atribuiram aos seus serviços, directa ou indirectamente» (143).
A transcrição desta longa citação, que consideramos definitiva,exprime perfeitamente dois fenómenos cruciais: 1.0 - que, segundo a teoria da utilidade marginal, não
existe excedente económico; 2.° - que, segundo a mesma concepção subjectiva do valor, tudo é produtivo, com o que desaparece qualquer possibilidade de julgar a
!idade do sistema. O conceito de trabalho improdutivo escapa ao campo da ciência económica para passar para o terreno dos chamados (~juizo~ de valor».
Os teóricos mais destacados da escola subjectivista tiveram plena consciência destes fenómenos e tentaram dar resposta às limitações que derivam de uma teoria subjectiva do valor. A economia do bem-estar acreditou encontrar un1.a resposta para o que «deve seD>, medindo tudo pelo padrão de um sistema de concorrência perfeita, encontrando desta forma a sua própria teoria do «exce-dentc», através da diferença entre os valores que assumem as variáveis económicas em condições de monopólio ou oligopólio e em condições de concorrência perfeita. Nesse caso, o lucro (<normaL> aparece como um custo, o que não deixou de provocar curio as reacções
(144),
enquanto ossuperlucros não encontram justificação. A concorrência
«dinâmica» acabou com esta última pretensão (145). Por outro lado, o sistema de Pigou tropeçou com uma dificul-dade inultrapassável na teoria da distribuição, o ponto mais vuh1.erável da teoria subjectivista, uma vez que para definir
um óptimo único há que postular previamente uma
distribuição do rendimento. Se repararmos bem, a teoria do bem-estar estuda mais a racionalidade dos agentes do que dos sistemas económico
(146)
e conduz a uma tauto-logia ou, se se aplicarem os seus pressupostos de uma forma realista, a uma demonstração das limitadas possibilidades(144) Esta é uma questão ae ... rca da qual existem diferenças signi -ficativas entre os economistas ortodoxos, ma a razão última das suas
divergências apenas tem que ver com a problemática do excedente.
(145) Note-se como a economia do bem-estar liga «excedente
-e «razão-objectiva». Veja-se P. A. BARAN, op. cit., págs. 41 e ss.
(146) Sobre a definição de uma outra forma de racionalidade
pode consultar-se M. GODELlER, Racio/lalidad e irracio/lalidaJ en la eco-/loll/ia, Siglo XXI, México, 1967.
d modo de produção capitalista, em comparação com o ocialismo para e atingir um autêntic bcm-estar social (147). O outro fen' meno que havia que resolver podemos resumi-lo no termo eguintes. e todo o preço das mer-cadorias se traduz em cust s, de onde urge o aforr (148)? Por um lad , era uma contradição I' gica supor que e te cu tos são objectivo, porque entã e fumava- e o aforro e, por outro lado, havia que justificar a participação dos «factor da produção» diferentes do trabalho (note-se: trabalho, não trabalhadore) n produto. Era preciso que houvess um «sacrifício», um Cllsto sul'jectivo que justificasse a retribuição do capital (isto
é,
a participação dos capitalistas). Com esta per pectiva, o marginalismo afasta- e aberta-mente do pensamento clássico. Os clássicos sempre conce-beram os custos como algo objectiv, usceptíveis de serem expressos em termos do produto que originam. Os custos clássicos são custos reais, o que, diga-se entre parêntesis, nada tem que ver com o famoso «custo real» marshalliano. Chame-se «abstinência», «espera», < <Impa-ciência» ou «substimação das neces idades futuras», a questão de fundo
é
semelhante.Analogamente, a teoria que defendia a produtividade marginal do capital afundava-se quando se tratava de explicar por que razão esta «produtividade» pertence aos capitalista, enquanto que a teoria do custo de oportuni-dade esquecia-se de explicar porque
é
gue W1S têm «opor-tunidades» de incorrer em custos e outros não. O margi-(147) O que M. DOBB realiza em Eco/Jol/lía dei biellcstar y econol/lía dei socialismo, Siglo XXI, Madrid, 1972.(14) E significativa a mudança de terminologia: do conceito
teórico de excedente pas a-se à noção positiva de aforro. DOBB alienta com a sua agudeza habitual que ta palavra 'aforro' é um produto da economia privada ... - (EI desarrollo de la eco/lol/lía soviética desde 1917,
nalismo dá por pressupostas determinadas questões de base que são precisamente aquelas que é preciso explicar (outra demonstração clara desta proposição é a teoria do capital
no equilíbrio geral de Walras).
Em segundo lugar, fracassa ao explicar a teoria do
valor por elementos que não são independentes desta.
Em terceiro lugar, escamoteia as relações sociais que
enquadram a actividade económica. Vejamos um exemplo
neste sentido através de uma das suas formulações mais
coerentes da teoria do juro: «o juro nasce da interacção
entre a preferência temporal ('psicológica') e a
produti-vidade física do investimento» ('49). Assim, pois, há que
demonstrar:
a)
que a produtividade do capital ultrapassa a mera depreciação, o que obriga a recorrer aos movimentos na margem, podendo ou não ser justificado este recurso;b)
que esta formulação não é afectada pelo modo comose define o «investimento»; c) que existe uma substimação
das necessidades futuras e as consequências que isso
pro-voca;
d)
mesmo que seja afirmativa a resposta ac),
ficapor explicar como se concilia o «prémio» pela espera com
o chamado «paradoxo do aforro»;
e)
e fica também pordemonstrar o valor explicativo desta teoria.
Vamos deter-nos exclusivamente neste último aspecto,
que consideramos muito ilustrativo da capacidade expli
-cativa do chamado neoclassicismo. Para a economia subjectivista, a acumulação não é o resultado de deter-minadas leis objectivas, que regulam o processo social
de produção no quadro de um sistema económico
deter-minado, mas obedece antes a cálculos psicológicos. A taxa de aforro determina-se na margem da distribuição do
rendi-mento entre as classes sociais, o que parece, simplesmente,
(149)
J
.
A. SCHUMPBTER, História dei atlá/is;s ecollóm;co, Ariel, Barcelona, 1971, p. 1015.uma aberraçao. Naturalm.ente que e pode argumentar,
o que aliás se fcz, que que inter a é a determinação
do aforrador marginal. No entant , par ce muit mal
adequado upor que a distribui ão d rendimento
deter-mina ba icament a sua utilizaçã ou, para nos
expri-nurmo n eu próprio tcrmo, que a parte do eus
rendimento que a diferentes elas e ociai destinam ao
aforro é, por razões diversa, praticamente insensível à
taxa dc juro e, se as im é, problcma do aforrador
marginal não dCLxa de ser um pr blema «marginal».
Em uma, a alteração de pcr pectiva não é mais
que o resultado de e vaziar a ciência cconómica de todo o
conteúdo ocial, pois e as relaç-c que são objecto da
ciência económica ão as relaçõe homem-coisa, o que
interes a é estudar a normas pelas quais se deve guiar o
comportamcnto humano para maximizar os fms sujeitos
a determinadas condições re tritiva ou, alternativamente,
minimizar os meios necessário para a obtenção de
objecti-vos dados. As pautas de comportamento a seguir para
<<adequar meio e cassos e su ceptívei de usos alternativos
a fins dados», eis o objecto da ciência económica.
A conversão da economia numa ciência formal traz
consigo outras consequências. Uma vez que o objecto
da ciência econónuca é um aspecto de toda a actividade
humana, as leis econónucas têm carácter IllzilJersal e são
válidas em qualquer tempo e lugar. O facto de serem variáveis as relaçõe que e e tabelecem entre os hOlnens
na produção, o que é óbvio, não afecta minimamente o
carácter universal das leis de uma ciência que abstrai de
qualquer característica sociológica na sua análise. Além
disso, ao abstrair das diferentes funções sociais que os
agentes económicos desempenham no processo produtivo, cai-se na análise (/IOlllística, com todas as suas sequelas.
na tran içã e sobre efeito que a revolução na agricultura
inglesa ex rceu bre o de env lviment do capitalismo
britânic
(2bl).
Para n ' s sã tant mais intere santes quantoé certo que G n vese ilu tra a uas conclu - es com a
evolução qu experimentaram os regimes económicos
de E panha e P rtugal a partir do descobrimento da
América, e a sinala, cremo que muito acertadamente,
eguinte~ « colonialismo de Espanha e de Portugal,
em geral, e e clavagi mo da plantaçõe, em particular,
proporcionaram o e cedente econónúco nece ário para a
estabilidade de uma classe donúnante que continuava a ser
essencialmente enhorial»
(262).
5. Parece er o momento oportuno para recordar
que o feudalismo não é incompatível com. o estado
centra-lizado e que é um tanto esquemático afirmar que a formação
dos estados nacionais é uma realização burguesa. Um
lústoriador da envergadura de Hill escreve: «Há a ideia de
(261) E. GE OVESE, Esclavitl/d y capitalisl/lo. Vejamos algumas referências: «A revolução comercial não produziu por si me ma o capitahsmo» (p. 90), citando PARES; «começa a ficar claro que foi a riqueza agrícola de lnglaterra, mais do que a sua riqueza colonial, que serviu de base ao desenvolvimento industrial nos fmai do séc. XVIII»
(p. 91). Veja-e R. PARES, The historian's bl/sil/ess mld other essllys, R. A.
y E. Humphreys, Londres, 1961); «a aparência contraditória do período de monarquia ab oluta deve-se em parte ao facto de o estado ser veículo
ÚIÚCO de processos dIferentes> (p. 90), e apoia-se em HECK CHER para
recordar a projecção il/tl'mll do mercantilismo, o que lhe permite chegar
à conclusão de que «a política e panhola foi qua e, na pranca, anti--mercantilista e representou, de factO, um arcaí mo medievalista» (p. 96).
(262) Op. cit., p. 8. Ne [,1 obra GENOVESE tàz também uma critica aguda da te es de GUNDER FRANK: .FRANK mantém
alternati-vamente dua teses Insustentáveis: 1 .• - Espanha e Portugal ão já capitalistas nos sécs. xv e XVI; 2.' - Eram senhoriais, ma a colonização nasceu dos sectOre mercantil-capistali ta e as umiu a sua caracte-rí ticas> (p. 102).
que e tad feudal tem de ser um estado descentralizado.
De facto, foi precisamente a emancipação do regime de pequena produção, resultado da crise geral da sociedade feudal, que levou a classe feudal dominante, a partir de meados do séc. XIV, a reforçar o papel central do estado,
a fim. de: 1.° - sufocar a revolta camponesa; 2.° - utilizar os impostos para arrebatar o excedente aos camponeses; 3.° - controlar os movimentos da força de trabalho atra-vés de uma r~,<ulallle/lttlçào à escala nacional, dado que já não bastavam os órgãos do poder feudal, em.bora a classe dominante continuasse a ser a mesma, do mesmo modo que tanto uma república cOmO uma monarquia consti-tucional ou uma ditadura fascista podem ser formas de dom.ínio da burguesia»
(263).
6. A implantação do modo de produção capitalista é precedida de um processo de acumulação primitiva que conduz à concentração de riqueza nas mãos de uma mino-ria e, por outro lado, à perda da posse dos meios de pro-dução de que eram. detentores os produtores directos, ao mesmo tempo que se libertam da relação de servidão. A proletarização dos pequenos produtores directos, campo-ne es e artesãos, é a contrapartida da acumulação primitiva: a acumulação verifica-se à custa dos produtores, sendo a acumulação e a perda da posse dos meios de produção as duas faces da mesma moeda (as 'enclosures' inglesas são o caso típico). Por conseguinte, os argum.e'ntos que defendem que a acumulação de capital tem a sua origem no aforro e na frugalidade de certos grupos sociais ou as teses que
sustentam que o crescimento do proletariado foi imputável
(263) CHRISTOPHER HILL, Estl/dios ... , cit., p.4 8. Veja-se também
a re ciment 'natural' da p pulaçã nã vã, de lU do nenhum a fund d problema.
A dua fi nte c n' mica fundamentai da acumu-laçã prinutl a .fi ram o apitaI comercial e c pital
usurári , atravé da tr ca de igual e d empré rim u
urá-rio. P r i ,pr duz- e ne ta época uma mudança guant a s grup elal qu e apr priam d excedente. A explo-raçã d pr dut re directo erifica- c directamente, mediante . 1 ;:, a d t mec m mo ma também indi-rectamente, em virtude d a p rçã d excedente que
aflui
à nobreza (pr cedente também da exploraçã dosprodutores) t r com de tinatári s últim s, numa pr
por-ção importante comerciante c pre tamistas
(
264
)
.
A e ' plo-raçã atravé de tes mecani mos exige a dissolução distema de ec nornia natural preponderante no feudalismo e o desen olvimento da pequena produção mercantil, que será mai tarde integrada na pr dução capitalista de mercadoria
(265).
7. Á medida que se consolida o modo de produção capitalista reforçam- e e ampliam- e e tes mecanismos de e 'torsão da pequena propriedade.
(264) -Em erto entido, o teuda! apre entavam- e, portant ,
nesta época, como agente do capital comercial, como uma bomba
de sucção em matéria de aque da pequena produção do campo cm proveito da acumulação capItalista originária. Mesmo endo a 'ela c
uperior' do ponto de VI ta jurídico, cm relação ao terceiro e tado.
cooperavam economicamente com o comerciante, e tando ituados
não ao nível mai elevado, mas, pelo contrário, no mai baixo em matéria
de extor ão de meio a campe mato' (E. PREOBRAZHE KJ, op. cit.,
pág. 11 119).
(265) É mque tlonável que o método de acumulação primitiva foram múltiplo e. de de logo, mai variado d que aquil que e ta introdução podena dar a entender. No entanto, o no so propó ito
é SImplesmente o de realçar cert elemento e truturai do processo de acumulação primitiva.
Na dialéctica que se e tabelece cntre o capitalismo e os sistemas de economia natural,
é
lógico que a primeira mcdida da sociedade burguesa contra as pequenas explora-ções autárquica - e portanto à margem do modo de produção dominante - seja orientada no sentido de forçar a abertura das explorações camponesas, através da criação da necessidade de possuir recursos monetários.A forma típica de criar a necessidade de dinheiro nos camponeses é o estabelecimento de um imposto monetário sobre as explorações agrícolas, mas há também, alternativa ou complementarmente, outras formas possíveis de chegar aos mesmos resultados: a destruição do artesanato rural pela concorrência, da empresa capitalista, a difusão dos novos gostos da sociedade burguesa que não podem ser satisfeitos num sistema de economia natural, etc. Por outro lado, a necessidade de dinheiro obriga não só à venda de mercadorias, mas também, em numerosos casos, à venda eventual da força de trabalho, numa espécie de simbiose que diminui o seu valor uma vez que alguns dos elementos compreendidos neste são fornecidos 'gratuitamente' pelos camponeses-proletários (266).
Tão depressa se instaure a produção mercantil, a sua sujeição ao mercado capitalista é questão de tempo. A exploração do mais débil, o campesina to, através da troca desigual, é agora possível, uma vez que existem relações mercantis. Além disso, a «anarquia da produção capitalista» e as flutuações na actividade económica, típicas do modo de produção dorninante, implicam um risco e,
(266) Enquanto que no capitalismo europeu a simbiose e deu numa fase do processo de proletarização do campesinato, nos países ubde envolvidos é uma característica e trutural de uma fracção impor-tante da força de trabalho. Voltaremos a este tema no capítulo dedicado ao subdesenvolvimento.
em últim term, uma in t bilidade n rendimentos d s
do pequeno produtore, que provocam seu
endivida-ment e desenv I iment da u ura.
a
resultado é elar : se à tributação e à actividade decomerciante e prestamistas acre centarmo a formas
e rtraecon6micas de extor ão do campesinato
(especial-mente a expropriação da pr priedade colectiva), o
resul-tado nao pode ser outro que não s ja a pr letarização da
maiOria e a acumulação do recurso no outro extremo
da escala ocia!. Desta forma alargam-se a ba es sociais
do capitalismo e cria-se um m.ercado interno na agricultura
para o pujante capitalismo industrial, cujo crescimento é
fmanciado precisamente pelo excedente extraído da
agri-cultura.
Uma vez que este processo esteja suficientemente avançado, a nova tecnologia industrial irrompe
irresistivel-mente numa agricultura cujas perspectivas de rentabilidade
são altamente stimulante (queda do pr ço da terra,
situação do mercado de trabalho, etc.) (267).
(267) obre a actuação do capital! mo para com as sociedades de economia natural, existem várias obras dentro da tradição marxista, cuja consulta nos parece sumamente útil, em e pecial: ROSA LUXEM-BURGO, La aCII/""lació" de capital, Tücara, Buenos Aires, 1963, em parti-cular os capítulos XVII, XVIll e XIX; E. PREOBRAZHENSKl, op. cit., págs. 170 e SS.; K. KAlITSKY, La cuesfió" agraria, Ruedo Ibérico, Paris, 1970, págs. 13 e s .; V. L LE lN, EI desarrollo dei capitalislllo el! Rusia, Ediciones Estudio, Buenos Aires, 1973, págs. 27 e ss.
Por nos a parte, limitamo-nos a dua considerações: 1.' - o pro-ce 50 descrito reproduz a 'linha típica' de desenvolvimento capitalista.
A actuação do capitalIsmo ocidental obre as comunidades indígenas difere, em certas características essenciais, deste modelo e são precisa-mente as diferenças observadas neste processo que podem permitir a construção de uma tipologia, que eria umamente interessante, em torno da dialéctica capitalismo - pré-capitalismo; 2.' - a difusão do capltal!smo passa pela destruição, que não a transformação, das socie -dades pré-existentes.
8. O estado desempenhou um papel activo na tran-sição do feudalismo para o capitalismo, tanto pela sua
participação no processo de acumulação prinútiva
(tribu-tação, dívida pública, exploração colonial...) como pela
sua decisiva actuação para a superação do estádio mercantil.
Este facto, frequentemente subestimado, deve pôr-se em
primeiríssimo plano para se poder chegar a uma plena
compreensão do fenómeno colonial e da sua sequela:
o subdesenvolvimento. Em geral, ignora-se a entidade
esta-tal nas representações abstractas do capitalismo liberal e.
para certo tipo de análise, tal simplificação pode ser correcta.
O que a todas as luzes constitui um erro crasso é a
utilização de uma metodologia semelhante quando se
estuda a transição de sistemas, porque é precisamente
na fase de transição - em que o novo modo de produção,
ainda em gestação, não anda por si próprio, impelido pelas suas leis internas - que os aspectos extraeconómicos
adqui-rem uma import:tncia decisiva.
9. Persistem pontos obscuros relativamente à
ascen-são da burguesia industrial e às novas formas de utilização
do excedente econól1ÚCO que acompanham a génese e o
desenvolvimento da sociedade burguesa. De todo o modo,
podem tàzer-se algumas observações:
a)
O 'espírito de empresa' é mais um produto doque uma causa do desenvolvimento capitalista. São as
condições objectiveis (por exemplo, a estabilização dos lucros mercantis e daí a necessidade de controlar o processo
pro-dutivo como única forma de controlar os lucros) que
explicam porque é que numa dada comUlúdade certo grupo social se orienta para a esfera da produção com espírito inovador.
li)
uant mal r lidez, integraça u perfeiçã ti er alcançad umafc
rmaçã cial, menor erá a sua capacidade de ev Iuçã . I t quer dizer também que para vaI rizar influência que exerce a inserção de um novo e1enlent nUlll deterl1Úllad rcgi111c c onón1icé
ncce-sário efectuar uma análi e c ncreta da t talidade oeial que c ê 111. dificada. exame I lad e ab tracto de um fenómeno que irr mpe numa
fc
rmaçã ocial podem extrair-se norma unidireccionai de comp rta-mento de ta.c)
expost na alínea(1)
é
perfeitamente coerente c m a afirmação de que deternÚlladas alteraç-es de tipo axi lógico constituem um factor importante mordemà consolidação da n va tendência que vêm modificando usos a que se destina o excedente económico. Na reali-dade, não
é
outro o conteúdo da lei da «correspondência neces ária» entre a ba e e a supere trutura(268).
10. A penetração do capitalismo europeu na zona atrasada (abstracçao feita daqueles paí es em que tomou a forma de um prolongamento da ociedade metropolitana) impediu a materializaçao de condiç es objectivas adequadas ao de envolvimento capitalista (269):
a)
a exploração colonial(26) O que e torna mai difícil de preci ar é, como já apon-támos noutro lugar, a grande autonomia que po sui a instância
upere-trutural. Por outro lado, e excluído um determini mo linear como modelo válido de representação do funcionamento dos si temas econó
-micos, fica for resolver o conteúdo exacto da interdependência
hierar-quizada que e e tabelece entre amba as mstâncla globais do modos de produção. Em terceiro lugar, que elemento fazem parte da
uperes-trutura? A consciência social é um elemento da uperestrutura? Final-mente, o que pode dizer-se do fenómeno que não ão integráveis nem na base nem na uperestrutura?
pôs cobro à acumulação ongmana do capital quc estava em curso nesses países e uma grande porção do cxcedente intcrno é sugado pelas potências capitalistas, tudo impe-dindo a afirmação de uma burguesia autóctone;
b)
a paupe-rização de uma parcela importante da população e a expansão da produção mercantil não serviu, nesta condi-ções, para lançar as bases de um capitalismo industrial. O produto é um Júbrido que participa das desvantagens de ambos os sistemas económicos (pré-capitalista e capi-talista). Rompe-se a estrutura da sociedade feudal sem preencher o vazio que assim se cria. orno salienta Sartre, referindo-sc à política colonial franccsa na Argélia: «Man-tém a cultura e as crcnças do feudalismo, mas suprime a estruturas e os co tUl11.cs quc penrutem a um feuda-lismo vivo ser, apes(/r de fI/do, uma sociedade humana» (270); c) o que, aliado ao novo equilíbrio social e político que e estabelece em tais países, bloqueia a utilização progres-siva da escassa parcela do excedente que ainda permanece no interior; o estado corresponde a interesses extra-nacio-nais, a débil burguesia nativa mão tem em seu apoio esse instrumento formidável do desenvolvimento do capi-talismo que é o estadol) (271).
e admite que o subdesenvolvimento é a forma específlca que assume o 'desenvolvimento' do capitalismo em certos países, parece mais adequado estudar conjunta-mente o capitalissmo à escala mundial, numa perspectiva
globalizante que vincule dialecticamente os dois pólos da formação social capitalista. Embora este.iamos de acordo
(270) J. P. ARTRE, .EI colonialismo e un i tema., em Colo-I/ialislllo }' Ilcocolol/ia/islllo, Lo ada, Buenos Aires, 1965, p. 30.
(271) P. GONZALEZ ASANOVA, Ln sociologia de la explotaciól/,
iglo XXI, México, 1971, p. 270.