(524C) PRÁTICAS CONTÁBEIS ADOTADAS POR ENTIDADES DO
TERCEIRO SETOR: ANÁLISE EMPÍRICA JUNTO A TEMPLOS RELIGIOSOS DE
PERNAMBUCO À LUZ DA ITG 2002
JOSÉ JONAS ALVES CORREIA Faculdade Vale do Jaguaribe (FVJ) [email protected]
PRISCILA KARLA FERREIRA DA SILVA Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) [email protected]
ANDREZA CRISTIANE SILVA DE LIMA Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) [email protected]
FILIPE EMMANUEL ALVES DA SILVA Universidade de Pernambuco (UPE) [email protected]
RESUMO
As entidades religiosas devem seguir as normas e recomendações do Conselho federal de contabilidade (CFC), para a elaboração das demonstrações contábeis. Os templos como pessoas jurídicas de direito priva-do sem finalidade de lucros devem seguir a NBC, ITG 2002 – Entidade Sem Finalidade de Lucro, Interpre-tação Técnica Geral que orienta o atendimento às exigências legais sobre procedimentos contábeis a serem cumpridos, especialmente pelas entidades imunes, isentas de impostos e contribuições para a seguridade social. Este artigo trata de uma pesquisa realizada junto a templos religiosos do Estado de Pernambuco, e teve como objetivo verificar quais as práticas contábeis que as entidades religiosas estão realizando, se elas estão seguindo as instruções tratadas pela norma ITG 2002, cujo documento foi aprovado pela Resolução CFC nº 1.409/2012 de 21/09/2012. Para embasamento teórico, foi realizada uma pesquisa bibliográfica fazendo um levantamento dos autores que tratam sobre as entidades sem fins lucrativos, entidades religio-sas, práticas contábeis, e feita uma abordagem sobre a ITG 2002, a fim de melhor discussão acerca do tema. Nessa perspectiva, o estudo foi realizado em quinze templos religiosos situados no estado de Pernambuco, sendo a escolha realizada através de critério aleatório. Após a definição da amostra, realizou-se um ques-tionário semiestruturado, contendo perguntas abertas e fechadas que trataram a respeito da gestão das origens e aplicações de recursos destas entidades quanto a sua formalidade através de demonstrativos. O questionário foi respondido pelo responsável em cuidar das questões financeiras e contábeis das igrejas, no período de 2012 e 2013, cuja aplicação ocorreu durante um Congresso realizado por representantes religiosos, por meio de entrevistas. Quanto à metodologia, trata-se de uma pesquisa exploratória e descri-tiva, realizada através de um estudo de caso, mediante aplicação de questionários. Para atingir o objetivo da pesquisa, além dos métodos e procedimentos descritos anteriormente, foi necessário utilizar um ins-trumento de tabulação de dados, a fim de esclarecer em forma de percentuais, os resultados que foram obtidos. Após realizar a pesquisa, constatou-se que as práticas contábeis das entidades religiosas do estado de Pernambuco não estão totalmente em conformidade com a Interpretação Técnica aplicada às entidades sem fins lucrativos (ITG 2002). Sendo assim, este fato merece atenção não somente por parte dos que vivem dessa atividade, mas também dos órgãos fiscalizadores e de todos aqueles que têm interesse em manter a credibilidade e o prestígio da profissão contábil perante a sociedade. Além disso, ressalta-se a relevância em divulgar a essas entidades a respeito da existência dessa norma, apresentando a importância de se elaborar demonstrativos dos recursos que fluem para a entidade e o seguimento desta norma.
1. INTRODUÇÃO
Para o ordenamento jurídico brasileiro, a igreja é considerada pessoa jurídica de direito privado. A lei nº 10.825 de 22 de dezembro de 2003 que dá nova redação aos arts. 44 e 2.031 da lei nº 10.406, de 10 de ja-neiro de 2002, contida no Código Civil, diz que sua diretoria estatutária responde judicialmente pelos danos causados a Instituição de Fé, aos membros e a terceiros.
A base da contabilidade do terceiro setor é a estrutura patrimonial definida pela Lei 6404/1976 (Lei das Sociedades por Ações). As demonstrações financeiras referentes a essas entidades possuem peculia-ridades, as quais uma vez elaboradas, se deve observar os Princípios de Contabilidade e suas respectivas normas. Araújo (2005) nos diz que “existem normas de preparação e apresentação de demonstrações con-tábeis, bem como de divulgação, e que essas devem ser seguidas pelos profissionais que lidam com a conta-bilidade dessas organizações”.
Os templos, na posição de pessoas jurídicas de direito privado sem finalidade de lucros, devem seguir a NBC, ITG 2002 – Entidade Sem Finalidade de Lucro (ESFL), Interpretação Técnica Geral que orienta o atendimento às exigências legais sobre procedimentos contábeis a serem cumpridos, especialmente pelas entidades imunes, isentas de impostos e contribuições para a seguridade social. A Contabilidade nos tem-plos religiosos torna-se essencial, não somente para demonstrar a origem dos recursos e a forma como eles foram aplicados, como também para validar juridicamente os atos financeiros da Entidade (OLIVEIRA e ROMÃO, 2011).
A pressão exercida pela sociedade sobre os templos religiosos tem crescido devido ao fato de que, tais entidades, em sua maioria, mantém sua continuidade valendo-se de doações, por outro lado, as igrejas são alvo de críticas a respeito da destinação de seus recursos, e a contabilidade é um instrumento eficaz na pro-va de onde e como eles foram utilizados, é um meio de compropro-vação da seriedade da entidade (BLOEDAU e LIMA, 2008).
Diante dessa discussão, o presente estudo teve por objetivo verificar, através da análise das entidades, se a Norma Brasileira de Contabilidade NBC, ITG 2002, no que se refere às práticas contábeis, é respeitada pelos profissionais que atuam na área e prestam seus serviços às entidades religiosas. Para o atendimento dos objetivos propostos, este artigo está dividido em seis seções, sendo nesta primeira a introdução do tema; na segunda a revisão do referencial teórico; na terceira, descrito o método de pesquisa; na quarta seção são apresentados e discutidos os resultados encontrados; na quinta são realizadas as considerações finais da pesquisa e, por fim, na última seção, as referências.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Entidades sem fins lucrativos
A expressão sem fins lucrativos, usada para designar as entidades fora do contexto do Estado e do mer-cado (que congrega as entidades de fins econômicos), não reflete, por si só, o que são e qual o efetivo papel que desempenham no contexto social, econômico e político contemporâneo. Além disso, o próprio conceito de “lucro” é muito abrangente e, portanto, deve ser muito bem caracterizado.
Segundo (OLAK e NASCIMENTO, 2010) no Brasil, especificamente, o emprego das terminologias Ter-ceiro Setor, organizações não governamentais (ONGs), organizações da sociedade civil, organizações sociais, entidades beneficentes, organizações filantrópicas, e demais instituições desta natureza, acontece de forma equivocada, já que são utilizadas normalmente como sinônimas, contribuindo para aumentar a confusão. E atentam para o que eles chamam de “mais duas inovações institucionais”: as “Organizações Sociais – OS” e as “Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIP”; as primeiras, criadas a partir da reforma administrativa do aparelho do Estado, e as OSCIP, decorrentes da publicação da Lei nº 9.790, de 23/03/99, sendo ambas sem fins lucrativos.
A expressão organização não governamental – “ONG”, lembra Falconer (1999), foi incorporada defini-tivamente ao nosso vocabulário, no Brasil, por ocasião da Conferência Rio-92, em função dos temas discuti-dos, os quais trataram de assuntos referentes ao meio ambiente, defesa de direitos humanos e preocupação em organizar a participação social, áreas em que as organizações não governamentais atuam com muita veemência, cujo evento também apresentou fóruns e trabalhos “paralelos” realizados por ONGs.
Falconer (1999) também discorre que, “Ser ONG, tal como o conceito foi apropriado no Brasil, significa mais do que status legal de associação sem fins lucrativos. Implícitos no termo estão um campo e uma forma de atuação predominante: a defesa dos direitos, através de assessoria e capacitação de movimentos popu-lares, e atividades melhor descritas pelo termo inglês advocacy: mobilização popular, articulação política; conscientização e disseminação de informação”.
A expressão Terceiro Setor vem encontrando maior aceitação, dentre tantas outras usadas, para desig-nar o conjunto de iniciativas provenientes da sociedade, voltadas à produção de bens públicos (OLAK e NAS-CIMENTO, 2010), ou seja, a atuação do terceiro setor se dá em um segmento além do Estado e do mercado. No Brasil, a expressão vigente, até mesmo por força dos diversos dispositivos contemplados na legisla-ção pertinente, sempre foi “entidades sem fins lucrativos”. Nessa perspectiva, a ITG (Interpretalegisla-ção Técnica Geral) 2002 item 3 (CFC, 2012) estabelece que uma entidade que não possui finalidade de lucro, exerce ati-vidades relacionadas às áreas de assistência social, saúde, educação, técnico-científica, esportiva, religiosa, política, cultural, beneficente e social, sempre gerindo pessoas, coisas e fatos cujo interesse exista e que o intuito seja o bem comum.
2.2 Entidades religiosas
O Direito Canônico afirmava que a Igreja era uma sociedade autônoma, que podia se autogovernar, e que era autossuficiente para atingir seus objetivos. O Código Civil (BRASIL, 2002), estabelece em seu no seu art. 44, que as entidades religiosas são livres de criação, sendo o poder público impossibilitado de negar sua existência e funcionamento. Sendo assim, as igrejas podem se auto regulamentar, definir sua estrutura interna e organização, no entanto, isso não quer dizer que as organizações religiosas podem negligenciar a estrutura jurídica imposta pelo Código Civil, pois em casos de demanda judicial as entidades religiosas também respondem em juízo.
A contabilidade é única e o que muda são as especificações nas quais ela é usada. Quando se trata de templos religiosos não é diferente, cuja evidência se dá através das Normas Brasileiras de Contabilidade (CFC, 2012) para as entidades sem fins lucrativos. A ITG 2002 orienta que tais entidades devem utilizar dos princípios de contabilidade, para a qual também se aplica a NBC TG 1000, que trata de contabilidade para pequenas e médias empresas, pois a mesma apresenta informações sobre como deve ocorrer o tratamento contábil para entidades dessa natureza.
Os registros contábeis das ESFL devem ser feitos seguindo as Normas, Resoluções e os Princípios de Contabilidade. Os Princípios de Contabilidade representam a essência das doutrinas e teorias relativas à Ciência da Contabilidade, consoante o entendimento predominante nos universos científico e profissional de nosso País. Concernem, pois, à Contabilidade no seu sentido mais amplo de ciência social, cujo objeto é o patrimônio das entidades, (SOUZA et al., 2011).
2.3 Práticas contábeis
As práticas contábeis internacionais emitidas pelo Comitê Internacional de Contabilidade (IASC), cons-tituem-se hoje uma fonte de referência para uma padronização, pelo fato de representar um conjunto de normas de alto nível, cujas atualizações ocorrem de forma constante em conformidade com as exigências do mercado mundial. Essa unificação tem sido aceita gradativamente em diversos países (KPMG, 2001).
A Interpretação técnica que estabelece critérios e procedimentos específicos de avaliação, de registro das transações e variações patrimoniais, de estruturação das demonstrações contábeis, e as informações mínimas a serem divulgadas em notas explicativas da entidade sem finalidade de lucros é a ITG 2002, cujas demonstrações exigidas são: o Balanço Patrimonial, a Demonstração do Resultado, a Demonstração das Mu-tações do Patrimônio Líquido e a Demonstração dos Fluxos de Caixa, conforme previsto na NBC TG 26 ou na seção 3 da NBC TG 1000, quando aplicável. Essas demonstrações tem o objetivo de auxiliar os preparadores para divulgação das informações contábeis e financeiras destas entidades.
O Balanço Patrimonial tem por finalidade apresentar a posição financeira e patrimonial da empresa em determinada data, representando, portanto, uma posição estática. Conforme o art. 178 da Lei nº 6.404/76, “no balanço, as contas serão classificadas segundo os elementos do patrimônio que registrem e agrupadas
Demonstração do Superávit ou Déficit do Período tem por objetivo principal, nas entidades sem fins lucrativos, evidenciar todas as atividades desenvolvidas pelos gestores relativas a um determinado período de tempo, denominado de “Período”. A ênfase não deve ser dada ao resultado (lucro/prejuízo), como ocorre nas entidades de fins lucrativos. Em linhas gerais, para a entidade sem fins lucrativos, a preocupação maior é com as atividades e/ou projetos desenvolvidos do que com o resultado (OLAK e NASCIMENTO, 2010).
A Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido informa resumidamente toda a movimentação ocorrida com as contas integrantes do Patrimônio Líquido, com base no saldo inicial do período anterior até o saldo final do exercício, contendo, portanto, além da demonstração da conta Lucros ou Prejuízos Acumula-dos, a Demonstração do que ocorreu com as demais contas do Patrimônio Líquido (IUDÍCIBUS et al, 2010). A Demonstração dos Fluxos de Caixa visa mostrar como ocorreram as movimentações de disponibili-dades em um dado período de tempo. Essa demonstração é obrigatória pela Lei das Sociedisponibili-dades por ações, e o CFC a tornou obrigatória para as demais sociedades. Divide todos os fluxos de entrada e saída em três grupos: os derivados das atividades operacionais, das atividades de investimento e das atividades de finan-ciamento (IUDÍCIBUS et al., 2010).
As Notas Explicativas são elaboradas para destacar e interpretar detalhes relevantes, informações adi-cionais sobre fatos passados, presentes e futuros, significativos nos negócios, e resultados da entidade, de importância para as pessoas nela interessadas (IUDÍCIBUS et al., 2010).
As variações decorrentes das operações da entidade devem ser entendidas como aquelas que provo-cam modificações no patrimônio e derivam de uma série de transações. Assim como a estática, a dinâmica patrimonial é representada por um conjunto de demonstrações contábeis, cada qual com finalidade especí-fica, com o objetivo de apresentar a evolução dos fenômenos patrimoniais em determinado período, eviden-ciando as variações provenientes dos fatos ocorridos neste mesmo período (SOUZA et al., 2011).
2.4 Interpretação Técnica Geral (ITG) 2002
As entidades sem finalidade de lucro são aquelas em que o resultado positivo não é destinado aos de-tentores do patrimônio líquido e, o lucro ou prejuízo são denominados, respectivamente, de superávit ou déficit (CFC, 2002). Todas as ESFL, mesmo as que tenham sede no exterior, que atuem no Brasil devem se-guir as normas contábeis brasileiras. Dentre muitas normas, encontra-se, especificamente para este estudo a ITG 2002 – Entidades sem Finalidade de Lucros.
A ITG 2002 foi aprovada pela Resolução CFC nº 1.409/12, emitida em 21/09/ 2012, e passou a ser apli-cável para os exercícios sociais iniciados a partir de 1º de janeiro de 2012. Ela estabelece critérios e proce-dimentos específicos de avaliação, de reconhecimento das transações e variações patrimoniais, de estrutu-ração das demonstrações contábeis e as informações mínimas a serem divulgadas em notas explicativas de entidade sem finalidade de lucros. Esta Instrução Técnica Geral apresenta itens específicos que devem ser observados pelos templos religiosos. Quando aos tópicos tratados na referida norma são: reconhecimento, registros contábeis, demonstrações contábeis, contas de compensação e divulgação.
O tópico reconhecimento da ITG 2002 trata como devem ser reconhecidas as receitas, as despesas e as doações e subvenções. O tópico registros contábeis da norma trata da evidenciação, reconhecimento no re-sultado e do registro das contas de receitas e despesas, com ou sem gratuidade. Do reconhecimento de for-ma segregada das contas patrimoniais e da constituição de provisão. Da incorporação do valor do superávit ou déficit ao Patrimônio Social. Da segregação dos registros contábeis. O tópico demonstrações contábeis, da ITG 2002, determina quais demonstrações devem ser elaboradas pela entidade sem finalidade de lucros, que são o Balanço Patrimonial, a Demonstração do Resultado, a Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido e a Demonstração dos Fluxos de Caixa, as substituições na denominação de algumas contas. E ainda as informações que devem ser destacadas e divulgadas em notas explicativas por tipo de atividade;
Quanto ao tópico contas de compensação, a ITG 2002 esclarece que sem prejuízo das informações eco-nômicas divulgadas nas demonstrações contábeis, a entidade pode controlar em conta de compensação transações referentes a isenções, gratuidades e outras informações para a melhor evidenciação contábil. E quanto ao tópico divulgação, a norma fala das informações mínimas que as notas explicativas devem conter para complementar as demonstrações contábeis.
A ITG 2002 item 23 (CFC, 2012) estabelece que:
[...] as demonstrações contábeis, que devem ser elaboradas pela entidade sem finalidade de lucros, são o Balanço Patrimonial, a Demonstração do Resultado do Período, a Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido, a Demonstração dos Fluxos de Caixa e as Notas Explicativas, conforme previsto na NBC TG 26 ou na Seção 3 da NBC TG 1000, quando aplicável.
A ITG 2002 ainda esclarece que algumas nomenclaturas nas demonstrações das ESFL devem ser alte-radas, como por exemplo: ao invés das contas “capital social”, “lucros ou prejuízos acumulados” usem-se as nomenclaturas “Patrimônio Social” e “superávit e déficit do exercício” respectivamente.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa é de caráter descritivo e de natureza qualitativa, pois através da realização de en-trevistas e observações, buscou-se conhecer a realidade de uma amostra, para avaliar a dinâmica interna de processos e atividades, considerando suas características. Quanto a ser descritiva, se justifica por envolver entrevistas com pessoas, em forma de questionários, visando conhecer um pouco da entidade.
Quanto ao procedimento, a pesquisa foi realizada através de um estudo de caso, onde foram escolhidas 15 entidades religiosas do estado de Pernambuco, por critério aleatório. Dessa forma, o instrumento de coleta de dados utilizado foi um questionário semiestruturado, aplicado ao responsável pela contabilidade da igreja, seja contador, técnico em Contabilidade, pastor, diácono, ou tesoureiro, para obter informações sobre a entidade.
O presente trabalho utilizou o método dedutivo. E conforme Lakatos e Marconi (2008) este método “parte de registros mais gerais para enunciados menos gerais”. Processo cognitivo, de base racionalista, con-trária à indução. Na dedução se parte de uma situação geral e genérica para uma particular e específica. Com a dedução, não produzimos conhecimentos novos, porém explicitamos conhecimentos que antes estavam implícitos (LAKATOS e MARCONI, 2008).
Atingiram-se os objetivos mediante pesquisa exploratória que, segundo Mello (2002, p. 29), “estabe-lece critérios, métodos e técnicas para a elaboração de uma pesquisa e visa oferecer informações sobre o objeto da pesquisa e orientar a formulação de hipóteses”.
O estudo se concentrou nas entidades sem fins lucrativos não governamentais. E foi realizado em quinze templos religiosos situados no estado de Pernambuco. Buscaram-se informações sobre as práticas realizadas nos anos de 2012 e 2013, o que a caracterizou como uma pesquisa de campo. De acordo com Gil (2002), A pesquisa descritiva tem como objetivo descrever as características de uma determinada população ou fenômeno, sendo utilizado na maioria das vezes técnicas padronizadas de coleta de dados, como o questionário.
Após a coleta de dados, a fase seguinte e a sistematização e disposição dos dados para uma melhor concepção dos mesmos. Para a análise dos dados foi empregada a análise interpretativa. Esta fase teve o entendimento de que análise e interpretação de dados são dois processos que apesar de conceitualmente distintos, aparecem sempre estreitamente relacionados. A análise tem como objetivo organizar e sumariar os dados de forma tal que possibilite o fornecimento de respostas ao problema proposto para a investigação. Já a interpretação tem como objetivo a procura do sentido mais amplo das respostas, o que é feito mediante sua ligação a outros conhecimentos anteriormente obtidos (GIL, 2008).
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Para o presente estudo foram selecionados quinze templos religiosos, entidades do Terceiro Setor, to-dos com sede no estado de Pernambuco. As áreas marcadas representam os itens que foram atendito-dos por cada uma das entidades. Neste trabalho, optou-se por omitir os nomes das quinze entidades estudadas, as quais serão denominadas de Instituições “A”, “B”, “C”, “D”, “E”, “F”, “G”, “H”, “I”, “J”, “K”, “L”, “M”, “N” e “O”.
Segundo preceitua Yin (2001, p. 188), há algumas situações em que o anonimato se faz necessário. “O fundamento lógico mais comum é que, quando do estudo de caso for sobre algum tópico polêmico, o anoni-mato serve para proteger o caso real e seus verdadeiros participantes”. As regras observadas para obtenção de imunidades de impostos pelos templos analisados, conforme o artigo 150 da CF/88, no âmbito tributário
QUADRO 01 – OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS DOS TEMPLOS RELIGIOSOS. Áreas/Aspectos Instituições A B C D E F G H I J K L M N O COFINS X X X Contribuição para o PIS/PASEP X X X X X X X X X DCTF X X X X DACON X X X X X X DIPJ X X X X X X X X X X X X RAIS X X X X X X X X X X X X GFIP X X X X X X X X X X X X
Fonte: Elaborado pelos autores.
Das entidades analisadas, apenas três observaram todas as regras exigidas para obtenção da imunidade apontada na Constituição Federal isso corresponde a 20% do total das igrejas estudadas. Pode-se perceber que três igrejas não cumprem nenhuma das regras exigidas pela CF e também representam 20% do total. Verificou-se que os 60% restantes atendem pelo menos três das exigências. Na pesquisa foram coletadas informações sobre as Demonstrações Contábeis dos últimos dois anos, referentes aos exercícios findos em 31/12/2012 e 31/12/2013. Para chegar ao resultado geral foi realizado o confronto de cada item com as práticas atualmente adotadas na entidade com o auxílio do Quadro de Conformidade com a ITG 2002.
Os itens sem resposta ou não aplicáveis a cada Instituição foram considerados como não atendidos. Os critérios analisados foram reconhecimento, registros contábeis, demonstrações contábeis, contas de com-pensação e divulgação, conforme o quadro 2:
QUADRO 2 – CONFORMIDADE COM A ITG 2002 – RECONHECIMENTO
Item Descrição Instituições
A B C D E F G H I J K L M N O
09 Receitas e despesas são reconhecidas mensalmente pelo regime de competência. X X X X X X X X X X
10 Doações e Subvenções para custeio e investimento reconhecidas como Receita no
resultado (NBC TG 07) X X X X X
Fonte: Elaborado pelos autores.
Dez entidades reconhecem mensalmente as receitas e despesas pelo regime de competência, isso re-presenta aproximadamente 67% do total das igrejas estudadas. Duas entidades reconhecem as doações e subvenções para custeio e investimento como receita no resultado e três entidades apenas as doações. As outras dez não apresentam estes fatos em suas operações.
QUADRO 3 – CONFORMIDADE COM A ITG 2002 – REGISTROS CONTÁBEIS
Item Descrição Instituições
A B C D E F G H I J K L M N O
11 Evidenciam-se receitas e despesas (com ou sem gratuidade) segregadas por atividade. X X X X X X X X X X X X
12
Registra-se a subvenção, contribuição para custeio e investimento, isenção, incentivo fiscal em conta do passivo até o reconhecimento no resultado.
Item Descrição Instituições
A B C D E F G H I J K L M N O
13
Receitas e despesas para aplicação específica (doação, contribuição, convênio, parceria, auxílio e subvenção através de convênios, editais, contratos, termos de parceiras e outros instrumentos) são reconhecidas em contas próprias, segregadas das demais contas da entidade.
X X X X X X X X X X X X
14
Reconhecem-se de forma segregada os benefícios concedidos a título de gratuidade, colocando em destaque os que serão utilizados para prestação de contas ao governo.
X X X X
15 Constitui provisão para perdas esperadas. X
16 Incorpora o superávit ou déficit ao Patrimônio Social da entidade. X X X X
17 Reconhece a gratuidade por meio da prestação de serviços pelo valor efetivamente praticado.
18
Segrega os registros contábeis de forma que se permita obter a apuração das informações para prestação de contas aos órgãos governamentais e usuários externos.
X X X
19
Reconhece a dotação inicial de recursos pelo instituidor/fundador em ativos monetários como doação patrimonial, com reconhecimento em conta do Patrimônio social.
20 Reconhece o trabalho voluntário pelo valor justo da prestação do serviço, mesmo não havendo desembolso financeiro.
21 Aplica aos ativos não monetários Seção 27 da NBC TG 1000 e a NBC TG 01, quando aplicável.
22
Em caso de adoção inicial da ITG 2002 e da NBC TG 1000 ou das normas completas (IFRS full), a entidade pode adotar os procedimentos do custo atribuído (deemed cost) de que trata a ITG 10. É feito este reconhecimento. Fonte: Elaborado pelos autores.
Doze entidades evidenciam receitas e despesas segregadas por atividade e reconhecem-nas em con-tas próprias, segregadas das demais concon-tas. Apenas três registram a subvenção, contribuição para custeio e investimento, isenção, incentivo fiscal em conta do passivo até o reconhecimento no resultado. Apenas quatro delas reconhecem de forma segregada os benefícios concedidos a título de gratuidade, colocando em destaque os que serão utilizados para prestação de contas ao governo.
Apenas a Igreja “F”, constitui provisão para perdas esperadas. Nenhuma entidade reconhece a gratui-dade por meio da prestação de serviços pelo valor efetivamente praticado e reconhece a dotação inicial de recursos pelo instituidor/fundador em ativos monetários como doação patrimonial, com reconhecimento em conta do Patrimônio social. As entidades “A”, “F”, “K” e “O” incorporam o superávit ou déficit ao Patrimô-nio Social da entidade.
Nenhuma das entidades reconhece o trabalho voluntário pelo valor justo da prestação do serviço, mes-mo não havendo desembolso financeiro; aplicam aos ativos não-mes-monetários Seção 27 da NBC TG 1000 e a NBC TG 01, quando aplicável; e Em caso de adoção inicial da ITG 2002 e da NBC TG 1000 ou das normas completas (IFRS full), adotam os procedimentos do custo atribuído (deemed cost) de que trata a ITG 10.
QUADRO 4 – CONFORMIDADE COM A ITG 2002 – DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS
Item Demonstrações Instituições
A B C D E F G H I J K L M N O
Balanço Patrimonial X X X X X X X X
Demonstração Do Superávit ou
Déficit X X X X X X X X X X X X
23 Demonstração Das Mutações Do Patrimônio Líquido Social X X X Demonstração dos Fluxos De
Caixa X X X X X
Fonte: Elaborado pelos autores.
Das quinze entidades selecionadas, três adotam todas as demonstrações exigidas, três delas não ado-tam nenhuma das demonstrações. As entidades “E” e “N” apresenado-tam apenas a DSDP. Com a não elaboração das demais demonstrações as informações podem ficar não totalmente esclarecidas, já que cada uma delas possui finalidade específica de análise.
QUADRO 5 – CONFORMIDADE COM A ITG 2002 – DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS
Item Descrição Instituições
A B C D E F G H I J K L M N O
24
No Balanço Patrimonial são usadas as seguintes nomenclaturas: a) Patrimônio social; b) Superávit ou déficit acumulados C) São substituídos os termos lucro e prejuízo por superávit/deficit na DR, DMPL e DFC.
X X X X X X X X X X X X
25
Destacam-se no resultado as informações de gratuidade concedidas e serviços voluntários obtidos e divulgar em notas explicativas por tipo de atividade.
26 Classificam-se as doações na DFC no fluxo de caixa operacional. X X X Fonte: Elaborado pelos autores.
Com relação ao item 24, as entidades “C”, “G” e “K” não atendem nenhuma das letras pois não elaboram nenhuma das demonstrações. As entidades “A”, “F” e “L” atendem todas as letras, visto que elabora todas as demonstrações. Nenhuma das entidades obedece ao tipo de registro do item 25. A DFC é elaborada apenas pelas entidades “A”, “F” e “L”. Em relação à conta de compensação, tratada no item 27 do questionário, obser-vou-se que nenhuma das entidades efetuou o seu registro.
QUADRO 6 – CONFORMIDADE COM A ITG 2002 – DIVULGAÇÃO
Item Descrição Instituições
A B C D E F G H I J K L M N O
28 As demonstrações contábeis são complementadas por meio de notas explicativas. X X X Fonte: Elaborado pelos autores.
Numa análise geral, foi possível observar que 67% das instituições não atendem ao item 9. 20% aten-dem parcialmente ao item 10. 80% das entidades atenaten-dem ao item 11. O item 12 é obedecido por 20% das igrejas estudadas. 80% atendem o item 13. O item 14 não é atendido por 73% das entidades.
O item 15 é obedecido por 93% das igrejas. 73% das entidades não atendem ao item 16. O item 18 é obedecido por 80% das entidades. Nenhuma das entidades atende aos itens 17, 19, 20, 21, 22, 25 e 27.
Ana-lisando as letras do item 23, 53% das entidades elaboram o BP, 80% elaboram a DSDP, 80% não elaboram a DMPL e 67% não elaboram a DFC. 53% das entidades atendem ao item 24. 80% das entidades não atendem aos itens 26 e 28.
5. CONCLUSÕES
Depois de efetuada a análise dos dados coletados, a pesquisa demonstrou que as práticas contábeis estabelecidas pela ITG 2002, não foram seguidas em sua totalidade por nenhuma das entidades religiosas que passaram pelo estudo. Em aspectos gerais, o regime adotado por dez instituições é o regime de compe-tência, representado por 67% da amostra que contabilizam pelo regime apontado na ITG 2002. Das quin-ze instituições estudadas, cinco reconhecem as doações ou subvenções para custeio e investimento como receita no resultado, ou seja, 33% das instituições. Em relação aos registros contábeis, doze instituições evidenciam receitas e despesas segregadas por atividade e reconhecem-nas em contas próprias, segregadas das demais contas, representando 80% das igrejas. O item 12 da norma é um fato que esteve presente em três instituições.
O item 14 foi atendido por apenas 27% das instituições. Quanto aos itens 26 e 28, só foram atendidos por apenas 20% das instituições. Quatro instituições incorporam o superávit ou déficit ao patrimônio social, ou seja, 27% do total de entidades estudadas. Nenhuma das instituições atende aos itens 19, 20, 21, 22 e 25. Das quinze entidades estudadas, 53% elaboram o BP e 80% elaboram a DSDP. A DMPL, não é elaborada por 80% das entidades. E 67% das entidades não elaboram a DFC. Nenhuma delas obedece ao tipo de registro do item 27 e o item 26 é observado por apenas 20% das instituições. Nenhuma das instituições utiliza conta de compensação para registrar seu patrimônio. E apenas três adotam as notas explicativas para comple-mentar as demonstrações contábeis, representando 20% do total.
A pesquisa revelou que as práticas contábeis das entidades religiosas do estado de Pernambuco não estão em conformidade com a Interpretação Técnica pertinente, ao menos não em sua totalidade. Sendo assim, conclui-se que tal fato merece atenção por parte não somente dos que vivem dessa atividade, mas também dos órgãos fiscalizadores e de todos aqueles que têm interesse em manter a credibilidade e o pres-tígio da profissão contábil perante a sociedade. Além disso, ressalta-se a relevância em divulgar a essas entidades a respeito da existência dessa norma, apresentando a importância de se elaborar demonstrativos dos recursos que fluem para a entidade e o seguimento da norma tratada neste trabalho.
Para continuidade da pesquisa, fica a proposta de ampliar o número de amostras de igrejas para reali-zação do estudo, o que poderá traçar o perfil em relação ao tratamento contábil quanto à origem e aplicação dos recursos que estas igrejas recebem de forma voluntária. Tal pesquisa se torna relevante pelo fato de apresentar mais transparência à sociedade, uma vez que, são observadas indagações do público geral, quan-to ao emprego dos recursos que entram nestas instituições.
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