o autor
Tiragem: 10.000 exemplares - 2a edição
© by Thesaurus Editora – 2005
Arte, impressão e acabamento:
Thesaurus Editora de Brasília
Os direitos autorais da presente obra estão liberados para sua difusão desde que sem fins comerciais e se citada a fonte. THESAURUS EDITORA DE BRASÍLIA LTDA. SIG Quadra 8, lote 2356 – CEP 70610-480 - Brasília, DF. Fone: (61) 3344-3738 – Fax: (61) 3344-2353 *End. Eletrônico: [email protected] *Página na Internet: www.thesaurus.com.br – Contato com o autor:Caixa Postal: 08-762 CEP: 70.312-970 - Brasília - DF - 61.3468-3191 - Composto e impresso no Brasil – Printed in Brazil Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, em 1958. Cursou o primário com os padres jesuítas, em Diamantino, MT, onde os pais eram fazendeiros. Mudou-se para a capital aos 10 anos e queria ser geólogo. Mora em Brasília desde 1974. Em 1977 lançou seu primeiro livrinho e best seller “Iogurte com Farinha”, em mimeógrafo, tendo vendido 8.000 exemplares de mão-em-mão. Em agosto de 1978, após ter escrito “Grande Circular”, “Caroço de Goiaba” e “Chá com Porrada” foi preso e processado pelo DOPS por “porte de material pornográfico”, sendo julgado e absolvido no ano seguinte. Até 1980 publicou ainda 10 livrinhos mimeografados. A partir desse ano passou a trabalhar como redator em agências de publicidade. Em 1982 ajudou a fundar o MOVE – Movimento Ecológico de Brasília, a primeira ONG ambientalista do DF. Em 1986 abandonou a publicidade para trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza – onde ficou até 1990, dedicando-se, desde então, profissionalmente, ao seu antigo hobby: produção de mudas de espécies nativas do cerrado. Co-autor do livro “Palmeiras no Brasil”. A partir de 1993 voltou a publicar seus livros de poesia, com “Porque Construí Braxília”. É sócio-proprietário da Pau Brasília Viveiro Eco.loja, casado desde 1986, com Alcina Ramalho e tem três filhos: Erik, Klaus e Max. Seu perfil biográfico foi traçado no vol. 1 da Coleção Brasilienses, no livro “Nicolas Behr - Eu engoli Brasília” escrito por Carlos Marcelo, lançado em 2004.
POETA MARGINAL? EU, HEIN?
não nasci em montes claros. não tenho nome completo. não sou professor. não consegui conciliar nada com a literatura. nunca publiquei nada. atualmente não resido em porto alegre. não me chamo eduardo veiga. não escrevo poesia há mais de 15 anos. não estou organizando meu primeiro livro. não sou graduado em letras. não acredito que a poesia seja necessária. não estou concluindo nenhum curso de pedagogia. não colaboro em nenhum suplemento literário. não estou presente em todos os movimentos culturais da minha terra. não sou membro da academia goiana de letras. não trabalho como assessor cultural da sec. meus pais não foram ligados ao cinema. não tenho tema preferido. não comecei a fazer teatro aos 12 anos. não me especializei em literatura hispano-americana. não tenho crônicas publicadas n’o republica de lisboa. não passei minha infância em pindamonhangaba. não canto a esperança. não recebi nenhuma premiação em concurso de prosa e poesia. não tenho sete livros inéditos. não sou considerado um dos maiores poetas brasileiros. nunca fui convidado para dar palestras em universidades. não vejo poesia em tudo. não faço parte do grupo noigrandes. não me interesso por literatura infantil. não sou casado com o poeta afonso ávila. na minha estréia não recebi o prêmio estadual de poesia. o crítico josé batista nunca disse nada a meu respeito.
não sofri influência de bilac. não sou ativo, nem dinâmico. não me dedico com afinco à pecuária. não sou portador de vasto curriculum. não recebi mensão nonrosa no concurso de poesia ferreira gullar. não exerço nenhuma atividade docente, nem decente. não iniciei minha carreira literária no exército. não fui a primeira mulher eleita para a academia acreana de letras. não tenho poesias traduzidas para o francês. não estou incluído numa antologia a ser publicada no méxico. minha poesia não é corajosa. não gosto de arqueologia. walmir ayalla nunca me considerou um revolucionário. nunca tentei compreender o homem na sua totalidade. não vim para o brasil com 5 anos de idade. não aprendi russo para ler maiakowski. meu pai não é chileno. não sou virgem, sou capricórnio. não sou mãe de seis filhos. nunca escrevi contos. não me responsabilizo pelos poemas que assino. não sou irônico. não considero drummond o maior poeta da língua portuguesa. não gosto de andar de bicicleta. não sou chato. não sei em que ano aconteceu a semana de 22. não imito ninguém. não gosto de rock. não sou primo dos irmãos campos. não sou nem quero ser crítico literário. nunca me elogiaram. nunca me acusaram de plágio. não te amo mais. minha poesia nunca veiculou nada. não sei o que vocês querem de mim. não espero publicar nenhum romance. não sou lírico. não tenho fogo. não escrevi isto que vocês estão lendo.
o pai berra e no filho nascem chifres
a mãe pasta no jardim da praça
o pai prefere a grama da vizinha
entre os seios da filha mais velha
brotam mamas
mas apesar de tudo
não aconteceu nada
e unida a família bovina
entra pro curral
( Iogurte com Farinha, 1977 )
senhores turistas,
eu gostaria de frisar mais uma vez
que nestes blocos de apartamentos
moram inclusive pessoas normais
(Grande Circular, 1978)
RECEITA
Ingredientes:
dois conflitos de gerações quatro esperanças perdidas três litros de sangue fervido cinco sonhos eróticos duas canções dos beatles
Modo de Preparar:
dissolva os sonhos eróticos nos dois litros de sangue fervido e deixe gelar seu coração leve a mistura ao fogo adicionando dois conflitos de gerações às esperanças perdidas
corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles o mesmo processo usado com os sonhos eróticos mas desta vez deixe ferver um pouco mais e mexa até dissolver
parte do sangue pode ser substituído por suco de groselha mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples
estou começando a perder
o medo que tenho das pessoas
já pego na mão
da minha namorada
(Chá com Porrada, 1978)
te amo
24 horas
por segundo
(Bagaço, 1979)
os três poderes são um só:
o deles
(Brasiléia Desvairada, 79)
nossa senhora do cerrado,
protetora dos pedestres
que atravessam o eixão
as seis horas da tarde,
fazei com que eu chegue
são e salvo na casa da noélia
(Entre Quadras, 1979)
SQS415F303
SQN303F415
NQS403F315
QQQ313F405
SSS305F413
seria isso
um poema
sobre brasília?
seria um poema?
seria brasília?
(303F415, 1980)
naquela noite
suzana estava
mais W3
do que nunca
toda eixosa
cheia de L2
suzana,
vai ser superquadra
assim lá na minha cama
(L2 noves fora W3, 1980)
eu engoli brasília
em paz com a cidade
meu fusca vai por esses eixos,
balões e quadras, burocraticamente,
carimbando o asfalto
e enviando ofícios de estima
e consideração ao sr. diretor
(Porque Construí Braxília, 1993)
imagine brasília
não-capital
não-poder
não-brasília
assim é braxília
(Porque Construí Braxília, 1993)
nem tudo
que é torto
é errado
veja as pernas
do garrincha
e as árvores
do cerrado
(Beijo de Hiena, 1993)
os fazedores de desertos
se aproximam
e o cerrado se despede
da paisagem brasileira
uma casca grossa
envolve meu coração
(Beijo de Hiena, 1993)
amorzinho me deixou
amorzinho tem um defeito:
não pode ver homem
DO ERIK PRA MIM
hoje eu sou do mal e você é do bem
e desta vez o mal vence no final
e eu mato você, papai
mas só no filme
(Pelas Lanchonetes dos Casais Felizes, 1994)
FADIGA NEURÓTICA
minha memória futura
tem vagas lembranças
da tua peste emocional
- jamais te tocarei
jesus te ama
eu não
(Segredo Secreto, 1996)
BRASÍLIA ENIGMÁTICA brasília, faltam exatos 3.232 dias para o nosso acerto do contas me deves um poema
te devo um olhar terno
na beira do paranoá pego um pedaço de pau entre um pneu velho e um peixe morto (uma garça por testemunha)
não me reconheces não te reconheço
(Viver Deveria Bastar, 2001)
RIBEIRÃO DO OURO atravessar o ribeirão, pulando entre as pedras, é fácil difícil é tirar aquelas pedras do lugar viver é tirar pedras do lugar recordar é tentar colocá-las de volta (Menino Diamantino, 2003)
eixos que se cruzam
pessoas que não se encontram
...
a cidade é isso mesmo
que você está vendo
mesmo que você
não esteja vendo nada
...
começa a demolição
quero pra mim
os anjos da catedral
...
a superquadra nada mais é
do que a solidão
dividida em blocos
1 5 Restos Vitais (77-79)
Iogurte com Farinha Grande Circular Caroço de Goiaba Chá com Porrada Bagaço
Vinde a Mim as Palavrinhas (79-80)
Com a Boca na Botija Parto do Dia Elevador de Serviço Põe sia nisso! Entre Quadras Brasiléia Desvairada Saída de Emergência Kruh 303F415 L2 noves fora W3 Primeira Pessoa (93-01)
Porque Construí Braxília Beijo de Hiena Pelas Lanchonetes dos Casais Felizes Segredo Secreto Viver Deveria Bastar
Braxília Revisitada - vol. I (2004) UMBIGO (2001) Menino Diamantino (2003) Peregrino do Estranho (2004)