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Imagem: para quê e para quem? Elemento da realidade presente no conhecimento geográfico e identificado em diferentes tipos de texto

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Academic year: 2021

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IMAGEM: PARA QUÊ E PARA QUEM?

Elemento da realidade presente no conhecimento geográfico e

identificado em diferentes tipos de texto.

Evelyn Monari Belo

Orientador: Prof. Dr. Fadel David Antonio Filho

Dissertação de Mestrado elaborada junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia – Área de Concentração em Organização do Espaço, para obtenção do Título de Mestre em Geografia.

Rio Claro – S.P. 2005

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“Aos meus pais, que me ensinaram o valor da vida”.

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AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, que sempre presentes apoiaram a realização de todas as etapas de meus estudos,

alimentando meus sonhos e

possibilitando a continuidade de minha caminhada.

Ao meu orientador, pela paciência e dedicação.

A todos os amigos e companheiros que estiveram presentes em todos os momentos da realização deste trabalho.

Ao apoio concedido pela FAPESP.

E principalmente a Deus,

que me forneceu forças para superar as dificuldades encontradas.

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This work has objective presents a comparative analysis among different text types – literary and didatic – starting from the images that we elaborated and/or we evoked and that they result of the interpretation of the same ones. We took as referencial in our analysis the man, present so much in the literary work “Os Sertões”, of Euclides da Cunha, as in the study aids of Geography, Medium Teaching, of the Program of Education at the Distance Telecurso 2000 (TC 2000). A result of the analysis we have the “human types”, that your possibility us the search for the understanding of images that, revealing their differences, they also reveal different visions of the world in the current reality.

KEY WORDS:

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Este trabalho tem como objetivo apresentar uma análise comparativa entre diferentes tipos de texto – literário e científico – a partir das imagens que elaboramos e/ou evocamos e que resultam da interpretação dos mesmos. Tomamos como referencial em nossa análise o homem, presente tanto na obra literária “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, como nas apostilas de Geografia, Ensino Médio, do Programa de Educação à Distância Telecurso 2000 (TC 2000). Como resultado da análise temos os “tipos humanos”, que possibilitam a busca pelo entendimento de imagens que, revelando suas diferenças, revelam também diferentes visões do mundo na atual realidade.

PALAVRAS-CHAVE:

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Página

INTRODUÇÃO ...1

O CAMINHO PERCORRIDO: materiais e métodos ...8

CAPÍTULO 01 IMAGEM E LINGUAGEM: importantes fatores na compreensão do saber geográfico...12

1.1. A Presença da Imagem e do Saber Geográfico em “Os Sertões”...22

1.2. Imagens e “Tipos Humanos”: alguns fatores comuns a dois elementos distintos ...26

1.3. Imagens do Ensino que Refletem a Realidade Brasileira: uma possibilidade de compreensão dos objetivos da proposta pedagógica do TC 2000 ...32

1.4. Imagens e “Tipos Humanos”: a perigosa tendência à aceitação...40

1.4.1. Os Sertanejos: imagens da passividade na aceitação de sua condição humana ...41

1.5. Experiências de Vida: elaboração de imagens versus construção da realidade...48

1.5.1. O “Sertanejo Euclidiano”: imagens versus realidade ...48

1.6. O Homem – “Tipo Humano” – nas Apostilas do TC 2000: passividade e submissão como fatores decisivos em seu (re)conhecimento do mundo...53

CAPÍTULO 02 IMAGEM, LITERATURA E INTERPRETAÇÃO ...61

2.1. Imagens de “Tipos Humanos”: realidade e visões do mundo...61

2.2. Imagens que Revelam os “Tipos Humanos” ...66

2.3. Imagens dos “Tipos Humanos” nas Apostilas do TC 2000 ...77

CAPÍTULO 03 IMAGEM E LINGUAGEM: interpretação do conhecimento geográfico ...85

3.1. A Presença da Imagem e da Linguagem Escrita na Interpretação do Conhecimento Geográfico ...85

3.2. O Programa de Educação à Distância Telecurso 2000: o uso da imagem para a regulação social ...94

3.3. “Os Sertões”: imagens da regulação ...104

CAPÍTULO 04 IMAGENS E CONHECIMENTO GEOGRÁFICO: a interpretação do mundo nas diferentes épocas e sob diferentes visões do mundo ...113

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CONSIDERAÇÕES FINAIS ...129

REFERÊNCIAS ...138

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“Querer chegar é como já ter percorrido metade do caminho”. (Paderewty)

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho é o resultado de uma pesquisa realizada pela aluna EVELYN MONARI BELO, no programa de Pós-Graduação em Geografia, Mestrado, na área de concentração “Organização do Espaço”, vinculado à linha de pesquisa Geografia e Ensino, sob a orientação do Prof. Dr. Fadel David Antonio Filho.

Tomando sua experiência como Orientadora de Aprendizagem do Programa de Educação à Distância Telecurso 2000 (TC 2000), Ensino Médio, a aluna ministrou aulas de todas as disciplinas que constituem a grade curricular da proposta pedagógica em questão, tanto em empresas que oferecem esta “modalidade” de ensino aos funcionários como também em “telesalas” de escolas da rede pública estadual.

O material pedagógico do TC 2000 é composto por fitas VHS e apostilas, cujos textos acompanham os temas das “teleaulas”, como são denominadas as aulas veiculadas em canais abertos de TV – recepção livre – ou apresentadas pelo Orientador de Aprendizagem em “telesalas” – recepção organizada (fechada). Maiores esclarecimentos podem ser observados na monografia que a aluna desenvolveu, sob a mesma orientação, quando cursava Especialização em Instrumentação para o Ensino da Geografia, no Departamento de Geografia, IGCE, UNESP, Rio Claro. Os alunos, também denominados “telealunos” e considerados telespectadores, não aceitavam o uso das fitas VHS, que constituem, junto com apostilas, o material desta proposta pedagógica. Geralmente, solicitavam que as fitas não fossem utilizadas, sobretudo quando as disciplinas correspondiam à área de Exatas, Química e Matemática, por exemplo.

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Em contrapartida, mesmo apresentando imagens que retratam a miséria, bem como condições indignas de sobrevivência humana, ou que chocam o telespectador – seja ele “telealuno” ou não – como as que retratam o caso da contaminação em Goiânia pelo Césio 147, as imagens das “teleaulas” de Geografia eram bem aceitas.

Este aspecto constituiu a base dos estudos realizados no momento em que a aluna desenvolvera a pesquisa referente à Especialização, acima relacionada, cujo título era: “A Imagem Educa?”.

Então, observando que ainda prevaleciam muitos questionamentos, a referida pesquisa foi ampliada.

A aluna observou, também, que os textos que constam das apostilas de Geografia do TC 2000, Ensino Médio, aqui consideradas, não oferecem conteúdo suficiente para embasar a compreensão e o aprendizado do “telealuno”.

O “telealuno”, por sua vez, deve ser compreendido como uma pessoa simples, humilde, cuja formação não permite a “rápida absorção” de conceitos, em comparação com outros estudantes que se encontram na época “adequada” ao nível de ensino compatível com as expectativas que possamos vir a ter em função de sua idade.

Neste sentido, os textos das apostilas de Geografia do TC 2000, ao abordarem inúmeros conceitos em um único parágrafo, podem ser considerados insuficientes, pois, de certa forma, se tornam empobrecidos quando comparados a outros tipos de texto que exploram adequadamente a complexidade dos temas.

Então, para fundamentar esta análise, são comparados os textos das apostilas acima relacionadas com a obra literária “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

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Representando um texto descritivo e, portanto, figurativo, “Os Sertões” se constituem, sobretudo, como um marco na literatura brasileira.

Comparando as duas formas de escrita e o emprego de palavras, em ambos os textos selecionados, é identificada a possibilidade de interpretação de tais materiais que, mesmo representando diferentes épocas e, conseqüentemente, diferentes visões do mundo, permitem aos leitores a compreensão da realidade no momento atual. Tal fato pode ser observado quando é destacada a visão preconceituosa de Euclides da Cunha no tocante à superioridade do branco, expresso na figura dos militares, e também quando é apontada a visão preconceituosa implícita nas linhas e entrelinhas das apostilas do TC 2000, que consideram, indiretamente, o branco como o indivíduo que integra um grupo social diferenciado se comparado aos demais. É apresentada uma tabela transcrita de uma das apostilas que não deixa dúvidas aos leitores sobre este apontamento, bem como são transcritos alguns fragmentos de “Os Sertões” que não os “enganam”, traduzindo o negro como uma “besta de carga”, inferior ao branco e capaz de atingir o mesmo patamar que este. Não se afirma que a realidade seja compreendida em sua totalidade, pois esta condição resultaria no não-prosseguimento dos estudos realizados. Porém, quando ocorre a identificação do “para quê e para quem são produzidas as imagens”, a proposta visa identificar como as imagens que nós, leitores, elaboramos e/ou evocamos, a partir da leitura de diferentes tipos de texto, afetam nossa realidade. Em outras palavras, não há a intenção de analisar imagens “prontas”, que traduzem um produto comercial. A preocupação é direcionada à análise de imagens que, correspondentes às diferentes visões do mundo, são repletas de subjetividade.

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Em alguns momentos da realização desta pesquisa, o trabalho desenvolvido chegou a ser confundido e/ou até mesmo considerado na ótica de trabalhos que, abordando a imagem como objeto de estudo, enfatizam a compreensão da mesma como representação cartográfica ou enfatizam seu aspecto cognitivista, por exemplo.

Para um melhor esclarecimento, é importante salientar ao leitor que esta pesquisa não prioriza tais aspectos, considerando a imagem como objeto de estudo sim, mas não a utilizando como mais um aspecto observado. A concepção de imagem desta abordagem traduz a ideologia e subjetividade como elementos que refletem as diferentes épocas e visões do mundo observadas e/ou identificadas em diferentes tipos de texto, configurando a realidade e o espaço geográfico.

Então, é oportuno o momento para esclarecer, também, que valiosas sugestões foram realizadas no ato da defesa desta dissertação pela banca examinadora. Entretanto, na medida em que fora apontada a necessidade de modificação do título, em um primeiro momento houve concordância que, conforme é aqui relatado, não foi acatada pelo fato desse mesmo trabalho, sendo submetido à apreciação de pareceristas da FAPESP – importante agência de fomento à pesquisa que possibilitou sua realização –, idôneos e altamente qualificados, os títulos não sofreram críticas e/ou receberam sugestões para que sofresse alteração. A propósito, sendo o título inicial “Imagem: para quê e para quem?”, o mesmo foi acrescido de um subtítulo conforme sugestão recebida e acatada no momento do exame de qualificação.

Assim, retomando aspectos de nosso trabalho e compreendendo que a estrutura do texto de Euclides da Cunha – ou texto “euclidiano”, como há

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referências a ele em alguns momentos do texto dessa dissertação - se assemelha da Geografia Tradicional (Positivista), é tomado como referência para a análise proposta o homem. Esta escolha se justifica pela própria subdivisão da obra “Os Sertões”: “A Terra”, “O Homem”, “A Luta”.

A figura do homem é presente e marcante em ambos os materiais, tanto na obra literária como no texto didático – apostilas de Geografia do TC 2000, Ensino Médio – consideradas para a análise proposta. Tal aspecto possibilitou a realização de comparações sem desconsiderar a subjetiva e complexa realidade que perpassa ambos e, também, a identificação da presença de diferentes visões do mundo.

Desta maneira, o texto que concretiza esta pesquisa está organizado em quatro capítulos. No desenvolvimento de cada capítulo é possível observar

que é tomado o cuidado de esclarecer ao leitor como são interpretadas as imagens que nós, leitores, elaboramos e/ou evocamos e, conseqüentemente, como ocorreu o avanço no decorrer da busca de resposta para a questão inicial:

“Imagem: para quê e para quem?”.

Na medida em que tal avanço se concretizava e era desenvolvida a pesquisa, o questionamento inicial apontava uma ampla possibilidade de investigação. Sem dúvida, este aspecto impulsionou a continuidade da pesquisa, fundamentando as inquietações que surgiam e, assim, possibilitando o prosseguimento dos estudos.

Então, é importante observar que a questão proposta inicialmente é abrangente, possibilitando inúmeras maneiras para a busca do caminho, da tentativa de encontrar uma provável resposta, que foi apenas delimitada, e não completamente alterada, atendendo às expectativas propostas no tema inicial.

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Já em contato com o primeiro capítulo, o leitor pode identificar a compreensão da relação entre a imagem e a linguagem considerada para a realização da pesquisa. É entendido que ambos são elementos de extrema importância na assimilação do saber geográfico, pois se considera, neste contexto, que todo texto é informativo e, as imagens, também. Neste sentido, é tomado o homem como referência para a análise, mas, além disso, é preciso salientar como são identificadas as diferenças entre os tipos de texto selecionados: o literário, que aqui consideramos como figurativo – mas que transpõe tal característica – e o didático, que, manifestando a correspondência de seus parágrafos com uma proposta conteudista porém “sintética”, por vezes, consideramos “próximo do científico”.

São apontados também como decorrentes da relação entre a imagem e a linguagem aspectos que nos permitem, como leitores, identificar possibilidades de passividade e aceitação, tanto no que se refere à realidade do “sertanejo euclidiano”, como do “sertanejo aluno do TC 2000”.

A partir deste primeiro capítulo, nossa pesquisa é aprofundada e, no segundo capítulo, abordamos a relação entre a imagem, a literatura e a interpretação que realizamos sobre as mesmas.

Neste momento, se torna nítida a importância de ser o homem o referencial para a análise proposta. Tal afirmação fica evidente quando se observa que “tipos humanos” constituem os sertanejos nos diferentes tipos de texto utilizados.

Esta condição possibilitou a abordagem do terceiro capítulo, no qual é identificada a possibilidade de “regulação” que o TC 2000 apresenta quando são realizadas algumas observações das entrelinhas de sua proposta. É importante

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salientar que, para um melhor esclarecimento e uma conceituação histórica, já no primeiro capítulo o leitor tem contato com aspectos referentes a propostas do Banco Mundial e do BID (Banco Interamericano para o Desenvolvimento), inserção indispensável para facilitar o esclarecimento sobre os processos de ação destas instituições em relação à forma como podemos vir a compreender e/ou interpretar a realidade. Foi possível identificar, também, uma outra “imagem” nas linhas e entrelinhas da proposta pedagógica considerada e, assim, a mesma é comparada ao texto de “Os Sertões”, procurando apontar, nas linhas e entrelinhas do texto literário, possibilidades de “regulação”.

O quarto capítulo, por sua vez, tem como objetivo a identificação das diferentes visões do mundo, ressaltando sua importância para o conhecimento da realidade. Em suma, trata-se da tentativa de compreensão da importância do saber geográfico em diferentes épocas.

Como é possível observar, a relevância do objeto de estudo considerado – a imagem – é incontestável. As imagens são, a todo o momento, elementos que, além de presentes em diversas situações, oferecem a oportunidade de assimilar conhecimento, ampliando o alcance de conteúdos que devem ser trabalhados em um determinado período em nossas escolas, sejam elas instituições de nível fundamental, médio ou superior de ensino.

Para quê e para quem são produzidas as imagens que verificamos como “formadoras”, constituintes do conhecimento geográfico?

Como já afirmado, é observado que as imagens não correspondem apenas às fitas VHS produzidas intencionalmente para a transmissão do conteúdo que configura o que Michel Apple (1997) denominou “Conhecimento Oficial”, pois, os textos organizados para a transmissão do conhecimento

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historicamente produzido apresentado nas apostilas do TC 2000 são insuficientes e, até mesmo, “precários” se comparados a outros materiais.

Há uma grande preocupação em transmitir um elevado número de informações ao aluno em pouco tempo, pois o TC 2000 corresponde, sobretudo, à proposta de ensino supletivo, na qual o objetivo principal deixa de ser a formação do cidadão para ser a erradicação do analfabetismo e o alcance da “diplomação” por pessoas que não tiveram a possibilidade de adquirir conhecimento em época considerada “correta” por necessitarem trabalhar para assegurar sua sobrevivência, mesmo que, para isto, fossem submetidas às mais difíceis condições e adversidades, além de sujeitarem-se ao recebimento de míseros salários. Contrariamente, o texto literário “Os Sertões” apresenta uma escrita na qual o emprego de adjetivos pode ser considerado exagerado e, assim, o “não conhecer” uma palavra pode, por meio da curiosidade, conduzir o leitor à busca do conhecimento para interpretar adequadamente o sentido da escrita no texto.

Desta forma, a pesquisa desenvolvida e explanada no texto dessa dissertação pode ser considerada relevante, mas não esgota as questões que a constituem.

Então, o leitor é convidado à leitura de um texto que contraria a visão que a realidade muitas vezes nos impõe: o conhecimento apresentado em livros é verdadeiro e incontestável. Nesta produção escrita, as imagens vêm e vão, construindo e destruindo conceitos que, por vezes, podem ser considerados absolutos, únicos, verdadeiros e, até mesmo, inquestionáveis.

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O CAMINHO PERCORRIDO: materiais e métodos

Para a realização da pesquisa proposta, foram selecionados como objeto de estudo as apostilas de Geografia, Ensino Médio, vol. 1 e vol. 2 do TC 2000 e também a obra literária “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, sendo que esta última é o elemento que constitui o eixo norteador de nosso estudo.

Trata-se de uma pesquisa de caráter teórico, mas, que possui sua fundamentação na experiência da aluna enquanto Orientadora de Aprendizagem do Programa de Educação à Distância Telecurso 2000.

Sendo uma das preocupações da Geografia, hoje, investigar como a sociedade se transforma, podemos observar que há uma grande dificuldade em enquadrá-la em um dos principais tipos de pesquisa, que são as quantitativas e as qualitativas.

As pesquisas quantitativas também são denominadas experimentais e consideram seu objeto de estudo a partir de hipóteses previamente estabelecidas. Já no tocante às pesquisas de caráter qualitativo, não trabalhamos com hipóteses, e sim com objetivos que nortearão nosso trabalho diante do objeto de estudo que selecionamos. Entretanto, os objetivos não deixam de se constituir como hipóteses.

Neste sentido, é possível afirmar que a etapa correspondente ao levantamento bibliográfico foi de fundamental importância para o desenvolvimento desta pesquisa, bem como de qualquer outra que seja realizada tomando como referência a Geografia humana.

Como esta pesquisa não é referente à Geografia física, na qual prevalece a experimentação empírica, que valoriza o rigor matemático e a busca

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por resultados exatos, não há a intenção de formular novas leis científicas ou testar aquelas que já existem. Porém, é proposta a realização de uma discussão teórica, crítica, e que fomente o desenvolvimento do conhecimento científico.

Então, consideramos ter em mãos um objeto de estudo caracterizado por extrema subjetividade e verificamos que a razão, “ferramenta” do progresso humano na ciência moderna, muitas vezes prevalece e, assim, compreendemos a importância que Descartes lhe atribuía, chegando a desconsiderar os sentidos. Para este filósofo, o conhecimento deveria ser o resultado de uma busca, e não simplesmente aceito, sem questionamentos.

É por este motivo que reiteramos: esta pesquisa utiliza o método dialético, no qual os argumentos teóricos nos permitem interpretar uma sociedade que, sob os moldes e/ou padrões do capitalismo, visa à obtenção de lucros. Em suma, a natureza, sob esta perspectiva, é compreendida como um objeto, afetado pelos meios de produção correspondentes a um determinado momento histórico.

Quando realizamos tal afirmação, nos distanciamos do pensamento de Descartes para nos aproximarmos das idéias expressas por Hegel.

Enquanto Descartes afirmava que sua única certeza era a dúvida, verificamos que Hegel admitia a inexistência das “verdades eternas”, representadas pelas leis científicas, imutáveis. Em sua compreensão sobre as bases do conhecimento humano, Hegel considera a mudança, ou seja, em cada época temos uma visão do mundo.

Para este filósofo, a razão constitui um elemento dinâmico, na qual o conhecimento não ocorre fora de um processo histórico. Assim, assinalamos que em todo processo histórico temos as ideologias que caracterizam as diferentes épocas, reafirmando a presença das diferentes visões do mundo acima citadas.

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Estes dois fatores caracterizam as ciências humanas e nos permitem identificar nosso trabalho com o método dialético.

Nosso objeto de estudo é a imagem, portadora de subjetividade e, ainda, representante das diferentes ideologias e visões do mundo, confirmando a existência de uma realidade construída, fundamentada em fenômenos sociais e culturais que variam no tempo e no espaço.

Retomando os materiais que constituem nosso objeto de estudo, verificamos que as ricas descrições realizadas por Euclides da Cunha nos permitem uma abordagem que aprofunda a importância das imagens que produzimos, ou seja, que elaboramos quando nos dedicamos à leitura de seus textos. Este aspecto nos permite, ainda, estabelecer uma comparação entre tais escritos e os textos produzidos e utilizados no material pedagógico do TC 2000.

Na pesquisa realizada no Estágio em Especialização, selecionamos uma seqüência de quatro aulas nas quais analisamos as imagens, tanto aquelas apresentadas nas apostilas em forma de fotografias como também apresentamos quadros, nos quais analisamos a composição das imagens que constituem as teleaulas, buscando, desta forma, detalhar aos leitores de nosso trabalho como identificávamos estas imagens como norteadoras de nosso questionamento. Seriam as imagens realmente elementos norteadores?

Atualmente, nesta “nova” etapa, como já relatamos, nosso objeto de estudo ainda é a imagem. Entretanto, não temos a intenção de apresentar dados pertinentes às fitas VHS que venham a concretizar nossas questões ou mesmo reafirmar o que fizemos anteriormente. Nossa intenção representa nossos objetivos, que podem ser compreendidos como a necessidade de observarmos como as imagens são importantes pelo simples fato de serem produto de nossa

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atividade mental, nossa imaginação. Então, questionamos: aceitamos ou agimos? Como podemos interpretar estas imagens?

Diante de tais questionamentos, encontramos apoio em alguns referenciais teóricos, porém, como temos em mãos um objeto de estudo que se destaca entre tantos que existem mas que ainda não se constitui como referencial de outras pesquisas, salientamos que nosso trabalho pode ser considerado, além de extremamente relevante, inovador. Neste sentido, não julgamos como “falha” uma relação de referências bibliográficas que não seja extensa, pois temos em mãos a possibilidade de aprofundar nossos estudos em um campo ainda pouco explorado.

A escassez de dados bibliográficos se explica pelo fato de que, quando nos dedicamos a buscar referenciais que amparassem nossas reflexões, observamos que a palavra imagem muitas vezes aparece em títulos, porém, tais trabalhos limitam-se a considerá-la apenas como elemento pertinente a questões cognitivas, desconsiderando seu caráter subjetivo e a ideologia que assegura sua singularidade. Em outras palavras, pode-se afirmar que os trabalhos que implicam a imagem são direcionados a análises descritivas, nos quais, geralmente, são tomadas cenas de obras literárias, cuja leitura resulta a identificação de conceitos e/ou paisagens, ou manifestam a preocupação com a elaboração/produção de imagens mentais, frutos de um processo caracteristicamente cognitivo.

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CAPÍTULO 01

IMAGEM E LINGUAGEM:

importantes fatores na compreensão do saber geográfico

“A idéia não é nova”. (Euclides da Cunha)

As imagens que retratam o espaço geográfico podem ser compreendidas como um recurso tão importante quanto a escrita. Ambos são necessários e fundamentais ao processo de aquisição do conhecimento.

* * * *

Educar, antes de qualquer interpretação, significa “criar possibilidades”. Assim, o compromisso do verdadeiro educador é relacionado diretamente à formação do cidadão, tornando o ensino da Geografia indispensável. Alunos e professores podem utilizar o conhecimento “amplo”, que envolve aspectos dos mais diversos ramos do saber, seja ele formal ou informal.

Em momento anterior, desenvolvemos uma pesquisa intitulada “A Imagem Educa?” para a conclusão do Estágio em Especialização junto ao Departamento de Geografia – IGCE – UNESP. O trabalho nos permitiu verificar que o material pedagógico do Telecurso 2000 (TC 2000) – apostilas e fitas VHS – induz o observador, seja ele aluno ou orientador de aprendizagem, a “olhar” a realidade de forma peculiar.

Então, escolhemos o escritor Euclides da Cunha para desenvolver nossa pesquisa, pelo fato de serem suas descrições ricas em conceitos e expressões, condição que assegura à sua obra um caráter cinematográfico. À medida que avançamos nossa leitura, percebemos que as palavras utilizadas pelo escritor deixam de ser difíceis para constituírem a fundamentação necessária ao

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entendimento do leitor, que é envolvido pela beleza da obra euclidiana “Os Sertões”.

Eis um primeiro aspecto que nos permite estabelecer uma comparação entre os materiais selecionados: a linguagem escrita revela grande dificuldade de interpretação e/ou compreensão quando consideramos as linhas e entrelinhas das apostilas do TC 2000, porém, ocorre justamente o contrário nos escritos de Euclides da Cunha.

Os sertanejos eram pessoas simples, com pouco ou quase nenhum estudo. Mas, mesmo diante da simplicidade, podemos observar que seu conhecimento é tão importante quanto o conhecimento erudito, (re)transmitido no ensino formal, independentemente da proposta pedagógica considerada. Se tomarmos como referencial para análise as apostilas do TC 2000, a subjetividade do discurso encontra-se nas entrelinhas de seus textos. O telealuno1 recebe informações que procuram, a todo o momento, direcionar suas ações, pois, ligam-se diretamente ao ligam-seu pensamento. Assim, mesmo que as fitas VHS apreligam-sentem conceitos por meio do uso de imagens, podemos considerar que se trata de uma transmissão oral do conhecimento que ocorre de forma direcionada e/ou até mesmo induzida.

Em lugares nos quais a linguagem oral é responsável pela transmissão do conhecimento, a exemplo dos sertanejos, a sabedoria acumulada é transmitida através de gerações e, assim, é o aspecto que assegura sua permanência e sua beleza, tornando as palavras insubstituíveis. A obra de Euclides da Cunha não faz qualquer referência à formalização do conhecimento dos sertanejos, mas podemos verificar que a simplicidade do povo de Canudos não negligencia o ato de (re)conhecer. Além disso, a literatura euclidiana reforça a idéia de que as palavras, bem escolhidas e empregadas, constituem belíssimas imagens.

Tal afirmação nos permite uma melhor compreensão dos conceitos geográficos presentes e observáveis em sua obra, pois, em lugares nos quais prevalece a cultura oral, o conhecimento transmitido é caracterizado pela

1

No decorrer do texto que constitui esta dissertação, é possível observar as várias formas utilizadas como referência ao “indivíduo receptor” da proposta pedagógica que constitui ao Programa de Educação à Distância Telecurso 2000. O mesmo deve ser entendido como aluno ou telealuno, como é denominado em documentos oficiais da referida proposta pedagógica, bem como telespectador, sendo esta última uma das maneiras pela qual fora denominado no texto apresentado, pois é necessário considerar que qualquer pessoa se encontra apta a receber informações (conhecimento) a partir da veiculação de “teleaulas” em canais de TV abertos.

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“sabedoria popular” e esta condição não interfere negativamente na sua consolidação. Uma forma de transmissão do conhecimento pode ser tomada como exemplo se pensarmos que, para vencer os “inimigos”, os sertanejos conheciam devidamente o lugar onde residiam, transmitindo e “re-transmitindo” as informações necessárias àqueles que juntavam-se a eles para o conflito, sendo mais velhos ou jovens.

As palavras ultrapassam os limites do tempo e do espaço, mas podem ser apresentadas concretamente, nas mais diversas formas: impressas com letras grandes, pequenas, coloridas ou não, preenchidas, vazadas, ornamentadas, entre outras. Em suma, todas elas têm, entre muitas, uma função principal: informar.

Entre a linguagem escrita das apostilas do TC 2000 e a obra literária euclidiana, a comparação pode ser estabelecida em vários momentos, dentre os quais merecem destaque os que expressam a caracterização da época correspondente, nos quais, no tocante às apostilas do TC 2000, observamos que “[...] a produção industrial cresceu mais de cinqüenta vezes no último século, sendo que quatro quintos desse crescimento se deram a partir de 1950” (FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO, 1996, p.26, v.1).

E, em contrapartida, a literatura euclidiana nos aponta que “[...] o estranho território, a menos de quarenta léguas da antiga metrópole, predestinava-se a atravessar absolutamente esquecido os quatrocentos anos de nossa história” (CUNHA, 1984, p.10).

Como podemos observar, as palavras possuem a capacidade de seduzir o leitor, conforme verificamos nas idéias expressas por Cunha (1984) e, além disso, conduzi-lo a momentos históricos distantes, permitindo a obtenção do conhecimento referente a fatos que colaboraram para a construção da realidade por ele vivida. Já as apostilas do TC 2000 refletem a “urgência” da modernidade, ficando patente a ausência de vínculo com o leitor, fato que não se observa com relação à obra euclidiana. Sua linguagem, mais técnica e, portanto, mais objetiva, caracteriza uma metodologia de um ensino supletivo, na qual o tempo é “curto”, “pequeno” e, por isso, não se observa a presença de detalhes que conduzam o leitor a aprofundamentos para melhor conhecer e/ou dominar o tema proposto para o desenvolvimento da aula em questão. Nesta dinâmica, a sedução pode ser

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interpretada como um produto obtido por meio das imagens produzidas mentalmente, ora pelo escritor, ora pelo leitor.

As imagens produzidas são associadas à capacidade que possuímos de receber e interpretar dados e/ou informações do meio ambiente. Este aspecto nos permite observar que, na obra “Os Sertões” as palavras empregadas são mais significativas e, conseqüentemente, mais sedutoras que nas apostilas do TC 2000.

Diante desse contexto, julgamos necessário esclarecer como estabelecemos a diferença entre os tipos de texto que consideramos para nossa análise.

A (re)construção do conhecimento geográfico pode ser examinada quando nos dedicamos a (re)interpretar o mundo e, a partir de tal condição, elaborar e/ou evocar imagens que representam a realidade. Podemos, assim, observar a concretização de aspectos que se referem tanto à realidade do “sertanejo euclidiano” como do “sertanejo aluno do TC 2000”, os “tipos humanos” que abordamos em momento posterior e detalhamos em nossa análise. Neste sentido, pode-se até mesmo afirmar que a forma pela qual caracterizamos os tipos humanos nos materiais que constituem nosso objeto de estudo é decorrente da diferença que assegura a presença de peculiaridades a cada tipo de texto aqui considerado: literário (descritivo) e didático, próximo do texto científico.

O texto literário é, sem dúvida, o texto de “Os Sertões” e, o texto que denominamos didático, se refere às apostilas do TC 2000. Ao classificarmos estes últimos como didáticos, nós os inserimos numa categoria próxima daquela dos textos de caráter científico. Nossa interpretação deriva do fato de que ambos os estilos caracterizam-se por uma linguagem técnica, tal como a linguagem apresentada pelos textos que são “encarregados” de propiciar o conhecimento científico, considerado verdadeiro.

Compreendemos, então, que tanto no tocante à realidade dos “tipos humanos” quanto na comparação estabelecida entre os diferentes tipos de texto, as diferenças observadas se tornam fatores que nos permitem identificar a presença de semelhanças entre ambos. Então, questionamos: como isso ocorre?

Uma análise superficial e “imediata” nos remete à seguinte reflexão: tanto o texto literário quanto o texto científico deveriam representar, de forma simples e objetiva, a complexidade inerente aos tipos humanos que

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consideramos, ou seja, ao “sertanejo euclidiano” e ao “sertanejo aluno do TC 2000”, conforme veremos mais adiante. Além disso, é importante salientar que a função de um texto pode ser compreendida como em sua capacidade de (re)transmitir a informação e possibilitar, também, a (re)construção do conhecimento.

Reafirmando tal condição, referimos que uma primeira leitura dos materiais que constituem nosso objeto de estudo talvez implique na incapacidade do leitor compreender conceitos que, em nosso entendimento, são manifestados nas imagens que elaboramos e/ou evocamos mentalmente. Tais imagens podem ou não representar a realidade humana. Conseqüentemente, a reação do homem diante dos fatos que integram sua(s) experiência(s) seria afetada por esta realidade. Então, quando tomamos como referência o texto literário, assinalamos que “não podemos esquecer-nos de que narrações e descrições são textos figurativos e de que por trás das figuras existe um tema implícito” (FIORIN e SAVIOLI, 1999, p.256).

Como a obra “Os Sertões” é uma narrativa descritiva, podemos tomá-la como um exemplo adequado para justificar as idéias dos acima relacionados, mas, não podemos, no entanto, afirmar que Euclides da Cunha pretendeu fazer de seus escritos um importante marco na literatura, que chega a mesclar o texto científico – identificado em sua parte introdutória – com o texto literário e, assim, constituir um marco teórico.

Temos, neste autor, um escritor de gênio que descreveu tipos humanos e cenários de forma cinematográfica, valorizando detalhes e apresentando ao leitor uma paisagem – ou várias – a partir do emprego de uma excessiva adjetivação. Tal condição nos permite observar que Euclides da Cunha consegue se diferenciar de outros escritores2 utilizando apenas o recurso lingüístico como elemento transmissor de informações, seduzindo o leitor e convidando-o a uma leitura agradável e, ainda, produtiva.

Nossa afirmação de que Euclides da Cunha transmite informações está calcada no fato de que os seus relatos constituem-se numa narrativa descritiva peculiar, cuja realidade é dinâmica e envolvente, pertencente a um povo humilde,

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Para facilitar a compreensão de tal afirmação, podemos tomar como “outros escritores” os próprios autores das apostilas de Geografia do Telecurso 2000, vol. 1 e 2, utilizadas na pesquisa.

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mas detentor de grande conhecimento e sabedoria. Neste sentido, não temos uma obra fictícia, e sim, um texto figurativo que representa a realidade.

Se, como afirmam Platão et Fiorin (1999, p. 256), “[...] concreto e abstrato não são categorias da realidade, mas da linguagem”, é necessário que se compreenda que o texto de Euclides da Cunha e o texto das apostilas do TC 2000 não realizam esta diferenciação, porque não são escritos com o objetivo de esclarecer a separação entre elementos que possuem sentido denotativo e conotativo, mas nos permitem identificar aspectos que constituem e selecionam tais elementos, considerando-os mais próximos e mais distantes da realidade do leitor.

A proximidade entre leitor e texto pode ser facilmente identificada quando apontamos a “sedução” decorrente das linhas e entrelinhas da obra literária euclidiana. Entretanto, não podemos afirmar que o texto das apostilas do TC 2000 distancia-se completamente da realidade do leitor. Mesmo levando ao seu alcance uma quantidade exagerada de conceitos – em poucas linhas! –, são as imagens que os leitores evocam e/ou elaboram mentalmente que nos permitem verificar que, apesar de sua proximidade com o texto de caráter científico, as apostilas em questão não seduzem o leitor por meio da decodificação das palavras, mas, sim, por meio da identificação de elementos presentes em sua realidade.

Cientes de que nosso objeto de estudo inclui o material didático que compõe o Programa de Educação à Distância TC 2000, não podemos desconsiderar, no momento que diferenciamos os textos didático e literário, a presença da televisão como representante do recurso audiovisual que, por sua vez, representa uma realidade considerada “moderna”, “atual” e, portanto, um símbolo da inovação.

Assim, se torna necessário verificar as condições de vida das pessoas. Geralmente, estas condições são estabelecidas por uma nova organização da sociedade. O TC 2000, caracterizando o ensino supletivo, pode ser tomado como representante de um novo mercado, que engloba a existência de uma nova indústria cultural e, de acordo com as idéias de Pellegrini (1999, p.204, grifos do autor), depreendemos a presença de:

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[...] novo sujeito, basicamente urbano, habitante dos grandes centros de todo o mundo, [...] produto de um complexo processo em que a representação das relações sociais requer a mediação de uma estrutura comunicacional, numa espécie de triângulo formado entre o sujeito, a mídia e a realidade. Esse processo, calcado na proliferação da imagem eletrônica, é absolutamente novo na história e só foi possível se efetivar na simbiose ideológica entre o mercado e os meios de comunicação de massa.

É notória a verificação de que os meios de comunicação de massa receberam a importante função de “substituir” o livro no Programa de Educação à Distância. Em outras palavras, o significado dos textos escritos não deveria ser tão valorizado em propostas pedagógicas como o TC 2000, pois os textos, gradativamente, seriam substituídos pelas imagens veiculadas nas fitas VHS. Esta condição nos permite definir os textos das apostilas de Geografia do TC 2000 como representantes de um ensino supletivo. Mas, verificamos também que, tão significativas quanto as imagens veiculadas pelos meios de comunicação de massa, são as imagens que evocamos e/ou elaboramos quando nos dedicamos ao ato da leitura.

Retomando os tipos de textos aqui abordados, podemos novamente apoiar nossas reflexões nas idéias expressas por Fiorin e Savioli (1999, p.116, grifos do autor), afirmando que:

Não se escrevem da mesma maneira os artigos do Folhateen, suplemento para jovens do jornal Folha de S. Paulo, e os editoriais desse jornal; uma bula de remédio e um conto; as falas de cada personagem; a primeira página do jornal Notícias Populares e a primeira página do Estadão. No texto científico, técnico, informativo etc. a única norma admitida é a chamada norma culta. Em outros tipos de texto, as variantes, como se disse, são usadas para figurativizar a identidade do narrador ou das personagens.

Deve-se estar atento, quando se usam variantes lingüísticas, para o fato de que elas devem ser adequadas à identidade de quem as utiliza (não se pode fazer um fluminense de Campos falar como um gaúcho) e de que seu uso deve ser coerente (uma personagem não pode usar uma variante e, na mesma situação, utilizar outra muito diferente; por exemplo, ora fala na variante baiana, ora na gaúcha). A mistura de variantes pode ser feita, mas é trabalho muito complicado, que exige um conhecimento muito grande da língua, para saber como combiná-las.

Diante de tais considerações, reafirmamos que o TC 2000 pode, então, ser compreendido como um material constituído por apostilas portadoras de textos de caráter didático. Todavia, podemos considerar que a objetividade verificada em sua linguagem pode ser resumida na função de (re)transmissão do

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conhecimento. Neste sentido, tais textos se assemelham com os textos de caráter científico: objetivos, apresentando uma estrutura na qual se verifica a presença de linguagem extremamente técnica. Como (re)transmitir o conhecimento não é função do texto, e sim, do Orientador de Aprendizagem, a necessidade de urgência, de ganho de tempo do TC 2000, pode ser interpretada como um elemento em correspondência com a modernidade de nossa época, e não com o que os objetivos da proposta apontam como fundamental: formar o cidadão.

Se o tipo de texto nos fornece indícios de quem é o seu receptor, é possível considerar que os textos das apostilas de Geografia do TC 2000 refletem, em seu conteúdo, a preocupação com o ganhar tempo, abordando em seus parágrafos inúmeros conceitos. A abordagem de vários conceitos em uma “teleaula” aponta para o seu caráter que, em nossa pesquisa, denominamos “conteudista”. Tal condição corresponde às expectativas da proposta pedagógica quando a mesma é considerada supletiva, uma vez que há um período previamente determinado para o desenvolvimento das disciplinas em função de um calendário de provas. Assim, esta situação confirma o caráter técnico de seus textos, cuja informação se resume em transmissão rápida, objetiva, sem possibilidade de aprofundamento por parte do leitor. Os textos das apostilas de Geografia do TC 2000 não “seduzem” o leitor, não o convidam a desvendar palavras desconhecidas como o texto de “Os Sertões”. Essa premissa é observável no fragmento transcrito abaixo:

O rio Amazonas, hoje reconhecido como o mais extenso e de maior volume de água do planeta, corre em uma vasta extensão na qual as mudanças no nível de altitude são muito pequenas.

O rio Iguaçu, que corre sobre o planalto basáltico do Brasil Meridional, apresenta desníveis pronunciados por causa das rochas mais resistentes ao seu trabalho erosivo. Isso significa um elevado potencial para o aproveitamento da energia hidráulica.

Já o rio São Francisco apresenta trechos encachoeirados no seu alto e baixo curso, enquanto o médio curso possui declives suaves. Isso permite seu aproveitamento energético nos trechos de maior declive, bem como a navegação no trecho mais suave.

A aceleração ou diminuição da erosão nas encostas, aumentando ou diminuindo a quantidade de sedimentos para a carga dos rios; a ocorrência de alterações climáticas, modificando o volume de água dos canais fluviais; ou ainda de eventos tectônicos, isto é, de soerguimentos e rebaixamento da crosta terrestre, são fatores determinantes para a modificação da dinâmica fluvial levando à intensificação dos processos erosivos de deposição.

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Na contramão do aglomerado de informações contidas nas apostilas de Geografia do TC 2000, a leitura de “Os Sertões” é mais agradável e, também, mais informativa. Sendo um texto descritivo – e narrativo –, observamos que seu conteúdo é capaz de seduzir o leitor, ao mesmo tempo em que facilita o acesso ao conhecimento, informando e contribuindo com a elaboração dessa compreensão.

Entendemos que as imagens são portadoras de valores e símbolos e, portanto, são impregnadas de subjetividade. Neste sentido, compreendemos que a leitura de um texto origina em nossa mente imagens que nos permitem retratar nossa realidade e também reconhecer, em diferentes épocas, aspectos pertinentes à nossa visão do mundo.

Neste contexto, verificamos que o tipo de abordagem presente nas apostilas do TC 2000 denota uma certa “sutileza” no tocante à sua linguagem escrita. Enquanto a obra euclidiana apresenta-nos uma linguagem envolvente, em função da riqueza de seus detalhes, as apostilas do TC 2000 induzem o leitor à aceitação de uma realidade que, na situação considerada, não pode ser submetida a modificações.

Se a visão do mundo observada na obra euclidiana “Os Sertões” pode ser considerada “elitista”, porque expressa a interpretação de um autor representativo diante de fatos vinculados à época em que viveu, a visão do mundo, observada nas apostilas do TC 2000, também configura a presença da utilização do saber geográfico, no entanto, apoiando-se no conformismo e na submissão do indivíduo às condições de sobrevivência que possui, induzido pelos valores e idéias de uma elite sócioeconômica que domina os meios de informação e impõe sua ideologia e visão do mundo.

Considerando que o uso das apostilas do TC 2000, sob recomendação de seus elaboradores, deve ser associado às fitas VHS, temos aqui uma oportunidade de “fuga” da sutileza que apontamos anteriormente, pois são as imagens apresentadas nas fitas VHS que, mesmo retratando miséria e/ou outras situações “desagradáveis”, envolvem o telespectador e, por isso, são sedutoras, “confirmando” as idéias (im)postas pela linguagem escrita.

Em poucas palavras, é possível afirmar que a linguagem escrita manifesta-se através de imagens que elaboramos enquanto lemos ou

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observamos o espaço geográfico. Então, tomamos como apoio as idéias de Bomfim (2002, p.83-4), afirmando que:

A construção do saber geográfico, como objeto de investigação científica, está inserida no cotidiano dos alunos e poderá igualmente nos levar a compreender de que maneira as imagens, sob a forma de representações visuais e cognitivas, orientam nossa percepção de mundo, bem como nossa construção de saber.

Assim, o recurso visual surge como indispensável à percepção que temos do lugar onde nos encontramos e vivenciamos nossas experiências, porém, é importante salientar, os demais sentidos que possuímos não podem ser desconsiderados. O olfato e a audição, por exemplo, são capazes de desencadear sensações e emoções que podem ser traduzidas, interpretadas através das imagens que criamos em nossa mente. Trata-se da nossa imaginação. E neste aspecto, a linguagem euclidiana se apresenta riquíssima como mediadora da formação de “imagens mentais”, que nos aproximam da realidade histórica.

Considerando a palavra imaginação, verificamos que é constituída por uma “junção” de conceitos distintos mas complementares, que podem ser representados esquematicamente:

Retomando nosso objeto de estudo, enquanto Euclides da Cunha descreve o espaço geográfico com palavras que desencadeiam a produção de imagens e sensações, o fragmento do texto tomado como um primeiro exemplo apresentado na página 14 e referente à teleaula n.º 4 de Geografia – Ensino Médio, é direcionado ao telealuno com o objetivo de transmitir rapidamente a informação pertinente ao seu tema, contrariando a situação observada na obra literária euclidiana.

A necessidade de urgência, de “ganhar tempo” nas atividades realizadas, reflete-se nos textos utilizados como parte do material pedagógico do

IMAGINAÇÃO

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TC 2000, priorizando a adequação do conhecimento geográfico à modernidade de nosso tempo.

Compreendido como produto da tecnologia, o recurso audiovisual surge como “soberano”, e, sendo a principal estratégia no método pedagógico em questão – o TC 2000 –, muitas vezes acaba ofuscando as imagens produzidas pelo ato da leitura. A qualidade do texto escrito, neste sentido, é comprometida e por isso é questionada.

Eis um primeiro aspecto negativo que observamos através da comparação dos mesmos fragmentos escritos: se, na descrição euclidiana prevalecem interpretações que valorizam e destacam os aspectos do meio ambiente – no caso de “Os Sertões”, por exemplo – as apostilas do TC 2000 procuram, de certa forma, “mascarar” a realidade tanto no tocante à compreensão do conteúdo quanto no que se refere à simplicidade do telealuno, que é submetido a uma aquisição de conhecimento superficial. Este conhecimento superficial é verificado quando identificamos a capacidade que o discurso pedagógico embutido nas entrelinhas do TC 2000 possui quanto à promoção de aceitação e passividade oferecidas ao telealuno – que discutiremos melhor mais adiante – porém, pode ser contestado quando, novamente, é comparado às idéias expressas por Cunha (1984, p.226) onde, apesar de estabelecermos contato com uma linguagem mais envolvente e complexa, o autor faz da passividade a expressão de um conformismo inerente a um povo que não realiza reivindicações “legalizadas”, correspondentes às exigências sociais, mas que nos permitem visualizar os conflitos ocorridos através das imagens originadas mediante nossa leitura:

Por fim emudeceu o sino.

A força começou a descer, estirada pelas encostas e justaposta às vertentes. Deslumbrava num irradiar de centenares de baionetas. Considerando-a o chefe expedicionário disse ao comandante de uma das companhias do 7.º, junto ao qual se achava:

“Vamos tomar o arraial sem disparar mais um tiro!... à baioneta!” Era uma hora da tarde.

[...]

Era a mais rudimentar das ordens de combate: a ordem paralela simples, feita para os casos excepcionalíssimos de batalhas campais, em que a superioridade do número e da bravura excluindo manobras mais complexas, permitam, em terreno uniforme, a ação simultânea e igual de todas as unidades combatentes.[...].

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É necessário ressaltar que as imagens originadas a partir do fragmento selecionado para a comparação proposta nos permitem identificar a passividade aparente do sertanejo enquanto receptor de ataques em uma situação de combate. Diferentemente, as apostilas do TC 2000 induzem o leitor à passividade, considerando-o como um receptor de conceitos que devem conduzir suas atitudes e, conseqüentemente, suas reflexões. Enquanto a obra euclidiana aborda o sertanejo como receptor de ataques e o leitor como receptor de um conhecimento fundamentado na “beleza cinematográfica de sua descrição”, as apostilas do TC 2000 configuram-se como elemento responsável pela passividade de um receptor induzido a não refletir e/ou questionar a realidade apresentada.

1.1. A Presença da Imagem e do Saber Geográfico em “Os Sertões”

Pensar a obra euclidiana é, sobretudo, reconhecer aspectos geográficos e pedagógicos em seu conteúdo. Geográficos, porque há grande ênfase nos detalhes que constituem a descrição do meio ambiente onde se encontra o observador; pedagógicos, porque as palavras empregadas nessa descrição nos permitem o acesso ao conhecimento, pois, aliando informação e cognição – função especificamente humana – originam imagens que propiciam a aprendizagem e a aquisição do “saber”.

No fragmento escrito relacionado na página 15, observamos que a linguagem de “Os Sertões” utiliza palavras que permitem ao educador promover o envolvimento do educando com o tema abordado. Neste caso, destacamos, como exemplo: “território”, “léguas” e “metrópole”.

É neste sentido que observamos aspectos diferentes que constituem a comparação que estabelecemos entre ambos. Encontramos uma situação ambígua: por se tratar de uma obra literária (Os Sertões) e um material de fácil acesso (apostilas do TC 2000) – encontrado em bancas de jornais e com imagens (teleaulas) veiculadas em canais abertos de TV (além das formas de recepção organizada) – seria cabível que associássemos quaisquer dificuldades de interpretação ao primeiro e, todas as facilidades, ao segundo. Entretanto, vale ressaltar, a situação verificada é oposta.

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Enquanto a obra euclidiana favorece o desenvolvimento de um trabalho pedagógico que possibilita o aprofundamento de conceitos importantes e enriquecedores à realidade do “leitor-aluno”, as apostilas do TC 2000 se tornam insuficientes e inadequadas pelo fato de não despertarem sua curiosidade, sua busca pelo conhecimento.

Não podemos, então, desconsiderar a relação “homem-meio ambiente”. Envolvidos em uma realidade que vai além dos limites de uma sala de aula, mesmo quando esta se localiza em uma empresa, os “telealunos” apreendem conceitos que lhes permitem interpretar o mundo onde vivem, atuam e promovem transformações no espaço geográfico.

Apesar de, inicialmente, a afirmação parecer contraditória, novas interpretações merecem destaque. Quando é apontada a passividade de pessoas que atuam num espaço em constante transformação, temos como referência o recebimento de informações “programadas”, que promovem a formação de conceitos que acabam direcionando suas atitudes.

As palavras seduzem tanto quanto as imagens, exercendo grande influência na capacidade de interpretação do homem acerca do meio ambiente. A ação do homem promove a (re)construção do espaço geográfico, mas sua individualidade é um aspecto que não pode ser considerado como suficiente a respostas que buscamos, pois, vivendo em sociedade, constitui grupos onde prevalecem as relações com seus semelhantes e com o ambiente.

Tanto na influência exercida pelas palavras e imagens, quanto na transformação provocada pela ação humana sobre o espaço geográfico, a subjetividade se encontra presente. Quando somos seduzidos pelas palavras e/ou imagens apreendemos conceitos e valores pertinentes a uma realidade e, conseqüentemente, temos a subjetividade como aspecto fundamental à constituição das visões do mundo. Mesmo sendo diferentes, constituem um espaço único, integrado.

A subjetividade presente nos materiais considerados para este estudo pode ser facilmente identificada, tanto nas entrelinhas das apostilas do TC 2000 como na obra euclidiana. Nas apostilas, assinala-se:

o crescimento da população mundial é desigual no tempo e no espaço. Os países desenvolvidos têm, hoje, pequeno crescimento vegetativo pois já completaram sua transição demográfica. Alguns

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países subdesenvolvidos iniciaram essa transição enquanto outros ainda dependem do desenvolvimento sócio-econômico para realizá-la;

(FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO, 1996, p.81, v.2, grifos do autor)

Porém, quando nos apoiamos nas descrições de “Os Sertões”, verificamos que “o homem dos sertões – [...] – mais do que qualquer outro está em função imediata da terra. É uma variável dependente no jogar dos elementos [...]” (CUNHA, 1984, p. 97).

O fragmento considerado como exemplo para a identificação da subjetividade nas apostilas do TC 2000 nos permite verificar, em suas entrelinhas, a presença de um “determinismo” inerente à vida em sociedade.

A prevalência do modelo social organizado hierarquicamente transmite uma visão do mundo impregnada pela ideologia que valoriza a ordem e o controle. O crescimento da população mundial é interpretado como um aspecto “natural”, determinado pelas condições de vida de países que, supostamente, já ultrapassaram a fase de subdesenvolvimento. No entanto, é fato que o tipo de colonização predominante é um dos vários aspectos que acaba determinando a condição de desenvolvimento sócioeconômico dos países, e esta condição não é percebida facilmente no contexto apresentado. Trata-se da idéia de aceitação associada ao subdesenvolvimento do país que, sob esta ótica, é compreendido como mais uma “fase” a ser transposta, um estágio onde o determinismo da condição de sobrevivência assegura, como se fosse algo “natural” – ou tenta assegurar – a passividade necessária à manutenção social.

Esta indução à passividade, observada no material pedagógico do TC 2000, aponta para uma estratégia cuja finalidade é inibir a articulação e a flexibilidade entre as diferentes classes sociais.

Se tomarmos como exemplo o fragmento referente à obra euclidiana “Os Sertões”, não observamos a presença da passividade. Em muitos momentos, as palavras empregadas por Euclides da Cunha, apesar de enriquecerem a descrição, exigem do leitor mais leigo a busca de uma melhor compreensão através da procura de significados “palavra por palavra”. Então, procurando compreendê-las, o leitor possui acesso a informações que enriquecem seu (re)conhecimento do mundo e, conseqüentemente, lhe permite conhecer com sabedoria, diferenciando-se daquele indivíduo – a exemplo do aluno do TC 2000 – que acaba tornando-se, na maioria das vezes, um mero receptor de conteúdos.

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Podemos, então, buscar novamente as idéias de Cunha (1984, p.81) para firmar nossas reflexões:

O sertanejo é antes de tudo um forte. [...]

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. [...]

É desgracioso, desengonçado, torto. [...] O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida [...].

É o homem permanentemente fatigado [...]. Entretanto, toda essa aparência de cansaço ilude.

Nada é mais supreendedor [sic] do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormidas. O homem transfigura-se.

Tais palavras expressam uma consideração essencial ao nosso estudo: aluno ou não, o leitor é submetido à recepção de um conhecimento produzido historicamente, cuja importância e significado constituem as visões do mundo. Temos, então, a presença de situações experimentadas e vividas que nos permitem verificar o modus vivendi que define cada grupo no tocante à sua organização no espaço.

Possuímos uma maneira própria de interpretação, pois, como afirmamos anteriormente, somos sujeitos à nossa capacidade de imaginação. É através dela que elaboramos conceitos e reelaboramos o conhecimento. Criamos imagens e recriamos o espaço vivido.

Composta por aspectos subjetivos e objetivos, nossa realidade, neste sentido, pode ser compreendida como reflexo da construção de conceitos que caracterizam nossa visão do mundo em função das relações que estabelecemos e das experiências que possuímos.

Em muitos momentos, observamos que a subjetividade prevalece e assegura a presença de aspectos que permitem a transmissão e a (re)organização de tudo o que conseguimos conhecer. Não conhecemos tudo, e, mesmo considerando a diminuição da “distância” entre as variáveis espaço e tempo, torna-se inadmissível imaginar que temos – ou teremos – o domínio total do lugar que habitamos ou da realidade que vivenciamos.

A capacidade de adaptação do homem fez com que as modificações sobre o meio interferissem nas relações estabelecidas entre indivíduos e entre os

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indivíduos e o meio ambiente. Para tanto, é necessário observar que Cunha (1984), em “Os Sertões”, nos permite apreender conceitos pertinentes ao saber geográfico, aliando nossa capacidade de compreensão do espaço vivido à complexa natureza do homem.

1.2. Imagem e “Tipos Humanos”: alguns fatores comuns a dois elementos distintos

Destinando uma parte do livro a esclarecimentos e descrições do homem e das “origens” do homem brasileiro, Cunha (1984, p. 50), observa que “o brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável [...], só pode surgir de um entrelaçamento consideravelmente complexo”.

Sendo a natureza humana tão complexa e subjetiva quanto a realidade que construímos, é possível observar que o mundo se constitui num contexto onde conceitos e imagens se integram.

Tanto a obra euclidiana quanto o material pedagógico do TC 2000 retratam, cada qual à sua maneira, o homem, ou seja, o “tipo humano” participante no espaço que demarca os limites territoriais de nosso país.

Através do emprego da metodologia do Telecurso 2000, o aluno é submetido à passividade que o pode induzir à aceitação das condições de estudo e sobrevivência (trabalho) que possui, mas, sobretudo, é necessário observar que a atuação do homem sobre o meio é ressaltada na maioria dos temas das teleaulas. Como exemplo, podemos considerar a teleaula n.º 4, cujo tema é “Modificar o meio ambiente” e na qual se afirma que “o conhecimento do meio ambiente, como resultado da ação humana sobre o meio natural, tem sido objeto de estudo e interesse em muitos campos das ciências, dentre elas a própria Geografia” (FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO, 1996, p.24, v.1, grifos do autor).

Em ambos os casos, temos a figura humana como foco central das idéias expressas pelos fragmentos escritos.

Associando este aspecto ao ensino da disciplina Geografia, podemos considerar que o fator complexidade se encontra implícito em ambos: no tocante ao homem, basta pensarmos em sua capacidade cognitiva e, relacionando-o ao ensino, observamos que a abrangência, o “longo alcance” da disciplina Geografia

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proporciona um entendimento profundo, de lugares e paisagens que constituem o meio ambiente, configurado pelas inúmeras imagens que elaboramos.

A ideologia intrínseca às imagens, por vezes, é observada através de “lentes sutis”, cujos olhares acabam por “omitir informações verdadeiras e reais”. No entanto, quando buscamos novos referenciais teóricos para a realização deste estudo, observamos que as imagens são, geralmente, relacionadas à aprendizagem, e retomamos Bomfim (2002, p.84) verificando que “[...] a prática demonstra que a construção do saber geográfico na sala de aula tem suas bases no cumprimento de exigências com um só objetivo, o de conseguir notas para uma aprovação escolar”.

Esta situação nos permite compreender que os professores resistem ao oferecimento de um saber fundamentado em uma postura inovadora, na qual são encontrados conceitos “embutidos”, cuja compreensão tornar-se-ia mais acessível se a imagem fosse utilizada como instrumento efetivo da (re)produção do conhecimento e do saber geográfico, aqui enfatizado. Neste contexto, são, novamente, as idéias de Bomfim3, que utilizamos para afirmar a nossa necessidade de:

[...] estudar como os alunos constroem, como uma forma de saber elaborado e sistematizado pela geografia escolar. Assim, faz-se necessário estudar como os alunos constroem suas representações sócio-espaciais e como eles associam estas representações às construções dos conceitos geográficos, de espaço vivido e de espaço construído a partir da imagem.

Ensinando e aprendendo a Geografia, possibilitamos aos nossos alunos o acesso ao conhecimento produzido historicamente mas não abandonamos uma outra possibilidade, que pode ser resumida na “inversão” de conceitos e valores que deveriam oferecer esclarecimentos ao homem, agente e participante do meio, construído e, portanto, modificado.

Esta “inversão” corresponde às propostas de instituições como, por exemplo, o Banco Mundial (BIRD). Os financiamentos e empréstimos que instituições como esta que consideramos realizam, implicam, diretamente, na condição de que os países a elas submissos correspondam adequadamente às suas exigências e expectativas. Um ensino gratuito e de ótima qualidade deveria

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ser uma realidade, e não uma tentativa, geralmente, frustrada; mas as condições de nosso sistema de ensino nos induzem à importação de propostas inadequadas à realidade que possuímos, pois configuram situações vividas por outros países, “portadores” de outros problemas. Conforme Belo (2000. p.2):

A iniciativa do Banco Mundial em oferecer empréstimos ao Brasil pode ser compreendida como uma das estratégias de erradicação da pobreza [...] Porém, torna-se necessário considerar também que o mercado global exige do indivíduo a capacidade de competir e corresponder de maneira rápida e eficiente às mudanças [...]. No tocante ao setor educacional, as exigências não são diferentes [...].

Diante de tais colocações, podemos questionar: que imagens temos do mundo em que vivemos? Como estas imagens interferem em nossa compreensão do mundo e de nossa história?

Considerando a afirmação acima relacionada, temos a presença da eqüidade na realização de atividades que tenham como objetivo principal promover a educação e a difusão do conhecimento e que nos permitem compreender seu fundamento: o papel a ser desempenhado por este princípio refere-se ao oferecimento de um conhecimento “básico e mínimo”, cujo alcance é amplo. Neste contexto, manipula-se uma “vasta massa populacional”, pois um grande número de pessoas é atingido de uma única vez. Admite-se, assim, um nivelamento das pessoas envolvidas no processo de ensino e aprendizagem, ou seja, trata-se de uma estratégia segura, que não ocasiona “riscos” à manutenção da ordem e do controle social.

Na medida em que avançamos nessas reflexões, verificamos que a eqüidade decorrente das propostas do Banco Mundial promove a permanência da elite nos diferentes segmentos sociais. De forma semelhante, tanto a obra euclidiana quanto as apostilas do TC 2000 apresentam uma visão ”elitista”, na qual “tipos humanos” são enfatizados.

É importante salientar que a presença de diferentes “tipos humanos” nos permitem observar que, mesmo nos contos de fadas – uma variação do texto literário que não abordamos nesta pesquisa – o padrão de beleza manifestado em personagens cujas características são pele alva, cabelos lisos e olhos azuis assegura-lhes posição (hierarquia) privilegiada. Fazem, geralmente, referência aos príncipes e princesas, uma vez que sua condição social – pois são membros

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pertencentes à família real – é fator que nos permite identificar sua superioridade. Neste sentido, são representantes da raça superior, expressa na “imagem” que elaboramos e/ou evocamos quando nos reportamos ao “branco”, apontado na comparação realizada envolvendo os dois “tipos humanos” que consideramos e que detalharemos mais adiante: o “sertanejo euclidiano” e o “sertanejo aluno do TC 2000”.

No fragmento relacionado, referente à obra euclidiana, a expressão “entrelaçamento consideravelmente complexo” nos permite verificar, posteriormente, uma detalhada descrição que abrange tópicos desde a “gênese do jagunço” até os “agrupamentos bizarros” que povoaram Canudos de Antônio Conselheiro. No fragmento seguinte, relacionado na mesma página, mas referente às apostilas do TC 2000, observamos a ação humana como elemento principal considerado na realização de estudos geográficos. Então, recorremos, novamente, ao material pedagógico considerado para um melhor entendimento:

[...] Os desempregados, os idosos e as minorias étnicas e raciais podem mergulhar numa espiral descendente de degradação e pobreza, pois as oportunidades de emprego diminuem, e os indivíduos mais jovens e mais instruídos vão abandonando os bairros decadentes.

(FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO, 1996, p.45, v.1)

Retomando nossas intenções, expressas no projeto de pesquisa, questionamos: qual a função das imagens no ensino da Geografia? Possuem um objetivo específico ou mesmo um direcionamento ideológico, visando, assim, propiciar um ensino acessível a todos os cidadãos, mas, que não seja inadequado em relação às intenções expressas pelas diferentes instâncias governamentais?

Tomando como referencial as apostilas do TC 2000, temos a oportunidade de observar e, sobretudo, confirmar alguns aspectos do questionamento acima relacionado.

As imagens contribuem muito com a consolidação de conceitos que passam a caracterizar a compreensão do aluno. Neste caso, tomando como referência a proposta pedagógica do TC 2000, verificamos que o ensino da Geografia pode limitar toda e qualquer possibilidade de avanço do aluno à medida que apresenta textos nos quais sua condição social é reafirmada como inferior e,

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portanto, forçosamente há de mantê-lo num grupo cujas possibilidades de ascensão social são quase inexistentes.

Apoiando nossas reflexões em Goldmann (1991), verificamos que as diferentes visões do mundo refletem uma consciência coletiva que, por sua vez, se exprime através de uma consciência individual significativa e representativa.

Tal afirmação pode ser tomada como referência tanto para reiterar nossas reflexões acerca do ensino da Geografia, anteriormente apresentadas, como para a interpretação da questão central que configura a segunda parte de “Os Sertões”, que Euclides da Cunha intitulara “O Homem” : a gênese das raças mestiças no Brasil.

No tocante a “Os Sertões”, observamos que Euclides da Cunha, de maneira “arquitetônica”, apresenta aos leitores as raças que, no início da obra, constituiriam os fatores responsáveis pela origem dos diferentes tipos humanos que formaram o povo brasileiro: o silvícola (indígena), o negro (cafre) e o português (europeu).

Dentre os tipos humanos, o que possuía menores chances e/ou possibilidades de adaptação ao meio físico (meio ambiente) e, conseqüente, de sobrevivência, seria, na visão euclidiana, o negro.

É claro que o meio físico tem especial importância nesta análise e poderia conduzir nossas prováveis conclusões a aceitar o negro como indivíduo melhor adaptado, em função de sua força física, usada como mão-de-obra escrava. Porém, sem considerar o meio físico como mais um eixo norteador deste estudo, voltemos à questão neste momento proposta: a complexidade inerente à natureza humana.

Para facilitar nossa compreensão, apresentamos um quadro explicativo onde denominamos o silvícola como “a”, o negro como “b” e o português como “c”. Euclides da Cunha afirma a existência de uma “mestiçagem embaralhada”, que pode ser assim demonstrada:

QUADRO 01:

Cruzamentos que originaram os mestiços brasileiros

a + b CAFUZO

a + c MAMELUCO

Referências

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