O FORMADOR E O CONTEXTO ONDE SE
DESENVOLVE A FORMAÇÃO
INTRODUÇÃO
Não é novidade para nenhum formador a exigência cada vez maior de dotar os formandos (futuros ou mesmo actuais trabalhadores) de competências profissionais enriquecidas e competências transversais amplas, que garantam uma mais fácil empregabilidade.
Assim, o conceito de formação profissional torna-se cada vez mais abrangente, ultrapassando o ponto de vista tradicional de capacitação predominantemente prática, para assumir como seu objectivo incontornável a promoção de uma capacitação global, polivalente e complexa que se manifeste numa profissionalização capaz de responder às imposições do actual mundo do trabalho.
Nesta óptica, o formador actual, para desempenhar cabalmente o seu papel, terá de conhecer e compreender as finalidades e características dos diferentes sistemas de trabalho e das novas exigências profissionais, de forma a orientar e adequar a sua acção formativa.
É-lhe igualmente indispensável estar a par do que se passa no diversificado mundo da formação profissional, ultrapassando os limites do seu contexto imediato.
Com efeito, só dispondo de um conhecimento global e alargado sobre a multiplicidade de sistemas, modalidades, metodologias e dispositivos de formação, poderá não só estar mais consciente do seu papel enquanto formador, como proporcionar aos respectivos formandos uma visão geral das oportunidades formativas disponíveis, facilitando-lhes tomadas de decisão na escolha de percursos formativos que lhes assegurem a tão necessária “actualização permanente ao longo da vida”.
Por outro lado, se é certo que a história não se repete e o progresso exige cada vez mais respostas inovadoras, é importante ter consciência que o conhecimento e compreensão do que já foi feito e porque foi feito, nos permitirá evitar erros cometidos, ultrapassar etapas já vencidas e agir de forma mais fundamentada e adequada nas situações do presente e até futuras.
No desenvolvimento deste parâmetro, recorri às notas síntese de Maria de Lurdes M. Vieira, difundidas no trabalho de desenvolvimento de um dos referenciais da Formação Contínua de Formadores.
Os desenvolvimentos técnicos/tecnológicos, científicos, económicos e sócio-culturais desde sempre tiveram consequências e determinaram modificações importantes nos sistemas de trabalho.
Tais modificações podem verificar-se ao nível das finalidades de trabalho, formas de produção, modos de organização, conceitos de gestão …
No séc. XX, particularmente na segunda metade, podemos considerar em linhas gerais que os modos de produção evoluíram da mecanização para a informatização passando pela automação; as finalidades produtivas tiveram de responder às exigências de uma nova ordem económica que evoluiu da economia restrita para a globalização; os modos de organização tiveram de atender às novas finalidades, às novas formas de produção e aos desenvolvimentos científicos e sócio-profissionais; os procedimentos de gestão tiveram de se confrontar com a nova ordem social e cultural.
Estas novas finalidades e modos de produzir, organizar e gerir os sistemas de trabalho implicaram naturalmente novas exigências no domínio das qualificações e competências profissionais dos trabalhadores.
É assim que a formação profissional (ao contrário do que alguns crêem, nunca poderá deixar de ter em conta e ser dissociada das características e condicionalismos dos sistemas de trabalho) teve de evoluir e organizar-se para responder às novas exigências profissionais.
A evolução processou-se ao nível das grandes finalidades, objectivos e metodologias de formação.
No plano das finalidades ou intenções de formação, poderemos considerar simplificadamente que a evolução percorreu três grandes orientações:
1. Orientação para a qualificação e formação inicial que visava sobretudo apetrechar os
futuros trabalhadores para o desempenho de uma profissão que se acreditava quase imutável.
Existiu desde sempre e vigorou sobretudo no período da mecanização industrial, aqui com particular preocupação de uma boa adaptação ao posto de trabalho.
Distingue-se da formação técnica realizada nas escolas do sistema educativo por ser sempre muito mais orientada para a prática, mesmo quando realizada em instituições oficiais ou particulares específicas.
2. Orientação para a adaptação à mudança ou formação contínua que visava / visa dar
resposta ao desenvolvimento técnico e tecnológico acelerado, apetrechando os trabalhadores com saberes práticos e teóricos adequados à evolução constante e à cada vez maior intelectualizações das actividades profissionais.
3. Orientação para o desenvolvimento de potencialidades para o emprego, mediante
uma formação ‘lego’ que visa sobretudo apetrechar os trabalhadores para responder às características do mundo actual, que exige capacidade de respostas diversificadas, rápidas, polivalentes e adequadas à crescente mobilidade profissional.
Caracteriza-se por procurar que os trabalhadores acedam de forma rápida a formações curtas, diversificadas e integráveis que lhes permitam responder em tempo oportuno a situações de trabalho inovadoras, inesperadas, imprevisíveis.
Aquela que parece ser a solução do futuro, começa a desenvolver-se sobretudo com a informatização dos sistemas de trabalho, cerca dos anos 80.
Ao nível dos objectivos, ou das capacidades concretas a desenvolver nos formandos, também a formação profissional evoluiu em função da evolução do contexto geral e dos sistemas de trabalho onde o trabalhador deveria integrar-se.
Poderemos considerar três grandes objectivos a alcançar pelos trabalhadores ao longo dos tempos: saber operar, saber pensar, saber aprender.
— Inicialmente, o principal objectivo da formação profissional era preparar os trabalhadores executantes para saber fazer o seu trabalho, saber operar no respectivo posto. Isto respondia às exigências da produção e organização do trabalho no período da mecanização, em que o trabalhador / operário devia comportar-se como um simples executante das ordens do seu superior que era naturalmente um técnico pensante.
Neste período, as competências profissionais exigidas aos trabalhadores operários tornaram-se mais restritas que anteriormente, quando vigorava um sistema de produção mais artesanal.
— Com o desenvolvimento da automatização dos sistemas de produção já não bastava que o trabalhador / operário soubesse fazer, operar com os mecanismos, tornava-se imprescindível que o operário fosse também capaz de ‘compreender os processos’ e resolver casos de pequenas avarias ou problemas dos equipamentos, isto é, devia saber actuar adequadamente em situações problemáticas.
Em consequência, a formação profissional teve de procurar responder a estas novas exigência do trabalho, devendo propor-se como seu objectivo global preparar trabalhadores capazes de interpretar situações criadas pelos novos meios de produção, tomar decisões adequadas e resolver problemas mais ou menos complexos, isto é, capacitá-los para agir intelectualmente, saber pensar.
Os conteúdos da formação tiveram de ser melhorados e diversificados ao nível das teorias e das práticas e adoptadas modalidade e metodologias compatíveis com estes novos objectivos.
Actualmente, com as vertiginosas mudanças tecnológicas, económicas e sociais e consequentes mudanças nas condições de vida e de trabalho, torna-se necessário que a formação profissional aponte para o apetrechamento dos trabalhadores no sentido da sua adaptação à permanente instabilidade dos empregos e diversidade de tipos e formas de trabalho a que terá que ocorrer.
O seu objectivo fulcral será, não só facultar-lhes uma multiplicidade de aprendizagens que se ajustem a diferente situações, mas sobretudo capacitá-los para a apropriação autónoma de novas competências necessárias à integração em diferentes sistemas de trabalho, ou seja, preparar profissionais responsáveis e competentes para actuarem de forma independente, não apenas ao nível das realizações profissionais, mas também e principalmente ao nível da apropriação e adequação constante dos saberes indispensáveis à diversidade e imprevisibilidade das situações que se lhes deparem, isto é, capacitá-los para aprender a
aprender, saber aprender.
Aqui as modalidades e metodologias de formação assumem um papel altamente significativo.
No domínio das modalidades e metodologias, a evolução processou-se das modalidades de formação estreitamente ligadas aos postos de trabalho, dos cursos intensivos e completos de cariz sobretudo prático, das metodologias do tipo TWI, dos métodos expositivos completados com aplicações práticas que se traduziam em aprendizagens mais ou menos mecânicas e visavam sobretudo competências mais directamente técnicas, para modalidade e metodologias que procuram promover o desenvolvimento integral dos formandos, estimular a auto-formação, facilitar a ocorrência de percursos individuais de profissionalização etc.
Vão nesse sentido as formações do tipo modular, as unidades capitalizáveis, as formações a distância, as formações em alternância, os percursos individuais de formação, etc.
De um modo geral, podemos dizer que se passou de metodologias directivas, de cariz adaptativo, que visavam a adaptação do formando à profissão e ao posto de trabalho, para metodologias facilitadoras, orientadas para a estimulação da autonomia, da criatividade do desenvolvimento individual e para a apropriação e transferência dos saberes e experiências vividos visando a sua adaptação novas e diferentes situações.
O sistema e metodologia FPA (formação profissional acelerada ou de adultos) surge e desenvolve-se por toda a Europa a partir dos anos 40 como forma de resposta às grandes transformações sócio económicas, tecnológicas e científicas, das quais poderemos salientar as seguintes:
— Desenvolvimento tecnológico, no sentido da automatização do meios de produção, que determinavam a necessidade de maiores qualificações da mão-de-obra existente;
— Desenvolvimento da organização científica do trabalho, consequência da análise e racionalização do trabalho o que naturalmente exigia uma formação profissional dos trabalhadores mais racionalizada e complexa;
— Experiência com a metodologia T.W.I., como metodologia de formação racionalizada suportada pela análise científica do trabalho;
— Necessidade de qualificações rápidas da mão de obra, para ocorrer ao acelerado desenvolvimento industrial e às necessidades de recuperação pós-guerra, em termos de pessoas e bens;
— Evolução sócio-profissional, caracterizada por novas aspirações e exigências dos trabalhadores, desinteresse dos jovens pela formação (longa) na empresa e recomendações dos organismos internacionais para a qualificação e promoção profissional dos adultos;
— Desenvolvimento da psico-pedagogia, sobretudo no domínio dos estudos psicotécnicos, a nível geral, e que fundamentam os princípios pedagógicos (Carrard), os programas racionalizados, e determinam a selecção dos formandos;
— Desenvolvimento das teorias pedagógicas, sobretudo orientadas para o ensino globalizante, valorização do concreto,
participação activa dos formandos, centros de interesse etc. (como propõe Decroly).
Tendo em conta a situação sócio económica de Portugal nos anos 60 e as características do sistema FPA, poderemos considerar como principais razões da sua adopção no nosso País:
O sistema tinha sido experimentado e estava desenvolvido com êxito por toda a Europa.
• Preparar rapidamente mão-de-obra qualificada para responder à indústria que se encontrava em acelerada transformação tecnológica;
• Qualificar/reconverter trabalhadores desempregados por falta de qualificação adequada às novas exigências da Indústria;
• Proporcionar, simultaneamente com a prática, alguns suportes teóricos exigidos pelas novas formas de produção;
• Proporcionar uma formação adequada às características dos adultos, do ponto de vista psicológico e social;
— Rapidez (formação em 6 meses)
— Utilidade imediata (emprego à saída da formação)
— Essencialidade (selecção dos conteúdos fundamentais para o trabalho a desenvolver)
— Prática (treino das tarefas da profissão)
— Responsabilidade (formação exigente e rigorosa com múltiplas avaliações).
2. O sistema era inovador
Os Programas eram altamente fundamentados, racionalizados e adequados às necessidades das profissões assentes na análise do trabalho e em princípios de organização pedagógica.
A Formação, embora fora da empresa, era essencialmente prática e realizada em postos de trabalho similares dos reais.
Os formandos (estagiários) eram seleccionados, para garantir o êxito na formação e nas respectivas especialidades.
A Metodologia de ensino era assente em princípios psicopedagógicos oriundos das mais recentes teorias e conceitos psicotécnicos e pedagógicos.
As 6 regras gerais para o ensino profissional, segundo A. Carrard (1930):
1. Tornar sensíveis as coisas de maneira concreta e sugestiva 2. Não demonstrar senão uma matéria nova de cada vez
3. Deixar decorrer, entre períodos de trabalho consecutivo, uma noite de descanso. 4. Não deixar nunca criar um mau hábito e fazer exercer o movimento só depois de
bem compreendido, e até que o possa executar automaticamente.
5. Variar suficientemente, para nunca deixar enfraquecer a continuidade de
concentração.
6. Manter o interesse continuamente desperto graças ao conhecimento aprofundado
de cada aluno e indicação constante do fim a atingir no futuro.
O sistema FPA foi sem dúvida na sua época um sistema altamente inovador, quer relativamente ao ensino técnico do sistema educativo, quer relativamente a formação profissional levada a cabo nos sistemas de trabalho.
São especialmente relevantes para a época (e talvez, em alguns casos, ainda hoje) as seguintes características:
— Selecção /orientação prévia dos estagiários — Estágios remunerados
— Monitor único
— Preparação pedagógica dos monitores
— Programas altamente racionalizados e elaborados — Equipamentos e materiais didáctico/pedagógicos cuidadosamente seleccionados e preparados
— Formação em meio próximo das condições reais de trabalho (oficinas simuladas)
psicopedagógicos
— Ensino essencialmente prático — Número limitado de formandos
— Avaliação final por entidades exteriores à organização (realização de tarefas profissionais)
— Sistema de colocação à saída da formação.
APRENDIZAGEM
A Aprendizagem - Formação Profissional em Alternância - tem como objectivo qualificar jovens, por forma a facilitar a sua integração na vida activa, através de perfis de formação que contemplam uma tripla valência: reforço das competências académicas, pessoais, sociais e relacionais; aquisição de saberes no domínio científico-tecnológico e uma sólida experiência na empresa.
ESCOLAS PROFISSIONAIS
As escolas profissionais foram criadas em 1989 como uma nova alternativa para os jovens que terminam a escolaridade básica.
Desde então, têm contribuído para a educação e formação de jovens profissionais, promovendo cursos que, além de conferirem aos alunos a equivalência ao 12º ano e certificado profissional de nível III, permitem também a candidatura ao ensino superior, uma entrada directa e qualificada no mercado de trabalho, ou ambas.
Os cursos profissionais, ministrados numa escola profissional, oferecem aos alunos um conjunto de oportunidades ímpares, preparando-os e consciencializando-os para a importância da actividade laboral, permitindo-lhes adquirir experiências, aplicar conhecimentos, desenvolver relações interpessoais e compreender as normas e os valores das organizações onde posteriormente virão a trabalhar.
De facto, as escolas profissionais não isolam a sua actividade de educação e de preparação de jovens para o mercado de trabalho do meio humano e social em que cada escola está inserida.
Mantêm protocolos de colaboração com diversos organismos, sejam eles do poder local, da sociedade civil, de associações ou empresas.
Para além do mais, as escolas profissionais detêm um conhecimento aprofundado da indústria portuguesa, na sua área de actividade, mantêm contactos privilegiados com agentes económicos do seu mercado envolvente e efectuam promoção directa da integração dos jovens junto das entidades que operam em ramos de actividade relacionadas com a saída profissional dos seus cursos.
Nas relações das escolas profissionais com o mercado empregador, são encarados os outros agentes que operam em domínios de actividade relacionados com as saídas profissionais dos cursos ministrados por cada escola profissional como:
Parceiros no estabelecimento de protocolos de colaboração e intercâmbio
Entidades receptoras e empregadoras, seja na componente de formação em contexto de trabalho (estágio profissional), seja após o término do curso (emprego).
Numa escola profissional, a preocupação com o destino dos seus alunos não termina com a conclusão do seu curso.
Para os alunos que escolheram como objectivo profissional a via de integração no mercado de trabalho, existe um acompanhamento por parte da escola no seu ingresso profissional.
Acompanhamento que envolve recolha e análise de um vasto conjunto de informação: tipo de função a desenvolver pelo jovem, tipo de relação contratual, expectativas de permanência, progressão na carreira, disponibilização de formação contínua; o que se traduz num importante acompanhamento pedagógico e técnico durante o arranque de uma actividade profissional.
Um outro dado importante é o facto de, de acordo com alguns estudos estatísticos, os alunos das escolas profissionais terem um rendimento escolar superior aos das escolas secundárias.
Uma das razões apontadas para este facto é explicado por as escolas profissionais serem mais pequenas e facilitarem um acompanhamento diferenciado de acordo com as necessidades específicas de cada aluno
Existe em Portugal, desde 1989, criado no âmbito do Ministério da Educação, antecedido pela experiência pedagógica do técnico profissional, em 1983, cuja avaliação foi muito importante para o lançamento das escolas profissionais.
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO DE ADULTOS
Os cursos de Educação e Formação de Adultos têm como objectivo elevar os níveis de habilitação escolar e qualificação profissional da população portuguesa adulta, através de uma oferta integrada de educação e formação que potencie as suas condições de empregabilidade e certifique as competências adquiridas ao longo da vida.
São destinatários desta modalidade de formação:
- candidatos à procura do 1.º emprego, empregados ou
desempregados
- com idade igual ou superior a 18 anos e
- com uma habilitação escolar inferior ao 4.º, 6.º ou 9.º anos de
Escolaridade
Os CEF (Cursos Educação-Formação) estão regulamentados pelos Despachos - Conjuntos n.º 1083/2000, de 20 de Novembro e n.º 650/2001 de 20 de Julho, dos Ministérios do Trabalho e da Solidariedade (actualmente designado por Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social) e da Educação.
INICIAL
Enquadrada na linha estratégica de actuação preventiva de resposta aos problemas de desemprego, esta medida tem por objectivo a formação inicial de jovens, que não dispõem de qualificações adequadas à entrada no mercado de trabalho.
Trata-se, assim, de reforçar a empregabilidade neste grupo, proporcionando-lhe uma qualificação profissional associada a uma progressão escolar, e potenciando o processo de transição para a vida activa.
A Qualificação Inicial é a formação que visa proporcionar a jovens e adultos candidatos ao primeiro emprego, não abrangidos pelo regime de escolaridade obrigatória, uma formação profissional completa, qualificante, de níveis II e III, com uma duração tendencialmente não inferior a um ano, incluindo, preferencialmente, uma formação prática em contexto real de trabalho.
Esta modalidade privilegia diferentes percursos formativos modulares e alternativos, adaptados e flexíveis, de forma a assegurar uma plena integração no mercado de emprego.
Neste contexto importa, ainda, referir a formação que visa qualificar activos indiferenciados ou semi-qualificados, através da aquisição de conhecimentos e competências adequadas ao exercício de uma profissão, bem como das atitudes e formas de comportamento que potenciam uma melhor integração sócio-profissional - QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL (para trabalhadores indiferenciados ou semi-qualificados).
É inegável a emergência de todos serem portadores de uma qualificação.
O problema é que, em consequência de um conjunto de situações de diferente cariz, Portugal tem hoje um índice elevado de abandono escolar, tem um considerável défice de técnicos, com destaque para os quadros médios, e tem vindo a assistir ao aumento gradual de jovens licenciados que encontram cada vez mais dificuldade numa inserção profissional na área da sua formação de base e na razão directa das suas legítimas expectativas.
Para se ser um profissional competente ao longo da vida não basta dar valor ao trabalho, não basta querer aprender, não basta o esforço individual, não basta o lado de cá; é preciso, também, o lado de lá — as oportunidades de aprender, os padrões de referência para as competências requeridas, o reconhecimento do aprendido, a orientação e apoio para a aprendizagem do que falte.
É aqui que ganham pertinência um novo conceito de escola/centro de formação e um novo conceito de dispositivo nacional de educação-formação-certificação profissional, compatíveis com a enormíssima panóplia de oportunidades e meios de aprendizagem do mundo de hoje, a enormíssima habilidade de aprendizagem individual necessária e o incontornável conceito de formação ao longo e em toda a vida.
A Qualificação e Reconversão Profissional têm como objectivo proporcionar, a jovens e adultos, a aquisição de competências técnicas, sociais e relacionais, com vista ao desempenho de profissões qualificadas favorecedoras do aumento da empregabilidade e facilitadoras da integração ou reintegração na vida activa.
São destinatários desta modalidade de formação:
- candidatos à procura do 1.º emprego ou desempregados,
- com idade igual ou superior a 15 anos e
- com a escolaridade obrigatória, para percursos de nível 2 e 11.º ano de escolaridade para percursos de nível 3.
Esta modalidade de formação está regulamentada pelos Decretos-Leis n.º 401/91 e n.º 405/91, de 16 de Outubro.
APERFEIÇOAMENTO
Estes cursos têm como objectivo melhorar o desempenho profissional de jovens e adultos, respondendo adequadamente às mudanças tecnológicas e organizacionais, constituindo-se em percursos de formação que visam:
- colmatar o défice de competências decorrentes das mutações tecnológicas e organizacionais - Reciclagem;
- actualizar competências face à introdução de novos equipamentos, tecnologias e métodos de organização do trabalho - Actualização;
- aprofundar competências face à inovação organizacional introduzida nos processos de desenvolvimento empresarial - Aperfeiçoamento.
São destinatários destas modalidades activos empregados ou em risco de desemprego e desempregados.
Esta modalidade de formação está regulamentada pelos Decretos-Leis n.º 401/91 e n.º 405/91, de 16 de Outubro.
Estas formações revestem-se de uma importância estratégica uma vez que são delineadas à medida das necessidades e contextos específicos das organizações e dos trabalhadores, em áreas que visam potenciar a inovação organizacional e tecnológica, a experimentação e implementação de novos métodos de produção e formas de trabalho num contexto de globalização da economia, bem como de mobilidade social no espaço europeu.
RECONVERSÃO
Modalidade de formação que faz parte da formação profissional contínua e que visa dar uma qualificação diferente da já possuída para exercer uma nova actividade profissional. Pode implicar uma formação profissional de base, seguida de especialização.
ESPECIALIZAÇÃO
Modalidade de formação que visa reforçar, desenvolver e aprofundar capacidades, atitudes e formas de comportamento ou conhecimentos adquiridos durante a formação profissional inicial, necessários ao melhor desempenho de certas tarefas profissionais.
A Especialização Tecnológica é uma modalidade de formação pós secundária, não superior, a desenvolver na mesma área ou área afim aquela em que o candidato obteve qualificação profissional de nível III, e que lhe permite adquirir conhecimentos para o exercício de funções que impliquem responsabilidades de concepção, direcção ou gestão.
Estes cursos têm como objectivo aprofundar o nível de conhecimentos científicos e tecnológicos, no domínio da formação profissional de base, desenvolver competências pessoais e profissionais, bem como permitir o prosseguimento de estudos.
São destinatários desta modalidade de formação candidatos ao 1.º emprego, com os seguintes perfis de acesso:
- titulares de um curso do ensino secundário, ou habilitação legalmente equivalente e qualificação de nível 3 na área do CET (frequência do CET com carga horária total compreendida entre 1200 e 1560 horas);
- detentores de curso do ensino secundário e qualificação de nível 3 fora da área do CET (o que implica a introdução de complemento de formação entre 300 e 850 horas, adequado ao perfil do candidato).
Esta modalidade está regulamentada pela Portaria n.º 989/99, de 3 de Novembro (com as alterações constantes das Portarias n.º 698/2001, de 11 de Julho e n.º 392/2002, de 12 de Abril).
Estes cursos desenvolvem-se, essencialmente, em áreas em que se regista um conjunto de factores potenciadores de transformações significativas, nos planos tecnológico e organizacional, consideradas estratégicas para a competitividade do tecido económico e empresarial ao nível dos quadros intermédios.
NÍVEL 1
Formação de acesso a este nível: escolaridade obrigatória e iniciação profissional
Esta iniciação profissional é adquirida quer num estabelecimento escolar, quer no âmbito de estruturas de formação extra-escolares, quer na empresa. A quantidade de conhecimentos técnicos e capacidades práticas é muito limitada.
Esta formação deve permitir principalmente a execução de um trabalho relativamente simples, podendo a sua aquisição ser bastante rápida.
Constitui uma pré-qualificação para o exercício de uma actividade; formandos sem a escolaridade básico.
NÍVEL 2
Formação de acesso a este nível: escolaridade obrigatória e formação profissional (incluindo, nomeadamente, a aprendizagem)
Este nível corresponde a uma qualificação completa para o exercício de uma actividade bem determinada, com a capacidade de utilizar os instrumentos e técnica com ela relacionadas.
Esta actividade respeita principalmente a um trabalho de execução que pode ser autónomo no limite das técnicas que lhe dizem respeito.
Trata-se de uma qualificação completa para o exercício de uma actividade; formandos com escolaridade básica.
NÍVEL 3
Formação de acesso a este nível: escolaridade obrigatória e ou formação profissional e formação técnica complementar ou formação técnica escolar ou outra, de nível secundário.
Esta formação implica mais conhecimentos técnicos que o nível 2.
Esta actividade respeita principalmente a um trabalho técnico que pode ser executado de forma autónoma e ou incluir responsabilidades de enquadramento e de coordenação.
Constitui um nível intermédio a superior de execução de uma actividade; formandos com o ensino secundário completo e uma qualificação profissional
NÍVEL 4
Formação de acesso a este nível: formação secundária (geral ou profissional) e formação técnica pós-secundária
Esta formação técnica de alto nível é adquirida no âmbito de instituições escolares, ou fora dele.
A qualificação resultante desta formação inclui o conhecimento e capacidades que pertencem ao nível superior. Não exige, em geral, o domínio dos fundamentos científicos das diferentes áreas em causa.
Estas capacidades e conhecimentos permitem assumir, de forma geralmente autónoma ou de forma independente, responsabilidades de concepção e ou de direcção e ou de gestão.
Quem o frequenta deve possuir Bacharelato.
NÍVEL 5
Formação de acesso a este nível: formação secundária (geral ou profissional) e formação superior completa
Esta formação conduz geralmente à autonomia no exercício da actividade profissional (assalariada ou independente) que implica o domínio dos fundamentos científicos da profissão.
As qualificações exigidas para exercer uma actividade profissional podem ser integradas nestes diferentes níveis.
Destina-se a quem tem Licenciatura ou formação superior.
Com o Decreto Regulamentar n.o 66/94, de 18 de Novembro, e de acordo com estabelecido nos Decretos- Leis n.os 401/91 e 405/91, ambos de 16 de Outubro, procurou-se regulamentar o
exercício da actividade de formador no âmbito da formação inserida no mercado de emprego, sabendo-se que a qualidade da formação deve ser alicerçada na consolidação e dignificação da função de formador.
Naquele decreto regulamentar procurou-se precisar os conceitos que traduzem quer a realidade conhecida no domínio da formação de formadores no plano nacional quer as orientações que prevalecem na evolução observável no espaço comunitário.
Neste sentido, definiram-se requisitos para o exercício da actividade de formador, deixando a definição de perfis profissionais específicos de cada tipo de actividade à actuação regulamentadora da Comissão Permanente de Certificação.
Atribuiu-se também ao Instituto do Emprego e Formação Profissional, como serviço público executor das políticas de formação profissional, a competência para proceder à certificação dos formadores, bem como organizar bolsas de formadores, a serem colocadas ao dispor dos interessados, o que permitirá assegurar uma maior transparência no mercado da formação.
O Decreto Regulamentar n.º 68/94, de 26 de Novembro, veio estabelecer o regime jurídico da certificação profissional baseada quer na formação inserida no mercado de emprego quer na experiência profissional, quer em certificados ou títulos afins emitidos noutros países.
Do Decreto Regulamentar n.o 26/97 decorrem algumas considerações fundamentais neste contexto.
Destacam-se:
– “O formador deve reunir o domínio técnico actualizado relativo à área de formação em que é especialista, o domínio dos métodos e das técnicas pedagógicas adequados ao tipo e ao nível de formação que desenvolve, bem como competências na área da comunicação que proporcionem ambiente facilitador do processo de ensino/aprendizagem.” (art.1º)
- “Relativamente ao vínculo, os formadores podem ser internos, quando tenham vínculo laboral com a entidade formadora ou beneficiária, ou externos, nos demais casos.”
- “Para efeitos do disposto na alínea c) do n.º 1 é exigível a frequência, com aproveitamento, de curso de formação pedagógica homologado pela entidade referida na alínea a) do artigo 8.o do
Decreto-Lei n.º 95/92, de 23 de Maio, nos termos a estabelecer em normas específicas a
aprovar pela Comissão Permanente de Certificação e a homologar por portaria do Ministro para a Qualificação e o Emprego.”
- “Direitos do formador (…):
- Obter documento comprovativo, emitido pela entidade formadora ou beneficiária da formação, da sua actividade enquanto formador em acções por ela desenvolvidas, do qual conste especificamente o domínio, a duração e a qualidade da sua intervenção.”
- “Deveres do formador, entre outros:
a) Fixar os objectivos da sua prestação e a metodologia pedagógica a utilizar, tendo em
consideração o diagnóstico de partida, os objectivos da acção e os destinatários da mesma, com observância das orientações da entidade formadora ou beneficiária;
b) Cooperar com a entidade formadora, bem como com os outros intervenientes no
processo formativo, no sentido de assegurar a eficácia da acção de formação;
c) Preparar de forma adequada e prévia cada acção de formação, tendo em conta os
objectivos da acção, os seus destinatários, a metodologia pedagógica mais ajustada, a estruturação do programa, a preparação de documentação e de suportes pedagógicos de apoio,
o plano de sessão e os instrumentos de avaliação, bem como os pontos de situação intercalares que determinem eventuais reajustamentos no desenvolvimento da acção;
d) Participar na concepção técnica e pedagógica da acção, adequando os seus
conhecimentos técnicos e pedagógicos ao contexto em que se desenvolve o processo formativo;
e) Avaliar cada acção de formação e, globalmente, cada processo formativo, em função
dos objectivos fixados e do nível de adequação conseguido.”
- “O certificado de aptidão de formador pode ser renovado por períodos sucessivos de cinco anos, se outro período não for estabelecido em norma específica de certificação, a requerimento, devidamente instruído, do interessado ou da entidade a que esteja vinculado.”
- “A renovação do certificado de aptidão de formador só pode ser concedida desde que se verifiquem, cumulativamente, durante o período de validade do anterior certificado, os seguintes requisitos, em relação ao formador:
a) Actualização científica e técnica na área de formação em que é especialista, a
verificar nomeadamente através de currículo profissional e ou de formação específica;
b) Desenvolvimento de um processo contínuo de ajustamento pedagógico aos
objectivos, às temáticas e aos destinatários, nomeadamente através da frequência de formação pedagógica;
c) Actuação comprovada na área de formação por tipo de intervenção, com referência
específica ao número de horas enquanto formador, às entidades, à avaliação da sua prestação e dos resultados obtidos.”
- “O certificado de aptidão de formador é exigido para o exercício da respectiva actividade a partir de 1 de Janeiro de 1998.”
- “Podem obter certificado de aptidão de formador os profissionais que, satisfazendo os requisitos de competência técnica estabelecidos na alínea b) do n.o 1 e no n.o 2 do artigo 4.o, satisfaçam uma das seguintes condições relativamente à sua competência pedagógica:
a) Terem frequentado, com aproveitamento, até 1 de Janeiro de 1998, curso de
formação pedagógica, com a duração mínima de sessenta horas, considerado adequado pela entidade certificadora;
b) Possuírem experiência formativa comprovada, no domínio técnico em que é
especialista, de pelo menos cento e oitenta horas, obtida no período compreendido entre 1 de Janeiro de 1990 e 1 de Janeiro de 1998.”
- “A validade dos certificados de aptidão de formador concedidos ao abrigo da alínea b) do número anterior é de dois anos, no termo dos quais o formador deverá preencher os requisitos exigidos para a sua renovação. A primeira renovação dos certificados de que trata o número anterior só pode ser concedida desde que os formadores, no período de tempo de validade daqueles, satisfaçam cumulativamente os seguintes requisitos:
a) Terem desenvolvido, pelo menos, cento e vinte horas de formação na área de
formação respectiva;
b) Terem frequentado, com aproveitamento, pelo menos, sessenta horas de formação
pedagógica considerada relevante pela entidade certificadora.”
Para além do que aqui se reproduz sugere-se a consulta na íntegra da legislação em vigor:
DR n.º 26/97, de 18 de Junho;
DR n.º 66/94 de 18 de Novembro;
Portaria n.º 1119/91 e 405/91 de 16 de Outubro;
Anexo do Despacho Normativo 53-A/96, de 16 de Dezembro;
DR nº 12-A/2000, de 15 de Setembro (regula apoios do fundo social Europeu).
PLANEAR
. Elaborar o Plano de Sessão, tendo em atenção:
público alvo objectivos meios
tempo disponível
ANIMAR
- Domínio dos mecanismos de aprendizagem
acção recepção recepção/acção
- Escolher os métodos e técnicas pedagógicas tendo em atenção:
os objectivos a atingir meios disponíveis tempo disponível
características dos formandos tipos de métodos
- Comunicar eficazmente - Gerir a dinâmica de Grupo
liderança cooperação
conflito/competitividade
AVALIAR
- Domínio de técnicas e instrumentos de avaliação
- Construir e aplicar instrumentos de avaliação
- Colaborar com o sistema construindo uma intervenção
crítica.
Nos temos do Decreto Regulamentar n.º 66/94 de 18 de Novembro, é formador “o profissional
que, na realização de uma acção de formação, estabelece uma relação pedagógica com os formandos, favorecendo a aquisição de conhecimentos e competências, bem como o desenvolvimento de atitudes e formas de comportamento, adequados ao desempenho profissional.”
O formador profissional desempenha funções formativas de forma sistemática, visando proporcionar a aquisição de competências profissionais que permitam o sucesso, dos seus formandos, num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, num mundo tecnológico em permanente mudança.
Assim, ser formador é estabelecer uma relação pedagógica com os formandos, favorecendo a aquisição de conhecimentos e competências, bem como o desenvolvimento de atitudes e formas de comportamento, adequados ao desempenho profissional.
Deverá estar consciente que, enquanto formador para além de formar profissionais competentes tem que formar pessoas, pessoas em desenvolvimento.
Por isso o exercício da actividade de formador exige preparação psicossocial, cientifica,
técnica e prática.
Com o primeiro domínio reportamo-nos ao espírito de cooperação, à capacidade de comunicação e relacionamento interpessoal.
Relativamente aos outros domínios referidos, estão em causa a posse de um conjunto de conhecimentos e a sua aplicação prática, ou seja, que a urgência em beneficiar os formandos a partir da sua própria experiência profissional.
Um outro domínio fundamental a um bom desempenho da função de formador é o domínio dos
métodos e técnicas pedagógicas adequadas, assim como, o conhecimento dos factores que
interferem no processo de ensino aprendizagem.
Profissional Competente
A transposição da pedagogia de tipo escolar ou universitário para os adultos sem mais é um fracasso.
Assim, impõe-se olhar para a formação de adultos com um olhar renovado, concebendo uma metodologia específica aplicável à formação de adultos.
Generalizou-se, com o andar dos tempos, a expressão “pedagogia de adultos”.
Este termo é, porém, contraditório, pois etimologicamente pedagogia significa a arte e ciência de ensinar crianças (pedagogia – do grego: paidós = criança + agôgia = acção de conduzir).
Desta forma, torna-se mais coerente usar o analogismo, criado em 1970 por Malcom Knowles, andragogia (do grego – andrós = Homem + agôgia = acção de conduzir), adoptado pela UNESCO para designar a arte e a ciência de ajudar os adultos a aprender.
Ora, antes de estabelecermos princípios orientadores da andragogia ou formação de adultos, é importante determinar quem é o adulto.
No seu livro “Guia do Animador – animar uma actividade de formação”, uma referência bibliográfica fundamental para o formador, e do qual se destaca as seguintes características comuns específicas dos adultos:
CARACTERÍSTICAS DO ADULTO Formador Conhecimento do mundo empresarial Abertura Social Competências Pedagógicas
Autonomia física, intelectual, social e afectiva;
Desejo de auto-realização através de actividades e projectos desafiadores; Apetência para enfrentar os riscos decorrentes de compromissos assumidos;
Acumulação de saberes, experiências e vivências pessoais, familiares e profissionais; Capacidade avaliativa relativamente a pessoas, situações e acontecimentos;
Necessidade de se afirmar e opinar sobre aquilo que lhe diz respeito, não valorizando excessivamente o “argumento da autoridade”;
Interesse e apetência para aprender e aprofundar o que directamente se relaciona com a sua valorização pessoal e profissional;
Preocupação pela aplicação prática e imediata daquilo que aprende; Necessidade de fazer valer as suas próprias ideias e experiências; Capacidade para organizar e aplicar os conhecimentos adquiridos;
Motivações concretas a nível de necessidades, sentimentos e expectativas;
Resistência em aderir a projectos e propostas que possam fazer perigar a sua segurança e estabilidade a nível de valores, princípios e crenças.
Tendo em conta estas características, o formador deve orientar-se por princípios adequados ao adulto e às suas necessidades.
Diz Paulo da Trindade que “ser adulto é ser capaz de encontrar o equilíbrio entre duas forças distintas, mas complementares.
Por um lado, a autonomia ou capacidade para, perante um problema e situações que o exijam, tomar decisões e assumir responsabilidades; por outro lado, a inter-relação ou capacidade para desenvolver e intensificar o relacionamento com os outros e com o mundo, visando a sua transformação.
A experiência do adulto, em termos quantitativos e qualitativos, é completamente diferente da experiência da criança ou do adolescente.
Se lhes perguntarmos quem são começam por falar dos pais, irmãos, colegas, professores, rua onde moram... Para expressarem a sua identidade recorrem a fontes externas. O adulto, ao contrário, identifica-se relatando as suas experiências – algumas delas muito singulares – relacionadas com o meio de trabalho, meio familiar e com os diversos grupos de pertença.
Os mais novos – crianças, adolescente e jovens – definem-se relatando o que fazem.
Os mais velhos – os adultos – explicam-se descrevendo o que fizeram.
Quando a experiência do adulto não é tida em conta ou devidamente valorizada, ele sente-se excluído e rejeitado enquanto pessoa.
Se a experiência ensina, há que ouvir e aprender as suas lições.”
PRINCÍPIOS ORIENTADORES DA FORMAÇÃO DE ADULTOS
A história de cada adulto é uma história original e única que não se pode confundir com nenhuma outra;
O adulto é o centro da aprendizagem. Os conteúdos, objectivos, métodos, animador...devem estar ao serviço das suas necessidades, interesses e aspirações;
Habituado a exercer o poder, designadamente a nível familiar, profissional, político, social..., não é fácil ao adulto aceitar um animador que se apresente como sendo a autoridade infalível e indiscutível;
A aprendizagem dos adultos deve orientar-se por metas claras, precisas e realistas, definidas, sempre que possível, com a colaboração e envolvimento;
O adulto só adere à aprendizagem a qual pressupõe sempre uma mudança de comportamentos – se, à partida, puder ver com clareza que as vantagens daquilo a que adere são superiores àquilo que abandona;
Como o adulto se reparte, no seu quotidiano, por diversas actividades, só uma forte motivação e interesse o convencerá a aceitar os esforços exigidos pela aprendizagem; O ponto de partida para a aprendizagem dos adultos deve ser, primordialmente, o conjunto das situações e problemas por ele vivenciados;
Se para as crianças, adolescentes e jovens a aprendizagem decorre, de maneira geral, de programas previamente definidos e estruturados, para os adultos deverá basear-se na partilha de experiências e na procura de soluções para os problemas com que se debatem; Os adultos estão mais motivados para aderir ao que realmente sentem necessidade de aprender, do que àquilo que alguém do exterior procura impor-lhes;
Os adultos aprendem mais e melhor quando se sentem aceites e estimados, tanto pelo animador como pelos elementos do grupo em que estão integrados;
No decorrer da aprendizagem dos adultos há que ter a preocupação de relacionar os assuntos que vão sendo abordados com os saberes anteriormente aprendidos;
Para o adulto, aprender é inútil. Ele somente se predispões a aprender quando descobre a utilidade e aplicabilidade daquilo que aprende à vida real e concreta.
FORMAÇÃO “AMESTRAMENTO” E FORMAÇÃO DESENVOLVIMENTO
Quando a formação tem como único objectivo transmitir “matérias” e moldar os formandos para um universo predefinido, onde tudo está meticulosamente previsto e padronizado, impedindo assim que certas mudanças aconteçam e que outras tantas intervenções se concretizem, estamos perante a formação ”amestramento”.
Esta privilegia unicamente o como fazer as coisas (método), desvalorizando o porquê (causa) e o para quê (utilidade) do que se faz ou aprende.
A formação “amestramento” produz o “Homem – coisa”, prisioneiro de forças que o asfixiam e lançam no anonimato.
Condenado a reproduzir um sem número de gestos mecânicos e de tarefas repetitivas, sem saber o seu porquê e para quê, dificilmente o “Homem – coisa” encontrará prazer no que aprende e faz.
A formação “amestramento” reprime as potencialidades dos formandos, afoga a sua criatividade, desconsidera as suas aspirações e impede o seu desenvolvimento.
Pelo contrário, a formação desenvolvimento apoia-se na base triangular: porquê, para quê e como do que se faz ou aprende.
Esta formação não só proporciona o desenvolvimento da observação, análise e sentido crítico dos formandos, como também os capacita para inventar, em cada momento, a resposta apropriada à interrogação que nasce, ao problema que surge e à situação que ocorre.
A formação desenvolvimento aposta, antes do mais, no “Homem pessoa”, modelador do seu destino e pedagogo da sua autonomia.
O seu objectivo situa-se ao nível do ser-mais – maior consciência crítica de si próprio e melhor percepção dos outros e do lugar que ocupa no mundo – e não, simplesmente, ao nível do ter-mais, como se tratasse de algo a capitalizar.
Na formação desenvolvimento não se dá nem se recebe.
É uma contínua e mútua construção do animador e seu saber e do formando e seu saber. É no contexto de reciprocidade e partilha de saberes e experiências, que o processo formativo se desenvolve e enriquece.
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