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(a) O julgador violou o art. 9º CC, na medida em que cingiu a interpretação

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Academic year: 2021

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(1)

________________________________________________________________________

PN. 939.001; Ag: TC Porto, 7º j;

Ag.e: Condomínio do Edifício Dallas, rep. Andargest, Soc. Gest. Condomínios, Lda2;

Ag.o: MP.

________________________________________________________________________

Em Conferência, no Tribunal da Relação do Porto

1. O Ag.e, em acção que instaurou contra Ferreira R. & Gonzalves, Lda, com vista à

cobrança de dividas respeitantes ás despesas de condomínio, pediu a concessão do benefício do apoio judiciário, que lhe foi negado, aceites os motivos da oposição, deduzida pelo MP.: o condomínio não goza de tal direito.

2. Concluiu:

(a) O julgador violou o art. 9º CC, na medida em que cingiu a interpretação

do DL 387 B/87 à letra da lei, desprezando os demais elementos que lhe devem presidir;

(b) Do mesmo modo, violou os art.s 13º e 20º CRP, ao não atender às

directivas, de igualdade de direitos e garantias perante a lei, estabelecidas para servir de base a todos os procedimentos judiciais, e que têm de reger o ordenamento comum, no plano hierárquico inferior;

(c) As razões que estiveram na origem da inclusão das sociedades comerciais

na categoria de beneficiários da dispensa de pagamentos de preparos e custas são, pelo menos, iguais às que devem conduzir a igual tratamento dos condomínios;

1

Vistos:

(2)

(d) Logo, deverá ser esta a solução, usando-se para tal a via da interpretação extensiva ou, se assim não se entender, recorrendo-se à integração analógica (art. 10º CC);

(e) A unidade do sistema jurídico reclama que os condomínios possam

beneficiar também do apoio judiciário:

(f) Deve ser revogado o despacho que indeferiu o pedido, substituíndo-se por

outro que mande prosseguir o incidente.

3. Nas contra alegações disse-se:

(a) O condomínio não goza de direito ao apoio judiciário, nos termos do art.

7º do DL 387 B/87, 29.12;

(b) Já que os actuais nº 4 e 5 desse art. 7º, na redacção dada pala lei 46/96, 03.09, bem como o nº 4 do mesmo art., na redacção originária, o excluíram;

(c) Não há assim lacuna da lei, pelo que não há lugar a interpretação, nos termos nos art.s 9º e 10º CC;

(d) Não foi violada também qualquer norma constitucional, nomeadamente os

art.s 13º e 20º CRP, porquanto tais disposições consubstanciam princípios que respeitam aos cidadãos (pessoas físicas), e aos seus direitos e deveres fundamentais3;

(e) Deve ser mantido o despacho agravado.

4. Foi tido, e deve ter-se em consideração:

(a) Andargest, Soc. Gest. Condomínios Lda, na qualidade de administradora

do condomínio do prédio em regime de propriedade horizontal, sito na Av. Boavista, nº 1588, 1614, 1618, Lg, Eng.º António de Almeida, nº 10, 12, 16, 20, 30, 34, 52, 70, e R. do mesmo nome, nº 92, 100, 108 e 110, a que se chamou

Edifício Dallas, intentou contra Ferreira R. & Gonzalves Lda, com sede no

(3)

que lhe fossem pagos pela R. contribuições, devidamente aprovada pela assembleia de condóminos, visto que é proprietária da fracção autónoma 37 P 8, no montante de Pte. 250.785$00, e os juros;

(b) Simultaneamente, para efeitos de benefício de apoio judiciário, alegou:

(1) Nos últimos anos, a situação económica e financeira do condomínio

detriorou-se, acumulando enormes prejuízos de exercícios sucessivos;

(2) A tal situação, não é estranha, a larga situação de incumprimento dos

pagamentos que cumprem aos condóminos;

(3) Neste momento, o condomínio apresenta um passivo de cerca de Pte. 90

000 000$00;

(4) Grande parte dele, afecto a dividas à Segurança Social, Fazenda Pública, Serviços Municipalizados de Água, trabalhadores com salários em atraso…; (5) Estes factos revelam impossibilidade de o condomínio suportar o

pagamento da taxa de justiça e das custas, e demonstram que reúne os requisitos necessários para usufruir do benefício, na modalidade de prévia dispensa de os satisfazer.

(c) Indicou prova testemunhal;

(d) O pedido de apoio judiciário foi indeferido, na sequência de oposição do

MP., pelas razões apontadas em 1.

5. Nos termos do disposto no art. 705º CPC, foi decidido dar provimento ao recurso, com a seguinte argumentação:

(a) Defendeu o recorrente a posição de ter direito a apoio judiciário desde que as sociedades comerciais foram avocadas ao benefício, pela lei, não havendo razão para, do mesmo modo, não ser este concedido aos condomínios horizontais;

(4)

(b) Pelo contrário, na sequência da oposição do MP., o despacho recorrido conclui pela manifesta improcedência do pedido, porque a letra da lei não lhe dá acolhimento, apenas referindo as pessoas colectivas com ou sem fim lucrativo; (c) Entende-se que a posição atacada no recurso não convence. Na verdade, mesmo que se aceite a tese do MP. no sentido de as normas constitucionais conterem uma directiva de apenas imporem o acesso gratuito à justiça aos cidadãos enquanto pessoas singulares, o certo é que a lei comum alargou o âmbito e alcance do instituto;

(d) Nesta perspectiva, dada a teleologia dessa expansão (criação de condições práticas de igualdade de todos os litigantes), não faz sentido que as entidades, constituídas evidentemente por e para os cidadãos, que apenas dispõem de capacidade judiciária, justamente para poderem pleitear, sejam excluídas da via de acesso gratuito aos tribunais, e acaso se encontrem nas condições de desfavor de fortuna, comuns às pessoas colectivas;

(e) Não colhe, por conseguinte, o argumento da queda, na transição da lei 7/70, 09.09., para o actual DL 387 B /87, 29.12, da expressão outras entidades que

gozem de personalidade judiciária;

(f) É que a expansão no sentido de o sistema de apoio judiciário abranger também as pessoas colectivas com fins lucrativos, ocorreu com a posterior alteração da lei vigente;

(g) Ora a maior perfeição técnica da redacção da lei de 70, época em que nem sequer estava constitucionalizado o direito de acesso equalitário à justiça, não merece agora o ponto de vista negativo;

(h) Pode dizer-se que a aquisição da assistência judiciária para as entidades que apenas gozem de personalidade judiciária faz parte da tradição jurídica reposta, não havendo argumento válido para o negar: a ordem jurídica de Abril não contém qualquer elemento estrutural em contrário, antes assim;

(5)

6. Vem o MP pedir que sobre a matéria desta decisão recaia acordão, perante as divergências existentes na jurisprudência4.

7. A tese contrária repousa na argumentação trazida ao debate nas alegações do MP, logo apresentadas na preparação deste recurso.

Na decisão em singular foi tentada uma superação do problema, concluindo-se que, com a alteração do DL 387 B/87, 29.12, se pode repor a tradição jurídica, vinda da Lei 7/70, 09.09, não se divisando na ordem jurídica de Abril qualquer elemento estrutural em contrário, aceite por fim que o benefício do apoio judiciário cabia, para além do espartilho das pessoas singulares, às pessoas colectivas com ou sem fins lucrativos. Consequentemente, será possível, e impõe-se, a interpretação extensiva do art. 7, DL 387 B/87, 29.12, no sentido da procedência do agravo.

Não tendo sido aduzidos novos argumentos, nomeadamente com vista a rebater este ponto de vista, também não se vê razão para não o sufragar.

8. Tudo visto, e o disposto nos arts. 9 CC e 7 DL 387 B/87, 29.12, decidem então pelo provimento do agravo, revogando a decisão recorrida, que será substituída por outra que determine a audição das testemunhas indicadas pelo Ag.e, com o pedido da concessão do apoio.

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