A FORMAÇÃO DE UM MODELO DE CIDADÃO
1POSPOSTO NAS
PEÇAS SOFOCLIANAS
SOUZA, Paulo Rogério de (Bolsista CAPES/PPE/UEM) PERREIRA MELO, José Joaquim (Orientador/UEM)
Considerações Iniciais:
A opção pelo tema: “a formação de um modelo de cidadão proposto nas peças sofoclianas” justifica-se, num primeiro momento, pelo interesse em pesquisar o processo de transformação social que ocorreu na sociedade grega no século V a.C., devido as mudanças na economia, na religião, no modo de pensar e na administração. Quadro que trouxe consigo alterações no comando administrativo da polis, anteriormente exclusividade da aristocracia, e que agora era obrigada a compartilhar com os setores “inferiores”2 da cidade-estado. Num segundo momento, pela preocupação em analisar como Sófocles apresentou em sua obra trágica a sua proposta formativa para o homem-cidadão, agente social que responderia as exigências da sociedade que emergia.
A adoção da literatura – as peças trágicas sofoclianas – como fonte de pesquisa passa pelo entendimento de que seu conteúdo retratava os fatos e eventos do seu tempo e é resultado das suas relações sociais: do autor com a sua sociedade.
O estudo da tragédia mostra a literatura enquanto produção social, bem como a influência que esta exerceu na formação do povo, visto a sua importância no período
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Na Grécia, o direito de participação política estava condicionado ao status de cidadão e este tinha seu estatuto bem delineado. Excluíam-se as mulheres, estrangeiros e menores, os quais não podiam gozar da vida política, justamente por não gozarem da cidadania: “Os cidadãos de pleno direito eram todos os homens adultos livres [...] Em todo caso, as mulheres, as crianças e os escravos não eram considerados cidadãos. O seu lugar era em casa, no interior – a não ser que o trabalho os obrigasse a sair. Eram membros da família, mas só indiretamente é que eram membros da cidade; é certo que a cidade era a sua pátria, mas não faziam parte do domínio público” (Redfield apud VERNANT, 1994, p. 155).
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“Do seio desta população começavam a surgir novos homens que ainda permaneciam, é verdade, em segundo plano, mas já podiam aparecer como uma ameaça que não tardaria a atingir os privilégios políticos da aristocracia” (MOSSÉ, 1997, p. 87).
Clássico: “[...] a proeza literária de Atenas está no lugar central que ocupa não só na educação, como também na vida da comunidade adulta” (BALDRY, 1968, p. 60). No caso específico da tragédia de Sófocles, retrata as transformações sociais produzidas pelo grego, o que poderá ajudar a responder às questões levantadas neste trabalho.
Para isso, propõe-se buscar, a partir das fontes sofoclianas, não apenas os aspectos históricos da sociedade grega do período Clássico, mas também a sua função didática e pedagógica, no processo de formação do homem-cidadão, tendo como suporte os padrões morais, políticos e religiosos presentes nas suas temáticas:
[...] Um escultor de homens como Sófocles pertence à história da educação humana. E como nenhum outro poeta grego. E num sentido inteiramente novo. É na sua arte, que pela primeira vez se manifesta o despertar da educação humana. É algo totalmente diverso da ação educativa, no sentido de Homero, ou da vontade educadora, no sentido de Ésquilo (JAEGER, 1979, p. 298).
Acrescente-se a isso uma análise de como o poeta apresentou as mudanças políticas ocasionadas na Grécia na segunda metade do século V a.C. frente às alterações ocorridas nos âmbitos de seu governo. Alterações propiciadas pela ascensão dos setores da sociedade até então marginalizados pela aristocracia, portanto, excluídos do poder, mas que, impulsionados pelas possibilidades e oportunidades que a cidade-estado democrática propiciava, conseguiram enriquecer em suas atividades e assim buscavam na formação intelectual3 uma maneira de alcançar o acesso às esferas dirigentes.
As tragédias de Sófocles e a literatura enquanto prática educativa
As obras literárias a serem trabalhadas no desenvolvimento do presente trabalho privilegiará o estudo da literatura enquanto prática educativa da sociedade grega do século V a.C., bem como as peças de Sófocles. E ainda, textos de fontes e comentadores do assunto, como Aristóteles, Werner Jaeger, Jean-Pierre Vernant, André Bonnard,
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Segundo Mário Atílio Levi (1991, p. 241): “Essa nova classe devia contar com recursos econômicos, sem os quais não se podia ter uma educação superior, nem ter acesso às magistraturas financeiras, nem exercer função de estrategia”.
Arnold Hauser, Claude Mossé, H. C. Baldry, Jacqueline Romilly, Albin Lesky, Bernard Knox, entre outros, que poderão auxiliar na busca por atingir os objetivos traçados nesse trabalho.
Apesar de alguns autores acima mencionados terem fundamentações teóricas diferentes esses serão utilizados nessa pesquisa, pois o interesse aqui é explorar suas contribuições em distintas áreas do conhecimento, tais como: de história, filosofia, literatura, educação, para discussão dos objetivos propostos nesse projeto. Importa ressaltar que tal procedimento não tem por fim uma análise eclética, pois a grande preocupação é utilizar-se de suas contribuições informativas e não teóricas para discussão da tragédia sofocliana.
Esses autores ajudarão a entender como e porque, desde a origem arcaica, a tragédia foi usada pelo grego como forma de instruir/formar a comunidade, servindo para reforçar o conhecimento que esse povo tinha de sua origem guerreira, dos mitos e heróis dos quais acreditavam descender: “Com o mito heroico, a tragédia conquistou um âmbito temático que vivia no coração do povo como um trecho da sua história” (LESKY, 1995, p. 258).
Com a decadência da comunidade gentílica4 fundamentada na família aristocrática5, na religião doméstica e na propriedade e o surgimento das cidades, primeiramente administrada pelos tiranos e posteriormente conduzidas pelos cidadãos da polis democrática6, a função educadora da tragédia foi reforçada: “Na tragédia o elemento dramático mantinha-se sempre, certamente, subordinado ao elemento lírico e didático [...], se propunha atingir outros fins além da mera distração” (HAUSER, 1990, p. 126). Segundo Werner Jaeger este gênero passou a ter “[...] uma grande força
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Fustel de Coulanges (1975, p. 93) entende por sociedade gentílica o regime da gens cujos membros, unidos por cerimônias sagradas, ajudavam-se em todas as necessidades da vida e na qual o vínculo de nascimento garantia o nome dos antepassados, estando os parentes ligados uns aos outros por deveres de solidariedade, tendo a terra como propriedade coletiva.
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“O poder das famílias aristocráticas foi enfraquecendo em parte porque a maioria delas foi banida e a sua terra distribuída entre os cidadãos pobres e, em parte, porque perderam totalmente a sua influência e começaram a fenecer, preparando assim, o solo para novas instituições democráticas no futuro. Quando a Tirania caiu e foi preciso reconstruir a vida pública, esta não foi baseada numa aristocracia enfraquecida e desacreditada, mas numa democracia forte e ciente da sua força” (ROSTOVTZEFF, 1983, p. 107).
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Henri-Irénée Marrou (1975, p. 70-71) apresenta o exemplo da cidade de Atenas que, ao tornar-se uma verdadeira democracia, possibilitou que o seu povo conquistasse também, por extensão gradual, não só os privilégios, direitos e poderes políticos, mas ainda o acesso a este tipo de vida, de cultura, a este ideal humano do qual somente a aristocracia havia, de início, usufruído.
educativa” (1979, p. 293) que ajudava na organização das cidades e na manutenção do sistema democrático. Sua influência ajudou na formação do pensamento dos gregos que formavam a polis.
Foi no período Clássico que, segundo André Bonnard (1980), a tragédia destacou-se como ‘um gênero didático’, e alcançou destaque como instrumento para formação do homem que atenderia as necessidades dessa sociedade. Daí o seu papel importante na instrução e na vida do povo devido à influência exercida na condução do pensamento. A tragédia afirmara o seu papel educador, nos dizeres de Aristóteles, ao representar o homem com virtudes morais elevadas: “[...] a tragédia é a imitação de homens melhores” (Arist. Po. 1453b.8), e assim mostrar como deveria ser o comportamento dos cidadãos e legisladores para se manter a organização e a paz da pólis:
[...] o teatro grego adquire historicamente a autoridade de um pedagogo, por levar o público, pela emoção, ao estabelecimento de novas relações, a novas interpretações, a novos esquemas explicativos e uma nova interpretação de si e/ou de suas próprias crenças e costumes (NAGEL, 2006, p. 80).
A preocupação da discussão trágica era fazer o cidadão refletir sobre a necessidade de se buscar a manutenção da ordem social. Do ponto de vista de alguns autores como Bernard Knox, o herói trágico era um ser sábio e crítico: “[...] que possui uma inteligência crítica aguçada” (2002, p. 14), modelo e ideal de virtude na busca do bem comum. Os heróis eram sempre descritos como homens sábios, prudentes, corajosos, honrados, leais, e essas características deveriam aguçar no espectador um sentimento de identidade e cumplicidade com o mesmo: “Ao longo do conflito trágico participamos da luta do herói com um sentimento de admiração e, mais, de estreita fraternidade [...]” (BONNARD, 1980, p. 159).
Nesse viés, pode-se verificar como esses autores supracitados, assim como uma a grande maioria dos pesquisadores de tragédia grega, destacam, quase sempre, a figura social, política e didática do herói mítico nas peças trágicas como seres modelares utilizados pelo poeta para auxiliar no processo formativo do cidadão da polis: “[...] o poeta, nesse momento, consolida-se e consolida sua missão didática, civilizadora”
(NAGEL, 2006, p. 88), visto que eram os tragediógrafos “verdadeiros educadores” e condutores do seu povo: “[...] o poeta é o guardião de uma verdade superior e um educador que conduz o seu povo no sentido de um plano de humanidade mais elevado” (HAUSER, 1990, p. 128).
Apesar de ser influenciada pelos mitos homéricos, a tragédia representava no palco o conflito vivido pelo cidadão da polis na sua totalidade, e não mais a luta individual do herói guerreiro. Assim Jacqueline de Romilly ressalta que a discussão mítica na tragédia, era apenas um pretexto dentro da peça:
[...] embora trazendo à cena dados míticos tirados de Homero ou dos outros poetas posteriores a Homero, elas inseriam quase sempre nesses dados uma presença coletiva: cidadãos, guerreiros, símbolos de todo o grupo pelo qual os heróis são responsáveis e cuja desdita dá maior amplitude às deles (1984, p. 74).
O poeta trágico acabava recriando esses mitos de maneira a encontrar neles virtudes humanas que os aproximassem aos cidadãos da polis: “Estes mitos, e outros, anteriores ao nascimento da tragédia, é dever do poeta interpretá-los e fazê-los em termos de moral humana [...]” (BONNARD, 1980, p. 160). Ao trazer os mitos heroicos para o contexto da cidade-estado e inserir o herói nesta nova estrutura social o poeta acabara por humanizá-lo ao atribuir-lhe características mais humanas do que idealizadas: “[...] representar histórias heroicas tornou-se (entre outras coisas) um modo de refletir sobre as implicações políticas de ordem doméstica” (Redfield apud VERNANT, 1994, p. 153). Ao aproximar esse representante da classe aristocrática (o herói) do cenário cotidiano da cidade, o poeta tem intenção, segundo Jean-Pierre Vernant, mostrar como todos os cidadãos deveriam ser considerados iguais, tendo os mesmo direitos, independentes do setor social do qual fizessem parte:
Antes eram o “orgulho”, a “violência de ânimo” dos ricos que regulavam as relações sociais. [...] Agora são leis escritas que substituem a prova de força em que sempre os fortes triunfam e que impõem sua norma de equidade, sua exigência de equilíbrio (VERNANT, 2002, p. 98).
Desta maneira, o que se pretende é discutir como a tragédia de Sófocles exprimiu, enquanto prática educativa da sociedade grega, as transformações sociais, econômicas e políticas da sociedade nesse momento específico, ao mesmo tempo em que propunha um modelo de homem-cidadão, aquele que deveria viver e participar ativamente da nova estrutura social, a polis. E nesse sentido, abrir uma discussão sobre o papel pedagógico da tragédia que ajude a compreender os embates atuais da educação, visto as contribuições que esse gênero literário oferece em termos de didática
Considerações Finais:
As pesquisas que focam como objeto de estudo as tragédias gregas, geralmente não abordam seus aspectos educativos, haja vista que a preocupação dessas pesquisas está mais voltada para abordagem de análises literárias tendo como base seu aspecto estético, ou análises históricas no qual enfatizam o papel social, político e econômico no qual estão inseridas, ou buscam entender a mesma como um instrumento artístico voltado para os espetáculos cênicos de entretenimento.
No entanto, esse trabalho irá procurar mostrar como Sófocles buscou, com o seu papel de “educador do seu povo”, dar a sua obra não apenas um caráter artístico de entretenimento e ou meramente estético, mas apresentou também uma proposta diferenciada para a formação do homem que deveria fazer parte da sociedade.
Assim, no desenvolvimento do presente trabalho pretende-se fazer uma leitura crítica da tragédia grega a partir das peças de Sófocles, em que se buscará mostrar, a partir das bases materiais, o papel educativo desse gênero literário.
Bem como, defender a tese de que as tragédias de Sófocles, apesar de narrarem os mitos dos heróis, tinham como objetivo exaltar as figuras das suas personagens secundárias, dotando-as de virtudes elevadas – prudência, honradez, sabedoria, coragem, etc, –, as quais deveriam ter o cidadão ideal da polis, enquanto mostra o herói que, apesar de protagonista, tem a importância pormenorizada nas peças, e é apresentado como membro da aristocracia decadente, sempre caracterizado de maneira negativa.
Para esse fim serão utilizados, não apenas as fontes supracitadas de Sófocles, mas também textos, artigos, teses e obras de comentadores e pesquisadores do assunto, além das peças que compõem a obra de Sófocles e de outros poetas trágicos desse momento histórico. Esses comentadores, mesmo tendo fundamentações metodológicas variadas, contribuirão para desenvolver o tema da tese que se pretende defender.
Como já mencionado, tal procedimento não tem por fim uma análise eclética, mas sim explorar suas contribuições informativas sobre a tragédia e seu contexto, possibilitando um aprofundamento do assunto a ser pesquisado. E ainda, ajudar na solução de possíveis dúvidas que poderão surgir no decorrer do trabalho.
O tratamento que se dá às fontes leva em conta o diálogo com o que foi escrito por Sófocles em suas peças e o contexto social em que foram apresentadas. Nesse processo de diálogo, a preocupação é compreender até que ponto o poeta foi influenciado pelas mudanças na sua sociedade e como buscou expressar essas influências em suas peças. E numa contrapartida, desvendar a possível intencionalidade de Sófocles na utilização da dimensão didático-pedagógica da tragédia para propor aos cidadãos da pólis ateniense um modelo de homem a ser seguido, tendo como referencial as personagens secundárias pulsantes em sua obra.
Porém, para isso faz-se necessário abstrair desses textos as preocupações sofoclianas no referente às transformações ocorridas na sociedade grega de seu tempo, promovidas pelo desenvolvimento econômico de setores sociais antes negados, o que propiciou mudanças na estrutura social, no fazer político e nas esferas administrativas da cidade-estado.
Ao mesmo tempo, é importante observar o que foi mantido e o que foi transformado em termos de ideias e conceitos nessa sociedade em transformação. E como o cidadão da polis tentou resolver os conflitos sociais provocados pelo embate entre aristocracia que buscava manter o status quo, apoiada nas antigas tradições e dos setores marginalizados que reivindicavam uma maior participação na polis apoiados na ascensão econômica e social.
Portanto, ao discutir as mudanças que ocorreram nas estruturas da sociedade e nas esferas de comando da cidade-estado, na segunda metade do século V a.C., a preocupação é analisar o teatro, no caso específico, as tragédias sofoclianas, como
“instrumento” utilizado pelas autoridades constituídas para se organizar e manter a ordem social e política na polis.
REFERÊNCIAS
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COULANGES, Fustel de. A cidade antiga: estudos sobre o culto, o direito, as instituições da Grécia e de Roma. Trad: Jonas Camargo Leite e Eduardo Fonseca. São Paulo: HUMES, 1975.
HAUSER, Arnald, História da arte e da literatura. São Paulo: Mestrejou, 1990. JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Herder, 1979. KNOX, Bernard. Édipo em Tebas. Trad. Margarida Goldsztyn. São Paulo: Perspectiva, 2002.
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NAGEL, Lízia Helena. Dançando com os textos gregos: a intimidade da literatura com a educação. Maringá: EDUEM, 2006.
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ROMILLY, Jacqueline de. Fundamentos de literatura grega. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984.
ROSTOVTZEFF, Michael. História da Grécia. 3ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1983.
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. São Paulo: Edusp, 2002. _____ (org.). O homem grego. Trad. Maria Jorge Vilor de Figueiredo. Lisboa: Editorial Presença, 1994.