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Filosofia e Ciências Unesp de Marília -Bolsa: CNPq.

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Academic year: 2021

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CONTEXTO DO USO DE ÁLCOOL E JULGAMENTO SÓCIO-MORAL ENTRE ADOLESCENTES

Luciana Ap. Nogueira da Cruz1

RESUMO: O estudo objetivou identificar características do consumo de álcool e do julgamento sócio-moral de 54 estudantes do ensino médio público. Eles compuseram dois grupos (positivo e negativo) segundo o padrão de beber identificado pelo AUDIT. Elaborou-se quinze questões sobre contexto de uso de álcool investigando as características da experimentação, do beber atual, do beber excessivo e da última experiência com bebida. Na avaliação sobre julgamento sócio-moral investigou-se em que domínios sociais os adolescentes colocam certas condutas, avaliou-se a gravidade dos eventos, categorias de justificação e a jurisdição de autoridade. Os resultados referentes as características do beber mostraram que a média de idade da experimentação é de 13,56 (DP 1,88). A cerveja foi a bebida preferida tanto no início quanto no beber atual. Os adolescentes iniciam o uso de álcool em casas de familiares sob o olhar deles e posteriormente passam a beber em festas com amigos. Entre os adolescentes do grupo dos positivos, 22,7% tiveram um episódio de consumo excessivo nos últimos 30 dias antecedentes a pesquisa; 44% dos estudantes tiveram a última experiência com álcool na última semana que antecedeu a pesquisa. A maioria (38,5%) justificou beber “por costume”, 28,8% “por diversão”, 15,4% “para experimentar ou por influência dos amigos”. Na avaliação sócio-moral os adolescentes (positivos e negativos) consideraram as condutas morais (agredir e furtar), dirigir embriagado e fumar maconha regularmente como as mais graves entre as demais condutas apresentadas pelo instrumento. Porém, não vêem problema em “tomar cinco ou mais doses algumas vezes em finais de semana”. Agressão e dirigir alcoolizado são justificados como erradas em função de causar danos a outras pessoas, mas furtar, divide-se entre causar danos a terceiros e a própria pessoa. Usar maconha e lança perfume foi colocado no domínio pessoal e o cigarro no moral; 28,6% dos positivos colocam o uso de álcool no domínio pessoal e 25% deles no convencional; a maioria dos negativos considera errado beber. Os adolescentes se vêem como responsáveis por legislar o uso de substâncias legais e ilegais, nem a família, a escola, a igreja ou o governo são vistos como autoridades nesse aspecto. Conclui-se que o tanto o hábito de beber quanto os julgamento dos adolescentes com relação ao uso de drogas apresenta características distintas dos adultos. E são essas peculiaridades que possibilitam realizar um trabalho de prevenção e/ou intervenção de maior eficácia.

1[email protected]. Raul Aragão Martins. [email protected]. Faculdade de

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O consumo de substâncias psicoativas (SPA) tem assumido, cada vez mais, papel de destaque na mídia (GAULDURÓZ et al., 2005). Geralmente as notícias associam o uso de SPA a violência. Estudos apontam fortes evidências de relação entre violência e o uso de drogas, principalmente de bebidas alcoólicas (COSTA et al., 2004; GAZAL-CARVALHO, et al, 2002; DUARTE e CARLINI-COTRIM, 2000; MINAYO e DESLANDES, 1998). Não é possível afirmar se o álcool é o agente causador de comportamentos violentos ou se o uso dele em associação com outros fatores é que gera a violência. O fato é que há alta proporção de atos violentos quando há consumo excessivo de álcool ou de outras drogas, pelos agressores e pelas vítimas (MINAYO e DESLANDES, 1998). Mesmo sendo evidente os problemas causados pelo uso de álcool, que é a droga mais consumida na população brasileira, há complacência por parte da sociedade com relação ao seu uso. De um lado há um caloroso discurso contra as drogas ilegais e de outro tanto o álcool quanto o tabaco não são tratados como drogas. Em se tratando especificamente do álcool, já que é a droga de maior identidade entre o público adolescente e jovem, as grandes cervejarias tem como foco de atenção, esse público, pois além de ser mais sensível às propagandas, é também a de consumidores com maior potencial para aumentar o consumo com o passar do tempo.

Considerando os aspectos acima ressaltados, a presente pesquisa aborda questões referentes ao uso de álcool entre estudantes do ensino médio. Este estudo objetivou conhecer o contexto de uso de bebidas alcoólicas entre adolescentes e em que domínios do conhecimento social eles julgam condutas como o uso de álcool.

Método

Participaram 54 estudantes do ensino médio público, que compuseram dois grupos segundo o padrão de beber (positivo e negativo), eles foram previamente selecionados na primeira etapa da pesquisa (levantamento inicial) pelo teste que

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identifica o padrão de beber, o Alcohol use disorders identification test - AUDIT (BABOR., et al. 1992).

O instrumento sobre contexto do uso de álcool é composto por quinze questões abordando os seguintes aspectos: a) características da experimentação: idade, tipo de bebida, companhia e local; b) características do beber atual: tipo de bebida, local, companhia e se bebe quando está só; c) característica do beber excessivo: quando deu-se um episódio de beber excessivo, local e companhia; d) característica da última experiência com bebida: quando aconteceu, em que local, com quem estava e o motivo por ter bebido nessa ocasião (CRUZ e MARTINS, 2006).

A avaliação sobre julgamento sócio-moral investigou em que domínios os adolescentes colocam certas condutas sociais, foi avaliado a gravidade dos eventos, as categorias de justificação e a jurisdição de autoridade. Os questionários sobre a avaliação do julgamento moral foram criados a partir de estudo de Martins (1991, 1995, 1997, 2006), Killen, Leviton e Cahill (1991), Nucci, Guerra e Lee (1991) e de Berkowitz, Guerra e Nucci (1991).

Resultados

Os resultados referentes as características do beber mostraram que a média de idade da experimentação é de 13,56 (DP 1,88) não havendo diferença significativa entre os sexos. A cerveja foi a bebida mais consumida tanto no momento de experimentação (71,2% experimentaram cerveja no primeiro contato com álcool) quanto no beber atual. Entre os negativos, 41% deles preferem outro tipo de bebida alcoólica que não seja a cerveja, eles preferem bebidas destiladas ou doces.

Quanto ao local de consumo, os adolescentes iniciam o consumo de álcool em casa com a família e mais tarde torna-se um hábito social compartilhado com o grupo de pares. Mais da metade dos adolescentes respondeu estar com algum familiar no

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momento da experimentação. Quanto ao beber atual, nenhum dos positivos disse beber em casa com familiares, 39,3% deles bebem em festas, o mesmo número bebe em locais onde vende-se bebidas alcoólicas “livremente” como bailes, bares e lanchonetes. Uma característica singular apresentada nesta pesquisa foi o consumo de bebidas na praça da cidade, 17,9% dos positivos mencionaram a praça como o principal local para beber com os amigos.

Entre os adolescentes do grupo dos positivos, 22,7% tiveram um episódio de consumo excessivo de álcool entre os últimos 30 dias antecedentes a pesquisa. E 44% dos estudantes tiveram a última experiência com álcool na última semana que antecede a pesquisa. Com relação ao motivo que levou a pessoa a beber na última experiência. A maioria (38,5%) justificou beber “por costume” ou hábito, 28,8% por diversão, 15,4% para experimentar ou por influência dos amigos, e 13,5% deram motivos diversos.

Os resultados da avaliação do julgamento sócio-moral, quanto a gravidade dos eventos apontou que ambos os grupos (positivo e negativo) consideram as condutas agredir, furtar, dirigir embriagado e fumar maconha regularmente como as mais graves entre as demais condutas apresentadas pelo instrumento. Além disso, ambos os grupos não vêem problema em “tomar cinco ou mais doses algumas vezes em finais de semana”, colocando esta conduta como a menos grave ao lado de “deixar o quarto desarrumado”. As questões sobre agressão e dirigir alcoolizado são justificadas como erradas em função de causar danos a outras pessoas, mas “Pegar algo sem pagar”, divide-se entre causar danos a terceiros e a própria pessoa. Ao responderem sobre esta última situação, os participantes lembram que podem ser punidos, se descobertos. No uso da maconha e lança perfume, há um predomínio da categoria “Errado, pode causar danos a própria pessoa”, mas com relação ao cigarro os adolescentes atribuem ser “Errado por causar danos a outras pessoas”. Estes dados indicaram que os adolescentes

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têm consciência dos danos que o uso dessas substâncias podem trazer tanto para si quanto para terceiros. As respostas referentes ao uso de bebidas alcoólicas tiveram características próprias, 28,6% dos positivos consideraram certo consumir álcool porque causa dano a própria pessoa e 25% deles porque não há regras. Entre os negativos a maioria considera errado o uso de álcool. As questões dos domínios pessoal (deixar o quarto desarrumado) e convencional (entrar sem pedir licença) deve-se a um maior uso da categoria “Errado, pode causar dano a própria pessoa” entre os integrantes do grupo negativo. Os adolescentes apontam a própria pessoa como responsável pelo uso de substâncias legais e ilegais. Esse dado indica que os adolescentes não vêem os a família, a escola, a igreja ou o governo como autoridades para legislar o uso de SPA.

Cabe dizer que, analisando os dados quanto ao julgamento moral dos estudantes enquanto grupos de bebedores de risco ou excessivos e bebedores moderados ou abstêmios não houve diferença significativa quanto aos julgamentos de ambos os grupos, com exceção dos referentes ao uso de bebidas alcoólicas. Os adolescentes que não bebem ou bebem esporadicamente, julgam o consumo de bebida como uma conduta “errada”, enquanto que os bebedores excessivos não atribuem problema algum nas condutas de beber e dirigir e/ou beber cinco ou mais doses numa única ocasião. Sobre quem os adolescentes acham que deve regular os atos (jurisdição de autoridade), aparece a seqüência de ser a própria pessoa responsável pela realização ou não do evento, seguida de “Governo, via leis”, “Pais” e “Amigos”. Isto quer dizer que a maioria dos adolescentes se vê como único responsável pelos seus próprios atos. Acerca do uso ou não uso de SPA, eles responderam ser eles mesmos quem deveria legislar esta conduta.

Conclui-se que o hábito de beber dos adolescentes apresenta características distintas no início e manutenção do hábito. E tanto essas características quanto os

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julgamentos que possuem referentes a condutas sociais como uso de SPA são peculiaridades que devem ser consideradas na realização de trabalhos voltados para prevenção e/ou intervenção com o público adolescente e jovem.

Referências

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