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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA UFBA

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Academic year: 2021

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FACULDADE DE EDUCAÇÃO – FACED

CURSO DE PEDAGOGIA

LEILA SILVA DE SOUZA

LISTA DE DISCUSSÃO:

NARRATIVAS DIGITAIS DE

PROFESSORES

Salvador

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LEILA SILVA DE SOUZA

LISTA DE DISCUSSÃO:

NARRATIVAS DIGITAIS DE

PROFESSORES

Monografia apresentada ao Colegiado de Pedagogia da Faculdade de Educação - Universidade Federal da Bahia, como requisito para conclusão do Curso de Pedagogia.

Orientador: Edvaldo Souza Couto

Salvador

2010

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AGRADECIMENTOS

São inúmeros o meu muito obrigado. A começar por Deus, que sempre esteve presente na minha vida. Por guiar os meus passos, confortando-me nos momentos difíceis e ajudando-me para realização deste trabalho.

Aos meus pais, José Henrique de Souza e Marizete Silva de Souza, por todo amor e carinho, pelos importantes ensinamentos e apoio incondicional que sempre me deram. Amo vocês.

Ao meu orientador, Edvaldo Souza Couto, pela oportunidade de ser pesquisadora. Muito obrigado pelas orientações, dicas e ensinamentos. Pelas palavras seguras, cortês e amiga.

Ao meu irmão, Lázaro Italvar, a minha avó, minhas primas, enfim, minha família, obrigada por me apoiarem e ajudarem direta e indiretamente para a realização desse sonho.

A Diego, pelo amor e carinho, pela paciência, compreensão e companheirismo nesses últimos meses.

A todos os meus amigos e também aos colegas de curso, muito obrigado por todos os momentos. Pelo companheirismo, carinho e amizade de vocês. Especialmente Ivana, Mariana, Geane e Michele, parceiras nessa jornada.

A Sule, Tânia, Marildes e Adriane, pelo apoio, carinho e amizade.

Aos membros do Grupo de Pesquisa em Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC), muito obrigada a todos. Pelo acolhimento, pela partilha e pelos ensinamentos.

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"bosque é uma metáfora para o texto narrativo, não só para o texto dos contos de fadas, mas para qualquer texto narrativo" [...] "um bosque é um jardim de caminhos que se bifurcam. Mesmo quando não existem num bosque trilhas bem definida, todos podem traçar sua própria trilha, decidindo ir para a esquerda ou para a direita de determinada árvore e, a cada árvore que encontrar, optando por esta ou aquela direção".

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RESUMO:

Em tempos de cibercultura os sujeitos tem se tornado cada vez mais autores, podem narrar suas histórias, trocá-las, socializá-las através de comunidades na internet, blogs, lista de discussão etc. Nesse contexto, o objetivo da pesquisa monográfica foi analisar as narrativas digitais desenvolvidas por professores no Programa de Formação continuada de professores para o Município de Irecê - BA no gênero lista de discussão. Através da investigação do cotidiano da lista de discussão foi buscado compreender e refletir melhor sobre as práticas desses sujeitos nesse gênero emergente, assim como os usos, possibilidades e dinâmicas que emergem com a sua prática. O estudo contou com uma abordagem teórica dos principais autores que investigam as narrativas, as narrativas digitais e os gêneros emergentes da rede. O resultado desse estudo demonstrou a importância das narrativas digitais no processo de formação continuada dos sujeitos, na compreensão e complexidade das transformações da sociedade em rede e na prática docente.

Palavras chaves: Lista de discussão. Narrativa. Narrativa digital. Gêneros

narrativos. Educação e cibercultura.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Estrutura curricular do curso 36

Figura 2 – Layout da página inicial da lista de discussão UFBA-Irecê 40 Figura 3 – Fluxo de mensagens na lista de discussão no ano de 2009 42 Figura 4 – Frequência de narrativas enviadas à lista pelos professores-

cursistas 43

Figura 5 – Usos das narrativas na lista de discussão 45

Figura 6 – Articulação entre equipes 46 Figura 7 – Discussões 47

Figura 8 – Dúvidas 48

Figura 9 – Entrega 49

Figura 10 – Felicitações e apoio 50

Figura 11 – Informes 50

Figura 12 – Outros 51

Figura 13 – Troca de material 52 Figura 14 – Representação da estrutura narrativa na lista de discussão 54

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SUMÁRIO RESUMO 5 LISTA DE FIGURAS 6 INTRODUÇÃO 8 CAPÍTULO I

1 PASSEIO PELAS NARRATIVAS 12

1.1 NARRATIVAS 12

1.2 NARRATIVAS DIGITAIS 16

1.3 CARACTERISTICAS DAS NARRATIVAS DIGITAIS 19

CAPÍTULO II

2 DESDOBRAMENTOS DAS LINGUAGENS 23

2.1 AS LINGUAGENS 23

2.2 WEB 2.0 24

2.3 GÊNEROS NARRATIVOS 26

2.4 OS GÊNEROS NARRATIVOS QUE DESPONTAM NA

SOCIEDADE EM REDE 28

CAPÍTULO III

3 NARRATIVAS DOS PROFESSORES EM FORMAÇÃO 33

3.1 O CONTEXTO DA PESQUISA 33

3.2 A LISTA DE DISCUSSÃO UFBA-IRECÊ 38

3.3 O FUNCIONAMENTO DA LISTA DE DISCUSSÃO 41

3.4 TESSITURAS SOBRE OS USOS E POSSIBILIDADES DA LISTA

DE DISCUSSÃO 44

3.5 A ESTRUTURA DAS NARRATIVAS 53

3.6 CRUZAMENTO DE IDEIAS 56

CONSIDERAÇÕES FINAIS 58

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INTRODUÇÃO

Para narrar o contexto desta monografia é preciso falar das experiências que antecederam este trabalho, e estão intrinsecamente ligadas. Tudo iniciou quando comecei a participar do GEC – Grupo de pesquisa em educação, comunicação e tecnologias, na FACED-UFBA. Fui selecionada para fazer parte do projeto de pesquisa ―Narrativas digitais na formação docente‖, orientada pelo professor Edvaldo Souza Couto. Iniciou assim a minha caminhada como bolsista de iniciação cientifica.

A pesquisa do PIBIC teve inicio em agosto de 2009 e objetivava analisar os usos, as possibilidades e os limites de novos gêneros textuais emergentes nos ambientes virtuais desenvolvidas por professores do Programa de Formação Continuada de Professores do Município de Irecê – Ba1

.

Como bolsista do projeto comecei a pesquisar referências em torno das temáticas que envolvia a pesquisa. O levantamento bibliográfico buscou estudar a Cibercultura e Educação, gêneros narrativos em rede, práticas de leitura e escrita em ambiente digital na formação docente.

A experiência proporcionada pela participação no grupo de pesquisa contribuiu significamente no meu processo formativo e pessoal. O convívio diário com pessoas em diversos graus de formação, desde a graduação ao pós-doutorado, foi e é enriquecedor. Ajudou a desenvolver um olhar mais critico, direcionado e reflexivo. Os estudos priorizaram as temáticas que abarcam as questões da educação articuladas com as TIC – tecnologias da informação e comunicação. Ao final desta experiência percebi que os estudos mereciam um maior aprofundamento devido a inúmeros questionamentos e reflexões a cerca da pesquisa.

Diante das possibilidades que a internet oferece vivemos mudanças significativas nas formas de leitura e escrita permeadas pelas TIC, de forma cada vez mais rápida e constante. Com a crescente popularização das TIC, além do

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aparato técnico, da infra-estrutura, que possibilita a inserção no ambiente computacional e virtual, os educadores enfrentam uma nova realidade a ser considerada: o seu próprio processo de letramento digital e o de seus alunos, para que ultrapassem os limites do individuo alfabetizado tecnologicamente e convertido num consumidor de produtos e idéias e sejam plenamente inseridos na dinâmica da cultura digital, construtores e difusores de saberes, sendo pessoas cultural e economicamente independentes. A plena inserção do indivíduo nesse processo parece se dá, especialmente, pelo desenvolvimento e aperfeiçoamento de novas narrativas digitais. Essas constatações impulsionaram a continuação dos estudos sobre essa temática.

O pressuposto teórico da narrativa foi fundamentado pelo trabalho de Roland Barthes e Gérard Genette, Análise Estrutural da Narrativa. Sobre as narrativas digitais as principais discussões foram em torno da autora Janet Murray, a partir do livro Hamlet no Holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. E também escritos de Nora Paul, que falam dos elementos das narrativas digitais. Relativo às questões da linguagem e do gênero, entre outros autores podemos citar Juan Bordenave, que discute o desenvolvimento da comunicação. Mikhail Bakhtin e Luiz Antônio Marcuschi, que com todo o seu arcabouço teórico discutem sobre gêneros e gêneros digitais respectivamente. Ainda contamos com Pierre Levy, Alex Primo, Nelson Pretto e Edvaldo Couto, para discutir sobre a cibercultura.

O trabalho monográfico teve o objetivo de analisar as narrativas digitais desenvolvidas por professores no Programa de Formação continuada de professores para o Município de Irecê – BA, no gênero lista de discussão. Buscou compreender e refletir melhor sobre as práticas desses sujeitos nesse gênero narrativo, assim como os usos, possibilidades e dinâmicas que emergem com a sua prática.

As principais questões que nortearam a pesquisa foram: 1. O que é narrativa digital?

2. O que caracteriza as narrativas digitais?

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4. Quais práticas narrativas são utilizadas pelos professores cursistas lista de discussão UFBA-Irecê?

Para atingir os objetivos propostos o trabalho foi desenvolvido em duas vertentes: uma refere-se aos estudos de referencias para o embasamento teórico. Durante todo o período da pesquisa foi coletado material que serviu de base e referência para desenrolá-lo das atividades, fundamental para compreensão da temática e o seu estado da arte. A segunda trata-se do trabalho empírico propriamente dito, a coleta e analise do material. Vale ressaltar que essas vertentes não são dissociadas uma da outra.

O lócus do trabalho foi à lista de discussão dos professores-cursistas, como são chamados os sessenta professores que fazem parte do programa. Esses professores fazem parte da segunda turma do curso iniciada em 2008. A primeira turma concluiu o curso em 2007, quando 138 professores foram titulados. Uma nova turma, com 60 professores matriculados, teve inicio em março de 2008. São os professores desta segunda turma que compõem o universo de estudo da monografia.

Durante o mês de novembro de 2009 foi coletado todo o material da análise, para acompanhar as narrativas produzidas pelos professores-cursistas. Na verdade o acompanhamento da lista durou todo o tempo da pesquisa, mas os dados para a análise foram concentrados nesse período específico. A escolha desse mês se deu em função de uma escolha metodológica: não poderia ser no inicio da pesquisa quando não havia possibilidade de análise dos dados devido à carência das leituras. Também não poderia ser após as férias de fim e começo de ano porque nesse período os cursistas não estariam em atividade acadêmicas.

A monografia é constituída por três capítulos. O primeiro intitulado de ―Passeio pelas narrativas‖, discorre sobre o conceito de narrativas. Traz as principais discussões sobre narrativas, desde a antiguidade até se constituir enquanto ciência. Em seguida discute as narrativas digitais, a multiplicidade de denominações e conceituação. Também analisa as características das narrativas no meio digital. O segundo capitulo, ―Desdobramentos das linguagens‖, trata das diferentes linguagens até a web 2.0, para falar de como elas se organizam no ciberespaço. O terceiro é a

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análise dos dados empíricos do trabalho, intitulado ―Narrativas dos professores em formação‖. Inicialmente trazemos o contexto da pesquisa, em seguida focamos a atenção no objeto de pesquisa, as narrativas digitais na lista de discussão. Analisamos a lista de discussão, as narrativas digitais, os usos e as características dos gêneros narrativos utilizados pelos professores.

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1. PASSEIO PELAS NARRATIVAS

Na tentativa de conceituar o que são narrativas digitais, este capítulo se propõe inicialmente a definir o que é narrativa. Apresenta à narrativa enquanto ciência, narratologia e define as narrativas digitais e suas características apresentadas no ciberespaço.

1.1 NARRATIVAS

De acordo com o ―Online Etimology Dictionary” 2 narrativa é uma palavra

originária do latim (narrare, narratum e narro), que por sua vez decorre do termo

gnarus e significa conhecimento. Essa primeira conceituação demonstra a estreita

relação entre o conhecimento e a narrativa. Para o dicionário Michaelis3, narrativa significa narração; modo de narrar; conto, história. Mas o que é narração? De acordo com este dicionário, narração é ato ou efeito de narrar; conto, descrição, discurso, narrativa; exposição verbal ou escrita de um ou mais fatos; parte do discurso em que o orador divide e desenvolve o assunto.

Para Barthes (1971, p. 19), narrativa é a representação de um acontecimento, real ou fictício, por meio da linguagem. De maneira geral, narrativa é compreendida como sendo o ato ou forma de contar algo. Essa é uma prática rotineira em nosso cotidiano, já que desde o momento em que nos inserimos em uma determinada comunidade passamos a ouvir e depois a contar histórias. Inicialmente, são as nossas famílias que nos contam histórias, algumas são familiares, passadas por parentes que também narram outras histórias com personagens, ficções, contos e até sonhos e depois as histórias passam a nos cercar com todos os que nos rodeiam. As narrativas fazem parte do nosso cotidiano, em alguns momentos ouvimos e em outros contamos histórias, também lemos, assistimos e até imaginamos histórias.

Assim, a narrativa é o ato de contar historias. Porém, segundo Genette (1971, p.255), esta seria uma forma evidente e simplista de concepção da narrativa.

2Disponível em: WWW.etimology.com. Acesso em: 10 de agosto de 2010 3

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Definir positivamente a narrativa é acreditar, talvez perigosamente, na idéia ou no sentimento de que a narrativa é evidente, de que nada é mais natural do que contar uma historia ou arrumar um conjunto de ações em um mito, conto, uma epopéia, um romance.

Pensar a narrativa apenas como a representação de fatos ou acontecimentos seria uma maneira ingênua de entendimento, pois além de uma visão reducionista, permite que se abram espaços que fazem com que se percam as outras possibilidades e experiências. A narrativa fica reduzida dessa forma a uma coisa concreta, ou seja, estática. Dentro de um mundo que está em constante movimento esta concepção parece contraditória.

Pode-se dizer que desde o surgimento da historia da humanidade as narrativas são sustentadas pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas estas substâncias e até pelo próprio pensamento (BARTHES, 1971, p.19). A linguagem é uma propriedade específica da espécie humana, ela é um aparato cognitivo, as suas práticas nos precedem como seres de linguagem, ela é o elemento constituinte da narrativa. Sendo assim, a narrativa está presente em todos os tempos e lugares. Significa dizer que não importa que tipo de sociedade, cultura ou época, a narrativa está presente entre os homens. Inicia-se com a própria história da humanidade e pode ser encontrado como mito, fábula, conto, romance, histórias em quadrinho etc.

Sob essa ótica, vemos a necessidade do homem em transpor a realidade, em se expressar, em criar e em relatar. O desenvolvimento da escrita foi um marco, inicialmente por pictograma (sinal representando uma imagem), como nas pinturas rupestres, depois se desenvolveu o ideograma (símbolos representando ideias) como os hieróglifos, até chegar a escrita que conhecemos hoje. As narrativas têm acompanhado todas as transformações lingüísticas ao longo da historia.

Vale mencionar que assim como surgiram os símbolos, signos e códigos, surgiram também os seus intérpretes – os narradores. Estes assumem o papel de decifrar os códigos, contar e recontar para um ou mais ouvintes. Para Barthes (1971, p.47) a narrativa, como objeto, é alvo de uma comunicação; há um doador da narrativa, há um destinatário da narrativa. Em um comparativo é o equivalente a uma mensagem, em que há o remetente (quem envia a mensagem) e o destinatário

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(o receptor). Tanto o emissor quanto o receptor fazem-se valer de suas experiências na hora de enviar ou receber uma mensagem, pois o ser humano utiliza-se da sua capacidade cognitiva de armazenar, criar e articular as ideias.

Desde a antiguidade as narrativas já eram tema de estudos. Platão foi o primeiro a levantar a discussão no 3° livro ―A República”, onde discute o modo narrativo. Já Aristóteles, em Poética, repete a posição de Platão. Os dois filósofos acreditam que a narrativa (diegesis) é um dos dois modos da imitação poética (mimesis), o outro sendo a representação direta dos acontecimentos por atores falando e agindo diante do público (GENETTE, 1971, p.256). A narrativa como ato de relatar, e a imitação como a representação do ato, como em um teatro. É nesse momento que fica instaurada a diferença entre poesia narrativa e poesia dramática. Porém há duas diferenças em ―A República”; Sócrates não considera a qualidade da imitação, por outro lado considera tudo o que o poeta narra. É nesse contexto de oposição entre o modo narrativo e o modo dramático que surge a classificação dos gêneros, de um lado a narrativa pura (diegesis) e do outro a imitação (mimesis). Surge também uma mistura dos dois gêneros, chamado de epopéia.

Após os filósofos Platão e Aristóteles, o abade Bérardier4 de Bataut na obra ―Éssai sur le récit”, ou “Entretiens sur la manière de raconter”, (1776), traz uma grande contribuição ao definir narrativa pelo seu conteúdo (exposição pormenorizada de um fato verdadeiro ou inventado) e pela sua finalidade (instruir os SUS leitores ou ouvintes), ou seja, como uma função didática à narrativa. Esse trabalho contribuiu para os estudos da narrativa, considerando o contexto histórico que se encontrava. Outro trabalho que repercutiu a temática foi o do russo Vladimir Propp, “Morfologia dos contos maravilhosos”, de 1928. Teve também a publicação da revista ―Communications”, cujo tema era a análise estrutural da narrativa, em 1966, na França. A obra só foi traduzida para o português em 1971.

Outros autores como Todorov, Genette e Barthes, em perspectivas diferentes sobre a narrativa, impulsionaram o reconhecimento da narrativa como uma ciência chamada de narratologia. A narratologia se dedica ao estudo das múltiplas formas de narrativa e dos muitos pontos de vista: histórico, psicológico, sociológico,

4 Disponível em: http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=67&Itemid=2

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filosófico, religioso, estético, tecnológico. Desse modo as narrativas enquanto campo de estudo ganha uma perspectiva multidisciplinar, o que não era possível quando limitado à análise textual.

Pode-se dizer que a narratologia é uma área nova de estudo e seu interesse supera as questões retóricas e didáticas dos primeiros estudos da narrativa. Sobre narratologia Motta (2005, p.2) fala que é:

[...] um campo e um método de analise das práticas culturais. [...] é um ramo das ciências humanas que estuda os sistemas narrativos no seio das sociedades. Dedica-se ao estudo das relações humanas que produzem sentidos através de expressões narrativas, sejam elas factuais (jornalismo, historia, biografias) ou ficcionais (contos, filmes, telenovelas, videoclipes, historias em quadrinho). Procura entender como os sujeitos sociais constroem os seus significados através da apreensão, compreensão e expressão narrativa da realidade.

Para o autor, a narratologia não se reduz ao ramo da ficção ou da teoria literária, essa seria uma teoria interpretativa da cultura, sendo assim, ela passa pelas formas como compreendemos o mundo e nós mesmos, como percebemos o nosso cotidiano e como ele é marcado pelas próprias narrativas. O contar é a ordem do discurso. Todas as produções do ser humano estão inclusas nessa prática, relatadas em sucessões de fatos. Isso marca como nossos diálogos frequentemente são relatos, são histórias criadas, argumentos para a realização de algo. As falas e histórias revelam quão complexa são as relações estabelecidas entre os indivíduos, assim como com o próprio meio em que estão inseridos.

A partir desse entendimento nos damos conta de que as narrativas não são apenas nem principalmente puras representações da realidade, mas uma forma de organizar nossas ações em função de estratégias culturais em contexto. As narrativas e narrações são dispositivos discursivos que utilizamos socialmente, em contexto, de acordo com nossas pretensões. Narrativas e narrações são forma de exercício de poder e de hegemonia nos distintos lugares e situações de comunicação. (MOTTA, 2005, p.3)

De acordo com o autor, as narrativas fazem parte dos jogos de linguagem, não são meros relatos, mas ações concretas social e culturalmente. São práticas sociais referenciadas a um contexto a um momento histórico, que exerce influências. Assim como nenhuma informação é ingênua, nenhuma mensagem ou narrativa é. Toda narrativa possui intencionalidades e significados. Enquanto produtora de sentidos,

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de significações, ela influencia e é influenciável. Nessa perspectiva, a narrativa ganha uma posição de centralidade subjetiva nas práticas humanas, na tentativa de ser capaz de transpor a realidade física e cultural do ser humano.

Tendo em vista que as práticas sociais na atualidade são permeadas pelas TIC, vamos falar no próximo tópico sobre as narrativas nesse contexto. Iremos chamar as narrativas praticadas nas mídias e com elas de narrativas digitais. Será abordada no tópico seguinte a conceituação e compreensão das narrativas digitais, na perspectiva de alguns autores que estudam essa temática.

1.2 NARRATIVAS DIGITAIS

No contexto atual, as narrativas têm se reconfigurado diante dos avanços tecnológicos e ganham novas dimensões com as TIC. Independente do meio em que a mensagem é transmitida, desde as mais primitivas pinturas rupestres, a forma oral passada de geração para geração, as diversas formas impressas do papiro aos livros e jornais, nas diferentes mídias da atualidade, do rádio, da televisão às mídias digitais, elas são práticas sociais repletas de sentidos. Segundo Leão (2004, p.165), ―Essa arte compartilha as características das tecnologias empregadas, bem como espírito da época‖. Essas narrativas diversas demonstram uma prática social que acompanha o contexto cultural e educacional, tanto espacial quanto temporal. Ao pensar na nossa experiência, o contexto espacial e temporal refere-se ao ciberespaço e podemos considerá-lo como uma rede dinâmica composta por pessoas e grupos, ambientes cíbridos5.

As novas mídias se caracterizam pelo seu hibridismo, capacidade de unir diversos suportes (imagem, áudio, vídeo, texto). Dentro desse contexto surgem formatos outros de se contar histórias, numa associação desses diversos suportes para a produção das mensagens. Nesse universo de pluralidades surgem as narrativas digitais ou narrativas interativas, formas de contar histórias e de

5 Termo utilizado pela autora Lúcia Leão para caracterizar ambientes que interagem simultaneamente o real e o virtual.

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comunicação através das hipermídias. Nesse espaço as narrativas continuam a se reinventar a partir das tecnologias contemporâneas, mantendo ainda consigo o desejo de conhecer e a fabricação de sentidos.

Segundo Murray (2003, p.9), as histórias participativas envolvem de maneira diferente daquelas que assistimos ou ouvimos. Elas possibilitam interferir no desenrolar dos acontecimentos. As pessoas deixam de ser meras observadoras mesmo que a narrativa seja um faz-de-conta, e passam a exercer uma participação ativa nos desdobramentos da historia. Esse tipo de participação nas narrativas só é permitido nos meios digitais, pois oferece ao interator, indivíduo que interage com a narrativa, a percepção de múltiplos destinos, múltiplos pontos de vista, múltiplos resultados possíveis a partir de uma mesma situação. A autora reforça a idéia das narrativas enquanto uma prática cotidiana. Em seus estudos, enfatiza sobre as potencialidades dessa prática, a partir das mídias digitais, reconhecendo nesse um novo meio de expressão que significa apenas um aumento nas habilidades de contar história em um novo suporte. As mídias digitais permitem histórias multissequenciais, ou seja, histórias que são construídas pelo leito-autor que podem fazer seus próprios caminhos pelo hipertexto. Esse tipo de história pode ajudar-nos a perceber causas complexas de acontecimentos complexos, assim como a imaginar diferentes desfechos para uma mesma situação.

Elas nos permitem exercitar maneiras de ser no mundo que vão além daquelas que vivemos diariamente em nosso ambiente imediato. A arte narrativa baseada em formatos procedimentais, participativos, enciclopédicos e espaciais pode incrementar nosso repertorio de ações, alargar os modelos pelos quais apreendemos e interpretamos o mundo, transformar os modos com que pensamos uns nos outros e como nos tratamos mutuamente. (MURRAY,2003;10)

As narrativas interativas permitem estender as práticas cotidianas em simulações computacionais, comportam experienciar novas vivências nesses ambientes e assim perceber questões subjetivas e comportamentais do sujeito. Diversas formas de representar cabem melhor em espaços hipermidiáticos do que na forma impressa, a forma de compreensão do que é dito é mais eficaz nesses ambientes, pois explora o universo representativo com o mundo real.

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Atendo-se ainda à compreensão das narrativas digitais, outros autores além dos já citados, discutem a temática. Meadows6 define as narrativas interativas como uma representação de personagens e ações baseadas no tempo, em que o leitor pode afetar, fazer escolhas e modificar o enredo. Percebe-se que existe um ponto de interseção entre os dois autores, pois compreendem a influência exercida pelo leitor sobre a narrativa digital, em que ele tem a autonomia do direcionamento dado à ação exercida na historia. Essa facilidade permitida através da internet é o que potencializa que as pessoas sejam autores e leitores ao mesmo tempo, isso equivale também ao inverso. Os leitores-autores constroem o seu percurso a partir de links, que ligam as narrativas a outros arquivos em uma hipertextualidade.

O hipertexto faz dos leitores guias próprios da história que deseja seguir e/ou construir, dá independência aos sujeitos do caminho que irá acompanhar característica essa da não-linearidade que trata em suas produções. Outros autores que também discutem as narrativas e os seus movimentos dizem que as transformações com as TIC ocorrem cada vez mais rápido, com isso hoje já se fala em digital storytelling ou hyperstories que são narrativas de histórias com a utilização de um mix de elementos digitais: o som, a imagem, o texto, as imagens em movimento e outros disponibilizados em web sites (Braga et al, 2006).

Para Jenkins (2008, p. 135) as histórias ou narrativas transmidiáticas se desenrolam em múltiplos suportes midiáticos, com cada novo texto contribuindo de maneira distinta e valiosa para todos. O que significa dizer que são histórias partidas em várias mídias, ou seja, a mesma história acontece paralelamente em diversas mídias, com situações e desfechos independentes. É a mesma história, em várias mídias, mas que não dependem uma da outra, elas se complementa. As diferentes mídias irão contribuir para o melhor entendimento da narrativa lida, aspectos existentes em uma mídia que não ficaram evidentes na outra podem ser elucidadas. Para que isso aconteça à iniciativa deve partir do próprio leitor, pois a liberdade de escolha parte do sujeito, assim como parte dele interagir ou não com a narrativa.

Perante esses diversos pontos de vista, compreendo as narrativas digitais como práticas sociais produzidas pelo ser humano, ao qual o principio organizador

6Disponível em: http://sridc.wordpress.com/2007/11/27/narrativas-interactivas/. Acesso em: 9 de setembro de 2010.

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do discurso é o uso de diferentes linguagens, mídias, tecnologias, caracterizada pela sua transmutação e hibridismo, pela sua interatividade e hipertextualidade, produtora de sentidos e significados.

Diante de tudo isso, pode-se perceber entre o diálogo desses autores que suas ideias se convergem. As concepções existentes sobre as narrativas digitais se aproximam, tendo vários pontos de confluências, apesar de adotarem nomenclaturas diferentes. O ponto principal entre os estudiosos refere-se à rede de informações nos espaços digitais e as múltiplas direções que podem ser tomadas, tendo como determinação o próprio leitor, o que significa o exercício da hipertextualidade, da não-linearidade. O que acarreta para o sujeito a necessidade de interação (ões) com as mídias em diversos formatos (texto, imagem, áudio, vídeo, jogo, etc), com o conteúdo e com as diversas pessoas que estão envolvidas nesse meio.

1.3 CARACTERISTICAS DAS NARRATIVAS DIGITAIS

Uma narrativa é composta de vários elementos. Para vias de regras, as narrativas possuem como marca a temporalidade e a espacialidade, o cronotopo. Há uma ordem, uma sequência de ações e uma ordem cronológica. Dessa forma, elas são colocadas em uma ordem e perspectiva, em uma sucessão de fatos capaz de dar significados ao discurso proferido pelo narrador. Segundo Machado (2002, p. 78), embora o conceito de cronotopo não tenha sido formulado para definir as relações de espaço-tempo na narrativa, trata-se de reconhecer que no ciberespaço ele envolve todo o ambiente e, consequentemente, as várias formações discursivas, não apenas literárias. Nesse sentido, todo o processo comunicativo passa a ser considerado.

Faz-se necessário destacar que quando se fala em ordem, essa não necessariamente é feita de forma linear, principalmente quando se trata das narrativas midiáticas. Nas narrativas midiáticas se destacam as possibilidades de leitura e de escrita em uma perspectiva multidirecional, em que os caminhos não são lineares, mas produzidos por cada leitor-autor a partir de hipertexto.

O hipertexto é uma forma de indexação e organização das informações [...] constitui-se a partir da retomada e transformação de elementos de outras mídias – índice, referências cruzadas, sumário, legendas -, estando nele

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inclusa a dimensão audiovisual – palavras, imagens, gráficos, sons, movimento. Estes elementos, associados, dão ao documento um aspecto dinâmico e de multimídia. (BONILLA, 200, p.183)

Com o uso das TIC, o fluxo de conteúdo existente na internet potencializa o hipertexto, a diversidade de rumos de navegação que o leitor tem possibilidade torna o ambiente digital muito propício, a esse modo articulado e complexo de leitura e escrita. Além dessa característica, é necessário considerar outras que advêm do próprio ambiente digital.

No trabalho de Murray (2003, p.78), ela distinguiu algumas propriedades essenciais do ambiente digital, os quais se tornam um poderoso veículo para a criação literária. As propriedades são: procedimentais, participativos, espaciais e enciclopédicos. As duas primeiras a autora refere que correspondem, em grande parte, ao termo interativo utilizado por ela. As outras duas satisfazem a fazer das criações digitais parecerem tão exploráveis e extensas, como quando dizemos que o ciberespaço é imersivo.

Sobre a primeira propriedade, Murray diz que narrativa digital somente é contada a partir de regras claramente definidas e reconhecidas. A autora também utiliza o termo autoria procedimental, para falar das escritas nos meios eletrônicos.

Significa escrever as regras pelas quais os textos aparecem tanto quanto escrever os próprios textos. Significa escrever as regras para o envolvimento do interator, isto é, as condições sob as quais as coisas acontecerão em respostas às ações dos participantes. Significa estabelecer as propriedades dos objetos e dos potenciais objetos no mundo virtual bem como as formulas como eles se relacionarão uns com os outros. (MURRAY, 2003, p. 149)

Na narrativa digital o autor procedimental é quem define a direção, o ritmo, o contexto e os passos que serão executados, independente do papel do interator. Seja ele apenas um navegador, um explorador, um construtor ou protagonista da narrativa. Mas do que regras, o ambiente procedimental torna-se atraente por exibir comportamentos gerados pelas regras e também por induzir esses comportamentos. É uma reação as informações assimiladas por eles. Isso é o que quer dizer ao falar que os computadores são interativos. Para Murray significa dizer que eles criam um

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ambiente que é tanto procedimental quanto participativo. A participação é a capacidade de diálogo entre o interator e a narrativa digital.

No que tange a questão espacial, refere-se à possibilidade de movimento no ambiente digital, já que na narrativa digital não existe uma linearidade; o interator faz o seu próprio caminho. Num emaranhado de conexões, tem-se uma grande teia mundial disponível para o interator fazer as suas próprias escolhas.

Por fim, a propriedade enciclopédica, capacidade de armazenamento, recuperação e processamento de informações por meio do computador, sendo assim, uma biblioteca global acessível em qualquer lugar.

Diante das múltiplas abordagens do termo narrativa digital e das suas variações, Nora Paul, criou uma taxonomia a fim de classificar as narrativas na web. De acordo com a autora, existem cinco elementos atribuídos às narrativas digitais: 1- Mídia; 2- Ação; 3 – Contexto; 4 – Comunicação; 5 - Relacionamento. Segundo ela, a maior parte deles são elementos herdados de outras mídias, mas a sua combinação permite novas possibilidades narrativas.

1 – Mídia - refere-se ao tipo de expressão utilizada na criação e suporte da narrativa, possui quatro aspectos importantes: o tipo da mídia utilizada para criar as narrativas, a configuração ou combinação de mídias utilizadas, o ritmo que ocorre, se é de forma síncrona – acontece em tempo real, ou assíncrona – não acontece em tempo real, e, por fim, a edição que pode existir ou não.

2 – Ação - versa sobre o movimento do próprio conteúdo e a ação requerida pelo interator para acessar o conteúdo. Se o conteúdo se mover ele é dinâmico, caso contrário, ele será estático. Também solicitam diferentes modelos de ação. As pessoas podem agir de forma ativa, passiva ou mista. Lembra a propriedade participação desenvolvida por Murray, por estabelecer a relação entre a narrativa e o interator.

3 – Relacionamento - interação entre o usuário e as narrativas digitais. Se a interação com o conteúdo não ficar limitado a ler/ assistir/ ouvir historia, refere-se a um conteúdo aberto, caso contrário, o conteúdo é fechado. Apesar de o elemento

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ação aproximar-se da propriedade participação, ela não é a única. Relacionamento também está intimamente ligada com a ela, pela interatividade com a informação e conhecimento permitida por esse elemento.

4 – Contexto – ―Aquilo que circunda e dá sentido a alguma coisa‖ (PAUL, 2010, p.125), ou seja, são conteúdos adicionais que completam a narrativa digital. Fornece a propriedade enciclopédica, pontuada por Murray.

5 – Comunicação - capacidade de se conectar a outras pessoas e conteúdos por ambiente digital, que pode ocorrer de uma mídia de massa para uma espaço de comunicação de um-a-um, ou um-para-vários ou vários-para-um. Isso caracteriza a propriedade espacial produzida por Murray, não pela capacidade de movimento e não-linearidade do ciberespaço, mas pelo fluxo de interação que a internet permite.

O que se percebe é que o trabalho de Paul e Murray possui pontos incomuns, pela tentativa das duas autoras estabelecerem elementos para caracterizar as narrativas digitais. Paul realiza um detalhamento mais minucioso para caracterizar as narrativas, isso decorre do objetivo do seu trabalho que era o de estudar as cibernarrativas. É preciso considerar também que o seu trabalho é posterior ao de Murray, e que por isso sofreu algum tipo de influência deste estudo.

Para compreender as narrativas no contexto da cultura digital, após o que foi apresentado, faz-se necessário examinar os gêneros que emergem dessa cultura. O próximo capitulo abordara esses gêneros, por considerar relevante as diferentes linguagens e as transformações acarretadas com os avanços tecnológicos no processo de leitura/escrita.

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2. DESDOBRAMENTOS DAS LINGUAGENS

Neste capítulo falaremos sobre as diferentes linguagens e como elas se organizam no ciberespaço. Partimos da concepção de linguagem como forma de comunicação, desde os tempos remotos até a introdução da web 2.0. São discutidos os gêneros narrativos nesse processo evolutivo e transitório de linguagens e suportes, e a análise se concentrou nas maneiras como eles se configuram e organizam na cultura digital.

2.1 AS LINGUAGENS

O homem não vive em um mundo isolado. Na sua constituição ele é um animal social. Por ser social ele compartilha experiências, vivências, sentimentos e emoções. Essas trocas só são permitidas devido a sua capacidade de interpretar os estímulos externos provenientes do meio, e transmitir isso para outras gerações, para as outras pessoas com quem mantém relações de interdependência. Para que haja essa socialização, o ser humano utiliza-se da comunicação para interagir com o outro. Necessidade essa que fez com que o homem desde tempos remotos desenvolvem-se formas de comunicar-se com os seus semelhantes.

A comunicação acontece de diversas formas. Através dela aprendemos a nossa cultura, os modos de vida, nos constituímos enquanto sujeitos membros de uma sociedade. Nos gestos, nos signos, nos símbolos, na língua, nos meios eletrônicos, nas tecnologias, nas conversas, tudo é comunicação. Para Bordenave (1997, p.16) a comunicação não existe por si mesmo, como algo separado da vida da sociedade. Sociedade e comunicação é uma coisa só.

Todos os signos, símbolos e linguagens produzidos pelo homem foram se desenvolvendo a fim de acompanhar o contexto social em que se encontravam e as suas necessidades. Não existe uma precisão do inicio da comunicação humana, não

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se sabe quando ou como os primitivos começaram a se comunicar, supõe-se que foi a partir de sons produzidos pela boca e com o corpo, e também por meio de objetos como pedras. Ao associar certo tipo de som ou gesto a um objeto ou ação o homem cria assim os signos, o qual reconhece que ao criá-los atribuiu-lhes significados, o que o torna a base da comunicação em geral e da linguagem em particular (BORDENAVE, 1997, p.24).

Ao criar a linguagem o homem amplia o seu repertório de comunicação, tem com a linguagem oral a primeira forma organizada de se comunicar, concomitantemente ou não com a linguagem gestual. Porém esse tipo de linguagem não possui estabilidade na sua continuação e abrangência. Foi preciso promover o surgimento da primeira forma escrita, as pinturas rupestres, em seguida os pictogramas, os hieróglifos, os ideogramas e os fonemas. Todas essas formas possibilitaram a conservação da cultura humana.

Da mesma forma que ocorreu a evolução da linguagem, os meios de comunicação também se desenvolveram. Desde os pictogramas até a fonética, do papiro até o papel, com o surgimento da tipografia até as impressoras computadorizadas, desde a pintura até a fotografia, do cinema mudo ao cinema em 3D, do telégrafo, do telefone, dos rádios, da televisão, do satélite, do computador, da internet às tecnologias móveis atualmente, todas essas novas maneiras de comunicação são também renovadas formas de linguagens. Essas linguagens ao longo dos anos sofreram transformação, criaram estruturas, modelos e formas de uso e na atualidade tem como grande característica a interação e integração permitida pela web 2.0, que modifica toda a relação da comunicação e linguagem dos sujeitos.

2.2 WEB 2.0

A web 2.0 deriva do World Wide Web ou Web 1.0, as duas trazem alterações significativas no modo das pessoas se relacionarem entre si e com o conhecimento. Desde o surgimento da Web 1.0 na década de 90, ela que era pensada para ser um depósito de conhecimentos produzidos pela humanidade, que permitisse

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colaboradores em locais distintos partilhassem seus pontos de vista e todos os aspectos de um projeto comum. Porém no seu inicio a ―interação‖ era limitada e às páginas eram estáticas.

Para sustentar as ideias e as transformações ocorridas na web, O‘Reilly, em 2005, escreveu o artigo ―What is web?” com várias reflexões sobre esse fenômeno. Neste trabalho ele usou pela primeira vez o termo web 2.0, para a segunda geração de serviços on line. A web 2.0 traz como característica a potencialização das formas de publicação, compartilhamento e organização de informações, além de ampliar os espaços para interação entre os participantes do processo (PRIMO, 2006).

Com a Web 2.0 as informações já não são mais transmitidas em uma via de mão única. Existe um nó de interseção no qual uma rede se constrói, por onde todas as informações perpassam. Nessa rede a comunicação agora acontece de um para muitos, de muitos para muitos, na chamada inteligência coletiva. A relação de um interator passivo já não atende mais nesse espaço, ao mesmo tempo em que ele usufrui, também colabora. Como indica Levy (1999, p.172)

[...] o uso crescente das tecnologias digitais e das redes de comunicação interativa acompanha e amplifica uma mutação na relação com o saber. Ao prolongar determinadas capacidades cognitivas humanas (memória, imaginação, percepção), as tecnologias intelectuais com suporte digital redefinem seu alcance. E algumas vezes até mesmo sua natureza. As novas possibilidades e criação coletiva distribuída, aprendizagem cooperativa e colaboração em rede oferecida pelo ciberespaço colocam novamente em questão o funcionamento as instituições e os modos habituais de divisão do trabalho, tanto na empresa como nas escolas.

A web 2.0 passa a ser considerada como um ambiente no qual tudo pode ser publicado, todas as informações podem ser facilmente encontradas e qualquer pessoa pode publicar. ―Nesse sentido, este ambiente comunicacional emerge com a potência que comporta o discurso democrático em sua gênese‖ (COUTO et al, 2008, p. 112). Nessa lógica, não existe mais centralidade na geração e emissão de conteúdos, todos passam a ser um potencial emissor. A web 2.0 potencializou, por meio dessa prática de difusão dos saberes, a proliferação de diferentes gêneros narrativos.

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2.3 GÊNEROS NARRATIVOS

O termo gênero quando criado na antiguidade denunciava a preocupação ou interesse em classificar os textos de acordo com as suas diferenças e especificidades. Platão e Aristóteles foram os primeiros a definir e utilizar o termo, gênero. Os filósofos apontavam as características dos gêneros para distingui-los entre aos modos de enunciação: imitação ou representação da realidade. Eram escritos de acepção restritamente literária, que admitia três formas inalteráveis de enunciado, as quais correspondiam ao lírico, ao épico e ao dramático.

Os gêneros literários e a sua tríade muito foram estudados, mas somente com Bakhtin ganharam a vertente atual. Em uma perspectiva lingüística, o estudioso aborda os gêneros numa concepção dialógica.

[...] tanto na antiguidade como na época contemporânea, sempre foram estudados pelo ângulo artístico-literário de sua especificidade, das distinções diferenciais intergenéricas (nos limites da literatura), e não enquanto tipos particulares de enunciados que se diferenciam de outros tipos de enunciados, com os quais, contudo tem em comum a natureza verbal (lingüística). (BAKHTIN, 1997, p.280)

Para o autor, a grande dificuldade é que nunca foi levado em conta o problema de lingüística geral do enunciado e dos diferentes tipos de enunciados, ou seja, eles nunca foram considerados em uma visão sócio-histórica. Ainda na antiguidade, para além dos gêneros literários, que enfatizam os aspectos artístico-literários, surgem também os gêneros retóricos (jurídicos políticos). Estes têm como premissa a organização do enunciado, dando maior atenção à natureza verbal do enunciado (BAKHTIN, 1997, p.280).

Outra abordagem estudada sobre gêneros trata dos gêneros do discurso cotidiano, principalmente a réplica do diálogo coloquial. O que significa uma exaltação do discurso de hábito oral, fundamentado pela lingüística geral da escola de Saussure e seus sucessores mais recentes. O importante é diferenciar o gênero

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do discurso primário (simples) e o gênero do discurso secundário (complexo), pois só dessa forma a análise dará conta da complexidade do enunciado e dos seus aspectos essenciais.

Os gêneros secundários do discurso — o romance, o teatro, o discurso científico, o discurso ideológico, etc. - aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural, mais complexa e relativamente mais evoluída, principalmente escrita: artística, científica, sociopolítica. Durante o processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários (simples) de todas as espécies, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea. Os gêneros primários, ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transformam-se dentro destes e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade existente e com a realidade dos enunciados alheios (BAKHTIN, 1997, p.281)

O enunciado necessita ser visto de maneira ampla, numa apreciação de ambos os gêneros, na sua inter-relação, porque de um lado tem-se a perspectiva de suas propriedades, da sua natureza e do outro o seu processo histórico. Esses não devem ser dissociados. Qualquer que seja o estudo sobre a natureza dos gêneros do enunciado, estes perpassarão pelas diferentes esferas da sociedade e da comunicação. O que equivale à afirmação de que a língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam (BAKHTIN, 1997, p.282), ou seja, é através da oralidade e da escrita que a língua se introduz na vida.

Pensar nos gêneros no contexto das tecnologias digitais é considerar as suas propriedades de enunciado, mas também analisar o seu contexto histórico e suas transmutações. Sendo assim, a língua é marcada em cada época pelo gênero do discurso, o que equivale não apenas aos gêneros secundários (literários, científicos, ideológicos), mas também os gêneros primários (os tipos do diálogo oral: linguagem das reuniões sociais, dos círculos, linguagem familiar, cotidiana, linguagem sociopolítica, filosófica, etc.).

Na sociedade da informação há uma reestruturação e renovação dos gêneros do discurso, pois o avanço tecnológico amplia os tipos de linguagens. Com isso são levados em consideração também as diversas mídias, o que equivale o áudio, o vídeo, as imagens, o próprio texto e todas as mídias digitais e as suas hibridizações. São marcas da vida atual, da sociedade em rede.

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2.4 OS GÊNEROS NARRATIVOS QUE DESPONTAM NA SOCIEDADE EM REDE

A comunicação é constituinte do homem em sociedade. As formas de comunicação foram transformando-se com os avanços científicos e tecnológicos, produzidos pelo homem. Essa evolução, segundo McLuhan, foi dividida em três grandes períodos, culturas ou galáxias. A primeira trata-se da cultura oral ou acústica, a segunda tipográfica ou visual e a terceira que é a cultura eletrônica. Essa ultima considerada ainda hoje pela sua velocidade e instantaneidade, principalmente após o advento da internet, e em especifico da Web 2.0. O comunicar-se por estes meios estabelece uma nova relação dos gêneros do discurso.

Se tomarmos o gênero como texto situado histórica e socialmente, culturalmente sensível, recorrente, ‗relativamente estáveis‘ do ponto de vista estilístico e composicional, segundo a visão bakhtiniana (Bakhtin, 1979), servindo como instrumento comunicativo com propósitos específicos (Swales, 1990) e como forma de ação social (Miller, 1984), é fácil perceber que um novo meio tecnológico, na medida em que interfere nessas condições, deve também interferir na natureza do gênero produzido. (MARCHUSI, 2005, p.17)

Para o autor esse fato é revelador porque demonstra que os gêneros surgem, situam-se e integram-se funcionalmente nas culturas em que se desenvolvem. Essa característica transparece o quanto as questões comunicativas, cognitivas e institucionais são mais relevantes para os gêneros do que suas marcas lingüísticas e estruturais.

Ainda na perspectiva de um elemento social e cultural, Bazerman (2005, p.31) compreende os gêneros como

Fenômenos de reconhecimento psicossocial que são parte do processo de atividades socialmente organizadas. Gêneros são tão somente os tipos que as pessoas reconhecem como sendo usados por elas próprias e pelos outros. Gêneros são o que acreditamos que eles sejam. Isto é, são fatos sociais sobre os tipos e atos de fala que as pessoas tentam compreender umas às outras suficientemente bem para coordenar atividades e compartilhar significados com vistas as seus propósitos práticos.

Nada mais comum nos tempos de hoje que a utilização de emails, sms (serviço de mensagem curta), listas de discussão, blogs, orkut, facebook, myspace,

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twitter, entre outros. Ainda mais com a possibilidade de acesso a essas redes sociais através dos celulares, ipod, iphone, notebooks, netbooks entre outras mídias que se incorporam umas nas outras. Os usos, os significados, os propósitos, as tipificações e organizações dadas a essas redes sociais e a materialização dos seus enunciados se dão pelos seus interatores, pelos sujeitos que os reconhecem e os compreendem como atividades sociais e comunicacionais. Sendo assim, ―As formas de comunicação reconhecíveis e auto-reforçadoras emergem como gêneros‖ (BAZERMAN, 2005, p.29), ou seja, as novas formas de comunicação, por meio das mídias digitais e da conectividade móvel possibilitada pela Web 2.0 produzem novos gêneros narrativos: ―seguramente, esses novos gêneros não são inovações absolutas, quais criações ab ovo, sem uma ancoragem em outros gêneros já existentes‖ (MARCUSCHI, 2002, p. 29). Isto é, os novos gêneros emergem de velhas bases.

Os novos meios de comunicação, e em especial a comunicação mediada por computador, tem propiciado o surgimento de diferentes formas discursivas. Por isso novos gêneros emergentes originam-se com características próprias. É conveniente ressaltar que, ―não são propriamente as tecnologias per se que originam os gêneros e sim a intensidade dos usos dessas tecnologias e suas interferências nas atividades comunicativas diárias‖ (MARCHUSI, 2002, p. 29) Trata-se de diferentes esferas de uso público de linguagem e de seus sistemas semióticos. A predominância no contexto atual do uso desses meios os colocou em destaque nas diversas esferas da sociedade, e em grande escala no sistema lingüístico, pois se trata de uma cultura totalmente letrada, portanto, se realiza por meio de algum gênero.

O uso de diversas linguagens e mídias, essa mistura e hibridismo são próprios das mídias digitais. Nesse sentido, os gêneros não escapam desse cruzamento. Há o uso de diversas linguagens, que podem ser utilizadas apenas uma duas ou várias ao mesmo tempo, o que torna os discursos nos meios digitais uma fusão e com-fusão de discursos.

Não se tem como negar as mudanças dos gêneros narrativos a partir das mídias digitais, principalmente com a internet. Existe um fator preponderante com o advento da internet, o conhecimento e a informação passaram a ser mais democráticos. Numa teia de informação e de pessoas, a internet favorece as redes

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de informação e também as sociais. Com isso também é favorável ao surgimento de outros gêneros emergentes.

O surgimento ou desaparecimento de gêneros discursivos depende dos usos e desusos atribuídos a eles. Na internet há uma infinidade de possibilidade de usos da linguagem, onde muitas já foram descobertas, e sua intensa marca é deixada nas redes comunicacionais. No contexto digital não apenas o texto, mais o enunciado, o design e também o dito e o não dito devem ser analisado.

Numa tentativa de discorrer sobre alguns gêneros que emergem do ciberespaço, Marcuschi (2005, p. 27) tenta compreender as suas formas e funcionalidades. O autor elenca doze deles: (1. E-mail; 2. Chat em aberto; 3. Chat reservado; 4. Chat ICQ (agendado); 5. Chat em salas privadas; 6. Entrevista com convidado; 7. E-mail educacional (aula por e-mail); 8. Aula chat (aulas virtuais); 9. Vídeo-conferência interativa; 10. Lista de discussão; 11. Endereço eletrônico; 12. Blog). Apesar desse elenco o autor diz que não dará conta de todos os gêneros desse meio, pois desconhece o levantamento exato. Assim como a listagem escolhida não se refere a uma relação exaustiva, mas a uma amostra dos mais conhecidos e estudados no momento.

Sobre esses gêneros que emergem das tecnologias os estudiosos (MARCUSCHI; XAVIER, 2005, 2006) compartilham da ideia de que esses gêneros não surgem do nada. Para esses autores são composições de características de certos gêneros que se fundem e subvertem os gêneros já existentes. Eles relacionam, por exemplo, o e-mail a carta pessoal, o chat a conversas e os blogs a diários e agendas pessoal. A seguir discuto algumas características dos gêneros narrativos elencados no ciberespaço.

No estudo feito por Marcuschi (2005, p.33), definiu alguns parâmetros mínimos para o enquadramento de gêneros digitais, seguindo o que acha importante na caracterização dos gêneros que constituem os modelos preexistentes, acrescentando aspectos das mídias digitais. Ele elaborou um quadro que leva em consideração a composição (aspectos textuais e formais, incluindo a relação entre os participantes ou a audiência); o tema (natureza dos conteúdos, funções e profundidade) e o estilo (aspectos relativos à linguagem, seus usos e usuários).

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O quadro construído por Marcuschi (2005, p. 34-35) não levou em consideração os aspectos formais, nem estruturais da organização dos enunciados, mas considerou na perspectiva de que os aspectos sócio-comunicativos e as atividades desenvolvidas são os elementos que caracterizam os gêneros.

A primeira dimensão que Marcuschi avalia é a temporalidade. Se o gênero ocorre em tempo real, significa que ele é síncrono, como em uma comunicação face a face. Mas se for o contrário, haverá uma defasagem no tempo, o que denota um gênero assíncrono. Em seguida parte para analise da duração, se é indefinida, rápida ou limitada. Em relação a questão textual, o autor faz duas considerações. A primeira é se existe um tamanho ou extensão do texto, o qual ele classifica como sendo: indefinida, longa e curta. Ainda sobre o texto ele observa o formato, se é feito em turnos encadeados, se é em texto corrido, por sequências soltas ou possui uma estrutura fixa.

Para falar da participação Marcuschi pontua se ela acontece entre duas pessoas, entre múltiplas pessoas ou se é em grupo fechado. Também investiga se existe alguma relação entre esses sujeitos, ou seja, se são conhecidos, anônimos ou hierarquizados. E se a comunicação existente nesses gêneros é realizada de forma alternada entre os participantes ou se não existe comunicação.

O quadro consta também a função realizada por cada gênero, entre as categorias interpessoal, lúdica, institucional e educacional. Dentro dessa dimensão funcional dos gêneros, a temática foi levantada como sendo de cunho livre, combinado ou inexistente. Outra relação que foi levada em consideração refere-se ao estilo, se ele é monitorado, informal ou fragmentário.

Para os gêneros midiáticos a integração de recursos semiológicos é uma característica intrínseca do meio, marca a forma linguística exercida na cultura digital. Esse elemento foi analisado considerando apenas existência de textos, ou apresentação de artefato oral e escrito, se há texto e imagem e por fim, se existe paralinguagem. A última dimensão analisada refere-se à possibilidade de recuperação das mensagens nesses gêneros emergentes, classificando-os em por gravação ou voláteis.

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A análise realizada por Marcuschi (2005, p. 29), demonstra como a cultura escrita é predominante e marcante nessas práticas sociais. A comunicação nos meios digitais, como já foi dito, ocorre a partir da linguagem escrita, e esta também se reconfiguram nos gêneros digitais. Vale lembrar que a linguagem escrita nesses espaços não se resume apenas aos textos, mas a todas as linguagens que as mídias comportam. Nesse sentido, essa escrita tende a certa informalidade, menor monitoração e cobrança pela fluidez do meio e pela rapidez do tempo.

Devido à grande semiose possibilitada pelos meios digitais, a velocidade da comunicação, a escrita passa a ser feita por meio de códigos, emotions (símbolos que indicam emoção) e abreviações não convencionais. Não existe uma rigidez nas questões ortográficas de escrita, como há também uma grande utilização de recursos como: tipos de letras, cores, tamanhos, sublinhados entre outros. Tudo isso é parte integrante da comunicação através das mídias, que segundo Paiva (2005, p. 80) segue algumas normas para que a interação seja bem sucedida. Essas normas são chamadas de netiqueta, que nada mais são do que um conjunto de normas de conduta usadas no cotidiano para conduzir melhor as relações humanas na internet. Estas servem para todos os tipos de gêneros que emergem da internet.

É importante atentar-se para o fato de que os gêneros emergentes não são o mesmo que suportes aos quais eles estão arrumados. Suportes são apenas ambientes específicos que servem para acomodar informações, que podem ser em diversas linguagens e em variados gêneros.

Diante dessa pluralidade de gêneros narrativos emergentes no ciberespaço o objeto desta pesquisa, como já fora explicitado, é a lista de discussão dos professores do Programa de Formação Continuada de Professores do Município de Irecê-Ba. No próximo capítulo veremos esse gênero digital, lista de discussão. Também falaremos sobre o programa de formação, para então trazer os resultados da pesquisa.

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3. NARRATIVAS DOS PROFESSORES EM FORMAÇÃO

Este capítulo analisa as narrativas digitais, seus usos, possibilidades e dinâmicas que emergem no gênero narrativo lista de discussão. Esse gênero foi escolhido dentre os vários gêneros narrativos utilizados no Programa de Formação Continuada de Professores do Município de Irecê-Ba, devido ao seu destaque pela rapidez de comunicação e maior uso por parte dos professores-cursistas.

Recorremos aos procedimentos de uma pesquisa qualitativa com a finalidade de observar a dinâmica dessas narrativas digitais, realizadas pelos 60 professores-cursistas da segunda turma do Programa de Formação Continuada de Professores do Município de Irecê-Ba. Os objetivos para tal estudo foram:

1. Analisar a participação dos professores-cursistas no gênero narrativo lista de discussão;

2. Perceber se há apropriação do gênero narrativo lista de discussão;

3. Identificar os usos e possibilidades da narrativa digital no gênero lista de discussão;

4. Observar como as diferentes linguagens se organiza no gênero narrativo lista de discussão.

Para atingir esses objetivos, foram realizadas observações na lista de discussão UFBA-Irecê durante os trinta dias do mês de novembro de 2009, período correspondente a coleta de dados, onde foi coletado o material de análise.

3.1 O CONTEXTO DA PESQUISA

O Programa de Formação Continuada de Professores do Município de Irecê-Ba surgiu da demanda e carência de formação de professores do mesmo município,

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impulsionado pelo Art. 62 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96), que visa conferir ao conjunto de professores da educação básica do país, como patamar mínimo de escolaridade, o nível superior.

Este Projeto é uma iniciativa experimental, estimulada no disposto no artigo 81 da LDB (Lei 9394/96), que insta as unidades de ensino superior no Brasil a exercitarem a autonomia para a organização da estrutura curricular nela garantida. Neste citado artigo se prevê ser ‗permitida a organização de cursos ou instituições de ensino experimentais, desde que obedecidas as disposições desta lei‘. (FACED, 2003, p. 14)

A fim de legitimar o que está posto na LDB e consequentemente melhorar a qualidade da educação básica no município, a prefeitura de Irecê, situada a 478 km de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Educação realizou uma ação conveniada com a FACED / UFBA (Faculdade de Educação / Universidade Federal da Bahia) para a elaboração, em 2001, do Programa de Formação Continuada de Professores para o Município de Irecê-Ba. O curso teve início em 2004 com o intuito de promover a formação em nível superior dos professores em exercício da rede municipal de ensino do Município de Irecê/Ba. Essa proposta foi elaborada a partir do diálogo entre as concepções pedagógicas defendidas pela FACED e a comunidade de Irecê.

Ao concluir o curso o professor-cursista, como são chamados todos os professores que estudam no curso, recebem a titulação de Licenciado em Pedagogia – Educação Infantil e Ensino Fundamental/ séries iniciais. Este projeto faz parte de um Programa Especial de Graduação em nível superior da FACED/UFBA, tendo como característica ser um curso semipresencial, com atividades presenciais em Irecê, e a distância, através do uso intenso das TIC.

Com uma concepção que entende a educação em seu acontecer cotidiano, nos diversos espaços da prática social em que se processa a ação docente, o programa toma essas máximas como base para a formação dos profissionais da educação. O que faz com que essa atuação esteja umbilicalmente ligada à presença das TIC, que hoje se encontra presente em todas as esferas da sociedade.

O eixo norteador do Programa de Formação Continuada de Professores para o Município de Irecê-Ba é a:

[...] práxis pedagógica, como espaço-tempo no qual ocorrem as reflexões e as ações que dão sentido ao cotidiano de cada escola, ao trabalho de cada

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professora e cada professor, que repercutem no processo de formação e produção de conhecimento desenvolvido pelo conjunto da comunidade escolar. (FACED, 2003, p.15)

O Programa de Formação Continuada de Professores para o Município de Irecê-Ba visa integrar em rede, tecnológicas ou não, diferentes projetos que irão incrementar, em diversas vertentes, o processo de formação dos professores. São vertentes interdependentes, que articulam a educação, a cultura, a comunicação, a saúde, o ambiente, a arquitetura e o urbanismo entre outras. Dentre essas vertentes, fora relacionado para o estudo a aproximação que o programa faz com a cultura digital articulada ao contexto educacional na cibercultura.

Incluir os professores na cultura digital tornou-se fundamental no processo formativo deste curso, pois vivemos hoje numa sociedade informatizada e conectada. As tecnologias nessa conjuntura se apresentam como elementos estruturantes no processo formativo desses educadores, são as TIC que estruturam a base do Programa de Formação Continuada de Professores do Município de Irecê, assim como a práxis pedagógica dos professores.

No que concerne a estrutura do curso, ele possui características próprias. Com a concepção de currículo em permanente construção, ao quais os professores-cursistas são chamados a participar ativamente deste processo. A duração mínima do curso é de três anos, dividido por ciclos, com a duração de um semestre letivo.

A opção por essa divisão temporal (semestre letivo) ficou estabelecida por acreditar-se que mediante a utilização de elementos já presentes no cotidiano dos professores-cursistas, aumentam as possibilidades de uma real inter relação da práxis pedagógica de cada um deles, com as atividades do curso. Os ciclos não são pré-estabelecidos, sendo cada ciclo organizado em função do anterior. (FACED, 2003, p. 34)

A cada ciclo é oferecido um conjunto de Atividades curriculares, que correspondem a todos os componentes curriculares, ou seja, todas as realizações pedagógicas efetuadas pelo professor-cursista. As atividades curriculares é a articulação entre os campos das possibilidades pensadas e o das atualizações, onde a cada ciclo será oferecido um rol diversificado. Dentro do campo das possibilidades, há dois grupos didáticos pedagógicos: os eixos temáticos e os eixos dos tipos de atividades.

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Trabalhamos neste projeto com a concepção que o mundo – e, portanto, como partícipe desse mundo também, o mundo escolar – está articulado como uma Rede de Complexidade. Uma rede – de objetos, técnicos, homens, natureza – repleta de possibilidades – o mundo virtual – que vão se concretizando, ou não, nos eventos – o mundo das atualizações. (FACED, 2003, p. 21)

Nessa perspectiva, podem-se compreender tanto os eixos temáticos quanto os eixos dos tipos de atividades como sendo do mundo virtual, enquanto as atividades curriculares sendo do mundo das atualizações. No que tange os eixos temáticos, eles são pensados os conceitos/temas a serem possivelmente trabalhados durante o curso. Já que esse curso é alicerçado na ideia de construção em processo contínuo. Para o eixo dos tipos de atividades, estão previstas as formas para serem trabalhadas durante o curso. Segue abaixo, a imagem da estrutura do curso, onde é possível ter uma visão geral sobre o que falamos.

Referências

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