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Apresentação do curso
Muito obrigado por adquirir um livro da série Discipulado maduro e reprodutivo! Este material tem sido utilizado desde 2004 por cristãos interessados em conhecer mais e melhor a Palavra de Deus.
Nos esforçamos para produzir um material fiel aos ensinos da Bíblia, agradável de ler e fácil de entender.
Para quem são estes estudos
Estes estudos beneficiarão aos cristãos de todas as denominações evangélicas. Propomos disseminar a verdade que produz vida.
Por que estes estudos são especiais
A série Discipulado Maduro e Reprodutivo pode ser utilizada em diversas mídias e apli-cativos de leitura. Todos os estudos terminam com um exercício de fixação do conteúdo. É possível conferir as respostas no apêndice, antes das referências bibliográficas.
Conteúdo modular
O material pode ser usado em classes da escola dominical, grupos pequenos, duplas de discipulado ou estudo individual. Graças à organização em módulos, o leitor pode acessar os conteúdos que julgar mais interessantes e necessários. Por exemplo, o primeiro volume trata da criação e queda, o segundo, de eleição e redenção, e o terceiro, da graça irresistível e perseverança dos santos. Basta adquirir o volume com o assunto de seu interesse e utilizá-lo em separado. Mesmo assim, recomendamos adquirir e estudar os três volumes, pois cada um oferece os alicerces do que é abordado no seguinte.
Objetivos de estudo, textos bíblicos e links confessionais
Objetivos de ensino são mostrados no início das principais divisões. Os textos bíblicos que comprovam as afirmações dos estudos são transcritos da Bíblia Sagrada, segunda edição da versão revista e atualizada no Brasil, tradução de João Ferreira de Almeida. O objetivo é auxiliar o aluno a fixar as bases bíblicas de cada ensino, além de ganhar proficiência no manuseio da Escritura.
Ligamos os conteúdos com alguns documentos confessionais: Os símbolos de fé de Westminster — a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Catecismo Menor ou Breve Catecis-mo — os Cânones de Dort, a Confissão Belga e o CatecisCatecis-mo de Heidelberg. A ideia é despertar o interesse para tais documentos, que foram produzidos a partir do século 17 por mais de uma centena de teólogos, e são aceitos por todas as igrejas de linha teológica reformada como sumário adequado da doutrina bíblica.
Teologia pactual cristocêntrica
O evangelho não focaliza apenas a salvação do indivíduo, mas se constitui nas boas novas do reino. O centro do evangelho é Jesus Cristo e o reino abrange o universo visível e invisí-vel criado e governado por Deus.1 Deus se relaciona com sua criação através dos pactos da
criação (o que inclui o pacto das obras) e da redenção (que implica o pacto da graça). Estes
1 “O cosmos é o reino; especificamente, o reino cósmico” (VAN GRONINGEN, Gerard. Criação e
viii A doutrina da salvação: Eleição e redenção
estudos são desenvolvidos a partir desta teologia pactual e cristocêntrica. Cremos que esta abordagem dá ao leitor uma visão mais fiel do conteúdo bíblico e prepara o terreno para desenvolvimentos necessários ao amadurecimento cristão.
Sendo assim, cada estudo tem relação com o evangelho do reino. Não se trata de ne-nhuma novidade didática, pois não havia sequer uma questão da vida prática que os cristãos primitivos tentassem resolver à parte do evangelho. Os mandatos pactuais comissionam o cristão para uma vida de amor e serviço a Deus, bem como de testemunho e serviço ao pró-ximo e à cultura. A revelação do amor de Deus em Cristo é o rico e inesgotável tesouro que supre todas as necessidades do cristão individual, da igreja e do mundo. Essa é a certeza que norteia a redação deste livro.
A trilha vitalícia do discipulado
Cada volume de A Doutrina da Salvação foi escrito para nutrir, desafiar e promover o cres-cimento do leitor para uma vida com Deus firmada na Bíblia e cheia de bons frutos. Nossa oração é semelhante à do apóstolo:
Por esta razão, também nós [...] não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual; a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus; sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e longanimidade; com alegria, dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz (Cl 1.9-12).
Em alguns contextos, o termo “discipulado” é entendido como os estudos iniciais da vida do cristão, normalmente como a preparação para o batismo e profissão de fé. Esse não é o sentido da palavra nessa série. Aqui, discipulado é a totalidade da caminhada do servo de Cristo, da conversão até a glorificação. Isso é assim porque a vida com Deus é aprendiza-do e aperfeiçoamento, toaprendiza-dos os dias e para sempre. Na conversão a caminhada tem início; várias décadas depois, ainda estamos sendo moldados graciosamente pelo Espírito que nos dispensa graça através da Palavra, dos sacramentos, da oração e do convívio com os irmãos. E, enquanto prosseguimos amadurecemos e reproduzimos o discipulado em outras pessoas. Somos sal e luz, preservamos, damos sabor e iluminamos, amamos e servimos a Deus. Per-tencemos a ele, fomos chamados para dar fruto (Mt 5.13-16; Jo 15.16).
Caminhe devagar
Sugerimos que o leitor estude com calma lendo cada referência, esmiuçando conceitos e realizando as atividades. É claro que tudo pode ser feito rapidamente, mas é importante é que os conteúdos sejam bem digeridos. Estamos estudando o evangelho, centro de nossa vida espiritual.
Sobre os autores
Misael Batista do Nascimento é pastor presbiteriano, graduado pela Faculdade Teológica Batista de Brasília e Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ele possui especialização em Teologia Prática pela Faculdade Teológica Batista de Brasília e é Doutor em Ministério pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo, em parceria com o Reformed Theological Seminary, em Jackson, Mississipi. É mestrando em Educação, Arte e História da Cultura, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Trabalhou como evangelista por sete anos, na implantação da Igreja Presbiteriana Missionária de
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paraíso (hoje Igreja Presbiteriana de Valparaíso de Goiás). Pastoreou por treze anos a Igreja Presbiteriana Central do Gama, no Distrito Federal e desde 2010 é pastor da Igreja Presbite-riana de São José do Rio Preto (IPB Rio Preto). É casado com Mirian, pai de Ana Carolina e Bruna, sogro do Jônathas e amigão do Bento (um yorkshire simpático).
Ivonete Silva Porto é educadora cristã, graduada em Teologia pela Faculdade Teoló-gica Batista de Brasília e em Pedagogia pelo Grupo Fortium, em Brasília e Especialista em Teologia Filosófica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo. É casada com o Rev. Allen Ribeiro Porto (pastor da IPB Rio Preto) e mãe do Matias e da Lúcia.
Definições de termos e de abreviações
ARA. Bíblia Sagrada, Tradução de Almeida, revista e atualizada.
A21. Bíblia Sagrada, Tradução de Almeida, século 21.
ARC. Bíblia Sagrada, Tradução de Almeida, revista e corrigida.
BCW. Breve Catecismo ou Catecismo Menor de Westminster.
BEG1. Bíblia de Estudo de Genebra. Primeira edição de 1999. BEG2. Bíblia de Estudo de Genebra. Segunda edição de 2009. BJ. Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada.
CB. Confissão Belga.
CDT. Os Cânones de Dort.
Cf. Confira em.
CFW. Confissão de Fé de Westminster.
CH. Catecismo de Heidelberg.
CMW. Catecismo Maior de Westminster.
E.g. Do latim exempli gratia, por exemplo.
Mandato. Preceito ou ordem de superior para inferior. Uma ordem ou incumbência divina que deve ser seguida, obedecida e realizada pelo homem.
NTLH. Bíblia Sagrada, nova tradução na linguagem de hoje.
NVI. Bíblia Sagrada, nova versão internacional.
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Introdução aos estudos
Deus abandonou a humanidade decaída? Esta é a pergunta respondida nestes estudos. A Bíblia revela que Deus quis salvar livremente, unicamente por amor. Assim como ele realizou a primeira criação, providenciou também a salvação ou nova criação. Logo após a queda, o Senhor prometeu aos nossos primeiros pais um Redentor que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3.15). Nos momentos dramáticos que se seguiram à desobediência de Adão, Deus estabeleceu o pacto da redenção.
Eleição e redenção
Estudaremos as doutrinas da eleição e redenção. Na eleição, antes da fundação do mundo, Deus escolhe alguns dentre a humanidade decaída para serem salvos. Na redenção, Deus Pai envia Deus Filho, Jesus Cristo, no poder de Deus Espírito Santo, para reconciliar os eleitos consigo mesmo.
Tais doutrinas são o coração do evangelho. Todos os dias, devem ser não apenas lembra-das, mas oradas e aplicadas na vida de cada cristão.
Doutrinas impopulares
Estes ensinos são atacados. O homem contemporâneo se sente ofendido diante dessas afir-mações. Líderes ditos cristãos se desviam desses tópicos. Pregadores populares confundem esse ensino com determinismo fatalista.
O resultado dessa má doutrinação é visível. Igrejas crescem rapidamente em torno de versões defeituosas do evangelho, mas a geração que se levanta demonstra convicções firma-das sobre alicerces fracos. Evangélicos correm o risco de se portarem de modo infantil diante das tribulações, confundir autoridade espiritual com prepotência e serem conduzidos como gado, por líderes personalistas e inconsequentes.
O discipulado bíblico é caracterizado por firmeza de caráter, humildade e prática fervo-rosa e inteligente da Palavra de Deus. Isso exige a consciência de que fomos eleitos e com-prados pelo sangue do Cordeiro.
Um resumo e explicação da doutrina da salvação
Estes estudos são baseados em uma formulação doutrinária produzida tempos atrás. Em uma reunião realizada no século 17, na cidade de Dort ou Dordrecht (Holanda), alguns cristãos escreveram um documento sobre o evangelho — um material fiel à Bíblia e, ao mesmo tempo, compreensível, fácil de memorizar e explicar. O evangelho foi resumido em cinco declarações:
1. Deus criou tudo perfeito, mas o homem voluntariamente decaiu de seu estado original — total depravação.
2. Dentre a massa de pecadores e por graça pura, Deus escolheu alguns para serem salvos — uma escolha incondicional.
3. Cristo morreu pelos eleitos — limitada expiação (ou expiação definida).
4. Os eleitos são chamados pelo Espírito Santo, por meio do evangelho — irresistível chamado.
Para fixar o ensino utilizou-se a tulipa, uma flor muito apreciada pelos holandeses. O acróstico TULIP (tulipa, em inglês) sintetiza as principais declarações da doutrina:
Total depravação.
Uma escolha incondicional.
Limitada expiação.
Irresistível chamado.
Perseverança dos santos.
Em cada etapa da salvação, Deus é quem toma a iniciativa de salvar, enquanto nós somos os beneficiários de sua obra poderosa e eficaz. Ao organizar o ensino desse modo, aqueles irmãos de Dordrecht responderam a um erro de doutrina que ganhava espaço, uma tentativa de estabelecer o homem como centro do processo de salvação. Hoje, muito do que se proclama como “mensagem de salvação” possui uma ênfase semelhante. O cristianismo sofre nova ameaça de corrupção de sua mensagem central. Por isso este conteúdo é atual e necessário.
Agradecimentos e expectativas
Os autores agradecem pelo apoio e compreensão de seus cônjuges e familiares. Tudo foi escrito para a honra de Deus, nosso bondoso Pai, Redentor e Consolador.
Esperamos que cada leitor obtenha uma compreensão límpida da sã doutrina e se sinta motivado a continuar crescendo na graça e conhecimento do Senhor (2Pe 3.18). Se você absorver essas verdades ao ponto de poder ensiná-las a outros, estará capacitado para fazer discípulos.
Oramos para que o Espírito Santo o conduza. Que Deus seja glorificado, sua fé seja fortalecida e os discípulos sejam multiplicados.
1ª Parte:
Escolhidos para a salvação
TULIP. Uma escolha incondicional.Objetivos para o professor
• A partir da compreensão e desfrute pessoal da eleição, amar e adorar ao Senhor. • Orar, se preparar e ensinar seus alunos na dependência do Espírito Santo.
Objetivos para o aluno
• Compreender os principais conceitos relacionados à doutrina bíblica da eleição. • Os mesmos objetivos do professor.
• Repassar as verdades aprendidas, multiplicando o alcance do discipulado.
Introdução ao ensino da Bíblia sobre eleição
Fomos criados conforme a imagem e semelhança de Deus, mas decaímos de nossa condição original. Por isso nascemos separados de Deus e escravos da carne, do mundo e do diabo.
Vamos compreender o que a Bíblia ensina sobre a eleição para a salvação. No acróstico TULIP, esse assunto é apontado na segunda afirmação, “uma escolha incondicional”.
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1 Os cristãos são escolhidos
Joventino decidiu ler o NT presenteado por um amigo. Ficou maravilhado com os Evan-gelhos. Considerou a pessoa, obras e ensino de Jesus Cristo inigualáveis. Em seguida, em Atos, encantou-se com a simplicidade e amor da igreja primitiva. Daí aventurou-se para as cartas apostólicas.
Uma questão o intrigou acima das demais: O que Jesus quis dizer ao chamar os seus seguidores de “eleitos”, em Mateus 24.24? E por que ele afirmou, em Marcos 4.10-12, que ensinava por parábolas para que “os de fora” vissem sem perceber e ouvissem sem entender, de modo que não se convertessem e fossem perdoados? Para complicar, qual o significado de sua declaração, “ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for conce-dido”, em João 6.65? Em Atos, Joventino leu sobre o “desígnio e presciência de Deus” (At 2.23) e que Herodes, Pilatos e o povo de Israel fizeram tudo o que a “mão” e o “propósito” de Deus “determinaram” (At 4.28). Ademais, depois da pregação de Paulo e Barnabé, em Atos 13.48, “creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”. Enquanto Lídia ouviu o evangelho, “o Senhor lhe abriu o coração para atender as coisas que Paulo dizia” (At 16.14). E em Romanos, ficou boquiaberto ao ler que os cristãos são “predes-tinados” (Rm 8.29-30), que, enquanto Jacó foi “amado”, Esaú foi “rejeitado” por Deus, e isso independentemente de suas “obras” (Rm 9.11-13) e que existe “um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm 11.5). E no fim das contas, Deus não pode ser conside-rado injusto ao proceder desse modo, pelo contrário, devemos louvá-lo por sua soberania e sabedoria inalcançável (Rm 9.14-29; 11.33-36).
Nesse ponto Joventino interrompeu a leitura. Que Deus é esse? Que cristianismo é esse? Ele tinha de se encontrar com seu amigo cristão, que lhe dera o NT. Precisava de alguém que o ajudasse com suas dúvidas.
1.1 Como a Bíblia denomina os cristãos
No volume anterior desta série, aprendemos que Deus criou tudo perfeito, mas o homem voluntariamente decaiu de seu estado original. Desde então, o ser humano perdeu toda capacidade para compreender, desejar ou escolher Deus e a salvação. Essa verdade bíblica é intitulada total depravação (a letra “t” do acróstico TULIP).2 Agora olharemos para outra
verdade do evangelho: Dentre os pecadores, Deus escolheu alguns para serem salvos, ou seja, ele fez uma escolha incondicional (a letra “u” do acróstico TULIP).
A Bíblia ensina que Deus intervém em nossa história a fim de salvar. Ele estabelece de antemão tanto as condições quanto os beneficiários desta salvação. Quanto às condições da salvação, o NT revela que o sangue de Cristo, provido para nosso resgate (como aprendere-mos na segunda parte deste livro), foi “conhecido” desde antes de haver mundo.
Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, 2 Cf. NASCIMENTO, Misael; PORTO, Ivonete. A Doutrina da Salvação: Criação e Queda. São José do Rio
4 A doutrina da salvação: Eleição e redenção
conhecido,3 com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus (1Pe 1.17-21).
Quanto aos beneficiários da salvação, Deus os escolheu e predestinou previamente e de acordo com sua boa vontade. “A eleição torna a salvação certa e a obra redentora de Cristo a assegura”.4 Daí o louvor do apóstolo:
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele,5 antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade (Ef 1.3-5).
Como lemos na introdução deste capítulo, a Escritura também se refere a um “propó-sito de Deus quanto à eleição” e a “um remanescente segundo a eleição da graça”. Os que creem em Cristo como único Senhor e Salvador de suas vidas, são identificados na Escritura como predestinados, escolhidos ou eleitos de Deus.
Com quem foi feito o pacto da graça? O pacto da graça foi feito com Cristo, como o segundo Adão; e, nele, com todos os eleitos, como sua semente.6
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou (Rm 8.29-30). Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente
segundo a eleição da graça (Rm 11.5).
Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade (Ef 1.11).
Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que é dos
eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a piedade (Tt 1.1).
Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 1.1).
Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9).
Cristãos que levam a Bíblia a sério reconhecem que estes textos apontam para a pre-destinação e eleição. O que existe são modos diferentes de compreender e explicar, tanto a predestinação quanto a eleição. Essas diferenças decorrem de pontos de vista distintos sobre a sabedoria, vontade, liberdade e justiça de Deus e do homem.
3 O vocábulo grego proginōskō, traduzido como “conhecido”, indica não apenas conhecimento, mas uma “es-colha prévia” (LOUW, Johannes P.; NIDA, Eugene Albert. Greek-English Lexicon of the New Testament: Based
on Semantic Domains. New York: United Bible Societies, 1996, #28.6, p. 334; grifo nosso). A mesma ideia é encontrada em Atos 2.23 (neste último caso, “presciência” ou “pré-conhecimento” traduzem prognōsis).
4 HORTON, Michael. Doutrinas da Fé Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 602.
5 A expressão “nos escolheu nele” é interpretada de diferentes maneiras. Retornaremos a esta passagem na seção 4.1, a fim de descobrir a melhor interpretação.
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Os cristãos são escolhidos
1.2 Sabedoria, vontade, liberdade e justiça (de Deus e do homem)
Deus é absolutamente sábio, livre e justo em todos os seus decretos e ações? Seria correto Deus planejar e executar uma salvação apenas para algumas pessoas, rejeitando outras? O homem é um agente livre ou uma marionete em um cenário fatalista? Sem ser feito “nova criação” pelo poder de Deus, o homem pode compreender, escolher ou rejeitar o evangelho? Nossa compreensão dessas coisas determina nosso entendimento da predestinação e eleição (figura 01). Sabedoria, vo ntade , lib erd ad e e ju stiç a de De us » Sa bed oria , vo nt ad e, li be rd ade e ju stiça human a | Predestinação Eleição
Figura 01: Nossa compreensão da sabedoria, vontade, liberdade e justiça de Deus e do homem determina nosso entendimento das doutrinas da predestinação e eleição.
Cristãos de diferentes denominações afirmam que Deus é sábio, soberano e livre — o rei supremo (sabedoria, vontade e liberdade). Ele também é absolutamente santo e, por conseguinte, bom e justo em tudo o que planeja e faz (justiça).
As ideias divergem a partir daqui. Para alguns, mesmo depois da queda, o homem possui capacidade de discernimento (sabedoria) e aptidão para desejar, bem como poder para decidir-se por Deus e seu reino (vontade e liberdade). Isso equivale a dizer que, mesmo depois do pecado de Adão e Eva, o homem é hábil para escolher e fazer o bem (justiça). As explicações sobre como isso acontece variam, indo de um extremo, em que a salvação depende quase que exclusivamente da vontade humana — a heresia de Pelágio (360—420), combatida por Agostinho, conhecida como pelagianismo — para uma posição menos radi-cal, mas ainda assim antibíblica, em que a salvação depende tanto da graça de Deus, quanto da escolha do homem, conhecida como semipelagianismo. No frigir dos ovos, esta é a conclusão a que se chega: O homem é quem decide se aceita ou rejeita Deus.7
Um dos proponentes deste ponto de vista, Erasmo de Roterdã, ensinava que “embora a livre escolha tenha sido prejudicada pelo pecado, ela, não obstante não foi extinguida por ele”.8
Outro escritor diz que as decisões e ações de Deus sobre a predestinação e eleição podem ser
7 Cf. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 4. ed. Reimp. 2015. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 429-430. 8 ROTERDÃ, Erasmo. Livre Arbítrio e Salvação. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 84. Grifo nosso.
6 A doutrina da salvação: Eleição e redenção
compreendidas por uma “razão biblicamente fundamentada”,9 ou seja, paradoxos bíblicos não são admitidos.10 Se por um lado, a Escritura é Palavra de Deus, por outro, qualquer
interpreta-ção que não se encaixe na razão humana é rejeitada como falsa.11
Esse entendimento é popular porque combina com a descrição de “vontade” na Filoso-fia: “Ter vontade consiste em poder desejar um resultado e ter o objetivo de realizá-lo”.12 Isso
se harmoniza também com a Psicologia: “Vontade é a capacidade ou faculdade pela qual um ser humano é capaz de fazer escolhas e determinar seus próprios comportamentos a despeito de influências externas à pessoa”.13
Abraçam este ponto de vista, com variações, os “catolicismos” romano e ortodoxo grego e uma parcela de evangélicos, em um sistema intitulado arminianismo, derivado de Jacó Armínio (1560—1609) professor de teologia na Universidade de Leiden.14 Armínio
rever-bera Erasmo e outros semipelagianos, crendo ser o homem não completamente decaído. Portanto, para Armínio, a vontade humana continua livre para se decidir por Cristo.
Para outros, o arminianismo contraria o ensino da Bíblia sobre a total depravação. Sob esta ótica, afirmar que Deus é absolutamente sábio, soberano e livre equivale a dizer que ele faz o que quer, quando quer, como quer e com quem quer (sabedoria, vontade e liberdade). E ele faz isso de modo absolutamente santo, ou seja, ele é bom e reto em tudo o que planeja e empreen-de (justiça). Ainda que suas empreen-decisões e ações produzam empreen-desconforto e não possam ser totalmente compreendidas (mesmo a mente do crente não consegue penetrar nos decretos de Deus).
Esta perspectiva admite que a Escritura revela o suficiente para nossa salvação, san-tificação e consolação, mas há aspectos desta revelação que devem ser ensinados, mesmo parecendo paradoxais. As afirmações da Bíblia que parecem contraditórias são, de fato, su-prarracionais, quer dizer, vão além de nosso entendimento (tabela 01):
Resumindo, depois da queda o homem está espiritualmente morto; não consegue en-tender (corrupção da sabedoria), nem desejar ou se decidir por Deus e seu reino (corrupção e escravidão da vontade), de modo que só pode ser salva a pessoa que Deus desejar salvar.
Os autores destes estudos entendem que este último ponto de vista, historicamente identificado como calvinismo, (por causa de João Calvino, 1509—1564), é mais fiel às Sagradas Escrituras. O calvinismo é consistente com o ensino da Bíblia sobre a criação e a queda15 e, como veremos, com aquilo que a Palavra de Deus diz sobre eleição e redenção. 9 SMITH, Chuck. Prefácio de BRYSON, George. O Lado Negro do Calvinismo: A Visão Calvinista da Eleição.
São Paulo: Editora Reflexão, 2016, p. 7.
10 Paradoxo é usado aqui com o sentido de “oposição recíproca” e o que “parece contrário ao comum; contrassenso, absurdo” ou “disparate”; cf. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Antinomia; Para-doxo. In: Dicionário Aurélio Eletrônico 7.0. Curitiba: Editora Positivo, 2009a. CD-ROM. Todos os que estudam este tema acolhem paradoxos. Os que rejeitam os paradoxos verdadeiramente bíblicos, acolhem contradições antibíblicas.
11 Como demonstraremos, os opositores da doutrina bíblica da predestinação, que afirmam valorizar tanto o uso da razão, terminam assumindo opiniões absolutamente ilógicas.
12 BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1997, p. 407. Grifo nosso.
13 VANDERBOS, Gary R, (Org.). Dicionário de Psicologia da APA (American Psychological Association). Porto Alegre: Artmed, 2010, p. 1021. Grifos nossos.
14 WRIGHT, R. K. McGregor. A Soberania Banida: Redenção Para a Cultura Pós-Moderna. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 30.
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Os cristãos são escolhidos Declarações aparentemente paradoxais
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”
(Mt 11.28)
“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer [...]” (Jo 6.44)
Devemos ir até Cristo Não podemos ir até Cristo se não formos levados pelo Pai
As duas declarações são verdadeiras e devem ser ensinadas
É impossível compreender exaustivamente a relação entre elas porque são verdades divinas suprarracionais
Tabela 01: O paradoxo aparente de algumas declarações bíblicas.
1.3 Conceitos de predestinação e eleição
Isso nos conduz aos conceitos de predestinação e eleição. Predestinar “significa determinar algo acerca de coisas antes de ocorrerem e dirigi-las a um determinado fim”.16
Nos âmbitos da salvação e condenação das criaturas morais, a predestinação correspon-de aos atos da soberania divina correspon-de “salvar alguns do pecado (eleição)” e “concorrespon-denar o restante pelo seu pecado (reprovação)”.17 Apesar de alguns argumentarem que a eleição de Deus
não implica em rejeição, o verbo “escolher” significa “fazer seleção de; joeirar”.18 Escolher
alguém ou alguma coisa implica em rejeitar outras.
Quando você escolhe uma coisa qualquer, você rejeita tudo o mais. [...] Todos os atos são uma irrevogável exclusão por seleção. [...] quando você toma um caminho de ação desiste de todos os outros caminhos.19
Daí a propriedade do dito de Calvino:
Chamamos predestinação o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem de-terminar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois ele não quis criar
a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um foi criado para um ou outro desses dois
destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a vida, ou para a morte.20 Grudem afirma que eleição é “o ato divino antes da criação no qual ele [Deus] escolhe algumas pessoas para serem salvas, não com base em qualquer mérito previsto nelas, mas somen-te por causa de seu beneplácito soberano”.21
Lemos sobre isso nos Cânones de Dort:
Esta eleição é o imutável propósito de Deus, pelo qual ele, antes da fundação do mundo, escolheu um número grande e definido de pessoas para a salvação, por graça pura. Estas são escolhidas de acordo com o
16 TURRETINI, François. Compêndio de Teologia Apologética. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 430. v. 1. Grifos nossos.
17 BEG2, quadro Predestinação e Presciência: As Pessoas São Predestinadas ao Céu ou ao Inferno?, p. 1488. Isso é cha-mado de “dupla predestinação”.
18 Escolher. In: FERREIRA, op. cit.
19 CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 67. Grifo nosso.
20 CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006c, III.XXI.5, p. 388. v. 3. 21 GRUDEM, Wayne. Manual de Doutrinas Cristãs: Teologia Sistemática ao Alcance de Todos. São Paulo: Editora
8 A doutrina da salvação: Eleição e redenção
soberano bom propósito de sua vontade, dentre todo o gênero humano, decaído, por sua própria culpa, de sua integridade original para o pecado e a perdição. Os eleitos não são melhores ou mais dignos que os outros, mas envolvidos na mesma miséria. São escolhidos, porém, em Cristo, a quem Deus constituiu, desde a eternidade, Mediador e Cabeça de todos os eleitos
e fundamento da salvação.22
Nos próximos capítulos, à moda bereana, analisaremos as Escrituras “para ver se as coi-sas são, de fato, assim” (At 17.11).
E daí?
Cristãos que declaram que a Bíblia é Palavra de Deus, podem acolher crenças e entendi-mentos diferentes sobre a predestinação e a eleição. Até quem prioriza a evangelização e não considera estas doutrinas centrais, pode ter de responder perguntas de pessoas que, ao ler as Escrituras, precisam de ajuda para saber o significado das passagens mencionadas neste capí-tulo. É importante conhecer este assunto, como parte fundamental da doutrina da salvação.
Atividades
1. Na terceira estrofe do Hino 260, “Amor Que Vence”, do hinário Novo Cântico, falando do amor de Deus, o poeta escreve “amor que tudo me perdoas, amor que até mesmo abençoas um réu de quem tu te afei-çoas!”.23 Considerando o que estudamos até aqui, estas palavras do hino devem significar que (marque as respostas certas):
( ) Por causa do nosso pecado, somos réus diante de Deus (merecemos condenação). Deus, porém, livre e bondosamente, nos amou.
( ) Apesar da queda, que nos tornou réus diante de Deus, ainda temos muitas qualidades que nos torna amáveis para Deus. Correspondendo à nossa fé, Deus também nos ama.
( ) O ato divino, de entre os pecadores escolher alguns para a salvação, é denominado eleição. O hino fala do amor perdoador e abençoador de Deus, que abraça o pecador que não merece ser amado.
2. Complete a lacuna com uma palavra retirada do estudo: Quanto aos beneficiários da salvação, Deus os es-colheu e __________________________ previamente e de acordo com sua boa vontade.
3. Marque Verdadeiro ou Falso. Depois da queda o homem está espiritualmente morto; não consegue en-tender, nem desejar ou decidir-se por Deus e seu reino, de modo que só pode ser salva a pessoa que Deus desejar salvar.
___ VERDADEIRO ___ FALSO.
4. Complete a lacuna com uma palavra retirada do estudo: De acordo com Turretini, predestinar “significa ________________ algo acerca de coisas antes de ocorrerem e dirigi-las a um determinado fim”. 5. Complete a lacuna com palavras retiradas do estudo: De acordo com Grudem, eleição é “o ato divino antes
da criação no qual ele [Deus] escolhe algumas pessoas para _____________________, não com base em qualquer mérito previsto nelas, mas somente por causa de seu beneplácito soberano”.
22 CDT, cap. 1, artigo 7, p. 22-23. Grifos nossos.
23 MATHESON, G.; WRIGHT, H. M. Amor Que Vence. In: MARRA, Cláudio. (Ed.). Novo Cântico. 16. ed. Reimp. 2015. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 201-202.