LOGÍSTICA REVERSA E RECICLAGEM:

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A Assistência Judiciária:

Defensoria Pública no Âmbito da Segurança

Nacional e a Efetivação dos Direitos Sociais

Norma Maria dos Santos Borges

Advogada atuante na Defensoria Pública do Estado do Pará e Estagiária no Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE) da Escola Superior de Guerra em 2008.

Resumo

O presente trabalho apresenta os Direitos Sociais, Civis e Humanos de uma perspectiva global para, em seguida, enfocar o assunto dando ênfase à evolução da Constituição brasileira, a partir de experiência na Defensoria Pública do Estado do Pará, Brasil – órgão público que tem uma presença significativa na defesa dos Direitos acima assinalados, numa região marcada por conflitos de toda sorte – e dos fundamentos legais proporcionados por aquela Carta Magna no sentido de prover assistência jurídica aos desassistidos. Muito embora o trabalho tenha por base, até certo ponto, o conhecimento científico, grande parte dele se calca na experiência da autora, em particular na experiência de campo. No começo de sua vida profissional, foi designada para uma unidade na periferia de Belém, na pequena cidade de Benevides, onde era, e de certa forma ainda é, difícil um cidadão reivindicar seus direitos. O instituto da Defensoria Pública está presentemente disseminado pelo Brasil. A Constituição de 1988 garante, em certa medida, uma rede de proteção aos desamparados. No momento, é difícil mensurar o progresso nesse campo, apesar de se dispor de ferramentas legais mais eficientes. Nosso País é tão complexo e as disparidades regionais tão grandes, de sorte que podemos afirmar que ainda há muito trabalho a fazer. Mas alguns avanços foram conquistados. O estudo em questão aborda a Assistência Jurídica, as Evoluções Constitucionais, o Acesso à Justiça e o Surgimento Democrático sob a ótica da Defensoria Pública. Discorre sobre as questões que envolvem o Defensor Público e o Advogado, bem como mostra, de forma inequívoca, o importante papel do mediador na sociedade. Pretende, ainda, propor Políticas e Estratégias para divulgação e efetivação dos Direitos Sociais.

Palavras Chave: Direitos Sociais. Direitos Humanos. Constituição. Defensoria

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Abstract

This paper presents the Social, Civil and Human Rights of a global perspective, then focus on the subject with emphasis on the evolution of the Brazilian Constitution, from the point of view of an experience as Public Defender of the State of Pará, Brazil – a public agency that has significant presence in the defense of the rights noted above in this region marked by conflicts of all sorts – and legal grounds provided by this Constitution in order to provide legal assistance to underserved. Although the work is based to some extent on scientific knowledge, a great part of it shows the author’s personal experience, specifically in the field. At the beginning of her professional life, her office was in the outskirts of Belém, in the small town of Benevides, where it was and somehow still is, difficult for a citizen to avail his social condition and claim his Social and Human Rights. The institution Public Defender’s Office is widespread in Brazil nowadays. The 1988 Constitution guaranteed, up to a certain point, a net of protection to the helpless. To this point, it is difficult to measure the progress in this field, despite the best legal tools. Our country is so complex and there are so many regional differences, that we can say we have much work to do. But some improvements have been achieved. The present text is about Legal Assistance, Constitutional Developments and Access to Justice from the Public Defender’s Office standpoint. Although it explains some questions about Public Defender and Private Lawyer, and shows with indubitable way the important function of the conciliator in the society. It intends to propose policies and strategies to spread and consolidate the Social Rights.

Keywords: Social Rights. Humans Rights. Constitution. Public Defender’s Office. Citizen. INTRODUçãO

O presente texto aborda a evolução dos Direitos Sociais, bem como traça alguns comentários sobre a sua aplicação no Estado brasileiro. Pretende-se, também, analisar o surgimento da Assistência Judiciária, do acesso à Justiça e da Defensoria Pública, esta entendida como instituição essencial à função jurisdicional do Estado, cuja dimensão ultrapassa o positivismo jurídico, vindo a fortalecer o bem comum.

O Brasil, a partir do início do século XX, seguindo tendência dos países mais avançados na questão dos Direitos Sociais, também começou a se preocupar com o assunto, tornando-o sinônimo de direito das maiorias marginalizadas e pobres, sob o nome de Direitos do Homem e do Cidadão. Vale lembrar que essas influências doutrinárias e sociais já apareciam em nossos textos constitucionais, imperiais e republicanos.

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A Constituição promulgada em 05 de outubro de 1988 elenca, em seu Título II, os Direitos e Garantias Fundamentais. Mais especificamente no Capítulo I desse mesmo título, encontramos os Direitos e Deveres Individuais e Coletivos. Trata-se de um marco no avanço das garantias e direitos individuais do cidadão, e na responsabilidade do Estado pela execução de políticas e serviços que resultem numa sociedade mais justa.

Também constitui uma característica da nova ordem constitucional a ampla disponibilização do Judiciário para a solução de conflitos, muitos deles decorrentes da inobservância dos direitos e garantias individuais trazidos pela nova Lei Fundamental, que estabeleceu como alicerces do nosso Estado Democrático e de Direito, não somente a dignidade da pessoa humana, como também a construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

Para a concretização desse ideal foram alçados à categoria de Direitos Sociais aqueles relacionados à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, ao lazer, à segurança, à previdência social, à proteção à maternidade, à infância e à assistência aos desamparados; conforme o artigo 6o da Constituição Federal. Na pesquisa

realizada, observa-se que a aplicação desses direitos é feita pela Assistência Judiciária individualizada, tanto no âmbito judicial quanto no extrajudicial. A Constituição de 1988, ao consagrá-los, criou a Defensoria Pública para garantir o acesso à Justiça dos hipossuficientes.

Entende-se que tudo se resume em sua luta pela sobrevivência (autodefesa), tão remota quanto a história da raça humana. O exercício da defesa, ou o exercício de seu direito, tem sua origem a partir da existência dos primeiros códigos. É na Antiguidade que se tem notícia da prática da defesa de maior notoriedade: a de Sócrates perante o Tribunal de Atenas. Segundo o relato de Platão, em “Apologia de Sócrates”, aquele filósofo foi condenado à morte em processo decorrente de uma queixa apresentada por Meletos, Anitis e Licon, que o acusavam do crime de não admitir os deuses reconhecidos pelo Estado e de cultuar novas divindades, além do grave delito de corromper a mocidade. Nas palavras de alguns autores, o relato de autodefesa do filósofo se coloca entre as mais belas páginas de eloquência legadas à posteridade. Sócrates disse:

Mas, ó cidadãos, talvez o difícil não seja isso: fugir da morte. Bem mais difícil é fugir da maldade, que corre mais veloz que a morte. E agora eu, preguiçoso como sou e velho, fui apanhado pela mais lenta, enquanto os meus acusadores, válidos e leves, foram apanhados pela mais veloz: a maldade. Assim, eu me vejo condenado à morte por vós; vós, condenados de verdade, criminosos de improbidade e de injustiça. Eu dentro da minha pena, vós dentro da vossa. E talvez essas coisas devessem acontecer mesmo assim. E creio que cada qual foi tratado adequadamente.1

1 Apologia de Sócrates apud GALLIEZ, Paulo Cesar Ribeiro – Princípios Institucionais da Defensoria Pública, 2ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris Ltda, 2007.

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A ASSISTÊNCIA JUDICIáRIA Origem

A assistência aos desamparados remonta ao Estado Liberal burguês. A classe economicamente dominante, até hoje mantida, impõe a preservação de seus direitos e, ao mesmo tempo, procura assegurar, em sede constitucional, a garantia de igualdade de todos perante a lei. Para manter o equilíbrio entre as forças dominantes, “os donos do poder” e os oprimidos, é que surge a Assistência Judiciária. Essa expressão, para designar o instituto jurídico, apareceu em 22 de janeiro de 1851, com a instituição do “Code de l’Assistance Judiciaire”. No Brasil, esse sistema teve suas variações tanto no âmbito constitucional quanto na legislação ordinária.

Em seguida, analisam-se as mudanças que aconteceram na histórica política do nosso País e a evolução da concepção de cidadania.

Evolução da Assistência Judiciária no Brasil

Para alguns autores, a trajetória da Assistência Judiciária adotada no Brasil, compreende três momentos:

O primeiro que abrange sua origem nas Ordenações Filipinas, que vigoraram até 1916, dispunha, em seu Livro III, Título 84, parágrafo 10: “as causas cíveis e criminais dos miseráveis e dos indefesos em juízo seriam patrocinadas, gratuitamente, por advogados particulares”. Em 1930, o 1º Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil impôs aos advogados inscritos a prestação da Assistência Judiciária gratuita às pessoas que não tinham recursos para pagar os honorários advocatícios. No Brasil, essa assistência ganhou o sentido de garantia constitucional com o advento da Constituição de 1934, art. 113, nº 32, nos seguintes termos: “a União e os Estados concederão aos necessitados assistência judiciária, criando, para esse efeito, órgãos especiais, assegurando a isenção de emolumentos, custas, taxas e selos”. Constitucionalmente, foi reconhecida a prestação desse serviço como dever do Estado, que seria realizado por advogados servidores públicos. Na Constituição de 1937, esses direitos e garantia individuais foram retirados do texto constitucional.

Por sua vez, a Constituição de 1946 consagra-os em seu art. 141, parágrafo 35: “o poder público, na forma que a lei estabelecer, concederá Assistência Judiciária aos necessitados”. Em 1950, foi promulgada a Lei 1.060, que regulamentou pela primeira vez a Assistência Judiciária no Brasil. Esse diploma legal, envolvendo apenas os atos do processo, apresentou as seguintes características: instituiu-a e a organizou, ainda com o nome de judiciária; definiu os princípios que acompanham sua instalação e seu funcionamento até hoje – como os conceitos de beneficiário

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e necessitado e os limites desse serviço; a assistência seria prestada de forma individualizada aos necessitados, brasileiros ou estrangeiros, que residissem no país; e o campo de ação abrangeria a Justiça penal, Civil, Militar ou do Trabalho.

Para melhor compreensão, a lei 1060/50, que finaliza o primeiro momento em seu artigo 2º, § único, assim definiu o termo “necessitado”: “Considera-se necessitado, para os fins legais, todo aquele cuja situação econômica não lhe permita pagar as custas do processo e os honorários do advogado, sem prejuízo próprio ou da família”.

O segundo momento se estende de 1950 até a Constituição Federal de 1988. Na Constituição de 1967 manteve-se esse direito – art. 150, parágrafo 32.

A Emenda Constitucional de 1969, art. 153, parágrafo 32, reza: “será concedida assistência judiciária aos necessitados, na forma da lei”. Na Constituição de 1988, essa regra se aprimora, tornando a atual prescrição mais ampla, da garantia de Assistência Judiciária, integral e gratuita, no art. 5º, inciso LXXIV, onde se lê:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: – o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos.

Nesse texto constitucional, encontramos uma substancial ampliação da Assistência Judiciária, quando se observa que o Legislador inova ao substituir o adjetivo qualificador da palavra assistência, de judiciária para jurídica. O campo de atuação já não delimita em função do atributo “judiciário”, mas passa a compreender tudo o que seja “jurídico”.2 Além disso, a palavra assistência ainda foi reforçada

pelo acréscimo da palavra “integral”, importando, assim, em notável ampliação do universo que se quer cobrir. A partir desse momento, os necessitados, ou os que comprovarem insuficiência de recursos, ou, como queiram, os hipossuficientes, passaram a fazer jus à dispensa de pagamento e à prestação de serviços, não apenas na esfera do judiciário, mas em todo o campo dos atos jurídicos como: a instauração e movimentação de processos administrativos perante quaisquer órgãos públicos, em todos os níveis; os atos notariais e quaisquer outros de natureza jurídica praticados extrajudicialmente; e a prestação de serviços de consultoria, ou seja, de informação e aconselhamento em assuntos jurídicos.

O terceiro momento, caracterizado pelas mudanças da Constituição Federal de 1988, permite que se observe o seguinte: a Assistência Jurídica no Brasil foi atingindo relevância ao longo de sua história, culminando com a organização jurídica da Defensoria sob a égide da lei complementar 80, de 12 de janeiro de 1994 – Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública.

2 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. O direito à assistência jurídica: evolução no ordenamento brasileiro de nosso

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ACESSO à JUSTIçA

Surgimento no Estado Democrático

Cappelletti e Garth produziram interessante ensaio para o “Projeto de Florença”, a fim de encontrar uma nova e compreensiva abordagem ao acesso à “ordem jurídica justa”, cuja nomenclatura passaram a adotar. Nesse estudo, os autores identificaram três grandes ondas renovatórias no sentido de solucionar a problemática de acesso à ordem jurídica justa.

A primeira, com início em 1965, concentrou-se na Assistência Judiciária; a segunda tratou das reformas com o objetivo de proporcionar representação jurídica para os interesses difusos – especialmente nas áreas da proteção ambiental e do consumidor; e a terceira, focada no acesso à justiça, baseada nas experiências anteriores, porém indo mais além, visando a atacar as barreiras ao acesso de modo mais articulado e compreensivo.

No Brasil, o direito à Justiça foi consolidado na Constituição de 1988, com a finalidade precípua de instituir um Estado Democrático, destinado não só a garantir o exercício dos direitos, como também a eleger a Justiça para assegurar o controle jurisdicional. O princípio da garantia da via judiciária consta nas Constituições brasileiras, visto que a Justiça é entendida como um dos valores supremos de uma sociedade que se pretende fraterna e pluralista. O acesso à Justiça, entendido anteriormente como acesso aos Tribunais, já não atende mais aos anseios de pessoas aflitas na busca de soluções para os seus conflitos. Hoje, deseja-se mais: a efetivação da prestação desse direito, que deve ser compreendido em nossos dias como fundamental e formal, preconizado em nossa Constituição de 1988, em contraposição aos óbices postos à sua consecução, compreendendo o desconhecimento do direito; a pobreza; a morosidade processual; e a inadequação da resposta judicial para certos tipos de conflito.

Os Óbices

O desconhecimento do direito

Para superar há de se pensar em promover primeiramente o conhecimento, aqui entendido como direito a ter direitos. Desconhecer seus direitos deixa o cidadão completamente alienado e vulnerável para garantir sua efetivação perante os tribunais. Não é raro encontrarmos no dia a dia dos tribunais pessoas que se sintam constrangidas pelo fato de estarem em Juízo. Por uma perversão cultural, reivindicá-los passou a ser a exceção.

Informar-se sobre as leis e o limite de seus direitos é fundamental. A proliferação de demandas judiciais, em sua grande maioria, poderia ser evitada,

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bastando que o cidadão soubesse como agir em sociedade. Ao desconhecer a lei e suas limitações, como poderão usufruir da garantia de legitimá-los? A proclamação dos direitos constitucionais, inclusive o acesso à Justiça, não pode ser entendida como mera retórica, pois, como é de domínio público, uma sociedade capaz de resolver seus conflitos é uma sociedade pacífica.

Atualmente, ao se encaminhar os cidadãos para os tribunais, há, por vezes, uma falsa tranquilidade de consciência que ao final do percurso haverá Justiça. Não se esquecendo de que esses cidadãos, para fazerem valer os seus direitos, mesmo sendo parte prejudicada, deverão arcar com excessivo dispêndio a fim de alcançar a solução de seu conflito, muitas das vezes atingindo seu próprio sustento. O jurista Joaquim Canuto Mendes de Almeida já nos fazia a seguinte advertência: “não há direito de ação e sim ônus de ação”. Em lugar da orgulhosa proclamação da vítima: “Vou procurar os meus direitos”, vê-se a ironia do infrator: “Vá procurar por justiça”.

E, com essa atitude, presenciamos a sobrecarga do Poder Judiciário. A população aumenta sem informação. Consequentemente, os conflitos também aumentam, enquanto o contingente de magistrados e funcionários fica sufocado com a demanda, originando o deturpado entendimento de que a máquina judiciária é pesada e lenta. Estabelece-se, assim, um paradoxo: quanto melhor sucedido o Judiciário, pior o acesso, em razão da demanda que ele atrai. Hoje, encara-se esse conhecimento como um direito – o direito aos direitos. Como torná-lo conhecido? Para resolver esse impasse consideram-se dois segmentos a serem examinados: um institucional e outro pessoal.

No institucional os Tribunais e Associações de Magistrado, o Ministério Público e a Defensoria Pública já desempenham relevante papel com a publicação de cartilhas da cidadania, as quais contêm elencados os direitos que consubstanciam o direito a ter direitos. Como obter Assistência Judiciária, pedir alimentos, regularizar a paternidade, a separação judicial, o divórcio e a propriedade; bem como retificar o nome e abrir inventário, dentre muitas outras possibilidades. Não obstante tal empenho tem-se a plena convicção de que muito ainda terá de ser feito.

No pessoal encontram-se a figura do Juiz, do Promotor de Justiça, do Defensor Público e dos operadores de direito, os quais também têm condições de disseminar o conhecimento do direito em sua lide diária. A oralidade dos processos e a simplificação da linguagem constituem marcos para a transformação social por meio da judicialização das relações humanas.

A pobreza

A pobreza não está afeta apenas aos países menos desenvolvidos, considerando-se que nos denominados desenvolvidos encontramos a pobreza associada aos pobres sem casa e aos subúrbios pobres. Podemos classificá-la como

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carência material, falta de recursos econômicos, carência social – entendendo carência material como a de necessidade diária, compreendendo alimentação, vestiário, falta de moradia e cuidados com a saúde; falta de recursos econômicos, os rendimentos, a falta de emprego ou a riqueza –, notadamente a exclusão social, a incapacidade de pertencer a uma camada da sociedade, em razão da falta de educação e de informação. Suas causas e sua erradicação são altamente complexas, envolvendo fatores estruturais que impedem o crescimento econômico, como a falta de proteção aos Direitos Sociais.

A morosidade processual

Muito se fala de lentidão processual para obtenção de sentença definitiva e sua imediata execução. Costuma-se dizer que justiça tardia é justiça nenhuma. Esse pensamento remete ao Poder Judiciário, que, assim, apresenta-se como o grande vilão. O leal reconhecimento faz admitir que a primeira impressão sobre a lentidão processual do Poder Judiciário é completamente equivocada. De um modo geral, observa-se que se anda em círculo, tudo se resumindo no fator educação. Precisa-se educar, educar e educar. Ao negligenciar a educação, o País certamente não contribui para a nova consciência sociopolítica e econômica que acompanha os passos da modernidade. Sem compreensão dos direitos, fica fácil deixar de cumpri-los.

O próprio Estado aparece como estimulador de demandas repetitivas. O constituinte de 1988 efetuou uma série de promessas de igualdade social, de acesso à saúde, de proteção à família e ao adolescente, que o Estado-Administração teima em postergar. Contando com dois fatores – a acomodação e a morosidade da Justiça –, o administrador adia o cumprimento de suas obrigações constitucionais, esperando que a “fatura” somente seja descontada pelo governo posterior, deixando de pensar no Estado brasileiro, que é permanente, para enxergar apenas o horizonte de quatro anos.

Por acomodação entenda-se a expectativa de todos os cidadãos prejudicados por ações ou omissões do Estado, dos quais apenas uma ínfima parte vem a juízo reclamar. Assim, quando defere aumento disfarçado de gratificação especial para funcionários ativos, esquecendo-se dos inativos, o Estado confia que a maioria não irá a juízo reivindicar a paridade; quando nega remédios de uso continuado aos doentes crônicos, o Estado espera que apenas uma minoria irá servir-se da tutela jurisdicional e garantir vida digna.

O Estado, assim, provoca e conta com a morosidade da Justiça para assegurar que o que é devido será pago pela administração seguinte. Cria-se, portanto, o sistema de pagamento por precatório, instituto existente somente em nosso Direito. O que foi inventado para garantir a lisura da ordem de pagamento constitui, hoje, mero instrumento de protelação. Usando o paradigma do Estado, os grandes

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fornecedores de serviço também estimulam e se aproveitam das demandas em massa para garantir o descumprimento de seus deveres legais.

A inadequação da resposta judicial para certos tipos de conflito

A Justiça é justa? O Juiz deve enfrentar o litígio aplicando a regra de direito apropriada. A Justiça brasileira foi cunhada sobre a regra da “Dura lex, sed lex”. Ora, lei justa não é dura, é justa. Busca de justiça mais harmoniosa – cláusulas gerais, Código de Defesa do Consumidor (CDC) etc.

Ao juiz é entregue um caderno processual no qual compreende as provas e descreve o litígio jurídico. É a parte visível do iceberg. Ao juiz não é lícito conhecer a parte invisível do conflito pessoal, alimentado pelo rancor, pelo mal entendido, e pelo não dito. Resolver o problema, via de regra, não traz resposta satisfatória aos litigantes, mas, sim, faz nascerem novos litígios jurídicos com base no mesmo litígio humano, o que faz lembrar a expressão “vitória de Pirro”.

Pirro, rei de Epiro, passou à historia como um notável general da Antiguidade, ao vencer o poderoso Exército romano na batalha de Ausculum, em 279 A.C. Contudo, esse triunfo militar causou-lhe tão elevadas perdas que, segundo a tradição, teria dito: “Mais outra vitória como esta e estou perdido”. Nascia daí a expressão “vitória de Pirro”, tão cara aos nossos juristas. Disso, resulta uma insatisfação que deve encaminhar-se não para o conformismo, mas, sim, para soluções simples – o processo tem de ser meramente instrumental e simplificado.

DEFENSORIA PÚBLICA Origem

A Defensoria Pública firmou-se como instituição essencial do Estado de Direito a partir da proclamação da Constituição de 1988, que, em seu art. 134 diz: “A Defensoria Pública é instituição essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa, em todos os graus, dos necessitados”, na forma do art. 5º LXXIV que diz: “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”.

Historicamente, tem sua origem na Assistência Judiciária do Estado liberal-burguês, até hoje mantido, visando a assegurar constitucionalmente a garantia de igualdade perante a lei. Desse modo, para neutralizar os conflitos havidos entre as classes sociais, o Estado materializa essa ação por seu intermédio, no sentido de promover a postulação e a defesa dos interesses da classe economicamente oprimida, incluindo nessa categoria a classe média, devido à crise que atravessa o País.

Após 1988, com a consolidação da instituição pública na defesa individual dos cidadãos, em 15 de janeiro de 2007, a Lei nº 1.448 alterou o art. 5º da Lei nº.

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7.347, de 26/07/1985, que disciplina a ação civil pública e inclui a Defensoria Pública como legitimada para propor a ação principal e a ação cautelar. Seu atuar está ainda previsto no artigo 4º, inciso VII da Lei Complementar nº 80/94, e sua finalidade é a libertação de presos, adotando medidas como livramento condicional, comutação, remissão ou progressão de regime, tudo com a finalidade de diminuir a população carcerária.

Assim, a Defensoria Pública atende aos interesses individuais e coletivos de seus assistidos, exercendo atividade essencial para a consolidação do Estado Democrático de Direito, primordialmente com os Magistrados, no tocante à garantia de defesa preconizada pela Constituição (art. 5º, LV), quando estabelecida a relação processual civil, penal e administrativa, em estrito cumprimento ao princípio do contraditório mencionado anteriormente.

Observa-se que a Defensoria Pública postula e defende seus assistidos, patrocinando interesses de determinada classe social, solucionando conflitos de grande repercussão social, justamente para permitir o acesso irrestrito à Justiça, sem distinção de qualquer natureza, corroborando o princípio da igualdade de todos perante a lei, sustentáculo da democracia, dos direitos individuais e do progresso social. A par dessas adversidades, essa Instituição vem impondo respeito e dignidade, com merecido destaque internacional por intermédio de seus Defensores Públicos, a ponto de ser indicada como modelo-padrão para outros países.

A DEFENSORIA PÚBLICA NO ÂMBITO DA SEGURANçA NACIONAL

A Defensoria como órgão destinado pelo Estado ao cumprimento de seu dever constitucional de prestar assistência jurídica integral ao cidadão, que não tem condições financeiras de pagar despesas de postulações e/ou despesas judiciais e extrajudiciais, ou mesmo de aconselhamentos jurídicos no âmbito da Segurança Pública e no contexto de Segurança Nacional, cumpre papel fundamental na condução de busca de soluções de Justiça para os menos favorecidos – que, no caso do Brasil, constituem enormes segmentos populacionais – amenizando e solucionando conflitos de toda a ordem: família, cível, criminal e fazenda pública, objetivando, assim, a paz social e o bem comum para a população menos privilegiada, social e economicamente.

Na região amazônica, onde é acentuada a carência de políticas sociais e econômicas justas, destacam-se os conflitos ligados à propriedade, tanto na área urbana como na rural. Com isso, os conflitos de limites e posses se avultaram instavelmente, maculando profundamente a ordem social da região. Nesse contexto, sendo o Estado de Direito reputado como o único no sentido constitucional a garantir verdadeiramente os direitos do cidadão, dele deriva o papel a ser desempenhado pela Defensoria Pública, permitindo acesso à Justiça ao menos favorecidos, social e economicamente. Assim, cumpre-se seu papel

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constitucional de manutenção do Estado Democrático de Direito. Ao assegurar ao assistido Assistência Judiciária integral e gratuita está caminhando no sentido de fazer parte de um mundo mais democrático e homogêneo, visando a amenizar as desigualdades socioeconômicas.

A Constituição de 1988, ao assegurar o acesso à Justiça aos hipossuficientes como seguimento do exercício da cidadania, está promovendo o bem-estar social, colaborando de maneira efetiva para a Segurança Nacional, garantindo a igualdade substancial entre todos os cidadãos ao instrumentalizar o exercício de diversos direitos e garantias individuais, representando-os nos Poderes constituídos. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 70 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, reclamando a urgente adoção de Políticas Públicas que visem a solucionar esse lamentável quadro social3.

Dentre essas indispensáveis medidas está a efetiva instalação das Defensorias Públicas nos Estados que ainda não atenderam à imposição constitucional, bem como o fortalecimento daquelas já existentes.

Como se observa, nosso País é o único que deu tratamento constitucional ao direito de acesso à Justiça e à Defensoria Pública aos hipossuficientes de recursos, com sua missão constitucional de garantir os princípios constitucionais de acesso à Justiça e igualdade entre as partes, e o direito à efetivação de direitos e liberdades fundamentais (o direito de ter direitos), desponta no cenário nacional e internacional como uma das mais relevantes instituições públicas, essencialmente comprometida com a democracia, a igualdade e a construção de uma sociedade mais justa e solidária.

A EFETIVAçãO DOS DIREITOS SOCIAIS VOLTADOS PARA O BEM COMUM

Numa leitura atenta do artigo 3º da Constituição de 1988, vimos que ela confere ao Estado brasileiro o objetivo fundamental de promoção da Justiça Social. O inciso III não poderia ser mais contundente: ”[...] reduzir as desigualdades sociais e regionais”. A preocupação com esse tema nos tempos modernos refletiu-se em seu tratamento explícito em nossa Carta de 88, dando-lhe um caráter contemporâneo, que em seu artigo 6º define os direitos sociais nos quais vai se basear a moderna cidadania brasileira. O art. 6º diz: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

São diretrizes claras de amparo às maiorias oprimidas, que só podem prosperar a partir de uma reflexão profunda sobre como as práticas sociais e judiciais têm determinado a perenização das relações de dominação e subordinação entre desiguais. A igualdade de acesso ao básico, que vem resvalar na temática dos Direitos Sociais, exige uma distribuição mais justa do progresso e da riqueza entre salários, bens de produção, lucros e empregos.

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No caso brasileiro, não se trata apenas da dívida social com os negros. Herdamos da Colônia e do Império muito mais que problemas raciais e indígenas. Para começar, a formação da sociedade brasileira tem um traço forte de segmentação das classes sociais, com os privilégios estabelecidos pela Coroa aos senhores de engenho do Nordeste. A imensa comunidade de vítimas dos modelos socioeconômicos adotados deixou a sociedade brasileira com a sensação de banalização da inferioridade. É crescente a demanda de um Judiciário mais politizado, fenômeno oriundo da incorporação dos Direitos Sociais. É grande a expectativa da comunidade brasileira, no tocante a esse mesmo Judiciário, quanto à defesa dos direitos da coletividade, em auxílio ao Executivo e ao Legislativo.

CONCLUSãO

O tema A Assistência Judiciária – Defensoria Pública no âmbito da Segurança Pública e a efetivação dos Direitos Sociais voltados para o bem comum – foi escolhido com o propósito de divulgar a experiência da Defensoria Pública.

Em que pese esse vácuo deixado pela não prestação jurisdicional a contento – apesar da Constituição Federal, o Poder Público ainda não atingiu sua plena eficiência na prestação dos serviços jurisdicionais. É o cidadão quem suporta as dificuldades e prejuízos decorrentes, ferindo os fundamentos e os objetivos do nosso Estado Democrático e de Direito previstos na Lei Fundamental.

A Defensoria Pública é órgão estatal legitimado constitucionalmente para pôr em prática meios alternativos de solução ou gestão de conflitos. Suas prerrogativas contribuem para a afirmação da paz social e proporcionam a segurança jurídica, seja pela celeridade, seja propiciando a gradual e sustentada transformação positiva da sua atividade, diante de seu caráter sociopedagógico

O estudo em questão debruçou-se sobre as questões que envolvem Assistência Jurídica, mostrada sob a ótica das evoluções constitucionais. Abordou a difícil questão do acesso à Justiça, bem como a criação da Defensoria Pública, salvo melhor juízo, em muito contribuirão para a efetivação dos Direitos Sociais na busca do bem comum.

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