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A cooperação jurídica no direito internacional e o modelo brasileira : modalidades, atores e convenções

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KARINA CUSTÓDIO ZUCOLOTO SENNA

A COOPERAÇÃO JURÍDICA NO DIREITO INTERNACIONAL E O CONTEÚDO DAS RESTRIÇÕES À PRODUÇÃO DE PROVAS NO BRASIL

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre em Direito Internacional e Econômico. Orientador: Dr. Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

Brasília 2010

Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa

Stricto Sensu em Direito

Trabalho de Conclusão de Curso

A COOPERAÇÃO JURÍDICA NO DIREITO INTERNACIONAL E

O MODELO BRASILEIRO: MODALIDADES, ATORES E

CONVENÇÕES.

Brasília - DF

2010

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KARINA CUSTÓDIO ZUCOLOTO SENNA

A COOPERAÇÃO JURÍDICA NO DIREITO INTERNACIONAL E O MODELO BRASILEIRO: MODALIDADES, ATORES E CONVENÇÕES.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre em Direito Internacional e Econômico. Orientador: Prof. Dr. Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

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Zucoloto Senna, Karina Custódio

A cooperação jurídica no direito internacional e o modelo brasileiro: modalidades, atores e convenções. Karina Custódio Zucoloto Senna. Maio/2010.

Paginação: 186 p.

Mestrado em Direito da Universidade Católica de Brasília, Maio/2010. Orientação: Dr. Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy.

1. Cooperação. 2. Internacional. 3. Jurisprudência brasileira. I. Godoy,

Arnaldo Sampaio de Moraes. II. A cooperação jurídica no direito internacional e o modelo brasileiro: modalidades, atores e convenções.

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TERMO DE APROVAÇÃO

Dissertação de autoria de Karina Custódio Zucoloto Senna, intitulada A Cooperação Jurídica No Direito Internacional e o Modelo Brasileiro: Modalidades, Atores e Convenções”, apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Direito pela Universidade Católica de Brasília, em 24 de maio de 2010 defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:

____________________________________________________ Prof. Dr. Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

Orientador

____________________________________________________ Prof. Dr. Antônio Paulo Cachapuz de Medeiros

Examinador Interno

____________________________________________________ Prof. Dr. Marcelo Dias Varella

Examinador Externo

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AGRADECIMENTO

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RESUMO

ZUCOLOTO SENNA, Karina Custódio. A cooperação jurídica no direito internacional e o modelo brasileiro: modalidades, atores e convenções. 2010. 186 folhas. Mestrado em Direito Internacional e Econômico da Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2010.

A integração e a troca de informações jurídicas entre os Estados é requisito primordial para efetividade da cooperação jurídica internacional. Sua necessidade é evidenciada quando se busca promover, de forma recíproca, a prevenção, a punição, a repatriação de bens de crimes como a lavagem de dinheiro, tráfico internacional de entorpecentes, de armas, além de possibilitar o cumprimento de decisões estrangeiras no território nacional, sejam ou não de cunho decisório/executório, como a localização e repatriação de menores, penhora ou seqüestros de bens, quebra de sigilo bancário e fiscal. A análise comparativa da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (até a EC n. 45/2004) e do Superior Tribunal de Justiça (após EC n. 45/2004) demonstra que a justiça brasileira tem se mostrado alinhada com o pensamento internacional em que, à guisa de interesses comuns, a união de esforços e a implementação de medidas internas para promover a cooperação jurídica internacional nos planos civil e penal tem merecido destaque em nossos tribunais. Destaque também há de ser dado ao Poder Executivo, que ao criar o COAF e o DRCI, viabilizou a possibilidade de instauração de processos criminais contra pessoas suspeitas de lavagem de dinheiro ao permitir o monitoramento bancário de operações suspeitas. O Poder Legislativo também deve ser lembrado ao permitir, com o referendum, que a República Federativa do Brasil contribua com a comunidade internacional ao ratificar convenções multilaterais de importância ímpar para a cooperação jurídica internacional como as Convenções da ONU contra o crime organizado, contra a corrupção e contra as drogas. Os meios diplomáticos e a previsão cada vez mais freqüente do instituto da autoridade central nos tratados internacionais também propugnam pela cooperação mais célere.

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ABSTRACT

Exchange of information and the integration among the States is a fundamental qualification for the effectiveness of the international juridical cooperation. Its necessity is quite evident whenever one tries to enhance, reciprocally, the prevention, the punishment and the repatriation of goods and means generated by white collar crimes, as money laundering, smuggling of drugs, weapons, as well as the possibility of enforcing foreigners decisions within the national territory, no matter its range, such as those related to bank and fiscal secrecy. The comparative analysis of the opinions of the Brazilian Supreme Court as well as the opinions of the Brazilian Superior Federal Law Court brings evidence to the idea that the Brazilian law enforcement has been whitin to the main stream international thought related to commons concerns as for the implementation of internal measures designed to improve the international forensic cooperation both in the criminal and civil matters. The thesis also highlights the Brazilian Executive branch, which has allowed the opportunity for criminal procedure against suspects of money laundering, due to the monitoring of suspicious banking transactions. The Legislative branch is also mentioned for its authorization, via referendum, that the Republic Federative of Brazil concurs with the international community as long as it can ratify multilateral agreements of unique importance such as the UN Convention against organized crime, corruption and drug smuggling. The diplomatic means and the everlasting provision for a central authority on the scenario of international treaties also do concur for a more rapid pattern of cooperation.

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LISTA DE SIGLAS

AG.RG. – AGRAVO REGIMENTAL CF CONSTITUIÇÃO FEDERAL

CIDIP CONFERÊNCIA ESPECIALIZADA INTERAMERICANA SOBRE DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO

COAF CONSELHO DE CONTROLE DE ATIVIDADES FINANCEIRAS CPP CÓDIGO DE PROCESSO PENAL

CR - CARTA ROGATÓRIA

DRCI – DEPARTAMENTO DE RECUPERAÇÃO DE ATIVOS E COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL

EC – EMENDA CONSTITUCIONAL

HC –HABEAS CORPUS

LICC LEI DE INTRODUÇÃO DO CÓDIGO CIVIL MIN. - MINISTRO

MJ – MINISTÉRIO DA JUSTIÇA MP MINISTÉRIO PÚBLICO

MPF MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

MRE – MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES

OCDE – ORGANIZAÇÃO PARA COOPERAÇÃO E DESEVOLVIMENTO

ECONÔMICO

OEA – ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS ONU ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

CAPÍTULO 1: MODALIDADES DE COOPERAÇÃO ... 13

1.1 CARTA ROGATÓRIA ... 15

1.1.1. Trâmite das cartas rogatórias ... 21

1.2 COOPERAÇÃO DIRETA (OU AUXÍLIO DIRETO OU AUXÍLIO MÚTUO OU ASSISTÊNCIA DIRETA) ... 25

CAPÍTULO 2: OS ATORES DA COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL NO BRASIL ... 39

2.1. OS CANAIS DE TRAMITAÇÃO E DE RELAÇÃO COM OS ESTADOS REQUERENTES ... 39

2.1.1 O canal diplomático... 41

2.1.2 A autoridade central e o seu papel ... 44

2.2 O PODER EXECUTIVO ... 47

2.2.1 O Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI) ... 47

2.2.2 O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) ... 50

2.3 O PODER LEGISLATIVO ... 55

2.4 AS AUTORIDADES JUDICIÁRIAS INTERVENIENTES ... 58

2.4.1 O juízo de delibação ... 59

2.4.2 O juízo de execução ... 64

2.5 MINISTÉRIO PÚBLICO ... 69

2.6 AS PARTES INTERESSADAS ... 77

CAPÍTULO 3: A PRODUÇÃO DE PROVAS A ROGO DE JURISDIÇÃO ESTRANGEIRAS ... 79

3.1. TRATADOS BILATERAIS ... 82

3.2 TRATADOS REGIONAIS ... 88

3.2.1 Mercosul ... 88

3.2.2 OEA ... 96

3.3 TRATADOS GLOBAIS ... 100

3.3.1 Convenções da HAIA ... 100

3.3.2 Convenção da ONU contra o crime organizado (ou Convenção de Palermo) ... 106

3.3.3 Convenção da ONU contra a corrupção (ou Convenção de Mérida) ... 110

3.3.4 Convenção da ONU para o combate às drogas (ou Convenção de Viena) ... 112

3.4 A RECIPROCIDADE INTERNACIONAL ... 118

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 123

BIBLIOGRAFIA ... 130

REFERÊNCIAS... 133

ANEXO A –... 136

(11)

INTRODUÇÃO

Como processo natural do desenvolvimento dos povos, a tendência no cenário internacional é a extinção das barreiras entre as nações, fato visualizado a cada dia com a crescente circulação de pessoas e bens na sociedade. A criação de organismos internacionais também é uma realidade de integração.

Tratados multilaterais declaradores de direitos e deveres a serem cumpridos pelos signatários, criação dos blocos econômicos e a preocupação incessante de promover a celeridade na solução dos conflitos, fazem com que os Estados se unam solidariamente, num fenômeno denominado cooperação internacional, que poderá ser econômica, financeira, técnica, cientifica, jurídica.

Um pedido de cooperação internacional é o mecanismo pelo qual um país ou uma instituição promove o intercâmbio de experiências bem sucedidas ou uma forma de assistência para a solução de algum problema. A cooperação jurídica se dá quando o aparato judicial de uma nação se mostra insuficiente à solução da controvérsia, precisando recorrer ao auxílio que lhe possam prestar outras nações, por meio de suas respectivas atividades jurisdicionais. Traduz-se, na verdade, como sendo uma política de ajuda mútua no âmbito internacional.

O presente trabalho perpassa pela cooperação jurídica internacional (civil e penal) e buscará demonstrar o papel da justiça e do Estado brasileiros nesse cenário, que não é novo, mas que sofreu inúmeros avanços e crescimento vultoso com relação à sua utilização.

Partindo da relativização do conceito de soberania e da concretização da interdependência entre os Estados, a cooperação jurídica alça vôo e demonstra que, nos dias contemporâneos, o dever de cooperar, muito “mais do que uma liberalidade de cada Estado, tornou-se uma necessidade”1. E porque não dizer uma

obrigatoriedade se considerados os mais variados tratados internacionais firmados com esse propósito?

1SOUZA, Carolina Yumi de. Cooperação jurídica internacional em matéria penal: considerações

práticas, in Revista Brasileira de Ciências Criminais 71. Editora Revista dos Tribunais, São Paulo,

(12)

O objetivo da cooperação jurídica internacional, como facilitador da troca de informações/soluções de problemas existentes no Estado, é possibilitar que solicitações externas sejam aqui executadas e vice-versa, devendo haver um respeito recíproco à soberania, à ordem pública e, principalmente, à salvaguarda de direitos e garantias individuais. Em outras palavras, trata-se de um pedido de assistência entre Estados, em que um reconhece a atividade jurisdicional do outro dentro do seu próprio território, sem que esta ação implique em violações materiais.

E é exatamente em torno dessa difícil tarefa de conciliar direitos e garantias com pretensões executórias estrangeiras no território brasileiro e que devem ser decididas pelo Poder Judiciário, que o presente trabalho gravita. Afinal, a República Federativa do Brasil exerce um papel eficiente perante a sociedade internacional quando o tema é cooperação jurídica internacional?

A pesquisa foi motivada em razão da modificação, pela Emenda Constitucional n. 45/2004 (EC n. 45/2004), da competência para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) para homologação de sentenças estrangeiras e concessão de

exequatur às cartas rogatórias, tarefa que desde a década de 30 era exercida pelo

Supremo Tribunal Federal (STF).

Diante da recente jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e da sua Resolução n. 9/2005, inovadora em temas como auxílio direto e homologação de sentença via carta rogatória, busca-se demonstrar que a EC n. 45/04 teve papel crucial para o incremento da cooperação jurídica internacional pelo Estado brasileiro.

A análise da jurisprudência do STJ foi realizada no sítio eletrônico do tribunal (www.stj.jus.br2) de onde foram analisadas decisões colegiadas e monocráticas (incluindo as decisões da presidência) publicadas no período de 1º de janeiro de 2005 à 1º de dezembro de 2009, perfazendo um total de aproximadamente 14.868 decisões.

Já a jurisprudência do STF, também realizada no sítio eletrônico desse tribunal (www.stf.jus.br), onde foram analisadas também decisões colegiadas e

2 Para a pesquisa, foram utilizadas as expressões CARTA e ROGATÓRIA, pela qual foi possível a

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monocráticas (incluindo as decisões da presidência) publicadas no período de 1º de janeiro de 2000 à 31 de dezembro de 2004, perfazendo um total de aproximadamente 600 decisões.

As distorções entre a jurisprudência desses dois tribunais começam a ser demonstradas no Capítulo 1, ao se fazer uma abordagem sobre as modalidades de cooperação jurídica internacional, com enfoque especial para a carta rogatória e o auxílio direto, instrumento novíssimo no ordenamento jurídico interno, ainda passível de legislação que o regulamente mas previsto na Resolução n.9 do STJ, segundo o qual é solicitado por uma autoridade central (designada pelo tratado internacional) e encaminhado diretamente a um juiz federal singular que irá analisar o pedido proveniente de uma autoridade estrangeira e executá-lo, após verificar a existência dos requisitos do pedido de assistência, não havendo portanto, o juízo de delibação nem concessão de exequatur, requisitos indispensáveis na carta rogatória. Esse

instrumento é destinado ao cumprimento de pedidos, segundo a doutrina, dotados de caráter não jurisdicional, mas ainda muito pouco aplicado.

(14)

Estado promitente, além da necessidade do trâmite diplomático, procedimento que prolonga a execução do pedido de cooperação.

A pesquisa pretende apresentar um quadro conclusivo a respeito das modalidades, dos atores e das convenções que nos ligam à cooperação jurídica internacional.

Como pano de fundo, pretende-se apresentar também as dificuldades jurisprudenciais no que se refere à concessão de exequatur nas cartas rogatórias

(CR), especialmente após a EC n. 45/2004.

(15)

CAPÍTULO 1: MODALIDADES DE COOPERAÇÃO

Quando o tema é cooperação jurídica internacional, fala-se na reunião de esforços entre Estados para solver problemas existentes entre si ou entre seus particulares, nacionais ou não. A busca por provas existentes em outro Estado soberano capazes de elucidar um crime ou dar respaldo ao juiz no momento da prolação da sentença é um processo que depende de cooperação, caso contrário, o objetivo estará frustrado.

Citação, intimação, oitiva de testemunhas, quebra de sigilo bancário e fiscal, sequestro de bens, a entrega de um ser humano por um Estado a outro para que responda processo criminal ou para que cumpra pena já imposta, são diligências ou atos processuais alcançados através da cooperação jurídica.

Como instrumentos para sua efetivação, é possível identificar quatro modalidades3: i) as cartas rogatórias, ii) a homologação de sentenças estrangeiras, iii) os pedidos de auxílio direto e iv) os pedidos de extradição4.

Quanto às cartas rogatórias e a homologação de sentenças estrangeiras, Ricardo Perlingeiro Mendes da Silva5 entende que o ordenamento jurídico brasileiro

3 Artur Gueiros, em seminário promovido pela Escola Superior do Ministério Público Federal, sobre

“Cooperação Penal no Mercosul”, realizado no Rio Grande do Sul, em outubro de 2001, mencionou a

existência de três ramos de cooperação, em matéria penal: “ (...) há três grandes „ramos‟ de

cooperação entre os Estados em matéria penal: primeiro, o ramo que diz respeito à colaboração no cumprimento de atos instrutórios e cautelares necessários ao desenvolvimento de determinado processo penal; segundo, o que tange à colaboração na localização, detenção e devolução do acusado da prática de determinado delito, ou daquele que já considerado culpado da prática do mesmo, para que responda a processo ou que cumpra a respectiva sanção penal – o que se dá através da extradição; e o terceiro, o que cuida da colaboração na produção de efeitos, no território

de um Estado, originários de uma sentença penal condenatória, havida em outro estado (...)”. (...)

Dessa forma, criaram-se formas de colaboração entre os Estados, desejosos de levar a bom termo a tarefa de solucionar os conflitos de natureza penal. Criaram-se, em suma, mecanismos de cooperação internacional em matéria criminal, de auxílio entre os órgãos competentes de dois ou mais Estados soberanos, através dos quais puderam ser realizados atos indispensáveis ao esclarecimento de ilícitos criminais, de repartição do produto da ação criminosa, de captura e devolução do criminoso prófugo e, por fim, de execução, no território de um Estado, da sentença penal promanada do Poder Judiciário de outro (...). CASELLA, Paulo Borba e SANCHEZ, Rodrigo Elian (orgs.). Cooperação Judiciária Internacional. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p. 4.

4 Os pedidos de extradição não serão abordados nesta dissertação porquanto o foco será na

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prevê a existência de dois procedimentos com o mesmo objetivo: “o de incorporar à

ordem jurídica nacional uma jurisdição estrangeira por intermédio de ato jurisdicional

nacional”. Segundo o autor a justificativa reside apenas na concessão de prazo

diferenciado para o processamento, de modo que as rogatórias sejam destinadas à realização de solicitações provenientes de juízo estrangeiro referentes a processos em andamento ou que ainda não foram propostos. Já a homologação de sentença estrangeira, se justifica apenas quando já há, no exterior, uma sentença definitiva que produzirá efeitos no território brasileiro. Compartilhamos dessa posição e, por essa razão, ambos os temas serão abordados em conjunto.

5 MENDES DA SILVA, Ricardo Perlingeiro. Cooperação Jurídica Internacional e Auxílio Direto.

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1.1 CARTA ROGATÓRIA

Definido como instrumento apto para a consolidação da cooperação jurídica internacional, a carta rogatória sempre esteve presente na história desta República Federativa.

Até o Aviso Imperial de 1º de outubro de 1847 não havia no Brasil, qualquer regulamento que referisse à tramitação das cartas rogatórias. Até então elas eram trazidas pelas partes e entregues ao juiz brasileiro que as cumpriam ou lhe negavam cumprimento. O critério para o deferimento era discricionário e levava em conta a reciprocidade da justiça rogante para pedidos semelhantes emanados pelos juízes brasileiros.6

Havia, no entanto um acordo entre Brasil e Portugal, firmado em 1841, o qual previa a facilitação do trâmite das rogatórias entre esses dois Estados. Por esse acordo as rogatórias eram cumpridas no Brasil sem que o governo imperial tivesse qualquer ciência a respeito, inclusive aquelas de caráter executório7 e não serviriam para execução de sentenças, mas apenas citação e inquirição de testemunhas; deviam ser expedidas em termos não imperativos e legalizadas por cônsules de ambas as nações; receberiam o placet de qualquer dos Ministros de Justiça após

ouvido o Procurador da Coroa e também era possível interposição de embargos.

Com o Aviso Imperial de 1847, quatro princípios deveriam ser observados para o cumprimento das cartas rogatórias sendo (i) a exclusão das rogatórias executórias, (ii) a necessidade dos termos deprecativos, (iii) a legalização consular e (iv) o recurso de embargo. Esse regulamento teve sua abrangência ampliada pela Circular de 14 de novembro de 1865 a qual passou a regular a tramitação das rogatórias ativas (quando o Brasil é o Estado rogante) e passivas (quando o Brasil é o Estado rogado) e ampliou o objeto das diligências cíveis: citações e inquirição de testemunhas, vistorias, exames de livros, avaliações, interrogatórios, juramentos,

6 MENKE, Fabiano. O cumprimento das Cartas Rogatórias no Brasil: Antecedentes e

Atualidades. In: O novo direito internacional – Estudos em homenagem a Erik Jayme. Cláudia Lima Marques, Nadia de Araújo (Org). Rio de Janeiro: Renovar, 2005.

7ARAÚJO, Nádia de; BASTOS, Carlos Eduardo Caputo. A Convenção Interamericana de Cartas

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obtenção de cópias, verificação, exibição ou remessa de documentos e outras diligências necessárias e relacionadas à decisão da ação8.

Foi, entretanto, em 1894, com a edição da Lei Federal n. 221, a qual completou a organização da Justiça Federal, que os juízes federais do local onde deveriam ser executadas as diligências das cartas rogatórias passaram a ser as autoridades competentes para cumpri-las. Com esta lei, também houve a necessidade das cartas rogatórias receberem autorização do governo brasileiro (Ministério da Justiça) para que fossem cumpridas como procedimento prévio de admissibilidade. Era o chamado exequatur administrativo que, por sua vez, perdeu

sua eficácia com a Constituição de 1934, quando a competência para concessão passou para as atribuições do Presidente do Supremo Tribunal Federal.

Assim, com o Aviso Circular e posteriores regulamentos, o trâmite das cartas rogatórias foi disciplinado, permitindo seu recebimento por via diplomática ou consular, por apresentação do interessado e por remessa direta de juiz a juiz9.

O Tratado de Montevidéu e o Código de Bustamante, como instrumentos de uniformização da cooperação jurídica internacional do qual o Brasil era membro, determinavam que as cartas rogatórias se prestavam para o cumprimento de todas diligências judiciais, o que incluiria as decisões executórias.

Entretanto, o Supremo Tribunal Federal nunca se utilizou do código para conceder exequatur nas chamadas cartas rogatórias executórias posto que

entendia, de forma bastante conservadora e ao longo de quase toda sua atuação, que as provas solicitadas em razão da quebra de sigilo bancário, sequestro de bens para garantir processo em trâmite no país rogante eram medidas de caráter executório e que, por sua vez, feriam a ordem pública. Com a entrada em vigor no Brasil da Convenção Interamericana sobre Cartas Rogatórias em 1996, a regra processual foi modificada, momento em que o STF passou a condicionar a sua concessão à existência de um tratado que permitisse a execução da solicitação executória, como a CR 9194, CR

8 MENKE, Fabiano. O cumprimento das Cartas Rogatórias no Brasil: Antecedentes e

Atualidades. In: O novo direito internacional – Estudos em homenagem a Erik Jayme. Cláudia Lima Marques, Nadia de Araújo (Org). Rio de Janeiro: Renovar, 2005, p. 21.

9 ARAÚJO, Nádia de; BASTOS, Carlos Eduardo Caputo. A Convenção Interamericana de Cartas

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10162, CR 9511 e CR 11.194 (deferidas) e CR 10177, CR 11.427, CR 1105, CR 10.480 (indeferidas por ausência de tratado autorizativo).

Outros exemplo são as CR 11530 (México) e CR 11722 (Argentina), que tratavam de pedido de averbação de sentença de divórcio em cartório brasileiro competente e tinham por relator Ministro Nelson Jobim.

Para o México o exequatur foi indeferido sob a alegação de que se tratava de

carta rogatória executória e que não havia entre aquele Estado e o Brasil tratado que regulamentasse o trâmite das cartas rogatórias. Já quanto ao pedido rogado pelo Estado Argentino, houve o deferimento do exequatur, não obstante se tratar também

de rogatória executória, sob o fundamento da existência do Protocolo de Lãs Lenas, assinado entre os governos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai e promulgado no Brasil pelo Decreto n. 2.067 de 12 de novembro de 1996.

Nesse mesmo sentido, o Protocolo de Lãs Lenas serviu de fundamento para decisão proferida pelo Min. Marco Aurélio, em 19 de março de 2002 ao deferir a busca e apreensão de menor para que fosse restituída ao seu país de origem, a República da Argentina, porquanto previsto em seu art. 19 a execução de sentenças por carta rogatória e também porque Brasil e Argentina são seus signatários.

Entretanto, o Ministro Marco Aurélio, em decisão proferida no Agravo Regimental na CR 9.851 proveniente do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, manifestou entendimento de que, ainda que diante da inexistência de tratado ou acordos internacionais sobre a concretização de medidas executórias, a cooperação internacional no combate ao crime deve ser efetivada sob o critério da reciprocidade, quando o objeto da rogatória é a coleta de dados de processos em curso no Brasil.

Segundo entendimento, “o levantamento de dados constantes de processos

em andamento no Brasil não implica a quebra de sigilo assegurada pela Carta da

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No STJ, ainda há algumas poucas rogatórias executórias indeferidas em virtude da inexistência de tratado internacional. Foi o que aconteceu na CR 2966 que rogava a devolução de veículo, que foi indeferida em razão da inexistência de acordo entre a Bolívia e o Brasil, posto que até a data do julgamento, 17 de setembro de 2008, não estava em vigor o Acordo de Assunção sobre Restituição de Veículos automotores e terrestres e/ou embarcações que transpõem ilegalmente as fronteiras entre os Estados Partes do Mercosul, República do Chile e República da Bolívia.

No entanto, a CR 1861, que contava com o mesmo pedido foi deferida agora porque fundada no Protocolo de San Luis. O Tribunal Nacional da Vara Criminal de Instrução n. 19, na República Argentina com fundamento no Protocolo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais, também denominado Protocolo de San Luis (Decreto n. 3.468/2000), rogou a devolução à empresa "Federación Patronal de Seguros" do veículo marca "Toyota Hylux", placa CYG-152, chassi n. JTA11GNJ5-X0060259. O pedido foi deferido sem maiores delongas.

A rigor, as cartas rogatórias passivas são o único meio de se obter provas e realizar diligências no Brasil em razão do conservadorismo impregnado no Superior Tribunal de Justiça como se verá mais adiante. Elas se destinam à realização de

atos processuais ordinatórios como citação (não admitida por via consular, diplomática, postal10 ou por affidavit11), notificação/cientificação ou atos processuais

instrutórios (ou probatórios) como coleta de provas, cumprimento de medidas cautelares de arresto ou sequestro, busca e apreensões.

Sempre que uma pessoa demandar ação no exterior cujo réu encontra-se no Brasil, deverá, obrigatoriamente, promover sua citação por meio da carta rogatória. Essa exigência se justifica na medida em que o autor da demanda tem interesse, ao final do processo, em executar a sentença que lhe for favorável no Brasil, e para que aqui ela surta efeitos, é fundamental a citação válida do réu. Do contrário, o STJ

10 Ela foi a

dmitida, entretanto pelo STF em Ação de Alimentos: “Homologação de sentença

estrangeira de alimentos. Citação postal válida, pois admitida em se tratando de alimentos, pela legislação brasileira (Lei n. 5.478/68, art. 5º). Só podem ser objeto de contestação as matérias previstas no art. 221 do Regimento Interno desta Corte. Cumprimentos dos requisitos exigidos para a homologação. Homologação deferida. SE nº 4.321-1, publicada no DJ de 7.8.92.

11 Forma de citação muito utilizada nos EUA pela qual o advogado do autor declara que informou ao

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refutará a homologação da sentença estrangeira, salvo se houver comparecido espontaneamente, nos moldes do artigo 214 do Código de Processo Civil brasileiro12.

Várias são as convenções e acordos bilaterais sobre cartas rogatórias firmados pelo Brasil destacando-se incontestavelmente, o Protocolo de Las Lenas13 e o Protocolo de Medidas Cautelares14, ambos no âmbito do Mercosul15.

Com esses Protocolos, a posição do direito brasileiro sobre a possibilidade de execução de medidas decisórias alterou-se, posto que permitem a execução de sentenças estrangeiras, laudos arbitrais e medidas cautelares por carta rogatória.

De acordo com George Owen e outros16, a utilização desta modalidade de cooperação internacional é indiscriminada porque é utilizada para as mais diversas finalidades: citação, intimação, localização de pessoas, inquirição de testemunha, inspeção de documentos, nomeação de perito para preparação de laudo, ordem de produção de provas.

Dessa forma cada Estado tem a sua forma de utilização das cartas rogatórias, assim, por exemplo, nos EUA, as rogatórias são utilizadas, em princípio, apenas e tão somente para tomada de depoimento de testemunhas. Somente em casos excepcionais são utilizadas as rogatórias para outros fins, posto que para citação ou intimação, outros meios mais simples são praticados.

12 Art. 214: Para a validade do processo é indispensável a citação inicial do réu. § 1o O comparecimento espontâneo do réu supre, entretanto, a falta de citação. § 2o Comparecendo o réu apenas para argüir a nulidade e sendo esta decretada, considerar-se-á feita a citação na data em que ele ou seu advogado for intimado da decisão.

13Ou Protocolo do Mercosul ou Protocolo de Cooperação e Assistência Jurisdicional em matéria civil,

comercial, trabalhista e administrativa, assinado em Las Leñas em 27.06.92

14Ou Protocolo de Ouro Preto assinado em Outro Preto em 17.12.94 e em vigor no Brasil desde o

Decreto 2.626 de 15.6.98.

15 O Mercosul foi criado pelo Tratado de Assunção, assinado em 26.03.91, e pretendia criar o

Mercado Comum do Sul entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai com o objetivo a alcançar a livre circulação de bens , serviços e fatores produtivos. Para essa integração não basta a integração econômica como também a integração jurídica.

16 OWEN, George H.; VIAL, Osvaldo; CAICEDO CASTILLA, Jose Joaquin; URSÚA, Francisco A;

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Nos EUA, a citação pode ser feita por qualquer pessoa, geralmente um funcionário do próprio advogado que age sob suas orientações, e o registro do procedimento é arquivado no Tribunal. Segundo o George Owen, “a prova da

citação válida é suficiente a declaração assinada, sob juramento, pela pessoa maior que a realizou e a esse documento se dá o mesmo crédito que ao certificado (fé) do

oficial de justiça”17.

Quando se trata de citação no estrangeiro, o demandante deve solicitar ao tribunal autorização para fazê-lo. Se deferido seu pedido, o tribunal americano autoriza a entrega de documento original de citação (que não é carta rogatória) no Estado estrangeiro, por uma pessoa designada para esse propósito, ou então autoriza sua expedição pelo correio. Noutras palavras, quando a parte pretende que alguma prova seja obtida em outro país, caberá a ela buscar a prova no Estado estrangeiro.

17 OWEN, George H.; VIAL, Osvaldo; CAICEDO CASTILLA, Jose Joaquin; URSÚA, Francisco A;

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1.1.1. Trâmite das cartas rogatórias

As cartas rogatórias podem ser ativas ou passivas. Tudo irá depender do interesse da parte. Quando a solicitação for da justiça brasileira para cumprimento de determinada diligência em outro Estado, outra jurisdição internacional, a carta rogatória será ativa. Nesse caso, os atos são regulados pelo direito pátrio para cumprimento no exterior. Por outro lado, se proveniente de juízo ou autoridade competente estrangeira para cumprimento perante a jurisdição brasileira, será ela denominada passiva, quando então, o direito brasileiro incidirá para realização do ato rogado, seja ele judicial ou administrativo.

Ricardo Perlingeiro18 classifica a cooperação passiva como (a) de natureza administrativa ou jurisdicional, de iniciativa de juiz estrangeiro e (b) de natureza administrativa ou jurisdicional, de iniciativa da própria parte interessada ou órgão da administração pública. A cooperação passiva administrativa englobaria pedidos cujo conteúdo não é jurisdicional como, por exemplo, obtenção de cópia de legislação, documentação ou procedimentos necessários para o encerramento de uma investigação (quando há a atuação do Ministério Público ou autoridades policiais), não ensejariam exame de delibação. Ao contrário do que ocorre com a cooperação jurisdicional, em que a atuação do STF (até a promulgação da EC n. 45/04) ou do STJ é necessária por força de dispositivo constitucional.

As cartas rogatórias ativas são encaminhadas ao DRCI-MJ (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, do Ministério da Justiça) pela autoridade judiciária ou pelo interessado (advogado ou parte). Neste órgão, o pedido é catalogado e dá origem a um processo, momento em que será aferido os requisitos de admissibilidade do pedido rogatório, ou seja, será aferido se a carta cumpre os requisitos legais19.

18 Cf. MENDES DA SILVA, Ricardo Perlingeiro. Cooperação Jurídica Internacional e Auxílio

Direto. Revista CEJ – Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal. N. 32, Ano X, Março. 2006

19Se o pedido vem acompanhados de tradução (em língua nacional) por tradutor juramentado mais

(24)

Devidamente instruído, o pedido será encaminhado à Autoridade Central do país rogado – se houver acordo internacional com o Brasil – ou, em não havendo, o DRCI encaminha o pedido rogatório ao Ministério das Relações Exteriores (Divisão Jurídica do Departamento Consular do MRE) para que eles encaminhem, pela via diplomática, ao país destinatário.

Quanto aos pedidos passivos, ou seja, aqueles encaminhados pela autoridade estrangeira ao Brasil, são recebidos aqui pelo Ministério das Relações Exteriores e de lá remetidas ao Superior Tribunal de Justiça para concessão ou não do exequatur. Seu processamento, após o exequatur, é realizado por um juiz federal

de primeira instância, nos termos do art. 109 da CF/88.

Além dos tratados bilaterais e multilaterais firmados pelo Brasil no âmbito da cooperação jurídica internacional, o ordenamento jurídico brasileiro tem a Lei de Introdução do Código Civil que versa sobre o tema. Com a Constituição Federal de 88 (CF/88) e sua EC n. 45/2004, a competência para concessão também foram redefinidas, somando-se ainda o tratamento designado ao instituto no Código de Processo Civil (CPC) e Código de Processo Penal (CPP).

A LICC20 dispõe ser da competência da justiça brasileira toda ação em que o

réu for domiciliado no Brasil ou no território brasileiro tiver de ser cumprida a obrigação, bem como a competência para conhecer de ações relativas a imóveis situados aqui e ainda, o cumprimento de diligências rogadas por autoridades estrangeiras após concedido o exequatur.

Com a promulgação da CF/88 e com o advento da reforma do poder judiciário (EC n. 45/2004), alterou-se a competência para processar e julgar os pedidos de homologação de sentenças estrangeiras e concessão de exequatur às cartas

rogatórias para o Superior Tribunal de Justiça, nos termos do art. 105, I, i, competência essa que antes era conferida ao Supremo Tribunal Federal.

20 BRASIL. Decreto-Lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942, estabelece a Lei de Introdução ao

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O deferimento de exequatur nas cartas rogatórias perante o STJ obedece ao

disposto na Resolução n. 9/2005 que prevê a impossibilidade de concessão de

exequatur ao pedido que ofender a soberania ou a ordem pública, mas que

possibilita, que tenham por objeto atos decisórios ou não decisórios. Atual posicionamento do STJ divergindo assim do entendimento do STF.

E essa possibilidade de concessão de exequatur em atos ou decisões

executórias – ou decisórias - proferidas por autoridade judicial estrangeira para cumprimento no Brasil foi o grande avanço que se pode atribuir à reforma do Poder Judiciário. Isso porque o STF apenas deferia pedidos para o cumprimento de atos meramente ordinatórios, enquanto o cumprimento de atos instrutórios, de natureza executória, eram deferidos muito timidamente e ainda quando fundamentados em tratado internacional do qual o Brasil fosse subscritor.

Busca-se saber se a Estado brasileiro, dentro do novo cenário jurídico implementado pela reforma do poder judiciário, efetivamente adéqua-se à cooperação jurídica internacional nos termos firmados em convenções e em seu próprio ordenamento.

Várias são as normas jurídicas brasileiras que versam sobre cartas rogatórias como a Resolução n. 9/2005 do STJ, o CPC e o CPP, tratando, cada um deles, sob uma vertente. Vejamos:

A Resolução nº 9/2005 do STJ prevê a agilização do trâmite de pedidos que não prescindem de atuação jurisdicional, possibilitando o cumprimento da diligência rogada através do chamado auxílio direto, que será abordado no tópico seguinte.

Já o Código de Processo Civil, dispõe sobre as cartas rogatórias passivas e determina que para aferição de sua admissibilidade e cumprimento, deve o juiz brasileiro observar o quanto disposto em convenção internacional e, na falta desta, deve remetê-la “à autoridade judiciária estrangeira, por via diplomática, depois de traduzida para a língua do país em que há de praticar-se o ato”.

(26)

solicitante deixe clara a sua imprescindibilidade, já que o deferimento do pedido faz com que haja a suspensão da instrução criminal.

Podemos ainda verificar que a sistematização das cartas rogatórias podem ser agrupadas em dois grandes grupos. O sistema latino americano e o sistema anglo-americano, onde encontramos diferenças fundamentais. Por fim cumpre salientar que o trâmite das cartas rogatórias no sistema latino-americano diferencia-se do sistema anglo-americano.

De acordo com George Owen e outros21, nos países latino-americanos há a intervenção do Poder executivo no momento da transmissão internacional do pleito, ao passo que nos países anglo-americanos essa intervenção é opcional e ainda, quando se trata de rogatórias passivas, é fundamental que sejam apresentadas diretamente por um advogado local ou por um representante consular para apenas os propósitos que a legislação americana permite e em caso de produção de provas.

21OWEN, George H. et al. A uniformização da legislação relativa a cooperação internacional no

(27)

1.2 COOPERAÇÃO DIRETA (OU AUXÍLIO DIRETO OU AUXÍLIO MÚTUO OU

ASSISTÊNCIA DIRETA)

A cooperação direta, no Brasil, é tida como o procedimento por meio do qual se busca a comunicação entre órgãos judiciais e administrativos brasileiros e dos países requerentes, toda vez que o objeto solicitado não tenha conteúdo jurisdicional. A assistência direta tramita por meio de procedimento de jurisdição voluntária, sem necessidade de juízo de delibação, de modo que, independentemente da existência de carta rogatória ou de pedido de homologação de sentença estrangeira, a diligência requerida poderá ser cumprida diretamente pelo juiz de primeira instância ou por órgão da administração pública competente para tanto.

Por vezes o pedido chega à justiça brasileira pelo nome de carta rogatória, mas o STJ, ao reconhecer que a diligência almejada é meramente administrativa ou não necessita de exequatur, encaminha ao órgão responsável para cumprimento. O

trâmite pode se dar também pela via das Autoridades Centrais.

O fundamento jurídico desta modalidade de cooperação, entretanto, não tem respaldo constitucional. Ao contrário do que acontece com a carta rogatória, com a homologação de sentenças estrangeiras e com a extradição, que também são formas de cooperação jurídica internacional, no caso da cooperação direta ainda cabe ao legislativo dispor sobre o assunto em lei. Em caso de assistência direta, a omissão legislativa impera e a doutrina e a jurisprudência, por seu turno, entram em cena para desempenhar papel fundamental, de modo que, ao mesmo tempo que buscam definir o instituto, traçam contornos de constitucionalidade e eficácia.

Ricardo Perlingeiro Mendes da Silva, em ensaio denominado Cooperação Jurídica Internacional e Auxílio Direto22, classifica a cooperação direta em auxílio

direto judicial (quando houver a necessidade de atuação de juiz brasileiro para cumprimento de diligências como citação, intimações – os denominados atos de

22 MENDES DA SILVA, Ricardo Perlingeiro. Cooperação Jurídica Internacional e Auxílio Direto.

(28)

comunicação processual - ou atos de natureza probatória) e auxílio direto

administrativo quando “envolvesse a atuação de órgão da Administração Pública, a exemplo de investigações conjuntas do Ministério Público ou de autoridades

policiais”.

A cooperação direta vem disciplinada pela Resolução n. 9/2005 do STJ. Tomando emprestada a classificação adotada pelo direito constitucional no campo do controle de constitucionalidade, poder-se-ia classificar a cooperação jurídica internacional de duas formas: a cooperação jurídica concentrada e a cooperação jurídica difusa. A cooperação concentrada, da competência do Superior Tribunal de Justiça e a cooperação difusa, em que a competência para atender aos pedidos provenientes do exterior é da justiça de primeira instância ou de órgãos administrativos aptos ao atendimento do pleito, quando então, nessa modalidade, dar-se-ia a cooperação direta.

No âmbito da cooperação concentrada, embora a Resolução n. 9/2005 do Superior Tribunal de Justiça não tenha força de lei, como dito, prevê a execução da cooperação direta em seu art. 7º, parágrafo único, in verbis: “os pedidos de

cooperação jurídica internacional que tiverem por objeto atos que não ensejem juízo de delibação pelo Superior Tribunal de Justiça, ainda que denominados como carta rogatória, serão encaminhados ou devolvidos ao Ministério da Justiça para as providências necessárias ao cumprimento por auxílio direto”.

Já quanto à cooperação difusa, no Brasil, existem apenas duas leis que tratam do tema: a lei dos crimes ambientais (Lei n. 9.605 de 1998) e a lei da lavagem de dinheiro (Lei n. 9.613 de 1998), além de vários tratados internacionais firmados que preveem a cooperação direta. Como exemplo, tem-se o Tratado sobre Cooperação Judiciária em Matéria Penal firmado entre Brasil e Itália que prevê o auxílio mútuo, via autoridades centrais, em favor dos procedimentos penais conduzidos pelas autoridades judiciárias competentes nos dois países; o Tratado de Assistência Mútua em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo do Canadá, celebrado em Brasília, em 27 de janeiro de 199523; o

23 BRASIL. Decreto nº 6.747, de 22 de janeiro de 2009, Promulga o Tratado de Assistência Mútua

(29)

Tratado de auxílio Mútuo em matéria Penal entre o Brasil e Portugal24. Além dessas

previsões, é possível ainda que os pedidos de cooperação direta possam se fundamentar juridicamente nas chamadas promessas de reciprocidade, tema que será abordado no capítulo 3.

Um caso emblemático de auxílio direto e que chegou ao STJ, foi aquele nomeado pela imprensa e amplamente conhecido como PROPINODUTO, que envolveu o desvio de recursos da Secretaria da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro. O Tribunal Regional Federal da 2ª Região, sediado no RJ, havia autorizado que determinadas medidas destinadas a investigar os acusados fossem praticadas através desta modalidade de cooperação, ou seja, sem necessidade de delibação pelo STJ, por entender que se tratava de ato sem conteúdo jurisdicional.

Contra essa decisão foi interposta a Reclamação nº 1.819 - RJ (2005/0025906-4), tendo como reclamante Reinaldo Menezes da Rocha Pitta, reclamado o TRF da 2ª Região e interessado o MPF e outros. Ao convencimento de

“existir pedido da Justiça Suíça para inquirição de testemunhas e cópia de

documentos, entre outros, relativos às investigações criminais em andamento perante à autoridade judiciária brasileira, os quais só poderiam ser atendidos mediante carta rogatória, vislumbrando potencial invasão da competência deste Superior Tribunal de Justiça, (art. 105, I, i, CF/88)”, o Ministro Sálvio de Figueiredo

Teixeira, em 25 de fevereiro de 2005, deferiu a liminar para suspender as audiências designadas.

Os Ministros do STJ se debruçaram então sobre essa questão e decidiram que as medidas tomadas pela justiça federal não teriam configurado usurpação da sua competência e que a diligência solicitada pela justiça suíça poderia ser cumprida diretamente pelo juiz federal de primeira instância. A decisão foi tomada quando do julgamento do AgRg na Reclamação nº 1.819-RJ, em 02 de março de 2005, em que a Corte Especial proveu o recurso para determinar o prosseguimento dos atos investigatórios requeridos por autoridades judiciais suíças, em face da

celebrado em Brasília, em 27 de janeiro de 1995. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/_decretos2009.htm>. Acesso em: 12/04/2010.

24BRASIL. Decreto nº 1.320, de 30 de novembro de 1994, estabelece o Tratado de Auxílio Mútuo em

(30)

desnecessidade de condicionar atos de simples cooperação internacional a

exequatur. O Regimental restou assim ementado:

CRIMINAL. AGRAVO REGIMENTAL EM RECLAMAÇÃO.

"PROPINODUTO". LAVAGEM DE DINHEIRO. CRIMES CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL E CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA. FALSIDADE IDEOLÓGICA. PENDÊNCIA DE RECURSO DE APELAÇÃO. ATO DE "COOPERAÇÃO INTERNACIONAL" PRATICADO PELO TRF DA 2ª REGIÃO. ATOS INVESTIGATÓRIOS PARA INSTRUÇÃO DE PROCEDIMENTO PENAL INSTAURADO NA SUÍÇA. CARTA ROGATÓRIA. SUPOSTA USURPAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO STJ. DEFERIMENTO DE LIMINAR. SUSPENSÃO DE AUDIÊNCIAS. AGRAVO REGIMENTAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO. DESNECESSIDADE DE CONDICIONAR ATOS DE SIMPLES COOPERAÇÃO INTERNACIONAL A

EXEQUATUR. AGRAVO PROVIDO. LIMINAR CASSADA.

I. (...)

II. A reclamação insurge-se contra ato do Tribunal Regional da 2ª Região, consistente em ato de "Cooperação Internacional", com o fim de cumprir pedido formulado pela Suíça à Justiça Brasileira no sentido de que fossem realizados, com a participação direta de autoridades suíças, atos investigatórios visando a instrução de procedimento penal instaurado naquele País para apurar a prática de lavagem de dinheiro em território suíço, pelo reclamante.

III. Apontada a suposta usurpação da competência do Superior Tribunal de Justiça, pois o TRF da 2ª Região teria avocado a competência para decidir "sobre a admissibilidade daquela comissão rogatória passiva e para executá-la", em flagrante ofensa ao art. 105, inciso I, alínea i, da Constituição Federal, com a redação dada pela Emenda Constitucional nº 45/2004.

IV. (...)

V. Agravo regimental manejado pelo Ministério Público, alegando-se não tratar de cumprimento de carta rogatória, mas, sim, de atender a pedido de cooperação internacional nos moldes estabelecidos pelo Tratado de Cooperação Jurídica em Matéria Penal firmado entre o Brasil e a Confederação Suíça, pendente de ratificação pelo Congresso Nacional Brasileiro.

VI. Aduzida desnecessidade de condicionar atos de simples cooperação internacional, destinada a cumprir dever de reciprocidade e cujos efeitos serão produzidos apenas no exterior, a exequatur, porquanto não

caracterizam atos jurisdicionais próprios.(omissis)

XVI. A suspensão dos atos de cooperação pode prejudicar futuras possibilidades de conjugação de esforços entre a Justiça brasileira e as européias.

XVII. Apontada usurpação de competência do Superior Tribunal de Justiça não configurada.

XVIII. Deve ser acolhida a irresignação ministerial para desconstituir o despacho agravado, determinado-se o prosseguimento dos atos investigatórios requeridos pelas Autoridades Judiciais Suíças.

XIX. Agravo regimental provido, cassando-se a liminar anteriormente deferida."

Não obstante a fundamentação acima, verifico que sequer foi juntado aos autos peças da Carta Rogatória nº 733, que segundo o Reclamante teria o mesmo objeto do Pedido de Cooperação Judiciária apresentado na 1ª Vara Criminal do Rio de Janeiro. Além disso, a audiência que se quer suspender foi designada para o dia 15 de agosto passado, estando, portanto, prejudicado o pedido.

(31)

Publique-se.Brasília (DF), 16 de agosto de 2005MINISTRO EDSON VIDIGAL PRESIDENTE25.

Contra essa decisão, entretanto, aqueles que se sentiram prejudicados ingressaram com habeas corpus (HC 85588/RJ) perante o STF que entendeu não

ser possível o auxílio direto para a diligência pleiteada e modificou a decisão do STJ. Essa posição acaba refletindo em uma burocratização do processo de cooperação internacional ao invés de promover a celeridade almejada por todos.

Em parecer26 proferido neste HC 85588/RJ, a Procuradoria Geral da República (PGR) manifestou-se pelo indeferimento da ordem e manutenção do

entendimento exarado pelo STJ ao argumento de que “além do sistema de carta

rogatória, conta-se com o instituto da cooperação para combater a criminalidade

organizada de forma transnacional” de modo a entender correta a chamada “cooperação direta”, decorrente de prática do Tribunal Regional Federal da 2ª

Região, aludindo à possibilidade de o Ministério Público formalizar persecução criminal no Brasil.

Válida, portanto, na visão do Ministério Público Federal (MPF), seria a atuação judicante, objetivando ouvir testemunhas em atendimento a pleito de órgão judicante de Genebra, independentemente de juízo de delibação perante o STJ. A ação de autoridades judiciárias suíças, no Rio de Janeiro, estava respaldada em autorização válida daquele Tribunal Regional, tudo ocorrendo em atenção a compromissos assumidos.

No entanto, para o Ministro Marco Aurélio, relator do habeas na Suprema

Corte, a concessão de exequatur é fundamental e decidiu:

A relevância do que versado na inicial e o risco de se manter com plena eficácia o quadro até aqui delineado, mediante a cassação da liminar deferida pelo Vice-Presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Sálvio de Figueiredo, está a conduzir à concessão de medida acauteladora. Cumpre atentar para o princípio da realidade, sobrepondo-se o conteúdo ao aspecto simplesmente formal. O empréstimo do rótulo de procedimento de cooperação internacional a certo instrumento não pode desaguar na prática

25 Há que se notar que a decisão foi prolatada em agosto de 2005, pouco tempo depois que a

competência da carta rogatória passou do STF para o STJ, o que sinaliza tempos de interpretação diferente àquela tida pelo STF.

26 Cooperação Penal Internacional: Atuação Direta e Carta Rogatória, Informativo n. 422 do

(32)

de atos somente passíveis de serem alcançados por meio de carta rogatória, como são aqueles ligados à audiência de instrução, visando à persecução criminal. A cooperação há de se fazer com respeito irrestrito à organicidade de Direito nacional, reafirmando-se a República como revelada por um Estado Democrático de Direito, para tanto se mostrando indispensável que se homenageie a máxima segundo a qual o meio justifica o fim, mas não este, aquele. Defiro a liminar para suspender a eficácia do que deliberado pelo Órgão Especial do Superior Tribunal de Justiça, mantida, assim, até o julgamento final deste habeas corpus, a óptica da

necessidade de se contar – para a realização de atos instrutórios, por sinal com a participação exclusiva de autoridades brasileiras e simples acompanhamento, se for o caso, de autoridades suíças – com o crivo do Superior Tribunal de Justiça, em face da competência que a Constituição Federal hoje lhe reserva no campo da execução das cartas rogatórias.

Depois dessa decisão do STF, o STJ ainda conseguiu manter seu entendimento acerca dos pedidos de assistência direta e sua imediata execução sem passar pela delibação judicial constitucional.

A decisão proferida na reclamação do propinoduto foi publicada em agosto de 2005 e nesse mesmo mês não foi conhecida pelo STJ a CR 706, em que o Tribunal de Portugal pretendia a notificação de Aníbal Afonso Lopes, por intermédio da Procuradoria-Geral da República em Portugal.

Ao chegar no Brasil, o pedido foi encaminhado pela PGR diretamente à justiça federal competente para realização da diligência. Entendeu o Ministro Edson Vidigal que a Procuradoria da República no Brasil agiu conforme dispõe o Tratado de Auxílio Mútuo em Matéria Penal firmado entre Brasil e Portugal (Decreto n. 1.320/94)27 ou seja, que os pedidos teriam a tramitação definida pelo artigo 14 do referido acordo, concluindo-se então que “o requerimento pode ser efetivado tanto

por carta rogatória quanto pelas Procuradorias Gerais dos dois países, sem que

haja, nessa hipótese, interferência do Poder Judiciário”.

No entanto, em setembro de 2005, a CR 00005428 proveniente da Itália foi conhecida embora seu intuito fosse apenas para dar conhecimento do fato de que o interessado mudou de sexo.

27 Brasil. Decreto nº 1.320, de 30 de novembro de 1994, estabelece o Tratado de Auxílio Mútuo em

Matéria Penal firmado entre Brasil e Portugal. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/D1320.htm>. Acesso em: 12/04/2010 e, em seu art. 14 prevê: "Os pedidos são expedidos e recebidos diretamente entre as Autoridades Centrais, ou pela via diplomática".

28 CR 000054: Roga o Tribunal de Rimini, na Itália, a notificação do Cartório de Registro Civil de

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Entende-se assim, que aqui se inicia o marco da modificação da jurisprudência do STJ. Para uma simples notificação, não é necessário exequatur,

mas para que haja comunicação junto ao cartório competente da mudança de sexo de uma determinada pessoa imprescindível é a movimentação da máquina judiciária! Mais uma vez, o retrocesso impera.

Em dezembro de 2005, o STJ reconheceu o auxílio direto no julgamento do Agravo Regimental na CR 73329 nos termo do voto do relator, Ministro Edson Vidigal:

A par de todos esses fundamentos, hábeis e suficientes a rechaçar a impugnação apresentada, permito-me ainda trazer aos eminentes Pares os ensinamentos da Prof. Dra. Maíra Rocha Machado , quanto ao

funcionamento da cooperação penal internacional no Brasil, especificamente quanto aos pedidos de assistência judiciária. Segundo coloca, convivem, hoje, em nosso ordenamento, dois sistemas de cooperação internacional em matéria penal. Um deles, por ela intitulado de "tradicional", exercido por meio de carta rogatória, e outro, ainda neófito, por meio de acordos e tratados multilaterais de cooperação. Neste, há um órgão central que concentra a tramitação dos pedidos de assistência e cooperação. "Sua função é verificar o preenchimento dos requisitos legais, conforme a legislação brasileira e o direito internacional, e encaminhar a solicitação ao destinatário. A utilização deste sistema de cooperação direta, via 'autoridades centrais', depende da existência de acordos internacionais ou do oferecimento de garantia de reciprocidade. Atualmente este sistema é utilizado na cooperação penal entre o Brasil e os países do Mercosul, além da Colômbia, Estados Unidos da América, França, Itália, Peru e Portugal " (in Revista Brasileira de Ciências Criminais n. 53, ed. RT, "Cooperação

penal internacional no Brasil: as cartas rogatórias passivas", pág. 101). No mesmo sentido são as considerações tecidas por Milton Menezes da Costa Filho, quando afirma que "as Cortes dos membros da comunidade das Nações, cada vez mais, intensificam o relacionamento interjurisdicional, mediante recíproca cooperação, basicamente, através de cartas rogatórias, ou outros meios de comunicação direta, v.g. (...) simples ofícios adotados em Convenções para autoridades de territórios fronteiriços e a ajuda para eficácia das decisões proferidas pelo respectivo reconhecimento e execução." E prossegue, "o meio clássico principal daquela cooperação, sem se falar no cumprimento de sentença estrangeira, são as cartas rogatórias, os exhortos (...).Vinda dos processos romano e canônico, sabença geral é que as cartas rogatórias são pedidos formais de auxílio para a instrução de processo, expedidos pela autoridade judiciária de um

pedido de retificação de nome e de sexo constante em seu registro de nascimento por ter se submetido a cirurgia para mudança de sexo. O Ministério Público Federal em parecer à fl. 31 opinou pela concessão do exequatur, considerando que "Não há motivos de impugnação, visto que a diligência tem por objeto tão somente dar notícia da ação em curso na Justiça rogante...". (negrito nosso) O objeto desta carta rogatória não atenta contra a soberania nacional ou a ordem pública. Ante o exposto, concedo o exequatur. Remetam-se os autos à Justiça Federal competente para as providências cabíveis. (Resolução/STJ nº 9/2005, art. 13). Intime-se. Publique-se. Brasília (DF), 16 de setembro de 2005 Ministro Edson Vidigal.

29Na CR 733, a

Procuradoria da República junto ao Tribunal Ordinário de Roma solicitou, por meio

de Carta Rogatória, a inquirição do Sr. Achille Lollo, cidadão italiano residente na cidade do Rio de

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Estado à de outro membro da Comunidade Internacional. A regra básica, no nosso Direito, da exeqüibilidade da carta rogatória, à luz da ampla cooperação interjurisdicional, é a prescindibilidade da condição da existência de tratado ou de reciprocidade , sendo certo, como ponto basilar, a irrestrita observação às formalidades legais, especialmente processuais e regimentais, que couberem ". g.n. (in Revista de Direito Militar n. 9, "A Rogatória Citatória", pág. 13).

Ou seja, ambos os sistemas coexistem e se prestam à concessão do auxílio mútuo. Para os países que não se utilizam do sistema de acordos e tratados, a cooperação faz-se por meio de carta rogatória, denominada de carta rogatória ativa, quando enviada pelo Brasil para ser cumprida em país estrangeiro; ou carta rogatória passiva, como é o caso destes autos, enviada pelo país estrangeiro para ser cumprida no Brasil.

Contudo, como já ficou consignado, há entre Brasil e Itália um Tratado sobre Cooperação Judiciária em Matéria Penal, que prevê o auxílio mútuo em favor dos procedimentos penais conduzidos pelas autoridades judiciárias competentes nos dois países. Portanto, a conclusão a que chego é que independentemente da concessão do exequatur nestes autos, a diligência requerida pela Justiça Italiana afigurar-se-ia possível, ficando o trâmite a cargo do Ministério da Justiça. (grifo nosso)

Mas foi em 2006 que a jurisprudência do STJ começa a modificar-se de forma mais significativa e o instituto do auxílio direto ou mútuo começa a se esvaziar.

Em 15 de fevereiro de 2006, foi encaminhado pela Procuradoria da República - Direção Distrital Antimáfia de Potenza – Itália, a CR 1395, como auxílio mútuo em matéria penal ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional do Ministério da Justiça para obter informações sobre as atividades de uma quadrilha que cuidava de favorecer a entrada e permanência em território italiano de pessoas provenientes do Brasil, praticando para tanto atos de corrupção e falsificação de documentos, com a pretensão de esclarecer os laços de conexão entre a agência Bella Itália, de Londrina, Paraná, e a quadrilha italiana, integrada pela brasileira lá residente, Suzi Meire Bolognese. O MPF requereu a autuação do pedido como carta rogatória e o Ministro Edson Vidigal concedeu exequatur.

O mesmo ocorreu com a CR 1410, encaminhada como auxílio mútuo em matéria penal ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional do Ministério da Justiça, o MPF opinou pela autuação do pedido como carta rogatória uma vez que a pretensão era obter informações sobre o atentado terrorista à sede da Embaixada de Israel em Buenos Aires, no dia 17 de março de 1992. Acolhendo o parecer ministerial, o exequatur foi concedido em março de 2006,

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Em outubro de 2006, ainda mantendo o mesmo entendimento do STF, o STJ concedeu exequatur em medida acauteladora formulada pela Alemanha na CR 2106

a fim de obter cópias do processo brasileiro que condenou o cidadão alemão Maik Bardtke pela prática de tráfico de entorpecentes, com o objetivo de se evitar "dupla perseguição do acusado". E aí pergunta-se: é preciso movimentar a máquina judiciária para se fazer cumprir a solicitação do Estado alemão? A resposta há de ser negativa na medida em que não envolve ato jurisdicional, mas tão somente mero ato de comunicação.

Em dezembro de 2006, na presidência do STJ já se encontrava o Ministro Barros Monteiro que decidiu, na CR 2081, ser necessário exame delibatório por parte da Corte Superior, quando solicitada oitiva de testemunha sob a jurisdição brasileira, acompanhando entendimento do Ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal.

Em parecer, o Ministério Público Federal entendeu ser dispensável o

exequatur por se tratar de medida meramente instrutória e por se tratar de

procedimento de cooperação jurídica direta autorizada por várias convenções30.

30 Tribunal de Haarlem, Reino dos Países Baixos solicitou a oitiva de uma cidadã brasileira na

condição de testemunha, posto que “teria presenciado, em centro de detenção holandês, a

comercialização de substância entorpecente ilícita por Patrick Eugene Brasdorp, réu em ação penal

ajuizada na Justiça holandesa”. Os autos foram encaminhados pelo Ministério Público Federal ao Juiz Federal que comunicou ao STJ sobre o pedido para que se pudesse decidir sobre a aplicação da Resolução 9/2005, artigo 7º, parágrafo único, ou seja, se o pedido poderia prosseguir como auxílio direto (cooperação jurídica direta) ou se necessário exame de delibação. Para o Ministério Público Federal: A cooperação jurídica internacional passiva pode ser levada a efeito tanto pela via clássica da carta rogatória quanto pela chamada 'assistência judiciária direta', esta viável desde que haja previsão em tratado internacional ou, alternativamente, o pedido estrangeiro contenha compromisso de reciprocidade e demonstre a ocorrência de dupla incriminação" (fl. 86). No caso dos autos, trata-se de "medida de assistência simples, conceituadas como de mero trâmite (v.g. notificações) e medidas instrutórias (v.g. inquirições, perícias)" fl. 87) previstas em acordos firmados por ambos os países, notadamente nos arts. 35 da Convenção Única sobre Entorpecentes - Nova York (Decreto n. 54.216/64); 21 da Convenção de Viena sobre Substâncias Psicotrópicas (Decreto n. 79.388/77); e 18 da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional - Convenção de

Palermo (Decreto n. 5.015/2004). Assim, O STJ entendeu que “a delibação era imprescindível não só

porque havia pedido de comparecimento da testemunha em juízo como também pedido para que magistrada estrangeira, seu secretário, do promotor de justiça e do advogado do réu presenciassem a tomada de depoimento à luz do que já decidido pelo STF no HC n. 85.588-RJ:"CRIME –

(36)

Nessa mesma linha, a concessão de exequatur foi exigida para pedidos de

informações sobre a legislação brasileira (CR 1117/Argentina). Mesmo sendo possível sua transmissão via autoridades centrais em razão do disposto no artigo 28 do Protocolo de Las Leñas (Decreto n. 2.067/96), o exequatur foi concedido e os

autos encaminhados ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, Autoridade Central no país, para as providências cabíveis. Verifica-se que, mesmo em pedido sem lastro de judicialidade, que restaria cumprido por órgão administrativo, foi concedido exequatur. Há um excesso de positivismo

que não coaduna com a realidade jurídica cujo Brasil se propõe a cumprir, principalmente quando respaldado por tratado internacional que prevê o atendimento de pronto pela autoridade competente sem necessidade de delibação.

Ainda sobre pedidos de informações acerca da legislação brasileira, em setembro de 2005, o Ministro Edson Vidigal proferiu decisão em sentido diverso, na CR 91131, em que tal solicitação poderia ser cumprida independentemente de

exequatur, com fundamento na jurisprudência do STF (CR 11.560, CR 9439, CR

11251). Pretendia-se com a carta rogatória remessa de cópia autenticada de dispositivo do Código Penal Brasileiro, que dispunha sobre o crime de apropriação indébita. Nesse mesmo sentido, em pedido de informação sobre o endereço da interessada, medida solicitada por Portugal na CR 1811 ao Coordenador-Geral do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça, o Ministro Barros Monteiro, em junho de 2006, não conheceu do pedido e, assim, os autos foram encaminhados ao Ministério da Justiça para as providências cabíveis.

Assim, informação sobre o endereço da interessada não enseja juízo de delibação e pode ser cumprido diretamente pelo órgão administrativo. Já quanto ao pedido de informação sobre a legislação brasileira, a corte Superior se divide: ora exige ora não.

31 O Ministério Público Federal assim se manifestou às fls. 11/12: "Aqui, a rigor, não se trata de

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