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ProPosições vol.19 número1

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Academic year: 2018

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Pro-Posições, v. 19, n. 1 (55) - jan./abr. 2008

Apresentação

Milton José de Almeida*

Convidei para este dossiê autores que eu sei praticam a boa escrita e a boa imagem; o autor conduz as imagens e as palavras a sua maneira, pensamento e corpo. A escrita é uma arte do nosso corpo. O pensamento-corpo de cada um é uma diferença irredutível. Não estou me referindo a indivíduos, mas a pessoas. A generalidade fatal que traz a linguagem e nos faz pessoas de expressão social está sempre em conflito com a expressão pessoal do autor. E é na expressão pessoal radical e profunda, por se negar a dizer em uma linguagem geral e incorpórea, que o autor consegue dizer muitos. Aqui não se trata da livre expressão de um Eu psicológico inflacionado, nem de subjetividades condescendentes com si próprias, tão em moda atualmente.

Costuma-se generalizar, quer dizer, atribuir um gênero a textos como estes que o leitor lerá. Serão literários, poéticos, acadêmicos...? Generalizações acadêmicas e pseudo-aristotélicas dessa ordem só servem para afastar leitores, jogar os autores para determinadas gavetas, dominá-los com categorias convenientes e, ao fim, traí-los. Essas imagens-textos recusam-se a um gênero. Aqui os textos são fotografia, imagem, literatura, poesia, arte, academia... Os gêneros estão misturados numa forma para a qual não temos um nome, e o leitor tem a liberdade de entendê-los como quiser.

Nenhum autor nesse dossiê quis conduzir o pensamento do leitor para uma interpretação inequívoca da imagem. As imagens e os textos podem existir separadamente. As imagens já existiam, os autores escolheram-nas livremente, fotografadas por eles, de si-próprios, ou por outrem. O que aconteceu foram textos que eles escreveram a partir das ressonâncias que as imagens lhes ofereceram, e que agora oferecem ao leitor, para outras ressonâncias. Assim, temos fotos que querem ser textos, textos que querem ser imagens, imagens que desejam poesia, textos que desejam literatura.

* Pesquisador e professor na Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor de, entre outros, O Teatro da Memória de Giulio Camillo. Campinas, SP: Ateliê

Editorial/Editora da Unicamp, 2005; Cinema: Arte da Memória. Campinas, SP: Autores Associados,

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Acontece que, ao ler e ver esses textos e fotos, lembrei-me de uns escritos sobre pintura e paisagem, de Wang Wei, chinês que nasceu cerca de 701 e morreu em 761. Wang Wei tinha os talentos de poeta, de pintor, de músico e de calígrafo.

No posfácio à tradução dos escritos de Wang Wei (1997) para o francês, na qual me baseei para trazê-los ao português, Rollin (1997, p.27-29) nos diz que Wang Wei “foi servidor diligente do Império antes de entrar a serviço do rebelde Lu Shan Zhang. Derrotado este, ele ficou algum tempo na prisão antes de ser reabilitado. Passada a quarentena, retirou-se para sua propriedade às margens do rio Wang e dedicou-se plenamente à música, à poesia e à pintura. Foi adepto do Chan, movimento espiritual mais que religioso, que daria origem ao Zen no Japão, que tem suas fontes tanto no budismo quanto no que costumamos chamar de taoísmo.”

Guo Xi, c. 1020- c. 1090, escritor e pintor chinês, escreveu sobre a arte de Wang Wei “quando saboreamos um poema de Mo Jie (nome pessoal de Wang Wei), em seu centro aparece a pintura; quando contemplamos uma pintura de Mo Jie, em seu centro aparece o poema”. Ou como escreveu, à mesma época, Guo Xi: “O poema é uma pintura onde as formas são inaparentes; a pintura é um poema onde as formas aparecem” (Rollin, 1997, p.28). E como mergulhadas em névoa, inaparentes, as pinturas de Wang Wei desapareceram. Resta- nos imaginá-las.

O leitor poderá imaginar por que me lembrei de Wang-Wei, do qual, ao final, ofereço a tradução dos textos sobre a pintura.

Não farei nenhuma apresentação sobre cada um dos textos-imagens desse dossiê, pois seria de uma redução insuportável e desnecessária; eles dizem por si. Às pessoas-autores que aqui escreveram, tenho que lhes agradecer o prazer que me deram com a chegada de cada texto e de cada imagem, o quanto me ofereceram de beleza e imaginação a cada instante. Sempre grato! E também agradecer à revista Pro-Posições o acolhimento carinhoso da minha proposta.

ROLLIN, J.-Fr. Posface. In: WANG WEI. Écrits sur la Peinture. Tradução de Michel Chandeigne. Paris: Ed. Chandeigne, 1997. p. 27-29.

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