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LUCILA DE MATOS BORGES TINOCO

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Academic year: 2022

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LUCILA DE MATOS BORGES TINOCO

Levantamento das demandas para a rede de saúde mental na Atenção Primária de um município do interior de Minas Gerais

Dissertação apresentada à Universidade de Franca, como exigência parcial para obtenção do título de mestre em Promoção de Saúde.

Orientadora: Profª. Drª Fabíola Pansani Maniglia.

FRANCA 2020

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Catalogação na fonte – Biblioteca Central da Universidade de Franca

(Consultar a Secretaria Acadêmica)

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LUCILA DE MATOS BORGES TINOCO

Levantamento das demandas para a rede de saúde mental na Atenção Primária de um município do interior de Minas Gerais

COMISSÃO JULGADORA

DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PROMOÇÃO DE SAÚDE

Presidente: Profa. Dra. Fabíola Pansani Maníglia Universidade de Franca

Titular 1: Prof. Dr. Lucas Ribeiro Marques Campos de Oliveira Centro Universitário de Patos de Minas

Titular 2: Profa. Dra. Regina Helena Pires Universidade de Franca

FRANCA 2020

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DEDICO este trabalho ao meu pai que partiu durante essa construção, mas que continua vivo em mim e certamente orgulhoso desta conquista, e também a todas as pessoas adjetivadas com a loucura, segredadas da própria existência e asiladas a lugar nenhum, que apesar de incompreendidas continuam lutando por pertencer.

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AGRADECIMENTOS

À professora Fabíola pela sua disponibilidade, paciência e dedicação dispensadas ao desenvolvimento deste trabalho.

Aos docentes do Programa de Promoção de Saúde que com suas

“provocações” me inquietaram para o que eu precisava reconhecer.

Aos trabalhadores da UNIFRAN, por todo auxílio prestado.

À Secretaria Municipal de Saúde do município de Patos de Minas – M.G., e seus gestores que apoiaram a pesquisa e acreditaram na proposta.

Aos colegas de trabalho pela generosidade e cooperação em todas as etapas de minha busca.

Aos usuários do SUS que lutam por um lugar de escuta e são a razão maior dessa caminhada.

Aos meus companheiros de estrada que dividiram cada quilômetro comigo e tornaram o percurso mais leve.

Aos amigos que me incentivaram a iniciar o mestrado e me acolheram amorosamente em todas as etapas.

Aos meus familiares pela disponibilidade e apoio incondicionais.

Ao meu marido, Geraldo, que se fez presente em cada minuto, pela cumplicidade de sempre, sendo colo nos momentos mais difíceis e celebração a cada conquista.

Em especial ao meu pai que mesmo não estando fisicamente aqui me presenteou com a vida, me emprestou seus dias e confiou em mim. Hoje sou despretensiosamente um pouco melhor, graças a sorte de ter nascido em seu ninho.

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

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Nasci nu da razão. Tenho muito para agradecer a tantas pessoas. Que sou o que sou graças à boa intenção de muitos.

Geraldo Tinoco

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RESUMO

TINOCO, L.M.B. Levantamento das demandas para a rede de saúde mental na Atenção Primária de um município do interior de Minas Gerais. 2020. 97f.

Dissertação (Mestrado em Promoção de Saúde) – Universidade de Franca, Franca.

A insatisfação com o modelo manicomial deu origem ao movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira nos anos 70. A partir daí a atenção à saúde mental direcionou- se para o cuidado assegurado no território em redes de atenção à saúde, sendo a Atenção Primária (AP) um dos principais pontos de acolhimento. No entanto, há atualmente uma escassez de práticas e discussões teóricas acerca da implantação de ações da saúde mental neste setor, o que torna urgente uma maior investigação, principalmente no que diz respeito ao acolhimento e encaminhamento dos usuários.

O presente trabalho objetivou, por meio da análise das guias de encaminhamento, levantar as demandas dos usuários encaminhados pelas Equipes de Saúde da Família (EqSF) à rede de saúde mental na AP de um município do interior do estado de Minas Gerais. Trata-se de um estudo documental de corte transversal e abordagem quantitativa. O estudo foi desenvolvido durante quatro meses em 20 unidades de saúde urbanas e sete rurais do município, perfazendo 40 EqSF. Para a coleta de dados foi feito o acesso às informações contidas nas guias de encaminhamento por meio da digitação das mesmas no sistema Vivver, um software utilizado pela gestão pública atual, o que possibilitou o levantamento de dados e a caracterização das demandas. Foram adotadas as análises descritivas de dados por meio de frequências absolutas e relativas. Foram criadas 12 categorias referentes aos motivos dos encaminhamentos, categorizadas segundo critérios do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Foram analisadas 688 guias de encaminhamentos, e constatou-se que a maior parte delas (76,3%) foram encaminhadas por médicos da EqSF. Os usuários encaminhados são em sua maioria mulheres (78,1%), com idade entre 21 e 60 anos, pertencentes ao território do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) 4. As demandas que mais apareceram nos motivos dos encaminhamentos foram condições ligadas ao transtorno de ansiedade (44,9%) e ao transtorno depressivo (37,6%). As condições ligadas ao transtorno do sono-vigília, ao uso de substância e ao espectro da esquizofrenia foram as menos prevalentes no estudo. Acredita-se que o conhecimento do perfil dos usuários e suas principais demandas poderá contribuir para um melhor preparo das equipes de saúde quanto ao acolhimento e cuidado desta população, aprimorando a gestão dos fluxos e a criação de ações, a fim de otimizar o serviço de saúde mental neste nível de atenção.

Palavras-chave: Atenção Primária. Demandas. Saúde mental.

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ABSTRACT

TINOCO, L.M.B. Survey of the demands for the mental health network in Primary Care in a city in the interior of Minas Gerais. 2020. 97f. Dissertation (Master in Health Promotion) - University of Franca.

Dissatisfaction with the asylum model gave rise to the Brazilian Psychiatric Reform movement in the 1970s. Thereafter, attention to mental health was directed towards the care provided in the territory in health care networks, with Primary Care (PC) being one of the main reception points. However, there is currently a shortage of practices and theoretical discussions about the implementation of mental health actions in this sector, what makes a greater investigation urgent, especially with regard to the reception and referral of users. This study aimed, through the analysis of referral guides, to raise the demands of users sent by Family Health Teams (FHT) to the mental health network in Primary Care in a city in the interior of the state of Minas Gerais. This is a cross-sectional documentary study with a quantitative approach. The study was carried out for 4 months in 20 urban and seven rural health units in the municipality, making up 40 Family Health Teams. For data collection, the information contained in the routing guides was accessed by typing them into the Vivver system, a software used by the current public management, which made it possible to collect data and characterize the demands. Descriptive analyzes of data were adopted by means of absolute and relative frequencies. Twelve categories were created regarding the reasons for referrals, categorized according to criteria in the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 688 referral guides were analyzed, and it was found that most of them (76.3%) were referred by FHT doctors. The majority of users referred are mostly women (78.1%), aged between 21 and 60 years, belonging to the FHSC 4 territory. The demands that most appeared in the reasons for referrals were conditions associated to anxiety disorder (44.9 %) and depressive disorder (37.6%). Conditions associated to sleep-wake disorder, substance use and the spectrum of schizophrenia were the least prevalent in the study. It is believed that the knowledge of the users' profile and their main demands may contribute to a better preparation of the health teams regarding the reception and care of this population, improving the management of flows and the creation of actions, in order to optimize the mental health service at this level of care.

Keywords: Primary care. Demands. Mental health.

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RESUMEN

TINOCO, L.M.B. Encuesta de las demandas de la red de salud mental en Atención Primaria en una ciudad del interior de Minas Gerais. 2020. 97f. Tesis (Maestría en Promoción de la Salud) - Universidad de Franca, Franca.

El descontento con el modelo de asilo dio lugar al movimiento de Reforma Psiquiátrica brasileña en la década de 1970. Posteriormente, la atención a la salud mental se orientó hacia la atención brindada en el territorio en las redes de atención de salud, siendo la Atención Primaria (AP) una de ellas, principales puntos de recepción. Sin embargo, actualmente existe una escasez de prácticas y discusiones teóricas sobre la implementación de acciones de salud mental en este sector, lo que hace urgente una mayor investigación, especialmente en lo que respecta a la recepción y derivación de usuarios. Este estudio tuvo como objetivo, mediante el análisis de guías de derivación, elevar las demandas de los usuarios remitidos por los Equipos de Salud de la Familia (EqSF) a la red de salud mental en Atención Primaria de un municipio del interior del estado de Minas Gerais. Se trata de un estudio documental transversal con enfoque cuantitativo. El estudio se realizó durante 4 meses en 20 unidades de salud urbanas y siete rurales del municipio, totalizando 40 Equipos de Salud de la Familia. Para la recolección de datos, se accedió a la información contenida en las guías de enrutamiento ingresándolas en el sistema Vivver, un software utilizado por la administración pública actual, que permitió la recolección de datos y caracterización de demandas. Se adoptaron análisis descriptivos de los datos mediante frecuencias absolutas y relativas. Se crearon doce categorías sobre los motivos de las derivaciones, categorizadas según los criterios del Manual Diagnóstico y Estadístico de los Trastornos Mentales. Se analizaron 688 guías de derivación y se encontró que la mayoría de ellas (76,3%) fueron derivadas por médicos de la EqSF. La mayoría de los usuarios referidos son mujeres (78,1%), con edades comprendidas entre 21 y 60 años, pertenecientes al territorio NASF 4. Las demandas que más aparecieron en los motivos de derivación fueron las condiciones vinculadas al trastorno de ansiedad (44,9%). %) y trastorno depresivo (37,6%). Las condiciones relacionadas con el trastorno del sueño y la vigilia, el uso de sustancias y el espectro de la esquizofrenia fueron las menos prevalentes en el estudio. Se cree que el conocimiento del perfil de los usuarios y sus principales demandas puede contribuir a una mejor preparación de los equipos de salud en cuanto a la recepción y atención de esta población, mejorando la gestión de los flujos y la creación de acciones, con el fin de optimizar el servicio de salud mental en este nivel de atención.

Palabras clave: Atención primaria. Demandas. Salud mental.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Origem das guias de encaminhamento quanto ao profissional solicitante (n = 688), entre outubro de 2019 a fevereiro de 2020.

Patos de Minas -MG... 51 Figura 2. Motivo do encaminhamento/descrição do caso especificado e não

especificado (n = 688). Patos de Minas- MG, outubro de 2019 a fevereiro de 2020 ... 52

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1. População do município adscrita no SUS segundo sexo. Patos de Minas -MG, 2019 ... 34 Tabela 2. População do município adscrita no SUS segundo faixa etária.

Patos de Minas- MG, 2019 ... 35 Tabela 3. Relação das Unidades Básicas de Saúde (UBS), Equipes de

Saúde da Família (EqSF) vinculadas a elas e população adscrita.

Patos de Minas – MG, 2019 ... 35 Tabela 4. Demandas apresentadas nos encaminhamentos para a rede de

saúde mental na AB. Patos de Minas - MG, outubro de 2019 a fevereiro de 2020 ... 53 Tabela 5. Demandas apresentadas nos encaminhamentos para a rede de

saúde mental na AB em cada território do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF). Patos de Minas- MG, outubro de 2019 a fevereiro de 2020 ... 54 Tabela 6. Relação das demandas encaminhadas para a rede de saúde

mental na AB de acordo com o sexo. Patos de Minas- MG, outubro de 2019 a fevereiro de 2020... ... 55 Tabela 7. Relação das demandas encaminhadas para a rede de saúde

mental na AB de acordo com a idade. Patos de Minas- MG, outubro de 2019 a fevereiro de 2020 ... 56

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1. Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Equipes de Saúde da Família (EqSF) vinculadas aos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), 2019. Patos de Minas - MG... 37 Quadro 2. Equipes dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASFs) e

profissionais de saúde mental vinculados a eles, 2019. Patos de Minas - MG ... 38

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LISTA DE ABREVIATURAS

AB Atenção Básica

ACS Agentes comunitários de saúde AP Atenção Primária

APS Atenção Primária à Saúde

CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CAPS Centro de Atenção Psicossocial

CREPOP Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas DSM-V Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais

ESF Estratégia de Saúde da Família EqSF Equipes de Saúde da Família

ICPE Consórcio Internacional de Epidemiologia Psiquiátrica MRS Movimento da Reforma Sanitária

MTSM Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental NASF Núcleos de Apoio à Saúde da Família

OMS Organização Mundial de Saúde

PMAQ Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica

PNAB Política Nacional de Atenção Básica PSF Programa de Saúde da Família RAPS Rede de Atenção Psicossocial

SERSAME Serviço de Referência em Saúde Mental SIAB Sistema de Informação da Atenção Básica SUS Sistema Único de Saúde

UBS Unidades Básicas de Saúde UPA Unidade de Pronto Atendimento

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APRESENTAÇÃO

A construção de um lugar para a saúde mental na Atenção Primária: a jornada da autora e seu objeto de pesquisa

Há cerca de doze anos, recebi uma carta dizendo que havia passado no concurso para trabalhar no município de Patos de Minas, Minas Gerais, minha cidade natal, e que deveria assumir o cargo de psicóloga clínica o quanto antes. Era fevereiro de 2008 e eu não cabia em tamanho contentamento.

Na época, eu era contratada pela secretaria de saúde de um município vizinho e cumpria vários papéis, uma vez que era a única psicóloga da cidade. Mudar de município, me aproximar dos meus vínculos e ter um cargo efetivo me fez criar expectativas e assinar logo minha admissão.

Foi mais de uma década de dedicação, aprendizados e muitas trocas.

Mergulhei no Sistema Único de Saúde – SUS, me lancei nas redes, conheci histórias, visitei diversidades e, após todos esses anos, acredito que hoje entendo um pouco melhor o que pode ser um esboço do meu papel.

Em 2018, em meio a uma época de total apatia e alheamento da rede de saúde mental no município, recebi um convite quase irrecusável. Foi me feita a proposta de trabalhar como apoiadora da rede de atenção em saúde mental na Atenção Primária, um cargo até então inexistente, um lugar de mais responsabilidade para o qual me estabeleci e acredito ser sagrado por ser um espaço de possibilidades onde quem sabe podem nascer novos movimentos.

Nesse tempo me deparei com um quadro preocupante que me trouxe certas angústias. Constatei o que já era sabido. A realidade de uma rede desconectada; a ausência de reuniões, registros, protocolos ou qualquer indicador; profissionais desacreditados e temerosos quanto a possíveis mudanças; e, por fim, o desconhecimento das equipes e de alguns gestores a respeito da rede de atenção em saúde mental.

Ainda assim acreditei e continuo acreditando que é possível unir forças e mudar essa realidade. Em meio a dificuldades, resistências, conquistas e trocas temos avançado. Nesse período saímos do trabalho solitário e nos “re-conhecemos”

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enquanto equipe em reuniões mensais, passamos a buscar conhecimentos, a nos comunicar com as redes; enfim, criar projetos. Aumentamos a equipe, começamos a emitir um som e, quem sabe, já nos fazemos ser ouvidos. Essa caminhada de conquistar um lugar na Atenção Primária parece árdua, mas valorosa. Saber que faço parte desse processo histórico é singular.

Foi nesse contexto que optei por ingressar no Programa de Pós-Graduação em Promoção de Saúde e ampliar meus conhecimentos, para que pudesse saciar minha sede de compreensão. Dessa forma, passei a fazer parte do Grupo de Estudo da Docente Orientadora Fabíola Pansani Maníglia, e optei pela linha de pesquisa:

Políticas e Práticas em Promoção da Saúde, bem como pelo projeto de pesquisa do programa: Subsídios para práticas, políticas e avaliações em Promoção da Saúde.

Penso que para qualquer processo de vida que ousamos trabalhar, precisamos primeiramente nos dispor a conhecer. Então, foi aí que iniciei minha empreitada, curiosa por saber o que revelam as infinitas guias de encaminhamento para a rede de atenção em saúde mental, impulsionada pela carência de estudos sobre essa temática na realidade do município, e pela possibilidade de sanar um pouco essa lacuna, contribuindo para um processo de fortalecimento dos princípios prezados pela Reforma Psiquiátrica em minha cidade natal. Dessa forma, elegi o Levantamento das demandas para a rede de saúde mental na Atenção Primária de um município do interior de Minas Gerais como tema de minha pesquisa.

As perguntas são muitas, e creio que esta pesquisa seja o primeiro passo de uma expedição sem fim, onde será sempre necessário assinalar os achados para a construção de um mapa onde nem profissionais nem usuários se percam ou fiquem excluídos de um lugar de direito.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 18

1 REVISÃO DE LITERATURA ... 20

1.1 SAÚDE, ATENÇÃO BÁSICA E ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA: UM BREVE HISTÓRICO ... 20

1.2 A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA NO BRASIL ... 23

1.3 A SAÚDE MENTAL NO MUNICÍPIO DE PATOS DE MINAS ... 28

1.4 PROMOÇÃO DE SAÚDE E SAÚDE MENTAL ... 30

2 OBJETIVOS ... 33

2.1 OBJETIVO GERAL ... 33

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 33

3 PROCEDIMENTO METODOLÓGICO ... 34

3.1 NATUREZA DA PESQUISA ... 34

3.2 LOCAL DO ESTUDO ... 34

3.3 ASPECTOS ÉTICOS ... 40

3.4 PROCEDIMENTOS E INSTRUMENTOS DE COLETA DOS DADOS ... 40

3.5 ANÁLISE DOS DADOS ... 42

4 RESULTADOS ... 51

4.1 CARACTERÍSTICAS DAS GUIAS DE ENCAMINHAMENTO QUANTO AO PROFISSIONAL SOLICITANTE ... 51

4.2 CARACTERÍSTICAS DAS GUIAS DE ENCAMINHAMENTO QUANTO AO PREENCHIMENTO DO ITEM: MOTIVO DO ENCAMINHAMENTO /DESCRIÇÃO DO CASO ... 52

4.3 DEMANDAS LEVANTADAS PARA A REDE DE SAÚDE MENTAL NA AB E PERFIL DOS USUÁRIOS ENCAMINHADOS ... 52

5 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 58

5.1 CARACTERÍSTICAS DAS GUIAS DE ENCAMINHAMENTO QUANTO AO PROFISSIONAL SOLICITANTE ... 58

5.2 CARACTERÍSTICAS DAS GUIAS DE ENCAMINHAMENTO QUANTO AO PREENCHIMENTO DO ITEM: MOTIVO DO ENCAMINHAMENTO /DESCRIÇÃO DO CASO ... 59

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5.3 DEMANDAS LEVANTADAS PARA A REDE DE SAÚDE MENTAL NA AB

E PERFIL DOS USUÁRIOS ENCAMINHADOS ... 61

6 CONLUSÕES ... 80

REFERÊNCIAS ... 81

ANEXOS ... 91

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INTRODUÇÃO

O movimento pela Reforma Psiquiátrica iniciou-se no Brasil no final da década de 70 e surgiu como uma crítica ao modelo manicomial, hospitalocêntrico, caracterizado por práticas de abandono, maus tratos, condições insalubres e isolamento (MINAS GERAIS, 2006). Dessa forma, em meio ao cenário de luta da população brasileira pelo acesso à Saúde Pública e a urgência por mudanças no sistema higienista vigente, acontece concomitantemente no país uma busca importante no campo da saúde mental por conquistas de direitos e espaços mais humanizados.

A Política de saúde mental Brasileira, instituída por meio da Lei 10.216, foi criada com o intuito de garantir o cuidado do usuário no território, em redes de atenção e proteção à saúde, prezando a criação de serviços que poderiam substituir o modelo manicomial. Com a criação do SUS, o cuidado em saúde mental é organizado por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), a qual é constituída por diversos serviços que preconizam o atendimento a pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas (BRASIL, 2005).

Nesse contexto, merece aqui a importância de se destacar a Atenção Primária (AP) como um dos mais importantes pontos de atenção para acolher as demandas de saúde mental e um dispositivo que pode ser primordial nessa rede de assistência.

Um estudo feito pelo Ministério da Saúde nos anos de 2001 e 2002 mostrou que 51% das Equipes de Saúde da Família (EqSF) faziam algum tipo de atendimento ou trabalho voltado para a saúde mental, confirmando a enorme demanda desse setor na AP (NUNES; JUCÁ; VALENTIM, 2007).

No entanto, parece haver um desconhecimento evidente em relação as demandas de saúde mental entre os profissionais da AP, especificamente os da ESF parecem não se sentirem preparados para acolher as demandas dos usuários em sofrimento mental. Não raras vezes, justificam que a prática nessas situações é a

“desistência” do caso, antes de qualquer tentativa de cuidado, sendo orientados a encaminhar o usuário para um profissional especializado no assunto, por não terem o preparo para atender demandas em saúde mental (PAULON et al. 2019).

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Dessa forma, verifica-se a importância de se explorar melhor a realidade da saúde mental na AP, principalmente em relação as demandas apresentadas pelos usuários, o que pode conjugar para um planejamento e direcionamento mais adequado dos serviços de saúde oferecidos à comunidade. Conhecer o perfil do usuário e suas necessidades pode colaborar para a elaboração de programas de prevenção e promoção da saúde mais eficazes, reforçando o respeito as diversidades entre os territórios, a equidade, o cuidado mais humanizado, a autonomia e o empoderamento do indivíduo em sofrimento mental. Além de fomentar o trabalho em rede favorecendo a integralidade do cuidado.

Portanto, esta pesquisa foi conduzida partindo da seguinte pergunta norteadora: quais as demandas e o perfil do usuário encaminhado para o serviço de saúde mental na AP no município de Patos de Minas?

Por meio deste estudo, informações a respeito da saúde mental na AP serão fornecidas e poderão contribuir para o planejamento e elaboração de ações que possam melhorar o cuidado em saúde mental neste ponto de atenção.

Uma vez que dentro do município não foi encontrado até o momento nenhum registro que contemple informações a respeito das demandas em saúde mental na AP, esse trabalho justifica-se pela possibilidade de oferecer dados até então inéditos que poderão ser analisados e utilizados de forma favorável nesse setor. Logo, o objetivo geral é caracterizar a população e as demandas dos usuários encaminhados para a rede de saúde mental na AP do município de Patos de Minas – MG.

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1 REVISÃO DE LITERATURA

1.1 SAÚDE, ATENÇÃO BÁSICA E ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA: UM BREVE HISTÓRICO

Para compreendermos a configuração das Políticas de Saúde no Brasil, que culminaram no atual Sistema Único de Saúde (SUS) vigente, faz-se necessário uma breve retrospectiva desse campo engendrada ao longo do tempo em uma teia de intermináveis avanços e recuos.

Ao longo da história a saúde foi adquirindo variados conceitos sob os quais foram embasadas suas práticas, desde concepções sagradas a explicações essencialmente biológicas (BOTH, 2013). Segundo Lopes (2016), no século XX por exemplo, baseada no princípio da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que a saúde deveria ser o estado mais completo de bem-estar, físico, mental e social a que todos deveriam ter acesso, surge a ideia da responsabilização por parte dos Estados para garantir esse alcance, devendo esses criar instituições que prezassem por sua garantia.

No mesmo século, no Brasil, ocorreram movimentos por uma saúde mais regionalizada e de responsabilidade do estado, influenciados pela III Conferência Nacional de Saúde (LUZ, 1991). Com o afrouxamento da Ditadura Militar, manifestações populares ganharam evidência, e, nesse cenário, surgiu uma organização para o Movimento da Reforma Sanitária (MRS) (DAROS, 2006).

Desse modo, a reforma sanitária brasileira, surge como um movimento de transformação do sistema de saúde no Brasil, trazendo a possibilidade de mudanças que perpassam as esferas políticas, sociais, econômicas e culturais (SANTOS, 2009).

Luz (1991) destaca que uma influência direta no MRS foi a Conferência de Alma Ata, que aconteceu em 1978 na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sendo a Declaração de Alma Ata considerada a primeira declaração internacional que destacou a importância da atenção primária em saúde e teve grande impacto para as deliberações da VIII Conferência Nacional de Saúde, que ocorreu no Brasil em 1986 contando com a participação da sociedade.

O conceito de AP surgiu nesse âmbito, sendo referido como os cuidados essenciais à saúde, baseados em tecnologias acessíveis, que permitissem o alcance

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facilitado aos serviços, sendo assim, o primeiro elemento de um processo contínuo de atenção (ALMA-ATA, 2008).

Outra inspiração para o MRS foi a Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Ottawa, Canadá, no ano de 1986, que estabeleceu, por meio da Carta de Ottawa, medidas de importância para se atingir uma política de saúde para todos de forma equânime e universal (BRASIL, 2002).

É nesse contexto de mudanças propostas pela Reforma Sanitária que surge o SUS como uma das ferramentas pensadas para criar soluções aos problemas existentes na época trazendo como premissa que a saúde deveria ser um direito de todos os brasileiros.

Pode-se, portanto, considerar o SUS como uma política de natureza macrossocial, que preza pela articulação de um conjunto de políticas específicas (atenção básica, atenção hospitalar, urgência e emergência, entre outras) e propõe a criação de diferentes práticas de saúde (PAIM, 2009).

Uma das políticas específicas que fazem parte do SUS é a Atenção Básica (AB) designada mundialmente de Atenção Primária à Saúde (APS), a qual já era considerada uma mudança radical a ser implementada por países que pretendiam alcançar níveis elevados de saúde e potencialização da vida (CFP, 2019).

A AB surge com o objetivo de reorientar o modelo assistencial vigente, caracterizando-se por um conjunto de ações, individuais e coletivas que incluem a promoção e a proteção da saúde, focando na prevenção de agravos, no diagnóstico, tratamento e reabilitação, devendo ser, portanto, o contato prioritário da população com o sistema de saúde (BRASIL, 1990).

No Brasil, a AB teve seu período de instalação no início dos anos 1990, e seu modelo assistencial surgiu como um programa pontual chamado Programa de Saúde da Família (PSF), sendo em seguida oficializada como nível de atenção em saúde, passando seu modelo de assistência a ser designado de ESF (DAROS, 2006).

Assim sendo, a ESF é considerada o modelo assistencial da AB e se fundamenta no trabalho de equipes multiprofissionais dentro de um determinado território, desenvolvendo nele ações de saúde a partir do conhecimento da realidade local e das necessidades de sua população (BRASIL, 2003).

Vale lembrar que um território, de acordo com Gazinato e Silva (2014) pode ser entendido não somente como um espaço geográfico, mas principalmente como uma área que habita subjetividades, pessoas, instituições, redes e cenários onde a vida

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comunitária acontece. Dessa forma, as práticas territoriais englobam os saberes, experiências e potencialidades dos recursos que tem aquela comunidade e o conceito do território nesse âmbito funciona como organizador da rede de atenção à saúde e norteia suas ações (GAZINATO; SILVA, 2014).

A AB tem como um dos pontos de atenção a Unidade Básica de Saúde (UBS), devendo essa, funcionar como a porta de entrada preferencial do SUS. A mesma conta com EqSF, as quais atendem, cada uma delas, em torno de quatro mil pessoas, dependendo das condições socioepidemiológicas e das diferentes maneiras de organização da UBS (BRASIL, 2011). Cada equipe é composta por no mínimo um médico generalista ou especialista em saúde da família ou também médico de família e comunidade, um enfermeiro generalista ou que seja especialista em saúde da família, um auxiliar ou técnico de enfermagem e no máximo 12 Agentes Comunitários de Saúde (ACS), sendo que os profissionais de saúde bucal também podem ser acrescentados a equipe (BRASIL, 2011).

Na década de 2000, a AB conseguiu avanços quanto a suas ações na saúde devido à instalação da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) (CFP 2019). A partir dessa política, foi possível a incorporação de mais um componente nesse setor:

os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), previstos em 2008 pela Portaria n.º 154, visando ampliar a abrangência e a resolubilidade das ações na AB (BRASIL, 2012).

Os NASFs são compostos por profissionais de diferentes áreas do conhecimento que trabalham de maneira integrada com as EqSF e dão apoio as mesmas, sendo que existem três modalidades de NASF: 1, 2 e 3, e o critério para sua composição irá depender da gestão local, dos dados epidemiológicos, do número de equipes apoiadas e das necessidades locais (BRASIL, 2012).

Dessa forma, percebe-se por meio dessa criação de programas, políticas e articulações o quão complexo é esse processo que acaba afetando diretamente os rumos e as práticas da saúde em todos os campos. A vista disso, não poderia ser diferente quanto ao setor de saúde mental, o qual também é influenciado diretamente por todas as mudanças históricas nas políticas de saúde. Pode-se dizer que, além de todos os avanços, o SUS trouxe consigo também a possibilidade de ampliação do olhar para os fenômenos psicológicos e suas particularidades, bem como a possibilidade de ruptura com uma prática higienista e hospitalocêntrica, sendo a AB uma de suas políticas específicas essenciais para abrigar novas perspectivas de cuidado.

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1.2 A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA NO BRASIL

Em meio ao cenário de luta da população brasileira pelo acesso à saúde pública e a urgência por mudanças no sistema higienista vigente, aconteceu concomitantemente no país uma busca importante no campo da saúde mental por conquistas de direitos e espaços mais humanizados.

Ao longo da história, pode-se dizer que houve uma reclusão da loucura o que se materializou com o alto número de manicômios abertos nas primeiras décadas do século XX, e todos eles com caráter repressivo: abandono, maus tratos, condições insalubres e isolamento marcaram esse período, até surgir os primeiros movimentos para uma reforma da psiquiatria (MINAS GERAIS, 2006).

Nessa perspectiva, passou-se a defender a desinstitucionalização, que, segundo Rotelli Leonardis e Mauri (2001), trata-se de um processo social e complexo, com a intenção de desconstruir o saber psiquiátrico hegemônico enquanto instituição que sustenta todo o conhecimento e tratamento da loucura, reduzindo-a a sua dimensão biológica, desconsiderando o indivíduo em seus aspectos humanos, sociais, políticos e culturais.

No Brasil, surgiram propostas de reformas focadas na ‘humanização’ do tratamento, denunciando a internação como fator iatrogênico no surgimento da doença mental (BARRETO, 2003).

Um movimento importante criado ao final do século XX, foi o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), criado por profissionais ligados ao setor da saúde mental, os quais questionavam os modelos psiquiátrico e hospitalocêntrico vigentes, dominados por uma rede privada de assistência, e traziam propostas de desospitalização e mudanças na assistência médica (BRASIL, 2005).

A realização da I Conferência Nacional de Saúde Mental em 1987 consolidou a Reforma Sanitária nesse setor, ressaltando a valorização do cuidado ambulatorial especializado e o da rede básica de saúde (BRASIL, 1988). Outras três conferências também marcaram a história da reforma psiquiátrica no Brasil, todas pautadas na saúde mental como um direto de todos.

A reforma psiquiátrica brasileira, Segundo Heidrich et al. (2015) originada na década de 1970 ganhou força maior após a aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei 10.216) no ano de 2001, que foi concebida como um avanço legal de suma importância para a saúde mental.

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A política de saúde mental brasileira, instituída por meio da Lei 10.216, foi criada com o intuito de garantir o cuidado do usuário no território, em redes de atenção e proteção à saúde, o que se consolidou por meio da criação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), constituída por diferentes pontos de atenção, como: AB, Atenção Psicossocial, Urgência e Emergência, Residencial de Caráter Transitório, Hospitalar, Estratégias de Desinstitucionalização e Estratégias de Reabilitação Psicossocial (BRASIL, 2005). Vários serviços fazem parte desses pontos de atenção como: UBS, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), portas hospitalares de atenção à urgência, entre outros (BRASIL, 2005).

A AB como um dos pontos importantes da rede de atenção em saúde mental, tem sido, desde então, tema de grande interesse no Brasil, tomando como exemplo outros países que reorganizaram seus modelos de cuidados tendo como base a APS (TÓFOLI; FORTES, 2007).

Na década de 2000 muitos materiais em relação à saúde mental na AB foram produzidos a partir de experiências locais, além de documentos e relatórios extraídos das Conferências Nacionais de Saúde Mental. Nessa mesma década, com a intenção de nortear ações para o setor surgiram algumas propostas ministeriais, e a OMS se pronunciou:

O manejo e tratamento de transtornos mentais no contexto da atenção primária é um passo fundamental que possibilita ao maior número possível de pessoas ter acesso mais fácil e mais rápido aos serviços (...) (OMS, 2001, p. 8).

Em 2001 o Ministério da Saúde (MS) reconheceu as diversas experiências isoladas no país e realizou uma oficina para discutir um Plano de Inclusão da saúde mental na AB, o que foi reforçado pela sanção da Lei Nacional sobre a Reforma Psiquiátrica no Brasil (BRASIL, 2001a).

Vale ressaltar, outro incentivo que permeou os avanços da saúde mental, quando ela também ganhou destaque na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, e passou a fazer parte do terceiro dos 17 objetivos do milênio que enfatiza a importância de se promover a saúde mental e o bem-estar entre os povos até o ano de 2030 (AGENDA, 2030).

No ano de 2008 com a criação do NASF, e a inclusão dos profissionais de saúde mental nessas equipes, há um avanço nítido quanto às responsabilidades

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compartilhadas entre profissionais e um grande fortalecimento para a inclusão da saúde mental na AB (BRASIL, 2010).

Pode-se dizer assim, que hoje a atuação da equipe de saúde mental na AB é praticamente referenciada pela inserção dos profissionais do NASF nas unidades de saúde, principalmente o psicólogo (CFP, 2019). A existência do NASF está ligada diretamente com a saúde mental e a reforma psiquiátrica, uma vez que coloca os profissionais em um contato mais ativo e constante com a população, e pode-se dizer que desde a implantação do programa, o número de psicólogos que ofertam apoio à ESF cresceu significativamente (CFP, 2019).

No entanto, há uma configuração atual na AB onde grande parte dos psicólogos estão trabalhando no NASF e outra parte lotados em UBS de formas diversas, sendo que, o trabalho do profissional lotado na UBS fica basicamente direcionado ao atendimento do paciente com transtorno crônico e contínuo, enquanto atividades grupais, visitas, orientações e apoios ficam sob responsabilidade do psicólogo do NASF (CRP, 2018).

É sabido, contudo, que diante das pressões pela quantidade de demandas individuais, a equipe de saúde mental na AB acaba compelida a um modelo biomédico baseado no atendimento e encaminhamento, o que dificulta a concretização de um plano mais abrangente de trabalho voltado à prevenção e promoção da saúde (CFP, 2019). Quanto a essa pressão evidenciada pela grande quantidade de demandas, Fortes (2004) revela que a prevalência de transtornos mentais na AB, tanto no contexto nacional quanto internacional é bastante relevante, atingindo um terço da demanda total, ultrapassando taxas de 50% quando se inclui o sofrimento com sintomas subsindrômicos.

No entanto, em relação ao acolhimento dessas demandas, percebe-se ainda, uma prática bastante comum na AB por parte da equipe de saúde em acionar os psicólogos com o intuito de “passar o caso”, o que de fato, reforça a lógica da necessidade de uma construção coletiva do saber como um quesito importante a ser trabalhado (CFP, 2019). Muitos profissionais nas equipes de saúde, não raras vezes, revelam uma angústia quando usuários em sofrimento mental chegam para o atendimento, e justificam que a prática nessas situações é a “desistência” do caso, antes de qualquer tentativa de cuidado (PAULON et al. 2019).

Constata-se assim, que os usuários em sofrimento mental são frequentemente vistos nos serviços de saúde como pessoas difíceis de lidar e acabam sendo

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encaminhados, muitas vezes sem demanda própria, a uma psicoterapia interminável, cujas razões e objetivos não são claros nem para eles nem para os profissionais que os acompanham (MINAS GERAIS, 2006).

No entanto, vale questionar o que são, e quais são as demandas encaminhadas aos profissionais de saúde mental na ESF, e se de fato todos os casos de sofrimento psíquico necessitariam, do atendimento de especialistas.

De acordo com o Ministério da Saúde, 3% da população precisam de cuidados em saúde mental de forma continuada, pelo fato de sofrerem com sintomas severos e persistentes, o que acaba exigindo uma rede de cuidados diversificada; em torno de 9% da população apresentam transtornos mentais leves, e cerca de 6 a 8% apontam transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas, devendo ser todas essas demandas de responsabilidade da AB (BRASIL, 2003). Existe uma parcela de 10 a 12% de pacientes que não apresentam transtornos mentais graves, mas ainda sim necessitam de algum cuidado em saúde mental (DIMENSTEIN, 2009). Enfim, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2013), as demandas em saúde mental perpassam muitas das várias queixas trazidas pelos usuários que frequentam a AB, o que comprova que não estão desagregadas da saúde de uma forma geral.

Com base nessa alta taxa de indivíduos que manifestam a necessidade de cuidados em saúde mental, seja por um desejo próprio, ou por orientação profissional, é importante dar atenção a tais pedidos, compreendendo o conceito de demanda, o qual aparece de forma variada na literatura, conceituada por diferentes autores de acordo com suas demarcações e definições do termo.

Baremblitt (2002) compreende a ideia de demanda como sendo uma solicitação que não é espontânea, mas sim produzida pela oferta, e acrescenta que a demanda seria a solicitação formal, deliberada, que nunca coincide com o encargo, o qual é o pedido implícito ou não manifesto. Para Cecílio (2006) as necessidades de saúde trazidas pelas pessoas que buscam o serviço são travestidas em algumas demandas específicas, assim, a demanda seria o pedido explícito, a manifestação das necessidades mais complexas do usuário. Já Camargo (2006), compreende demanda como sendo algo que resulta de um processo de negociação entre os atores envolvidos, sendo que os resultados são provisórios e até mesmo instáveis, dando a ideia de construção de dados, não se oferecendo esses de forma passiva à observação.

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Nesse sentido, conhecer as demandas que permeiam as infindáveis guias de encaminhamentos, bem como, quem é o usuário por detrás desses pedidos é de suma importância, principalmente pela escassez de informações observada a nível nacional.

Segundo Paulon et al. (2019), existe hoje uma lacuna de informações quanto a saúde mental no Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). De acordo com o autor, informações essenciais sobre as demandas, prevalência de transtornos mentais na população, uso de medicação psiquiátrica, base de dados sobre mortalidade e taxas de suicídio, entre outros são fundamentais para se efetivar as políticas de saúde mental, contudo, o cenário atual é de subnotificação total dos agravos.

Pode-se dizer que as condições da saúde mental na AB permanecem ainda pouco estabelecidas, apresentando dificuldades claras quanto ao acolhimento das demandas nesse setor. Algumas pesquisas locais isoladas aconteceram no país, mas o que prevalece é a ausência de dados epidemiológicos e a falta de instrumentos padronizados para se ter parâmetros de comparação. Segundo Gerbaldo et al. (2018) os resultados do segundo ciclo do Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ) (2013-2014) sobre o cuidado em saúde mental, revelam que a inserção da mesma na AB é ainda incipiente, e que a organização do cuidado se encontra bem fragilizada.

A respeito do cenário internacional, informações importantes foram extraídas do documento produzido como parte de uma série técnica sobre cuidados primários em saúde, por ocasião da Conferência Global sobre APS. Segundo o documento, apesar das muitas evidências em torno da necessidade de incluir os cuidados em saúde mental como elementos básicos da AP, esse continua sendo um objetivo não concretizado na maioria dos países, e, portanto, um dos principais impulsionadores da grande lacuna de tratamentos existentes hoje para pessoas com sofrimento mental (WHO, 2018).

Dessa forma, tomando por base tanto o cenário brasileiro, quanto o internacional, pode-se dizer que, o levantamento de dados torna-se estritamente necessário para o conhecimento do que é prevalente no sofrimento psíquico e seus impactos, para assim, traçar metas de ação que possam oferecer os cuidados necessários. Aproximando dessa lógica é de grande importância que essas lacunas comecem por ascender curiosidades sobre esse tema nos próprios municípios e seus territórios, fomentando investigações a respeito dessas realidades, com intuito de alcançar mudanças e compartilhar experiências que enriqueçam e consolidem as

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premissas de uma reforma psiquiátrica vivenciada no cotidiano. É nesse sentido, que esse trabalho foi pensado, como um passo para conhecer uma realidade e a partir de então se debruçar sobre ela, criando meios de torná-la mais adequada e favorável aos que dela usufruem.

1.3 PROMOÇÃO DA SAÚDE E SAÚDE MENTAL

Por volta da segunda metade do século XX a saúde ganhou um olhar mais ampliado, sendo considerada como resultado não só de aspectos biológicos, mas também de determinantes sociais, como a pobreza, habitação precária, desigualdades econômicas, entre outras. Por meio dessa percepção, a promoção da saúde surge de forma expressiva em países desenvolvidos, como o Canadá, Estados Unidos, e outros da Europa Ocidental, trazendo consigo propostas de articulação de saberes e mobilização de recursos que se responsabilizem pela proteção, cuidado e qualidade da vida humana considerando aspectos mais amplos (BUSS, 2003).

Importantes Conferências Internacionais sobre Promoção da Saúde foram realizadas desde então, sendo elas: Ottawa no ano de 1986, Adelaide em 1988, Sundsvall em 1991, Jacarta em 1997, México em 2000, Bankok em 2005, Nairob (2009), Helsink (2013) e por fim Xangai (2016).

De acordo com Heidmann et al. (2006), a primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde teve como resultado a Carta de Ottawa, a qual permanece como eixo central de direcionamento de estratégias e ações em promoção da saúde em todo o mundo.

A Carta de Ottawa considerou a promoção da saúde como um processo de empoderamento da comunidade, incluindo sua maior participação, reforçando a responsabilidade social, prezando pela garantia de oportunidades e recursos de forma igualitária com a intenção de proporcionar a todas as pessoas a conquista de seu potencial de saúde, sendo suas ações focadas na existência de ambientes favoráveis, acesso a habilidades na vida, reorientação dos serviços de saúde entre outros (BRASIL, 2001b).

A Promoção da saúde no Brasil e todo seu movimento surgiu por volta dos anos 80, reforçadas pelo movimento da Reforma Sanitária no país. O debate dessas ideias

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começou a ter destaque durante a 8ª Conferência Nacional da Saúde no ano de 1986, onde os propósitos discutidos eram muito parecidos com os objetivos preconizados pela 1º Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde em Ottawa no Canadá.

As discussões e relatórios finais convergiam para uma definição de saúde em termos mais amplos, não somente sendo a ausência de doença, considerando outras necessidades básicas dos indivíduos (WESTPHAL et al. 2004).

Um marco importante no histórico da promoção da saúde no país, foi sua participação juntamente com mais 20 países latino americanos na 1º Conferência Latino-americana de Promoção da Saúde realizada pela Organização Pan-Americana da Saúde em Bogotá, onde discutiu-se o significado da promoção da saúde na América Latina, bem como a existência de ações para a melhoria da saúde baseada em estratégias de equidade. Várias estratégias foram discutidas em diferentes fóruns desde então, convergindo para a implementação de uma política que pudesse definir a promoção da saúde dentro do SUS (BUSS, 1997).

A promoção da saúde pode ser considerada uma agenda integrada com a prioridade de alcançar mudanças em níveis de assistência, gestão local e proteção social, procurando construir elos entre os diferentes setores, inclusive fora da saúde, como outras agências de governo, de forma que todos se responsabilizem pela proteção, cuidado e qualidade da vida humana. Portanto no Brasil, com a implantação da Política Nacional de Promoção da Saúde em 2006, muitas metas foram traçadas nesse sentido, e para que isso se concretize prioridades já foram definidas, tais como a prevenção do tabagismo, promoção de uma cultura de paz, a promoção de hábitos saudáveis de vida, entre outros (CARVALHO, 2008).

Dessa forma, ao se observar as propostas da Política Nacional de Promoção da Saúde de uma maneira geral, percebe-se também, seu alcance e diálogo com os ideais preconizados pela Política de saúde mental no país.

De acordo com Caçapava et al. (2009), em um estudo sobre A Interface entre as Políticas Públicas de saúde mental e Promoção da Saúde, percebeu-se aproximações importantes entre elas principalmente no que se refere a preconização de práticas, que de uma forma geral contemplam a busca pela autonomia, a necessidade de espaços que permitem escolhas e o fomento de estratégias mais amplas que potencializem recursos levando em consideração a diversidade e pluralidade do indivíduo, conduzindo o mesmo a um protagonismo de sua história, e

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além de tudo o reforço a uma política mais integrada e intersetorial com a criação de redes de trocas e responsabilizações.

Nesse aspecto, fica clara a possibilidade de diálogo entre a saúde mental e os princípios adotados pela PNPS como a equidade, autonomia, empoderamento, integralidade, territorialidade, inter e intrasetorialidade que convergem para a priorização de ações que contemplem as particularidades dos indivíduos e dos grupos possibilitando escolhas conscientes de modos de vida dentro das especificidades dos diferentes territórios.

Quanto a tais aproximações, a Carta de Ottawa apresenta como uma de suas intenções a reorientação dos serviços de saúde, enfatizando que os mesmos precisam adotar uma postura abrangente, que respeite as peculiaridades culturais, apoiando as necessidades individuais e comunitárias para o alcance de uma vida mais saudável (BRASIL, 2002). Nesse sentido, a reorientação dos serviços de saúde em direção a promoção da saúde parece convergir para a superação do modelo biomédico, focado na doença e na assistência curativista, o que se aproxima totalmente do que preconiza a política de saúde mental, que preza transformações na organização dos serviços para uma abordagem mais organizada.

Contudo, ainda que exista uma concordância de ideais entre as políticas citadas acima, no cenário brasileiro especificamente, as áreas de saúde coletiva como um todo e saúde mental, encontram-se em um processo de transição entre um modelo de cuidado individual e curativo, e o modelo coletivo, voltado para a promoção da saúde, a prevenção de doenças, a inclusão e a diversidade (GUIMARÃES e MEDEIROS, 2001) Em se tratando da promoção da saúde mental na AB, especificamente, pode- se dizer que a mesma pode ter amplo espaço neste ponto de atenção, principalmente por meio da atuação dos profissionais das equipes de saúde, quando os mesmos se propõe a se anteciparem ao aparecimento das demandas, a explorar o território se permitindo conhecer seus atores e suas potencialidades (CFP, 2019).

1.4 A SAÚDE MENTAL NO MUNICÍPIO DE PATOS DE MINAS

No município de Patos de Minas, a história da saúde mental começa no ano de 1986 quando foram criadas estratégias em todo estado de Minas Gerais com o

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objetivo principal de controle de egressos dos hospitais psiquiátricos. Na cidade, a estruturação do serviço se deu em função dessa demanda, havendo, entretanto, outros níveis de atendimento como: psicoterapia, psicodiagnóstico, oficinas de bordado, grupos de orientações a pais, entre outros (OLIVEIRA, 1998).

Segundo Oliveira (1998), no início dos anos 90 aconteceu a municipalização da saúde, com a contratação de mais técnicos para integrarem a equipe de saúde mental no município, a construção de uma sede própria para esse setor, e a ampliação da prestação de serviços.

De acordo com a autora, ao final dessa década foi criado o SERSAME - Serviço de Referência em Saúde Mental e os profissionais continuaram a lutar pela reestruturação do setor. Havia necessidade de uma equipe mínima para atender nos Centros de Saúde, a criação de um CAPS para atendimentos de urgência, reordenação de demandas e fluxos, realização de atividades de promoção à saúde, descentralização do serviço e espaços para discussões de eixo teórico-prático entre os técnicos da equipe (OLIVEIRA, 1998).

Nos últimos 30 anos muitas modificações aconteceram nas políticas de saúde mental do município. De acordo com documentos da Secretaria Municipal de Saúde do município, nessas últimas duas décadas a cidade contou com a expansão da RAPS, por meio da implantação dos CAPSs, do NASF, Ambulatório de saúde mental, e também da contratação de psicólogos para a atenção secundária (SMS, 2019).

No ano de 2011 o munícipio optou por trabalhar na perspectiva da descentralização, e o então Ambulatório de saúde mental foi extinto. Os 5 psicólogos que ali atuavam foram então inseridos na ESF, especificamente nas UBSs do município onde atuam até o momento, e são denominados de psicólogos clínicos, uma vez que essa é a nomeação do cargo vigente em seus contratos trabalhistas. A psiquiatria migrou para o Centro de Especialidades que conta hoje com 2 psiquiatras (SMS, 2019).

Hoje o município conta com a atenção em saúde mental distribuída nos diversos pontos da RAPS, cada um contempla suas ações e serviços com o intuito de atender às diferentes necessidades dos usuários e seus familiares, nos diferentes territórios (SMS, 2019).

Considerando a oferta de cuidado em saúde mental na AB, especificamente na ESF, pode-se dizer que, esse ponto de atenção no município, conta hoje com o

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trabalho de 4 psicólogos dos NASFs e 7 psicólogos clínicos, egressos do antigo Ambulatório de saúde mental (SMS, 2019).

É importante ressaltar que para este estudo considera-se a atenção em saúde mental como sendo ofertada pelo profissional de psicologia, especificamente na ESF, e será usado o termo AB designada mundialmente de APS.

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2 OBJETIVOS

2.1 OBJETIVO GERAL

Caracterizar os usuários e as demandas para a rede de saúde mental na Atenção Básica do município de Patos de Minas, MG.

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

 Analisar as guias de encaminhamento para a rede de saúde mental na Atenção Básica do município quanto ao preenchimento do item motivo do encaminhamento/descrição do caso, e profissional solicitante.

 Caracterizar a população atendida pela rede de saúde mental na Atenção Básica quanto às variáveis sociodemográficas e clínicas.

(34)

3 PROCEDIMENTO METODOLÓGICO

3.1 NATUREZA DA PESQUISA

Trata-se de uma pesquisa documental, transversal, quantitativa, de caráter descritivo, que visa levantar as demandas dos usuários para a rede de saúde mental na AB do município de Patos de Minas. Para tanto foram analisados os dados contidos nas guias de encaminhamento das EqSF à rede de saúde mental da AB no município.

3.2 LOCAL DO ESTUDO

O estudo foi desenvolvido nas UBSs do município de Patos de Minas, interior de Minas Gerais.

O município de Patos de Minas fica situado numa região privilegiada intermediária às regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Figura entre as 20 maiores cidades do Estado de Minas Gerais em arrecadação geral de tributos do Estado e é considerada polo econômico regional, liderando a microrregião do Alto Paranaíba (FEELT,2019).

O município de Patos de Minas conta com uma população estimada de 152.

488 pessoas. Em dezembro de 2019 a cidade possuía uma população de 150.683 pessoas cadastradas no SUS, perfazendo uma cobertura de 98,8% pela ESF. Dessas 150.683 pessoas adscritas, como mostra a Tabela 1, 52,17% pertencem ao sexo feminino e 47,83% ao sexo masculino (SAPS, 2019).

Tabela 1 - População do município adscrita no SUS segundo sexo. Patos de Minas, MG, Brasil, 2019

Sexo Frequência Absoluta Percentual

Feminino 78.604 52,17%

Masculino 72.079 47,83%

Total 150.683 100,00%

Fonte: Departamento da Secretaria Municipal de Saúde, 2019. Patos de Minas – MG

(35)

Quanto às idades da população adscrita no SUS do município, pode-se dizer que a maioria se encontra na faixa etária de 25 a 44 anos, conforme Tabela 2.

Tabela 2 - População do município adscrita no SUS segundo faixa etária. Patos de Minas, MG, Brasil, 2019

Faixa de idades Frequência Porcentagem Porcentagem válida

Porcentagem acumulativa

0 a 9 anos 16.031 10,6 10,6 10,6

10 a 24 anos 31.003 20,6 20,6 31,2

25 a 44 anos 45.952 30,5 30,5 61,7

45 a 59 anos 31.091 20,6 20,6 82,3

Acima de 59 anos 26.606 17,7 17,7 100,0

Total 150.683 100,0 100,0

Fonte: Departamento da Secretaria Municipal de Saúde, 2019. Patos de Minas – MG

Patos de Minas conta com 36 equipes urbanas de saúde da família e quatro rurais. A Tabela 3 mostra as unidades de saúde no município, bem como as equipes de saúde vinculadas a elas. Nota-se que existem unidades contando com uma, duas ou três EqSF. Cada equipe é composta em sua maioria por um médico generalista, um enfermeiro, um auxiliar ou técnico de enfermagem e por uma média de seis ACSs.

Também há em algumas unidades a presença da equipe de saúde bucal, a qual é composta por cirurgião-dentista generalista ou especialista em saúde da família, auxiliar e/ou técnico em saúde bucal. Além das equipes de saúde os psicólogos clínicos também estão lotados nas unidades (SMS, 2019).

Tabela 3 - Relação das Unidades Básicas de Saúde (UBS), Equipes de Saúde da Família (EqSF) vinculadas a elas e população adscrita. Patos de Minas – MG, 2019

UBS EqSF População

UBS ALTO COLINA “DR. CARLOS MARTINS NETO” EqSF 08,17 6.145

UBS CIAS “CENTRO INTEGRADO DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE”

EqSF 14 4.658

UBS JARDIM ESPERANÇA ”DR. PAULO CORREA DA

SILVA LOUREIRO” EqSF 09, 16, 40 9.169

UBS NOVA FLORESTA “DR. JOSÉ CLÁUDIO ARPINI” EqSF 15, 30 7.354

UBS NOVO HORIZONTE “IRMA DORA” EqSF 34 4.967

Continua....

(36)

Continuação...

UBS EqSF

População

UBS SEBASTIÃO AMORIM “ADÉLIO DIAS MACIEL” EqSF 32, 33, 38 12.749

ESF PINDAÍBAS ZONA RURAL EqSF 23 3.459

UBS CRISTO REDENTOR “ANDRÉ LUIZ” EqSF 27, 36 7.311

UBS BRASIL “GERALDO RESENDE DE LIMA” EqSF 18, 20 7.934 UBS GUANABARA “AMÉLIA PEREIRA ANDRADE

BARCELOS”

EqSF 19, 31 8.307

UBS IPANEMA “DR. ANÍSIO VIEIRA CAIXETA” EqSF 28 6.029

UBS GRAMADO “ENFERMEIRO MARCELO

RODRIGUES DOS SANTOS” EqSF 01, 39 8.225

UBS JARDIM PAULISTANO “MARIA RITA DE JESUS” EqSF 26 3.874 UBS JARDIM PANORÂMICO “DAGOBERTO DE

SOUSA MARTINS” EqSF 03, 10 7.325

ESF ALAGOAS ZONA RURAL EqSF 24 2.557

UBS ALVORADA “DR. JOSÉ WILSON FERREIRA PIRES”

EqSF 02 3.556

UBS ITAMARATI “DR. ALÍRIO MARTINS DA SILVA” EqSF 05, 11, 12 9.051 UBS JARDIM PARAÍSO “DR. CARLOS MARCELO DE

CASTRO”

EqSF 06, 37 9.940

UBS PADRE EUSTÁQUIO “ENFERMEIRO JOÃO DE

DEUS NASCIMENTO” EqSF 07, 21, 29 11.879

UBS SORRISO “FRANCISCO MACHADO OLIVEIRA” EqSF 04, 13 6.601 UBS VÁRZEA “DR. DÉLIO BORGES DA FONSECA” EqSF 35 3.321

ESF AREADO ZONA RURAL EqSF 22 2.465

ESF SANTANA DE PATOS ZONA RURAL EqSF 25 3.807

Total 40 EqSF 150.683

Fonte: Departamento da Secretaria Municipal de Saúde, 2019. Patos de Minas – MG

As UBSs e suas EqSF estão distribuídas em quatro territórios, sendo cada um deles vinculado a um NASF. No caso do município, cada equipe de NASF é composta por um profissional psicólogo, um educador físico, dois fisioterapeutas, um nutricionista e um assistente social. Todas as quatro equipes de NASF que atuam no

(37)

município dão apoio aos profissionais das EqSF. Dessa forma, cada equipe de NASF é responsável por uma média de 9 a 11 EqSF, e trabalha de forma volante, encarregando-se de estar semanalmente com as equipes de saúde vinculadas a ela (SMS, 2019).

O quadro abaixo mostra a distribuição atual das quatro equipes de NASF, as UBSs e EqSF vinculadas a cada uma delas.

Quadro 1 – Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Equipes de Saúde da Família (EqSF) vinculadas aos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), 2019. Patos de Minas - MG

NASFs UBSs EqSF

NASF 1

UBS Alvorada “Dr. José Wilson Ferreira Pires” EqSF 02 UBS Itamarati “Dr. Alírio Martins da Silva” EqSF 11, 12, 05 UBS Padre Eustáquio “enfermeiro João de Deus Nascimento” EqSF 07 ,21, 29 UBS Sorriso “Francisco Machado Oliveira” EqSF 04, 13 UBS Várzea “Dr. Délio Borges da Fonseca” EqSF 35

ESF Santana de Patos Zona Rural EqSF 25

NASF 2

UBS Cristo Redentor “André Luiz” EqSF 27, 36

UBS Brasil “Geraldo Resende de Lima” EqSF 18, 20 UBS Guanabara “Amélia Pereira Andrade Barcelos” EqSF 19, 31 UBS Jardim Paulistano “Maria Rita de Jesus” EqSF 26

ESF Areado Zona Rural EqSF 22

UBS Ipanema “Dr. Anísio Vieira Caixeta” EqSF 28

NASF 3

UBS Alto Colina “Dr. Carlos Martins Neto” EqSF 08, 17 UBS Cias “Centro Integrado de Assistência à Saúde” EqSF 14 UBS Jardim Esperança ”Dr. Paulo Correa da Silva Loureiro” EqSF 09,16,40 UBS Nova Floresta “Dr. José Cláudio Arpini” EqSF 15, 30

UBS Novo Horizonte “Irma Dora” EqSF 34

ESF Pindaíbas Zona rural EqSF 23

NASF 4

Ubs Jardim Panorâmico “Dagoberto de Sousa Martins” EqSF 03, 10 UBS Jardim Paraíso “Dr. Carlos Marcelo de Castro” EqSF 06, 37 UBS Sebastião Amorim “Adélio Dias Maciel” EqSF 32, 33, 38 UBS Gramado “enfermeiro Marcelo Rodrigues dos Santos” EqSF 01, 39

ESF Alagoas zona rural EqSF 24

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde, 2019. Patos de Minas – MG

(38)

A distribuição dos profissionais de psicologia segue a mesma divisão dos territórios dos NASFs no município. O quadro abaixo demonstra a distribuição dos psicólogos por equipe de NASF (SMS, 2020).

Quadro 2 - Equipes dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASFs) e profissionais de saúde mental vinculados a eles, 2019. Patos de Minas - MG

Fonte: Departamento da Secretaria Municipal de Saúde, 2019. Patos de Minas – MG

Observa-se pelo quadro acima que no momento da pesquisa a equipe do NASF 3 encontrava-se desfalcada devido a impossibilidade de contratação de novos profissionais (SMS, 2019).

Existem no município outros dispositivos que contam com profissionais de saúde mental, distribuídos na atenção secundária e terciária e embora seja de grande importância a ação da saúde mental na RAPS do município em todos os seus componentes, a pretensão desse estudo é focar em sua atuação na AB, especificamente na ESF, como sendo um ponto de atenção de extrema relevância, especialmente nas UBSs.

Quanto ao fluxo dos encaminhamentos para a saúde mental, em Patos de Minas, desde que o cuidado em saúde mental foi organizado pela RAPS, priorizando outros dispositivos que não o modelo hospitalocêntrico, as UBSs tornaram-se um ponto de atenção essencial para o acolhimento de demandas em saúde mental. Hoje, no município, o caminho para se ter acesso ao cuidado em saúde mental na ESF, especificamente o atendimento psicológico dentro das UBSs, acontece de algumas formas, sendo a mais comum, aquela que parte da avaliação da própria EqSF. Dessa forma, os usuários chegam ao acolhimento em saúde mental na ESF por algumas vias, sendo elas:

EQUIPES DE NASFs PROFISSIONAIS DE SAÚDE MENTAL

NASF 1 1 Psicólogo (NASF)

2 Psicólogos Clínicos

NASF 2 1 Psicólogo (NASF)

2 Psicólogos Clínicos

NASF 3 1 Psicólogo (NASF)

1 Psicólogo Clínico

NASF 4 1 Psicólogo (NASF)

2 Psicólogos Clínicos

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