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Sociabilidades Urbanas

Revista de Antropologia e Sociologia

Publicação do Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções Universidade Federal da Paraíba (Campus I – João Pessoa)

Ano II Número 4 Março de 2018 ISSN 2526-4702

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Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia

GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes

Universidade Federal da Paraíba

Publicação Quadrimestral do GREM/UFPB n° 4 – Março de 2018 – Ano II

ISSN 2526-4702 Conselho Editorial

Cláudia Turra Magni (UFPEL); Cornelia Eckert (UFRGS); Gabriel D. Noel (Argentina - UNSAM); João Martinho Braga de Mendonça (UFPB); Jussara Freire (UFF); Lisabete Coradini (UFRN); Luís Roberto Cardoso de Oliveira (UNB); Luiz Antonio Machado da Silva (UERJ); Luiz Gustavo P. S. Correia (UFS); Maria Cláudia Pereira Coelho (UERJ);

Maria Cristina Rocha Barreto (UERN); Pedro Lisdero (Argentina - CONICET); Roberta Bivar Carneiro Campos (UFPE); Rogério de Souza Medeiros (UFPB); Simone Magalhães Brito (UFPB).

EDITORES

Raoni Borges Barbosa (UFPB/GREM)

Mauro Guilherme Pinheiro Koury (UFPB/GREM)

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Expediente

http://www.cchla.ufpb.br/sociabilidadesurbanas/

Sociabilidades Urbanas ISSN 2526-4702

Editores: Raoni Borges Barbosa e Mauro Guilherme Pinheiro Koury

Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia é uma revista acadêmica do GREM - Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções. Tem por objetivo debater as questões de formação do self e de culturas emotivas nas sociabilidades urbanas contemporâneas na perspectiva teórico-metodológica das Ciências Sociais, sobretudo a antropologia e a sociologia.

The Urban Sociabilities - Journal of Anthropology and Sociology is an academic journal of GREM - Research Group on Anthropology and Sociology of Emotions. It aims to discuss the issues of self and emotive cultures formation in contemporary urban sociabilities in the theoretical-methodological perspective of Social Sciences, especifically with de anthropology and sociology.

Secretaria Sociabilidades Urbanas.

E-Mail: [email protected]

O GREM é um Grupo de Pesquisa vinculado ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba.

GREM is a Research Group at Department of Social Science, Federal University of Paraíba, Brazil.

Endereço / Address:

Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia [Aos cuidados de Raoni Borges Barbosa]

GREM - Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções

Departamento de Ciências Sociais/CCHLA/UFPB CCHLA / UFPB – Bloco V – Campus I – Cidade Universitária CEP 58 051-970 · João Pessoa · PB · Brasil

Ou, preferencialmente, através do e-mail: [email protected] Or, preferentially, by e-mail: [email protected]

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ISSN 2526-4702

Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia e Sociologia / GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções / Departamento de Ciências Sociais /CCHLA/ Universidade Federal da Paraíba – v. 2, n. 4, Julho de 2017.

João Pessoa – GREM, 2017. (v.1, n.1 – Março/Junho de 2017) - Revista Quadrimestral ISSN 2526-4702

Antropologia – 2. Sociologia – 3. Antropologia Urbana – 4. Sociologia Urbana – Periódicos – I. GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções. Universidade Federal da Paraíba

BC-UFPB CDU 301 CDU 572

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Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia é uma revista acadêmica do GREM - Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções.

Tem por objetivo debater as questões de formação do self e de culturas emotivas nas sociabilidades urbanas contemporâneas na perspectiva teórico-metodológica das Ciências Sociais, sobretudo a antropologia e a sociologia.

Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia se propõe o esforço de construção de uma rede acadêmica de discussão e reflexão sobre o urbano contemporâneo, em especial o brasileiro, de uma perspectiva interacionista e figuracional da antropologia e sociologia, de modo a enfatizar o exercício de análise da cidade enquanto comunidade paradoxal e espaço societal de intenso conflito entre cultura objetiva e subjetiva na qual emerge a individualidade moderna.

O fazer antropológico e sociológico se direciona, nesta proposta teórico- metodológica, para o esforço de observação e análise da formação da cultura emotiva, dos códigos de moralidade e do self de atores sociais situados como agências criativas e produtoras de um espaço interacional e intersubjetivo urbano específico.

Problematiza, portanto, a dimensão processual da construção e desconstrução das cadeias de interdependência que se manifestam socialmente enquanto objetificação de conteúdos subjetivos trocados pelos atores sociais.

As consequências desta exigência teórico-metodológica podem ser percebidas na preocupação, quando do fazer etnográfico e da observação micro-orientada das formas e conteúdos sociais, do registro das tensões e dos vínculos de solidariedade e conflito entre os interactantes no formato de encontros, pertença, confiança, traição, medos, angústias, vergonhas, ressentimentos, humilhações, sofrimento, e ainda todo um conjunto extenso de emoções e gramáticas morais que perfazem as práticas e o imaginário cotidiano e ordinário dos atores sociais na cidade.

Estas emoções revelam, entre outros, as disputas morais e os códigos de moralidade em jogo nos sistemas de posição que organizam as fronteiras e hierarquias simbólicas e materiais entre as unidades interacionais sob análise.

A agenda teórico-metodológica e os interesses temáticos abrigados na proposta de publicação da Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia e Sociologia vem sendo amadurecidos em uma rotina de pesquisa de quase quatro três décadas desenvolvida no GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções, cujas linhas de pesquisa, atualmente, são as seguintes: Emoções e Consumo; Emoções e Sociabilidades Urbanas; Emoções, Moralidade e Gênero; Estudos Teóricos em Antropologia e Sociologia das Emoções.

Nas palavras de Koury (A Antropologia e a sociologia das emoções no Brasil:

breve relato histórico do processo de consolidação de uma área temática. Trabalho apresentado no II Simpósio Interdisicplinar de Ciências Sociais e Humanas da UERN, 2014.), fundador e coordenador do GREM:

“O GREM tem por objetivo a compreensão e análise da emergência da individualidade e do individualismo no Brasil urbano contemporâneo. Enfatiza a questão da formação das emoções, enquanto cultura emotiva, e desenvolve estudos e pesquisas sobre o processo de formação e experiência sobre emoções específicas em sociabilidades dadas. Assim, o processo de luto e da morte e do morrer; dos medos; das formas de sociabilidades e das etiquetas sociais que envolvem as relações de amizade; dos processos de ressentimento e humilhação; e das formas de estabelecimentos de laços de confiança e desconfiança entre as camadas médias e periféricas no urbano brasileiro, faz parte do núcleo de interesse do GREM. As pesquisas desenvolvidas e em desenvolvimento no

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GREM se debruçam sobre as imagens e suas representações na conformação do homem comum urbano brasileiro. Debruça-se, também, sobre as redundâncias, as ambivalências e as ambiguidades do ato executado ou expresso, sobre os silêncios, sobre os discursos e narrativas fragmentados, sobre os gestos e tique que, invariavelmente, acompanham um diálogo ou uma informação e, às vezes, ampliam, modificam ou contextuam para além das frases ditas e dos sentidos do quer expressar. Tratam, enfim, da cultura emotiva e as redes morais que se formam nela e através dela”.

Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia parte também da experiência acumulada nos quinze anos de publicação sobre emoções da RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, fundada e editada por Mauro Koury e sediada no GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia das Emoções.

Neste ínterim, Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologias se situa em uma tradição acadêmica de pesquisas e reflexões em antropologia e sociologia sobre o indivíduo, o social e a cultura da perspectiva das emoções, de modo a enfatizar esta proposta no campo das sociabilidades urbanas.

EDITORES Raoni Borges Barbosa (UFPB/GREM) Mauro Guilherme Pinheiro Koury (UFPB/GREM)

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NORMAS PARA OS AUTORES

1. A Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia, ISSN 2526-4702, é uma publicação quadrimestral do GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções, com lançamentos nos meses de março, julho e novembro de cada ano.

2. A Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia tem por editores:

Raoni Borges Barbosa e Mauro Guilherme Pinheiro Koury.

3. A Sociabilidades Urbanas pode ser lida inteiramente, de forma gratuita, no site http://www.cchla.ufpb.br/grem/sociabilidadesurbanas/.

4. Todos os artigos apresentados aos editores da Sociabilidades Urbanas serão submetidos à pareceristas anônimos conceituados para que emitam sua avaliação.

5. A revista aceitará somente trabalhos inéditos sob a forma de artigos, entrevistas, traduções, resenhas e comentários de livros. Exceto nos casos de dossiês e autores convidados ou artigos que o Coordenador do Dossiê ou o Conselho Editorial achar importante publicar ou republicar.

6. Os textos em língua estrangeira, quando aceitos pelo Conselho Editorial, serão publicados no original, se em língua espanhola, francesa, italiana e inglesa, podendo por ventura vir a ser traduzido.

7. Todo artigo enviado à revista para publicação deverá ser acompanhado de uma lista de até cinco palavras-chave e Keywords que identifiquem os principais assuntos tratados e de um resumo informativo em português, com versão para o inglês (abstract), com 300 palavras máximas, onde fiquem claros os propósitos, os métodos empregados e as principais conclusões do trabalho.

8. Deverão ser igualmente encaminhados aos editores dados sobre o autor (filiação institucional, áreas de interesse, publicações, entre outros aspectos).

9. Os editores reservam-se o direito de introduzir alterações na redação dos originais, visando a manter a homogeneidade e a qualidade da revista, respeitando, porém, o estilo e as opiniões dos autores. Os artigos expressarão assim, única e exclusivamente, as opiniões e conclusões de seus autores.

10. Os artigos publicados na revista serão disponibilizados apenas on-line.

Toda correspondência referente à publicação de artigos deverá ser enviada para o e-mail da Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia:

[email protected].

Regras para apresentação de originais

1. Os originais que não estiverem na formatação exigida pela Sociabilidades Urbanas não serão considerados para avaliação e imediatamente descartados.

2. Os artigos submetidos aos editores para publicação na Sociabilidades Urbanas deverão ser digitados em Word, fonte Times New Roman 12, espaço duplo, formato de página A- 4. Nesse padrão, o limite dos artigos será de até 30 páginas e 8 páginas para resenhas, incluindo as notas e referências bibliográficas.

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3. Citações com mais de três linhas, no interior do texto, devem se encontrar em separado, sem aspas, com recuo de 1 cm à direita, fonte Times New Roman 11, normal, espaçamento entre linhas duplo; e espaçamento de 6x6.

4. O arquivo deverá ser enviado por correio eletrônico para o e-mail [email protected].

Notas e remissões bibliográficas

1. As notas deverão ser sucintas e colocadas no pé-de-página.

2. As remissões bibliográficas não deverão ser feitas em notas e devem figurar no corpo principal do texto. Sociabilidades Urbanas - Revista de Antropologia e Sociologia, ISSN 1234-5678, v. 1, n. 1, abril de 2017 ISSN 2526-4702.

3. Da remissão deverá constar o nome do autor, seguido da data de publicação da obra e do número da página, separados por vírgulas, de acordo com o exemplo 1: Exemplo 1:

Segundo Cassirer (1979, p.46), a síntese e a produção pelo saber...

4. Usa-se o sobrenome do autor, quando no interior do parêntese, em letras maiúsculas, conforme o exemplo 2: Exemplo 2: O eu que enuncia "eu" (BENVENISTE, 1972, p.32)...

.

Referências

1. As referências bibliográficas deverão constituir uma lista única no final do artigo, em ordem alfabética.

2. Deverão obedecer aos seguintes modelos:

a) Tratando-se de livro:

 sobrenome do autor (em letra maiúscula), seguido do nome;

 título da obra (em itálico):

 subtítulo, (também em itálico);

 nº da edição (apenas a partir da 2ª edição);

 local de publicação, seguido de dois pontos (:);

 nome da editora;

 data de publicação.

Exemplo: BACHELARD, Gaston. La terre et les rêveries de la volonté.

Paris: Librairie José Corti, 1984. 1.

b) Tratando-se de artigo em revistas:

 sobrenome do autor (em letra maiúscula), seguido do nome;

 título do artigo sem aspas;

 nome do periódico por extenso (em itálico);

 volume e nº do periódico (entre vírgulas);

 páginas do artigo: (p. 15-21);

 data da publicação.

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Exemplo: CAMARGO, Aspásia. Os usos da história oral e da história de vida: trabalhando com elites políticas. Revista Dados, v. 27, n. 1, p.1-15, 1984. 2.

c) Tratando-se de artigo em coletâneas:

 sobrenome do autor (em letra maiúscula), seguido do nome;

 título do artigo;

 In:

 nome do autor ou autores da coletânea seguido por (Orgs);

 título e subtítulo da coletânea em itálico;

 nº da edição (a partir da 2ª edição);

 local da publicação seguido de dois pontos (:);

 nome da editora;

 páginas do artigo;

 ano da publicação.

Exemplo: DIAS, Juliana Braz. Enviando dinheiro, construindo afetos. In:

Wilson Trajano Filho (Org.). Lugares, pessoas e grupos: as lógicas do pertencimento em perspectiva internacional. 2ª edição. Brasília: ABA Publicações, p. 47-73, 2012.

d) Tratando-se de artigos em revistas online:

 sobrenome do autor (em letra maiúscula), seguido do nome;

 título do artigo sem aspas;

 nome do periódico por extenso (em itálico);

 RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 15, n. 44, agosto de 2016 ISSN 1676-8965 volume e nº do periódico (entre vírgulas);

 páginas do artigo, se houver: ( p. 15-21);

 data da publicação

 Endereço do site

 Quando se deu a consulta.

Exemplo: FERRAZ, Amélia. Viver e morrer. Revista online de

comunicação, v. 10, n. 20, p. 5-10.

www.revistaonlinedecomunicação.com.br (Consulta em: 20.06.2015).

e) Tratando-se de teses, dissertações, tccs e relatórios:

 sobrenome do autor (em letra maiúscula), seguido do nome;

 título da obra (em itálico)

 subtítulo, (também em itálico);

 Tese; Dissertação, etc.;

 local de publicação, seguido de dois pontos (:);

 nome do Programa e Universidade;

 Ano

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Exemplo: BARBOSA, Raoni Borges. Medos Corriqueiros e vergonha cotidiana: uma análise compreensiva do bairro do Varjão/Rangel.

Dissertação. João Pessoa: PPGA/UFPB, 2015 Nota geral para as referências

1. Artigo, livro, coletânea, ensaio com mais de um autor: com até dois autores:

 Sobrenome do autor principal (em letras maiúsculas), seguido do nome e ponto e vírgula(;)

 A seguir, o nome e sobrenome do segundo autor.

2. Artigo, livro, coletânea, ensaio com mais de dois autores:

 Sobrenome do autor principal (em letras maiúsculas), seguido do nome e, após, et al.

Quadros e Mapas

1. Quadros, mapas, tabelas, etc. deverão ser enviados em arquivos separados, com indicações claras, ao longo no texto, dos locais onde devem ser inseridos.

2. As fotografias deverão vir também em arquivos separados e no formato jpg ou jpeg com resolução de, pelo menos, 100 dpi.

Norms to manuscripts’ presentation

The Urban Sociabilities – Journal of Anthropology and Sociology is a review published every Mach, July and November with original contributions (articles and book reviews) within any field in the Sociology or Anthropology of Emotion. All articles and reviews will be submitted to referees. Every issue of Urban Sociabilities will contain eight main articles and one to three book reviews. All manuscripts submitted for editorial consideration should be sent to GREM by e-mail: [email protected].

Manuscripts and book reviews typed one and half space, should be submitted to the Editors by e-mail, with notes, references, tables and illustrations on separate files. The author's full address and the institutional affiliation should be supplied as a footnote to the title page. Manuscripts should be submitted in Portuguese, English, French, Spanish and Italian, the editors can translate articles to Portuguese (Sociabilidades Urbanas´s main language) in the interest of the journal. Articles should not exceed 30 pages double- spaced, including notes and references. Reviews should not exceed 8 pages double-spaced and notes and references included.

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SUMÁRIO

ARTIGOS ... 13

Cultura emotiva, disposições morais e tensões cotidianas em uma comunidade de afetos ... 15

As cidades na perspectiva do materialismo histórico: Marx, Engels e as cidades industriais ... 35

Entre a subjetividade e intersubjetividade no urbano brasileiro: De Gilberto Velho a Mauro Koury e as ciências sociais da emoção ... 51

“ForacorruPTos!”(?): uma reflexão sobre as manifestações “Fora Dilma”em João Pessoa ... 63

Rumo a um conceito de estigma: um comentário breve ... 77

Pluralismo, Estilo da Escola de Chicago: Louis Wirth, o Gueto, a Cidade, e a “Integração” ... 81

Cidadania e Democracia: o direito à vida urbana no Brasil ... 87

“Sou pessoense e tenho time para torcer”: a nova geração de torcedores do Botafogo-PB e o uso da cidade como valor simbólico a ser ressaltado ... 95

Moralidades e produção da cidade - Notas sobre a sociabilidade urbana de homens com práticas (homo)sexuais em Recife ... 109

Pelas tramas da razão? Transformação sociocultural através da mediação humanos – não- humanos em comunidades pesqueiras do litoral paraibano ... 119

RESENHAS ... 135

O amor nos tempos do capitalismo: Uma resenha ... 137

Para além de uma Antropologia Sintética: breve abordagem do modelo analítico wagneriano de cultura ... 141

Moralismo e política nas manifestações “Fora Dilma” em João Pessoa: Uma resenha ... 151

SOBRE OS AUTORES ... 155

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ARTIGOS

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KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Cultura emotiva, disposições morais e tensões cotidianas em uma comunidade de afetos. Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia e Sociologia, v2 n4, p. 15-34, março de 2018. ISSN 2526-4702.

Artigo

http://www.cchla.ufpb.br/sociabilidadesurbanas/

Cultura emotiva, disposições morais e tensões cotidianas em uma comunidade de afetos

Emotional culture, moral dispositions and daily tensions in a caring community

Mauro Guilherme Pinheiro Koury

Resumo: O objetivo deste artigo é perceber como a construção simbólica que funda os códigos de pertencimento de uma rua e a transforma em uma comunidade de afetos é vivida no cotidiano pelos seus moradores enquanto laços estreitos e de intensa pessoalidade. De outro lado, se debruça sobre o que é viver um cotidiano onde todos respiram tudo o que se passa com todos os demais, e perceber as tensões resultantes desse encontro em que a individualidade e as ações individuais são sentidas cotidianamente com temor e mágoa pelos que ficam de fora delas, e com “chateação” e sentimento de importuno por quem a vive. É sobre essa rua complexa em sua cultura emotiva e como lugar de pertença que esse artigo se constrói enquanto narrativa de partilhamento e de tensões cotidianamente vividas por seus moradores. Palavras-chave: cultura emotiva, cotidiano, disposições morais, tensões cotidianas, fofocas, situações limites, comunidade de afetos

Abstract: The objective of this article is to understand how the symbolic construction that founds the codes of belonging of a street and transforms it into a caring community is lived in daily life by its residents as close ties and intense pessoality. On the other hand, it focuses on what it is to live a daily life where everyone breathes everything that goes on with everyone else, and to perceive the tensions resulting from this encounter in which individuality and individual actions are felt daily with fear and sorrow for those who are left out of them, and with "annoyance" and feeling of annoyance by who lives it. It is on this complex street in its emotional culture and as a place of belonging that this article is constructed as a narrative of sharing and of daily tensions experienced by its residents. Keywords: emotional culture, daily life, moral dispositions, everyday tensions, gossip, limit situations, caring community

Este artigo acompanha os embates cotidianos de uma comunidade de afetos constituída pelos moradores de uma rua de um bairro popular da cidade de João Pessoa chamada, aqui, de Rua X1. É uma rua que não mais existe, a última casa foi repassada para as mãos de uma construtora, dona dos outros terrenos das antigas casas, no início do ano de 2017.

A Rua X é uma rua com uma história natural construída a partir da assimilação da trajetória de sofrimento, lutas, conquistas, partilhamento, solidariedade e amizade experimentadas pela primeira geração2 que ocupou um espaço na Mata do Buraquinho.

Ocupação realizada nos terrenos desconsiderados pela especulação imobiliária e pelos

1Os nomes da rua e dos interlocutores envolvidos nessa análise são fictícios, para preservar a identidade deles.

2Internamente chamado de pioneiros.

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empreendedores morais e seus projetos e ações projetivas para a cidade em expansão, nos anos de 1940, e a transformou em um lugar de pertença.

O objetivo deste artigo é o de perceber, de um lado, como a construção simbólica que funda os códigos de pertencimento da Rua X e a transforma em uma comunidade de afetos é vivida no cotidiano pelos seus moradores enquanto laços estreitos e de intensa pessoalidade. De outro lado, se debruça sobre o que é viver um cotidiano onde todos respiram tudo o que se passa com todos os demais, e perceber as tensões resultantes desse encontro em que a individualidade e as ações individuais são sentidas cotidianamente como temor e mágoa pelos que ficam de fora delas, e como “chateação” e sentimento de importuno por quem a vive.

Em outro plano, a rua trabalhada não só abriga a comunidade de afetos, mas, também, um conjunto de seis casas que compõem a aqui denominada Vila Sem Nome.

Esta pequena vila é habitada por moradores recém-chegados à cidade e que passam de um mês a um ano no local, logo buscando outro espaço para residir, e assim não são sentidos pelos que fazem a Rua X, nem por eles próprios, como pertencentes à comunidade de afetos local. O que torna a Vila Sem Nome e seus moradores temporários em um núcleo permanente de atrito e tensões no espectro da rua em seu todo.

É sobre essa rua complexa em sua cultura emotiva e como lugar de pertença, em suas montagens morais, sistema simbólico de posições e sistemas de condutas que esse artigo se constrói enquanto narrativa de partilhamento e de tensões cotidianamente vividas por seus moradores. Uma conversa com Seu José, um dos pioneiros, introduz aqui o argumento de união e de bem-querer deste grupo de forte sedimentação intersubjetiva (BERGER & LUCKMANN, 1985, p. 95) que conforma a história natural desta pequena rua em uma comunidade de afetos. Rua de parcerias estreitas e presentes desde a ocupação daquele “pedaço de chão”, em suas trocas simbólicas de bens e sentidos e de ajuda mútua.

Entre eles, desde a construção da vila no início da rua, foi se solidificando também nas práticas de auxílio aos próximos “mais necessitados” que alugavam, por curta temporada, as “casinhas de lá”.

Como disse Seu José, nesta conversa, em 2008:

Professor, a gente se conheceu, tempos atrás... sem saber que rumo tomar e assustado com o que podia acontecer com a gente... e a gente tudo olhando prá dentro da gente mesmo com a pergunta que a gente não fazia prá fora, mas que martelava a cabeça da gente... e agora!?...

Daí, num sem como um se aproximou do outro... Talvez o instinto da gente de sempre ter que conversar prá afastar os augúrios... Sei lá... Só sei que de repente tava todos nós amontoado e papo e papo a rolar... Aí, sei não, mas acho que a gente ficou forte de novo... Já começamos a cavar o amanhã prá nós... foi logo uma amizade só... Parecia que a gente já se conhecia de montão... E aí a gente nunca deixou de se gostar... Um atento às necessidades dos outros, e também, todo mundo no seu canto...

Houve briga, houve e tem ainda... Houve e tem muita discussão... Muitas (ri)...

Mas, todo mundo atento em diminuir as querelas, de achar engraçado o chamego das conversas que rolavam de montão de boca em boca... Fulano disse... Fulana falou... Gente, gente... A gente comenta muito... (risos).

Este estreitamento de vínculos sociais solidários e a experiência de partilhamento do pouco que cada um possuía, - pouco este, porém, sempre visto como muito, em vários depoimentos, - permitiu a configuração de uma rede interacional cotidiana que comportava uma vivência comum e amiga aos membros dessa comunidade e, ao mesmo tempo, um respeito ao espaço do outro e de cada um. Muito embora, esse compartir,

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inúmeras vezes, criasse situações de engolfamento (SCHEFF, 1990) nas relações sociais entre os moradores da pequena rua.

Rua X: negociação, crises cotidianas e engolfamento O respeito ao espaço do outro e de cada um era quase sempre submetido à pressão do grupo, o que exigia participação nas demandas e pendengas locais e íntimas em relação às várias pessoas da rua e mesmo no interior das famílias. Seu José, ao contar parte do cotidiano nas redes de relacionamentos da Rua X, informa que diuturnamente havia brigas e discussões, querelas, e “chamego das conversas3 na rua”.

Eram comentários que, segundo ele, “rolavam de montão de boca em boca”.

Acrescenta, rindo, que “a gente daqui comenta muito...”. Abona, também, que esses

...mexericos, num são pro mau não, a maioria deles é uma forma de se saber do que aconteceu e acontece na rua... Trata quase sempre de quem chegou e quem saiu, quem namora quem, quem se amigou, se alguém tá doente, se alguém tá triste, sobre a última de fulano, que comprou alguma coisa nova e não comentou com o outro, e por aí vai...

A fofoca, os mexericos ou zum zuns, de certa forma, fazem parte da rede de relações nesta comunidade de intensa pessoalidade. Serve como uma forma de estreitamento dos laços e de se manterem informados sobre o que se passa no cotidiano comunitário.

Esse aspecto de estreitamento dos laços comunitários e de uma adesão aos valores do grupo é sancionado por estudos de vários pesquisadores. Para Gluckman (1963, p.

313), por exemplo, a fofoca "é uma marca registrada da adesão" dos membros a uma comunidade específica, e o lugar em que "os valores do grupo" são afirmados.

O que é abalizado por Loudon (1961, p. 347), ao afirmar que "a fofoca é... o canal mais importante para a afirmação constante de valores compartilhados sobre o comportamento” de um grupo. Campbell (1964, p. 314), por seu turno, informa que os mexericos são um modo de "reafirmação da solidariedade" entre os membros de uma comunidade, ou, como denomina Coulson (1953, p. 222), são formas de “reafirmação dos valores” locais. O aspecto positivo da fofoca, mexericos, boatos ou zum zuns é também referido por Elias & Scotson (2000, p. 122) ao mencionar que a comunicação informal, mantida pelo “chamego das conversas”, dos “falatórios” e “disse que disse”4, é um mecanismo que intensifica as relações pessoalizadas e muito próximas de uma comunidade, e que, sem ela, “a vida perderia muito de seu tempero”.

Graças ao bom deus, a maior parte dos zum zuns é de conversa jogada fora, de conversa fiada sem intenção outra se não se inteirar do que tá acontecendo na rua...

A intensificação das relações, entretanto, se, de um lado, reforça os laços sociais na comunidade, e ampliam os valores, afetos e solidariedade presentes na cultura emotiva construída na Rua X por seus moradores, sobretudo os mais antigos; por outro lado, se verifica, contudo, que o tecido bordado pelas fofocas é também uma rede reguladora das relações sociais locais, e um sistema de controle social. De acordo com Berger &

Luckmann (1985, p. 144-145), esse “sistema de controle tem necessidade constante de confirmação e reconfirmação” dos atores sociais nele envolvidos, e enlaçados nas situações presentes e internas ao local.

3Chamego das conversas é uma expressão êmica que tem o significado de gostar de trocar palavras, de falatório.

4Termos êmicos locais.

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Seu José informa também que, “... às vezes tem conversa solta que são sementes do coisa-ruim... Que visa diminuir o povo da rua... anarquizar com nós... jogar um de nós contra os outros... de falar mal de tudo... de ter inveja de nós...”. Assim, mesmo que a maior parte dos zum zuns seja apenas para “se inteirar do que tá acontecendo na rua”, alguns deles “são sementes do coisa-ruim”. São vistos como provocações que procuram

“diminuir o povo da rua... anarquizar com nós... jogar um de nós contra os outros... de falar mal de tudo... de ter inveja de nós... Aí tem vez que contamina tudo...”,

mas quando a gente sente o cheiro do capeta aí vai se aproximando uns dos outros e conversando e conversando e o diabo vai se desfazendo em fumaça e se manda...

O Seu José está falando das relações difíceis da comunidade de afetos com o núcleo nunca completamente assimilado dos moradores das pequenas casas da vila. Para ele, sempre em rusgas com “a gente da rua”.

Animosidades e rusgas estas que se formam, na visão de vários depoentes, principalmente, “pelo lado da Vila Sem Nome”. A Vila Sem Nome foi sempre objeto de apreensão por parte da comunidade de afetos da Rua X, nomeadamente pelo não apego e

“mangação” às tradições da rua, “que deve ser... por causa da entrada e saída deles a todo instante por aqui”. Deste modo, a grande rotatividade e as breves passagens dos seus moradores da vila pela rua, para os pioneiros, são a causa do seu não envolvimento “com a gente daqui” e “se acham menor que nós e com uma inveja da gente”, ou ainda pelo sentimento dos temporários de serem expostos a uma dívida constante em relação aos moradores permanentes da Rua X.

Este sentimento de dívida se refere ao “acolhimento semanal” patrocinado pela primeira geração de moradores às casas da Vila Sem Nome. Essa tentativa de amparo patrocinada pela comunidade de afetos da Rua X aos moradores temporários da Vila Sem Nome gera, na maior parte das vezes, uma tensão hierárquica experimentada através da ação „bondosa‟ do grupo dos permanentes, e da recusa ou no modo “afobado” de aceitação de tal oferta pelos temporários.

Seu Fragoso, um morador da vila, me diz, com uma expressão de deboche, mas também magoada, em conversa comigo, em 2008, logo após uma visita a vila por um grupo de pioneiros, “... a gente aceita essa vinda a nós dessa gente aí... e olha só, olha só!

O senhor viu... o senhor viu, né?!”.

... Eles vêm parecendo os rei e rainha, botando banca prá cima de nós... Vêm e dizem que querem ajudar a gente, que é uma vinda amiga, bondosa, como eles faz questão de dizer, [ri baixinho], mas, a gente recebe ela com cara de abusado e de quem quer se livrar logo desse nhém nhém nhem... dessa gente...

Entretanto, existem também sentimentos de antipatia e disputas que provocam apreensões na comunidade de afetos local, além dos moradores temporários. Esse desconforto moral é sentido pelos moradores mais antigos em relação aos mais novos, constituídos por genros e noras e, em alguns casos, de seus familiares diretos: filhos, netos e bisnetos. Estes últimos, ao crescerem, muitos deles permaneceram morando na rua, diretamente na casa dos pais ou em puxadinhos construídos como ampliação das casas deles.

Há, por conseguinte, uma tensão cotidiana entre os moradores e suas famílias extensas, constituída de bate-bocas e brigas contínuas entre os pais com noras e genros, e com os filhos e netos. Conflitos, às vezes, pesados e que vão desde a administração da educação que os filhos e filhas dão aos netos e netas, até sobre a forma e os modos de tratamento do genro ou da nora em relação às suas filhas e filhos.

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Olha só, Mauro, o “jeito de tratar da nossa menina (Marieta) por esse aí que se encosta com ela”, me falou uma vez Dona Eulália quando, sem querer, presenciei uma cena do casal Marieta e José Carlos que discutiam pesadamente e alto o que os pais dela (Marieta) estavam “fazendo com os filhos da gente”. Dona Eulália recriminou as formas de relacionamento do casal e também como o seu genro tratava os sogros de forma grosseira e “acusa a gente ainda de botar os nossos netos a perder, só por que os tratamos bem e fazemos uns dengos a eles”. Continuou me dizendo que “essa trela, é todo dia! É todo dia isso, Mauro, todo santo dia...”.

De repente, no meio da conversa, Dona Eulália pára e grita alto para o interior da casa: “Marieta, Zé, parem com isso que tem visita em casa... qué que o homem vai pensar de nós... parece que a gente num tem educação... parecem uns porcos... deixa disso...

depois que depois a gente resolve entre a gente mesmo...”. O que Marieta respondeu gritando: “... mãe... manda Mauro fechar os ouvidos dele, ele já é de casa...” e deu uma risada alta.

A briga do casal continuou; a minha conversa com Dona Eulália também. A altura e o tom da querela, no entanto, ficou mais baixo e ameno. Dona Eulália, contudo, prosseguiu na acusação do sentimento de desconforto para ela e o marido das brigas domésticas entre Marieta e José Carlos e das insinuações de “Zé” dos prejuízos morais causados pela intromissão dos avós na “criação dos nossos netos”.

Acusa o casal de “aperrear5” muito com as “suas arengas6” e incomodar muito ela e principalmente o marido, Seu Paulo com as rusgas cotidianas. De acordo com Dona Eulália, esse desconforto da copresença é diário, chegando a situações críticas com o

“amofinamento” do pai/avô para a “brigalhada” não chegar às vias de fato, com o silêncio a seguir entre filha e pai, a proibição dos netos de se aproximarem do avô e a evitação do genro de se encontrar com os sogros:

Todo santo dia é isso! Todo dia... Uma briga danada, e um desrespeito danado também... Acho que isso acaba com nós... Eu e Paulo... O coitado de Paulo vez ou outra canta de galo querendo dá fim a brigalhada, mas aí é que a briga pega...

(ri) e ele se amofina e vai prá rede dele...

A acusação sobre as relações difíceis com o genro, e por consequência com a filha e netos, denota o engolfamento das relações entre o casal de pais e o outro casal constituído da filha e marido, e as brigas sobre o modo como os avós deseducam os netos, e outras situações cotidianas do morar juntos e partilharem o mesmo ambiente. Contudo, na mesma narrativa esta acusação é desculpada pela mesma Dona Eulália, e justificada como uma coisa habitual da convivência em comum. Afirma que essas rusgas são passageiras e que logo depois há uma ação de reatamento da relação e do esfriamento (GOFFMAN, 2014) do pai, por Marieta e seus filhos.

“Isso logo passa...”, diz ela, “... no outro dia, ou dois ou três dias depois, Marieta vai até ele [Seu Paulo], dá um beijo... Os netos ficam em torno dele, e tudo volta a ser como era antes...”. Olha para mim de esguelha e ri, com os olhos baixos e mexendo as mãos.

Dona Eulália, sem olhar direto para o meu rosto, continua sua tentativa de justificar e desculpar a cena por mim presenciada de discussão entre a filha e o marido, tendo os avós como centro da “arenga”: “Todo dia é essa danação, Mauro... deus me desculpe viu, que vergonha eu tô...”. Remexe as mãos, baixa mais os olhos, reflete um pouco e me diz:

“... isso, Mauro, quando os filhos eram pequenos num tinha disso não! Tu não repare não,

5O termo aperrear tem aqui o sentido de perturbar.

6Arengas, arengar, tem o sentido de brigar, de provocar o outro.

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viu, é coisa de filho que cresceu e agora se junta e tem filho e mora com a gente e tem essas coisa de querer independência e saber se cuidar sozinho e dos filhos deles...”. Ri, tímida e continua, “isso faz parte da vida, né... Mas dói um pouco..., como dói!...”.

A vizinhança toda amiga que é, fica todo mundo de butica7 pra qui prá casa... E a gente finge que num tá nem aí... Mas, o coração da gente dispara... Num repare, não, viu...

A justificativa adentra por dois momentos da criação e do controle dos pais sobre os filhos. O primeiro momento se refere ao tempo em que os filhos eram pequenos. Nesse tempo “num tinha disso, não”, denotando um controle quase total dos pais sobre o comportamento dos filhos.

O segundo momento, porém, fala do crescimento dos filhos e de sua independência e autonomia e suas consequências na lógica das relações com os pais, principalmente quando são casados e moram sob o mesmo teto que eles. A narrativa entra, assim, em um campo de negociações tensas entre os filhos e pais, que motiva um desconforto de copresença continuado e um jogo permanente de “ficar de mal” e reatar os laços entre eles.

Para Dona Eulália, esse desconforto intracasa, “dói um pouco”, todavia, “faz parte da vida...” e do processo do crescimento dos filhos ao se tornarem adultos. Entretanto, para ela, existe “outra coisa” que provoca ansiedade e que está arrolado para além do desconforto intracasa das brigas entre pais e filhos. Esta “outra coisa”, ou situação, está relacionada ao sentimento de vergonha em relação aos outros relacionais no extramuros de sua residência, e no acompanhamento indireto, e muitas vezes direto, das brigas familiares, e do saber que a rua inteira está “de butica prá qui prá casa” e “que tá todo mundo falando de nós”.

O sentimento de vergonha expresso por Dona Eulália revela duas dimensões desta emoção em sua narrativa. De um lado, a dimensão do pudor e do embaraço de ter uma visita em sua casa que presencie uma situação de desconforto moral, como a briga do casal de filhos, aqui tratada. Esta dimensão de embaraço e pudor revela a vergonha cotidiana, como presente nos códigos morais de pertencimento sobre educação e relação de interdependência entre os societários de uma cultura emotiva dada, no caso, a Rua X, e aos conhecidos não moradores do lugar, mas que os visitam. No caso, revela um termo de proximidade e afastamento dessa visita: quando Marieta, a filha de Dona Eulália, responde para mãe para o visitante fechar os ouvidos e afirma rindo que o visitante já é “de casa”. O que mostra que o nível de intimidade do visitante permite assistir certas cenas domésticas sem achar estranho, falta de educação, ou minimizar a situação, “num repare, não, viu”, colocando a situação dentro de um plano afetivo de rusgas intrafamiliares.

Ao retratar a “butica” dos vizinhos, porém, a narrativa de Dona Eulália conduz para a análise da vergonha não no seu sentido de vergonha cotidiana, mas da vergonha- vergonha (SCHEFF, 2016b). Como uma afronta e receio de ser objeto de escuta e falação, em que “a gente finge que num tá nem aí”, mas “sabe que tá todo mundo falando de nós”, e “o coração da gente dispara!”.

A vergonha-vergonha se refere, assim, ao que os outros irão pensar daquela família em particular, de ser motivo de fofoca e zum zuns entre os vizinhos e de risos velados e julgamentos sobre o modo de se comportarem, mesmo no âmbito intracasa. No sentimento de vergonha-vergonha, igualmente, está presente o risco de ser objeto de ofensa moral

7 Butica é termo êmico local que significa pejorativamente ter o olhar e os ouvidos direcionados em uma direção a que não lhe diz respeito. O termo butica é popularmente associado ao ânus, quando conexo à ação de prestar atenção aonde não é chamado, os olhos e ouvidos viram buticas, desqualificando o ato de espreitar.

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pelos outros, mesmo que de forma indireta, através de gestos, de olhares, ou dos silêncios e mudanças de assunto quando se aproximam de alguma roda de conversa entre os parceiros da rua, ou da pressuposição de que gestos, olhares, silêncios e mudanças de assunto sejam dirigidos a quem se encontra para si mesmo afrontado e receoso.

Os relacionamentos na Rua X tornaram-se mais complexos com o crescimento dos filhos e chegada de novos membros na forma de genros e noras e familiares destes ao convívio parental local, multiplicando e diferenciando as relações internas de cada família e as relações de cada família com os outros vizinhos da rua. Esta complexificação não se dá apenas nos desafios ao ordenamento familiar de cada família, ampliando a rede de negociações e de interesses e as formas de organização desde a arrumação da casa e do cuidar dos filhos, passando pelas disputas internas sobre o comando da casa e os incômodos formados no decorrer dessas trocas tensas.

Acontece também por que esses novos membros, advindos de fora, através dos relacionamentos de filhos e filhas, chegaram com jeito de pensar e modos de agir diferentes e que, nem sempre, se coadunavam com os dos pais e dos outros irmãos e jovens moradores da Rua X. O que gerava situações que terminavam, seja na intimidade da casa, ou de forma pública, na rua, peças de pequenos, médios e, às vezes, grandes conflitos intrafamiliares, e que se estendiam, em algumas ocasiões, de forma direta ou indireta, para todo o grupo de moradores locais.

Os próprios filhos e netos, solteiros ou casados, que ainda moravam com os pais, ao assumirem a idade adulta, por mais que advogassem a cultura emotiva da rua e as normas locais, vez ou outra atuavam como protagonistas de constrangimentos aos pais e demais moradores da rua, e a eles mesmos. Constrangimentos considerados simples, mas que, em alguns casos, beiravam ou se transformavam em crises mais profundas que afetavam as relações dos familiares com as demais famílias locais.

São situações gerais iniciadas por uma profusão de circunstâncias, desde os jovens chegarem bêbados e “fazendo bagunça” na rua, ou pelas muitas trocas de parceiros, ou pelas moças solteiras que chegam buchudas, têm filhos sem pais e ficam olhadas por um tempo de viés pelos demais moradores (apesar de todos terem aqui e ali passado por situações semelhantes), até o envolvimento em brigas, drogas, prisões, sexualidades divergentes, e outras situações mais. Internamente, no seio de cada família que vive um desses problemas, as relações se tornam dramáticas, inúmeras vezes, até, com disputa de autoridade entre as gerações, entre pais e filhos.

Os filhos se queixam dos pais e também da rua por quererem se meter “aonde num é chamado”, e afirmam sentirem-se como que “... amarrados numa corda apertada...”.

Como me contou Isis, - filha de Amarílis e neta de Seu Dudu e Dona Maria, - em uma conversa no fim de uma tarde, em 2010, quando caminhamos juntos para o ponto de ônibus: “tenho que dá explicação por tudo... Pedem-me que eu diga tudo, mais tudo mesmo o que faço e até do que penso ou não penso... é uma coisa do demo...”.

E continua,

Só vivendo prá saber... e os meus pais e o povo da rua me controlando, me atinando e, eu, às vez fico doida, doida de pedra... Tento me controlar... Mas, às vezes num dá... Num dá...,

Eventos e rusgas de pequena ou grande proporção, entretanto, sempre de grande intensidade de emoções, faziam parte e estavam presente cotidianamente nas relações entre vizinhos e amigos e parentes. Tudo o que se passava na comunidade de afetos, de uma forma ou de outra, era vivido intensamente por todos.

Mesmo quando a vizinhança tentava ficar em silêncio e este sigilo também se dava entre os demais membros da comunidade em relação a um determinado problema ou

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“aperreio” que um dos vizinhos passava, isso não queria dizer que todos da rua não soubessem e nem comentassem o caso. Muito embora evitassem comentar abertamente o problema, que já sabiam “pela boca dos outros”, com o vizinho que passava pela situação de “aperreio”, em busca de se inteirar mais, para não parecerem inconvenientes.

Como quase todos me disseram, porém, aguardavam que os vizinhos que passavam por uma situação problemática viessem aos demais vizinhos da rua comentar o problema vivido e pedir ajuda. Afinal, “a gente todos somos vizinhos e amigos, e a amizade serve prá que, né?”. Sentiam-se, desta maneira, magoados pelos vizinhos em situação de

“aperreio” e passando por um problema por não terem ido até eles e partilhado a sua dificuldade.

Sentiam-se como sendo colocados à margem da vida deles e de que eles não eram considerados como “amigos verdadeiros” por esses vizinhos que os “ignorava” e não lhes davam valor. “Esses é gente que a gente dá tudo por eles, mas, na hora da precisão, eles se metem à besta e dá pouca importância prá nós... deixa ver... ah! deus tá vendo isso, tá sim!”.

Uma situação ambígua e ambivalente movimentava desse jeito a intricada rede de partilhamento e confiança. De um lado, o entendimento dos limites da intromissão na vida dos outros parceiros, e de que todos às vezes passavam por essa necessidade de preservação da intimidade. Do outro lado, a mágoa do não compartilhamento da vida íntima dos vizinhos, e a visão deste não compartirem como uma ameaça à rede de confiança que conduzia o ideário presente na comunidade de afetos local.

Essa intricada e complexa rede de partilha e confiabilidade, por fim, se chocava com os esquemas segmentados de aceitação da rede moral e de controle social original e fundadores da comunidade de afetos na Rua X. Esquemas esses que se desenvolveram de maneira informal para servir de amparo moral e de repassagem dos valores éticos comportamentais da cultura emotiva que abalizava a história da comunidade de afetos aos filhos, mas que, com o crescimento deles e a permanência de alguns nas casas dos pais quando adultos, e a chegada de noras e genros e suas famílias, além do foco de tensão permanente dos nunca integrados à Rua X, que eram os moradores da Vila Sem Nome, complicava, enredava e embaraçava ainda mais os embates relacionais na comunidade.

Enfrentamentos que provocavam tensões e conflitos e ampliavam o sistema de fofocas e ruídos que se espalhavam como o vento entre todos os moradores, e suscitavam um sistema magoado de limites e evasivas na comunicação local.

Goffman (1959, p. 1) nos remete à questão da expressividade. Noção que indica a capacidade de dar e perceber impressões de um indivíduo, ou de um grupo de indivíduos, nas situações sociais que estão envolvidos. Essa capacidade de dar impressão está presente nos símbolos verbais que usam, ou em uma variedade de ações que os outros podem considerar como sintomáticas do indivíduo ou grupo, podendo deduzir, assim, que “a ação ou conjunto de ações foram levadas a efeitos por [razões presentes ou por] outras razões diferentes da informação transmitida” (Goffman, 1959, p. 14).

A questão da expressividade está intimamente ligada à salvaguarda da face frente às situações específicas, ou, ao contrário, o tentar destruir a fachada do outro, através de acusações. Deste modo, tanto o salvar a face, quanto o acusar o outro usam diversos atributos morais no jogo situacional, desde o estar falando a verdade, até a dissimulação e emissão falsa.

Nos jogos relacionais em uma dada comunidade, como a comunidade de afetos aqui trabalhada, estas alternativas são usadas cotidianamente como forma de sobreviver a um controle social de intensa pessoalidade e de vigilância entre todos e por todos os jogadores em cada situação nova ou em andamento provocada pela ação individual e

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coletiva dos membros da Rua X. O que dá contorno à rede de fios estreitos, onde a simulação e a acusação são empregadas cotidianamente por todos, das gerações mais velhas as mais novas (filhos, etc.) até os moradores temporários da Vila Sem Nome.

Moradores estes nunca aceitos como fazendo parte da Rua X.

Uma segmentação da comunidade local, embora invisível e negada pelos moradores permanentes do lugar, destarte, é disposta e serve como uma fonte de atritos, sempre com pequenas fagulhas, que ameaçam diuturnamente em se transformar em uma fogueira ardente e de difícil controle. Esta rede “cabeluda”8, intrincada e emaranhada de evasivas, de pequenas mágoas e de pessoalidade aberta e absorvente, muitas vezes colocava os moradores em processos liminares. Processos estes onde um conjunto de práticas do saber e do revelar, e do até onde revelar, e do até onde esconder, e o que publicizar sem medo de ofender o outro apontado na revelação, tornavam a comunicação entre estes moradores da Rua X rica de subterfúgios.

Uma riqueza de expressões era suscitada, de forma descontínua, por onde a dissimulação e escapatórias eram elaboradas, provocando situações onde o riso (BERGSON, 1983), o rumor, a evitação, davam o tônus moral à ocasião e sua conjuntura contextual. Além das tentativas camufladas de não se mostrarem sabedores do problema, ou de respeitarem o silêncio daqueles que por ele passavam, ou o seu contrário. Em momentos de raiva, de bebedeira, de desconforto pessoal, se corria o risco de algum comunitário publicizar os segredos locais, animando rumores, fofocas, mágoas, sentimentos de desrespeito, e levando pessoas ou famílias ao envergonhamento público, e a se retraírem em um silêncio tenso, ou a responderem aos desafetos, fragmentando os nós, - ou os colocando em perigo, - que os vinculavam em comunidade.

Momentos críticos e de crise pessoal e social sempre evitada, adiada, mas tensamente presente a cada dia. Esta complexidade armada em ou para cada situação, pode ser pensada, deste modo, através das balizas do excesso de interesse dos moradores da Rua X uns nos outros. Mas, também, pode ser refletida a partir da problemática do controle social e do jogo de posições local.

Controle social e jogo de posições estes acertados por políticas morais sobre as práticas comportamentais de todos da rua. Estas constituídas ao longo do processo de acordos e negociações, e edificadas no desenvolvimento da cultura emotiva da Rua X, que instrui a comunidade de afetos local na pragmática moral que serve como um espelho para todos que nela habitam.

O embate permanente entre as regras morais construídas pela comunidade de afetos em torno dos moradores mais antigos, e submetidas aos demais moradores da Rua X, destarte, movimentava as tensões, conflitos, impasses e discordâncias e o sentimento de tolhimento que envolvia os moradores em suas diversas e sempre desdenhadas segmentações. Divisões em camadas tênues e sempre negadas que podem ser pensadas nos embates cotidianos, como formadoras de tensões e confrontos cotidianos.

Tem-se, assim, um segmento formado pelos moradores da primeira geração; outro, pelos moradores que compunham as gerações subsequentes, - filhos, netos e bisnetos dos moradores mais antigos; uma terceira constituída por seus companheiros e suas companheiras, constantes ou provisórios: esposas e esposos, amantes; namorados e namoradas, genros e noras dos membros mais antigos da Rua X; e, por fim, o grupo de moradores temporários da Vila Sem Nome.

Segmentações que podem até mesmo ser constituídas de modos diversos, de acordo com cada situação, ou serem diluídas em outras tantas novas segmentações, de

8Rede cabeluda, termo êmico local para designar uma situação difícil de mover-se em seu interior.

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acordo com o enfrentamento situacional onde se desenhe possibilidades de estranhamento entre os relacionais, como marido e mulher, filhos dos filhos das gerações subsequentes, e outros mais. Do mesmo modo que se pode reduzir apenas a dois segmentos, como o da comunidade de afetos e os moradores da Vila Sem Nome. O jogo situacional dos atores- agentes sociais é que moldam as segmentações possíveis nas tensões vividas, do mesmo modo que buscam caminhos de continuidade e resoluções para os conflitos e tensões em que se envolvem.

Em todo caso, os moradores da Rua X como um todo, ou de forma segmentada nos diversos grupos que a compõem no jogo situacional diário, ao se virem e se sentirem submetidos a uma rede moral de normas de comportamento, - quando, por exemplo, esta rede atingia um segmento, uma família, ou ainda um indivíduo específico, - se sentiam tolhidos em sua autonomia como pessoas, família ou grupos e respondiam a essas regras as acolhendo ou, em muitos e variados casos, de uma forma evasiva, de modo a contestá- la ou a recusarem. Nessas situações testavam os limites das regras de conduta e da moralidade local e buscavam aquilatar ajustes que permitissem acolher novos modos de pensar e agir, diferentes dos da moralidade dominante.

Robert Paine (1967), ao estudar a fofoca, parte, em sua análise, da contestação do argumento de Gluckman de que ela seja apenas um mecanismo de manutenção da harmonia e se aproxima um pouco da posição de Berger (1972) no sentido de enfatizar a agência dos indivíduos em uma comunidade. Afirma, nessa direção, que a fofoca é um tipo de comunicação entre interagentes e um dispositivo que o indivíduo ou grupo pode manipular buscando promover a sua posição na comunidade ou questionar e depreciar a posição de outros individuais ou a própria comunidade em que está inserido em um determinado contexto situacional.

Para Paine, assim, de acordo com Besnier (1996, p. 545), a fofoca opera, mormente, como uma “ferramenta usada pelos indivíduos para manobrar [e ou negociar]

suas próprias agendas e depreciar o interesse de outros”. Na interação, deste modo, a pessoa que fofoca busca coletar informações “preciosas” que podem ser usadas em momentos específicos de um contexto situacional para encaminhar seus interesses próprios ou dos segmentos que representa. Através dessa coleta de informações elabora uma versão de um acontecimento ou a pressuposição deste e o espalha, através de murmúrios e cochichos, fazendo-a circular e garantindo de que essa versão entre no fluxo informacional comunitário, no caso, entre todos os segmentos da Rua X9.

Nesse processo, portanto, a fofoca ainda permanece um instrumento de controle.

Para Paine (1967), contudo, ela é, sobretudo, uma ferramenta de controle individual da informação, que pode servir para aumentar ou diminuir o status social do fofoqueiro ou do segmento que representa e força, às vezes, uma arena de desordem e tumulto, possibilitando a abertura para novas posições de negociação no processo de hegemonia local.

Goffman (1961, 2010 e 2011), por sua vez, vai trabalhar as situações de engolfamento e de crises como processos característicos da interação focada. Interação esta em que cada membro, apesar de conhecerem e terem interiorizado as regras básicas da boa convivência e do bom viver local, tem uma autonomia relativa na hora de definição da situação (THOMAS & THOMAS, 1928) em que está envolvido ou se envolveu.

Consequentemente, em uma interação focada, existe um espaço de definição da própria situação, através da sua manipulação ou da manipulação de impressões e das fachadas própria ou de outros pelos seus participantes. O que permite deslocamentos das linhas de

9Ver para uma comparação Koury (2016).

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comportamento, e do salvar ou da perda da face pessoal ou coletiva frente a determinadas dificuldades erigidas no próprio desenvolvimento da situação. Nesse sentido, para Goffman (1959, p. 85) "o objeto de um jogador é o de sustentar uma definição particular da situação, que representa, por assim dizer, a sua pretensão sobre o que é a realidade".

No caso da Rua X, as pequenas mágoas, destarte, mediavam as relações nos tempos de estranheza, de engolfamento de laços e de disposições jogadas no interior das situações, como modo de performatizá-las e virar ou ampliar o jogo no interior das posições armadas e manipuladas no seu cotidiano. Os rumores, os chistes irônicos, a falação e a fofoca serviam destarte muito bem a esse propósito. O que obrigava os jogadores-moradores da Rua X a uma negociação constante de continuidade, a cada crise armada em cada novo engolfamento.

Todavia, como proferiu Seu José, “... quando a gente sente o cheiro do capeta aí vai se aproximando uns dos outros e conversando e conversando e o diabo vai se desfazendo em fumaça e se manda... e vem de volta o bem querer de nós prá nós...”. A conversa, a negociação, desse modo, retornava pouco a pouco e as mágoas iam se desfazendo “em fumaça” e o “bem querer” retornava. E, de novo, a Rua X recompunha a ideia de uma comunidade unida e solidária, mas, não mais a mesma, e sim, às vezes, rejuvenescida e mais forte, ou, em outras, mais envelhecida e mais frágil, conforme cada recomposição. Porém, consolidada enquanto comunidade de afetos.

Algumas perguntas, entretanto, ficaram no ar nessa experiência comunitária. Uma delas se referia ao até onde o outro tinha o direito de excluir os demais em uma crise pessoal ou familiar experienciada? Ao se pensarem em uma comunidade onde a confiança mútua era o dom maior, e a solidariedade a sua maior fortaleza, o “direito de viver solitariamente”, - como se expressou Dona Margarida, em 2007, - ou com uma individualidade, com direito a momentos de intimidade e recolhimento em si ou junto ao seu núcleo familiar mais estreito, se tornava às vezes um problema. Abria-se, então, uma situação problemática inversa, pelo sentimento de muitos moradores locais de que essa solidão ou individualidade representava uma diminuição do sentido de confiança mútua construído na comunidade de afetos.

Mesmo que pensado e sabido por todos “... que isso era o que todo mundo uma vez ou outra fazia”, isto é, ter momentos de recolhimento e procura de uma individualidade maior, como me contou Dona Leocádia, em uma conversa em 2009. Ela continua suas considerações dizendo que “...todos nós já passamos por isso... todo mundo já ficou choramingando solitariamente num canto...”. Mas, segundo ela, “o negócio é que às vezes a gente tem acanhamento de falar pros outros as nossas questões sem solução prá nós no momento que vivemos nela...”

... a gente quer mostrar pros outros só as nossas lutas ganhas e não o que a gente tá sentindo como um desastre a acontecer... De que ninguém mangue10 ou fale de nós... ou se meta com nós... e que revelem a nossa fraqueza pro mundo...

O grande problema colocado, todavia, era que, - mesmo todo mundo já tendo passado por uma situação em que quis ficar sozinho, ou com o grupo familiar mais íntimo, tentando pensar como se reorganizar para enfrentar a situação porque passava, - aqueles que não estavam envolvidos na situação daquele um, mesmo já tendo passado por momentos semelhantes, se sentiam magoados em não fazer parte dessa intimidade. Muito embora, pela rede de rumores, se tornassem conhecedores do caso, ou de visões sobre o mesmo.

10Mangue vem do verbo mangar, e tem o sentido êmico de zombar, rir, fazer troça.

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Visões, estórias ou “contações” estas elaboradas pelos “mexeriqueiros de plantão”

e pelos diversos vazamentos em rumores, nem sempre positivos, que corriam pela rua. O que originava uma série de desconfortos e, às vezes, afastamento e conflitos pelos diversos atestados de realidade jogados e defendidos e multiplicados de boca em boca pelos moradores da rua.

De um ângulo, dos que passavam por uma situação problemática e queriam permanecer discreto nela, viver a situação para si, na Rua X, era sempre constrangedor.

Desde o cotidiano sair de casa ou retornar a casa e os diversos encontros com vizinhos, e a obrigação das diversas paradas formais para o comprimento de bom dia ou boa tarde, ou boa noite, até o fingir que estava tudo bem e tentar não demonstrar qualquer sentimento que abrisse margem a uma pergunta do tipo: “está tudo bem com você, com seus pais, com seus irmãos, com seu namorado/a ou marido/esposa, ou ainda com o trabalho e coisas por aí...”, a pessoa, em discrição, se defrontava com uma continuidade de embaraços.

Como me disse certa vez Marjô, filha única de Seu José e Dona Margarida, ao falar sobre como se sentiu quando a barriga dela revelou que estava grávida e a rua inteira queria saber como foi, quando foi que aconteceu, por que ela não falou, quem era o pai, e coisas do tipo, ela e os pais viveram situações “de grande sufoco”. Nessas horas, Mauro,

a gente fica aflita, eita povo medonho... Povo bom, mas medonho... E a gente precisa ser forte nessa hora prá num entrar num buraco e nunca mais sair dele, ou ser cara de pau e sair vencendo cada portão onde sempre tem pessoas preocupadas em saber por tua boca o teu problema.

De outro ângulo, daqueles que se consideram traídos por não fazerem parte da intimidade da pessoa, família ou grupo que passa por uma situação problemática, o encontrar com um alguém discreto em seus problemas é motivo de embaraço. Até onde

“eu posso me aproximar e perguntar se tá tudo nos conforme, se eu posso ajudar, e não vou de cara com aquele olhar de superioridade, quando não uma resposta ríspida que me ofende por achar que eu tô ofendendo ela em me intrometer”, como comentou Antonio, filho de Seu Jonas e Dona Maria Flor.

Assim, o constrangimento do encontro com uma pessoa que vive uma situação não revelada publicamente por ela, mas que todos já conhecem o problema, através de rumores, e onde se tenta fingir que nada sabe, na intenção de que não quer ultrapassar as demarcações impostas por ela à comunidade e envergonhá-la, cria uma “agonia” naquele que cumprimenta ou que faz perguntas “de bom vizinho” às pessoas que se sabe que passa por uma situação difícil e se mostra distante e sem querer revelar ao próximo o seu problema. O que deixa o morador interessado em “uma sinuca de bico”, que o faz ao mesmo tempo se sentir magoado em ser colocado à margem da situação vivida pelo vizinho, e na compreensão racionalizada de que “às vezes é necessário” haver marcas de limite. E aí se perguntam: mas, e a confiança onde fica? Onde devia haver apenas confiança fica só estranheza, para muitos, o que causa desconfortos morais e às vezes

“num afrouxamento” das relações.

De um terceiro ângulo, existem situações que, por mais que a pessoa que a vivencia não dê permissão à rua “de se meter” e se colocar acima das opiniões a respeito dela e da situação em que se encontra envolvida, a rua se organiza e se acha no direito de intromissão na situação e de buscar ou quase impor uma solução para o caso. Esse terceiro ângulo é o mais dramático de todos e envolve a comunidade de afetos da Rua X na organização de debates para o que fazer.

As diversas arenas debatem entre si o quanto a situação problema as afeta e atinge a própria rua como um todo, apela para a comunidade de afetos que toma posição sobre a necessidade da rua discutir o caso e tomar uma atitude frente a ele. Marca então uma

Referências

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