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Rumo a um conceito de estigma: um comentário breve

No documento Sociabilidades Urbanas (páginas 77-81)

Toward a concept of stigma: a brief commentary

Thomas Scheff Tradução de Mauro Guilherme Pinheiro Koury

Resumo: Este breve artigo busca situar a discussão interdisciplinar rumo a uma definição técnica e conceitual da noção de estigma. Nesse sentido, aborda os esforços teóricos de autores como Elias, Goffman, Kaufman, Lindner, Retzinger, Cooley e outros em conectar a percepção e o estudo do estigma a emoção vergonha, um tabu na cultura ocidental, e a processos como o de estigmatização e o de construção social do self. Palavras-chave:

estigma, estigmatização, vergonha, self

Abstract: This brief article seeks to situate the interdisciplinary discussion towards a technical and conceptual definition of the notion of stigma. In this sense, it addresses the theoretical efforts of authors such as Elias, Goffman, Kaufman, Lindner, Retzinger, Cooley and others in connecting the perception and study of stigma to the emotion shame, a taboo in Western culture, and to processes such as stigmatization and the social construction of the self.

Keywords: stigma, stigmatization, shame, self

O estudo do estigma tornou-se nas últimas décadas uma das principais preocupações da sociologia, da psicologia e de muitas outras disciplinas, incluindo a medicina. A busca do termo no Google Scholar revela menções de 677k. Dada a quantidade de interesse e o fato de ser um vocábulo interdisciplinar, provavelmente precisamos definir o estigma como um conceito, em vez de continuar a usá-lo como uma palavra vernácula.

Link & Phelan (2001) têm uma definição para a palavra:

O estigma existe quando elementos de rotulagem, estereótipos, separação, perda de status e descrédito ocorrem em situações de poder que toleram que tais processos ocorram. (p. 382)

Esta definição, porém, é longa e complexa, e inclui comportamentos e elementos sociais, tais como status e poder. Os dicionários, no entanto, oferecem uma definição mais curta e mais simples. Por exemplo, o dicionário Merriam-Webster Online define o estigma como "uma marca de vergonha ou descrédito".

Parece que a definição de Link & Phelan confunde o termo estigma com o problema da estigmatização, isto é, com o processo que leva ao estigma. Apenas um dos seis elementos em sua definição pode ser relacionado diretamente ao estigma, isto é, ao procedimento que eles chamam de "perda de status", que pode ser visto como uma maneira indireta de se referir à vergonha.

Em um artigo mais recente, Link et al (2004) têm uma seção sobre a conceitualização do estigma que, apesar disso, continua a confundir o estigma e o processo de estigmatização. Em uma passagem, mencionam a palavra vergonha, mas apenas de forma breve e de passagem.

Em seu livro sobre o estigma, Goffman (1963) não tenta defini-lo diretamente, todavia, faz muitas e muitas referências a vergonha. Aqui estão quatro referências que, para a conveniência do leitor, eu grifei em negrito os termos referentes à palavra vergonha.

No entanto, na terceira citação, a palavra adjetivada vergonhosa já se encontrava em negrito no texto. Observe, contudo, que na segunda citação, três termos relativos à vergonha ocorrem em uma única frase:

A vergonha se torna uma possibilidade central, que surge quando o indivíduo percebe que um de seus próprios atributos é impuro e pode imaginar-se como um não-portador dele. (p. 7).

(A pessoa do estigmatizado) com esses transgressores (por exemplo, doentes mentais) o mantém unido ao que repele, transformando a repulsa em vergonha e, posteriormente, convertendo a própria vergonha em algo de que se sente envergonhado (p.108).

Mais importante ainda, a simples noção de diferenças vergonhosas assume certa semelhança quanto a crenças cruciais, as crenças referentes é, identidade.

(P. 13).

Uma vez que a dinâmica da diferença vergonhosa é considerada uma característica geral da vida social, pode-se passar a encarar a relação entre o seu estudo e o estudo de assuntos próximos associados ao termo "desvio"... (p. 140).

Embora Link e Phelan (2001) em seu artigo sobre o estigma citem o livro de Goffman em várias ocasiões, eles não se referem à vergonha. Na verdade, esta ausência não é incomum. A grande maioria dos estudos sobre o estigma não o define em termos de vergonha, a maioria deles nem sequer usa a palavra vergonha e não cita nenhuma literatura sobre vergonha.

Eu procurei um livro sobre a psicologia social do estigma (HEATHERTON, et al, 2000), que possui 14 capítulos escritos por cerca de cinquenta autores, para uma avaliação preliminar sobre o até que ponto as pesquisas em relação ao estigma se referem à vergonha. A palavra vergonha neste livro não aparece no índice, nem as palavras a ela associadas, como o embaraço e a humilhação, muito embora a obra de Goffman tenha sido citada várias vezes. No entanto, vários capítulos possuem uma pequena deficiência, na medida em que eles discutem a idéia de Charles Cooley (1922) de "self autoespelhado" e não conseguiram notar, contudo, que de acordo com Cooley, o ao nos vermos como os outros nos vêem, esse processo muitas vezes acaba em vergonha. Para Cooley (1922),

[O self] parece conter três elementos principais:

A imaginação da nossa aparência para a outra pessoa A imaginação de seu julgamento dessa aparência

Um tipo de autossensação, como orgulho ou [vergonha] (p.184).

Deste modo, muito embora os sociólogos tenham se referido inúmeras vezes, desde a década de 1950, à idéia de Cooley sobre o “self autoespelhado”, poucos notaram a conexão com a vergonha. E, para falar mais corretamente, a maioria não o fez. Mas, afinal, o que está acontecendo?

O tabu na palavra-V

Os primeiros estudos sobre o comportamento sexual publicados por Kinsey (1948) e por Masters & Johnson (1966) foram condenados publicamente porque discutiram assuntos que até então eram considerados tabus. No entanto, eles rapidamente se tornaram conhecidos, tanto no mundo da pesquisa, como para o público em geral. Suponhamos,

porém, que se eles tivessem usado palavras inofensivas, contudo ambíguas, como as palavras AMOR ou INTIMIDADE em vez da palavra SEXO, que naquela época era ainda mais tabu do que é agora, as pesquisas deles teriam causado menos ofensas públicas, entretanto, os seus trabalhos teriam se tornado muito menos conhecido, exceto talvez pelos pesquisadores mais zelosos.

Os estudos sobre a emoção vergonha ainda enfrentam um dilema semelhante porque a palavra vergonha, hoje em dia, parece ser tabu, muito mais do que a palavra sexo. Essa idéia foi sugerida pelo psicólogo Gershen Kaufman, um dos vários autores que argumentaram que a vergonha é um enorme tabu em nossa sociedade:

A sociedade americana é uma cultura baseada na vergonha... Mas, a vergonha permanece escondida. Uma vez que existe vergonha da vergonha, a palavra permanece sob tabu. ... O tabu na vergonha é tão rigoroso que nos comportamos como se a vergonha não existisse (KAUFMAN, 1989).

Outra indicação de tabu é o uso reduzido da palavra vergonha, conforme previsto pelo estudo de Elias (1983). Hoje em dia é possível fazer um mapeamento da palavra vergonha e outras palavras em milhões de livros digitalizados de 1800 a 2007 no Google Ngrams (AIDEN & MICHEL, 2011). Descobri neste mapeamento que o uso da palavra vergonha no inglês americano e em quatro línguas européias decresceu imensamente.

Finalmente, duas sugestões adicionais de tabu por pesquisadores que estudam a vergonha, mas que evitam a própria palavra. A capacidade de Evelin Lindner de organizar um seguimento mundial para o estudo de temas relacionados à vergonha pode ser devida, pelo menos em parte, por ela evitar a palavra-V, especialmente nos títulos, não só para nomear sua organização, Human Dignity and Humiliation Studies, mas, também, em seus livros (LINDNER, 2000, 2006, 2006, 2010). Outra instância é o trabalho de Robert W.

Fuller (2003, 2006, 2008). Fuller atraiu grandes públicos em todo o mundo usando palavras relacionadas, como o fez Lindner, contudo evitando a palavra-V.

O tabu sobre a vergonha parece ter enfraquecido nos últimos dez anos entre os pesquisadores. A inclinação descendente para a palavra vergonha diminuiu ligeiramente nos Ngrams. Entretanto, continua a exercer uma poderosa influência na língua vernácula e até mesmo na pesquisa: o termo vergonha ainda está perto de ser indescritível e não imprimível. Este ensaio, assim, sugeriu que a noção de estigma pode ser definida como uma vergonha, e também que esse uso pode permitir que os pesquisadores do conceito de vergonha conheçam o trabalho uns dos outros. Em um sentido mais amplo, essa mudança também teria uma consequência importante, a de que os pesquisadores sobre estigma, pelo menos, deixariam de reforçar o tabu sobre a vergonha.

Referências

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RETZINGER, Suzanne. Identifying Shame and Anger in Discourse. American Behavioral Science, n38, p. 104-113, 1995.

MILLER, Zane L. Pluralismo, Estilo da Escola de Chicago. Tradução de Raoni Borges Barbosa.

Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia e Sociologia, v.2, n.4, p. 81-86, março de 2018. ISSN 2526-4702.

Tradução

http://www.cchla.ufpb.br/sociabilidadesurbanas/

Pluralismo, Estilo da Escola de Chicago: Louis Wirth, o Gueto, a Cidade,

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