Moralism and politics in the manifestations "Fora Dilma" in João Pessoa: A review
ANDRADE, Ana Olívia Costa de. “Contra tudo isto que está aí”: moralismo e política nas manifestações “Fora Dilma” em João Pessoa. João Pessoa: Editora Xeroca, 2017.
O livro “Contra tudo isto que está aí”, com autoria de Ana Olívia Costa de Andrade e sob orientação da Profa. Dra. Simone Magalhães Brito, é o resultado da pesquisa de campo para a dissertação de Mestrado apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba. O livro trata da relação entre o moralismo, a política e o discurso anticorrupção nas manifestações “Fora Dilma” que aconteceram na cidade de João Pessoa, na Paraíba, em 15 de Março e 12 de Abril de 2015. Como objetivo da pesquisa compreender os valores morais e a experiência que organizaram e justificaram as manifestações “Fora Dilma”, a partir dos discursos de seus participantes. O livro está dividido em quatro capítulos.
No primeiro capítulo, intitulado “O lugar do moralismo na política brasileira”, a autora analisa o lugar do moralismo na política brasileira através de uma contextualização histórica da relação deste com o discurso anticorrupção vigente. Partindo da ideia de que o chamado moralismo é o processo em que um discurso político é transformado em um determinado discurso de valores e virtudes. O capítulo tem como foco de análise dois aspectos mais expressivos do moralismo no cenário político brasileiro: o udenismo; e discurso em torno do combate à corrupção.
Esses aspectos são trabalhadosna tentativa de compreender como o moralismo vem se perpetuando na política, lançando luzes sobre a relevância que um discurso moralista tem nas disputas pelo poder. Discurso este que é pautado na política brasileira desde muito tempo atrás. A autora percebe que o discurso anticorrupção se tornou uma retórica poderosa e capaz de modificar a política através do uso de valores morais. Entende, assim, o uso do moralismo associado ao combate à corrupção como uma estratégia que visa um efeito político.
Para compreender esse processo a autora utiliza o conceito e as características centrais do termo udenismo cunhado por Benevides no seu trabalho intitulado UDN e udenismo:
ambiguidades do liberalismo brasileiro (1945-1965), de 1981, onde o udenismo se refere à trajetória política daquele partido que, durante os anos de 1945 a 1965, passou a se consolidar como um partido conservador, antigetulista e anticomunista. Para entender a corrupção no Brasil a autora utiliza os estudos de Avritzer e Filgueiras (2011) para demonstrar como a abordagem da corrupção no âmbito do moralismo deslegitima a democracia no Brasil. Estes autores justificam que o moralismo na política não permitiria a produção de consensos em torno dos princípios e regras democráticas, bem como desloca o problema da corrupção da esfera política para a esfera do direito penal.
A autora, então, apresenta três caminhos possíveis que podem combater à corrupção por meio do controle administrativo-burocrático que equilibre o respeito ao interesse público com a eficiência da gestão pública. São esses 1) o administrativo-burocrático, exercido por agências especializadas, tendo a legalidade como fundamento normativo via sanções administrativas; 2) via controle judicial, exercido nos tribunais, tendo como fundamento
normativo a legalidade via interpretação canônica, tendo como consequência a criminalização do problema; e o 3) controle público não estatal, exercido pela sociedade civil, tendo como fundamento normativo praticado via exercício da liberdade política, como consequência a publicidade do problema.
Segundo a autora é possível dizer que há, no momento presente, uma espécie de neoudenismo, que se apresenta na forma de um discurso que igualmente naturaliza a corrupção e criminaliza a atividade política. O risco, contudo, é um esvaziamento do sentido da democracia e que o discurso contra a corrupção se transforme, mais uma vez, no discurso que justificará uma nova ruptura da democracia.
No segundo capítulo, intitulado “Moralismo na política brasileira”, a autora apresenta a perspectiva sociológica utilizada na pesquisa. Propõe a análise sob o viés da sociologia bourdieusiana como adequada para explicar os processos que transformam debates políticos em discursos de valores e virtudes que correspondem a interesses específicos e são capazes de interferir na dinâmica do campo do poder e seus subcampos. A Sociologia dos Campos de Bourdieu (1983, 1992, 2001, 2003, 2007, 2011), com os conceitos de campo e de capital (econômico, cultural, social e simbólico), bem como o conceito de habitus para entender o campo político que perpassa a situação específica em que os agentes agem e atuam em sociedade.
Utiliza a teoria de Grün (2011) sobre a Sociologia dos Escândalos para observar o comportamento de grupos em disputas de poder no Brasil. Essa teoria apresenta os agentes dos escândalos (políticos, jornalistas, juristas etc.) em um jogo simultâneo de disputas e colaboração. Os escândalos podendo ser utilizados como maneiras de ação, de controle e, por muitas vezes, como instrumentos de mudança social, pois através do escândalo a sociedade muda, reitera, abandona ou cria normas de convívio e de legitimação. Analisa como a guerra cultural provocada nas disputas pelo poder e por capital cultural aparece como estratégia dos grupos em oposição para modificar suas posições no campo do poder.
Com as contribuições de Souza (2011; 2012), desenvolve o argumento de que o discurso moral expresso no debate político converge para a naturalização das desigualdades no Brasil. E para compreender o processo de construção de um discurso que tem atraído diferentes grupos de diferentes camadas sociais como o discurso anticorrupção, existe a construção de uma pauta partindo das elites de uma espécie de liberalismo focado na elaboração de uma imagem negativa do Estado brasileiro. Podendo ser observada a ideia-força de um Estado “sem jeito” que tende a silenciar os conflitos na sociedade brasileira. As elites se colocam como um guia moralmente superior aos demais estratos da sociedade ao alardear sobre esse Estado corrupto e endeusar o mercado, ao mesmo tempo em que explora as classes inferiores.
Com Anderson (2008), o conceito de comunidade imaginada esclarece a respeito dos elementos que criam uma comunidade. Considera que a transformação de debates políticos em debates de valores e de virtudes - com o uso do moralismo como uma ferramenta capaz de interferir no campo do poder - criando uma espécie de comunidade moral imaginada.
Propagando valores e virtudes sacramentadas e impostos como superiores. A autora entende que a moralização do debate político atual na sociedade brasileira corresponde a diferentes grupos em disputa para legitimar sua comunidade moral e diminuir a força do seu opositor.
Compreendendo que o moralismo é uma ferramenta discursiva usada na política, sendo expresso, sobretudo, no discurso anticorrupção.
De acordo com a autora, estas questões ajudam a compreender como a percepção do Estado ineficiente, hoje tão presente nos debates sobre a política brasileira, está traduzido nos discursos contra a corrupção. É uma forma de uma elite exploradora sustentar os valores de sua superioridade e o resultado disso é que as pessoas demonizam o Estado e enaltecem o mercado que serve principalmente ao estrato com mais capital econômico, cultural, social e simbólico da sociedade, a própria elite.
Para o capítulo terceiro a autora apresenta o título “De onde surgiram e o que querem?”, para apresentar o campo e como a pesquisa foi desenvolvida e organizada e tendo como objeto de estudo as manifestações favoráveis ao Impeachment da Presidenta Dilma Rousseff ocorridas em João Pessoa durante o primeiro semestre de 2015. Com a análise de caso particular a pesquisa buscou contribuir para a compreensão futura desses eventos, lançando luzes sobre a formação e a organização desses protestos, as experiências que os produzem e que sua realidade permite, sobretudo, como essas experiências estão relacionadas com projetos de sociedade e organizações/alinhamentos políticos.
A autora verificou que a internet foi o meio de mobilização para os protestos e os motivos elencados pelos manifestantes para o pedido de impeachment foram os escândalos midiáticos de corrupção na administração pública do país, como o que chamam de
“estelionato eleitoral” e também o que chamaram de “fraude eleitoral”. Os grupos nacionais que assumiram a organização das manifestações pela internet foram o “Revoltados Online”, o
“Vem pra Rua” e o “Movimento Brasil Livre”. O grupo local em João Pessoa foi denominado ficticiamente por “Grupo Organizadores de João Pessoa”, que confirmaram ligações e influências com os citados grupos nacionais.
A autora também utilizou dados do perfil dos manifestantes divulgados pelo Instituto DataFolha das manifestações em São Paulo em 15 de Março de 2015, e do Grupo Opinião Pública das manifestações em Belo Horizonte em 12 de Abril de 2015, para servir de parâmetro comparativo com os dados obtidos em João Pessoa nas manifestações ocorridas nas mesmas datas. De maneira geral, os dados obtidos apresentam que a maioria dos manifestantes entrevistados correspondem às classes sociais mais favorecidas, tem acesso ao ensino superior, são jovens e defendem valores morais conservadores. Apresentam-se como a parcela mais honesta e mais justa da sociedade que está lutando contra a corrupção e são atacados pelo Governo. Os dados das entrevistas e observações participantes em João Pessoa apresentaram similaridades com os dados obtidos em São Paulo e Belo Horizonte.
Tanto em João Pessoa quanto em São Paulo e Belo Horizonte os manifestantes trajavam camisas em verde e amarelo ou camisa da seleção brasileira de futebol com o símbolo da CBF (também investigada por corrupção na mesma época das manifestações do
„Fora Dilma”, mas esse fato não era mencionado pelos manifestantes). Os manifestantes exibiam faixas e cartazes com inscrição de apoio ao juiz Sérgio Moro, ao ex-deputado Eduardo Cunha e a favor da Polícia Federal, bem como críticas ao Governo Federal e ao PT e às suas políticas. Nos carros de som os organizadores gritavam palavras de ordem contra o Governo, comentando os escândalos noticiados pela mídia, e nos intervalos das falas tocavam paródias de músicas populares contendo críticas à Presidenta e seu partido, também tocavam o hino nacional.
A autora observou que o discurso contra a corrupção era seletivo e interessado, focados exclusivamente nos escândalos de corrupção do Governo do PT. Os manifestantes colocavam como os “heróis” do controle oficial a Polícia Federal, o judiciário e o Ministério Público como aqueles que podem solucionar o problema da corrupção no Brasil. Segundo a autora, criminalizar a corrupção e tentar controlá-la pelo direito penal não tem demonstrado eficácia no seu combate. O que se comprova pela desproporção que há entre os casos de corrupção na vida pública e os baixos índices de condenações criminais.
E, por fim, no quarto e último capítulo, intitulado “Da organização às ruas: um retrato das manifestações “Fora Dilma” em João Pessoa”, a autora descreve como a pesquisa de campo foi desenvolvida e de onde surgiu o interesse pela temática, os primeiros contatos com as pessoas que faziam parte da organização das manifestações, bem como conseguiu as primeiras informações sobre o grupo e o acesso a eles e a última reunião para planejamento da primeira manifestação de 15 de Março de 2015. Em várias falas coletadas nas entrevistas (em um total de nove entrevistados), ouviu uma que serviu de norte e título para a pesquisa “Contra tudo isto que está aí”, chegando à conclusão que a fala repetida em várias
entrevistas foi usada como jargão pelos entrevistados e se tornou uma característica daquele grupo, pois a frase servia tanto para condensar todos os escândalos midiáticos que deram base ao discurso moral desses manifestantes quanto para se referir às mudanças sociais ocorridas na última década no Brasil interpretadas por este grupo de maneira negativa.
O mote das manifestações é o combate à corrupção, mas, na verdade, o que se localiza nas falas dos manifestantes entrevistados é o posicionamento contra o Governo Federal com liderança do PT. De acordo com Andrade (2017, p.148), o incômodo pela mudança nas organizações hierárquicas ocorridas nas leis e nas políticas sociais para as minorias aparece como alvo das manifestações. Na maioria dos discursos apresentado pelos manifestantes, segundo Andrade (2017, p. 185) o que o “Fora Dilma” mais ataca durante os protestos, de forma direta ou indireta, são as políticas sociais do Governo, a exemplo do Bolsa Família.
A ideia democrática do “Fora Dilma”, de acordo com Andrade (2007, p. 151), é a democracia como sinônimo de manter a ordem social desejada pelos grupos estabelecidos, ou seja, as elites que possuem o capital econômico e político. Segundo Andrade (2017, p. 186), o moralismo toma um lugar central no repertório de ação política do „Fora Dilma” e é usado de forma estratégica por esses manifestantes que tentam esconder - por trás de uma indignação seletiva contra a corrupção - seu mal-estar diante das mudanças sociais.
Sendo assim, para Andrade (2017, p. 195-196), foi possível observar, na contextualização histórica e nos dados atuais, que o debate moral sobre a corrupção abre espaço para ideias e práticas políticas autoritárias que não convergem para um aperfeiçoamento da democracia, mas que visa uma manutenção da ordem de privilégios das classes altas. Percebendo o discurso moralista anticorrupção como recurso discursivo que pouco tem a ver com o combate a esse problema.
Emannuella Santana Vieira (PPGS-UFPB)
Referências
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