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Curso/Disciplina: Direito Civil (parte geral) – Prescrição e Decadência / 2017 Aula: Parte Geral (Fatos Jurídicos - Prescrição e Decadência) / Aula 02 Professor: Rafael da Mota
Monitora: Kelly Silva
Aula 02
Ponto 05 - Quanto à Renúncia:
É possível renunciar a prescrição? A renúncia da prescrição pode ser expressa ou tácita e só valerá sendo feita depois que a prescrição se consumar. Tácita é a renúncia quando se presume de fatos do interessado incompatíveis com a prescrição. Então, não só o art. 191 do CC admite a renúncia da prescrição, como ele admite uma renúncia expressa e uma renúncia tácita:
Art. 191. A renúncia da prescrição pode ser expressa ou tácita, e só valerá, sendo feita, sem prejuízo de terceiro, depois que a prescrição se consumar; tácita é a renúncia quando se presume de fatos do interessado, incompatíveis com a prescrição.
Na renúncia expressa, o devedor expressamente renuncia ao direito que lhe cabe. Quanto à renúncia tácita, o principal exemplo é o próprio pagamento. O devedor quando paga, mesmo após a prescrição, ele está tacitamente renunciando a prescrição. A novação é um outro exemplo. É possível novar dívida prescrita? A novação é a extinção de uma obrigação pela criação de uma nova. Quando se faz novação de dívida prescrita, está sendo extinta uma obrigação natural pela criação de uma nova, que é uma obrigação exigível. Assim, é possível novar dívida prescrita. Novar a dívida prescrita é uma renúncia tácita da prescrição.
O enunciado 295 diz:
A revogação do art. 194 do Código Civil pela Lei nº 11.280/06, que determina ao juiz o reconhecimento de ofício da prescrição, não retira do devedor a possibilidade de renúncia admitida no art. 191 do texto codificado.
Então, mesmo o juiz podendo reconhecer de ofício a prescrição, a parte a quem a prescrição beneficia pode renunciar a ela.
Outra discussão que será levantada é quando há uma tentativa de conjugar o instituto da supressio com a prescrição. Supressio é um instituto que decorre da boa-fé objetiva e será estudada em princípios contratuais.
Supressio é a perda de um direito em razão do seu exercício tardio. Muitos dizem que mesmo dentro do prazo prescricional é possível que o Judiciário fale em supressio, ou seja, mesmo que a pretensão ainda possa ser exercida, o Judiciário fala em supressio. Muitos tentam conjugar essa questão do supressio e dos prazos prescricionais como uma forma de renúncia tácita à prescrição. Isso será estudado em princípios contratuais.
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É possível a renúncia à decadência? A decadência pode ser legal ou convencional, ou seja, as partes podem convencionar os prazos decadenciais. O art. 209 do CC diz ser nula a renúncia à decadência fixada em lei:
Art. 209. É nula a renúncia à decadência fixada em lei.
Apenas a decadência convencional é que pode ser renunciada, a legal não pode ser renunciada. A decadência legal não pode ser renunciada por ser uma questão de ordem pública e para que as partes possam fazê-lo deveria existir um permissivo legal, como acontece com a prescrição (art. 191, CC).
Ponto 06 – Prazos Prescricionais:
O art. 192 do CC diz que os prazos prescricionais só podem estar previstos em lei:
Art. 192. Os prazos de prescrição não podem ser alterados por acordo das partes.
Logo, as partes não podem convencionar prazos prescricionais. Se as partes convencionarem, estarão violando o art. 192 do CC e qualquer violação a lei imperativa, torna o ato nulo (nulidade absoluta):
Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando:
[...]
VI - tiver por objetivo fraudar lei imperativa;
Os prazos prescricionais estão previstos nos arts. 205 e 206 do CC. O art. 205 traz o chamado prazo prescricional ordinário, que é aquele de 10 anos. Tal prazo tem uma aplicação residual, sendo aplicado quando não houver previsão de prazo específico para determinada situação:
Art. 205. A prescrição ocorre em dez anos, quando a lei não lhe haja fixado prazo menor.
Os prazos específicos, chamados prazos prescricionais extraordinários, estão previstos no art. 206. Eles são de 01, 02 03, 04 ou 05 anos.
Exemplo de aplicação do prazo ordinário de 10 anos são os vícios redibitórios. A vítima de um vício redibitório pode fazer uso das ações edilícias, que são duas: (I) a ação redibitória, que visa a resolução do contrato com a devolução do valor pago; e (II) a ação estimatória, que visa a manutenção do contrato com um abatimento proporcional do preço. Requerer a resolução do contrato ou o abatimento decorrem do exercício de um direito potestativo. Então, os prazos são decadenciais. O art. 443 diz que é possível combinar essas ações com perdas e danos, desde que provado que o alienante conhecia o vício. Atenção, pois exigir perdas e danos decorrem do exercício de uma pretensão. Logo, os prazos são prescricionais. Mas, não existe um prazo prescricional específico para exigir as perdas e danos que decorrem de vício redibitório. Neste caso, o prazo será o de 10 anos.
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Prazos prescricionais extraordinários que merecem atenção:
Art. 206. Prescreve:
§ 1º Em um ano:
[...]
II - a pretensão do segurado contra o segurador, ou a deste contra aquele, contado o prazo:
a) para o segurado, no caso de seguro de responsabilidade civil, da data em que é citado para responder à ação de indenização proposta pelo terceiro prejudicado, ou da data que a este indeniza, com a anuência do segurador;
b) quanto aos demais seguros, da ciência do fato gerador da pretensão;
Fazer remissão para a súmula 101 do STJ, que diz:
SÚMULA 101: A ação de indenização do segurado em grupo contra a seguradora prescreve em um ano
Essa súmula se fez necessária porque em seguros coletivos (no de saúde era muito comum) os advogados dos segurados diziam que o art. 206, § 1º, II, do CC, era aplicado somente aos seguros individuais e que, assim, deveria ser aplicado o prazo residual de 10 anos. O STJ se posicionou dizendo que o prazo é de um ano tanto para seguros individuais, quanto para seguros coletivos.
O inciso II fala da relação contratual entre segurado e seguradora, e vice-versa. Logo, trata-se de pretensão de prazo prescricional de um ano na responsabilidade civil contratual.
Art. 206. Prescreve:
[...]
§ 3º Em três anos:
I - a pretensão relativa a aluguéis de prédios urbanos ou rústicos;
Fazer remissão para o enunciado 418 do CJF, que diz:
ENUNCIADO 418: O prazo prescricional de três anos para a pretensão relativa a aluguéis aplica-se aos contratos de locação de imóveis celebrados com a administração pública.
Logo, o prazo prescricional também é de três anos quando se tem a administração pública como parte do contrato de locação de imóveis.
Art. 206. Prescreve:
[...]
§ 3º Em três anos:
[...]
V - a pretensão de reparação civil;
Esse é o principal inciso de todo o art. 206. Existem algumas observações importantes a serem feitas. A primeira está no enunciado 419 do CJF:
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ENUNCIADO 419: O prazo prescricional de três anos para a pretensão de reparação civil aplica-se tanto à responsabilidade contratual quanto à responsabilidade extracontratual.
Isso é muito importante, pois quando o CC entrou em vigor muitos sustentavam que o inciso V era aplicado somente aos casos de responsabilidade civil extracontratual, pois na contratual seria aplicado o prazo prescricional residual de dez anos. Isso não faz muito sentido, pois o inciso V fala em reparação civil. Logo, é uma reparação civil tanto pautada nas hipóteses em que o ofensor e a vítima têm vínculo jurídico, quanto nas hipóteses em que ofensor e vítima não têm vínculo jurídico.
Uma segunda observação está no enunciado 420 do CJF, que diz:
ENUNCIADO 420: Não se aplica o art. 206, § 3º, V, do Código Civil às pretensões indenizatórias decorrentes de acidente de trabalho, após a vigência da Emenda Constitucional n. 45, incidindo a regra do art. 7º, XXIX, da Constituição da República.
Atenção, pois quanto às pretensões indenizatórias decorrentes de acidente de trabalho, o art. 7º, XXIX, da CF estabelece que:
Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
[...]
XXIX - ação, quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional de cinco anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de dois anos após a extinção do contrato de trabalho; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 28, de 25/05/2000)
Então, em pretensão indenizatória decorrente de acidente de trabalho, o prazo prescricional é de cinco anos.
Enquanto que na reparação civil em geral (contratual e extracontratual) o prazo prescricional é de três anos.
Uma terceira observação é o enunciado 580 do CJF, que diz:
ENUNCIADO 580: É de três anos, pelo art. 206, § 3º, V, do CC, o prazo prescricional para a pretensão indenizatória da seguradora contra o causador de dano ao segurado, pois a seguradora sub-roga-se em seus direitos.
A seguradora quando paga um prejuízo causado ao seu segurado, ela se sub-roga nos direitos do segurado e tem pretensão indenizatória contra o ofensor. Imagine a seguinte situação: eu bati no seu carro e te causei um prejuízo de dois mil reais. Se eu não pago, você aciona o seu seguro e exige o pagamento.
Automaticamente, quando a seguradora te paga essa indenização, ela se sub-roga nos seus direitos e tem uma pretensão indenizatória contra o ofensor. Essa pretensão indenizatória que a seguradora que se sub-rogou nos seus direitos tem contra mim (seu ofensor) também prescreve em três anos. É um enunciado muito rico porque fala de prazo prescricional, de pretensões indenizatórias, de responsabilidade civil e contrato de seguro.
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Art. 206. Prescreve:
[...]
§ 5º Em cinco anos:
I - a pretensão de cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular;
Isso é importante no que diz respeito às questões que envolvem a cobrança de cotas condominiais. O REsp 1.483.930/DF balizou o entendimento de que o prazo prescricional para o condomínio cobrar cotas condominiais é de cinco anos, por serem as cotas condominiais dívidas liquidas e certas, uma vez que: (I) não cabe ao condômino questionar o valor; e (II) o condômino sempre é instado pelo síndico a um valor determinado, ainda que os débitos possam ser variáveis.
OBS. 01: súmula 547 do STJ que trata de uma questão bem específica, conforme se vê:
SÚMULA 547: Nas ações em que se pleiteia o ressarcimento dos valores pagos a título de participação financeira do consumidor no custeio de construção de rede elétrica, o prazo prescricional é de vinte anos na vigência do Código Civil de 1916. Na vigência do Código Civil de 2002, o prazo é de cinco anos se houver previsão contratual de ressarcimento e de três anos na ausência de cláusula nesse sentido, observada a regra de transição disciplinada em seu art. 2.028.
Atualmente quase não se fala sobre a transição. O que é legal na súmula é que a pretensão do consumidor para exigir o ressarcimento dos valores pagos a título de participação no custeio de rede elétrica pode ser de cinco ou de três anos. Será de cinco anos se tiver previsão em cláusula contratual do ressarcimento, entrando na hipótese de cobrança de dívida líquida e certa prevista no inciso I do § 5º do art. 206 do CC. Ou será de três anos, entrando na hipótese de reparação civil prevista no inciso V do § 3º do art. 206.
OBS. 02: sobre o seguro DPVAT. Existem duas súmulas importantes sobre o tema. A primeira é a súmula 405 do STJ, que diz:
SÚMULA 405: A ação de cobrança do seguro obrigatório (DPVAT) prescreve em três anos.
Prescreve em três anos porque o STJ consolidou o entendimento sobre a natureza indenizatória do DPVAT.
Muitos pensavam que era aplicado o prazo de um ano do inciso II do § 1º do art. 206 do CC, na relação segurado e seguradora. Mas, não é assim. Foi caracterizado uma natureza reparatória no seguro DPVAT, com prazo prescricional de três anos com base no inciso V, § 3º do art. 206.
Outra súmula importante sobre o DPVAT é a 573 do STJ, que diz:
SÚMULA 573: Nas ações de indenização decorrente de seguro DPVAT, a ciência inequívoca do caráter permanente da invalidez, para fins de contagem do prazo prescricional, depende de laudo médico, exceto nos casos de invalidez permanente notória ou naqueles em que o conhecimento anterior resulte comprovado na fase de instrução.
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É uma súmula de junho de 2016. Ela demonstra que a presença da teoria da actio nata. Quando começa a contagem do prazo para a vítima exigir a indenização do seguro DPVAT? Quando ela toma ciência da sua incapacidade laboral. Temos a actio nata, ou seja, a boa-fé pautada.
Essas eram as observações sobre os prazos prescricionais. Mas, e quanto aos prazos decadenciais? Eles podem estar na lei ou podem decorrer do encontro de vontades. Como estamos falando do exercício do direito potestativo, os prazos decadenciais podem estar na lei (decadência legal) ou podem decorrer do encontro de vontades (decadência convencional). Não existe um artigo na lei que elenque os prazos decadenciais. Os prazos prescricionais são os que se encontram nos arts. 205 e 206 do CC, todos os demais que se encontram no CC são prazos decadenciais.
Imagine a seguinte situação: estou alugando um apartamento de você. Então, a gente coloca no contrato duas cláusulas:
Cláusula nº 1 – em até três meses após a celebração do contrato, eu posso devolver o imóvel sem qualquer custo adicional.
Cláusula nº 2 – caso eu não pague o aluguel, você (locador) tem até seis meses para cobrar os aluguéis em atraso.
As duas cláusulas são válidas? A cláusula nº 1 decorre de um exercício de direito potestativo e, consequentemente, os prazos são decadenciais e podem, portanto, serem convencionados. Cobrar os alugueis em atraso (cláusula nº 2) decorre de uma pretensão e tem prazo prescricional, que tem que estar na lei, conforme já visto. Logo, a cláusula nº 2 violou o art. 192, pois nós convencionamos um prazo prescricional e ela é nula.
Próxima aula será dado início ao ponto 07.