Segurança espacial:
conceitos básicos
José Monserrat Filho
Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA) Núcleo de Estudos de Direito Espacial (NEDE)
Reunião de 15 de junho de 2012
Definição comum e corrente de segurança espacial:
1) Acesso seguro e sustentável ao espaço;
2) uso seguro e sustentável do espaço; e
3) Atividade espacial livre de
ameaças e perigos
Segurança espacial para quem, cara pálida?
Para quem pode ou para
quem precisa?
Segurança espacial para um país ou para um grupo de
países?
Para uma corporação ou para
um grupo delas?
Segurança espacial sobretudo para os países e os Conglome‐
rados envolvidos com atividades
espaciais?
Ou segurança espacial para todos os países,
toda a comunidade
global, todos os povos, todas as instituições,
todas as empresas?
Mais que nunca, a prática e o desenvol‐
vimento da segurança coletiva não serão uma necessidade imperiosa ?
Com o avanço incessante das armas e
recursos bélicos; com os problemas globais cada vez mais perigosos e desafiantes; e
com a absoluta interdependência exis‐
tente entre os países, como imaginar uma
segurança real que não seja coletiva?
Frank A. Rose, Subsecretário Assistente do Bureau de Controle de Armamento, Inspeção e Cumprimento (de Acordos), da Secretaria de Estado dos EUA:
“Devemos trabalhar com a comunidade das nações envolvidas com programas espaciais (spacefaring), a fim de
preservar o ambiente espaço para
todas as nações e as futuras gerações.”
A responsabilidade de preservar o ambiente espacial para todos os
países e as futuras gerações deve ser ser atribuída apenas aos países
envolvidos com programas espaciais (spacefaring)?
Ou deve ser direito e dever de toda a
comunidade internacional de países?
Há quem defina a segurança espacial como a habilidade de
cada país de garantir seu próprio
acesso ao espaço e seu próprio
uso do espaço, assim como sua
própria liberdade de nele atuar
livre de ameaças e perigos.
Essa visão é estreita, unilateral, hege‐
mônica e não raro imperial.
O espaço, como província ou incum‐
bência de toda a humanidade, é natu‐
ralmente um recurso natural a ser ex‐
plorado e usado por todos os países.
É, portanto, um bem comum.
A introdução ao Tratado de Espaço, de 1967, começa reconhecendo
“o interesse que apresenta para toda a humanidade o programa de
exploração e uso do espaço cósmico
para fins pacíficos”
Artigo 1º, § 1, do Tratado do Espaço:
“A exploração e uso do espaço cósmico, inclusive a Lua e demais corpos celestes, deverão ter em mira o bem e o interesse de todos os países,
qualquer que seja o estágio de seu desenvol‐
vimento econômico e científico, e são incum‐
bência (province) de toda a humanidade.”
Logo, é impróprio e inútil propor
segurança espacial apenas para um país ou de um grupo de países,
ou até de poderosas corporações.
Não há, nem pode haver, segu‐
rança individual ou de grupos no
espaço.
A segurança espacial (como a segurança nuclear) é de todos ou não é de ninguém.
É sempre e necessariamente coletiva.
Ou não é segurança efetiva.
Pelo SSI, a definição abrangente de segurança espacial engloba:
1) o ambiente espacial, único;
2) a integridade física e operacional dos objetos espaciais feitos pelos humanos e suas estações em solo; e
3) a segurança da Terra contra os
perigos vindos do espaço.
O que ameaça a segurança espacial?
1. O lixão espacial que só faz crescer;
2. a colisão de satélites;
3. A interferência no funcionamento dos satélites e das estações de apoio em solo;
4. Os diferentes ataques cibernéticos;
5. A instalação de armas em órbitas da Terra e a conversão do espaço em teatro de guerra;
6. Os corpos celestes (asteroides) capazes de se
chocar com o nosso planeta.
Hoje, os sistemas instalados no
espaço (satélites, sondas, naves) e suas infraestruturas de apoio
(estações terrestres) enfrentam
ameaças feitas pelos humanos, que podem sabotar, minar, danificar,
desativar, degradar, enganar,
prejudicar, destruir bens espaciais.
Artigo 4º, § 1, do Tratado do Espaço:
“Os Estados Partes do Tratado se comprometem a não colocar em
órbita qualquer objeto portador de armas nucleares ou de qualquer tipo de armas de destruição de massa, a não instalar tais armas nos corpos celestes e a não colocar tais armas, de nenhuma maneira, no espaço
cósmico.”
São três os tipos conhecidos de armas
espaciais, não considerados de destruição em massa:
1. Terra‐espaço
2. Espaço‐espaço (ASATs)
3. Espaço‐Terra
A alegada dificuldade de formular uma definição de armas espaciais é
apresentada como razão jurídica que impede o avanço das discussões sobre a proibição da instalação e do uso
dessas armas em órbitas da Terra.
Pergunta que não quer calar:
Como a comunidade de países está en‐
frentando o desafio de garantir seguran‐
ça e sustentabilidade a longo prazo para as atividades espaciais – hoje absoluta‐
mente indispensáveis à vida cotidiana
dos habitantes do nosso Planeta?
Organizações e entidades mobilizadas:
1) Conferência sobre Desarmamento;
2) Projeto do Stimson Center, EUA – Code of Conduct for responsible space‐faring nations;
3) União Europeia – Code of Conduct for Space Activities, versões de 2008 e 2010;
4) Instituto Europeu de Política Espacial
(ESPI) – debates e publicações;
5) Comitê das Nações Unidas para o Uso
Pacífico do Espaço Exterior (COPUOS) e seu Subcomitê Científico e Técnico, que criaram o Grupo de Trabalho sobre a Sustentabili‐
dade das Atividades Espaciais a Longo Prazo.
Mas a questão ainda não foi admitida na
agenda de debates do Subcomitê Jurídico do
próprio COPUOS;
6) Grupo de Especialistas Governamentais sobre Medidas de Transparência e Constru‐
ção de Confiança nas Atividades Espaciais.
O Grupo, criado pela Assembleia Geral
das Nações Unidas em 2010, deve começar
seu trabalho agora em julho.
Proposta construtiva é a criação de um Sistema Global de Dados e Informações (Space Situacional Awareness – SSA)
sobre a situação real existente no espaço a cada momento, em matéria de satélites, sondas e naves espaciais, e suas ações.
A questão é saber se esse sistema poderá ser utilizado apenas por alguns países
ou por todos os países.
Conferência sobre Desarmamento:
Projeto de Tratado, apresentado em
2008 pela Rússia e China, para Prevenir a Instalação de Armas no Espaço Exte‐
rior e o Uso ou Ameaça de Uso da Força
contra Objetos Espaciais (PPWT, na sigla
em inglês).
O projeto russo‐chinês tem o apoio da
maioria dos países membros da Conferência sobre Desarmamento, inclusive do Brasil.
Mas seu debate está paralisado há vários anos neste organismo.
EUA e outros países desenvolvidos se
opõem a um acordo obrigatório sobre
segurança espacial. Preferem soft law.
Os Códigos de Conduta do Stimson Center, EUA, e da União Europeia
reconhecem o uso no espaço exterior do “direito inerente de legítima defesa individual ou coletivo”.
Esse direito está definido no Artigo 51
da Carta das Nações Unidas.
Artigo 51 da Carta das Nações Unidas
Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva, no caso de ocorrer um ataque
armado contra um Membro das Nações Unidas, até que o Conselho de Segurança tenha tomado as medidas necessárias para a
manutenção da paz e da segurança internacionais.
As medidas tomadas pelos Membros no exercício desse direito de legítima defesa serão comunicadas imediatamente ao Conselho de Segurança e não deverão,de modo algum, atingir a autoridade e a responsabilidade que a presente Carta atribui ao Conselho para levar a efeito, em qualquer tempo, a ação que julgar necessária à manutenção ou ao restabelecimento da paz e da segurança inter- nacionais.