CENTRO DE
REABILITAÇÃO
FÍSICO-MOTORA
Trabalho de Conclusão de Curso de Arquitetura e Urbanismo
Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Tecnológico
Luiza Costa Laus
Adriana Rossetto
Estudante
Orientadora
Dedico esta e todas as conquistas, bem como
agradeço profundamente, a meus pais Márcia e
Marcos pelo incentivo, educação, construção de
caráter, pelas oportunidades e todo afeto que uma
família maravilhosa poderia prover. Assim como à
minha irmã mais velha Marina, quem tenho como
exemplo de ser humano.
A todos os meus amigos e familiares que
contribuíram para meu crescimento pessoal e
felicidade, principalmente a meu melhor amigo e
companheiro Lucas, e minha amiga Christine
quem também deu grande apoio nessa etapa.
A todos que tornaram possível a existência da
educação pública de qualidade, aos professores e
servidores da Universidade Federal de Santa
Catarina, em especial os membros do curso de
Arquitetura e Urbanismo.
Por fim, agradeço à minha professora e orientadora
Adriana Rossetto, a todos os doadores de sangue e
profissionais da saúde que diariamente salvam
vidas. Ela marcou minha formação com aulas
extraordinárias, muitos sorrisos e bondade
exemplar. Desejo fortemente saúde e felicidade
para ela.
1. Introdução
1.1. Motivação
1.2.
Objetivos Gerais
1.3.
Objetivos Específicos
2.
Fundamentação Teórica
2.1.
Contexto Histórico
2.2.
Desenho Universal
2.3.
Clínicas de Reabilitação Motora
2.4.
Humanização Hospitalar e Arquitetura Terapêutica
3.
Estudos de Caso: Exemplos de Centros de
Reabilitação Motora
3.1.
Rede Sarah: Hospitais de Reabilitação
3.2.
The Christ Hospital Joint and Spine Center / SOM
3.3.
Centro de Tratamento de Câncer / Foster + Partners
4.
Área de Intervenção
4.1.
A Cidade
4.2.
O Bairro
4.3.
O Terreno
5.
O Projeto Arquitetônico
5.1. Conceito
5.2.
Programa de Necessidades
5.3.
Partido Arquitetônico, Ambientes, Setorização e Fluxos;
Aspectos Técnicos e Construtivos.
6. Conclusão
7. Referências
A democratização dos espaços e o combate contra atitudes e ambientes discriminatórios são ideais cada vez mais recorrentes para a concepção de produtos, serviços, arquiteturas e cidades. Felizmente, hoje compreende-se muito mais que a ativa presença e participação de pessoas diferentes, com experiências únicas e individuais, pode agregar imenso valor para a evolução da nossa sociedade. O acesso igualitário, a promoção de oportunidades iguais e o combate a qualquer tipo de discriminação são algumas das diretrizes fundamentais para alcançar tal democratização no nosso mundo. Entretanto, é fácil esquecer quem são aqueles diferentes de nós quando não podemos os ver em lugar algum.
Experimentamos grande evolução no que diz respeito a conceitos e definições, porém, durante séculos perpetuou-se a ideia de um homem padrão, que assombrou arquitetos e urbanistas, contra ou por vontade própria. O movimento modernista, por exemplo, propôs o modulador de Le Corbusier, e antes disso tivemos um homem vitruviano: jovem e de corpo atlético, com dimensões ideais para interagir com os ambientes planejados por arquitetos. Conceitos e ideias excludentes não mais utilizados, uma vez que o reconhecimento sobre a própria diversidade das pessoas e democratização dos espaços se intensificaram.
O termo desenho universal, por exemplo, foi utilizado pela primeira vez nos Estados Unidos apenas na década de 80, fruto de discussões intensas e reivindicações populares. Apesar de tardio, considerando que a diversidade sempre existiu, foi o início para uma grande revolução arquitetônica e urbanística no que diz respeito a acessibilidade física. Porém, enquanto internacionalmente há intensa evolução para os direitos de acessos e usos, o Brasil ainda caminha em passos muito lentos em prol das liberdades e autonomias individuais. Infelizmente, a maioria da população ainda não compreende que para garantir oportunidades iguais, é necessário estabeleces medidas às vezes desiguais.
Ao adentrar a temática de acessibilidade, é recorrente tratar-se de usuários ditos “deficientes”, assim classificados, em relação a medicina e psiquiatria, por possuírem alguma ausência de funcionamento de algum órgão ou função psíquica ou intelectual. Assim, o termo deficiente designa alguém com disfunção da estrutura psíquica, anatômica ou fisiológica. Essa característica pode ser fruto de doenças, problemas congênitos, desnutrição ou por acidentes durante a execução de atividades domésticas, esportivas, trabalhistas ou em trânsito. Mas independentemente da origem da característica, essas pessoas dependem que diversos profissionais, como arquitetos e urbanistas, exerçam suas funções sem as negligenciarem, para que possam ser incluídas naturalmente na sociedade.
1. INTRODUÇÃO
Além daqueles com deficiências, há inúmeros outros que também interagem com o ambiente a sua volta de forma diferente de como um “homem perfeito e padrão” interagiria, que também dependem de profissionais dispostos a tornar o mundo menos hostil. Essa interação dessemelhante, quando comparamos a um homem vitruviano exemplar, ocorre por causa de barreiras que o mundo impõe a aqueles com impedimentos físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais, negligentemente criadas ao desconsiderar a diversidade. Caso uma pessoa, sem quaisquer impedimentos ou deficiências, tivesse que exercer suas atividades em uma área hostil e não acessível a ela, também seria assim denominada de deficiente ou incapaz, por sua resposta desajeitada aos empecilhos impostos. Por um ponto de vista, é possível considerar que a maioria dos ambientes projetados estiveram involuntariamente escolhendo a quem impor dificuldades.
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Tendo em vista tal compreensão, para alcançar uma eficiente democratização de espaços, considerando pessoas com deficiências e ou impedimentos, um desenho universal é fundamental para se conceber produtos, arquiteturas, programas e serviços em prol de um maior número de usuários possível. Tal número será conquistado apenas pela igualdade de oportunidades e ausência de barreiras. De outra forma, criadores e projetistas estariam excluindo crianças, gestantes, idosos, obesos, indivíduos com nanismo, usuários de próteses, pessoas com quaisquer deficiências, sejam cegos, cadeirantes, usuários de muletas, pessoas com síndromes, além de muitos outros, como alguém carregando uma caixa ou alguém empurrando um carrinho de compras. Juntos, são milhões de potenciais usuários sendo socialmente excluídos em cenários diversos.
Enquanto esses profissionais mencionados anteriormente, que atuam em criação e projetos em geral, como arquitetos, são responsáveis por alterar o cenário que deverá ser apto a receber todos, tanto em ambientes habitacionais, como educacionais, comerciais, de saúde, de trabalho, culturais e de lazer, há uma outra série de profissionais que trabalham diretamente e pessoalmente com aqueles com dificuldades de locomoção ou deficiências. Estes são médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, psiquiatras, professores, pesquisadores e cientistas, responsáveis por curar, educar, gerar conhecimento e proporcionar o suporte necessário para que essa parcela de usuários possa melhor se adaptar ao mundo onde vivem.
Independente da origem de sua dificuldade motora, todos necessitam do amparo que apenas profissionais específicos têm a qualificação para fornecer. Seja uma criança nascida cega, que precisará de uma educação diferenciada para garantir sua autonomia motora, ou um pedreiro que sofreu um acidente de trabalho, que precisará se readaptar à nova versão de sua vida sobre cadeira de rodas, ou uma senhora cujos joelhos enfraqueceram ao longo dos anos, e que necessitará de cirurgia e fisioterapia para se manter livre a circular pela cidade. O número de pessoas beneficiadas por ambientes que possam proporcionar sua recuperação e aprimoramento pessoal é ilimitado.
Ao longo deste trabalho serão abordados exemplos distintos de arquiteturas voltadas para a reabilitação motora, como o Hospital de Salvador da Rede Sarah, com partido totalmente horizontal, e o edifício The Christ Hospital Joint and Spine Center/SOM, com partido vertical. Ambos são exemplos de que, independentemente do partido arquitetônico, o desenho universal é aplicado para alcançar maior maleabilidade possível para os usuários, seja através de rampas ou elevadores, as pessoas devem ser livres de barreiras e assim manter sua autonomia.
Dentre as razões que impulsionaram o investimento de tempo e dedicação deste trabalho a respeito de uma proposta de centro de reabilitação motora, está a visão crítica sobre a própria formação acadêmica, que careceu por uma melhor instrução a respeito de acessibilidade e democratização da arquitetura e do urbanismo para pessoas com dificuldades de locomoção.
Apesar de se compreender a grande importância e responsabilidade que arquitetos e urbanistas possuem para a manutenção da sustentabilidade e equilíbrio social, o pensar universal desde o início da concepção de um projeto infelizmente é uma prática pouco difundida e instruída, mesmo nas universidades públicas brasileiras, onde o pensamento de retribuir à população a contribuição, que possibilitou o estudo e formação acadêmica, é muito forte. Além disso, mesmo a base frágil do pensar universal se confundi com exigências técnicas e o simples cumprimento de normas.
Particularmente, as barreiras que os ambientes constroem à uma parcela da população sempre foram marcantes, provocando uma inquietação contra essa injustiça “involuntária”, que profissionais negligentes criavam para as pessoas. Eram acessos principais através de escadas, que forçavam cadeirantes a se segregar do fluxo principal para exercer suas atividades, rampas com inclinações que exigiam extremo desgaste físico, degraus altos demais para idosos, partidos arquitetônicos que seriam mais belos se voltado para usuários em sua plena forma física.
Ao longo da graduação, além da empatia natural pela democratização dos espaços, quatro foram as experiências que motivaram principalmente que o Trabalho de Conclusão de Curso fosse na área de Arquitetura Hospitalar e especificamente para a reabilitação motora.
No quarto semestre da graduação, houve a oportunidade de executar e apresentar um trabalho a respeito do Hospital Salvador da Rede SARAH, do arquiteto brasileiro João Filgueiras Lima, cujo partido arquitetônico com foco em arquitetura bioclimática e experiência do usuário tiveram grande impacto. E por coincidência, no mesmo período cursei a disciplina de Urbanismo I, com a professora Soraya Nór, quem aplicou exercícios práticos para estimular o pensar universal. Aos alunos foram entregues cadeiras de rodas, muletas, vendas e bastões guias, para transitar pela cidade e enfrentar as barreiras que profissionais impuseram à população.
1.1. MOTIVAÇÃO
Já nas últimas fases da graduação, cursei a disciplina Criatividade e Inovação, oferecida pelo Departamento de Engenharia do Conhecimento e administrada pela professora Patrícia de Sá Freire. Em suas aulas, são intensas as discussões sobre trabalho em equipe, o direito de fala de todos, independente da formação acadêmica, e o quanto a diversidade de uma equipe e pontos de vista distintos são capazes de enriquecer projetos. Com a participação de um colega deficiente físico, quem não possuía uma de suas mãos, experimentou-se questionamentos de desenho universal e capacidades individuais. “Vocês planejam para ele? Como alguém sem uma das mãos irá usufruir os projetos de vocês, arquitetos, designers, engenheiros? Imaginem o quão importante é vocês terem a oportunidade de estudar e trabalhar com pessoas diferentes de um reflexo de vocês.” – A professora questionava.
Assim, proponho como temática de trabalho de conclusão de curso o desenvolvimento de uma arquitetura para a saúde e uma boa experiência do usuário, tanto como público alvo pessoas deficiências que limitam a mobilidade, pessoas com impedimentos físicos e profissionais da saúde que trabalham com a recuperação, tratamento e reabilitação desses potenciais usuários e participantes ativos da nossa sociedade.
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INTRODUÇÃO
1.2. OBJETIVOS GERAIS
1.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Propor o projeto de uma edificação com o propósito de exercer plenamente as atividades necessárias para a recuperação físico-motora de pacientes com deficiências e impedimentos físicos, com foco nos públicos jovem a idoso, de forma a permitir independência aos pacientes dentro e fora dos limites do edifício.
O edifício deverá ser localizado em terreno de fácil acesso: por ser contemplado por uma grande quantidade e diversidade de linhas de transporte público; por ser caracterizado pela acessibilidade urbana imediata (como a boa qualidade de calçadas e vias do entorno); e por não apresentar disparidades de nível do solo, de forma a se evitar a necessidade de rampas e escadas para seu acesso.
Além disso, opta-se que o terreno do projeto também deva contemplar áreas com serviços diversos em seu entorno, como restaurantes, lojas e mercados, para que tanto os pacientes, acompanhantes e os funcionários possam estabelecer sua rotina normalmente quando fora do edifício hospitalar, e possam adquirir maior visibilidade diante a sociedade. Assim, mirar-se-á em áreas centrais planas.
Dentre os objetivos específicos de projeto, estão:
Promover uma arquitetura ambientalmente amigável, que possua ferramentas para melhor performar climaticamente e aproveitar os recursos naturais, como águas pluviais e iluminação natural;
Criar ambiências que promovam maior contato entre ambientes internos e externos, que impulsionem experiências e atividades ao ar livre pelos usuários.
Estabelecer um modelo de distribuição de plano de necessidades condizente com as tarefas exercidas, de forma a criar fluxos naturais sem conflito de interesses;
Criar ambientes nos quais o público alvo será os funcionários, de forma a aprimorar a performance dos profissionais e futuros profissionais, por meio de áreas de descanso, descontração e ensino.
2. Fundamentação Teórica
Para o vigente trabalho e estudos, tratar-se-á de pessoas com deficiências especificamente físicas, seja a deficiência por origem genética ou fruto de acidentes, tendo em vista este ser o público alvo para a proposta de estabelecimento de reabilitação motora, via tratamento fisioterápico.
A hostilidade existente, ainda na era contemporânea, às pessoas com deficiências é fruto de uma histórica construção de comportamentos e padrões, sem origem certa. Tal distanciamento social, unido ao atraso da luta por direitos humanos igualitários, proporcionou uma história sobre projetos de inclusão social de caráter universal jovem.
É importante apresentar um breve histórico a respeito da participação na sociedade, de pessoas com impedimentos motores e deficiências físicas, por ser fundamental para a compreensão da exclusão social que ainda ocorre na Era Contemporânea, além como prática de empatia. Tal cenário repreensivo também justifica motivação do trabalho e real necessidade de maiores esforços por parte da sociedade como todo, para atingir igualdade de direitos entre seres humanos.
A relação da sociedade com a pessoa com deficiência varia de cultura para cultura e refletem crenças, valores e ideologias que, materializadas em práticas sociais, estabelecem modos diferenciados de relacionamentos entre esta e outras pessoas, com ou sem deficiências (FRANCO & DIAS, 2005). Por exemplo, anterior a ascensão cristã como religião ocidental dominante, evidências arqueológicas apontam que no período do Egito Antigo, os deficientes eram integrados à sociedade, existindo inclusive as “Instruções de Amenemope”, um documento semelhante a um código de conduta moral egípcio, que determinava respeito para com anões e deficientes em geral, sendo este um dever moral (KOZMA, 2006; KOZMA et al, 2011). Por outro lado, posterior a esse período na Grécia, de acordo com os livros A Política (de Aristóteles) e A República (de Platão), era determinada a eliminação de crianças disformes.
Com o fim do Império Romano no século V (após extenso domínio sobre território europeu), e a Queda de Constantinopla, posteriormente o total poder da Igreja Católica foi alcançado durante a Idade Média, o que submeteu
pessoas com deficiências a procedimentos desumanos, como perseguições, tortura, execuções e até mesmo à queima enquanto vivos. O radicalismo religioso intensificou a associação de falhas genéticas a castigos divinos e possessões.
A boa caridade, entretanto, de acordo com análises de Michael Foucault¹ sobre relações de poder, tinha a real função inicial de retirada dos indesejáveis do ambiente público, não para um bem maior da saúde pública, mas para um bem social, o que condiz com a impressão discriminatória imposta na época. Na concepção da igreja, mesmo os doentes eram pecadores castigados por Deus.
Porém, não apenas o radicalismo religioso contribui para a exclusão social. A eugenia², termo utilizado fortemente por Francis Galton no início do século XX, determinava que algumas pessoas possuíam maior valor que outras, e que falhas genéticas seriam transferidas entre gerações, o que justificaria um “acasalamento seletivo”. Essa visão segregacionista e hierárquica provocou a contínua perseguição e preconceito para com os diferentes, de forma a se justificar esterilizações de pessoas com “fraquezas e falhas”, tal qual conhecidamente feito a homossexuais no último século.
O mesmo pensamento Eugenista provocou a execução de milhares de pessoas na metade do século XX, durante o regime nazista na Alemanha. O programa, denominado posteriormente a guerra de Aktion T4, e executado pela força paramilitar Schutzstaffel (SS), tinha a finalidade de eliminar fraquezas da “raça”, para que o material humano alemão não fosse comprometido por “defeitos”, com enfoque na eutanásia de crianças deficientes (HUDSON, 2011).
Contudo, o século XX não proporcionou apenas momentos obscuros para a sociedade. Ele também trouxe avanços tecnológicos, educacionais, sociais e uma verdadeira evolução de direitos humanos. Por meio da ciência, foi possível criar melhores equipamentos assistivos, superiores em qualidade que as então utilizadas bengalas e cadeiras de rodas. O ensino a cegos e surdos, dentre
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FUNDAMENTAÇÃO
TEÓRICA
2.1. Contexto Histórico
¹ Michael Foucault, de origem francesa, foi um filósofo, historiador, teórico social, crítico literário e professor no Collège de France, durante o século XX.
² Eugenia significa “bem-nascido”, um termo criado em 1883, por Francis Galton, quem acreditava que a seleção natural defendida por Charles Darwin também era aplicável aos seres humanos. Ou seja, características de intelecto e físicas eram de origem hereditária. O termo foi historicamente utilizado para a exclusão de minorias, tais quais deficientes e negros.
outros, também foi aprimorado, e estes tiveram a maior possibilidade de se integrar na sociedade.
As sucessivas guerras resultaram em inúmeros deficientes por acidentes, sequelas que trouxeram maior visibilidade para as pessoas com deficiência como um todo. A criação de organizações mundiais também foi fundamental para os avanços sociais, tais quais a Organização das Nações Unidas para Pessoas com Deficiências (ENABLE), Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre outras. Até mesmo no esporte, com a enfim criação dos Jogos Paralímpicos em 1960 já televisionados, o mundo enfim começou a prestigiar a representatividade nacional de pessoas com deficiências.
Na década de 60, foi criada uma comissão mundial para a discussão de eliminação de barreiras arquitetônicas, urbanísticas e de equipamentos, para pessoas com mobilidade reduzida, denominada “Barrier-free Design”. Logo após, na década de 80, pela primeira vez foi utilizado o termo Desenho Universal, nos Estados Unidos, após uma série de manifestações de pessoas com deficiência e profissionais de diversas áreas, em prol da determinação de diretrizes para uma sociedade mais inclusiva (CAMBIAHCH, 2012).
Hoje, os conceitos de democratização de espaços, direitos iguais, acessibilidade e desenho universal são muito mais naturalizados, em diferentes intensidades desde o ensino básico quanto na graduação. Mas persiste a necessidade de aprimorar as oportunidades dessa expressiva parcela da população, dentre a qual qualquer pessoa um dia poderá vir a fazer parte.
2.2. Desenho Universal
O termo desenho universal é comumente vinculado a um pré-conceito fundado por uma massa de profissionais, que passam a utilizar o termo de forma inadequada e simplificada, tornando-o um sinônimo de aplicação de normas técnicas. Ou seja, ao ser necessária a concepção de um projeto para todos, para inúmeras pessoas basta adicionar rampas, piso podotátil, elevadores, aplicar barras, respeitar as normas de dimensionamento, dentre outros, para que a construção seja apta a receber a todos. Infelizmente essa concepção resulta trabalhos pobres, não exclui barreiras e contribui para segregação social (CAMBIAHCH, 2012).
Entretanto, o desenho universal é muito mais complexo e abrangente. Dentre tantas definições, a menos excludente é “projetar para todos”, sem exceções. O termo foi originalmente utilizado nos Estados Unidos durante a década de 80, quando manifestações promovidas por deficientes e uma série de profissionais defenderam a democratização dos espaços: uma luta por direitos iguais. Enquanto vertentes ideológicas da arquitetura defendem o equilíbrio entre as cidades e o meio ambiente, o ponto chave do desenho universal é a sustentabilidade social.
Tendo em vista a aplicação dessa democratização ambiental, o laboratório de pesquisa, informação e desenvolvimento tecnológico da Escola de Design da Universidade da Carolina do Norte, o Center for Universal Design definiu princípios e diretrizes para servir de orientação a criadores de serviços, produtos, edifícios e cidades. Essas diretrizes são exemplificadas e simplificadas em sete:
a. Equiparar as Possibilidades de Uso: isso engloba o fornecimento de mesmos recursos, com proteção, privacidade, atratividade a todos, sem segregar quaisquer usuários. Por exemplo, um banheiro público utilizado por qualquer pessoa, sem segregar públicos distintos por banheiros distintos. b. Uso Flexível e Adaptável: não excluir pessoas com habilidades distintas, como destros e canhotos, ou aqueles com precisão de movimento e ritmo diferentes, como pessoas com Parkinson ou outros distúrbios.
c. Simplicidade e Intuição: envolve a eliminação de quaisquer complexidades desnecessárias, que exijam algum nível de entendimento fruto de experiências individuais. Como mal exemplo, aparelhos domésticos costumam não ser intuitivos a todos os usuários, como micro-ondas ou um fogão com bocas diversas.
d. Comunicação Eficaz: o ambiente ou objeto deve fornecer as informações sonoras, visuais, táteis, simbólicas e linguísticas necessárias para compreensão por todos. A comunicação deve alcançar a clareza, facilidade e contraste ideais. Por exemplo, um banheiro bem sinalizado pode evitar constrangimentos, enquanto alguns museus oferecem informações sonoras e miniaturas táteis para deficientes visuais terem igual oportunidade de aproveitar o conhecimento apresentado.
e. Segurança e Tolerância ao Erro: tendo em vista a interação distinta com o espaço, o desenho universal prevê também isolar riscos e proteger pessoas, além de visar os recursos necessários para alertar a todos em caso de perigo. Por exemplo, em banheiros instalar barras de segurança para evitar quedas, ou a instalação de alarme de incêndio com sinais sonoros e luminosos
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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
SINAIS
f. Esforço Físico: é a diretriz que considera a força e capacidade física distinta dentre os usuários. Objetos e ambientes devem solicitar mínimo esforço para serem usufruídos por todos, além de facilitar a própria manutenção. Por exemplo, torneiras em alavanca.
g. Dimensionamento para Acesso e Uso Livre: o desenho universal visa democratizar espaços para pessoas de diferentes dimensões, assim o projeto também deve prever o uso por corpos distintos. Assim, os projetistas devem estar atentos a pontos de vista em alturas diversas, como a aqueles sentados ou em pé, dimensões para a passagem de cadeirantes e obesos, entre outras medidas.
Ao seguir essas diretrizes, o desenho universal garante uma melhor qualidade de vida à população como um todo, além da oportunidade de exercer suas atividades com autonomia e sem tratamento discriminatório. Porém, como Silvana Cambiaghi escreve em seu livro “Desenho Universal: Métodos e Técnicas para Arquitetos e Urbanistas”, desde os primeiros riscos e fases de criação de um projeto, profissionais e estudantes precisam alterar sua perspectiva sobre usuários e abandonar a concepção de que estão projetando para pessoas que são reflexos de si mesmos.
Assim, é fundamental perceber que os outros não possuem as mesmas vontades, necessidades, capacidades físicas e mentais, nem os mesmos hábitos ou formação educacional. Para tal, a escritora aconselha técnicas que deveriam ser aplicadas na formação acadêmica de todo profissional, para aumentar a capacidade individual de sentir empatia. Essas técnicas inclusive são experimentadas durante a graduação em Arquitetura e Urbanismo pela UFSC, como o exercício de tentar exercer atividades diárias com o uso de vendas sobre os olhos ou sentado sobre cadeiras de rodas, além de transitar através de transporte público sob essas condições.
Porém, cursos e disciplinas que se propõe a mudar paradigmas são escassas, mudanças no próprio espaço universitário são gradativas e afrontam a democratização da educação. O edifício da ARQ/UFSC apresenta uma série de irregularidades que se repetem no campus, que apenas se moveu em busca de adaptações quando uma estudante do curso sofreu um acidente físico. São pisos irregulares, sinalizações em placas de letras pequenas, acesso principal por escadas (o que segrega), escadas sem corrimão, elevadores subdimensionados, entre outros.
A partir de uma evolução pessoal e uma maior sensibilidade, é possível levar critérios de elaboração de projetos para todos os públicos, que de fato vise a integração de todos. Em seu livro, Silvana apresenta uma série desses critérios que serão essenciais para o trabalho vigente. De forma breve, alguns pontos levantados por ela são:
a. Avaliação a respeito do partido arquitetônico, afim de confrontar as possibilidades de acesso oferecidas e se tal partido garante segurança e autonomia para os diversos usuários: crianças, idosos, gestantes, obesos, pessoas com deficiências visuais, físicas, auditivas ou comunicativas. É importante ressaltar a atenção às rampas, escadas, desníveis, dimensionamento de passagens, localização de estacionamentos, direção de abertura de portas, mobiliários e outras barreiras.
b. Todas as atividades e serviços oferecidos pelo projeto devem ser usufruídas por todos, o que inclui a clareza de distribuição e localização dos espaços, além da comunicação informativa sobre cada um deles.
c. Para o dimensionamento de espaços, deve-se adotar como parâmetro as necessidades de um usuário de cadeira de rodas, tendo em vista seu alcance manual e físico mais limitado, além de exigir maiores espaços para exercer suas funções.
i. De acordo com a NBR 9050, o módulo de referência mínimo é 0,80 m de largura por 1,20 m de comprimento. Para as diferentes dimensões de giro, a norma expressa:
ii. Temos a definição de área de aproximação, que consiste em dimensões tridimensionais. Em mobiliários tipo mesas, pias, tampos, entre outros, devemos sempre prever uma área livre sob eles de no mínimo 0,73 m do piso (altura), para que a cadeira e as pernas do usuário possam adentrar e permitir que o mesmo se aproxime, e dimensões de 0,80 m (largura) e 1,20 m (comprimento). iii. Há também a definição de áreas de transferência entre equipamentos existentes no local, como por exemplo em um banheiro:
d. Em passagens, o mínimo por norma é 0,80 m, o que é estreito para um usuário de cadeira de rodas. Dessa forma, em corredores, deve-se garantir no mínimo 0,90 m de caminho livre, sem qualquer interferência de objetos. Porém, em ambientes públicos onde se espera um fluxo de mais pessoas, a dimensão mínima é de 1,20 m, o que considera um cadeirante e uma pessoa em pé ao seu lado, apenas. Esses valores mínimos diferem de outros ambientes, como em um centro de reabilitação motora, onde se espera que mais de um usuário de cadeira de rodas irá transitar pelo ambiente, o que faz o mínimo ser 1,50 m.
e. Para rampas, o cálculo descrito em norma é i=((h x 100))/c, onde i é a inclinação, h significa altura e c é comprimento de rampa. O recomendado é uma inclinação entre 6,25% e 8,33%. Claro, não podem ser esquecidos os guias de balizamento (altura mínima de 0,05 m) quando não conectada a paredes.
f. Sempre ao início e término de rampas, é necessário haver sinalização tátil de alerta para pessoas com deficiência visual.
O livro também aborda diretrizes específicas para acessibilidade vertical e horizontal. Por exemplo, destaca a importância de corrimão, considera os usuários que precisam de apoio permanente em alguns cenários para se locomover, como cegos e idosos que o usam como guia. Elevadores e plataformas elevatórias também estão sujeitos a própria norma de dimensionamento, afim de garantir total autonomia para o usuário.
Em relação a aplicação do desenho universal ao projeto urbano, a escritora Silvana Cambiaghi também aborta uma série de critérios, os quais foram de grande importância para a escolha de terreno para a implantação do projeto. Mas tratar-se-á no item 6 sobre a área de intervenção em maiores detalhes.
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FUNDAMENTAÇÃO
TEÓRICA
Em função da alta especialização da medicina, aliada a não flexibilização de edifícios de saúde e limitações às futuras expansões, hospitais especializados em certos tratamentos crescem em número para suprir a demanda, como clínicas especializadas em dermatologia, maternidade ou reabilitação.
Tratando-se de pessoas em recuperação de acidente vascular cerebral, quadro pós cirúrgico, amputação de membros, danos na coluna, articulações, ossos ou músculos, dores físicas ou qualquer outra condição incapacitante, serão necessários tratamentos fisioterápicos para se alcançar a estabilidade ou cura completa da condição. Para tal, o médico a assistir o paciente pode receitar o acompanhamento por um profissional de fisioterapia, alguém treinado para restaurar a mobilidade física e suas funções por meio do regime de exercícios físicos e atividades, específicas para cada paciente e condição.
A fisioterapia possui departamento próprio em hospitais gerais, porém clínicas com foco em reabilitação motora são capazes de estabelecer melhor relação dentre seus usuários, devido suas dimensões inferiores, e promover maior fluidez para os serviços, fruto da ausência de conflito com outras especialidades médicas.
Estes edifícios com foco em fisioterapia possuem o grande diferencial de terem seus ambientes de tratamento subdivididos em setores seco e molhado, com rigorosa separação, afim de não ocorrer interferências pela umidade.
O setor molhado é composto por ambientes onde há:
a) Tanques para hidroginástica, com dimensões de 4 m por 6 m.
b) Banhos medicinais de água fria e quente, tanto especificamente para mãos, pés ou corpo. c) Banhos com hidromassagem.
d) Sala de inalações. e) Outros.
O setor seco é composto por ambientes para tratamento com ausência de água, como salas de ginástica para terapias em grupo, que podem possuir área de 40 m² a 50 m², ou salas de ginástica para terapias individuais, que podem atingir área de 20 m². Mas ambas possuem pé direito mínimo de 3 m de pé direito, devido a presença de equipamentos diversos. Além destes, outros ambientes recorrentes para o tratamento de fisioterapia são: salas para massagem de pacientes, eletroterapia¹, ergoterapia², salas para tratamento de ferimentos, entre outros.
Ambos os setores seco e molhado precisam ser facilmente alcançáveis a partir da recepção do edifício, contemplados por ambientes de apoio relacionados às atividades exercidas. O apoio consiste em vestiários e banheiros masculino e feminino, de uso universal para as diversas condições dos pacientes, sala de descanso, depósito para itens diversos (roupas e toalhas limpas e sujas, alimentos, medicamentos, produtos de limpeza e equipamentos), zona de espera para pacientes e acompanhantes, além de ambiente de instalações técnicas para o setor de hidroterapia.
Alguns outros ambientes diversos não são de obrigatoriedade para compor o programa de necessidades de uma clínica de reabilitação motora, mas podem contribuir para o caráter do local. Por exemplo, a disponibilidade de um ambiente de alimentação aberto ao público, que pode ser usufruído por acompanhantes, usuários da clínica e pessoas externas ao programa, de forma a trazer maior visibilidade e normalidade à presença de pessoas com impedimentos físicos. Em acréscimo, a instalação de um acervo de livros e salas para treinamento de funcionários, aptos para receber estudantes de graduação dos cursos de fisioterapia, enfermagem, educação física, psicologia, entre outros.
¹ Eletroterapia é um tratamento que, por meio do uso de eletrodos na superfície da pele do paciente, estimula correntes elétricas de baixa intensidade. O uso visa tratar condições de inchaço, dor, espasmos, baixa irrigação sanguínea, além de acelerar a cicatrização da pele e fortalecer o músculo. Os aparelhos utilizados são pequenos e maleáveis, e o ambiente de execução é semelhante a uma sala de massagem individual.
² Ergoterapia é um tratamento que busca melhora física e emocional do paciente, àqueles que possuem alguma deficiência ou doença motora ou psicomotora, seja permanente ou temporária. Os ambientes onde o tratamento é gerenciado são semelhantes aos presentes no cotidiano, para que o paciente seja capacitado a exercer as atividades da rotina e atingir maior independência, como se vestir, cozinhar, escrever, tomar banho, etc.
Planta baixa do 1° nível de subsolo do Hospital Berlim-Spandau, atualmente Clínica Vivantes Berlim. Arq. Heinle, Wisher e Partner Freie Architekten.
A concepção de um projeto envolve uma série de critérios, tais quais funcionalidade das atividades, acessibilidade e desenho universal, criatividade solutiva, estética e partido arquitetônico, eficiência energética e sustentabilidade ambiental, entre outros. Porém, padrões técnicos e estéticos, “tendências do agradável”, não são o suficiente para oferecer uma boa experiência ao usuário que desfrutará o resultado. A face viva de um ambiente construído é o bem-estar de seus ocupantes, os quais, como público alvo, devem ser o principal critério desde o início de qualquer concepção de projeto.
Quando a experiência do usuário, além de negligenciada, define-se como desagradável e infeliz, uma categoria inteira de edificações pode ser condenada ao preconceito, como ocorre com ambientes de saúde, usualmente associados a tristeza, frio e sem vida. Tópicos como “humanização de ambientes hospitalares” e “arquitetura terapêutica” podem ser redundantes e por isso repudiados por alguns profissionais, mas sua existência apenas alega mais uma vez a ineficiência de projetar com o usuário em foco.
O projeto arquitetônico de saúde, com foco na experiência do usuário, pode influenciar diretamente a velocidade de recuperação, a eficiência dos serviços e redução de erros, a legibilidade do edifício e sua acessibilidade, e mesmo a adesão de pacientes em permanecerem com comprometimento sob longos tratamentos, como exige a reabilitação motora.
De acordo com Lídia Nascimento e Adaílson Mesquita, no seu artigo “Arquitetura Terapêutica Aliada ao Tratamento Clínico”, “o desafio da arquitetura hospitalar de hoje é o de dotar espaços de conotações de acolhimento e familiaridade para o usuário, dotando a prática médica de um sentido de segurança e confiabilidade ao paciente”, tendo em vista potencializar a cura e minimizar o sofrimento, com foco em pacientes, funcionários, familiares e amigos.
No artigo é mencionado o resultado de uma pesquisa de satisfação de pacientes do Hospital de Yale, New Haven/USA, cujas perguntas questionaram o que mais os agradava no hospital. Por quase unanimidade foram “as janelas” e a visão do exterior que elas possibilitavam, gerando contato com a dinâmica da vida urbana, das nuvens, do sol e chuva.
2.4. Humanização Hospitalar e
Arquitetura Terapêutica
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De acordo com os autores, assim como comumente outras bibliografias alegam, os pacientes se sentem desconectados e isolados do mundo exterior, com suas vontades e privacidades tomadas. É de grande importância que as pessoas mantenham sua autonomia, possam escolher a música ou intensidade luminosa de seus quartos, se desejam estar acompanhadas de familiares ou amigos, sem ter suas alegrias, humor e liberdades inofensivas restringidas.
O artigo ainda traz o exemplo do Hospital Pediátrico Robert-Debré, projeto do arquiteto Pierre Riboulet, na França. Nele, uma galeria pública atravessa transversalmente o hospital, para trazer a cidade pro seu interior. Diferentes usos, serviços e espaços de convivência que podem ser compartilhados e desfrutados por qualquer pessoa, ao mesmo tempo que explora integrar natureza e arte. Tais pitares de concepção de projeto tornaram-se exemplos e diretrizes para a humanização de hospitais. Mesmo no Brasil, com o arquiteto João Figueiras Lima e os Hospitais da Rede Sarah, novamente esses critérios são fundamentais, bem como o uso de ventilação e iluminação natural eficientes, como será apresentado adiante.
Cores também se mostram como diferenciais no assunto. O mesmo artigo relata como especialistas em cromoterapia defendem a capacidade das cores possuírem qualidades específicas e produzirem efeitos diferenciados: calmantes, refrescantes, excitantes e até mesmo irritantes. No Hospital da Rede Sarah de Salvador, por exemplo, os painéis de artes plásticas trazem diversas cores para o dia a dia das pessoas, bem como o verde dos jardins penetra nos ambientes.
Os jardins não substituem qualquer regime terapêutico nem curam, mas complementam e potencializam, afinal é o corpo se cura mais rápido quando aliado a uma mente saudável, como descreve a arquiteta e paisagista Sara Francisca Faria, em sua dissertação de mestrado sobre “Jardins Terapêuticos em Unidades de Saúde”.
De acordo com a dissertação, jardins terapêuticos não possuem padrão de forma ou função, mas devem se mostrar atentos às atividades dos usuários, suas limitações e fragilidades. Um espaço verde pode envolver o usuário de 4 formas: extrovertida (com atividades ativas, sociais, de maior exigência de interação e trabalho mental), com participações ativa (estímulos a interação e participação ativas não forçadas), com participação emocional (permite a maior observação que interação direta, sem envolvimento), e por último de maneira introspectiva (possibilita solidão sem perturbações ou distrações).
Francis & Paine (1990, p. 272-280) também contribuem para descrever algumas características importantes a jardins terapêuticos, tais quais a fácil visibilidade pelos pacientes, a segurança de profissionais e pacientes em permanecer e usufruir do espaço verde, oferecer a oportunidade de contado social, além de contato com a natureza e diferentes elementos.
Sem adentrar em detalhes de tipologias, jardins capazes de oferecer essas quatro formas de interação são diferenciais para o bem-estar de alguém em reabilitação motora, por exemplo. Além de possibilitar que atividades de recuperação possam ser realizadas ao ar livre, permitem que pacientes enfrentando traumas emocionais, por deficiências ou preconceito social, possam interagir entre si, em ambientes mais convidativos, que se adaptam às capacidades individuais de socializar – desde manterem-se isolados até eventualmente se sentirem prontos para participarem do grupo.
2.4.1. Jardins Terapêuticos
A vasta utilização de jardins terapêuticos é ainda mais recorrente na busca pela humanização na saúde, para explorar a percepção ambiental do usuário. É impossível não associar o verde da natureza à tranquilidade, paz e recuperação, mesmo por historicamente fornecerem a cura de doenças, possibilitarem a criação de medicamentos, dentre outros benefícios.
Em 1940, a arquiteta paisagista britânica, Allen Hurtwood, tornou-se referência por implementar o uso de jardins com a finalidade de tratar traumas resultantes da Segunda Guerra Mundial. Mais tarde a aplicação de jardins na rotina de pessoas em recuperação se estendeu para pessoas com deficiências e impedimentos físicos.
Buscar-se-á, neste projeto arquitetônico, contemplar todos os pontos capazes de aprimorar o bem-estar e qualidade de vida das pessoas, afim de tornar a experiência do usuário mais humana, familiar, convidativa e estimulante em prol de uma cura mais eficiente.
Os Hospitais de Reabilitação da Rede Sarah Kubitschek são sem dúvida as maiores referências arquitetônicas no território brasileiro para o campo de recuperação e terapia motora. O arquiteto João Filgueiras Lima, popularmente conhecido como Lelé, foi o responsável pelo primeiro projeto da Rede Sarah em Salvador, cujo objeto arquitetônico o consagrou nas áreas de arquitetura bioclimática, conforto ambiental térmico e arquitetura hospitalar verdadeiramente humana.
Inaugurado em 1994, o hospital de Salvador conforma quatro principais alas de tratamento: Reabilitação Neurológica, Reabilitação Ortopédica, Reabilitação Infantil e Neurorreabilitação em Lesão Modular.
Os serviços listados acima, são realizados e distribuídos horizontalmente em seus 27.000m² de área construída, cujas características são a materialização de uma série de premissas indispensáveis para o projeto:
3.1. Hospital Rede Sarah Salvador
• Flexibilidade de Uso e de Expansão da Construção: seja qual fosse o método construtivo, ele deverá permitir ampliações futuras e adaptações;
• Espaços Verdes: é importante que o paciente transite pelo espaço e mantenha atividades ao ar livre;
• Flexibilidade de Instalações: visa a facilidade de alterações e manutenção, fundamental para edifícios de saúde em geral;
• Iluminação Natural e Conforto Térmico: torna-se cada vez mais forte o total isolamento de edifícios hospitalares com o exterior, por meio de iluminação e ar controlados artificialmente. Em certos períodos do ano e do dia, é inevitável o uso de ar condicionado e iluminação elétrica, mas estes não devem ser feitos de maneira indiscriminada por todo o tempo;
• Padronização Construtiva: a Rede Sarah contém imensos edifícios em extensão, que para potencializar manutenções e facilitar a construção, foi necessário criar um padrão e modulação, tanto construtiva quanto em mobiliário interno.
Além dessas premissas, em geral técnicas, o Hospital Sarah Salvador se distancia da clássica visão hospitalar quando o projeto arquitetônico se uniu ao artista plástico Athos Bulcão, que proporcionou que cores invadissem as comuns áreas brancas e monótonas.
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ESTUDOS DE CASO
Dentre as premissas do projeto do hospital de Salvador, a maioria dos pontos serão tomados como pilares para o desenvolvimento do projeto de centro de reabilitação motora na Grande Florianópolis, tais quais a flexibilidade de uso, a forte presença de espaços verdes, flexibilidade de instalações e iluminação natural (quando possível). Entretanto, de acordo com observações a serem apresentadas nos próximos parágrafos, o conforto térmico (baseado no forte planejamento de uso da ventilação natural) e a padronização construtiva por modularização pré-fabricada, serão descartados e assim justificados.
Os serviços listados são realizados e distribuídos horizontalmente em seus 27.000m² de área construída, cujas características são a materialização de uma série de premissas indispensáveis para o projeto:
• Flexibilidade de Uso e de Expansão da Construção: seja qual fosse o método construtivo, ele deverá permitir ampliações futuras e adaptações;
• Espaços Verdes: é importante que o paciente transite pelo espaço e mantenha atividades ao ar livre;
• Flexibilidade de Instalações: visa a facilidade de alterações e manutenção, fundamental para edifícios de saúde em geral;
• Iluminação Natural e Conforto Térmico: torna-se cada vez mais forte o total isolamento de edifícios hospitalares com o exterior, por meio de iluminação e ar controlados artificialmente. Em certos períodos do ano e do dia, é inevitável o uso de ar condicionado e iluminação elétrica, mas estes não devem ser feitos de maneira indiscriminada por todo o tempo;
• Padronização Construtiva: a Rede Sarah contém imensos edifícios em extensão, que para potencializar manutenções e facilitar a construção, foi necessário criar um padrão e modulação, tanto construtiva quanto em mobiliário interno.
Além dessas premissas, em geral técnicas, o Hospital Sarah Salvador se distancia da clássica visão hospitalar quando o projeto arquitetônico se uniu ao artista plástico Athos Bulcão, que proporcionou que cores invadissem as comuns áreas brancas e monótonas.
Dentre as premissas do projeto do hospital de Salvador, a maioria dos pontos serão tomados como pilares para o desenvolvimento do projeto de centro de reabilitação motora na Grande Florianópolis, tais quais a flexibilidade de uso, a forte presença de espaços verdes, flexibilidade de instalações e iluminação natural (quando possível). Entretanto, de acordo com observações a serem apresentadas nos próximos parágrafos, o conforto térmico (baseado no forte planejamento de uso da ventilação natural) e a padronização construtiva por modularização pré-fabricada, serão descartados e assim justificados.
O Desenho e o Projeto
Sobre a concepção do projeto, este se dá por meio de um único elemento que se repetiu pelos trabalhos posteriores de Lelé: um shed metálico e curvo, padronizado, cuja única dimensão alterável é seu comprimento, para se estender sobre toda a extensão do edifício.
Para que tal elemento fosse possível, chapas metálicas e onduladas são montadas sobre perfis curvos de treliças, que se apoiam sobre vigas horizontais também treliçadas. Todo o objeto estrutural recebe uma chapa também metálica que atua como acabamento inferior de isolamento acústico e luminoso.
Este shed metálico contribui para o que mais chama a atenção no hospital de Salvador: seu sistema eficiente de conforto ambiental promovido por um conjunto de elementos estruturais. O conforto é alcançado por um eficiente sistema de ventilação natural, que ocorre por meio de grandes túneis subterrâneos ao hospital, cujas entradas são voltadas para o sotavento (ventos que facilitam a sucção), criando o efeito chaminé através de passagens de ar nas paredes que conectam o sistema entre os túneis e aberturas nos sheds.
Porém, além da cobertura peculiar, o projeto dependeu de uma extensa área com face para os ventos, além de uma diferença de nível no terreno para possibilitar os túneis. Na unidade construída no Rio de Janeiro, uma de seus sucessores, a ventilação natural não foi possível na mesma intensidade tendo em vista seu clima quente e muito úmido, o que torna indispensável o uso do ar condicionado em período integral na maioria dos ambientes. Em determinadas épocas do ano, a temperatura local alcança 40°C, e a sensação térmica pode ultrapassar ainda mais esse valor. Assim, enquanto no primeiro apenas áreas especiais possuem controle de ar, no segundo foi decidido o controle total, porém flexível para dias mais amenos e épocas mais frias.
Por causa deste ponto, e da diferença do clima que praticamente inviabilizou o pleno uso da ventilação, e tendo em vista a semelhança climática entre Rio de Janeiro e Florianópolis (este com clima subtropical, quente e úmido), foi desconsiderado o uso total da ventilação natural por todo o ano. Assim como ocorre no hospital do Rio de Janeiro.
Os Hospitais Sarah se tornaram exemplos bem-sucedidos também na coordenação modular, isto é, o uso de determinada ordem e racionalização de confecção de qualquer componente de projeto, em todas as suas etapas, que facilita e acelera a produção, por suas dimensões fixadas por meio de multiplicação ou fração de uma mesma unidade
Apesar de ser usualmente utilizada a unidade 1,20m como ideal para a modulação de Estabelecimentos Assistenciais de Saúde (EAS), o arquiteto Lelé utilizou o módulo 1,25m, justificado por meio dos outros componentes de projeto, como cerâmicas e revestimentos, que usualmente são cotados em 50cm. Dessa forma, a unidade de 1,25m quando multiplicada, encaixar-se-ia nas dimensões já existentes de revestimentos.
A modulação para o projeto em planta é tomada como fundamental e será aplicada para o projeto proposto em Grande Florianópolis. Entretanto, a modulação, unida a pré-fabricação, nos hospitais da Rede Sarah, não seriam possíveis sem a prévia construção do Centro de Tecnologia da Rede SARAH (CTRS), localizado no mesmo terreno da unidade de Salvador. Este centro de trabalho com metalúrgica, marcenaria, argamassa armada, plásticos e fibra de vidro foi o responsável pela criação dos módulos e estruturas padronizadas de fábrica.
De outra forma, assim como ocorre na construção civil brasileira que possui baixa industrialização, a modulação de níveis mais complexos planejada para a Rede SARAH não se é economicamente viável, podendo ser um fator de deseconomia. Usualmente é necessário inúmeras adaptações construtivas, por causa de dimensões diversas de revestimentos e componentes estruturais (Carvalho e Tavares, 2014).
Assim como as características descritas anteriormente contribuem para tornar o Hospital SARAH de Salvador um modelo, sua alta flexibilidade de uso, que visa a adaptação para as futuras técnicas de atendimento e tratamento, destaca-se no meio da arquitetura hospitalar. Industrializado e pré-moldado, os custos de adaptações são reduzidos, bem como a criação de um layout livre e paredes moveis onde ocorre a reabilitação nas enfermarias.
Por mais contraditório que seja caracterizar uma arquitetura hospitalar como humanizada, tendo em vista que por natureza todos os edifícios de saúde deveriam ser voltados para o bem-estar do usuário, infelizmente não é algo comum em hospitais públicos brasileiros, os quais costumam ser frios, monolíticos e isolados do meio exterior. O mesmo não pode ser dito dos hospitais da Rede SARAH, onde a experiência do usuário é uma premissa fundamental.
As iluminação e ventilação naturais, os espaços verdes internos e externos, espelhos d’água, as cores vibrantes, divisórias externas em vidro e artes plásticas em painéis contribuem para melhorar a recuperação dos pacientes. Há a integração do hospital com o bosque de cajueiros e mangueias próximo, bem como seus ambientes internos com jardins. Já as enfermarias se estendem para o terraço do prédio, onde os pacientes tomam sol e fazem sessões de fisioterapia, voltados para os jardins. No interior do hospital, o piso verde e divisórias coloridas se fundem com os pátios internos.
Em entrevista para o canal SBT Brasília em 2017, Lucia Braga, a coordenadora da Rede SARAH, reafirma o diferencial do tratamento oferecido pela rede, em que a natureza, música e o ambiente são potencializadores da evolução dos pacientes, pelo movimento muito mais natural e espontâneo que crianças e adultos fazem ao estar na grama.
Para a proposta projetual vigente, com exceção do pleno uso de ventilação natural, que se limitará as estações climáticas mais amenas, as características “humanizadas”, como uso de cores, jardins e água une-se aos pilares de criação do projeto.
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ESTUDOS DE CASO
3.2. The Christ Hospital Joint and Spine
Center / SOM
Em 1888, no estado de Ohio, Estados Unidos, foi fundado o The Christ Hospital (Hospital de Cristo), que tinha o objetivo de promover um ambiente religioso, educacional e filantrópico para o tratamento da população. Mas com a necessidade de expansão, em 2015 foi construído um novo complexo, com propósito de se um centro para a reabilitação e tratamento de pessoas com problemas em articulações e na coluna, que recebeu o nome The Christ Hospital Joint and Spine Cente.
O novo edifício possibilita a contemplação de inúmeros outros serviços e pacientes, com 89 quartos para pacientes, dimensionados e planejados de acordo com o paciente alvo; iluminação natural em abundância; espaços semipúblicos flexíveis; ambientes dedicados ao conforto e encontro de familiares e amigos; ambientes ao ar livre e telhado verde para a reabilitação e humanização dos espaços; 12 salas de operação cirúrgica; salas de treinamento profissional e conferências; além de uma descentralização dos serviços de enfermaria, que são localizadas próximas aos quartos afim de reduzir a concentração de atividade e ruído.
The Christ Hospital Joint Pavimento térreo e
Planta baixa pavimento tipo dos quartos dos pacientes.
Destaque para circulação horizontal central, com distribuição de células de serviço de enfermagem; localização periférica dos quartos dos pacientes, por visibilidade externa e iluminação natural; e circulação
vertical concentrada a leste, de frente para um saguão de recepção e permanência do andar.
Enquanto isso, no interior no edifício, como pode ser observado da planta baixa do pavimento tipo de quartos e recuperação (os pavimentos superiores), os quartos dos pacientes são localização da face periférica no edifício (marcados em verde), de forma a se aproveitar ao máximo o uso de iluminação natural e permitir a observação da vida urbana. Enquanto isso, assinalado em tom de marrom são distribuídas as salas de serviços de enfermagem de maneira descentralizada.
Essa escolha de projeto possibilita maior assistência aos pacientes, mesmo porque a escolha de fechamento das salas se dá por vidro, além da redução de eventuais ruídos, geralmente provocados pela centralização de funcionários em um mesmo espaço.
No mesmo pavimento é possível observar a localização da circulação vertical mais a leste da edificação. O ambiente de recepção ao andar de quartos é mais amplo, onde é localizado serviço de recepção e áreas de permanência de pessoas, sejam visitantes, funcionários ou pacientes.
Pavimento de cobertura e jardim.
Paviementos inferiores, de
serviços, consultas e exames. Salas de serviços de enfermagem descentralizadas e translúcidas.
Em relação aos quartos dos pacientes, pessoas com impedimentos de locomoção e ou deficiências físicas, foram planejados para mais se assemelharem a quartos de residências ou hotéis, com banheiro privativo (na lado oposta a cama), área para visitantes e circulação adequada, além de disponibilizar controle da iluminação natural através de cortinas automatizadas.
Este projeto arquitetônico contempla algumas características muito interessantes como partido arquitetônico, tanto em seu interior quanto exterior. Em sua face exterior, o edifício é composto por tijolos vermelhos e calcário, que juntos referenciam a arquitetura vernacular do contexto de seu entorno. As conexões entre o interno e o externo também são muito exploradas pelo abundante uso de iluminação natural e transparência de fechamentos, mesmo entre pavimentos, além de atividades serem realizadas também no pavimento de cobertura, no telhado jardim, onde são localizadas salas de aula e auditório para estudantes e funcionários em treinamento.
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3.3. Maggie's Mancheste: Centro de
Tratamento de Câncer / Foster + Partners
Os projetos anteriores se destacaram pelo programa de necessidades se assemelhar com o do projeto a ser desenvolvido. Ambos são ótimos exemplos de centros de reabilitação física, com centros cirúrgicos e maior complexidade, cujos partidos horizontal e vertical possuem características marcantes em distribuição de espaços, circulação e serviços, ou são marcados por escolhas de projeto que visam a sustentabilidade energética e conforto em cada traço.
Porém, Maggie's Manchester é um Centro de Tratamento de Câncer, cujo programa além de se assemelhar muito à proposta de projeto, apresenta arquitetura e decisões projetuais claramente mais visíveis, que se deseja contemplar neste trabalho.
Localizada no Reino Unido, próximo ao Hospital Christie e sua unidade oncológica, ao final de uma rua muito arborizada, Maggie's Manchester alcança o objetivo da edificação em criar uma “casa longe de casa”, nada semelhante a uma ideia de hospital, mas sim a um refúgio emocional e prático para pessoas que estejam enfrentando quaisquer tipos de câncer. Através das imagens, torna-se clara a atmosfera doméstica proporcionada pela arquitetura terapêutica, cercada por jardins e hortas.
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ESTUDOS DE CASO
O edifício é horizontal, organizado em só nível, cujas atividades são distribuídas paralelas a um único e longo corredor central, em um terreno ensolarado de um bairro de caráter residencial.
Este corredor central e todas as ambiências formadas são contempladas por uma extensa estrutura treliçada em madeira, que ao mesmo tempo que distribui os pilares e divide os ambientes, sustenta a cobertura que abraça os espaços e usuários.
Com diferentes nichos, íntimos e privados, o espaço oferece biblioteca, salas de ginástica, cozinha, ambientes de reuniões e refeições. A cozinha, por sinal, é o coração do edifício, semelhante ao coração e fonte de calor de uma casa.
Essa atmosfera doméstica, por sinal, deve-se ao fato da total exclusão de simbologias e sinalizações comuns a hospitais, possível graças a exclusão de serviços mais complexos como exames e cirurgias. Mesmo os funcionários parecem atuar de forma discreta com roupas que fogem do padrão hospitalar.
A iluminação natural é fortemente presente ao longo da edificação. Além das telhas sobre a cobertura, há iluminação zenital principalmente sobre o corredor central, que se mantem em sua totalidade. Nos mezaninos, inclusive é possível abrir algumas janelas. Além disso, a lateral do edifício é praticamente totalmente em vidro. O lado leste ainda proporciona uma varanda protegida de chuva, criando forte relação com o lado externo e seus grandes jardins, uma característica semelhante aos projetos apresentados anteriormente.
Os jardins externos, além de serem projetados com o propósito de tratamento terapêutico, possibilitam um ambiente intimista aos pacientes, também com o objetivo de criar uma relação de afeto e dedicação para com as flores e plantas do local, por meio de hortas terapêuticas (um conceito também muito utilizado quando tratamos de reabilitação emocional).
Todas as imagens foram retiradas do ArchdailyBrasil.
Além da bela arquitetura e o extraordinário uso de treliças de madeira e telhado, o que imensamente chamou atenção em Maggie's Manchester foi sua nenhuma semelhança a um edifício hospitalar. O objetivo do escritório responsável, Foster + Partners, foi criar um retiro que oferecesse informação, apoio e refúgio, com atividades que possibilitassem reabilitação emocional e socialização entre os usuários, por meio de uma arquitetura acolhedora. Cheio de luz, áreas verdes e pontos de vista, no local é possível executar atividades manuais e desfrutar da natureza ao ar livre.
Pelas semelhanças de terreno e programa, com menos complexidade hospitalar, Maggie's Manchester, Centro de Tratamento de Câncer, com todas duas características formidáveis em estabelecer um refúgio, torna-se impossível de se ignorar como estudo de caso neste projeto.
4.1. A Cidade
A escolha do local para o projeto de centro de reabilitação motora ocorreu através de uma série de pré-requisitos estabelecidos ao longo do desenvolvimento da pesquisa teórica, que tiveram como parâmetro o melhor atendimento aos usuários, de forma a priorizar a independência e liberdade individual dos indivíduos.
Dentre as cidades da região metropolitana que melhor contemplaram as características desejadas, a cidade escolhida foi Florianópolis. Além de existir maior familiaridade e ser frequente objeto de estudo ao longo do curso de Arquitetura e Urbanismo, a cidade apresenta pontos determinantes como:
É a cidade mais populosa da região metropolitana, entretanto não é suficientemente servida de serviços de reabilitação motora, assim o projeto poderia contemplar um grande público;
É também a cidade mais servida por transporte público, detentora do terminal de ônibus mais importante da região: o TICEN. Este é conectado com todos os ônibus provenientes do continente e de outros terminais na ilha, o que torna a cidade a mais acessível via transporte público.
Florianópolis também é um polo hospitalar notório, não apenas público como privado. A cidade possui muitos hospitais com cirurgias especializadas, tais quais nas áreas de ortopedia, neurologia, plásticas reparadoras e lesões medulares, que resultam em quadros pós-cirúrgicos que são contemplados pelo programa do projeto.
Na cidade é localizado o campus principal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), além de outras faculdades, onde há cursos como Enfermagem, Fisioterapia, Educação Física e Psicologia, com os quais se deseja criar vínculo de capacitação/estágio/bolsa para estudantes, uma vez que o programa contemplará salas de aulas e treinamento na área.
4.2. O Bairro
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ÁREA DE INTERVENÇÃO
A escolha do bairro e posterior terreno foi mais desafiador. Porém foram estabelecidas características determinantes, como:
Ampla acessibilidade, tanto a respeito de características, como calçadas com piso podotátil, largas e planas para a livre circulação de usuários de cadeiras de rodas, muletas, andadores e quaisquer dificuldades de locomoção, quanto ser amplamente acessível via transporte público, com linhas frequentes com destinos e origens distintas, de forma a ser possível alcançar o local a partir de vários terminais de ônibus.
O bairro precisa ser autossuficiente, com presença de comércio, restaurantes, farmácias, entre outros. O propósito é oferecer aos pacientes de reabilitação, seus acompanhantes e profissionais encarregados uma série de serviços comuns a rotina e, além disso, uma maior visibilidade dessas pessoas para o restante da população.
Tratando-se de um ambiente de saúde e reabilitação tanto física quanto psicológica, apesar de ser rico em disponibilidade de serviços, a área de locação deve priorizar a privacidade e descanso dos usuários, de forma a evitar grande circulação de veículos e pessoas, como ocorre em avenidas.
Se possível, o local deve ser próximo a áreas verdes naturais, de forma a criar relação com a paisagem natural.
Ao longo da busca por um bairro e terreno, foram várias as opções iniciais para o projeto, como no bairro Lagoa da Conceição, Trindade, Coqueiros, Estreito, Canas Vieiras e Centro. Porém o que melhor se adequou aos pré-requisitos sem excluir qualquer um foi o bairro Santa Mônica.
Vista aérea do bairro Santa Mônica (esquerda) e Plano Diretor (direita). Imagens disponibilizadas pela Prefeitura de Florianópolis.
Destaque à paisagem natural do entorno, formada pelo Manguezal Itacurubi ao norte; ao Shopping Iguatemi e ao Angelôni Supermercados como referências urbanas; e à Avenida Madre Benvenuta, que tem caráter principalmente comercial e misto, determinando a dinâmica do bairro de ocupação majoritariamente de dois pavimentos.
IGUATEMI
ANGELÔNI MANGUEZAL
ITACORUBI
AVN. MADRE BENVENUT A
TERRENO VAZIO
N N
4.3. O Terreno
TERRENO
ESCOLHIDO
Área total aproximada: 3.500 m²
N
O terreno escolhido está atualmente não ocupado por nenhuma edificação construída, e apesar de ser definido como Área Verde de Lazer, não possui equipamentos urbanos, tais quais áreas verdes próximas que possuem parquinho infantil, quadras de esportes diversos e academias ao ar livre.
O local é próximo ao Manguezal do Itacurubi, o que contribui para a paisagem natural, e está a uma quadra de distância da Avenida Madre Benvenuta, altamente servida por diferentes linhas de ônibus e serviços distintos, como a clínica SOS Ortopedia, notória pelo atendimento e execução de exames. A distância de apenas 100 m da avenida é o suficiente para promover maior privacidade e silêncio às atividades do projeto, ao mesmo tempo que se mantem com fácil a distância caminhável.
5. PROJETO
ARQUITETÔNICO
Anterior a construção do partido arquitetônico, o conceito de INTEGRAÇÃO determinou uma série de decisões. A transparência entre áreas internas e externas e a permeabilidade entre jardins e atividades de reabilitação são inúmeras vezes utilizadas em edifícios de saúde para trazer aos pacientes a proximidade com a paisagem verde, cujo contato é extremamente benéfico para a recuperação do corpo e da mente. Mas este não é o único benefício. Essa integração pode promover outras vantagens, como a iluminação e ventilação natural, áreas espaçosas e acolhedoras. Entretanto, ao pensar neste conceito, o foco primário foi a integração entre atividades e a visibilidade entre pacientes, para que possam compartilhar suas fraquezas, forças e crescimento. Integrar é unir e poder observar a si mesmo no outro, para poder inspirar e ser inspirado. Por exemplo, possibilitar que um rapaz que perdeu um membro e está em fisioterapia veja a si mesmo em outro paciente, uma mulher em situação igual, mas em estágio muito mais avançado de recuperação e
independência.
5.2. PROGRAMA DE NECESSIDADES
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O PROJETO
O edifício foi projetado para um uso misto de atendimento particular e atendimento por SUS, de forma a receber uma diversidade social. Seu programa de necessidades é composto por uma série de recomendações de atividades e áreas mínimas para a execução plena dos exercícios de tratamento e diagnóstico. Estes são determinados pelo Sistema de Apoio à Elaboração de Projetos de Investimentos em Saúde Volume 2 (SomaSUS), que foi determinante para a maior compreensão das características de um centro de reabilitação física.
Dentre as recomendações do guia estão ambientes para terapias individuais e em grupo, tanto em ambiente seco quanto com a presença de água, salas que possuem aparelhos auxiliares, área de terapia lúdica e de atendimento social. Todas estas serão melhor apresentadas a diante com detalhes.
Algumas necessidades foram incluídas fruto de conclusões diante de pesquisa: uma circulação realmente espaçosa, para o livre fluxo de cadeiras de roda em direções opostas; a integração entre áreas internas e externas, para promover a visibilidade entre os pacientes, os jardins e a continuidade de exercícios de fisioterapia em circuitos; a distribuição lógica de atividades e a visibilidade entre elas, para facilitar a legibilidade do edifício e a auto localização; criação de ambientes acolhedores e aconchegantes para pacientes e
Box de Terapias Individuais Sala para cinesioterapia e mecanoterapia
Crioterapia Individual Eletroterapia Individual Hidroterapia em grupos Ludoterapia em grupos