TÍTULO: CIRURGIAS BARIÁTRICAS E MICROBIOTA INTESTINAL TÍTULO:
CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:
ÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE ÁREA:
SUBÁREA: Medicina SUBÁREA:
INSTITUIÇÃO(ÕES): FACULDADE DAS AMÉRICAS - FAM INSTITUIÇÃO(ÕES):
AUTOR(ES): MONIQUE VASCONCELLOS MASCARENHAS AUTOR(ES):
ORIENTADOR(ES): PRISCILA LARCHER LONGO ORIENTADOR(ES):
COLABORADOR(ES): CAMILIA DE MELO ACCARDO, RÔMULO TADEU DIAS DE OLIVEIRA COLABORADOR(ES):
RESUMO
Introdução: A microbiota intestinal tem sido amplamente estudada, principalmente pela relação que estabelece com a homeostase do organismo. Nesse contexto, a disbiose está associada a distúrbios metabólicos como diabetes, dislipidemia e obesidade. A obesidade é um dos grandes problemas de saúde pública devido a suas comorbidades e as cirurgias bariátricas apresentam-se como alternativa terapêutica para essa condição. Métodos: Foi realizada revisão sistemática nas bases de dados Pubmed, Scielo e Lilacs em artigos originais utilizando os descritores: bariátrica/ cirurgia bariátrica, e, microbiota/ microbioma/ bacteria/ flora e seus sinônimos em inglês e espanhol. Resultados: De 1387 artigos, 5 foram utilizados para a revisão. Conclusão: As cirurgias bariátricas modificam a microbiota intestinal, principalmente na composição de Proteobacteria. São necessários novos estudos clínicos para se estabelecer o real papel dessa modificação de microbiota.
Palavras-Chave: cirurgia bariátrica, microbiota intestinal, Roux-en-Y, Bypass gástrico, Proteobacteria
INTRODUÇÃO
A Organização Mundial de Saúde aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. Estima-se que, em 2025, tenhamos 2,3 bilhões de adultos com sobrepeso e mais de 700 milhões de obesos (ABESO, 2009).
No Brasil, a obesidade vem crescendo de forma preocupante. Levantamentos apontam que mais de 50% da população está acima do peso, ou seja, na faixa de sobrepeso e obesidade. (ABESO, 2009). Com isso, há precocidade das disfunções metabólicas, aumento de pacientes diabéticos, hipertensos e dislipidêmicos (IBGE, 2008/2009). Nesse contexto, as cirurgias bariátricas vêm ganhando espaço como forma de tratamento.
A história da cirurgia bariátrica no Brasil começa na década de 1970 com os trabalhos iniciais do cirurgião da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) Salomão Chaib utilizando técnicas de derivações jejuno-ileais do tipo Payne
(SBCBM, 2017).
O país é o segundo do mundo em número de cirurgias realizadas, e as mulheres representam 76% desses pacientes. (SBCBM, 2017). As cirurgias aprovadas no Brasil são o bypass gástrico (gastroplastia com desvio intestinal em “Y de Roux”), a de banda gástrica ajustável, a gastrectomia vertical e a de Duodenal Switch (Desvio Bilio Pancreático com derivação duodenal). Também temos a terapia auxiliar de balão intragástrico, que apesar de não ser considerada cirúrgica, afeta o metabolismo e a obesidade (SBCBM, 2017).
A secreção/regulação de hormônios liberados pelas células intestinais está muito relacionada à comunidade bacteriana intestinal, pois as mesmas estabelecem comunicação com o sistema nervoso central por diferentes vias levando à alterações hormonais, metabólicas e imunológicas (Heijtz, Cryan e Collins, 2011). Estudos de microbiota intestinal humana mostram que os filos Firmicutes, Bacteroidetes e Actinobacteria são os mais abundantes e que há relação caraterística em algumas condições como obesidade com aumento de Firmicutes e diminuição de Bacteroidetes (Ley et al., 2006; Ferrer et al., 2013).
Assim, esse estudo tem como objetivo revisar bibliograficamente estudos clínicos acerca da mudança de microbiota intestinal após cirurgia bariátrica.
MÉTODOS
Revisão da literatura especializada entre agosto de 2017 e maio de 2018. A busca por artigos foi realizada nas bases eletrônicas de dados Scielo-Brasil (Scientific Electronic Library Online), MedLine/Pubmed (US National Library of Medicin) e Lilacs utilizando terminologia comum em português, inglês e espanhol. Os termos utilizados na busca foram “bariátrica ou cirurgia bariátrica” e "microbiota ou microbioma ou bactéria ou flora".
RESULTADOS
Utilizando os termos descritos anteriormente foram encontrados 1387 artigos, sendo 416 disponíveis no PubMed, 787 no Lilacs e 184 no Scielo. Após a exclusão de artigos publicados a mais de 5 anos restaram 415. Desses, foram excluídos estudos em modelos animais e restaram 243 artigos. As revisões (n=135) foram excluídas e artigos que não estivessem escritos em português,
inglês ou espanhol (n=27). Dos 81 artigos restantes, 76 foram excluídos após leitura do resumo ao se constatar que não apresentavam resultados de análise de mudança de microbiota intestinal após cirurgia bariátrica. Os resultados estão resumidos na Tabela 01
Tabela 01: Tipo de estudo, número de participantes, parâmetros e resultados dos estudos incluídos nesse estudo. Sendo: RYG: Roux-en-Y Gastric Bypass; VBG: gastroplastia vertical; TMAO: óxido-trimetilamina; AGCC: ácidos graxos de cadeia curta AGCC; AGCR: ácidos graxos de cadeia ramificada; LPS: lipopolissacarídeo; PL-LPS: proteína ligadora de LPS; DM II: Diabetes Mellitus tipo II.
Tipo de estudo
Participantes Parâmetros Resultados Referências
Ensaio clínico longitudinal Pacientes obesos (n=465) submetidos a diferentes procedimentos bariátricos Comparação entre metabólitos séricos associados a ação da microbiota antes das cirurgias e após 1 ano.
Independentemente da técnica cirúrgica utilizada, após 1 ano, os níveis da maior parte dos metabólitos alterados associados a obesidade estavam em valores normais sugerindo uma profunda alteração na microbiota intestinal. Gralka et al., 2015. Estudo observacional Mulheres obesas (n=14) submetidas a RYG ou VBG e mulheres Comparação metagenômica de fezes após 9 anos de cirurgia metaboloma com Diferença de microbiota, principalmente com aumento de Proteobacteria, Tremaroli et al., 2015
obsesas (n=7) sem tratamento cirúrgico com IMC semelhante às submetidas a cirurgia antes dos procedimentos cirúrgicos. pares não submetidos a cirurgia. entre pacientes submetidas a RYG. Além do aumento de concentração de TMAO. Pacientes submetidas aos dois procedimento cirúrgicos também tiveram diminuição da relação AGCC/AGCR nas fezes indicando fermentação intestinal alterada com aumento da fermentação de aminoácidos.
Ensaio clínico Pacientes com obesidade mórbida submetidos a RYG (n=26) ou VGB (n=24) Atividade de microbiota intestinal foi mensurada por LPS e PL-LPS circulante antes e após os procedimentos cirúrgicos. Redução de LPS e PL-LPS apenas em pacientes diabéticos submetidos a VGB. Clemente-Postigo et al., 2015
Ensaio clínico Mulheres obesas diabéticas (n=7) e não diabéticas (n=23) Pirosequenciamento de amostras de fezes colhidas antes, 3 e 6 meses após o procedimento Aumento da diversidade bacteriana (principalmente em gêneros de Proteobacteria) Kong et al., 2013
submetidas a RYG.
cirúrgico. após o RYG além de mudança na expressão de genes associados ao tecido adiposo Ensaio clínico longitudinal Pacientes (n=6) com obesiade mórbida e DM II Sequenciamento metagenômico de fezes colhidas antes e após 3 meses da cirurgia. Houve diminuição de espécies de Firmicutes e Bacteroides com aumento de Proteobacteria além de modificações metabólicas benéficas em metabólitos associados a diabetes. Graessler et al. 2013 DISCUSSÃO
A relação entre a microbiota intestinal e o estado inflamatório observado em obesos pode ser parcialmente explicada pelo aumento da permeabilidade intestinal na obesidade, com aumento da translocação de LPS (Cani el al., 2007). O aumento nos níveis plasmáticos de LPS tem como consequência manutenção do estado inflamatório de baixo grau observado na obesidade, o que contribui para o desenvolvimento de resistência insulínica e diabetes.
Nesse cenário, as cirurgias bariátricas têm sido utilizadas para diferentes finalidades como diminuição de IMC, controle glicêmico e diminuição dos níveis de insulina em pacientes diabéticos (Clemente-Postigo et al., 2012). Essas intervenções cirúrgicas afetam os tecidos e órgãos envolvidos como o estômago (Leuratti et al., 2013) e o intestino (Gralka et al., 2015; Zhang et al., 2009) além da microbiota residente.
Kong et al. (2013), Tremaroli et al. (2015) e Graessler et al. (2013) evidenciaram aumento de bactérias gram negativas pertencentes ao Filo Proteobacteria após as intervenções cirúrgicas.
Graessler et al. (2013) mostraram que três meses após a cirurgia bariátrica aumentou a abundância relativa principalmente das bactérias E. cancerogenus, Veillonella parvula, V. dispar, Shigella boydii e Salmonella enterica com diminuição de Treponema pallidum, Mycobacterium kansasii, F. prausnitzii e C. comes.
Tremaroli et al. (2015) observaram também aumento de TMAO (óxido-trimetilalanina) que pode estar associado ao ambiente menos anaeróbio e a atuação de Pseudomonas sp. Além de observarem a mudança de composição de microbiota, transferiram fezes dos pacientes, após as intervenções cirúrgicas para camundongos germ-free, e observaram reduzida deposição de gordura nesses animais além de menor coeficiente respiratório indicando diminuição da utilização de carboidratos induzida pela alteração da microbiota
A baixa abundância relativa de espécies microbianas pode contribuir para a disfunção da comunidade de microbiomas intestinais. Portanto, uma combinação de cirurgias bariátricas e outros esforços pode ser essencial para manter a microbiota intestinal em uma condição saudável e promover os efeitos dos tratamentos (Li J et al., 2017). Porém, é importante pontuar que a diversidade da microbiota intestinal em diferentes indivíduos pode levar a diferentes respostas ao tratamento e, em última análise, a diferentes desfechos (Shade A., 2017).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As cirurgias bariátricas modificam a microbiota, aumentando a sua diversidade e modificando principalmente componentes gram negativos do Filo Proteobacterias, além disso, há mudança de metabólitos circulantes associados a microbiota que influenciam a condição de saúde dos pacientes, todos contribuindo para a saúde do indivíduo após a cirurgia. Ainda são necessários maior número de estudos clínicos para que se possa obter mais dados acerca do tema.
REFERÊNCIAS
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