Narciso Gomes
Departamento Ciˆencia & Tecnologia, Uni-CV, Campus de Palmarejo, Cabo Verde Janeiro 2011
1
Fun¸
c˜
oes Inversas
1.1
Revis˜
ao
Sejam A ⊆ R e B ⊆ R para as defini¸c˜oes sequintes.
Defini¸c˜ao 1.1 Uma fun¸c˜ao f : A → B diz-se injectiva se ∀x1, x2 ∈ A; x1 6= x2 ⇒ f (x1) 6= f (x2).
ou aplicando a regra de convers˜ao da implica¸c˜ao tem-se ∀x1, x2 ∈ A; f (x1) = f (x2) ⇒ x1 = x2.
Se f for injectiva ent˜ao existe uma fun¸c˜ao inversa de f , designada por f−1 : f (A) → A dada por
f−1(y) = x se f (x) = y.
Defini¸c˜ao 1.2 A fun¸c˜ao f : A → B diz-se sobrejectiva se ∀y ∈ B, ∃x ∈ A : y = f (x)
Nota 1.3 Uma fun¸c˜ao diz-se bijectiva se ´e injectiva e sobrejectiva.
Defini¸c˜ao 1.4 Uma fun¸c˜ao f : A → B diz-se estritamente crescente se ∀x1, x2 ∈ A : x1 < x2 ⇔ f (x1) < f (x2).
Defini¸c˜ao 1.5 Uma fun¸c˜ao f : A → B diz-se estritamente decrescente se ∀x1, x2 ∈ A : x1 < x2 ⇔ f (x1) > f (x2).
Defini¸c˜ao 1.6 Uma fun¸c˜ao f : A → B diz-se mon´otona se e s´o se for estritamente crescente ou for estritamente decrescente no seu dom´ınio.
Nota 1.7 As afirma¸c˜oes seguintes s˜ao equivalentes:
1. a fun¸c˜ao f (x) : A → B ´e mon´otona; 2. a fun¸c˜ao f (x) : A → B ´e bijectiva.
Defini¸c˜ao 1.8 Diz-se que uma fun¸c˜ao, denotada por x = f−1(y), ´e inversa da fun¸c˜ao y = f (x) e tem-se:
1. o dom´ınio de f−1 e o contradom´ınio de f s˜ao coincidentes, ou seja, Df−1 = D0f.
2. o dom´ınio de f e o contradom´ınio de f−1 s˜ao coincidentes, ou seja, Df = D0f−1.
3. x = f−1(y) ⇔ y = f (x).
Salienta-se que nem sempre ´e f´acil determinar analiticamente a inversa de uma fun¸c˜ao. Para os casos mais f´aceis, seria apenas resolver a equa¸c˜ao f (x) = y. O Teorema da Fun¸c˜ao Inversa garante, a injectividade local de fun¸c˜oes de classe C1 recorrendo apenas `
a an´alise da respectiva derivada. Ademais, fica tamb´em garantido que a fun¸c˜ao inversa ´
e de classe C1. De seguida, analisar-se-´a alguns casos mais simples.
1. Considere a equa¸c˜ao linear ax = y. Desde que a 6= 0, a solu¸c˜ao de tal equa¸c˜ao existe e ´a dada por x = y/a. Assim, a fun¸c˜ao f : R → R dada por f (x) = ax ´e injectiva desde que a 6= 0 e a respectiva inversa f−1 : R → R ´e dada por f−1(y) = y/a.
2. Seja f : R → R dada por f (x) = x2. Trata-se de uma fun¸c˜ao n˜ao injectiva, por
ser par: f (−x) = f (x). No entanto, a restri¸c˜ao de f ao conjunto em que x > 0 ´e invert´ıvel e temos f−1(y) = √y. Note-se que a derivada f0(x) = 2x anula-se apenas em x = 0 e que a fun¸c˜ao f n˜ao ´e invert´ıvel em torno da origem.
3. Seja a fun¸c˜ao f : R → R dada por f (x) = x3. Facilmente se verifica que f ´e
injectiva em R e que a derivada f0(x) = 3x2 anula-se apenas em x = 0. 4. O dom´ınio fun¸c˜ao f (x) = x2 − 4x ´e R, isto ´e, D
f = R. Verifique que y =
x2− 4x = x2− 4x + 4 − 4 = (x − 2)2− 4 conclu´ımos que o contradom´ınio de f ,
Df0 = [−4, +∞[. Na base das propriedades da fun¸c˜ao quadr´atica conclui-se que a fun¸c˜ao ´e decrescente no intervalo ] − ∞, 2] e ´e crescente no intervalo ]2, +∞]. Portanto a fun¸c˜ao y = x2− 4x n˜ao ´e invert´ıvel em R. Partindo o dom´ınio dela
em dois intervalos ] − ∞, 2] e [2, +∞[ e considerando as restri¸c˜oes da fun¸c˜ao: (a) y = f1(x) = x2− 4x, Df1 =] − ∞, 2] e D 0 f1 = [−4, +∞[. (b) y = f2(x) = x2− 4x, Df2 = [2, +∞[ e D 0 f2 = [−4, +∞[.
5. A fun¸c˜ao y = f (x) = x + ex tem dom´ınio e contradom´ınio R, ´e crescente e ´e
invert´ıvel . A fun¸c˜ao tem inversa, mas porque ´e imposs´ıvel resolver analiticamente em rela¸c˜ao `a vari´avel x a equa¸c˜ao y = x + ex. N˜ao se sabe qual ´e a express˜ao anal´ıtica. Mas pode ser representada graficamente.
6. Seja f : Rn→ Rn uma aplica¸c˜ao linear, ou seja, existe uma matriz A
n×n tal que
f (x) = Ax. Esta fun¸c˜ao ´e injectiva desde que det A 6= 0 e a respectiva inversa ´e dada por f−1(y) = A−1y em que A−1 representa a matriz inversa de A. Note-se que uma aplica¸c˜ao linear ´e uma fun¸c˜ao de classe C1 e a respectiva derivada ´e
representada pela matriz A, ou seja,
Df (x) = A.
7. Seja f : R2 → R2 a fun¸c˜ao dada por
f (x, y) = (2xy, x2+ y2).
A fun¸c˜ao n˜ao ´e injectiva em R2. Repare que f(1,1)=f(-1,-1)=(2,2). Entretanto,
podemos determinar um subconjunto de R2 em que f g ´e invert´ıvel. Para isso consideremos a equa¸c˜ao f (x, y) = (u, v) , ou seja
u = 2xy v = x2+ y2
de onde obtemos
x + y = √v + u x − y = √v − u
desde que se tenha x + y ≥ 0 e x − y ≥ 0. Portanto, a restri¸c˜ao de f ao conjunto
X = {(x, y) ∈ R2 : x + y ≥ 0; x − y ≥ 0}
´e invert´ıvel e a respectiva inversa, definida no conjunto
W = {(u, v) ∈ R2 : v + u ≥ 0; v − u ≥ 0} ´e dada por f−1(u, v) = (x, y) = 1 2( √ v + u +√v − u,1 2( √ v + u −√v − u .
1.2
Derivada da Fun¸
c˜
ao Inversa
O teorema seguinte permite calcular a derivada da fun¸c˜ao inversa x = f−1(y) num ponto gen´erico x = f (x), com x ∈ D, sem conhecer a express˜ao anal´ıtica da mesma.
Teorema 1.9 Seja:
(b) a fun¸c˜ao real de vari´avel real y = f (x) ´e de classe C1 e seja x
0 um ponto tal que
f0(x0) 6= 0 numa vizinhan¸ca Vx0 em que f ´e injectiva. Ent˜ao a fun¸c˜ao inversa
x = f−1(y) ´e de classe C1 e x ∈ Vx0:
(f−1)0(y) = 1 f0(x).
Demonstra¸c˜ao: A demonstra¸c˜ao de (b) ´e trivial.
1.3
Teorema da Fun¸
c˜
ao Inversa
Teorema 1.10 Seja F : T → Rn uma fun¸c˜ao de classe C1 , definida num aberto T ⊂ Rn tal que
det DF (x0) 6= 0
em algum ponto x0 ∈ T . Ent˜ao,
(a) Existem dois abertos U e V , com x0 ∈ U e y0 = F (x0) ∈ V , e tais que F ´e
injectiva em U e F (U ) = V .
(b) A fun¸c˜ao inversa F−1 : V → U ´e de classe C1.
Nota 1.11 Sendo a inversa de classe C1, derivando a equa¸c˜ao F−1(F (x)) = x; x ∈ U,
obt´em-se, para y = F (x),
DF−1(y) = [DF (x)]−1
Portanto, nas condi¸c˜oes do teorema da fun¸c˜ao inversa, a derivada da fun¸c˜ao inversa F−1 pode ser obtida, localmente, conhecendo apenas a fun¸c˜ao F .
1.4
Exemplos
Exemplo 1.12 Seja a fun¸c˜ao definida por
F (x, y) = (x2− y2, xy). (a) Verifique se F ´e injectiva no seu dom´ınio.
(b) Determine um conjunto de pontos em que F ´e localmente invert´ıvel. (c) Determine a derivada DF−1(0, 1), sabendo que F (1, 1) = (0, 1).
Resolu¸c˜ao:
(a) Considere os pontos de R2 da forma (x, x) com x 6= 0. Ent˜ao, F (x, x) = (0, x2) e,
portanto, F (−x, −x) = F (x, x) donde se conclui que a fun¸c˜ao f n˜ao ´e injectiva em R2. (b) A fun¸c˜ao f ´e de classe C1no seu dom´ınio. Pelo Teorema da Fun¸c˜ao Inversa, a fun¸c˜ao
F ser´a localmente invert´ıvel nos pontos (x, y) que verificam a condi¸c˜ao det DF (x, y) 6= 0.
Portanto,
DF (x, y) = 2x −2y y x
e det DF (x, y) = 2(x2+y2), a fun¸c˜ao F tem inversa local em cada ponto de R2\{(0, 0)}.
(c) Note-se que
det DF (1, 1) = det 2 −2 1 1
= 4.
e, portanto, existem vizinhan¸cas U de (1, 1) e V de F (1, 1) = (0, 1) tais que F : U → V ´ e invert´ıvel, F−1 : V → U ´e de classe C1 e DF (0, 1) = [DF (1, 1)]−1 = 1 4 1 1 −1 2 = 1 4 1 2 −1 4 1 2 .
Exemplo 1.13 Seja a fun¸c˜ao vectorial F : R3 → R3 definida por
F (x, y, z) = (x + xyz, y + xy, z + 2x + 3z2). Verifique se F ´e invert´ıvel numa vizinhan¸ca do ponto (0, 0, 0).
Resolu¸c˜ao: De facto, F ´e de classe C1 e
det DF (0, 0, 0) = det 1 0 0 0 1 0 2 0 1 = 1.
A derivada da fun¸c˜ao inversa no ponto F (0, 0, 0) = (0, 0, 0) ´e dada por
DF−1(0, 0, 0) = [DF (0, 0, 0)]−1 ⇒ det DF−1(0, 0, 0) = det 1 0 0 0 1 0 −2 0 1 = 1.
Exercicios Propostos 1.14 Consideremos o sistema de equa¸c˜oes x4+y4
x = u
sin x + cos x = v.
Recorra ao Teorema da Fun¸c˜ao Inversa para determinar os pontos (x, y) para o qual o sistema seja invert´ıvel.
Exercicios Propostos 1.15 Considere a fun¸c˜ao definida por
f (x, y) = lnx y, y − arctan x + π 4 .
(a) Determine um conjunto de pontos (x, y) em que f ´e localmente invert´ıvel.
(b) Seja f−1 a inversa local de f em torno do ponto (1, 1). Fazendo (x, y) = f−1(u, v), calcule ∂x∂u(0, 1).