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Terceiro setor e educação : o Programa Bom Aluno

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO

FABIANE MARIA SAID

TERCEIRO SETOR E EDUCAÇÃO: O PROGRAMA

BOM ALUNO

CAMPINAS

2017

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FABIANE MARIA SAID

TERCEIRO SETOR E EDUCAÇÃO: O PROGRAMA

BOM ALUNO

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestra em Educação, na área de concentração de Ciências Sociais na Educação.

Orientador: Nora Rut Krawczyk

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELA ALUNA FABIANE MARIA SAID, E ORIENTADA PELA PROF.(A) DR.(A) NORA RUT KRAWCZYK

CAMPINAS 2017

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Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas Biblioteca da Faculdade de Educação

Rosemary Passos - CRB 8/5751

Said, Fabiane Maria,

Sa21t SaiTerceiro setor e educação : O Programa Bom Aluno / Fabiane Maria Said. – Campinas, SP : [s.n.], 2017.

SaiOrientador: Nora Rut Krawczyk.

SaiDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação.

Sai1. Política e educação. 2. Programas sociais. 3. Empresários. 4. Mobilidade social. I. Krawczyk, Nora Rut,1958-. II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Third sector and education : The Good Student Program Palavras-chave em inglês:

Politics and education Social program Entrepreneurs Social mobility

Área de concentração: Ciências Sociais na Educação Titulação: Mestra em Educação

Banca examinadora:

Nora Rut Krawczyk [Orientador] Dirce Djanira Pacheco e Zan Fátima Aparecida Cabral Data de defesa: 22-06-2017

Programa de Pós-Graduação: Educação

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

TERCEIRO SETOR E EDUCAÇÃO: O PROGRAMA

BOM ALUNO

Autora: Fabiane Maria Said

COMISSÃO JULGADORA: Orientadora: Profa. Dra. Nora Rut Krawczyk Membro 1: Profa. Dra. Dirce Djanira Pacheco e Zan Membro 2: Profa. Dra. Fátima Aparecida Cabral

A Ata da Defesa assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.

CAMPINAS 2017

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Aos meus familiares e amigos pelo carinho, apoio e companheirismo.

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AGRADECIMENTOS

A conclusão do curso de Mestrado é um desafio que demanda esforço, determinação e perseverança.

Nessa trajetória, marcada pela superação de limites, foi fundamental a presença de um grupo de pessoas em cujo apoio encontrei forças para suplantar todos os obstáculos. Lamentavelmente não será possível nomear todos. Assim sendo, sob risco de omitir nomes e minimizar as contribuições recebidas, gostaria de externar minha gratidão a algumas dessas pessoas.

Em primeiro lugar, quero agradecer a minha orientadora Profª Nora Krawczyk por sua paciência, disposição e colaboração no desenvolvimento deste projeto de pesquisa.

Ao professor Maurício Érnica pelas contribuições na banca de qualificação, a Dirce Zan pelas contribuições na banca de qualificação e defesa e a professora Fátima Cabral pelas valiosas contribuições na banca de defesa.

Aos professores do Departamento de Educação da FE-UNICAMP, por todos os ensinamentos ministrados ao longo das disciplinas cursadas.

Ao Programa Bom Aluno pela disposição e a possibilidade de coleta de dados e a troca de experiências.

A contribuição de meus amigos desde os tempos da graduação, Valéria, Renato, Ludmilla, Betânia, Araré e Mariana e aos meus “novos” amigos Claudia Costa, Rodrigo, Cristiane, Guilherme e Edu, aos quais, ao longo dos anos tornaram-se especialmente importantes em minha vida, devo um agradecimento em especial, já que através de nossos diálogos, proporcionaram não só o meu crescimento intelectual, mas foram fundamentais para me ensinar sobre a vida.

O amor e carinho de meus pais seu Said e dona Nadir ( in memoriam), meus amados irmãos Patrícia, Ádila e Fuad e aos meus adoráveis sobrinhos.

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“Hegelianamente, diríamos: a verdade do opressor reside na consciência do oprimido”

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RESUMO

Esta pesquisa tem como objetivo compreender, explicar e descrever o interesse de setores empresariais na área da educação. Adotou-se uma abordagem empírica-analítica com a condução de um Estudo de Caso do Programa Bom Aluno, instituição sem fins lucrativos e de direito privado. Buscou-se entender a dinâmica do Programa: a retirada de alunos com bom desempenho escolar das escolas públicas e a viabilização da migração desses às escolas privadas de excelência acadêmica. Verificou-se no decorrer da pesquisa tanto os efeitos positivos na mudança da trajetória escolar familiar dos participantes do Programa, como uma descrença na possiblidade da resolução dos problemas da escola pública por via da administração pública direta. Por conseguinte, verificou-se que os idealizadores do Programa nutrem a crença de que a solução para os problemas atuais da educação brasileira possa estar na parceria público-privado, isto é, no chamado terceiro setor, vinculado tanto à responsabilidade social quanto ao voluntariado empresarial. Entende-se que esse formato de programa social idealizado pelos setores empresariais na área de educação se intensificou no movimento neoliberal no país e não estaria desvinculado de demandas mercadológicas, uma vez que seu ideário se respalda em noções de eficiência e meritocracia, inerentes à lógica da concorrência e da competição entre alunos e famílias, fato que limitaria a construção de justiça social dentro do sistema educacional brasileiro.

PALAVRAS-CHAVE: política e educação, programa social (empresários), trajetória escolar, mobilidade social.

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ABSTRACT

This research aims to understand, explain and describe the interest of business sectors in the area of education. An empirical-analytical approach was adopted with the conduction of a Good Student Case Study, a private non-profit institution. The aim was to understand the dynamics of the Program, the withdrawal of students with good academic performance from public schools and the viability of migration to private schools of academic excellence. In the course of the research, both the positive effects on the change in the family school trajectory of the Program participants and the disbelief in the possibility of solving the problems of the public school through direct public administration were verified during the course of the research. In this sense, the ideals of the Program nourish the belief that the solution to the current problems of Brazilian education may be in the partnership relationship between public and private, that is, the so-called third sector linked to social responsibility and corporate volunteering. It is understood on the one hand that this format of social program idealized by the business sectors in the area of education intensified in the neoliberal movement in the country and would not be dissociated from meeting the own logic of market supported in the efficiency and meritocracy, in turn, would not be dissociated from the logic of competition, competition between students and families, which would limit the construction of social justice within the Brazilian educational system. On the other hand, it can be observed to what extent social programs with this format can be transformed into educational public policies, having as justification to save the young talents.

KEYWORDS: politics and education, social program (entrepreneurs), school trajectory, social mobility

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LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES

ARIGAF- ASSOCIAÇÃO RICARDO GADOTTI FELDMANN IBAB- INSTITUTO BOM ALUNO DO BRASIL

CAPES- COORDENAÇÃO DE APERFEIÇOAMENTO DE PESSOAL DE NÍVEL SUPERIOR

CNPJ- CADASTRO NACIONAL DA PESSOA JURÍDICA

COMTIBA- CONSELHO MUNICIPAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA E ADOLESCENTE DE CURITIBA

CRM- CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA E.F. ENSINO FUNDAMENTAL

E.M. ENSINO MÉDIO

ENEM- EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO INSS- INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL ISMART- INSTITUTO

PBA- PROGRAMA BOM ALUNO

PDRAE-PLANO DIRETOR DA REFORMA DO APARELHO DO ESTADO PRONU- PROGRAMA DE UNIVERSIDADE PARA TODOS

NASA- ADMINISTRAÇÃO NACIONAL DA AERONÁUTICA E DO ESPAÇO UFPR-UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

UFMG- UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS UNESP- UNIVERSIDADE PAULISTANA DE SÃO PAULO UNICAMP- UNIVERSIDADE DE CAMPINAS

UNIFESP- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO OAB- ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL

ONG- ORGANIZAÇÃO NÃO GOVERNAMENTAL

OSCIP- ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL DE INTERESSE PÚBLICO OS- ORGANIZAÇÃO SOCIAL

SEDES- SECRETARIA DE ESTADO DA FAMÍLIA E DESENVOLVIMENTO SOCIAL

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STF- SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL TA- TECNOLOGIA ALTERNATIVA TC- TECNOLOGIA CONVENCIONAL TS-TECNOLOGIA SOCIAL

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LISTA DE QUADROS

QUADRO 1: ETAPAS DO PROCESSO SELETIVO

QUADRO 2: CLASSIFICAÇÃO FINAL DO PROCESSO SELETIVO 2014 QUADRO 3: MÉDIA DE CUSTO ANUAL DO PROGRAMA BOM ALUNO

LISTA DE GRÁFICOS

GRÁFICO 1: NÍVEIS DE ENSINO

GRÁFICO 2: ESCOLARIDADE DA MÃE GRÁFICO 3: ESCOLARIDADE DO PAI

LISTA DE TABELAS

TABELA 1: CUSTO MÉDIO POR ALUNO DO ENSINO MÉDIO DAS ESCOLAS PARTICULARES E PÚBLICAS, MAIS A RECEITA DO PROGRAMA

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SUMÁRIO

Introdução...15

Procedimentos metodológicos...20

Organização do texto...24

Parte I- Contexto histórico do surgimento do Programa Bom Aluno ...25

1.1. Neoliberalismo e a Reforma do Estado Brasileiro...25

1.2. O Programa Bom Aluno e o Instituto Bom Aluno do Brasil...30

1.3. Metodologia do Programa: o processo de seleção ...32

1.3.1.Descrição das cinco fases do Processo de Seleção 2014... 33

1.3.2. 1ª Fase do Processo de Seleção: Ficha de Inscrição, Divulgação do Processo de Seleção e Entrega das Fichas de Inscrição ...33

1.3.3. Dados da abertura Oficial do Processo de Seleção ...35

1.3.4. 2ªfase do Processo de Seleção: avaliação do conhecimento dos candidatos ...36

1.3.5. 3ªfase do Processo de Seleção: dinâmica em grupo ...37

1.3.6. 4ªfase do Processo de Seleção: entrevista com a família ...38

1.3.7. 5ªfase do Processo de Seleção: visita domiciliar...38

1.4. Metodologia do Programa: Ciclos de aprendizagem e eixos de desenvolvimento...40

1.4.1. Primeiro Ciclo: 8º ano do Ensino Fundamental...41

1.4.2. Seleção dos alunos às escolas particulares...43

1.4.3. Desligamento e desistência...44

1.4.4. Segundo Ciclo: 9º Ano do Ensino Fundamental ...45

1.4.5. Atividades Complementares no 9º ano...47

1.4.6. Segundo Ciclo: Ingresso ao Ensino Médio...48

1.4.7. Terceiro Ciclo: Ingresso ao Ensino Superior ...49

1.6. Captação de recursos do Programa Bom Aluno de Curitiba...50

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2.1. Histórico da Tecnologia Social do Instituto Bom Aluno do Brasil ...54

2.2. A disseminação da marca do IBAB como tecnologia social...57

2.3. Funcionamento do IBAB: relação franqueador e franqueado...60

2.4. A formação da nova elite acadêmica e ética: o papel do terceiro setor ...63

2.5. A tecnologia Social do IBAB: o capital humano...64

2.6. Tecnologia Social do IBAB: o resgaste dos excluídos...67

2.7. Tecnologia Social do IBAB: uma concepção meritocrática...69

Parte III- Mobilidade social: Programa como um divisor de águas...74

3.1- Trajetória escolar de sucesso dos filhos das camadas populares...74

3.2. Mobilidade social: apresentação dos dados...86

Parte IV- A migração escolar...95

4.1. A escola pública e o sonho de um ensino de excelência...95

5. Considerações Finais...107 Referências bibliográficas...112 Anexos...117 Anexo 1...118 Anexo 2...122 Anexo 3...123 Anexo 4...129

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Introdução

“Excelência e equidade são incompatíveis.”

Palhares1

A escolarização em massa tornou-se um princípio irrevogável a partir da década de 1980 com a redemocratização da política brasileira. Após longos anos de luta dos movimentos sociais e da sociedade civil, a democratização do ensino passa a fazer parte da agenda das políticas sociais públicas do Estado.

No entanto, essa massificação carrega consigo traços que não garantem plenamente a execução dos princípios democráticos de uma escola que atenda às necessidades educacionais de todos como: a garantia de acesso e permanência na escola e a excelência nos estudos pedagógicos.

Desta forma, tem sido recorrente na literatura especializada o conceito de qualidade e má qualidade na escolarização brasileira. Nesse ponto encontramos dois elementos aparentemente contraditórios: primeiro, a escola pública, no Brasil, perdeu sua excelência devido à massificação; segundo, como podemos ter excelência no ensino em um estado democrático sem que todos tenham acesso ao ensino.

Beisiegel (1983) não nega que a educação pública brasileira está impregnada de diversos problemas, perpetuando a dualidade de ensino. Com efeito, nega que a ampliação de vagas seja responsável pela má qualidade da educação pública no país.

Os recursos financeiros necessários à satisfação das necessidades escolares, a exemplo do que ocorre nas demais áreas na sociedade brasileira, não estarão à disposição. Isto porque a capitalização se faz em benefícios apenas de alguns, tanto interna como externamente. (RIBEIRO, 1993, p.14).

A questão vai muito além, o caso brasileiro não é o único, pois outros países em desenvolvimento no final da Guerra Fria assinaram tratados mundiais propostos pelos países representantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem entre seus objetivos buscar soluções para problemas sociais globais. Dentre eles, a reforma do ensino dos países em desenvolvimento foi marcada pelo financiamento de agências internacionais para a superação de suas barreiras.

1 5° Colóquio Luso-Brasileiro de Sociologia da Educação. Mérito, desigualdade e diferenças: cenários de (in)justiça escolar no Brasil e em Portugal. USP, São Paulo, abril de 2016.

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A massificação do ensino nesses países, incluindo o Brasil, não atendeu às expectativas, pois os resultados obtidos foram bem inferiores aos obtidos em décadas anteriores por países que então viviam a plenitude do Estado de bem-estar social.

No intervalo desses 15 anos (1985-2000), o Brasil é palco de mudanças em sua ordem econômica, política, social e cultural. As origens das transformações vividas no período nem sempre têm sido determinadas por circunstâncias intrínsecas ao País. Ao contrário, grande parte delas deve ser tributada a um movimento mais amplo de globalização. Embora esta seja uma discussão que ultrapassa os limites do presente estudo, não cabe ignorá-la, sobretudo em virtude de seus visíveis impactos sobre a educação. (VIEIRA & FARIAS, 2011, p.173).

Desde a última década do século passado vem surgindo, em muitos países pertencentes a OCDE, políticas de incentivo ao ensino privado, com o fim de permitir um alargamento da base social dessa modalidade de ensino e um aumento do recrutamento de alunos, visando, segundo os seus promotores, obter ganhos de competitividade, eficiência e redução de custos. (BARROSO, p 51, 2013).

Nesse contexto, a ‘falência’ da escola pública brasileira é atribuída pela ineficácia do gerenciamento do Estado dos recursos públicos destinados à educação básica. As políticas públicas e sociais passam a contar com a

iniciativa privada, que há mais tempo se orientava por esses princípios, tornou-se assessora da reforma educacional que se implantaria no país. (SHIROMA, MORAES, EVANGELISTA, 2011, p. 97).

Assim, na década de 90 do século XX, o debate que norteia as políticas educacionais tem como ponto central a inclusão escolar. Desta forma, opta-se como estratégia governamental a expansão do ensino fundamental e, ao mesmo tempo, criam-se mecanismos de promoção automática para corrigir o fluxo da forte defasagem entre idade e ano escolar.

Concomitantemente ao processo de expansão, ainda inconcluso, coloca-se em discussão a qualidade do ensino público. E um dos argumentos da baixa qualidade do ensino público é o da dificuldade de se ensinar para os novos setores da sociedade que hoje estão na escola. Entre outros temas está a má formação do professor, as novas tecnologias e a necessidade da corresponsabilidade da família na educação de seus filhos.

Neste cenário, o Estado é colocado como ineficiente para oferecer uma boa educação e passa a colocar a necessidade do compartilhamento das suas responsabilidades e atribuições com o setor privado, principalmente o setor empresarial. Assume-se um discurso que reconhece a importância da educação com a redução de investimentos na área e “[...] apelos à iniciativa privada e organização

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não-governamentais, como se a responsabilidade do Estado em matéria de educação pudesse ser transferida para uma etérea “boa vontade pública”. (SAVIANI, 1996, p.03)

Recentemente surgiu uma outra questão, principalmente no setor empresarial. Eles consideram que a má qualidade da escola pública além de estar afetando o conjunto de crianças e jovens, está afetando ainda mais aqueles que são considerados possuidores de um potencial diferenciado, identificados como talentosos ou melhores alunos. Afirmam que seria antidemocrático obrigar estes alunos frequentarem uma escola incapaz de desenvolver suas habilidades e competências. Diversos setores da sociedade começam a atribuir o que consideram o desperdício de talentos à má qualidade de ensino. Isso é visto como um sério problema para o desenvolvimento do país, no sentido do desenvolvimento do capital humano.

Atualmente, o novo plano de Reforma Educacional Brasileira apresenta como uma de suas metas a intensificação da entrega da escola pública à administração privada. No entanto, como bem aponta Freitas, o sistema de “vouchers” implementados em países como Chile e Estados Unidos não demostraram melhoras de resultados, e talvez criem outros problemas, como a migração de bons alunos às escolas com melhores resultados de desempenho e às escolas com administração privadas, mas mantidas com recursos públicos.

Essas escolas acabam selecionando os melhores alunos, princípio inaceitável em escolas públicas democráticas onde todos deveriam ter direito de acesso sem distinção alguma. Apesar da implementação do sistema de vouchers, os índices internacionais e nacionais do Chile e EUA não apontaram desconsideráveis avanços: o que se pode observar é o deslocamento de alunos e a melhora dos resultados de algumas instituições à custa da piora de outras. Por isso, Freitas alerta que devemos nos espelhar em modelos de ensino público que obtêm resultados similares aos do Chile, como Uruguai, no caso da América Latina, ou ao sistema finlandês, que está no topo do Pisa com o sistema educacional 100% público.

A ideia completa dos republicanos de Bush (iniciada com Reagan) ou dos conservadores de Thatcher implica, no momento seguinte à divulgação dos resultados por escola, transformar o serviço público em mercado (ou mais precisamente em um quase mercado), deslocando o dinheiro diretamente para os pais, os quais escolhem as melhores escolas a partir da divulgação desses resultados, de preferência estando as escolas sobre administração privada. É a política dos “vouchers”, que dá o dinheiro aos pais e não à escola. Paralelamente, tende a criar um mercado educacional para atender ao fracasso escolar. No Brasil já se criou o mecanismo para iniciar a privatização: Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs)

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que podem administrar escolas antes públicas. Para os liberais, a ação do mercado forçaria à elevação da qualidade de ensino. (FREITAS, 2007, p.969).

No decorrer desse trabalho descreveremos a visão da escola pública, segundo os autores da pesquisa (pais e alunos) que conviveram ou convivem neste espaço de disputas políticas e possibilidades de mobilidade social. Verificaremos que os motivos para esses autores (pais e alunos) abandonarem o ensino público norteiam a luta de sua própria ascensão social; a decisão de transferência da escola pública à particular tem base na necessidade de implementações de políticas públicas que garantam, para além do direito de permanência na escola, o direito à aprendizagem de forma a equalizar uma educação democrática e de qualidade para todos.

Neste cenário de propostas de reformas do ensino básico público e suas polêmicas sobre as reais possibilidades de se democratizar um ensino de qualidade, se torna relevante investigar os pressupostos e as ações do Programa Bom Aluno2 de

Curitiba. Cabe analisar em que medida as ações desse Programa afetam a ideia de democratização do ensino público, uma vez que o programa tem como objetivo recrutar alunos na escola pública, levando em consideração o bom desempenho escolar. Nossa intenção não é dar resposta, e sim, contribuir para o debate dos rumos da educação pública brasileira.

Objetivos

Objetivo Geral

O presente trabalho investiga as motivações, os pressupostos, as ações e a Tecnologia social do Programa Bom Aluno de Curitiba quanto às possibilidades das ações desse programa afetar a política educacional e o ensino público.

2 O Programa Bom Aluno, organizado por dois empresários curitibanos, é uma das primeiras

instituições a oferecer aos melhores alunos das escolas públicas condições necessárias para cursar o ensino médio numa escola particular. Hoje existem o Instituto para Inovar e Conhecer Novos Talentos – Ismart, que também criaram programas com as mesmas características.

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Objetivos específicos

Para alcançar o objetivo acima enunciado, pretende-se, através do desenvolvimento desta pesquisa, desenvolver as seguintes questões:

- Averiguar a origem do Programa do Programa Bom Aluno;

- Identificar suas estratégias de ação no campo educacional;

- Analisar os mecanismos de funcionamento do Programa no processo seletivo para selecionar os alunos das escolas públicas;

- Analisar a relação com as escolas particulares que oferecem bolsas de estudo;

- Conhecer as motivações das famílias e dos jovens para participar do Programa;

- Conhecer como o programa afeta a vida dos alunos e da família;

- Analisar a imagem de alunos e da família sobre a escola pública e escola particular;

- Analisar a imagem dos gestores do Programa da escola pública e qual a relação entre eles;

- Compreender o conceito de tecnologia social segundo os gestores do Programa e como isso reflete na organização das franquias em outras cidades e estados;

- Analisar a mudança de trajetória escolar família dos participantes do Programa.

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Procedimentos Metodológicos

A construção desta pesquisa teve como precedente uma pesquisa exploratória sobre o tema, fato que possibilitou uma melhor definição do objeto e dos objetivos da pesquisa. Desta forma, optou-se pela realização de uma investigação de caráter qualitativo, especialmente pela possibilidade de aproximação com as características específicas da realidade social, em sua complexidade e totalidade.

Tal enfoque permitirá analisar os pressupostos e as ações do Programa Bom Aluno e o Instituto Bom Aluno do Brasil, não somente como um ato isolado de um grupo da sociedade, mas também como um produto histórico resultante de um campo de tensões produzido por interesses, percepções e demandas de diferentes atores sociais, políticos e econômicos. Para realização desta pesquisa fizemos uso de instrumentos metodológicos tais como: pesquisa documental, pesquisa bibliográfica, entrevistas semiestruturadas, além de observação.

Diante da exposição dos objetivos gerais e específicos, entendemos que, para a viabilização dessa pesquisa, seria necessário conhecer o Programa Bom Aluno desde seu surgimento, abrangendo as motivações de seus principais organizadores ou mantenedores, suas estratégias de ação enquanto tecnologia social através da criação do Instituto Bom Aluno do Brasil e seus pressupostos que respaldam suas propostas de sistema de franquias sociais. Além de analisarmos os movimentos de trânsfugas egressos3 (Bourdieu, 1998) dos participantes do Programa no que tange

sua mudança de trajetória escolar familiar e como consequência sua mobilidade social.

Na condução dessa pesquisa foram realizados:

1) Levantamento bibliográfico e sistematização de dissertações e artigos relacionados ao tema; fontes primárias e secundárias;

2) Sistematização e análise de notícias relacionadas ao tema em periódicos; 3) Pesquisa documental, sistematização de documentos do Programa; fontes primárias;

4) Entrevistas;

3 Segundo Mello (2012, p. 93), para Bourdieu os trânsfugas egressos são aqueles que conseguem, com muito esforço e disciplina, romper como seu destino de classe a modificar os rumos escolares e profissionais em relação aos demais membros de suas famílias.

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5) Observação realizada através da participação em eventos organizados pelo Programa e rotina diária das atividades na sede de Curitiba4.

Para melhor entendimento do Programa Bom Aluno as entrevistas tiveram um papel fundamental nessa investigação. Através de tal recurso metodológico, procuramos explorar mais amplamente os objetivos específicos propostos pelo projeto de pesquisa. As entrevistas realizadas foram do tipo semiestruturado, ou seja,

(...) aquela que parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante. (TRIVINÕS, 1987, p.146).

O roteiro básico (Anexo 1) foi considerado um ponto de partida, pois permitiu preservar a flexibilidade da entrevista, além de possibilitar o aprofundamento das questões e o estabelecimento de relações com novos temas de acordo com a vontade do entrevistado e com o andamento da conversa, abrindo possibilidade para um maior conjunto de informações. Destacamos que as entrevistas, gravadas e realizada pessoalmente, foram de fundamental importância para este trabalho.

No total, foi possível realizar 52 entrevistas, sendo que algumas entrevistas foram individuais, enquanto outras, em grupos. Todavia, seguimos sempre os mesmos roteiros de entrevista, as quais foram distribuídas da seguinte forma: 8 estudantes do Ensino Fundamental, sendo que 4 entrevistas foram concedidas individualmente e as outras 4 em grupo; 12 estudantes do Ensino Médio, sendo que 4 estudantes concederam entrevistas individualmente e 8 alunos em grupo; 12 alunos universitários, sendo que 8 concederam entrevistas individualmente e 4 alunos em grupo, 3 ex-alunos, 8 pais que concederam a entrevista em grupo, 1 professora de português, 1 professor de matemática, 1 professor de inglês, 1 pedagoga, 3 psicólogas, a gerente e o diretor do Programa.

Em busca da preservação da identidade dos entrevistados vamos nos referir aos alunos do ensino fundamental e médio por aluno e identificar apenas o ano/série que estão cursando. Já os universitários serão identificados por alunos universitários e os professores serão identificados como um professor de português e matemática.

4 Os professores da banca da qualificação sugeriram que a pesquisa de campo se restringisse as entrevistas e observações na sede do Programa, pois em princípio tínhamos como um dos objetivos realizar a pesquisa de campo, também, nas escolas particulares e escolas públicas, com o intuito de averiguar como o Programa pode afetar a dinâmica dessas escolas, mas como o trabalho na sede do Programa tornou-se amplo, não foi possível.

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A equipe técnica será identificada pelos nomes dos cargos que ocupam, sendo as psicólogas identificadas por psicóloga 1, 2 e 3.

Após a realização das entrevistas, estas foram transcritas e, junto com os documentos coletados e as anotações realizadas no caderno de registro durante os momentos de observação no campo de pesquisa, iniciou-se a sistematização dos dados.

O primeiro contato para observação ocorreu no mês de novembro de 2013 em uma visita dirigida pela gerente do Programa onde estavam presentes 4 alunos universitários e 1 ex-aluno. Toda a visita foi registrada em caderno de campo, sendo este primeiro contato decisivo para a continuidade da pesquisa, pois foi quando pudemos pedir a autorização prévia para a realização da pesquisa de campo.

No dia 08 de maio de 2014 observou-se a Cerimônia da Abertura do Processo Seletivo de 2014 e, sob autorização da gerente do Programa, gravamos os seguintes depoimentos: palestrante, gerente, 1 mantenedor e idealizador do Programa que vamos se referir a ele como mantenedor 1, 3 alunos do Ensino Médio, 1 aluna universitária e 2 ex-alunos.

No dia 08 de novembro de 2014 observou-se a última sessão de formação de pais dos alunos do 8º ano nomeada como Tele- Cine. E sob autorização da gerente, psicóloga e pais gravamos o encontro e transcrevemos algumas falas dos participantes de importante relevância para a pesquisa. Além da realização da entrevista após a sessão entrevistamos um grupo de pais: 4 mães e 3 pais, na faixa de 30 a 50 anos de pais, nível escolar em média entre ensino fundamental completo e ensino médio completo.

No dia 16 de outubro e 17 de outubro observou-se as aulas de Literatura Viva, no primeiro dia com os alunos do 2º do Ensino Médio e no segundo dia com os alunos do 9º do Ensino Fundamental.

As conversas informais nos intervalos das atividades dos alunos, durante as visitas de observação, foram importantes instrumentos para entendermos a visão do Programa, a escola pública e a particular.

Analisamos os documentos do Programa Bom Aluno para compreender o seu surgimento e sua forma de organização e atuação. Além disso, a leitura e sistematização dos documentos permitiram a compreensão dos pressupostos e princípios que fundamentam o mesmo. Destaca-se, ainda, que, devido ao caráter do objeto a ser estudado, optamos por incorporar na análise os vídeos e filmes

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elaborados pelo Programa e Bom Aluno, fartamente postados no site do Youtube e nas redes sociais. Tal opção metodológica justifica-se, pois, o mundo em que vivemos é crescentemente influenciado pelos meios de comunicação, cujos resultados, muitas vezes, dependem de elementos visuais. Consequentemente, o visual e a mídia desempenham papéis importantes na vida social, política e econômica. (BAUER & GASKELL, 2008, p.138).

Foi utilizada a pesquisa documental em fontes primárias, caracterizada como sendo “[...] o exame de materiais de natureza diversa, que ainda não receberam um

tratamento analítico, ou que podem ser reexaminados, buscando-se novas e/ou interpretações complementares. ” (GODOY, 1995, p. 21). Além dos documentos, sítios

eletrônicos também foram constantemente consultados como recurso adicional para a construção/entendimento dos contextos analisados.

Dentre os documentos sistematizados destacam-se os documentos oficiais do Programa Bom Aluno e Instituto Bom Aluno do Brasil:

- Manual Técnico do Instituto Bom Aluno do Brasil (2011);

- Manual do Candidato 2013;

- Relatório do Processo Seletivo de 2013 e 2014;

- Ficha de Inscrição 2014.

A partir do levantamento bibliográfico, foi constatada a pouca análise acadêmica sobre o tema. Em busca realizada entre 2013 e 2015, foram encontradas 2 dissertações e 2 artigos que envolviam diretamente o Programa Bom Aluno.

As buscas foram realizadas em diversos catálogos de faculdades, institutos, universidades, associações nacionais e órgãos de fomento de pesquisa, tais como Banco de Teses da CAPES, Biblioteca Digital da UNICAMP, SciELO, utilizando-se como referência a expressão “Programa Bom Aluno”.

Através da leitura e da sistematização de todos os documentos, buscou-se identificar não apenas as informações a respeito do surgimento, pressupostos e princípios que fundamentam o Programa Bom Aluno, mas seu significado histórico e suas relações com o contexto atual, para, a partir de então, identificar categorias de análise que permitam compreender o porquê em retirar jovens talentos da escola pública para desenvolver suas habilidades e competências estudantis, assim como tentar entender as motivações destes empresários para transformar a metodologia de trabalho do Programa em uma tecnologia social, com o objetivo de ser um modelo replicável através de franquias sociais pelo IBAB.

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Organização do Texto

O texto apresentado para a realização de defesa de dissertação de mestrado está organizado em quatro partes.

Sua organização compreende os seguintes tópicos: Introdução (objetivo geral, objetivos específicos, procedimentos metodológicos), Desenvolvimento (quatro partes/capítulos) e Considerações finais.

Na Parte I, apresentou-se o histórico do contexto das reformas neoliberais de 1990, quando surge o Programa Bom Aluno e do Instituo Bom Aluno do Brasil: suas ações e pressupostos.

Na Parte II, buscou-se reconhecer e compreender os pressupostos e princípios básicos que sustentam as propostas do IBAB no sentido de aprender o conceito de tecnologia social e a disseminação deste no formato de franquias sociais por seus idealizadores, assim como detalhar a imagem que os participantes têm desse programa social.

Na parte III, demonstrou-se os resultados positivos do Programa em relação a mudança da trajetória escolar dos filhos das camadas populares e a probabilidade de mobilidade social dos participantes do Programa

Na parte IV, apontou-se a crise da escola pública e a ideia que os pais e alunos fazem das políticas públicas educacionais brasileiras através do processo de migração para escola particular sob a alegação da ineficiência da escola pública, assim como tentamos extrair o ideário de um ensino de excelência para estes atores (pais e alunos), bem como para a equipe técnica do Programa.

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PARTE I- Contexto histórico do surgimento do Programa Bom Aluno

1.1 Neoliberalismo e a Reforma do Estado Brasileiro

O conceito de neoliberalismo surge após a Segunda Guerra Mundial (1937-1945), tendo como principal idealizador Hayek5, como uma reação teórica e política

ao Estado de bem-estar social. O argumento norteador respaldava-se na ideia que o novo igualitarismo promovido pelo Estado de bem-estar destruiria a liberdade dos cidadãos e a vitalidade da concorrência, da qual dependia a prosperidade de todos. Desta forma, para a teoria neoliberal, a desigualdade seria imprescindível à motivação dos indivíduos e crescimento da sociedade. No entanto,

[...] as condições para este trabalho [inclusive de crítica ao keynesianismo] não eram de toda favoráveis, uma vez que o capitalismo avançado estava entrando numa longa fase de auge sem precedentes - sua idade de ouro -, apresentando o crescimento mais rápido da história, durante as décadas de 50 e 60. Por esta razão, não pareciam muito verossímeis os avisos neoliberais do mercado por parte do Estado. A polêmica contra a regulação social, no entanto, tem uma repercussão um pouco maior. Hayek e seus companheiros argumentavam que o novo igualitarismo (muito relativo, bem entendido) deste período, promovido pelo Estado de bem-estar, destruía a liberdade dos cidadãos e a vitalidade da concorrência, da qual dependia a prosperidade de todos. Desafiando o consenso oficial da época, eles argumentavam que a desigualdade era um valor positivo – na realidade imprescindível em si –, pois disso precisavam as sociedades ocidentais. Esta mensagem permaneceu na teoria por mais ou menos 20 anos. (ANDERNSON, 1995, p.02)

A teoria neoliberal de Hayek, só ganhará forças com o fim da “Era de Ouro” (Hobsbawm, 1995), no qual os avanços tecnológicos e o desenvolvimento econômico mundial não foram capazes de eliminar as distorções e desigualdades sociais promovidas pelo sistema capitalista. Desta forma, a crise do modelo econômico nos países de capitalismo avançados, que teve seu estopim com o choque do petróleo em 19736, gerou um cenário de profunda recessão combinados com baixas taxas de

crescimento e com altas taxas de inflação, fazendo seus dirigentes e autoridades públicas repensarem a dinâmica do Estado de bem-estar social. A alternativa encontrada teve como referencial teórico o neoliberalismo de Hayek, sendo que os

5 Friedrich Hayek publica em 1944 “Caminhos da Servidão” como uma reação teórica e política ao Estado Intervencionista que, segundo alguns críticos ao Estado de bem-estar social, será o sistema que provocará a crise estrutural do capitalismo nos anos de 1970, nos países de capitalismo avançado.

6 No final de 1973, o preço do barril de petróleo foi aumentando excessivamente pelo cartel formado pelos países exportadores. Grande parte das economias mundiais entrou em recessão a partir de 1974.

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primeiros líderes mundiais a implementarem este novo mecanismo de governança foram Margaret Thatcher, na Inglaterra, em 1979 e Ronald Wilson Reagan, nos Estados Unidos, em 1980.

O projeto neoliberal coloca em questão a ideia de “Estado forte”, não se restringindo apenas ao setor social, mas também no que diz respeito à sua participação na vida econômica (de forma direta como investidor, ou nas diversas formas de regulação das relações capital/trabalho) que supostamente permitiriam a governabilidade do sistema e facilitariam a sua reprodução. Neste cenário, associa-se a criassocia-se fiscal ao endividamento dos Estados nos paíassocia-ses periféricos, e também centrais em outra medida, que mobilizaria a descrença na administração pública, criticada por excesso de burocracia e gastos sociais. Esses fatores contribuíram para avançar as propostas da construção de um Estado mínimo, no tocante a uma “reforma do Estado” e, com ela, a “reestruturação produtiva”.

Para Alves (2009) e Anderson (1995) a teoria do Estado mínimo pode ser considerada a síntese do projeto neoliberal. Um dos grandes defensores da criação do Estado mínimo foi Milton Friedman (1912-2006), o qual criticou duramente o Estado provedor e as políticas sociais. De acordo com Draibe (1993, p.88): “[...] De fato, para Friedman, é o próprio Estado de bem-estar social – o sistema de políticas sociais – o responsável por muitos ou quase todos os males que nos afligem e que têm que ver com a crise econômica e o papel do Estado”.

Friedman tem uma visão negativa sobre os investimentos em programas sociais públicos como a ampliação do déficit público; inflação; desestímulo ao trabalho e à concorrência; destruição da família; desestímulo aos estudos; formação de gangues e criminalização da sociedade. Para evitar tal “desastre”, cria-se a ideia da necessidade de cortes ao gasto social ou encerramento dos programas sociais públicos. Portanto, a ação do Estado deve se limitar a programas assistencialistas, somente às classes em alto nível de vulnerabilidade econômica e social. Esta prática se denomina “focalização”, e tem como propósito aliviar as tensões entre as classes e garantir um melhor desenvolvimento capitalista.

Para Friedman, a competição é a essência do mercado (é da natureza do mercado), sem ela o mercado não existe porque sua organização é lógica e está concebida em termos de competição e não de assistência social. Os críticos do pensamento neoliberal questionam esse senso de justiça regulado pelo próprio mercado, pois o critério de justiça respalda-se da seguinte forma: partes iguais para

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iguais e partes desiguais para os que não são iguais. Assim, o neoliberalismo reforça o ideário de que o mercado é invisível ao indivíduo, uma vez que estaria à serviço da sociedade e

[...] no que concerne às políticas sociais, também vem alternando suas posições sociais, também vem alterando suas proposições ou pelo menos as ênfases e prioridades. De início, nos momentos mais agudos da crise, o redirecionamento da política social quase que se resumia às propostas da corte do gasto social, à desativação dos programas, à efetiva redução do papel do Estado nesse campo. Com muito pouca sofisticação e quase nula reflexão, além de repetir os argumentos gerais de Friedman, nas proposições no campo social foram basicamente aquelas que inspiraram os governos de Thatcher e Reagan: as tentativas de desestabilização dos pilares do Welfare State, reduzindo a universalidade e os graus de cobertura de muitos programas sociais, muitos benefícios e, quando puderam, privatizando a produção, a distribuição ou ambas as formas públicas de provisão dos serviços sociais. Na base de tal “redirecionamento” estava a vontade de quebrar a espinha dorsal dos sindicatos e dos movimentos organizados da sociedade. (DRAIBE, 1993, p. 92)

No Brasil, a reforma do Estado neoliberal inicia-se no governo de Fernando Collor de Mello e se intensificará no governo Fernando Henrique Cardoso, com o processo de descentralização do Estado, sob o discurso da eficiência/eficácia do setor privado e a descrença na administração pública, a redução de gastos e a privatização se tornam as alternativas para o desenvolvimento econômico do país. Para tal feito se institui o modelo de parceria público-privada com maior força no qual o Estado passa a ser o gerenciador e avaliador dos serviços prestados, por organizações com experiência acumulada e empresariais.

Como bem aponta Montaño (2002), a reforma do aparelho do Estado promoveu a dinamização da transferência de responsabilidade estatal frente às demandas de serviços sociais para o mercado. As necessidades sociais que ganharam força com a abertura do processo político pós ditadura militar (1964-1985) por meio da promulgação da Constituição Federal de 1988 e na qual se estabelece diversas garantias sociais, a exemplo da criação da Lei Orgânica de Assistência Social em 1993, afixou a assistência social como direito elementar, ao lado de saúde e educação.

Com as reformas neoliberais, o Estado passa a dividir a responsabilidade dos serviços sociais com entidades da sociedade civil e, para dar funcionalidade jurídica e expansão a esse setor, implementa-se uma legislação de efeito para o chamado “terceiro setor”, que terá que responder sobre o efeito da corresponsabilidade com o Estado, muitas vezes sob a gestão avaliadora/gerencial do mesmo.

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A reforma do Estado de 1995 fundamenta-se no PDRAE (Plano Diretor para Reforma do Aparelho do Estado), sendo elaborada pelo então Ministro da Administração Federal e Reforma do Estado Bresser Pereira como:

[...] (a) um problema econômico-político – a delimitação do tamanho do Estado; (b) um outro também econômico-político, mas que merece tratamento especial – a redefinição do papel regulador do Estado; (c) um econômico administrativo - a recuperação da governança ou capacidade financeira e administrativa de implementar as decisões políticas tomadas pelo governo; e (d) um político – o aumento da governabilidade ou capacidade política do governo de intermediar interesses, garantir legitimidade, e governar (BRESSER-PEREIRA, 1999, pp. 49-50).

Segundo Montãno, essa reforma representa um marco histórico para a flexibilização da obrigatoriedade do poder público na oferta de um conjunto de serviços sociais básicos, como educação, por exemplo: que sob a reforma se transformou em um serviço público não exclusivo do Estado. A este processo de deslocamento da responsabilidade estatal às organizações da sociedade civil (movimentos sociais, organizações religiosas, fundações empresariais, etc.) Bresser Pereira denominou de “publicização dos serviços sociais”, isto é:

[...] a descentralização para o setor público não estatal da execução de serviços que não envolvem o exercício do poder de Estado, mas devem ser subsidiados pelo Estado, como é o caso dos serviços de educação, saúde, cultura e pesquisa científica. Chamaremos a esse processo de “publicização”. [...] através de um programa de publicização, transfere-se para o setor público não estatal a produção dos serviços competitivos ou não exclusivos de Estado, estabelecendo-se um sistema de parceria entre Estado e sociedade para seu financiamento e controle. Deste modo o Estado reduz seu papel de executor ou prestador direto de serviços, mantendo-se, entretanto no papel de regulador e provedor ou promotor destes, principalmente dos serviços sociais como educação e saúde, que são essenciais para o desenvolvimento, na medida em que envolvem investimento em capital humano; para a democracia, na medida em que promovem cidadãos; e para uma distribuição de renda mais justa, que o mercado é incapaz de garantir, dada a oferta muito superior à demanda de mão-de-obra não especializada. Como promotor desses serviços o Estado continuará a subsidiá-los, buscando, ao mesmo tempo, o controle social direto e a participação da sociedade. (BRASIL, 1995, p.13)

Essas parecerias entre o Estado e a sociedade civil têm sua regulação através da Lei 9.637/98, que dispõe sobre a qualificação de pessoas jurídicas de direito privado como organizações sociais, tendo como principal critério da Organização Social (desta natureza) não ter fins lucrativos, assim como o investimento de sua receita excedente deva se reverter em suas próprias necessidades. Sendo reconhecida, a instituição está apta a estabelecer parceiros públicos e dele receber financiamento para seus projeto, como prevê o artigo V da lei em questão, conforme Szazi argumenta:

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[...] para os efeitos dessa Lei, entende-se por contrato de gestão o instrumento firmado entre o Poder Público e a entidade qualificada como organização social, com vistas à formação de parceria entre as partes para fomento e execução de atividades relativas às áreas relacionadas no artigo I. (2006, p. 214).

Como complementação das entidades sociais do terceiro setor, a Lei 9.790/1999 dispõe sobre a qualificação das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Elas são, também, organizações sem fins lucrativos, representadas por diversas áreas de interesse da sociedade civil. Mas algumas atividades são desautorizadas e não podem ser qualificadas como OSCIP, citemos algumas: a) sociedades comerciais; b) sindicatos, ou associações de classe; c) instituições religiosas; d) organizações partidárias; e) cooperativas. As áreas de atuação são ampliadas em relação às Organizações Sociais (OS), tais como: saúde, assistência social, cultura, meio ambiente, segurança nutricional e direitos humanos.

A criação destas organizações é um elemento da tríade necessária para consolidação daquilo que Bresser Pereira chamou de publicização dos serviços sociais, a saber: 1) descentralização (da responsabilidade e intervenção estatal); 2) criação das OSs e OSCIPs; 3) parcerias. É neste contexto que emerge uma proliferação de organizações não governamentais, criadas por inúmeras representações da sociedade civil para ofertar alguma natureza de ação social e às quais ocorre a transferência de fundos públicos.

Assim, setores empresarias se debruçam na criação de fundações, organizações e institutos em prol da melhoria da educação brasileira. Os empresários são “estimulados” a exercerem sua responsabilidade social e voluntariado 7

empresarial, preceito que consolidará a articulação entre sociedade civil e Estado. Tal associação dizimara a nova ideologia em que o público não precisa ser estatal, pois a administração privada (empresarial) é mais eficiente que a gestão pública (estatal), ou seja, para muitos as soluções dos problemas do Estado estariam na associação entre o público e privado (terceiro setor).

Na década de 1990, em pleno período de implantação do neoliberalismo na América Latina, assistimos à pressão “externa” e a mecanismos de convencimento, oriundos dos organizações internacionais e do Executivo nacional, para o empresariado brasileiro – por meio de políticas sociais – passasse a assumir parte da responsabilidade pelo bem-estar da população. Surgiu assim o slogam “responsabilidade social”, para nomear o processo de descentralização de responsabilidades e atribuições de mercado, do qual o Programa Comunidade Solidária funcionou como ponta de lança. Presidido pela primeira-dama Ruth Cardoso, nasceu com o propósito de otimizar as

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formas de gerenciamento de um conjunto de programas sociais por meio da participação da sociedade civil (especialmente o empresariado) no combate à pobreza. Começam, assim, a surgir regulamentações e figuras jurídicas da sociedade civil na prestação de serviços públicos, que, através de parcerias complementam o orçamento com recursos privados. (KRAWCZYK, 2014, p. 36)

Como aponta Cunha (2005), Krawczyk (2014) e Martins (2014), a ideia de responsabilidade social e de voluntariado empresarial replica o interesse dos setores empresariais em outros momentos da história da educação brasileira, como no caso da fundação do Sistema S8. Porém, a partir de 1990 os investimentos e esforços dos

setores empresariais ganham ênfase na atuação das organizações sem fins lucrativos na área da educação, como no caso do Programa Bom Aluno, no qual os idealizadores descrevem ter criado a OSCIP Instituto Bom Aluno do Brasil sobre a ótica da responsabilidade social e do voluntariado empresarial.

1.2. Programa Bom Aluno e o Instituto Bom Aluno do Brasil

O Programa Bom Aluno, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), tem sua origem através da ação de empresários interessados em ajudar alunos carentes que se destacaram pelo seu rendimento na escola pública. O propósito é o de mudar sua trajetória escolar familiar e sua condição socioeconômica.

Surgido em 1993 pelas mãos de dois empresários curitibanos, o Programa Bom Aluno, segundo relatos coletados durante esta pesquisa, originou-se da ideia de “prover” bons alunos da escola pública “com talentos para os estudos” para uma formação acadêmica de excelência. Trata-se, pois, de

[...] incentivar pedagogicamente e economicamente bons alunos de baixa renda, por meio de formação educacional e técnico-profissional, bem como criar uma rede de solidariedade e cidadania para que se tornem agentes de transformação de sua situação socioeconômica e da desigualdade social existentes no Brasil. (MANUAL TÉCNICO DO INSTITUTO BOM ALUNO DO BRASIL, s/d)

Em 2000, quando foi fundado o Instituto Bom Aluno do Brasil, o Programa passou a ter o formato de franquia social com unidades implementadas em Londrina (PR), Maringá (PR), Vipal (RS), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), Vitória (ES) e

8 Fazem parte do Sistema S- Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai); Serviço do Comércio (Sesc); Serviço Social da Indústria (Sesi); e Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio ( Senac) essas instituições remetem –se a longa relação nas políticas educacionais entre setores empresariais e o Estado.

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São Paulo (SP). Tal feito fez o Programa ser reconhecido como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil.

Todas as unidades levam o selo da marca social Instituto Bom Aluno do Brasil (IBAB). No decorrer do trabalho vamos nos referir ao Programa Bom Aluno de Curitiba, pois o Instituto Bom Aluno do Brasil tem sua sede e gestão na mesma unidade. Cabe a essa unidade, fiscalizar e garantir os pressupostos da tecnologia social nas franqueadas ao IBAB. Assim, as unidades do Bom Aluno são independentes, e levam apenas a marca do Bom Aluno e recebem assessoria da equipe técnica da matriz para poderem replicar a tecnologia social. Caso as unidades não cumpram os critérios estabelecidos no contrato, o IBAB tem o direito legal de retirar a marca das unidades.

As prerrogativas para participação no PBA (Programa Bom Aluno) são as seguintes: estar cursando o 8º ano do ensino fundamental em escola pública; morar na região metropolitana de Curitiba; pertencer a família de baixa renda (renda de no máximo um salário mínimo per capita); ter boas notas (média mínima 7,0); e ser assíduo.

Para que o aluno possa frequentar as escolas privadas, o Programa oferece apoio psicopedagógico do 8º ano do Ensino Fundamental até o término do Ensino Médio, material didático, livros, uniforme, alimentação (lanche e almoço), transporte, atividades extras como idas ao teatro, cinema e excursões e, no contraturno da escola, cursos complementares de português, matemática, inglês, redação, interpretação de texto e aulas de desenvolvimento pessoal.9

Em vista disso, tem-se que todos os alunos matriculados nas escolas públicas da região metropolitana de Curitiba, desde que atendam aos critérios de participação do Programa, podem participar do processo seletivo, cuja metodologia será descrita no item a seguir.

9 Os alunos do Ensino Superior ficam vinculados ao Programa até o 1º ano da Faculdade onde

concluem sua formação na língua inglesa. Depois, alguns alunos se mantêm ligados ao programa, quando precisam de algum tipo de auxilio econômico ou operacional, por exemplo, a participação do Programa Ciências Sem Fronteira do Governo Federal.

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1.3 . Metodologia do Programa: o processo de seleção

O Programa Bom Aluno oferta, em média, 30 vagas por meio de um processo seletivo realizado anualmente. Segundo informações do site, o perfil do aluno para participar do Processo Seletivo deve ser:

• Alunos de escola pública;

• Cursando o 7º ano do ensino fundamental;

• Família comprometida com os estudos e com o PBA; • Disciplinado e dotado de iniciativa;

• Média bimestral mínima de 7,0 em todas as matérias, em todos os anos; • Pelo menos 90% de frequência escolar;

• Família de baixa renda, com histórico de pobreza;

• Residir na cidade onde o PBA está situado, ou em cidades circunvizinhas.

O Processo de Seleção é realizado em cinco fases, sendo todas eliminatórias. São elas:

1ª: Ficha de inscrição (informe de rendimentos e histórico escolar); 2ª: Avaliação do conhecimento;

3ª: Dinâmica de grupo;

4ª: Entrevista com a família e com o aluno; 5ª Visita domiciliar.

Para a seleção de alunos para o PBA de 2014, o cronograma de trabalho da Equipe Gestora foi o seguinte:

QUADRO1- ETAPAS DO PROCESSO SELETIVO MARÇO Planejamento da seleção

ABRIL Reunião de abertura e início da seleção MAIO Análise das fichas

JUNHO Avaliação de conhecimento JULHO Avaliação de conhecimento AGOSTO Dinâmica de seleção

SETEMBRO Entrevistas OUTUBRO Visitas

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1.3.1. Descrição das cinco fases do Processo de Seleção de 2014

1.3.2. 1ª Fase do Processo de Seleção: Ficha de Inscrição,10 Divulgação do

Processo de Seleção e Entrega das Fichas de Inscrição

A divulgação do Processo de Seleção teve início em março de 2014 através de informes no site do Instituto Bom Aluno do Brasil e no Jornal Gazeta do Povo (Curitiba). O contato com as escolas também ocorreu via correio, carta, convite impresso e carta convite via e-mail.

Em 2014, foram convidadas 251 escolas Públicas, Municipais e Estaduais, Secretarias Municipais e Estaduais de Educação do Paraná, além das escolas conveniadas, Colégio Dom Bosco, Colégio Marista, Colégio Bom Jesus, Colégio Medianeiro e a ARIGAF (Associação Ricardo Gadotti Feldmann).

A abertura oficial do Processo de Seleção se deu no IX Encontro do Instituto

Bom Aluno do Brasil e Diretores de Escolas. Foi realizada no dia 08/05/2014 em

Piraquara-PR, no auditório cedido pela BSMax, no período da manhã. O evento foi organizado pela equipe gestora do Programa Bom Aluno, que contou com a assessoria voluntária de alguns alunos do Ensino Superior na recepção e orientação dos convidados, além de responsáveis pela entrega de kits com as fichas de inscrição e pelos registros audiovisuais do evento.

Os objetivos do encontro de Abertura do Processo de Seleção são: apresentação das fases do processo de seleção; funcionamento do programa; depoimentos de motivação; e entrega de kits (08 fichas de inscrição, 01 carta de orientação e 01 encarte do PBA).

A cerimônia de abertura iniciou-se com a palestra ministrada pelo psicólogo e professor Marcos Meier, autor do livro “Adolescência: Fatores Relacionados ao Desenvolvimento Saudável das Emoções, dos Relacionamentos e dos Valores”.

Segundo a psicóloga 1 do Programa, o intuito das palestras serem ligadas a temas educacionais e atuais é atrair os representantes das escolas públicas para que possam conhecer os pressupostos e ações do Programa.

As palestras são utilizadas mais como chamariz para atrair os representantes das escolas. Eles vêm assistir a palestra e depois temos a oportunidade de

10 Os itens de caráter eliminatório na ficha de inscrição, segundo informações da equipe técnica, são: notas, assiduidade, renda e bens. Segue em anexo a Ficha de Inscrição.

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apresentar o Programa com depoimentos de alunos e ex-alunos; aí eles podem ver que o Programa funciona de verdade, que é real. Muitos já conhecem e sabem da seriedade do Programa, outros estão vindo pela primeira vez. Nós precisamos que eles acreditem e confiem no Programa para nos indicarem os melhores alunos a participarem do Processo Seletivo. (Entrevista, psicóloga -1-PBA).

Em seguida a gestora do Programa Bom Aluno fez uma breve apresentação:

É muito importante a presença de todos nesta primeira etapa para que vocês possam verificar que o Programa Bom Aluno, que tem uma história escrita há 20 anos, realmente muda a vida de muitos jovens que querem se superar e desenvolver seus talentos. Não só isso: é uma transformação da vida do aluno e da família. Precisamos de vocês neste momento para indicarem alunos que estejam dispostos a enfrentarem esta jornada de estudos e de compromisso social, pois além de bons alunos, eles aprenderão a devolver o que receberam da sociedade sendo agentes de transformação, mudando sua vida e das pessoas que os cercam. (Depoimento, gerente do PBA)

Se com a palestra é possível atrair os representantes das escolas públicas, é com os depoimentos de alunos e ex-alunos que os organizadores do evento pretendem convencer estes a indicarem os alunos com o perfil que o Programa anseia para participarem do Processo de Seleção.

Desta forma, os depoimentos são utilizados como metodologia de motivação.

Em entrevistas, vários profissionais do PBA relataram que os depoimentos de alunos e ex-alunos ajudam os novos participantes a traçarem seu Projeto de Vida e a se dedicarem nos estudos. Assim, espera-se que os depoimentos também motivem os representantes das escolas públicas a indicarem seus melhores alunos. “Pois é vendo

que um aluno nas mesmas condições que eu, chegou onde queria, por exemplo, na Nasa, na Austrália e por aí vai.” (Entrevista, psicóloga 1 -PBA).

Seguem os depoimentos de um ex-aluno do PBA, uma aluna universitária e um aluno do Ensino Médio participantes do PBA:

Fui uma das primeiras turmas a se formar no PBA. No início, a gente desconfiava se tinha que pagar algo, pois sempre oferecem cursos nas escolas públicas com a roupagem que é gratuita, depois você sempre tem que pagar alguma coisa. Então, entrei no PBA com esta desconfiança, mas logo percebi que tudo que se falava a respeito era verdade. Tive várias oportunidades de ingressar na faculdade, mas optei por fazer um intercâmbio no Canadá. Fiquei lá um tempo, guardei dinheiro para comprar uma casa para meus pais. “Voltei e comecei a dar aulas de inglês no PBA, cursei sociologia. Hoje, além de professor de inglês, sou de Sociologia e Filosofia; atuo como palestrante em diversas ONGs”. “Fui candidato a vereador e tivemos mais de dois mil votos sem recurso nenhum para financiar a campanha, tudo foi muito de boca- boca”. O PBA mudou a minha vida, além da minha formação, eu sou voluntário da vida, luto por um mundo melhor e ele pode existir, assim como o PBA existe. (Depoimento, ex-aluno-PBA).

Acabei de chegar dos EUA, onde passei seis meses e tive a oportunidade de fazer estágio de três meses na NASA. Para mim, foi a melhor experiência que

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poderia ter. Quando eu imaginei que estudaria na NASA, parece um sonho ainda. Agradeço tudo isso ao PBA. Por isso, vocês professores e diretores incentivem os seus bons alunos a participarem do processo seletivo do PBA, pois as oportunidades se abrem. Assim como eu, eles podem se despertar para o mundo. Ainda tenho muita coisa para eu fazer, mas de uma coisa tenho certeza: nunca esquecerei o PBA, e cada degrau que subir durante minha carreira tentarei despertar um jovem para o conhecimento e a transformação de mundo melhor. (Depoimento, aluno universitário -PBA).

Bom dia a todos. Eu estou cursando o 2° ano do Ensino Médio, sou muito feliz por participar do PBA. Pretendo cursar engenharia e, assim como eles, fazer intercâmbio. Teria muita coisa pra falar, mas a principal que o PBA mudou minha vida. (Depoimento, aluno do 2° ano do Ensino Médio -PBA).

1.3.3. Dados da abertura Oficial do Processo de Seleção

Compareceram à cerimônia de Abertura 98 das 251 escolas convidadas. Algumas escolas que não compareceram retiraramas fichas de inscrição na sede do PBA e, quando solicitado, as fichas foram enviadas via correio. Alguns pais também entraram em contato via telefone ou site do Programa e foram fornecidas as fichas de inscrições com o mesmo procedimento.

A data estabelecida para a entrega das fichas de inscrição preenchidas (modelo anexo) juntamente com anexos como histórico escolar, comprovante de rendimentos e outros, foi de 28 de maio a 28 de junho. Foram entregues 474 fichas de inscrições. Deste total foram selecionados 248 estudantes para segunda fase. Os motivos para a desclassificação dos demais foram: média escolar inferior a 7 e renda familiar superior ao estabelecido pelo programa (01 salário mínimo e meio per capita), sendo que a renda é um fator flexível de categoria de análise, pois cada caso é analisado conforme o número de inscritos e as particularidades de cada família. Segundo a psicóloga 2 do Programa, “o critério de renda familiar assemelha-se ao do Programa

Universidade Para Todos- (PROUNI)11, mas não é tão rígido, pois diferente do

Governo Federal estamos próximos para analisarmos o critério de renda”. (Entrevista).

11 Para concorrer às bolsas integrais, o candidato deve comprovar renda familiar bruta mensal, por pessoa, de até um salário mínimo e meio. Para as bolsas parciais (50%), a renda familiar bruta mensal deve ser de até três salários mínimos por pessoa. (www. prouni.mec.gov.br/jan/2015).

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1.3.4. 2ª Fase do Processo Seletivo: a avaliação de conhecimentos do candidato

O exame de Conhecimentos foi realizado no dia 30 de agosto de 2014, no período da manhã (8h00 às 11h30). O espaço utilizado foi concedido pelo Colégio Marista Santa Maria - Rua Prof. Joaquim de Matos Barreto, 98, (escola particular conveniada ao Programa).

A organização do evento seguiu os mesmos procedimentos da Abertura do Processo de Seleção, ou seja, ficaram responsáveis pelo andamento das atividades: a equipe Gestora e alunos voluntários do PBA.

Primeiramente os alunos e os pais se encaminharam ao Auditório Central do Colégio Marista Santa Maria, onde a gerente do PBA, deu os seguintes informes: objetivos do Processo Seletivo, duração do processo, aprovação dos estudantes em cada etapa e ao final do processo, benefícios que o estudante poderá ter ao ser admitido, e deveres que deverá cumprir para permanência no PBA.

Em seguida os alunos foram direcionados às suas respectivas salas para realização da Avaliação de Conhecimentos, e seus pais foram conduzidos ao estacionamento do estabelecimento. Foi vedada a eles qualquer comunicação com os filhos, exceção feita a imprevistos no que tange a saúde. Foram aplicadas avaliações de Redação, Português e Matemática.

Segundo a psicóloga 2, para os alunos que não compareceram na avaliação de conhecimentos gerais, justificaram sua ausência por motivos de saúde, transporte e religião; a equipe técnica decidiu fazer uma segunda chamada. Esta contemplou 23 alunos para Avaliação de Conhecimentos Gerais, e foi realizada no dia 04 de setembro de 2014 na sede do Bom Aluno Mercês, no período da manhã (8h00 às 11h30). A segunda chamada foi organizada pela equipe gestora e alunos voluntários do PBA seguindo os mesmos procedimentos da primeira chamada.

Não tivemos acesso às avaliações, porém a equipe gestora nos informou que elas são elaboradas segundo a proposta curricular e o material didático das Escolas Públicas (Municipais e Estaduais) de Curitiba e Região Metropolitana.

O conteúdo das provas fazem parte do Currículo e Material Didático do Estado, pois temos que garantir, ao menos por hipótese, que o conteúdo da prova de um jeito ou de outro o aluno já vi e estudou. Embora o resultado sempre seja baixo, o que reafirma o nosso trabalho de um ano de preparação dos alunos para ser inserido na Escola Particular. (Entrevista, gerente PBA).

O pior desempenho dos alunos se concentrou na Avaliação de Matemática, com média de 3,4, seguida da Avaliação de Redação com 5,4. Já em Português os alunos

Referências

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