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As mediações das experiências do Espírito Santo

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Academic year: 2021

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As mediações das experiências do Espírito Santo

E u ler R. W estphal

Resumo

O estudo parte da constatação de que m uitas d en o m in aç õ es cristãs históricas presenciam um reto m o da experiência religiosa com o reação a um a priorização unilateral da reflexão, herança de um a tradição ilum inista. Em vista dessa rea­ lidade o au to r apresenta a contribuição da teo lo g ia de Lutero perguntando pelas m e d iaç õ es d a ex p eriên cia do E spírito

R esum en

El estúdio parte de la constatación q ue m uchas d enom inaciones cristianas h istó ric as presencian un reto rn o de la ex p e rien c ia religiosa com o reacción a una prio rid ad unilateral de la reflexión, h eren cia de u n atra d ició n ilum inista. En vista de esa realidad el autor p resen ta la co n trib u ció n de la te o lo g ia de L utero p reguntando p o r las m ediaciones de la

A bstract

M a n y h i s t o r i c a l C h r is t ia n denom inations are experiencing a return o f re lig io u s e x p e rie n c e as a re a c tio n ag a in st a o n e -sid e d p rio rity g iven to reflection, w hich is an E nlightenm ent heritage. In view o f this reality the author p rese n ts th e co n trib u tio n o f L u th e r’s theology by asking about the m ediations o f the Holy Spirit as linked to external

Santo, ligado às coisas externas, m a te­ riais, ao âm bito da criação. Em Lutero, a experiência do D eu sT riú n o é legítim a na m edida em que for um a ex periência a d extra , que nos alcança de fora e não dilui a lógica do parad o x o bíblico , p o is o Espírito Santo não é um a energia d iv i­ na, m as é D eus pessoal.

experiencia dei Espiritu Santo, u nido a las cosas externas, m ateriales, al âm bito de la creación. En Lutero, la experiencia dei D ios Trino es legítim a en la m edida en que sea una experiencia a d extra, que n os alcanza de afuera y no dilui a la ló­ g ic a d e la p a ra d o ja b íb lic a , p u e s el Espiritu Santo no es una energia divina, m ás es Dios personal.

an d m a teria l th in g s , to th e rea lm o f c r e a tio n . In L u th e r ’s th e o lo g y , th e e x p e r ie n c e o f th e T riu n e G o d is legitim ate in so far as it is an a d extra experience, w hich reaches us from the outside and does not dilute the logic o f th e b ib lic a l p a ra d o x , sin c e th e H oly S pirit is n o t a d iv in e energy, b u t th e personal God.

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Introdução

Q uando falam os sobre o m o v im en ­

to carism ático p rec isam o s falar do E spí­ rito Santo - da T erceira P essoa da T rin­ dade. Talvez a efervescência carism ática esteja ligada ao q uestionam ento dos ed i­ fícios teológicos e filosóficos solidam en­ te co n stru íd o s pela tradição ilum inista. O ilum inism o na teologia contribuiu para o d istanciam ento do m undo, que ficou m a io r q uando a te o lo g ia p asso u a ser “te o lo g ia da P alavra” sem vínculo com a história. D esse m o d o , a salvação foi reduzida a um “ acontecim ento da lingua­ g em ” , ou seja, um aco n tecim en to m e ta­ físic o 1. A lém disso, o elem ento carism á­ tico p o deria ser um a crítica ao ap risio ­ nam ento da ex p e riên c ia relig io sa pela b u ro c ra c ia d a s in stitu iç õ e s. C h a m a a atenção o fato de que o retorno da ex p e­ riên cia - p o r m eio do m ovim ento ca ris­ m ático - acontece no in terio r de m uitas d enom inações históricas. Trata-se de um p ro fu n d o q uestionam ento dos d iscursos e das práticas das instituições.

P arece-m e q ue o im pacto desse m o ­ vim ento é sentido com m a io r in te n sid a­ de n as ig rejas h istó ric as, p o r estarem m ais p ró x im a s da trad ição ilum inista, p rio riz a n d o a reflex ã o in te le ctu a l em detrim ento da experiência. Esse q uestio ­ n am en to p o deria ap o n tar para a diluição dos p arad ig m as racionais e seria um sin­

to m a da crise da razão. A razão triu n ­ fou, m as o seu triunfo gerou um efeito bum erangue, p ois voltou-se contra a pró­ pria razão. E sta ex clu iu a revelação h is­ tórica de D eus e sua intervenção com o possib ilid ad e a ser pensada.

Hoje vem os a im plosão dos grandes sistem as filosóficos e teológicos. O s seus e d i f í c i o s a r q u i t e t o n i c a m e n t e b e m co n stru íd o s ru íra m , e na esteira disso en contram o-nos na crise das instituições religiosas h istó ricas que edificaram seus co n teú d o s de vid a e de fé a p artir da ra­ zão p ositiva. Em m eio à crise dos m o d e­ los racionais d e explicação da realidade, volta-se à p erg u n ta pelo religioso. Isto acontece em p len a era das luzes, ou seja, na era do do m ín io da razão 2.

A o invés da busca p o r conceitos e idéias a respeito de D eus, p ro cu ra-se a experiên cia com D eus. Segundo a visão religiosa da no ssa época, essa ex p eriên ­ cia som ente seria possível se os d ogm as - tid o s co m o b arreiras p ara a ex p eriên ­ cia com D eus - fossem derrubados. N es­ te contexto, a P alavra revelada é vista com o um dogm a, assim tam bém a ju s ti­ ficação p o r C risto e a p rim a zia da fé. D este m odo, a o b ra de D eus em C risto com o um a realidade extra nos, fora do ser hum ano, deveria ser superada pela exp eriên cia do Espírito Santo.

1 Cf. K. BO C K M Ü H L, A theism us in d er C hristenheit : A nfechtung und Ü berw indung, 2. Aufl., W uppertal : A ussaat. 1970. p. I 10-142.

: () religioso passa a se r pensado com o possibilidade no m undo das ciências. Não se trata do religioso institucionalizado, mas da experiência religiosa que não se am olda ao s edifícios doutrinários que são fruto do exercício da razão analítica. Cf. W erner H EISEN BER G , F isica e filo so fia , 4. ed., B rasília : U niversidade de Brasilia, 1998,295 p. Cf. Ilya PRIG O G IN E, Isabelle STEN G ERS, Entre o tem po e a eternidade, São Paulo : C om panhia das l etras. 1992. 226 p. Cf. F ritjo f CA PR A , O p o n to de m utação, 7. ed., São Paulo : C ultrix, 1988, p. 380-410.

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1 - A busca por experiências imediatas do divino

P arece-m e que o m ovim ento caris­

m ático cham a a atenção para a realidade da ex p eriên cia com Deus. Talvez esta q uestão não tenha sido suficientem ente enfatizad a nas igrejas históricas. A p re ­ g ação cedeu lugar a palestras sobre te x ­ to s bíblicos, em prejuízo do cham ado pessoal de D eus ao ser hum ano. D eve­ m o s o u v ir essa crítica d irig id a d ireta­ m ente a nós luteranos, que historicam en­ te estivem os p ró x im o s do ilum inism o. D iante disso, perguntam os: o que Lute- ro pensava e pregava sobre o Espírito Santo?

N o estudo de Regin P renter intitu­ lado Spiritus C reator, fica claro que, para Lutero, havia um a relação intrínseca e n ­ tre o Espírito Santo e a ex periência com C risto . E ntretan to , a c o m p re en sã o de ex p eriência estava diretam ente ligada a um outro tipo de experiência, aquele da tentação. Esta coloca a fé à prova, q u es­ tionando se a fé é som ente pro d u to da im aginação, da fantasia, de palavras e p en sam en to s vazios (E inbildung-B ild) ou se a fé é realidade. D este m odo, na tentação, o Espírito Santo concede a cer­ teza de que a fé é autêntica.

E im portante que a ex periência da fé não seja som ente notitia e a sse n su s, para falar com a ortodoxia luterana. A fé tam bém é ex p eriência subjetiva, p o is a pessoa hum ana é d iretam ente atingida pela salvação de Deus, sendo que a ju s ­ tificação aconteceu para m im p esso al­

m e n te'. E ntretanto, a ju stifica çã o não é um acontecim ento restrito à in teriorida­ de, lim itada ao sentim ento religioso, mas acontece na história hum ana, m ediada pelo C risto encarnado.

Para Lutero, diferentem ente dos en ­ tusiastas, im portantes são as m ediações do Espírito S anto na ex p eriência com C risto, pois o Espírito sem pre vem m e­ d iado pelo C risto encarnado e po r m eio da Palavra. N o hom em Jesus, no cru ci­ ficado, vem os o D eus concreto, o co ra­ ção do Pai. N ão vem os o Pai no C risto transcendente, m as o vem os no hom em histórico Jesus de N azaré.

N as te ses 19 e 2 0 do “ D ebate de H eildelberg” L utero diz assim : “ N ão se pode d esig n ar cond ig n am en te de te ó lo ­ go quem enxerga as coisas invisíveis de Deus co m preendendo-as po r interm édio d aquelas que estão feitas; m as sim quem co m preende as coisas visíveis e po steri­ ores de D eus en xergando-as pelos so fri­ m entos e pela cruz.” 4

A o fala r c o n tra o s e n tu sia sta s , o refo rm ad o r afirm a a prim azia das coisas externas que devem ser sucedidas pelas internas. Segundo ele, os entusiastas sub­ vertem a ordem de D eus, colocando as coisas internas an tes das externas. De fato, eles propõem a superação das ex­ ternas pelas internas. Lutero diz que o E spírito ag e q u an d o e o nde q u e r p o r m eio da sua Palavra externa, ou seja, a fé ju stifica d o ra não é obra hum ana, m as

1 Cf. Regin PRENTIiR, Spiritus C r e a to r: Studien zu Luthers Teologie, M ünchen : Chr. Kaiser, 1954. p. 67-8.

4 M artinho LUTERO. O Debate de Heidelberg [D isputatio Heidelbergae habita], in: O h m s seleciona­ das : os primórdios: escritos de 1517 a 1519, São l eopoldo-Porto Alegre : Sinodal-C oncórdia, 1987. v. I, p. 49.

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de Deus so m en te'. A negação das m ed i­ ações significaria a ruptura com a T rin­ dade, pois negar-se-ia o Pai, com o cria­ dor, e se rom peria com a encarnação h is­ tórica do Filho do Pai.

C o n clu in d o : a fé, para L utero, só vem p o r m eio da m ediação da Palavra, que não transm ite um a verdade ab stra ­ ta. E la é doação pessoal de D eus, é in­ terpelação, cham am ento e prom essa. Na

com p reen são de Lutero são im p o rtan tes dois princípios: a Palavra da E scritura e a experiência de fé. Esses prin cíp io s in ­ separáveis, para Lutero, foram se p ara­ dos pelo p rotestantism o posterior. O ra- cionalism o, a teo lo g ia liberal e setores do avivam ento elim inaram as m ediações em favor da experiência no in te rio r da consciência n atu ral6.

2 - A presença do Espírito Santo na criação

Em que m edida o Espírito S anto do

Pai e do Filho está ligado às coisas ex ­ ternas, m ateriais, lim itadas, ao âm bito da criação?

Sem dúvida, o Espírito Santo é dado para a renovação da face da Terra, vivi­ fica n d o a vegetação. T rata-se de um a dim ensão histórica e ec ológica da cria ­ ç ã o 7. Q u an d o D eus coloca o esp írito de vida no ser hum ano (Gn 2.7), aqui é c o n ­ ferido o dom do Espírito ao ser hum ano. A lém disso, é o utorgada ao ser h um an o a sa bedoria (D t 34.9), capacidade cria ti­ va nas artes, de h abilidade no co n h e c i­ m ento, na inteligência (Êx 31.3; 35.31). O E spírito do Pai en co n tra-se na luz da inteligência e sabedoria ( Dn 5.14), com o no carism a dos g o v ern o s8.

N a criação , o L o g o s e o E sp írito atuam ju n to s, tanto que a palavra c ria ­ d o ra é o princípio cria d o r e o E spírito é o p rincípio de m ovim ento e de vid a da criação. No eschaton, o Espírito é a q u e ­ le que introduz a criação na co m u n h ão da T rindade9.

Lutero diz que a o bra do E spírito Santo, sendo ele o vín cu lo do am o r na Trindade, é de g uardar e sustentar a c ria ­ ção. L utero não lim ita a ação do E spíri­ to Santo ao âm bito do religioso, m as fala da ação cósm ica do E spírito Santo. O m undo, para o reform ador, não tem a u ­ to n o m ia diante de D eus, p o is o E spírito que age no batism o e que consola na p ro ­ vação é o m esm o que p roporciona a vida c o rp o ra l10.

' Cf. Regin PREN TER, op. cit., p. 248-49.

" Cf. Isidro G A R CIA TATO. En to m o a la doctrina trinitaria en l.utero y su evolución en la teologia protestante posterior. D iálogo E cum énico, Salam anca, n. 63, p. 25-7. 1984.

C'f. Wollhart PANNENBERG, System atische Theologie, G öttingen : Vandenhoeck & Ruprecht, 1988, v . l . p. 295.

* Cf. id., ibid., v. 3, p. 2 1. " Cf. ibid., v. 3, p. 16.

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Além disso, vem os as observações teológicas de Lutero corro b o rad as pelo testem unho bíblico. No A ntigo T esta­ m ento vê-se a relação entre o D abar e o Ruah, pois através de am bos D eus cria. Tanto que no SI 33.6, segundo a Biblia H ebraica S tu ttg a rte n sia , tem os o p ara­ lelism o de m em bros entre os dois ter­ m os m encionados acim a. Há no SI 33.9 ligação com Gn 1.3s., sendo que am bos os textos afirm am a dinâm ica e o p o d er cria d o r da palavra de D eus".

No contexto do Salm o 104, que se­ gue a cosm ologia do texto de G n 1, fala- se da ação criadora do E spírito de Deus. Além disso, D eus cria e sustenta a vida ao en v iaro seu sopro criador(S I 104.30). Assim com o D eus cria, B a ra h , o univer­ so, ele tam bém cria “ um coração pu ro ” .

Portanto, a ju stificação do p ecad o r é um ato soberano e exclusivo de D eus, a n á­ logo àquilo que aconteceu na gên ese do universo (SI 51.12).

No testem unho bíblico e na R efor­ m a tem os, assim , um a co n tinuidade en ­ tre a experiência do Espírito, a experiên­ cia de Cristo e a experiência do Pai, com o cria d o r do céu e da terra. De outro lado, há o risco de as m ediações serem sacra- lizadas, quando elas forem vistas com o a p ró p ria revelação e não m ais com o m ediação de salvação. Vemos isso ac o n ­ tecer, ao longo da h istória da teologia, quando a consciência, a exp eriên cia re­ ligiosa, a história hum ana, o sentim ento de dependência últim a ou estru tu ras so­ ciais ju sta s forem co lo cad o s ao lado ou no lugar da Revelação.

3 - A continuidade entre criação e salvação

Para Schleierm acher, não há Deus

sem o m undo e o m undo não existe sem Deus. E, na m edida em que há a co n s­ ciência da existência de um nexo causal com a natureza, h á a p ossibilidade de o ser hum an o se elevar à consciência có s­ m ica. N esta concepção, o p onto de liga­ ção entre a criação e a redenção está no sen tim en to de d ep e n d ên c ia últim a do co sm o s1-1. A postura de Hegel não é m ui­ to d iferen te dessa de S ch leierm ach er, pois para Hegel D eus e o m undo são qualitativam ente a m esm a coisa. Isto é

reafirm ado ao d izer que D eus é D eus na m edida em que se pressupõe o m undo.

C om o já disse, o p roblem a se co lo ­ ca em dois pontos: q u ando a ex p e riên ­ cia dispensa as m ediações ou q uando a elas são creditadas qualidades salvíficas. N este últim o caso, não se observam su­ ficientem ente as lim itações d as m e d ia­ ções. Elas são co n sid erad a s salvíficas nelas m esm as. É necessário ver que a salvação está em Jesus C risto e não nas m ed iaçõ es externas. C ontudo, falando dialeticam ente, a analogia entis é o

ca-11 C'f. Hans-Joachim KRAUS, Psalmen, 4. durchges. ergänzte Aufl., Berlin : Evangelische Verlagsanstalt. 1972(1961). v. 1, p. 263.

i; Cf. Friedrich SCHl.F.IF.RMACHF.R, D er christliche G laube : 1821-1822. Berlin : W alter de G m yter. 1984. v. I . p. 49, 173-75.

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m inho privilegiado de D eus se m anifes­ tar. Essa m anifestação acontece pela his­ tória, pela m atéria, pelas coisas criacio- nais, com o o pão, o vinho, a água, as palavras hum anas, ou seja, pela analo­ gia entis.

N o entanto, elas não são o co n teú ­ do, a essência da salvação. Elas não são o d ivino nem tam pouco o D eus Pai, Fi­ lho e Espírito Santo. São, som ente, m e­ diaçõ es privilegiadas do falar e do agir do Deus triúno. Na dialética de lei e evan­ gelh o , os elem entos criacionais, a m até­ ria com o m ediação ainda não é evange­ lho, m as perm anece sendo lei. Portanto, e s te s, p o r si m esm o s, n ão têm p o d e r salvífico.

Por analogia, p o d em o s dizer que as letras, as palavras que com põem a Es­ c r itu r a n ão são sa lv ífíc a s , in c lu in d o aq u e la s palavras que descrevem D eus, a e te rn id a d e , a sa lv aç ão , o m isté rio da en carn ação , a cruz, a ressurreição. Por si só, elas são m áscaras de D eus, que, se g u n d o L utero, é tudo aquilo que ev i­ d e n c ia e p rom ove a vida hum ana e dá sustentação à criação. Na sua autocom u- n icação, D eus se utiliza de palavras, de sím b o lo s hum anos, da m atéria, que são eq u ív o co s e frágeis. E ntretanto, a reve­

lação do evangelho da salvação está em Jesus C risto. Este não é m áscara, m as nele vem os o rosto do Pai.

N a teologia de Lutero, D eus assu ­ m e m áscaras com o intuito de se ap ro x i­ m a r dos seres hum anos, de tal m aneira que a criação e a h istória da h u m a n id a­ de são m áscaras de Deus. Ele se m a sca­ ra no trabalho criativo do ser hum ano. A s atividades hum anas, com o as p ro fis­ sões, o m a trim ô n io e o reg im en to do m u n d o são e s sa s m á sc a ra s de D eus. A lém disso, contam -se a com ida, a b e­ bida, o vestuário, a capacid ad e de p ro ­ criação com o “larvas” de Deus. Tam bém a Palavra, o M inistério e o S erviço são m áscaras.

Para Lutero, a palavra de D eus abre os olhos para a realidade m ascarad a de Deus. A ssim , a presença atuante de D eus no m undo, escondida atrás de suas “ lar­ vas” , é d escortinada pela revelação da P a la v ra . E n tre ta n to , p a ra a te o lo g ia carism ática, o ser hum ano tem acesso ao D eu s revelado p ela e x p e riên c ia do eu piedoso, que é um a experiência do m u n ­ do. D este m odo, a exp eriên cia do m u n ­ do - a experiência do eu piedoso - é co n ­ dição e é p ossibilidade para a ex p e riên ­ cia de Deus.

4 - A negação da matéria

P o d e r-se -ia p e n s a r q u e, na c o m ­

p re e n sã o d os m ovim entos carism áticos, a era do Espírito suprim e as m ediações h istó ric as e pessoais. A gora, a relação co m o div in o não é m ediada, m as ac o n ­ te ce de fo rm a im ediata. T ratar-se-ia da elim in ação d as m ediações históricas e m ateriais em favor da união entre o ter­ reno e o divino, D eus e a pessoa h u m a­

n a ? N essa c o m p re e n s ã o , o E sp írito , com o presença do divino, seria c o n c eb i­ do com o em anação de um a energia que perpassa o cosm os.

E im portante dizer que esse foi um p ro b lem a com o qual a Igreja A ntiga foi confrontada. No C oncílio de C o n stan ti­ nopla se afirm ou que o Espírito S anto é um a pessoa divina, pois vigorava a

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con-ccpção a respeito do E spírito com o sen­ do um a em anação de energia divina. A idéia dos g ru p o s gnósticos de tradição judaica que se im punha, derivada de Si- m ão, o m ago (A t 8), entendia que o Es­ pírito não era um a pessoa divina.

Assim , observam os que a afirm ação do C oncílio foi fundam ental para dizer qu e a experiência do E spírito é a ex p e­ riência com um a p essoa divina concreta com o alteridade fora do ser hum ano. De q ualquer form a, a p roposição do C oncí­ lio foi conquistada diante do pano de fun­ do da questão da ex p eriência e da co n ­ cepção equivocada do E spírito Santo. Para o s gnósticos, há identificação entre o hom em gnóstico e o conhecim ento da v e rd a d e d iv in a , p o is p re s s u p õ e -s e a c o n s u b sta n c ia lid a d e da alm a h u m a n a com o Espírito.

O bservam os que no Sím bolo N ice- n o -C onstantinopolitano o Espírito S an­ to é denom inado de ho K yrios, afirm an­ do-se assim a sua divindade. Inclusive, este é um título que designa Jesus C ris­ to, pois ele é ho Kyrios. Foi necessário que se afirm asse que o Espírito é Deus, sendo que ele não é só o dom da vida, m as o d o ad o r da vida. O C oncilio q u er a firm a r q u e o E spírito S a n to é Deus, um a pessoa divina com o o são o Pai e o Filho, rejeitando a possibilidade de se fa­ lar dele com o se fosse um a criatura do P ai13.

Joaquim de Fiore (1130-1202), ao refletir sobre a obra do Espírito Santo,

abarca a perspectiva universal da pneu- m atologia. N este sentido, na c o m p re en ­ são do teólogo calabrês, as m ediações h is tó ric a s , p e s s o a is e m a te r ia is são abolidas p orque o divino será ap reen d i­ do de form a im ediata e intuitiva. Essa “ era” está para se m anifestar, em bora o E spírito se fizesse p re se n te de form a velada na p rim eira “era” , que é aquela do Pai, a da lei. Na segunda “ era ” , a do Filho, o Espírito se fez presente; ela é d en o m in ad a po r Joaquim de Fiore de “ era” da graça. De q ualquer form a, é sig­ nificativo que a “era” do Espírito foi des­ crita po r Fiore com o sendo aquela da ausência do livro, d ispensando figuras, caracterizada pela ausência do corporal14. A ssim - sem elhantem ente ao m ovi­ m ento gnóstico e à com preensão de Fiore - o m ovim ento carism ático veria o Es­ pírito Santo com o um a energia cósm ica consubstanciai com o espírito hum ano? N esse sentido, haveria continuidade, sem rupturas, entre a criação, que é o eu p ie­ doso, e o Espírito Santo?

No carism atism o contem porâneo, há um a nítida te ndência à negação da cria­ ção. Essa negação passa pela identifica­ ção da salvação com as m ediações da criação. Em um prim eiro m om ento, p a­ rece que essa análise encerra um a g ro­ tesca contradição. N o entanto, vale d i­ ze r que a n egação da m atéria p ro p o rcio ­ na as condições e as possibilidades para tran sfo rm ar o criacional em conteúdo salvífico. C ontudo, não é o m undo - a

1 ’ C’f. H. DENZING ER, Enchiridion sym bolonim definitionum et declarationum de rebusfidei et morum, 37. Aufl., Freiburg im Breisgau : Herder, 1991, p. 150. Cf. W. KASPER, Der G ott Jesu Christi, p. 263.

14 Cf. J. M O IT M A N N , C hristliche Hoffnung: M essianisch o d er transzendent? : Ein theologisches G espräch mit Joachim von Fiore und Thomas von A quin, in: In d er G eschichte d es dreieinigen d o lles : Beiträge zu r trinitarischen Theologie, M ünchen : Chr. Kaiser, 1991, p. 142-43.

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m atéria, que na visão carism ática é m á e que deve ser superada - , m as o coração p iedoso que passa a ser o lu g a r da sínte­ se entre D eus e o ser hum ano, entre o céu e a terra, entre o tem po e a etern id a­ de. E sta m o s d ia n te da sín tese en tre a alm a p ie d o sa e o D eus eterno. Esta ta m ­ bém é a síntese hegeliana, a síntese

gnós-tica e a síntese carism ágnós-tica, e tan tas o u ­ tras sínteses. C ostum o dizer aos m eus es­ tudantes: “ D esconfiem de todas as sín ­ te ses que diluem a lógica do p aradoxo b íb lic o , e x p re ssa p ela c o n tin u id a d e e desco n tin u id ad e, lei e evangelho, ju sto e pecador, verdadeiro hom em e verd a­ deiro D eus” .

5 - A estrutura fundamental da experiência

do Espírito Santo

N o m eu entendim ento, a ex p e riên ­ cia salvífica de Deus não p ode ser h au ­ rida do in terior das estruturas ô nticas do m u n d o nem do eu piedoso. Tam bém é fundam ental ver que a criação foi c h a­ m ad a à vida p ela palavra de D eus e a red en ção , que é a nova criação, é an u n ­ ciada p ela m esm a Palavra. A presença criadora de D eus está no m undo. A p re ­ sença redentora está na Palavra e no Es­ pírito de Deus. T rata-se da p rese n ça do m esm o Deus.

E ntendem os, outrossim , que a expe­ riên cia de D eus é fundam ental. Todavia, essa exp eriên cia é m ediada pelo escâ n ­ dalo da Palavra da cruz (1 Co 1.18-31). Ali C risto está presente, e não na ex p e­ riência do coração piedoso. Deste m odo, o C risto p resen te, o E spírito S anto, é apreen d id o pela fé.

C ontudo, a experiência de fé vem pela experiência da Palavra criadora e re­ d entora de D eus, que se nos apresenta co m o lei e evangelho. A Palavra é infor­ m ação e é p ro clam ação da lei e do evan­ gelho, que suscita vida nova. F undam en­ tal para a com preensão de lei e ev an g e­ lho é que a Palavra não deixa o ouvinte neutro d iante da realidade de Deus. Esta

ex ig e aceitação , que significa vida. A rejeição da Palavra representa m orte eter­ na. Para Lutero, a dialética de lei e evan­ g elho é fundam ental para a correta co m ­ preensão da Escritura. Segundo ele, o Es­ pírito Santo sem pre atua na Palavra com o lei e evangelho.

A Palavra m ed iad a - que se m ostra n a m atéria e na história, a exem plo da pessoa de Jesus, da E scritura, dos e le ­ m e n to s constitutivos dos sacram entos — é o m eio privilegiado de D eus se reve­ lar. N eles tem os os critérios para o d is­ cernim ento espiritual, o que é fundam en­ tal para a certeza e a esperança da fé. A certeza d a fé não vem do nosso coração, m as vem de fora, sem pre de fora. A qui está a dim ensão da prom essa de D eus, qu e está colo cad a fora de n ós m esm os. E xem plo disso é o batism o com o p ro ­ m essa e ação soberana de Deus. A p ro ­ m essa sem pre é prom essa de ju íz o e de graça.

De q u alq u er form a, a continuidade não só dilui a relação de alteridade das P essoas da T rindade, com o tam bém a p a­ ga a relação de G egenüber entre C risto e o m undo e o Espírito Santo e o m u n ­ do. N a te o lo g ia de L utero, o E spírito

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Santo não é um a energia divina, m as é Deus pessoal. N este sentido, segundo L utero, som ente o E spirito de Deus é d enom inado Espírito Santo, em d istin­ ção dos ou tro s espíritos, a exem plo do espírito hum ano, dos espíritos celestes e do espírito m aligno. Portanto, o E spíri­ to é um D eus pessoal que se faz p resen ­ te o nde C risto é p re g a d o 15.

O ju íz o crítico que D eus faz sobre o m u n d o atinge toda a existência hum ana, inclusive nossa ex p eriência piedosa de “tu rb in a m e n to ” e s p iritu a l. A c ria ç ã o com o um todo enco n tra-se sob o d esti­ no da m orte. T erem os então o ju íz o de Deus sobre a totalidade do cosm os. M es­ m o que o m undo esteja sob o sinal do juízo, D eus tem o cosm os com o objeto do seu a m o r e do seu cuidado. Deste m odo, a graça de D eus não aniquila o m undo - com o tam bém não o com pleta - , m as o conserva.

Em Lutero, a experiência do Deus triúno, densificado pela pessoa do E spí­ rito Santo, som ente é legítim a na m ed i­ da em que fo r um a ex p eriência a d extra, Deus se dirigindo para o m undo e não o se r h u m a n o a g in d o p a ra sa tisfa z e r a Deus. Essa experiência está carregada de transform ações, pois o Espírito volta os olhos do crente p ara ações concretas em favor do pró x im o e do m undo. A s obras do E spírito não buscam os favores de D eus, m as p articipam das atividades de D eus no m undo. A experiência do Espí­ rito do Pai e do Filho revela a ju stiç a no C rucificado e R essuscitado e rem ete o crente ao m undo, que foi criado pelo Pai, com o Filho, na força do Espírito Santo.

Portanto, o E spírito não nega a cria­ ção, que é o palco no qual os d ons do Espírito S anto são exercitados. C rem os na realidade co ncreta do Espírito Santo, com o presença do Filho e do Pai na sua Igreja, revelado pela sua Palavra, e no m u n d o , de fo rm a abscô n d ita. O n d e o E spírito age há entusiasm o, que signifi­ ca estar cheio de Deus (en-thousiasm os) e cheio do Espírito, B egeistening. Isso se m ostra nos dons, na alegria, na c a p a­ cidade criativa, no am or à vida, no en ­ gajam ento pela ju stiça , no am or aos ini­ m igos a partir da ex p eriência da cruz e da ressurreição. O entusiasm o que vem do Espírito do Pai e do Filho está volta­ do p ara as coisas ordinárias, que p erte n ­ cem ao âm bito da criação, e não ao ex­ traordinário, em prim eiro lugar, que su­ pera as ordens, o ordinário, criado po r Deus.

Im porta estar aberto ao agir do Es­ pírito não com o um “d eu s” dissociado do Pai e do Filho, m as com o presença do D eus triúno entre h o m en s e m u lh e­ res que se subm etem à crise da sua P ala­ vra com o lei e que ouvem e ex p e rim en ­ tam a graça p roclam ada pelo evangelho. N a filosofia do C entro de E nsino T eológico (C E T E O L ) consta o seguin­ te:

Pela ação do Espírito Santo, a Es­ critura nos revela o Deus triúno, Pai, Filho e Espírito Santo, presente de form a abscôndita (oculta) na cria­ ção e na história - e m anifestado na pessoa de Jesus Cristo. D eus, atra­ vés da terceira pessoa da T rindade

-'' Isso é corroborado pela explicação de I utero do Terceiro Artigo. Cf. M artinho I.IJTKRO. Catecism o M aior, in: Os catecism os. São L eopoldo : Sinodal. 1983, p. 4 5 1 -53.

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o Espírito Santo - concede d ons e s­ pirituais a todos aqueles que crêem em Jesus Cristo, buscando a ed ifi­ cação e a união do C orpo de C risto, a sua Igreja. O s dons e x tra o rd in á­ rios - o falar em línguas, cu ra s e v i­ sões - devem ser su b m etid o s ao j u l ­ gam ento da Palavra de D eus e da com unidade cristã. Estes d ons não

são exigidos com o prova de au ten ­ ticidade da fé. E ntretanto, os dons necessários para a vida cristã são: a fé, a esperança e o am or.

E uler R. W estphal C ETEO L C aixa Postal 329 8 9 290-000 São Bento do Sul - SC

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