Medicamentos e suas interações em
idosos vestibulopatas
Drugs and their interactions in elderly
with vestibular diseases
Resumo
Objetivo: Investigar o uso de medicamentos e suas interações
farmacológicas em um grupo de idosos vestibulopatas. Material e
Método: O estudo foi retrospectivo e descritivo realizado no
Laboratório de Pesquisa em Reabilitação do Equilíbrio Corporal e Inclusão Social, da Universidade Anhanguera de São Paulo. Envolveu o levantamento de dados sociodemográficos, sintomas vestibulares e uso de medicamentos nos prontuários de 87 idosos (N = 87), de ambos os gêneros, atendidos no referido Laboratório de Pesquisa, em 2011. Resultado e Discussão: Os resultados envolveram 71 mulheres (82%) e 16 homens (18%); de 60 a 87 anos, e 70% com nível fundamental de escolaridade. Todos os idosos apresentavam um ou mais sintomas vestibulares (tontura, vertigem, zumbido e/ou perda auditiva) e 46% utilizavam de 1 a 3 fármacos. Os fármacos mais relatados foram: anti-hipertensivos (56%), psicofármacos (23%), diuréticos (22%), cálcio (19%), antidiabéticos (17%), hormônios tireoidianos (14%), antivertiginosos (10%) e antiarrítmicos (9%). De 93% dos idosos que utilizavam 2 ou mais fármacos, 64% deles apresentaram algum tipo de interação, cujos efeitos indesejáveis mais frequentes foram: risco de toxicidades variadas; redução (ou risco de redução) de efeitos terapêuticos de fármacos variados; risco de falência renal (ou agravação) da insuficiência renal; ocorrência (ou aumento) de hiperglicemia, hiponatremia e hipoglicemia, e ocorrência de arritmias cardíacas.
Conclusão: As interações medicamentosas aqui identificadas são
relevantes e podem sugerir mais complicações para a saúde, exigindo maior atenção e cuidado durante o tratamento farmacológico e a reabilitação do equilíbrio corporal desses idosos vestibulopatas.
Palavras-chave: Uso de medicamentos. Interações de medicamentos. Doenças vestibulares. Saúde do idoso.
Célia Aparecida Paulino1
1 Professora Doutora do Programa
de Mestrado Profissional em Reabilitação do Equilíbrio Corporal e Inclusão Social da Universidade Anhanguera de São Paulo.
Autor para correspondência:
Célia Aparecida Paulino
Endereço postal: Rua Maria Cândida, 1813
São Paulo - SP
CEP: 02.071-013
Introdução
O uso de medicamentos é um recurso terapêutico comum em todas as faixas etárias e, na população idosa, é ainda maior em razão do aumento das doenças que surgem com o avanço da idade e suas respectivas complicações. O envelhecimento leva a doenças crônico-degenerativas resultantes da perda contínua da função de órgãos e sistemas biológicos, gerando incapacidades funcionais nos idosos.1 Este processo também vem acompanhado de mudanças do ponto de social, econômico e familiar, as quais geram medo e insegurança, além de alterações nos aspectos funcional, mental e social, que resultam em muito mais doenças para os idosos.2
De acordo com Simoceli et al.3, as alterações do equilíbrio corporal são as queixas mais comuns da população idosa e pode ocorrer mais de uma etiologia relacionada a esse quadro clínico, como: alterações vasculares, doenças psiquiátricas, doenças cervicais, alterações do metabolismo de glicose e colesterol, e outras.
Segundo Beyth e Shorr4, para o tratamento das doenças crônico-degenerativas é comum o uso mais intenso e frequente de medicamentos pelos idosos, que são os principais consumidores e os maiores beneficiários da farmacoterapia moderna; é descrito que mais de 80% dos idosos consomem no mínimo um medicamento, diariamente.
Esses dados são corroborados por Mosegui et al.5, que descreveram a população idosa como o grupo etário mais medicalizado na sociedade e por Bortolon et al.6 e Secoli7, que apontaram os idosos como o grupo etário mais exposto à polifarmacoterapia.
É grande o número de idosos que dependem de algum tipo de medicamento para doenças crônicas, e nem sempre com o devido e rigoroso acompanhamento médico para observar seus efeitos colaterais.8 Nete sentido, a questão da terapêutica plurimedicamentosa em idosos é complexa, já que, dos medicamentos prescritos para pacientes geriátricos, a grande maioria é contra-indicação.9
Ainda, o uso da polifármácia frequentemente observado entre idosos, associa-se a reações adversas a medicamentos e a possíveis interações medicamentosas, cujo impacto na saúde do idoso não pode ser desprezado.7 Por tudo isso, embora o estudo sobre o uso de medicamentos em idosos seja bastante comum, as análises das possíveis interações entre seus fármacos e os efeitos dela decorrentes são mais difíceis de serem realizadas e, portanto, menos frequentes, sobretudo em idosos vestibulopatas.
Objetivo
Investigar o uso de medicamentos por idosos vestibulopatas, identificando seus fármacos e as eventuais interações farmacológicas entre eles.
Material e Método
O estudo foi do tipo retrospectivo e descritivo, com abordagem quantitativa, realizado nas dependências do Laboratório de Pesquisa em Reabilitação do
P a u lin o , 2 0 1 2
Equilíbrio Corporal e Inclusão Social da Universidade Anhanguera de São Paulo, unidade Maria Cândida, São Paulo.
A pesquisa envolveu 87 prontuários (N = 87) de idosos atendidos no referido Laboratório, no período de Janeiro a Dezembro de 2011. Os prontuários foram selecionados de acordo com os seguintes critérios de inclusão dos pacientes: idade maior ou igual a 60 anos; ambos os gêneros; presença de, no mínimo, uma queixa vestibular, e em uso de um ou mais medicamentos. Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Anhanguera de São Paulo (Protocolo nº 146/10). Foi realizado levantamento de alguns dados sociodemográficos (idade, gênero e escolaridade); dos principais sintomas relacionados ao equilíbrio corporal e à audição (tontura, vertigem, zumbido e/ou perda auditiva), e dos medicamentos em uso (ou não) no início do atendimento no referido Laboratório. Sobre o uso de medicamentos, em caso de alguma dúvida sobre a informação no prontuário, foi realizado contato telefônico direto com o paciente ou seu cuidador, para confirmação dos dados relatados.
Todos os medicamentos utilizados pelos idosos foram levantados e seus fármacos (ou princípios ativos) identificados com auxílio do seguinte material bibliográfico de referência em farmacologia e terapêutica: Dicionário de Especialidades Farmacêuticas - DEF Online (2011/2012); Relação Nacional de Medicamentos Essenciais - RENAME (2010); Lista de Medicamentos de Referência - ANVISA (2012), e Vade-Mécum de Medicamentos em CD-ROM (2010-2011). Também foram utilizados, quando necessário, Compêndios Médico-Terapêuticos e sites de referência terapêutica, como o Bulário Eletrônico da ANVISA, entre outros, de acordo com a especificidade de cada medicamento.
Para o estudo das interações medicamentosas foi utilizado o software de interações medicamentosas: The Medical Letter Drug Interactions Program
for Windows (2007) - The Medical Letter - USA®.
Os dados obtidos na pesquisa foram submetidos à análise descritiva, sendo os resultados apresentados como frequências absoluta e relativa, além da descrição dos principais efeitos das interações medicamentosas identificadas.
Resultado e Discussão
Do total da amostra (N = 87) de idosos vestibulopatas, 71 eram mulheres (82%) e 16 homens (18%), como ilustrado na Figura 1.
Figura 1 - Distribuição dos idosos vestibulopatas de acordo com o gênero.
82%
18%
Mulheres Homens
Essa maior quantidade de mulheres revela maior procura pelo atendimento de saúde pelas idosas vestibulopatas e pode sugerir um maior autocuidado das mulheres, quando comparadas com os homens. Resultados semelhantes foram descritos por Paulino e Benedito10 em outro estudo sobre o uso de medicamentos entre idosos vestibulopatas, no qual as mulheres representavam quase 84% dos pacientes idosos avaliados.
Esses achados estão de acordo com o descrito por Vieira11, indicando que a presença de mulheres em programas de atenção à saúde é muito maior, sobretudo quando os serviços envolvem mulheres idosas.
Em adição, Gomes et al.12 revelaram que a adoção de práticas de autocuidado pelos homens é mais difícil, já que o homem é visto como viril, invulnerável e forte, enquanto o autocuidado é visto como uma característica das mulheres, entre varias outras razões, incluindo o medo relacionado à própria saúde.
Em relação à faixa etária, houve uma distribuição maior de idosos nas faixas de 66 a 70 anos (26%), entre 60 a 65 e 76 a 80 anos (24%) e entre 71 a 75 anos (19%). No total, a idade dos idosos variou de 60 a 87 anos, como apresentado na Tabela 1.
Tabela 1 - Faixa etária dos idosos vestibulopatas.
FAIXA ETÁRIA (anos) MULHERES nº (%) HOMENS nº (%) TOTAL nº (%) 60 - 65 18 25,35 3 18,75 21 24,14 66 - 70 18 25,35 5 31,25 23 26,44 71 - 75 13 18,31 4 25,00 17 19,54 76 - 80 17 23,94 4 25,00 21 24,14 81 - 85 4 5,63 - - 4 4,60 Igual a 87 1 1,41 - - 1 1,15 TOTAL 71 100,00 16 100,00 87 100,00
No que se refere ao nível de escolaridade dos idosos, a maioria possuía ensino fundamental (70%), sobretudo os homens (75%). Uma parte deles possuía ensino médio (16%), especialmente as mulheres (18%), e ensino superior (6%), sobretudo os homens (19%). Ainda, 5 idosas não informaram sua escolaridade. Os dados estão apresentados na Tabela 2.
Os resultados aqui obtidos são corroborados por aqueles do estudo de Bortoloni et al.6 mostrando que, na sua maioria, mulheres idosas que se automedicavam, apresentavam baixa escolaridade, além possuírem uma renda menor ou igual a um salário mínimo.
Em adição, Howard et al.13 relataram a importância da alfabetização sobre as condições de saúde de idosos, entre outras características, sobretudo porque o conhecimento do idoso pode estar ligado a um aumento dos seus cuidados preventivos.
Tabela 2 - Nível de escolaridade dos idosos vestibulopatas.
NÍVEL DE ESCOLARIDADE DOS IDOSOS
GÊNERO ENSINO FUNDAMENTAL n / (%) ENSINO MÉDIO n / (%) ENSINO SUPERIOR n / (%) NÃO INFORMADO n / (%) MULHERES (n = 71) 54 (68%) 14 (18%) 3 (4%) 5 (6%) HOMENS (n = 16) 12 (75%) 1 (6%) 3 (19%) - TOTAL (N = 87) 66 (70%) 15 (16%) 6 (6%) 5 (5%)
No que se refere aos sintomas vestibulares dos idosos, foram relatados: vertigem (78%), zumbido (55%), tontura (49%) e perda auditiva (45%). A vertigem foi o sintoma mais frequente nas mulheres (79%) e nos homens (75%). O zumbido foi mais relatado pelas mulheres e a perda auditiva pelos homens (56% em ambos os sintomas). Tais resultados estão apresentados na Tabela 3.
A tontura do tipo rotatória (vertigem) foi o sintoma mais frequente nos idosos, concordando com o estudo de Felipe et al.14, que destacou a alta prevalência de tontura entre idosos, que pode estar associada a várias causas e ter origem no sistema vestibular.
Do mesmo modo, pesquisa de Gazzola et al.15 mostrou que a grande maioria dos idosos vestibulopatas, todos com queixas de tontura, faziam uso de algum medicamento, com uma média de 3,86 medicamentos por paciente, talvez pelo maior comprometimento de saúde desses idosos. É descrito que o uso concomitante de cinco ou mais fármacos está associado ao maior risco de tontura em indivíduos idosos.16
Em concordância, pesquisa anterior com mulheres idosas vestibulopatas, idade entre 60 a 84 anos, mostrou que a tontura e vertigem foram as queixas vestibulares das mais frequentes, associadas a outros relatos das idosas.17 Em outro estudo realizado com idosos vestibulopatas, homens e mulheres, idade entre 60 a 80 anos ou mais, os principais sintomas vestibulares relatados foram: tontura, vertigem e zumbido, sendo a tontura a mais prevalente deles.10
Da mesma forma, as maiores frequências de zumbido e perda auditiva vão ao encontro de outra pesquisa, indicando que as alterações fisiológicas dos sistemas nervoso central, vestibular, sensorial e neuro-músculo-esquelético são as que mais comprometem certas funções nos idosos, como, por exemplo, o equilíbrio corporal, já que os sistemas auditivo e vestibular tornam-se mais susceptíveis, favorecendo a alta prevalência de tontura e outros sintomas associados, tais como, perda auditiva e zumbido.14
Por sua vez, o zumbido pode estar associado a diferentes causas, entre elas, as farmacológicas, além das otológicas, metabólicas, neurológicas, cardiovasculares, odontológicas e psicológicas.18
Tabela 3 - Sintomas apresentados pelos idosos vestibulopatas.
SINTOMAS VESTIBULARES DOS IDOSOS
GÊNERO TONTURA n % VERTIGEM n % ZUMBIDO n % PERDA AUDITIVA n % MULHERES (n = 71) 35 49,29 56 78,87 40 56,33 30 42,25 HOMENS (n = 16) 8 50,00 12 75,00 8 50,00 9 56,25 TOTAL (N = 87) 43 49,42 68 78,16 48 55,17 39 44,82
Quanto aos medicamentos, seu uso pelos idosos foi observado entre as mulheres (82%) e os homens (18%). Desses medicamentos, foram identificados os fármacos e a maioria desses idosos (46%) fazia uso de 1 a 3 fármacos (45% pelas mulheres e 50% pelos homens). É importante enfatizar que esses dados são relacionados ao número de fármacos (ou princípios ativos) contidos em cada medicamento. Esses resultados estão apresentados na Tabela 4 e ilustrados na Figura 2.
Com o avanço da idade, a maioria dos indivíduos apresenta um aumento relevante das doenças crônico-degenerativas e, consequentemente, da utilização de múltiplos fármacos.5 Em concordância, é descrito que os idosos que sofrem de doenças crônicas aderem de forma mais intensa à polifarmácia.19
Além disso, de acordo com Galvão20, a presença de múltiplas doenças crônicas em idosos leva a prescrição de medicamentos de variados grupos farmacológicos (ou classes terapêuticas), caracterizando a polifarmácia (ou polimedicação), ou seja, quando há uso simultâneo de muitos medicamentos pelo mesmo indivíduo.
Tabela 4 - Quantidade de fármacos ou princípios ativos utilizada pelos
idosos vestibulopatas.
QUANTIDADE DE FÁRMACOS UTILIZADA GÊNERO 1 - 3 n % 4 - 6 n % 7 - 9 n % 10 - 11 n % TOTAL n % MULHERES (n = 71) 32 45,07 28 39,44 9 12,68 2 2,82 71 81,61 HOMENS (n = 16) 8 50,00 6 37,50 2 12,50 - - 16 18,39 TOTAL (N = 87) 40 45,98 34 39,08 11 12,64 2 2,30 87 100,00
Figura 2 - Quantidade de fármacos utilizada pelos idosos vestibulopatas.
Em relação ao uso geral de medicamentos pelos idosos, a Tabela 5 apresenta as classes terapêuticas mais utilizadas pelos idosos. Dessas, as mais relatadas pelos idosos da pesquisa, em relação ao total da amostra foram: anti-hipertensivos (56%), psicofármacos (23%), diuréticos (22%), cálcio (19%), antidiabéticos (17%), hormônios tireoidianos (14%), antivertiginosos (10%) e antiarrítmicos (9%). O uso de anti-hipertensivos, diuréticos e antidiabéticos foi mais relatado pelos homens (75%, 37% e 25% do total de homens da amostra, respectivamente), assim como o uso de cálcio foi muito maior em mulheres (22%). O uso de psicofármacos só foi relatado pelas mulheres (28% do total de mulheres da amostra).
Tais resultados coincidem em parte com aqueles descritos na literatura17, 21 e revelam que a hipertensão, além de ser bastante comum entre idosos, como referido por Secoli7, é uma das comorbidades mais importantes para os idosos vestibulopatas.
Tabela 5 - Principais grupos farmacológicos utilizados pelos idosos
vestibulopatas. 46% 39% 13% 2% 1% 10% 100% 1 a 3 4 a 6 7 a 9 10 a 12 Número de Fármacos GRUPOS FARMACOLÓGICOS MULHERES n % HOMENS n % TOTAL n % Anti-hipertensivos 37 52,11 12 75,00 49 56,32 Psicofármacos 20 28,17 - - 20 22,99 Diuréticos 13 18,31 6 37,50 19 21,84 Cálcio 16 22,53 1 6,25 17 19,54 Antidiabéticos 11 15,49 4 25,00 15 17,24 Hormônios tireoidianos 9 12,68 3 18,75 12 13,79 Antivertiginosos 7 9,86 2 12,50 9 10,34 Antiarrítmicos 6 8,45 2 12,50 8 9,19
Ainda, como descrito por Terra Brito et al.22, existem diversos fatores relacionados com o aparecimento de distúrbios do aparelho vestibular e/ou auditivo em idosos; dentre eles, o uso de medicamentos e as associações medicamentosas são capazes de produzir iatrogenias importantes, tais como doenças auditivas e vestibulares iatrogênicas. Os medicamentos podem lesar o ouvido interno e causar vertigem ou zumbido e surdez, na dependência da lesão ser, respectivamente, na porção vestibular ou auditiva do oitavo par de nervos craniano.
Muitos medicamentos promovem efeitos irritantes para o sistema vestibular; assim, grande quantidade de labirintopatias é causada pela toxicidade de certos fármacos sobre o labirinto vestibular (ligado ao equilíbrio corporal) e sobre a cóclea (ligada à audição), o que pode comprometer as funções auditivas e vestibulares.23
Sabe-se que o uso de medicamentos pode favorecer o aparecimento de sintomas otoneurológicos e até a ocorrência de quedas em idosos, devido aos efeitos provocados por um único medicamento ou mesmo pela associação medicamentosa.24 Assim, idosos podem desenvolver variadas reações adversas, uma vez que são submetidos a possíveis interações farmacológicas ao utilizarem grande número de medicamentos.25 Neste sentido, segundo Lyra Júnior et al.26, os idosos são vulneráveis a vários problemas de saúde, o que aumenta a possibilidade das interações medicamentosas.
Nesta pesquisa, as análises das interações medicamentosas da pesquisa, mostraram que, do total de 81 idosos (93% da amostra) que utilizavam 2 ou mais fármacos (psicofármacos ou não), 64% deles (mulheres e homens) apresentaram algum tipo de interação.
Com auxílio do software utilizado foram identificados vários efeitos resultantes das interações farmacológicas, sendo os mais frequentes: - risco de toxicidades variadas conforme os fármacos utilizados; - redução dos efeitos hipotensor e anti-hipertensivo; - risco de redução (ou antagonismo) de efeitos terapêuticos de certos fármacos; - risco de falência renal (ou agravação) da insuficiência renal; - ocorrência (ou aumento) de hiperglicemia e redução do efeito hipoglicêmico; - ocorrência de arritmias cardíacas; - ocorrência (ou aumento) de hiponatremia; - ocorrência (ou aumento) da hipoglicemia; - redução da absorção de cálcio e redução do efeito do alendronato, e - redução da absorção de hormônios da tireóide. De acordo com Felipe et al.14, as avaliações clínicas de idosos vestibulopatas devem considerar as queixas, as doenças associadas, os sistemas envolvidos no equilíbrio corporal e suas eventuais limitações, bem como a farmacoterapia, uma vez que, interações medicamentosas também podem interferir na função vestibular.
Nessa direção, além das alterações próprias do envelhecimento, há alterações como doenças hepáticas, renais, gastrintestinais, entre outras que podem contribuir para as interações medicamentosas, como as doenças hepáticas, renais, gastrintestinais, entre outros. Essas interações podem ocorrer em todas as etapas da farmacocinética e da farmacodinâmica, podendo alterar estes processos farmacológicos.27,28
Esses efeitos das interações farmacológicas, aqui descritos, podem comprometer ainda mais a saúde dos idosos vestibulopatas. Segundo Ishizuka29, há necessidade de prescrições medicamentosas mais criteriosas e de maior cuidado no acompanhamento dos efeitos causados pelos medicamentos em idosos. E, como relataram Nóbrega e Karnikowski30, é imprescindível uma atenção especial no uso de medicamentos em idosos,
com o objetivo de reduzir os seus efeitos indesejados e os riscos de interações farmacológicas nesta população.
Assim, não se pode descartar que os efeitos das interações farmacológicas podem causar ou agravar sintomas relacionados ao equilíbrio corporal. Por isso, estudos em andamento poderão avaliar possíveis associações entre os efeitos das interações farmacológicos e os sintomas vestibulares em idosos. Também é importante justificar que essa pesquisa apresenta limitações quanto à análise das interações, já que o software utilizado não contempla certos fármacos, como muitos contidos em medicamentos antivertiginosos e alguns outros, que não puderam ser analisados.
Conclusão
A pesquisa mostrou que o uso da polifarmacoterapia é uma realidade para esses idosos vestibulopatas, seja pelos sintomas relacionados ao equilíbrio corporal, seja pelas comorbidades associadas.
As interações medicamentosas ocorreram na grande maioria dos idosos em uso de dois ou mais fármacos, e seus efeitos indesejáveis podem sugerir maior prejuízo à saúde, incluindo o equilíbrio corporal desses indivíduos. Assim, o uso de medicamentos por idosos vestibulopatas deve merecer especial atenção e cuidado, sobretudo durante o processo de reabilitação vestibular desses pacientes.
Abstract
Purpose: To investigate the use of drugs and their pharmacological
interactions in elderly people with vestibular diseases. Material and
Methods: A retrospective and descriptive study has been carried out at the
Research Laboratory of the Masters Program in Balance Rehabilitation and Social Inclusion of University Anhanguera of São Paulo. The sociodemographic data, vestibular symptoms and the use of drugs reported in the medical records of 87 elderly (N = 87) of both sexes, who were attended at the Research Laboratory in 2011, were evaluated. Results and
Discussion: The results involved 71 women (82%) and 16 males (18%);
60-87 years and 70% with primary education level. All patients reported one or more vestibular symptoms (dizziness, vertigo, tinnitus and/or hearing loss) and 46% of them used 1-3 drugs. The most frequently reported medicines were antihypertensive (56%), psychotropic (23%), diuretic (22%), calcium (19%), antidiabetic (17%), thyroid hormones (14%), antinauseant (10%) and antiarrhythmic (9%). Out of 93% of the elderly who used two or more medicines, 64% of them had some kind of interaction, of which, the most common side effects were: risk of toxicities varied; reduction (or risk reduction) of therapeutic effects of various drugs; risk of renal failure (or worsening) of renal failure; occurrence (or increase) of hyperglycemia, hypoglycemia and hyponatremia, and the occurrence of cardiac arrhythmias.
Conclusion: Drug interactions here identified are relevant and may suggest
further health complications, requiring greater attention and care during the pharmacological treatment and the body balance rehabilitation of these elderly patients.
Keywords: Use of medicines. Drug interactions. Vestibular disorders. Health of the elderly.
Referências
[1] Gordilho EB, Moriguti JC, Rodrigues AL, Ferrioli E. Efeito da reabilitação vestibular sobre a qualidade de vida dos idosos vestibulopatas. Rev Bras Otorrinolaringol. 2001;74(2):172-80.
[2] Barros CGC, Bittar RSM, Bottino MA. Recuperação do equilíbrio corporal. Arq Int Otorrinolaringol. 2007;11(3):278-83.
[3] Simoceli L, Bittar RMS, Bottino MA, Bento RF. Perfil diagnóstico do idoso portador de desequilíbrio corporal: resultados preliminares. Rev Bras Otorrinolaringol. 2003;69(6):772-7.
[4] Beyth RJ, Shorr RI. A terapia medicamentosa no idoso: cuidados na medicação. Ciênc Saúde Coletiva. 1999;10(2):309-13.
[5] Mosegui GBG, Rozenfeld S, Veras RP, Vianna CMM. Avaliação da qualidade do uso de medicamentos em idosos. Rev Saúde Pública. 1999;33(5):82-8.
[6] Bortolon PC, Medeiros EFF, Naves JOS, Karnikowski MGO, Nóbrega OT. Análise do perfil de automedicação em mulheres idosas brasileiras. Ciênc Saúde Coletiva. 2008;13(4):1219-26.
[7] Secoli SR. Polifarmácia: interações e reações adversas no uso de medicamentos por idosos. Rev Brasil Enferm. 2010;63(1):136-40.
[8] Hamra A, Ribeiro MB, Miguel OF. Correlação entre fratura por queda em idosos e uso prévio de medicamentos. Acta Ortop Bras. 2007:15(3):143-5.
[9] Costa LM, Lindolpho MC, Sá SPC, Erbas D, Marques DL, Puppin M, DelatorrE P. O idoso em terapêutica plurimedicamentosa. Ciênc Cuid Saúde. 2004;3(3):261-6.
[10] Paulino CA, Benedito JS. Uso de medicamentos entre pacientes idosos vestibulopatas. Rev RECES. 2011;2:10-22.
[11] Vieira MDCM. Velhice feminina no asilo: do imaginário ao real [tese]. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará; 2001.
[12] Gomes R, Nascimento EF, Araújo FC. Por que os homens buscam menos os serviços de saúde do que as mulheres? As explicações de homens com baixa escolaridade e homens com ensino superior. Cad Saúde
Pública. 2007;23(3):565-74.
[13] Howard DH, Sentell T, Gazmararian JA. Impact of health literacy on socioeconomic and racial differences in health in an elderly population. J Gen Intern Med. 2006;21(8):857-61.
[14] Felipe L, Cunha LCM, Cunha FCM, Cintra MTG, Gonçalves DU. Presbivertigem como causa de tontura no idoso. Pró-Fono Rev Atual Cient. 2008;20(2):99-104.
[15] Gazzola JM, Ganança FF, Aratani MC, Perracini MR, Ganança MM. Caracterização clínica de idosos com disfunção vestibular crônica. Rev Bras Otorrinolaringol. 2006;72(4):515-22.
[16] Tinetti ME, Williams CS, Gill TM. Dizziness among older adults: a possible geriatric syndrome. Ann Intern Med. 2000;132(5):337-44.
[17] Prezotto AO, Paulino CA, Aprile MR. Hábitos de vida, comorbidades e uso de medicamentos em idosas vestibulopatas. Rev RECES. 2010;2:2-15.
[18] Silva BSR, Sousa GB, Russo ICP, Silva JAPR. Caracterização das queixas, tipo de perda auditiva e tratamento de indivíduos idosos atendidos em uma clínica particular de Belém - PA. Arq Int Otorrinolaringol. 2007:11(4):387-95.
[19] Pandolfi MB, Piazzolla LP, Louzada LL. Prevalência de polifarmácia em idosos. Brasília Médica. 2010;47(1):53-8.
[20] Galvão C. O idoso polimedicado - estratégias para melhorar a prescrição. Rev Port Clin Geral. 2006;22(6):747-52.
[21] Marin MJS, Cecílio LCO, Perez AEWUF, Santella F, Silva CBA, Gonçalves Filho JB, Roceti LC. Caracterização do uso de medicamentos entre idosos de uma unidade do Programa Saúde da Família. Cad Saúde Pública. 2008;4(7):1545-55.
[22] Terra Brito CL, Braga WB, Lima DR. Audição e iatrogenia. Rev Bras Otorrinolaringol. 2001;67(2):234-41.
[23] Mangabeira-Albernaz PL. Farmacologia do sistema vestibular. In: Penildon S. Farmacologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2002. p.1250-3.
[24] Jahana KO, Diogo MJDE. Quedas em idosos: principais causas e consequências. Saúde Coletiva (On-line). 2007; 4(17): 148-53.
[25] Bueno CS, Oliveira KR, Berzeli EM, Eickhoff HM, Dallepiane LB, Girardon-Perlini NMO. Utilização de medicamentos e riscos de interações medicamentosas em idosos atendidos pelo programa de atenção ao idoso da Unijuí. Rev Ciên Farmac Básica Apl. 2009;30(3):331-8.
[26] Lyra Júnior DP, Amaral RT, Veiga EV, Cárnio EC, Nogueira MS, Pelá IR. A farmacoterapia no idoso: revisão sobre a abordagem multiprofissional no controle de hipertensão arterial sistêmica. Rev Latino-Am Enfermagem. 2006:14(3):428-34.
[27] Nies A, Spielberg SP. Princípios da terapêutica. In: Hardman JG et al. As bases farmacológicas da terapêutica. Rio de Janeiro: McGraw-Hill Interamericana;1996. p.31-44.
[28] Page C, Curtis M, Sutter M, Walker M, Hoffman B. Farmacocinética e outros fatores que influenciam a ação das drogas. In:___. Farmacologia integrada. São Paulo: Manole; 2004. p.39-55.
[29] Ishizuka MA. Avaliação e comparação dos fatores intrínsecos dos riscos de quedas em idosos com diferentes estados funcionais [dissertação]. Campinas: Faculdade de Educação, Universidade de Campinas; 2003.
[30] Nóbrega OT, Karnikowski MGO. A terapia medicamentosa no idoso: cuidados na medicação. Ciênc Saúde Coletiva. 2005;10(2):309-13.