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O GANG E A ESCOLA (agressão e contra-agressão nas margens de Lisboa)

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O GANG E A ESCOLA

(agressão e contra-agressão nas margens de Lisboa)

Organização, prefácio e posfácio de José Martins Barra da Costa

Edições Colibri

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Costa, Joana Barra da, 1976- , e outro

O gang e a escola : agressão e contra-agressão nas margens de Lisboa / Joana Barra da Costa. Sérgio de Araújo Soares. – (Sociologia & antropologia ; 7)

ISBN 972-772-327-6

I – Soares, Sérgio de Araújo, 1978- CDU 371.212(469.411)

316.64(469.411)

Título: O Gang e a Escola

(agressão e contra-agressão nas margens de Lisboa) Autores: Joana Barra da Costa

e Sérgio de Araújo Soares

Organização, prefácio e posfácio: José Martins Barra da Costa

Editor: Fernando Mão de Ferro

Capa: Ricardo Moita

Tiragem: 1.000 exemplares

Depósito legal n.º 179 572/02 Lisboa, Maio de 2002

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ÍNDICE

Prefácio ... 7

Agradecimentos ... 39

Escola degradada em meio social precário. O caso da Trafaria.

Joana Inês Santana Barra da Costa ... 43

A problemática da segunda geração. O caso da Damaia.

Sérgio Fernando Lopes de Araújo Soares ... 145

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I – Manda a tradição que o organizador apresente aos leitores algu-mas explicações sobre os objectivos do livro e, por vezes, reavalie certos aspectos, como a redefinição das estratégias ou a redução de uma ou outra área, coisas próprias desta aventura. A verdade é que os dois estu-dos que compõem esta obra não me deixaram muita matéria para tratar.

Ainda docente de criminologia no Instituto Superior da Polícia Judi-ciária, tive o prazer de orientar o «caso da Damaia», do oficial da Polícia de Segurança Pública Sérgio de Araújo «Soares; o «caso da Trafaria», de Joana Barra da Costa, actual professora do 2.º ciclo, orientado pela Dr.ª Rita Fava, distinta docente do Instituto Jean Piaget, é um projecto cuja estruturação académica acompanhei por razões meramente pessoais.

Não pude subtrair-me, pois, por um lado, ao convite que os autores, individualmente, me dirigiram para «atacar» este prefácio; por outro lado, ao aceitar o desafio, evitei a eventual dispersão destas reflexões, que têm o mérito não só de analisar práticas e critérios que atravessam o campo social da escola, mas de reflectir sobre o seu uso na formação dos profes-sores, dos polícias, e de todos aqueles, afinal, que colaboram no diagnós-tico de situações de risco e na construção de saberes científicos, escolares e educativos, íntimos das lógicas com que somos permanentemente con-vidados a entender os comportamentos anti-sociais, a agressividade, o dano, enfim, a delinquência juvenil e o fantasma da insegurança.

As ideias que os vários capítulos encerram e o modo como se com-plementam falam melhor do que eu poderia fazer. Cada um dos autores escreveu como melhor entendeu e os textos mantiveram-se, de uma maneira geral, conforme tinham sido concluídos, em meados de 2001, nos termos das respectivas teses de licenciatura. Apenas no que diz res-peito a alguns campos em sobreposição os autores foram convidados a reescrever e adaptar os respectivos capítulos às áreas que o formato exi-gia. Agradeço a boa-vontade com que aceitaram as sugestões e a paciên-cia com que suportaram as revisões e outros pormenores irritantes. Ainda assim, devo protegê-los contra algumas críticas injustificadas, não quanto aos conteúdos, mas quanto à esquematização geral; depois, cumpre-me explicitar, ainda que através de alguma «marginalidade» criativa, o pano de fundo que justifica a criação colectiva deste volume.

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II – O fenómeno da violência e da anti-sociabilidade em meio esco-lar não resulta apenas da fabricação do objecto «insegurança» por parte de campanhas que apelam a medidas repressivas e a um controlo social cada vez mais apertado. A generalização abusiva deste «fantasma» também não justifica a «normalidade» impressionante de alguns cenários reais de selvajaria juvenil. Não colhe, igualmente, a opinião de alguns, professores incluídos, para quem a escola está ilibada de responsabilidades porque ela é «a» vítima das violências sociais. Ou não há violência na escola e tudo não passa de um tabu? Ou será que a violência «na» escola é a violência «da» escola?

Penso que, em qualquer das circunstâncias, a violência é em Portu-gal, como noutros países, um problema extremamente sensível no que diz respeito ao plano político. As últimas eleições têm sido jogadas sobre as questões relativas à segurança e, particularmente, à delinquência juvenil, chegando alguns partidos políticos a colocar nos seus programas, expres-samente, a necessidade de restabelecer a segurança nas escolas.

Diariamente os programas de televisão e os artigos de jornais fazem sensacionalismo à volta deste tema, que apresenta como suporte a deca-dência do discurso educativo, que envolve, essencialmente, a condição das famílias.

Uma das primeiras tarefas dos cientistas é desconstruir esse discurso e tentar analisar essa realidade. Mas, para além destas questões, pura-mente metodológicas, há que perceber a maneira como estas abordagens são aplicadas no terreno e ter em conta que elas podem ser perigosas e estigmatizantes para fatias consideráveis da população, as designadas populações de risco. O importante, contudo, é partir de uma abordagem que privilegie uma combinação de factores implicados no desenvolvi-mento de riscos no comportadesenvolvi-mento.

Por norma é-se convidado a rejeitar o estudo das dificuldades que as crianças e os adolescentes vivem no seio da família, afastando factos «exteriores» que têm a ver, por exemplo, com a organização dos estabele-cimentos de ensino. Causas exógenas – ligadas ao bairro, ao sistema eco-nómico, às carências familiares, às políticas públicas – e causas endóge-nas – inerentes às organizações (e desorganizações) locais, cujos actores são muitas vezes vistos como meros agentes manipulados do exterior por forças em si mesmas perigosas – constituem-se como parte de uma tra-jectória de desenvolvimento que aparece com frequência associada a pro-blemas de comportamento, muitos deles precoces.

Estudos recentes apontam para um conjunto de factores de risco que começam logo na primeira infância, no interior da família, na criança, nas comunidades e na pré-escola. A actividade criminal, as drogodependên-cias e os problemas de saúde mental e de discórdia conjugal têm sido

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apontadas também como causas para explicar esta funcionalidade. Pais pouco disciplinados, extremamente punitivos ou inconsistentes são uma outra face deste «modelo negativo»: não permitem atitudes pró-sociais aos filhos, têm dificuldade em colocar limites claros aos comportamentos, escudam-se atrás de uma postura rígida ou de uma supervisão deficitária que pode ser entendida ora como um estímulo (não tanto uma causa) de acesso ao risco, ora como uma carência de qualquer aptidão educativa. As crianças adquirem a capacidade de perceber essas componentes por parte dos pais e, por seu lado, vão acentuando uma fraca aptidão para a gestão de conflitos, uma falta de competências de natureza social e uma já de si baixa estimulação cognitiva para a aprendizagem.

Se, quando a criança entra na escola, o professor tende a comportar--se de forma insuficiente, esta procura outras crianças (duplamente) rejei-tadas como ela. Amadurecida a revolta, essa materialização acaba por traduzir-se na adolescência em actos de violência, de delinquência.

Os factores familiares podem influenciar o comportamento escolar das crianças, é verdade. Mas é preciso encontrar a explicação para os comportamentos de risco através do envolvimento de outros factores, como o próprio ambiente no interior da escola, que pode não ser sufi-cientemente harmonioso para que a criança se sinta à-vontade.

A influência da escola comporta factores demográficos (percenta-gem elevada de alunos com carências económicas; densidade populacio-nal; localização; crime na comunidade; desorganização social; desempre-go) e factores de funcionamento (qualidade dos professores e do pessoal administrativo; expectativas em relação aos alunos; regime disciplinar da escola; atitudes em relação à delinquência; grau de empenhamento dos professores e familiares dos alunos). Por isso a escola pode ser um impor-tante factor de risco, se não apostar em expectativas elevadas em relação aos alunos, em métodos de ensino inter-activos e participativos, em nor-mas claras contra atitudes agressivas e desleixo.

Uma real adaptação do sistema educativo ao aluno passa pela capa-cidade de atender à sua diversidade e características no campo da adapta-ção à religião, à cidade, à aula e aos outros alunos. Sem essa adaptaadapta-ção não se pode esperar que alguma vez venha a processar-se uma verdadeira «correcção» de carácter educativo ou recuperador, porque não se privilegia a procura de uma melhor relação de todos os componentes educativos.

No caso da elaboração de normas de funcionamento escolar não deve escamotear-se a referência aos casos de violência interna, a serem discutidos em sede de comissão, onde tenham assento todos os membros da comunidade educativa. Mas, está o professor preparado, por exemplo, para entender uma situação de cobardia por parte de um aluno? E qual o papel a desempenhar no caso de um aluno que enfrenta problemas de

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solidariedade para com os seus companheiros? Que actuação perante a vergonha do aluno, quando este não sabe? O que decidir perante a atitude de grupo? Como enfrentar o isolamento do aluno, nomeadamente quando este rejeita a ajuda de amigos/as? Que papel perante o (des)interesse da mãe e do pai pelo problema do jovem? Para quando a criação de um tele-fone grátis para os pais e o lançamento de um processo de orientação destes para a participação não só dos que têm filhos vítimas, mas, espe-cialmente, dos que têm filhos violentos?

A escola e a aula são, de facto, situações complexas, repletas de inter-acções, para cujo funcionamento a Faculdade não tem explicações. Ainda ninguém se lembrou de inscrever nos curricula uma disciplina sobre delinquência juvenil, anti-sociabilidade, criminologia de menores, etc., a ser ministrada por especialistas práticos, não meros teóricos do direito, da psicologia, da sociologia, ou de outras áreas à procura, sim-plesmente, de emprego em função de «cobaias justificativas».

No campo da docência, o que a experiência ensina é que, por norma, os licenciados com altas notas, depois do curso universitário choram de atrapalhação frente à turma e, logo após, «dão baixa» por «depressão»; enquanto isso, a maioria dos professores notados razoavelmente e com estágios realizados, provenientes da «real», posicionam-se de modo humano e pedagogicamente correcto perante turmas e ambientes que não surpreendem.

De facto, de entre os professores que enfrentam a turma muitos estão ali por outras razões que não o gosto pelo ensino e cedo demonstram não saber gerir os poderes dentro de uma sala. Há os que não sabem ensinar; os que usam e abusam do método expositivo; os que são incapazes de transmitir o sabor do saber; os permissivos; os que são extremamente autoritários; os incoerentes – que são os que mais ferem a sensibilidade dos jovens – e os que estão lá porque não podem fazer outra coisa que não seja dar aulas. E há, ainda, os que, perguntados por um outro profes-sor mais novo com dúvidas legítimas, despejam sobre este a sua incom-petência e algumas «estratégias didácticas», garantem-lhe que vai atra-sado na matéria ou, altivos, mostram-lhe, sublinhados, vários capítulos do Livro do Professor. Será preferível aceitar qualquer destas situações por contraposição à estadia fora das escolas públicas de perto de 4.500 pro-fessores do ensino básico e secundário, mais de metade dos quais conti-nua a ser pago pelo Ministério da Educação (ME)? Provavelmente. Já não o será tanto, contudo, saber que estes conseguem progredir na carreira, fora da violência em que se constituiu a escola de onde convenientemente zarparam – para desempenhos justificadamente meritórios, claro – sem que isso signifique a perda de qualquer regalia profissional. E ainda o será menos, se o requisitante é o próprio ME – mais de 1.000 professores em 2002 para desempenhar funções nos seus serviços centrais! O mesmo

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ME que autorizou a distribuição de outros 2.000 por empresas públicas e privadas, e, regista-se, quase outros tantos pelos corpos sociais dos sindi-catos da classe! 20 milhões de contos/ano de despesa pública, é o que é.

Enquanto isso, quem não fugiu destes estabelecimentos de risco aprendeu também que na Escola pouco se comunica, embora se fale muito. Os professores mais velhos facilmente esquecem as dificuldades do passado (ou deixaram de se preocupar), e rejubilam em esmagar pela arrogância destruidora os colegas mais novos. Mas os alunos, esses é que não podem fazer outra coisa até aos 15 anos que não seja estar na aula, resignados uns, revoltados outros e outros ainda, poucos, satisfeitos.

Num ou noutro caso estamos em presença de uma má gestão, não só em termos científicos mas, também, pedagógicos e relacionais. Logo, são estes professores que, não sabendo conduzir os alunos, os levam, estando na escola obrigados, a que façam ali mais aquilo de que gostam e menos aquilo que são obrigados a fazer.

Neste ambiente circunscrito, que exige uma gestão criteriosa das relações, é fundamental a questão das injustiças que os professores cometem em relação aos alunos. Ora, os alunos que têm um percurso escolar mais perturbador são os mais sensíveis às atitudes abusivas, em especial no que toca ao tratamento que os professores lhes dedicam, ou não dedicam, dado o modo como alguns jovens, em termos de comunica-ção, são esquecidos e ignorados de forma sistemática ao longo do ano nas aulas. Muitos agem em termos de retaliação para com o professor que os marginaliza, ou porque este não simpatizou com o aluno, ou de qualquer modo não gosta dele, às vezes mesmo porque o professor já tem uma expectativa negativa relativamente a ele, criada, sabe-se lá porquê, num percurso anterior1. E não falo aqui apenas de jovens alunos. Pelo contrá-rio, acentuo a situação de alunos mais velhos, universitários, inclusive, tratados neste campo não raras vezes como escumalha2.

1 Será razoável supor que ao «Ministério» não interessa ter professores «conscientes»,

porque estes dariam, obviamente, uma resposta mais «violenta» e «revoltada» a quem os trata como lixo; são, afinal, intelectuais que, anualmente, se deixam colocar por este país fora como cordeiros. Que ao menos (todos) percebessem que as «jornadas de luta», por mais aguerridas que pareçam, legitimam apenas quem sobrevive ao sistema através da organização dessas educadas e «democráticas» tomadas de posição; e que ao menos, de uma vez, soubessem retirar da ousadia disciplinada e da revolta legítima dos «tais» alunos, alguma da coragem e humanidade necessárias para defenderem a sua luta. Alguém duvida que o respeito e a admiração dos alunos para com os professores ger-mina do orgulho que estes lhes possam proporcionar em termos de exemplo a seguir?! Ou pretendem os «profs» continuar a acreditar que alguém, algures, terá a solução «defi-nitiva» para os seus problemas, quando eles, afinal, dependem da sua vontade e, essen-cialmente, da sua acção!

2 A prepotência para-criminógena por parte de alguns, poucos, «professores» (Aurora

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A discussão de propostas concretas para desenvolver a aula pode conduzir à gestão de um clima harmonioso, desde que apoiado na realiza-ção de actividades de educarealiza-ção «marginais», envolvendo valores e senti-mentos, dilemas morais e drama, integrados ora em programas abertos ora fechados. A combinação de actividades de formação externa e na própria escola e, no essencial, a elaboração de programas específicos para aplicar em situações de violência, no caso de alunos implicados em situa-ções de risco, pode transformar-se num auxiliar precioso na aplicação de estratégias de mediação de conflitos, umas vezes de desenvolvimento da assertividade para com as vítimas, outras vezes de empatia para com agressores.

Por todos, a escola deve saber estruturar uma capacidade de ser sen-sível para com os sentimentos dos outros, e pensar em termos não só dos factores, mas, também, das funções e, inclusive, da própria intervenção que se espera que de facto aconteça para resolver as situações. Sinteti-zando, deve analisar-se tanto a influência dos factores estruturais como dos contextuais, porque a escola e a família podem contribuir para o apa-recimento do comportamento anti-social, mas também podem concorrer para a sua protecção.

III – Muitas das acções levadas a cabo contra a violência na escola são extremamente modestas nas suas aspirações. Longe do tratamento das questões no terreno, ficam-se pela lógica dos grandes planos nacionais e de gabinete, cujos resultados têm sido pouco gratificantes. Portanto, é preciso combinar as componentes pessoais com o contexto e, particularmente, dar voz aos profissionais para que estes mostrem o que podem mudar.

Proponho uma primeira intervenção através da mediação a três níveis. Primeiro, ao nível dos alunos, o que é fácil, pois quando se lhes pede para colaborar num certo programa de acção, por norma sabem fazê-lo rapidamente, embora seja mais difícil para eles implementá-lo. Em segundo lugar, uma mediação entre adultos, o que é mais difícil. Por último, procurar que os adultos e os jovens se encontrem e estabeleçam relações.

da Escola Secundária de Santo António dos Cavaleiros, por exemplo), incorpora episó-dios continuados cuja investigação acompanho e são do conhecimento dos que tutelam a política da educação. Impunes e sem fim à vista, eles ilustram de forma paradigmática o modo «igualitário» como a violência estrutural se perfila a nível superior com graves problemas de relação, no interior e no exterior da sala de aula, num envolver «familiar» que coexiste com o medo dos alunos (aqui alunos-vítima), receosos de represálias quando convidados a desmascarar essas situações; dramas só possíveis em resultado da cumplicidade moral de outros docentes que integram o sistema educativo graças, obviamente, à malha larga que vem sendo aplicada à sua «selecção e recrutamento» (!), no que à «permissividade» pedagógica e ao carácter humano diz respeito.

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Ninguém põe hoje em causa a urgência na criação e implementação de um plano de luta contra a segurança escolar. Exige-se, primeiro, a pré-via elaboração de um inquérito a apresentar aos estabelecimentos escola-res, para se compreender, um ou dois anos depois, quais os progressos verificados3. Em simultâneo, devem ser utilizadas equipas estáveis de profissionais habituados a trabalhar em conjunto. Mas, em zonas onde os professores não permanecem mais de um ano, porque não podem ou não querem trabalhar em estabelecimentos de ensino onde há crianças com dificuldades (designadamente nos arredores das grandes cidades), estes não podem resistir de modo nenhum à violência e tais programas não tem qualquer validade.

Consultando as estatísticas resultantes de uma ou outra investigação que venho acompanhando de modo indirecto, verifico que só em casos perfeitamente conhecidos o presidente do conselho directivo assinala todos os incidentes, através de um relatório periódico4. Também só par-cialmente podemos contar com as estatísticas oficiais para nos ajudarem a compreender o que é a violência na escola; hoje apenas se sabe, a partir do número oficial de desacatos graves nas escolas portuguesas, que a incidência dessas acções sobre a totalidade da população escolar faz com que o risco de se ser vítima seja de 0,1%. No que diz respeito ao números de agressões não-verbais esse risco passa para 0,02%. Logo, o facto de se

3 Num país onde a «insegurança» é a grande razão invocada pelos pais quando recorrem

aos estabelecimentos escolares privados – sejam eles laicos, internacionais ou religiosos, em número diminuto fora de Lisboa e do Porto – o Ministério da Educação já tem em mãos, desde o início de 2001, um diagnóstico do ensino público através da avaliação «integrada» realizada em 348 escolas de ensino pré-escolar, básico e secundário. Uma das conclusões aponta para o facto dos problemas da escola pública identificados no pré--escolar – más condições dos «equipamentos e materiais lúdicos», fraco estímulo ao «desenvolvimento do pensamento lógico-matemático», à «construção de conceitos e sistematização de conhecimentos» e, em especial, ao «trabalho com os pais» – transita-rem para o 1.º ciclo. Na primária os alunos são pouco chamados a experimentar, a pesquisar ou a debater temas, embora o «clima e ambiente escolar» sejam considerados francamente positivos, mantendo-se, inclusive, até ao 3.º ciclo. Outra conclusão refere a diminuição da percentagem de alunos que transitam ou concluem o seu ano à medida que evoluem na escolaridade (88% no 2.º ciclo; 83% no 3.º ciclo e apenas 50% no 12.º ano). Tomando como referência o 9.º ano, em 1998/99, conclui-se, curiosamente, que «os alunos dos estratos inferiores de rendimentos registam níveis de desempenho também inferiores».

4 Do último congresso da organização sindical FENPROF, realizado em finais de Março

de 2001, saíram propostas para contrariar as «grandes dificuldades de funcionamento» que afectam as escolas públicas. Para além da questão dos contratos de associação cele-brados entre o ministério e os colégios privados, que desempenham um inestimável «serviço público», outra das propostas aprovadas passa pelo aumento da «simplificação» dos processos disciplinares nas escolas, para combater os crescentes «actos de violência e indisciplina», em termos da análise que efectuamos na parte final do livro.

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falar constantemente de violência na escola parece exagerado, pelo menos em termos quantitativos e atenta a forma pouco científica de assinalar os episódios de risco.

É um facto que não podemos relativizar a gravidade dos crimes cometidos na escola e, nos casos em apreço, a ajuda pode vir dos inqué-ritos de vitimização, porque as vítimas estão no terreno, situam-se próxi-mas dos actores, logo, dos actos de delinquência, e a abordagem das res-postas fornecidas pelas pessoas inquiridas são muito mais fiáveis do que os dados baseados em factos oficiais, conhecidos apenas da Polícia ou dos tribunais, ou a partir das declarações dos suspeitos. Isto apesar de se poder dizer que, actualmente, a uma certa estabilização do número de ofensas, corresponde um aumento da gravidade das vitimizações, muitas delas relacionadas com duas formas de delinquência em grupo: a agres-são em gang 5 e o bullying6.

De acordo com os dados estatísticos oficiais, o número total de deli-tos praticados por gangs e bandos em Portugal foi de 2.757, no ano 2000,

5 A agressão em gang está a aumentar em zonas onde existe um tipo de delinquência

grave e aparece muitas vezes associada a traficantes de drogas, uns que no interior da escola se especializam na agressão em grupo e outros que no exterior organizam o tráfico. O «jogo» mais frequente envolve um grupo de alunos que agarra um outro aluno (normalmente bom aluno, tido como «pequeno burguês»), a quem é colocado um pano (boné, capacete) em volta da cabeça, passando a bater-lhe até a vítima ser muitas vezes hospitalizada.

6 O bullying é uma forma especial de violência cuja acção decorre na escola, no recreio ou

nas imediações e é exercida por um grupo ou por único indivíduo. Pode configurar uma forma desprovida de qualquer conotação marginal, mas o objectivo passa sempre pela posição dominante em que o agressor (bully), para sua própria gratificação e seja qual for o contexto, se coloca face à vítima (que não é a única que sofre, o que acontece, igualmente, aos que presenciam a agressão), superioridade que pode ser de ordem mate-rial ou psicológica.

A maioria dos professores tende a não se envolver nestes quadros; pior, chega a fazer juízos de valor sobre a vítima, culpando-a pelo facto desta não se conseguir defender ou desviar de tais ataques. O jovem acaba por reagir da mesma maneira, preferindo ocultar estes problemas, inclusive da própria família, compreendendo-se assim a dificuldade que sente em inverter a situação. Os sentimentos de culpa vão-se acentuando. O isola-mento social torna o jovem progressivamente mais vulnerável; impotente para lidar com o problema, depressa se auto-marginaliza.

Em contraste com as vítimas, no que diz respeito aos factores físicos e psicológicos os

bullies apresentam elevados níveis de auto-confiança, sociabilidade e participação

lúdica; agressivos, denotam uma boa coordenação motora e não se emocionam perante o sofrimento alheio. De um ponto de vista familiar as diferenças também são notórias: os miúdos agressores desde cedo ficam entregues a si próprios e os pais (demasiado laxis-tas) desconhecem o tipo das suas práticas ou incentivam mesmo ao uso da força na escola. Numa perspectiva escolar são também notórias as diferenças: as vítimas têm uma atitude positiva para com o estudo e a disciplina, privilegiando a relação com os adultos em detrimento dos pares.

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contra 2.965 em 2001. Só em Lisboa aconteceram, em 1998, 913 crimes desse tipo, contra 1.450 casos, em 1999; no ano de 2000 as autoridades contabilizaram na capital 2.116 casos (77% do total nacional, o que cor-responde a um acréscimo de 45% em relação a 1999), contra 2.312 no ano 2001. Não deixa de ser sugestivo o facto de 1.539 casos (56% dos ocorridos em Lisboa durante o ano 2000) corresponderem a actos prati-cados por bandos de elementos africanos, contra 1.631 casos em 2001.

Quanto ao número de membros dos gangs em território nacional, em 1998 estes grupos reuniam 4.691 membros; em 1999 atingiram os 6.306 elementos, número largamente pulverizado em 2000 – 8.900 membros (76% dos quais actuando em Lisboa), contra 10.655 jovens em 2001, o que deixa perceber um contínuo agravamento do fenómeno.

A constituição média actual por bando varia entre os 3 e 5 elemen-tos, sinal de razoável disseminação e facilidade de aglutinação dos jovens em torno destes grupos. Este é, aliás, um tipo de criminalidade que, por norma, se insere num campo alargado de violência: só no ano de 1999 foram registados pelas autoridades policiais, na área de Lisboa, 3.789 crimes violentos, contra 5.101 no ano 2000 (o que equivale a um aumento de 34%) e 5.125 em 2001. Em todo o território nacional este tipo de cri-minalidade violenta também não pára de subir: 3.800 crimes em 1999, contra 5.100 em 2000, e 5.176 em 2001.

O confronto a tiro e à pedrada que ocorreu em 7 de Dezembro de 2001 no Bairro Cova da Moura, entre dezenas de elementos do Corpo de Intervenção da Polícia de Segurança Pública (PSP) e jovens daquele bairro da Amadora, no seguimento da morte a tiro de um delinquente local por um agente daquela corporação, não deixa dúvidas quanto à con-dição em «banho-maria», tensão permanente, instabilidade social e dese-quilíbrio emocional, qual barril de pólvora, em que vivem os residentes deste tipo de bairros7. Aliás, a partir dos dados obtidos para a primeira metade do ano 2001, estima-se que as agressões a agentes da autoridade em todo o país atinjam as 780, 43% das quais a acontecerem em Lisboa8.

7 Falamos, como consta dos estudos aqui apresentados sobre os bairros da Trafaria e da

Cova da Moura, de aglomerados de construção ilegal (por ordem decrescente de perigo-sidade física e danoperigo-sidade social) da Apelação, em Sacavém; das Marianas, em Carca-velos; da Pedreira dos Húngaros, em Oeiras; do 2 de Maio, na Ajuda; da Curraleira, perto do Alto de S. João; e da Zona J, em Chelas, estes últimos em Lisboa. Mas para além do Cova da Moura, existem, quase contíguos, os superpovoados Estrela de África, 6 de Maio, Azinhaga dos Bezouros e das Azinhagas. Todos apresentam graves proble-mas que têm de ser geridos, em termos de segurança, pela PSP, em função dos seus recursos, pelo menos enquanto os responsáveis pelos graves problemas sociais e de infra-estruturas locais não assumem as suas obrigações políticas.

8 De facto, na capital verifica-se uma preferência pelas ofensas corporais, danos, injúrias e

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O número de vítimas dos gangs também não diminui, passando de 758 em 1998, para 1.240 em 1999, 1.954 em 2000, atingindo 2.970 em 2001.

IV – Apresentada a questão do gang, por norma relacionada com a formação dos grupos mais jovens de delinquentes e a agregação de fenó-menos de agressividade e violência gratuita9, obrigatório se torna subli-nhar que, apesar da promulgação de um novo pacote legislativo, que incluiu a aprovação da Lei Tutelar Educativa (Lei n.º 166/99, de 14 de Setembro) e da Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro10), essas disposições continuam a exibir uma grande dose de permissividade face a uma agressividade nova (12--15 anos de idade), levada a cabo por jovens perfeitamente conscientes dos actos praticados.

No ano 2000 o total de crimes praticados por menores em Portugal atingiu os 3.751 casos. Caracterizando, as estatísticas referem que 7% do total dos crimes foram de natureza patrimonial (furtos/roubos/assaltos de carros), 9% aconteceram em lojas e supermercados e 49% nas escolas ou perto delas.

No que diz respeito ao número de acções de agressão, vandalismo, posse de armas e chamadas telefónicas anónimas com ameaças verifica-das nas escolas portuguesas durante os anos lectivos de 1997/98, 1998/99, 1999/00 e 2000/01 as autoridades policiais registaram (cf. Qua-dro 1) os seguintes valores:

uma particular incidência dos furtos em automóvel; nos crimes contra a vida em socie-dade destaca-se o de condução com taxa de alcoolemia igual ou superior aos limites legais; e nos crimes contra o Estado os registos salientam os cheques sem provisão.

9 Na área da Grande Lisboa, onde se situam os locais de referência desta obra,

verificou--se de 1999 para 2000 um aumento de 650 casos relativos à designada delinquência juvenil, isto é, mais 21,5%, e mais 140 casos de 2000 para 2001.

10 Nos termos do art.º 3º, n.º 2, do Anexo a este instituto legal, considera-se que a criança

ou o jovem está em perigo quando, designadamente, se encontra “abandonada ou vive

entregue a si própria”, “sofre maus tratos físicos ou psíquicos ou é vítima de abusos sexuais”, “não recebe os cuidados ou a afeição adequados à sua idade e situação pessoal”, “é obrigada a actividades ou trabalhos excessivos ou inadequados à sua idade, dignidade e situação pessoal ou prejudiciais à sua formação ou desenvolvi-mento”, “está sujeita, de forma directa ou indirecta, a comportamentos que afectem gravemente a sua segurança ou o seu equilíbrio emocional”; ou “assume comporta-mentos ou se entrega a actividades ou consumos que afectem gravemente a sua saúde, segurança, formação, educação ou desenvolvimento sem que os pais, o representante legal ou quem tenha a guarda de facto se lhes oponham de modo adequado a remover essa situação”.

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Quadro 1

Ano AGRESSÃO VANDALISMO POSSE DE ARMAS (brancas e de fogo) TELEFONEMAS ANÓNIMOS 1997/1998 106 32 120 151 1998/1999 126 31 160 66 1999/2000 282 116 180 48 2000/2001 312 135 290 65

Contrapomos a tais valores a informação do próprio Ministério da tutela segundo a qual, desde Janeiro de 2000 a vigilância das 8 mil esco-las portuguesas passou a ser assegurada por mais 10% de polícias, num total de 1.800 homens e 450 viaturas. Este reforço de segurança contradiz o aumento de 50% de casos violentos registados no ano 2000 pela PSP e Guarda Nacional Republicana (GNR), em relação ao ano anterior, ocorri-dos na proximidade e no interior das escolas.

No que diz respeito aos valores apurados para os anos lectivos de 1997/98 e 2000/01 (cf. Quadro 2), verificam-se os seguintes aumentos percentuais:

Quadro 2

ACCÕES CRIME ENTRE 1997/1998 e 2000/2001

Agressões/ Ofensas corporais 143,8 %

Roubos 283,3 %

Vandalismo 294,2 %

Ameaça de bomba 56,1 %

Posse ou uso de arma 22,5 %

Ofensas sexuais 1.400,0 %

Posse/ Consumo de estupefacientes 286,7 %

Furtos 12,3 %

Ameaças e injúrias 159,8 %

De facto, são pouco animadores os resultados registados e relativos aos actos que mais alarmismo social produzem, designadamente, os fur-tos que ocorreram nos estabelecimenfur-tos de ensino durante os primeiros semestres dos últimos anos, já durante a vigência do programa «escola segura»11: 1.186 no primeiro semestre de 1997 e, em iguais períodos, 926

11 Projecto criado em 1996, resultou da acção conjunta entre o Ministério da

Administra-ção Interna e o Ministério da EducaAdministra-ção. Visando responder ao surto de insegurança que se verificou em algumas escolas (e nas suas imediações) a partir de 1993, abrange

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em 1998, 1.058 em 1999, 1.046 no ano 2000 e 1.103 em 2001. O objecto furtado preferido nos anos lectivos de 1999/2000 e 2000/2001 foi o tele-móvel, ocupando 10% e 30% do total das participações registadas pelas autoridades policiais.

É no sentido de alterar esta situação que tem sido tentada a reforma do sistema de protecção de crianças e jovens em risco, apelando-se à intervenção de todos os ministérios que têm tutela nesta área e cuja acção é de primordial importância na protecção das crianças e jovens quando a sua segurança, saúde, formação moral e educação12 se encontrem em perigo.

Nos primeiros dias do mês de Abril de 2001, o ministro da Admi-nistração Interna apresentou na Assembleia da República o Relatório de Segurança Interna. Para além do «marketing político» que por norma é ensaiado nestas ocasiões, ficou o registo segundo o qual os «casos julga-dos» a partir de processos distribuídos por crimes praticados por menores aumentaram de 1998 para 1999 mais de 49%, e de 1999 para 2000 mais de 38%.

De facto, cerca de 1.700 casos de crimes de menores foram julgados pelos tribunais em 1999. Destes, 87% foram cometidos por adolescentes

todos os estabelecimentos de ensino básico (1.º ao 9.º ano de escolaridade) e secundá-rio (10.º ao 12.º ano) a nível nacional, apesar do grau de policiamento ser determinado de acordo com os índices de criminalidade de cada zona. O «escola segura» foi prome-tido pelos últimos governos no senprome-tido de desenvolver uma actividade policial mais visível e o mais perto possível das populações, frisando a capacidade das forças de segurança auxiliarem as populações em caso de necessidade.

Aguarda-se, igualmente, que no âmbito da prometida «política de segurança rodoviá-ria», a educação rodoviária nas escolas comece a funcionar.

Curiosamente, a tão propalada estratégia de «policiamento de proximidade» – social-mente complicada em termos de relação urbana, no que diz respeito à actividade de rua da Polícia de Segurança Pública no âmbito do trânsito – essa é de há muito prosseguida pela Guarda Nacional Republicana, que tem à sua responsabilidade cerca de 60% da população nacional, em especial nas zonas rurais, através de uma relação de estima acentuada com os habitantes, alguns em locais isolados, que, em muitos casos, não recebem outra visita amiga que não seja a do pessoal da «Guarda». Aliás, o trabalho que vem sendo efectuado pela GNR no campo da formação e investigação criminal, em especial depois da publicação da Lei nº21/2000, de 10 de Agosto, deixa prever, em função das novas competências atribuídas, uma dinâmica renovada, a desenvolver nas vastas áreas que lhe estão acometidas (cerca de 90% do território nacional).

12 Em termos de educação escolar, interessa-nos referenciar a doutrina inserta na nova Lei

Tutelar Educativa, no âmbito da «escolaridade». Deste modo, consagrou-se legalmente a possibilidade dos menores internados em centros educativos continuarem “sujeitos

aos deveres decorrentes da escolaridade obrigatória”. Mesmo quando o regime de

internamento não permita a frequência pelo menor de estabelecimento de ensino no exterior, “a actividade escolar oficial desenvolvida nos centros educativos deve ser

orientada de modo a adaptar-se às particulares necessidades dos menores”, no sentido

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com menos de 16 anos e 57% por jovens entre os 7 e os 14 anos. Dos delitos, 16 eram menores com menos de 7 anos de idade.

A este propósito convém não esquecer dois aspectos: estes dados referem-se a casos julgados e não a crimes praticados no decurso dos anos de 1999 e 2000 (cf. Quadro 3), e traduzem a tendência preocupante de acordo com a qual é cada vez mais precoce e são cada vez mais os jovens que entram nos circuitos da delinquência, o que é o mesmo que dizer, da agressividade e da violência.

Quadro 3

MENORES EM TRIBUNAL

PROCESSOS POR INFRACÇÃO DE NATUREZA PENAL

Ano Reiniciados

e distribuídos c/ aplicação de Concluídos 1.ª medida Concluídos com aplicação de novas medidas 1998 4.510 1.406 82 1999 6.739 (+ 23%) 1.733 (+ 23%) 148 (+ 80%) 2000 9.308 (+ 38%) 2.457 (+ 41%) 168 (+ 13%)

V – Atenta esta clarificação mostra-se conveniente analisar, com recurso aos dados disponíveis, a evolução desta delinquência juvenil e avaliar as principais tendências do crime de menores em Portugal13.

13 A implementação de uma nova política bipartida no campo dos menores vem criando

algumas dificuldades no que diz respeito à recolha e arrumação dos dados estatísticos. Daí a impossibilidade no preenchimento dos respectivos quadros, que só uma ulterior sistematização, a levar a cabo por parte do Gabinete de Política Legislativa do Ministé-rio da Justiça (GPLP), permite apresentar. Ainda assim, por disponibilidade do GPLP faz-se constar deste prefácio informação global sobre «crimes registados pela PSP e GNR segundo a idade dos arguidos suspeitos identificados», «crimes registados pelas autoridades policiais segundo a idade por famílias de crimes» e «total de processos findos relativos a menores em juízo por prática de actos qualificados como infracção penal, bem como por distritos judiciais». Salvaguarda-se a condição provisória dos elementos fornecidos ao autor em Abril de 2002, relativos ao ano 2001, e regista-se a natureza recente dos dados correspondentes aos menores em juízo relativos a este mesmo ano.

Conforme se verifica da análise dos quadros em apreço, nomeadamente dos relativos aos «tribunais» e à «caracterização socio-demográfica», os valores parecem deixar perceber, à primeira vista, uma regressão acentuada da criminalidade. Não é, de todo, o caso. Atente-se, a propósito, à seguinte nota prévia: dantes os processos tutelares esta-vam divididos em processos tutelares cíveis e processos tutelares propriamente ditos. Estes, «dividem-se», nos termos da «nova lei», como veremos, em processos de promoção e protecção, e processos tutelares educativos (aqueles que se referem, especificamente, à matéria crime). Só por isso é possível apresentar para 2001 quadros que referenciam

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O número de indivíduos identificados pelas autoridades policiais como presumíveis infractores, por escalões etários (cf. Quadro 4.1.), ape-sar dos poucos instrumentos disponíveis para efectuar aquela avaliação é, ainda assim, o mais fiável.

Quadro 4.1

Número de presumíveis infractores identificados pelas autoridades policiais, por escalões etários, nos anos de 1995 a 2001

Ano < 16 anos 16 a 24 > 25 Total

1995 3.689 31.758 104.211 139.658 1996 3.706 32.809 111.022 147.537 1997 4.311 35.142 114.600 154.053 1998 5.691 46.712 133.222 185.625 1999 5.316 55.389 138.404 199.109 2000 5.766 59.934 145.361 211.061 2001* 5.402 65.185 156.252 226.839

Nota: Nos anos de 2000 e 2001 não se incluem os dados da PJ. * Dados provisórios

Verifica-se, igualmente, que a variação registada pelos infractores menores de 16 anos acompanha os valores gerais obtidos nos campos dos restantes escalões etários.

A tendência crescente que aparece invertida em 1999 (cf. Quadro 4.2), em especial no que diz respeito aos menores de 16 anos (taxa de crescimento negativa em relação a 1998), retoma a tendência, para aumentar nos anos 2000 e 2001.

Enquanto em 1995 por cada 100 indivíduos identificados como pre-sumíveis infractores 3 eram menores de 16 anos, 23 tinham entre 16 e 24 anos e os restantes 74 tinham mais de 25 anos, no ano de 1999, para os

os dados já «desagregados». Isto é, quando o menor pratica um facto qualificado pela lei como crime conseguimos agora destrinçar essa informação, análise que não era possível fazer anteriormente, porque se juntava à situação em que o menor praticava um crime uma outra em que o menor estava em risco, quadro que, insista-se, se apresenta, actualmente, dividido, ao invés do que sucedia antes, quando o menor que estava em risco era contabilizado para efeitos dos processos tutelares. Em síntese, os valores «baixos» em termos do ano 2001, dizem respeito, exclusivamente, a situações em que o menor praticou um facto qualificado como crime. Por isso se solicita ponde-ração no que diz respeito à compaponde-ração de realidades que têm uma natureza jurídica que exige um tratamento diferente, ou seja, deve ter-se presente que para o ano 2001 os elementos relativos a processos tutelares se apresentam divididos em educativos (quando o menor pratica um crime) ou promoção e protecção (quando o menor está em perigo), dicotomia que impede uma comparação directa com os dados retrospectivos.

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mesmos 100 indivíduos, os números eram de 3 (< 16 anos), 28 (16 a 24 anos) e 69 (> 25 anos).

Trata-se de um resultado que permite afirmar com razoável grau de certeza que, em termos globais e apesar da citada «retoma» de 1999 para 2000 e 2001, os autores dos crimes são indivíduos cada vez mais jovens.

Quadro 4.2

Taxa de crescimento anual dos presumíveis infractores identificados pelas autoridades policiais, por escalões etários, nos anos de 1995 a 2001

Ano < 16 anos 16 a 24 > 25 Total

1995 – – – – 1996 0.46 3.31 6.54 5.64 1997 16.33 7.11 3.22 4.42 1998 32.01 32.92 16.25 20.49 1999 -6.59 18.58 3.89 7.26 2000 8.47 -8.21 5.03 6.01 2001 6.74 8.76 7.49 7.48

Como se observa (cf. Quadro 4.3), os números da Polícia Judiciária (PJ) não são relevantes para este efeito, pelo que, por razões de simplifi-cação de leitura, passarão a ser contabilizados nos valores totais.

Quadro 4.3

Presumíveis infractores, menores de 16 anos, identificados pela prática de crimes, por Órgão de Polícia Criminal, nos anos de 1995 a 2001

Ano PJ PSP GNR Total 1995 5 2.065 1.619 3.689 1996 10 2.040 1.656 3.706 1997 4 2.719 1.588 4.311 1998 5 3.800 1.886 5.691 1999 – 3.202 2.112 5.316 2000 – 3.834 1.932 5.766 2001* – 3.561 1.841 5.402 * Dados Provisórios

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Comparados os valores da variação anual (cf. Quadro 4.4), os núme-ros da PSP são mais acentuados (como acontece, aliás, com os valores absolutos) que os da GNR, muito embora se verifique uma clara diminui-ção em termos dos números apurados para o ano 2001.

Quadro 4.4

Taxa de crescimento anual de presumíveis infractores, menores de 16 anos, identificados pela prática de crimes, pelas autoridades policiais,

nos anos de 1995 a 2001 Ano PSP GNR Total 1995 – – – 1996 -1.21 2.29 0.46 1997 33.28 -4.11 16.33 1998 39.76 18.77 32.01 1999 -15.74 11.98 -6.59 2000 19.73 8.52 8.47 2001 -7.66 -4.94 -6.73

A área de competência da PSP é, essencialmente, urbana, enquanto a da GNR é rural, pelo que inferimos que a evolução da delinquência juve-nil se manifesta de modo mais acentuado, em termos de variação, nas zonas urbanas e nalgumas regiões suburbanas14.

No caso particular das participações elaboradas durante o ano 2000 pelos militares da GNR, cujos efectivos patrulham praticamente todo o território nacional, designadamente a «província», uma análise mais por-menorizada sobre a delinquência grupal (envolvendo muitos bandos juvenis) conduz aos seguintes valores: 1.182 acções violentas, entre os quais assaltos à mão armada, envolvendo brancos, negros e ciganos.

14 A indicação atempada da taxa de cobertura, em termos populacionais, por parte das

autoridades competentes, permitirá uma abordagem mais precisa da real distribuição da delinquência juvenil por qualquer das zonas do país. Ainda assim, é possível fazer constar uma nota à margem desta questão da criminalidade dos mais novos» em termos da área da GNR, analisando de modo quantitativo os índices crescentes da criminali-dade geral dos anos 2000 para 2001: uma subida de 4,5% nos «crimes contra as pessoas» (39.067 para 40.827); de 6,2% nos «crimes contra o património (74.165 para 78.775); de 200% nos «crimes contra a paz e a humanidade» (0 para 2); de 3,1% nos «crimes contra a vida em sociedade» (18.195 para 18.763); de 33,6% nos «crimes contra o Estado» (1.330 para 1.777); e de 11,7% nos casos agora incluídos na «legisla-ção avulsa» (12.567 para 14.033). Em síntese, um aumento total de 6,1%, correspon-dendo a um acréscimo de 8.853 crimes.

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Por outro lado, no campo da delinquência juvenil propriamente dita (menores de 16 anos) aparecem envolvidos, no ano 2000, em 2.058 casos, 1.868 jovens como suspeitos e 2.007 como lesados ou ofendidos. No ano 2001, neste tipo de delinquência verifica-se uma diminuição de 1,4% no total dos casos (1.841), um decréscimo, aliás, extensível a todos os qua-dros, excepção feita aos «crimes contra o Estado» (+21,6%, correspon-dente à passagem de 305 para 371). Assim, -3,9% nos «crimes contra as pessoas» (406 em 2000 para 390 em 2001); -5,1% nos «crimes contra o património» (1.023 para 971); -10,6% nos «crimes contra a paz e a huma-nidade» (113 para 101); e -61,9% nos «crimes contra a vida em socie-dade» (21 para 8).

De entre estes casos, e em termos de alteração de 2000 para 2001, relevância especial, de acordo com o jargão penal, para as ofensas à inte-gridade física (247 para 218), ameaça e coacção (45 para 44), violação e abuso sexual (44 para 51), todos no âmbito dos «crimes contra as pes-soas»; furtos (619 para 583), roubos (175 para 142) e danos (178 para 203), nos «crimes contra o património»; incêndio e fogo posto (50 para 44), detenção e tráfico de armas proibidas (6 para 15) e condução de veí-culo com uma taxa de álcool igual ou superior a 1,2 g/l (16 para 1) nos «crimes contra a vida em sociedade»; resistência e desobediência à auto-ridade (21 para 8), nos «crimes contra o Estado»; tráfico, consumo e outros crimes respeitantes a estupefacientes (44 para 57) no âmbito dos «crimes previstos em legislação avulsa».

Registe-se o facto de, no ano 2001, nos «crimes de violência domés-tica»15 participados à GNR, num total de 5.239 ilícitos 8 terem sido cometidos por menores de 16 anos, contra 287 de 16 a 24 anos, e os res-tantes por indivíduos de 25 e mais anos, num total geral de 4.730 jovens do sexo masculino, elementos que permitem confirmar uma forte partici-pação da criminalidade feminina. Por outro lado, no âmbito do mesmo tipo de criminalidade, o número total de vítimas provocado foi de 5.368, 283 das quais menores de 16 anos, 469 de 16 a 24 anos e 4.616 de 25 e mais anos, num universo de 4.599 jovens vítimas do sexo feminino.

Uma análise sumária à taxa dos presumíveis infractores menores de 16 anos identificados pela PSP, tendo como base o ano de 1995 (cf. Qua-dro 4.5), deixa perceber uma subida, embora em «alternância» desde 1998, que ronda, em média, os 15% ao ano, o que não deixa de preocu-par, pelo menos em termos da definição de políticas para o futuro ime-diato.

15 Conjunto de crimes definidos por Despacho n.º 16/98, de 9 de Março, do Ministro da

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Quadro 4.5

Taxa de crescimento anual de presumíveis infractores, menores de 16 anos, identificados pela prática de crimes, pelas autoridades policiais,

tendo como base o ano de 1995 (T x 1995 = 0)

Ano PSP GNR Total 1995 – – – 1996 -1.21 2.29 0.46 1997 31,67 -1,91 16,86 1998 84,02 16,49 54,27 1999 55,06 30,45 44,10 2000 85,67 19,33 56,51 2001 72,45 13,71 46,63

Se compararmos a evolução do número de presumíveis infractores identificados pela PSP e GNR de 1995 a 2001 (cf. Quadro 4.6), por escalão etário, verificamos um crescimento dos valores referenciados pela PSP para os presumíveis infractores menores de 16 anos (e dos 16 aos 24) superiores aos maiores de 25 anos, confirmando-se, portanto, o forte desenvolvimento da delinquência juvenil nas zonas urbanas.

De todo o modo não é de desprezar nos dois campos, rural e urbano, uma ligeira diminuição dos valores para os menores de 16 anos, compen-sada, embora, de modo quase exponencial para os maiores de 25 anos, e dos 16 aos 24 anos na área da competência da PSP.

Quadro 4.6

Número de presumíveis infractores, identificados pela prática de crimes, pelas autoridades policiais, por escalões etários, nos anos de 1995 a 2001

PSP GNR Ano <16 anos 16 a 24 > 25 anos < 16 16 a 24 > 25 1995 2.065 16.699 41.507 1.619 14.228 61.158 1996 2.040 17.808 46.244 1.656 14.416 63.661 1997 2.719 20.313 47.211 1.588 14.330 66.420 1998 3.800 30.200 59.700 1.886 16.208 72.836 1999 3.202 36.775 64.022 2.112 18.340 73.876 2000 3.834 41.757 67.437 1.932 18.177 77.924 2001* 3.561 47.051 72.374 1.841 18.134 83.878 * Dados Provisórios

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Uma análise correcta, atenta a prática de crimes por bem lesado, recorda as alterações produzidas no método estatístico pelo Código Penal de 1995, que em 1998 passou a considerar os «crimes previstos em legis-lação avulsa», onde se incluem agora os crimes relativos a estupefacientes, os quais, até 1997, apareciam englobados nos «crimes contra a vida em sociedade». A razão para essa alteração aparece clarificada no quadro que segue, através dos valores apurados para o «crime contra o património».

Quadro 4.7

Número de presumíveis infractores menores de 16 anos, identificados pelas autoridades policiais, pela prática de crimes, por bem jurídico lesado,

nos anos de 1995 a 2001 Ano c/

Pes-soas c/ Património c/ Vida Socie-dade c/ Estado Leg. Avulsa

1995 1.027 2.456 188 23 – 1996 890 2.545 255 16 – 1997 948 3.109 230 20 – 1998 940 4.200 183 29 339 1999 809 3.784 163 38 520 2000 843 4.802 235 62 544 2001* 827 3.796 142 41 596

Nota: Nos anos de 2000 e 2001 não se incluem os dados da PJ. De 1995 a 1997 na clas-sificação dos tipos de crimes não são desagregados os previstos em legislação penal avulsa.

* Dados provisórios

Efectuando essa análise em função da distribuição dos presumíveis infractores desse tipo de crime por escalões etários, é visível uma certa estabilização no caso dos menores de 16 anos, contra um acentuado cres-cimento em relação aos indivíduos entre os 16 e 24 anos, e os maiores de 25 anos (cf. Quadro 4.8).

Quadro 4.8.

Número de presumíveis infractores identificados pelas autoridades policiais, por crimes contra o património, por escalões etários, nos anos de 1995 a 2001

Ano < 16 anos 16 a 24 > 25 1995 2.456 14.636 34.544 1996 2.545 15.212 35.975 1997 3.109 16.493 36.541 1998 4.200 21.723 36.672 1999 3.784 25.009 38.419 2000 4.082 30.439 41.011 2001* 3.796 35.200 46.357

Nota: Nos anos de 2000 e 2001 não se incluem os dados da PJ * Dados provisórios

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A distribuição dos presumíveis infractores por bem jurídico lesado, segundo a PSP e a GNR (cf. Quadro 4.9), permite observar que até 1999 a GNR apresentou valores absolutos superiores aos da PSP nos «crimes contra as pessoas» (excepto em 1995), «crimes contra a vida em socie-dade» e nos «crimes previstos em legislação avulsa».

Nos crimes contra o património» a PSP apresenta valores acentua-damente mais elevados do que a GNR, quer em termos absolutos quer em termos de variação anual, sendo que nos «crimes contra as pessoas», nos anos 2000 e 2001, os valores se inverteram a favor da PSP.

Constata-se, pois, que a delinquência juvenil aumentou nos últimos anos, muito em função dos «crimes contra o património» praticados nas zonas urbanas, que registam uma subida global de cerca de 50%, uma variação que no caso da PSP atinge 80%.

Os «crimes contra as pessoas» apresentam uma tendência decres-cente na área da GNR desde 1997, enquanto nos «crimes contra a vida em sociedade», «contra o Estado» e os previstos em «legislação penal avulsa» o quadro denota alguma estabilização no período em apreço.

Quadro 4.9

Número de presumíveis infractores menores de 16 anos, identificados pelas autoridades policiais, por bem jurídico lesado,

nos anos de 1995 a 2001 c/Pessoas c/Património c/Vida

Sociedade c/ Estado Legislação Avulsa

Ano PSP GNR PSP GNR PSP GNR PSP GNR PSP GNR 1995 533 489 1.431 1.022 80 106 21 * – – 1996 413 475 1.536 1.009 84 163 7 9 – – 1997 411 537 2.192 917 101 129 15 5 – – 1998 436 504 3.131 1.067 67 113 22 7 144 195 1999 345 464 2.571 1.213 76 87 18 20 192 328 2000 452 391 3.021 1.061 130 105 9 53 222 322 2001 427 400 2.807 989 46 96 39 * 242 354 De 1995 a 1997 na classificação dos tipos de crimes não são desagregados os previstos em legislação penal avulsa.

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VI – A confirmação das infracções cometidas é da competência dos Tribunais que atribuem (ou não) as medidas sancionatórias adequadas às condutas em apreço. Convém, por isso, ter presente que a sua acção se reflecte num momento posterior à actividade das Polícias e apenas se concretiza num número de casos reduzido16.

Apresentamos de seguida (cf. Quadro 5.1) a distribuição do número de processos em juízo, relativos à prática de factos qualificados como infracção penal, por anos, desde 1995 a 2000.

Destacamos o decréscimo registado em 1996, a estabilização ocor-rida entre 1996 e 1998, e a subida nos anos de 1999 (para valores superio-res aos de 1995) e, em especial, o aumento substancial verificado em 2000.

Em paralelo, observa-se um taxa de crescimento decrescente (na ordem dos 13%) durante os anos de 1996, 1997 e 1998, e uma subida acentuada nos anos de 1999 (13%) e 2000 (46%).

16 O tratamento, ainda que sucinto, deste tipo de questões, não pode deixar de levar em

conta os aspectos mais significativos das reformas empreendidas desde o início do século XX, na área da anti-sociabilidade, intimamente ligados aos modelos de protec-ção e de justiça. Citaremos apenas os momentos fundamentais desta evoluprotec-ção histórica: Decreto-Lei de 27 de Maio de 1911 – Lei de Protecção à Infância; Decreto-Lei n.º 44287, de 20 de Abril de 1962, referente à Reforma dos Serviços Tutelares de Menores; e as Leis 147/99 – Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo, e 166/99 – Lei Tutelar Educativa, que entraram em vigor em Janeiro de 2001 e se apre-sentam como respostas à nova realidade da delinquência juvenil e da insegurança no campo dos menores. Esta nova posição legislativa permite uma intervenção dupla: «interventiva», em relação aos menores infractores, delinquentes, que podem ser objecto de medidas educativas, tutelares, a cargo do Ministério da Justiça; «proteccio-nista», dirigida aos menores vítimas, em risco, em condições de pré-delinquência, a cargo do Ministério da Solidariedade.

Outros institutos intermédios, como a Lei n.º 82/77, de 6 de Dezembro, Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais, que redefiniu as competências dos Tribunais de Família e dos Tribunais de Menores; o Decreto-Lei n.º 314/78, de 27 de Outubro, Organização Tute-lar de Menores e, mais tarde a Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais – Lei n.º 38/87, de 23 de Dezembro, consagraram a sua intervenção de modo peculiar, por exemplo, o caso da LOTJ, no âmbito dos menor de 12 anos incompletos, quando os pais ou repre-sentantes legais não aceitam a intervenção reeducativa de instituições oficiais ou oficializadas não-judiciárias; ou, quando o menor tem 12 anos completos e 16 incom-pletos e mostra dificuldade séria de adaptação a uma vida social normal.

De acordo com a legislação relativa à Organização Tutelar de Menores, os menores de 16 anos são penalmente inimputáveis, enquanto os menores com idade compreendida entre os 16 e os 18 anos são criminalmente imputáveis, existindo um regime penal especial para jovens entre os 16 e os 21 anos (Dec. Lei n.º 401/82, de 23 de Setembro). A esse respeito o Código Penal português estabelece no art.º 9º, no âmbito de «disposi-ções especiais para jovens» que “aos maiores de 16 anos e menores de 21 são

aplicá-veis normas fixadas em legislação especial”, mantendo-se, obviamente, a possibilidade

(25)

Quadro 5.1

Número de processos tutelares de menores por prática de factos qualificados como infracção penal, taxas de crescimento e índice de delinquência juvenil,

nos anos de 1995 a 2001 Ano Total de Processos Taxa de crescimento em % (1995 = ano «0») Taxa de Crescimento anual em % Índice de delinquência juvenil, per capita,

em % (1) 1995 1.519 0 0 0,07 1996 1.317 -13,3 -13,3 0,06 1997 1.319 -13,17 0,15 0,06 1998 1.321 -13,03 0,15 0,06 1999 1.601 5,6 21,4 0,07 2000 2.255 48,5 40,5 0,11 2001* 988 -34,96 -56,18 0,04

(1) Índice (em valores percentuais) calculado em função da proporção dos casos de infracções penais de menores de 16 anos, face à totalidade de população menor de 16 anos (2.147.022).

* Dados provisórios, correspondentes a processos tutelares educativos em fase de aplica-ção de 1.ª medida findos nos tribunais judiciais de 1.ª instância. Entrou neste ano em vigor um novo inquérito estatístico na sequência da alteração legislativa ocorrida, que veio substituir o antigo boletim para processos tutelares, que se referia a processos findos com aplicação de medida tutelar (1.ª ou nova medida).

Partindo dos elementos disponíveis relativos aos processos referen-ciados, efectuar uma leitura social do fenómeno (que por definição está associado a outros comportamentos marginais, em meio degradado, seja social ou escolar) e estabelecer contornos para uma tendência a nível nacional, exige que se pondere a distribuição geográfica dos dados.

Estabelecendo uma análise comparativa entre os quatro Distritos Judiciais, configuram-se algumas tendências evolutivas (cf. Quadro 5.2). Verifica-se que é no distrito do Porto (maior incidência nos Círculos Judiciais de Guimarães e Porto, e menor peso em Braga e Viana do Cas-telo) que se elaboram mais processos por infracções penais cometidas por menores de 16 anos, existindo praticamente um número duplo de proces-sos em 2000 em relação a 1995, e uma descida acentuada ao limite no ano 2001. Em Coimbra, a tendência decrescente sofreu no ano 2000 uma inversão assinalável, voltando a sofrer uma descida idêntica à verificada no Porto. No distrito de Lisboa a tendência para o aumento de processos desde 1997 é garantida, embora se volte a registar neste distrito judicial um decréscimo acentuado no ano de 2001, o mesmo sucedendo em Évora no que diz respeito ao acréscimo até 2000 e à descida em 2001, de uma forma bem mais acentuada, sublinhe-se.

(26)

Quadro 5.2

Distribuição dos processos tutelares de menores relativos à prática de factos qualificados como infracção penal, por Distrito Judicial, e variação registada,

em % (ano base/«0» = 1995), nos anos de 1995 a 2001 Ano Porto Taxa

crescimento Coimbra T.c. Lisboa T.c. Évora T.c.

1995 476 0,0 333 0,0 356 0,0 354 0,0 1996 482 1,26 296 -11,11 281 -21,07 258 -27,12 1997 555 16,6 304 -8,71 247 -30,62 213 -39,83 1998 548 15,13 276 -17,12 289 -18,82 208 -41,24 1999 607 5,78 256 -23,12 374 5,06 368 3,95 2000 868 82,4 314 -5,7 617 73,3 456 28,8 2001* 260 -45,38 177 -46,9 353 -0,85 198 -44,07 * Dados Provisórios, correspondentes a processos tutelares educativos em fase de aplica-ção de 1.ª medida findos nos tribunais judiciais de 1.ª instância. Entrou este ano em vigor um novo inquérito estatístico na sequência da alteração legislativa ocorrida, que veio substituir o antigo boletim para processos tutelares que se referia a processos findos com aplicação de medida tutelar (1.ª ou nova medida)

Com alguma certeza pode assegurar-se que é no norte do país, em especial no Distrito Judicial do Porto, que se verifica uma maior tendên-cia para o aumento de infracções penais praticadas por menores (cf. Qua-dro 5.3). Trata-se de uma característica que está associada à distribuição geográfica, dado que na região norte a população com idade inferior a 16 anos representa 38,82% da totalidade nacional com esse limite etário (menos de 16 anos).

Quadro 5.3

Processos tutelares de menores relativos à prática de factos qualificados como infracção penal, por Distrito Judicial, nos anos de 1995 a 2001

= Taxa de crescimento anual =

Ano Porto Coimbra Lisboa Évora

1995 0 0 0 0 1996 1,26 -11,11 -21,07 -27,12 1997 15,15 8,33 -12,10 -17,44 1998 -1,26 -9,21 17,00 -2,35 1999 10,27 -7,25 29,41 76,92 2000 42,99 22,66 64,97 23,91 2001 -70,04 -43,63 -42,79 -56,58

(27)

Analisando o crescimento anual e a respectiva distribuição por Dis-trito Judicial, conclui-se que Évora e Lisboa registaram nestes últimos anos o maior aumento percentual (1999 e 2000, e 1998 a 2000, respecti-vamente), embora não seja de desprezar a evolução ocorrida em 1999 e 2000 no Porto e em 2000 em Coimbra.

Identificada a incidência da delinquência juvenil – para melhor per-ceber as questões particulares a ela associadas, dentro e fora da Escola, envolvendo quer a «segunda geração», quer grupos étnicos minoritários, ou outros campos com condições para germinar anti-sociabilidade com-portamental – passamos à avaliação da incidência do fenómeno na popu-lação jovem (cf. Quadro 5.4).

Quadro 5.4

Processos tutelares de menores relativos a infracção penal, por Distrito Judicial, e índice de delinquência juvenil parcial(1), nos anos de 1995 a 2001 Ano Porto Índice de

delinquência juvenil

Coimbra I.d.j. Lisboa I.d.j. Évora I.d.j.

1995 476 0,06 333 0,10 356 0,06 354 0,16 1996 482 0,06 296 0,09 281 0,05 258 0,11 1997 555 0,07 304 0,09 247 0,04 213 0,09 1998 548 0,07 276 0,08 289 0,05 208 0,09 1999 607 0,08 256 0,07 374 0,06 368 0,16 2000 868 0,10 314 0,09 617 0,10 456 0,20 2001 260 0,04 177 0,05 353 0,06 198 0,09

(1) Valores considerados da população (0-14 anos) para estabelecer o cálculo dos índices parciais por Distrito Judicial são os seguintes: Porto (787.739), Coimbra (347.725), Lis-boa (619.915) e Évora (224.525).

A realidade dos números demonstra que é no norte do país que se verificam mais casos de delinquência juvenil, mas maior incidência des-tas acções ocorre nas regiões do Alentejo e do Algarve.

A região de Lisboa regista a menor incidência entre o escalão de jovens menores de 16 anos. Logo, o maior número de casos registados no norte explica-se em função da associação com a concentração demográ-fica elevada. Uma realidade que reflecte, insista-se, a parte dos compor-tamentos anti-sociais, delinquentes e para-delinquentes que chegam aos tribunais.

Finalmente, procuramos os traços indicadores fundamentais para caracterizar socialmente as variações mais significativas.

(28)

O sexo masculino apresenta um maior número de infractores no campo da delinquência juvenil (cf. Quadro 6.1). Observamos subida exponencial em ambos os géneros no ano 2000 em relação a uma relativa estabilização dos valores em termos de percentagens dos infractores desde 1995, e o mesmo deixavam antever os números para 2001 caso não tivesse sido levada a cabo a separação dos menores por força da alteração legislativa provocada pelas leis 147/99 e 166/99.

Quadro 6.1

Número de presumíveis infractores por género, nos anos 1995 a 2001

Anos Masculino Feminino

1995 1.327 192 1996 1.179 138 1997 1.116 203 1998 1.118 203 1999 1.399 206 2000 1.828 427 2001 863 132

No que diz respeito à distribuição por escalão etário, o que deve registar-se com interesse para o estabelecimento das eventuais correla-ções a efectuar com os dados constantes dos dois estudos que seguem, é que o maior índice de presumíveis infractores se situa nos escalões dos 13 anos e dos 15 aos 16 anos (cf. Quadro 6.2).

Curiosamente, verifica-se a ocorrência de infracções cometidas por jovens com idade inferior a 6 anos, bem como um número significativo de infractores do escalão etário dos 7 aos 12 anos, apesar da relativa pouca monta dos danos pessoais e materiais causados pela prática das suas incivilidades17.

Os números deixam também perceber uma relativa estabilidade glo-bal no que se refere à percentagem das citadas acções até 1999, mas no ano 2000 o escalão dos 7 aos 12 sofreu um ligeiro aumento, enquanto os

17 Incivilidades cuja prática se constitui, contudo, como “o patamar de entrada na delinquência e na criminalidade juvenil”, não obstante se afastar, por norma, nestes

escalões mais baixos, das “manifestações naturais de rebeldia”, presentes no processo de crescimento juvenil (cf. Manuel, Paulo Rebelo, Delinquência Juvenil e Novas

Inse-guranças, comunicação apresentada ao Seminário da Inspecção Geral da

Administra-ção Interna, realizado em Lisboa, FundaAdministra-ção Calouste Gulbenkian, em 9 de Outubro de 2001)

(29)

escalões dos 13 aos 14 anos e dos 15 e mais anos dispararam de modo absoluto. Pelas razões enunciadas anteriormente, os valores registados em 2001 não deixam perceber um alteração vincada relativamente a 2000.

Quadro 6.2

Número de presumíveis infractores por escalão etário, nos anos 1995 a 2001 Ano Até 6 anos 7 aos 12 13 aos 14 15 e mais anos

1995 8 228 458 725 1996 12 263 364 678 1997 16 311 498 494 1998 26 341 483 471 1999 16 363 567 659 2000 28 429 855 943 2001 ++ 148 397 449

++ Resultado nulo/ protegido por segredo estatístico

No que diz respeito à nacionalidade dos infractores, os números não deixam dúvidas quanto à prevalência dos portugueses, que tem vindo a aumentar progressivamente, contra alguma estabilidade demonstrada pelo número de presumíveis infractores estrangeiros (cf. Quadro 6.3). Não foi possível apurar a totalidade das nacionalidades dos infractores estrangei-ros, apenas se registando uma nítida predominância de jovens cabover-deanos e angolanos, e dos filhos de candidatos a asilo político prove-nientes de alguns «países do leste», em especial de nacionalidades romena.

Quadro 6.3

Número de presumíveis infractores por nacionalidade, nos anos 1995 a 2001

Ano Portuguesa Estrangeira

1995 1.110 10 1996 1.112 14 1997 1.294 25 1998 1.295 26 1999 1.582 33 2000 2.207 48 2001 971 24

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