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A tradição da escrita e a Bíblia
Erní Walter Seibert*
Perspectiva histórica
Os historiadores ensinam que, anterior à experiência da escrita – e mesmo ao lado dela –, há sempre uma tradição oral. Prova disso são as lendas e histórias preservadas pelas tribos indígenas do Brasil que não têm registro escrito. Câmara Cascudo, considerado um dos maiores pesquisadores do folclore brasileiro, registrou, em 1952, uma importante obra intitulada “Literatura oral no Brasil”. Nesta obra, ele mostra como importantes aspectos da cultura popular foram transmitidos de geração a geração por meio da tradição oral. No entanto, essa tradição, por si só, tende a perder-se. Seu conteúdo só é preservado quando é registrado por escrito.
A Bíblia também tem origem na tradição oral. Moisés registrou a história da criação e das primeiras gerações da raça humana. Mas o registro de Moisés foi feito muitos séculos depois de os fatos terem acontecido. Como ele adquiriu este conhecimento? Por meio da tradição oral.
Da mesma forma, no Novo Testamento, podemos dizer que havia uma tradição oral presente nas primeiras comunidades cristãs. Havia frases e doxologias que eram proferidas em ocasiões especiais, como em cultos e cerimônias litúrgicas. Algumas dessas doxologias foram, mais tarde, colecionadas e preservadas nos antigos credos cristãos. No entanto, vestígios de sua existência aparecem nos escritos do Novo Testamento, comprovando a tradição oral que havia nas comunidades. O registro por escrito preservou a tradição oral de tal forma que hoje podemos conhecer, pela leitura da Bíblia, aspectos importantes do ensino e da vida dos primeiros cristãos.
A história da escrita
Hoje, a tradição escrita é tão forte que praticamente desconhecemos a existência da tradição oral. No entanto, historicamente, a escrita veio depois da tradição oral. A história da escrita humana seguiu passos bem definidos. A necessidade de registrar dados e fatos, fez com que o ser humano começasse a desenhar cenas do cotidiano e objetos. É a escrita pictográfica. A escrita pictográfica procurava reproduzir objetos do cotidiano, muitas vezes de forma estilizada. Exemplos da escrita pictográfica podem ser encontrados nas inscrições de cavernas no Nordeste brasileiro e em várias outras partes do mundo.
Depois da escrita pictográfica, surgiu a escrita ideográfica. Na escrita ideográfica já se reproduziam idéias e não apenas objetos. Era preciso interpretar a escrita dentro do contexto em que ela se encontrava. A escrita ideográfica evoluiu, por exemplo, para os hieróglifos egípcios no mundo antigo e para a atual escrita japonesa. Também a escrita
2 cuneiforme, inventada pelos sumérios no IV século antes de Cristo, evoluiu de um registro pictográfico para fonético.
O passo seguinte na história da escrita foi associar fonemas a símbolos escritos. É a escrita fonética. Primeiro surgiram os assim chamados silabários. Cada sinal representava uma sílaba e não uma letra como hoje o fazemos. As vogais ainda não eram escritas. Os fenícios inventaram um sistema reduzido de representação dos sons consonantais. É neste estágio que a história da escrita estava quando começou a ser registrado o Antigo Testamento, em hebraico e aramaico. Esse tipo de escrita consonantal também está presente, até hoje, no registro da língua árabe.
O Antigo Testamento foi registrado apenas em consoantes. Bem mais tarde, por obra dos massoretas, as vogais foram inseridas no texto.
O grego já é uma forma mais evoluída de escrita. Eles adaptaram a forma fenícia de escrita e incluíram as vogais. Surgia a escrita alfabética. Os sons da fala são registrados em unidades menores do que as sílabas. A combinação das consoantes e vogais permite o registro, de forma bastante econômica, da grande maioria dos sons da fala. Além da diversidade de maneiras de registro, também havia diferença na direção em que a escrita era registrada. O hebraico registra as letras da esquerda para a direita, em linhas horizontais. O japonês também segue da direita para esquerda, no entanto o faz em colunas.
Os gregos antigos escreviam em linhas, porém, em direções alternadas. Chamavam isso de boustrophedon, uma palavra que significa “da maneira como o boi ara o campo.” Foram os romanos que padronizaram a escrita da esquerda para direita, em linhas, como o fazemos ainda hoje no português.
Poderíamos, nesta rápida repassada pela história da escrita, ainda falar a respeito do suporte, sobre o qual a escrita era registrada. Ela foi registrada em tabletes de barro, em tiras de bambu, em papiros, em pergaminhos, em tabuinhas, em papel e, assim por diante.
Mas o mais importante que queremos destacar é a razão pela qual se escrevia. A escrita era o registro de idéias, de dados. Era a forma utilizada por uma geração para transmitir seus conhecimentos, ideais, sonhos e história a outra geração. Algumas das inscrições mais antigas estão relacionadas com o registro de transações comerciais e estoque. Mas a escrita não ficou por aí. Passou a registrar todo o espectro do conhecimento humano.
Também neste aspecto, a Bíblia tem ligação estreita com a história da escrita. A Bíblia registrou para as gerações posteriores a mensagem de Deus e a história do relacionamento do ser humano com Deus.
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A escrita e a transmissão do conhecimento
Não se pode conceber o estágio atual do conhecimento humano sem a existência da escrita. Se hoje podemos nos beneficiar do conhecimento desenvolvido na filosofia pelos gregos, da evolução dos conhecimentos médicos, do desenvolvimento da engenharia – apenas para citar alguns exemplos –, isso se deve ao fato de o conhecimento de cada geração ficar registrado e disponível para as gerações seguintes de forma escrita.
Muitas escolas têm o hábito de fazer uma cerimônia de diplomação, quando seus alunos estão alfabetizados. De certa forma, aquele diploma é o mais importante que uma pessoa pode alcançar. A alfabetização oferece a cada pessoa a condição de se beneficiar de todo o acervo de conhecimento acumulado pela humanidade e depositado em livros.
A transmissão do conhecimento, da antigüidade para nossos dias, foi possível graças à escrita e às pessoas que se dispuseram a fazer cópias dos livros antigos para disponibilizá-los em bibliotecas.
A Bíblia Sagrada só chegou até os nossos dias, seu texto só foi preservado do ponto de vista humano, porque milhares de copistas, ao longo de séculos, se dedicaram a fazer cópias do texto sagrado. Estas cópias, que até o fim da Idade Média eram apenas cópias manuscritas, foram as responsáveis pela preservação do texto bíblico.
A limitação da escrita
O texto escrito tem suas vantagens e seus limites. Fala-se que uma imagem vale mais do que mil palavras. Descrever cenários em palavras é muito difícil. E mesmo que a descrição seja feita com esmero, o efeito na mente dos leitores nem sempre é unívoco. A imagem consegue efeito mais rápido e uniforme na mente dos leitores. São limites do texto escrito.
Outro limite é o efeito na mente de quem lê. O mesmo texto pode ter efeitos diversos na mente das pessoas. Isso mostra um dos limites que o texto tem. Em referência à Bíblia, os limites estão visíveis quando se tenta colocar a mensagem bíblica em filme. Como deve ser a imagem de Jesus Cristo? Seria ele magro? Ruivo? Doce? O texto não ajuda a resolver estas questões. Há poucos anos, vimos o lançamento do filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Foi como se o sofrimento de Cristo estivesse pela primeira vez submetido a uma lente que permitia a aproximação da imagem – um zoom poderoso. O efeito dessas imagens é bem diferente do que o efeito da leitura na maioria dos expectadores.
No entanto, o texto escrito tem vantagens. Ele pode ser congelado. Sua conservação é bem mais fácil que a conservação de imagens. Sua reprodução também é mais fácil.
4 Ele pode ser examinado cientificamente como poucas produções humanas. E a Bíblia foi produzida como texto escrito. Esta característica, com suas limitações e vantagens, faz da leitura da Bíblia sempre uma experiência única.
A interpretação da escrita
Talvez o grande desafio da escrita seja a interpretação do texto. Em qualquer texto isso é verdadeiro. Se na literatura a interpretação dos textos já é importante, ela pode ser dramática quando se trata da interpretação de um texto legal.
Na Bíblia, a questão da interpretação, ou das interpretações, também é importante. A partir da mesma origem, muitas interpretações vieram à luz. Por isso a importância da conservação do texto, por um lado, e o cuidado com a questão da interpretação, por outro lado.
No texto legal distingue-se, por vezes, entre o texto da lei e o espírito da lei. No texto bíblico também se fala que, ao contatar o texto, vem a ação do espírito. Cristãos falam que o Espírito Santo ajuda a interpretar o texto ou levar o sentido de texto ao leitor. Esta experiência é sempre constatada na leitura do texto bíblico por milhões de leitores tanto distantes geograficamente quanto distantes no tempo uns dos outros.
A experiência da escrita
Gostaria de abordar ainda um aspecto na questão do texto que é o da experiência de escrever. Escrever é uma experiência única. Não é uma experiência qualquer. Copiar um texto escrito há milênios põe-nos em contato com a história e com o próprio Deus.
A Bíblia manuscrita
Quando a Sociedade Bíblica do Brasil decidiu executar o projeto Bíblia Manuscrita dentro das celebrações do Ano da Bíblia, não tinha em mente apenas mobilizar as pessoas em torno da Bíblia Sagrada. Ela pensava convocar centenas de milhares de pessoas para uma experiência especial sob vários aspectos:
1. Uma experiência com o texto. Ao copiar um versículo da Bíblia, a pessoa que o faz tem uma experiência com o texto bíblico. É por isso que estamos tendo cuidados especiais na montagem dos Scriptoria para que as pessoas, mesmo nesse pequeno exercício, tenham um momento em que vão estar em contato privado com o texto. Vocês podem imaginar que valor excepcional será proporcionado?
2. Uma experiência com o espírito do texto. Além do texto, está o espírito do texto. Não é apenas uma questão de letras e de leitura. É mais do que isso que a experiência com o texto traz. Ela traz a experiência com o espírito do texto. Tratando-se do texto sagrado, sem dúvida alguma, o espírito do texto
5 é o Espírito Santo. E aí a experiência de cada um é uma experiência única, não repetida e não programável.
3. Uma experiência com a história. Cada copista vai ter uma experiência única, não repetida. Como cada versículo da Bíblia tem a sua particularidade, seu contexto histórico, seu conteúdo próprio, cada copista terá o seu contato pessoal com a história. Riquíssimo é este contato com a história.
4. Uma experiência com a leitura e suas peculiaridades e dificuldades. Além disso, será uma experiência com a leitura e suas características especiais. Em muitas Igrejas existe o hábito de alguém ler um texto em voz alta e o público presente acompanhar a leitura em sua própria Bíblia. Nestas situações, é fácil perceber que, por vezes, o leitor salta algumas palavras, modifica outras e adapta rapidamente o seu texto à sua forma de falar. Na cópia do texto ocorre o mesmo fenômeno. As dificuldades da leitura estão presentes e as dificuldades da cópia estão presentes. Nos testes que foram feitos para preparar o processo da Bíblia Manuscrita verificamos que muitas pessoas ficavam extremamente nervosas para este simples exercício. Todos participantes terão esta experiência viva com a leitura, a cópia e suas peculiaridades e dificuldades.
Benefícios da experiência da Bíblia Manuscrita
O projeto Bíblia Manuscrita também pretende trazer aos participantes e a nosso país alguns benefícios:
1. Incentivo à leitura. Nos programas de alfabetização de adultos, uma das razões mais apontadas pelas pessoas adultas para quererem aprender a ler é o seu desejo de lerem a Bíblia Sagrada. A Bíblia é um elemento motivador da leitura. Quantas pessoas, ao receberem menção deste projeto, sentirão em si o desejo de lerem mais a Bíblia, e lendo mais a Bíblia não começarão a ler outros bons livros. 2. Incentivo à cultura. Entrar em contato com um texto que foi testado
ao longo dos anos, e hoje é o mais influente, mais presente e mais lido por toda a humanidade, traz um incentivo inerente à cultura. Um professor do Departamento de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, há alguns anos, me contou que ele descobriu que a maioria de seus alunos de hebraico provinham das camadas mais humildes da população e que o grande incentivo que tiveram para buscar a Universidade foi o fato de quererem conhecer mais a fundo a Bíblia Sagrada. Ele, que não era cristão, reconhecia nisso um grande incentivo à cultura.
3. Incentivo à solidariedade. O projeto Bíblia Manuscrita está associado a um projeto social. Estamos solicitando a todos os participantes do
6 projeto que doem ao menos a quantia de R$ 1,00 para o projeto Inclusão do Deficiente Visual, desenvolvido pela Sociedade Bíblica do Brasil. Este projeto doa volumes da Bíblia em braile para deficientes visuais, garantindo a esse público o acesso ao texto bíblico. Esta solidariedade precisa ser mais estimulada entre nosso povo.
4. Leitura de bons textos – Bíblia – produz pessoas melhores.
*Erní Walter Seibert é doutor em Ciências da Religião, mestre em Teologia e secretário de Comunicação e Ação Social da Sociedade Bíblica do Brasil