________________________________________________________________________ PN 1622.00;AG: TC Caminha;
Ag.e:1Aurora Matos Fernandes Pinto, Lugar de France, Sopo, V.N. Cerveira; Ag.a:2 Balbina Rosa Castanheiros,
Av.Dr. Dantas Carneiro, Moledo, Caminha
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Acordam no Tribunal da Relação do Porto
1. Aurora M.F.Pinto agrava do despacho que não lhe concedeu o benefício de apoio judiciário, no curso de acção de prestação de contas que lhe move, e a outros, Balbina R. Castanheiros (PN114D/88,TC Caminha), formulando as seguintes conclusões:
a) Para indeferir o pedido, a julgadora recorreu apenas a uma representação mental, sem correspondência com os factos ou quaisquer provas;
b) Supôs que o falecido Maximino Pinto, com quem a Ag.e foi casada no regime de separação de bens3, guardou exactamente os 13.000 c. de tornas ao longo de 3 anos, e que, após o óbito, esta se assenhoreou de tal valor;
c) Mesmo que se tivesse demonstrado, como não é o caso, ter Maximino Pinto deixado aquele valor das tornas, haveria de considerar-se tal montante como verba a partilhar entre a Ag.e e os 3 filhos do falecido4, afecta ainda ao pagamento de eventuais dívidas da herança;
d) O despacho recorrido é por conseguinte desprovido de qualquer fundamento em relação à recorrente, não tendo o tribunal examinado e confrontado os factos revelados pelo processo e apensos;
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Adv: Dr. Carlos Lages, R. Cândido dos Reis, 26 2º, 4901-876 V. do Castelo. 2
Adv: Dr. Rocha Neves, Prç.da República, 4/6 2º Fr.,4900-520 V. do Castelo. 3
e) Na verdade, as provas juntas ao requerimento do apoio5,e o inquérito da GNR6, demonstram com clareza a insuficiência económica da Ag.e, em ordem a custear os encargos da causa, de valor considerável (15.000 c.);
f) A decisão recorrida violou assim o disposto nos art.s 341,349,350 CC; 463/1,655,659 CPC; e 7/1,15,19,20/1 c.,23, DL 387B/87,29.12, preceitos que deveriam ter sido interpretados no sentido do deferimento.
2. Nas contra-alegações, disse Balbina R. Castanheiros:
a) O benefício do apoio judiciário destina-se a permitir que pessoas em situação económica precária não vejam negado a acesso à justiça e aos tribunais em virtude da carência de meios, razão pela qual incumbirá ao Estado suportar as despesas inerentes;
b) Tal benefício não constitui mais do que a concretização de um direito constitucionalmente consagrado: o de acesso de qualquer cidadão à Justiça (art.20 CRP);
c) Só poderá beneficiar porém de apoio judiciário quem efectivamente se encontra numa situação de manifesta carência económica, o que não é o caso da Ag.e;
d) Na verdade, doméstica, recebe a reforma do falecido marido, Pte:20 400 $00; vive sozinha; suporta despesas mensais de Pte: 80 000$00; tem casa própria e possui um veículo automóvel, RL-60-07, Seat Ibiza XL, 1989;
e) Mais se encontra demonstrado nos autos que o falecido Maximino Pinto recebeu a quantia de Pte: 13 290 250$00, a título de tornas no inventário 114 A/88, TC Caminha7;
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Está junta certidão confirmativa, de escritura de habilitação. Nesta foi declarado que a Ag.e fora casada, na separação de bens, com Maximino Pinto, arquivada a certidão do assento no Cartório.
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Foi junta cópia de Vale Postal Nacional emitido pelo CNP em favor da Ag.e, no montante de Pte:20 400$00
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Em ofício de resposta a solicitação do tribunal, o Comandante do posto GNR-Valença, diz de Aurora M. F. Pinto: doméstica, recebe de reforma do falecido marido Pte: 20 400$00; vive sozinha, em casa própria ;
suporta despesas mensais de Pte:80 000$00; tem um veículo automóvel de matricula RL-60-07, marca Seat Ibiza XL, ano 1989; nada consta quanto (1) a ter prédio rústicos ou urbanos; (2) acerca de outros rendimentos certos; (3) a mais informações pertinentes ao assunto em causa.
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Está junta certidão confirmativa, da descrição de bens, da acta da conferência de interessados e do mapa da partilha; trata-se de inventário para partilha de bens comuns do casal, após dissolução do casamento,
f) Está demonstrado também que o mesmo tinha a receber no dito inventário, e recebeu, a quantia de Pte: 4 945 647$00, referente a metade dos depósitos bancários relacionados8;
g) Tendo ocorrido tais recebimentos nos anos 1996/979, enquanto faleceu em 99.09.29;
h) Ora, é do senso comum que ninguém dissipa em menos de dois anos mais de 18 000 c.;
i) Se a Ag.e suporta despesas mensais superiores a Pte: 80 000$00, quando afirma auferir uma reforma de 20 c., tal só pode revelar a existência de outros rendimentos para além da dita reforma;
j) Rendimentos esses que necessariamente provêm dos montantes deixados por Maximino Pinto, já que a Ag.e é doméstica, não tendo portanto qualquer actividade remunerada;
k) Em face dos factos demonstrados era, como é, licito ao tribunal deduzir e considerar provada a realidade que esses factos traduzem: a capacidade económica da Ag.e para suportar as despesas do pleito;
l) É que o exame crítico das provas conduz a que se possam e devam tomar em consideração certos factos embora não se tenham provado por qualquer dos meios do art. 659 CPC, logo que se intuam, lógica e necessariamente, dos que se provaram, e segundo as regras da experiência comum;
m) Assim, a decisão recorrida alicerça-se num raciocínio lógico de indução, legalmente permitido e radicado no saber de experiência feito;
n) Aliás, após a entrada em juízo da contestação do pedido de apoio
judiciário10, 00.06.08, a Ag.e foi ouvida, 00.06.16, em declarações de cabeça de casal no inventário que corre no tribunal na comarca de V. N. Cerveira (PN. 177/99) por óbito de Maximino Pinto, e referiu expressamente que as tornas que
requerido por Balbina R. Castanheiros, e em que foi cabeça de casal Maximino Pinto (PN114A/66,TC Caminha).
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Id., vd. nota antecedente. 9
Está junta certidão dos termos de entrega a Maximino Pinto de precatório cheques no montante de PTE 4 090 000$00, no dia 96. 12. 09, e no montante de PTE 9 200 000$00 em 97.03.18 (PN114A/88 TC Caminha).
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Está junta certidão da contestação da Ag.a ao pedido de apoio, na qual apresentou no essencial os argumentos que repete nas contra alegações.
lhe foram pagas a ele, e a metade dos depósitos bancários (PN 114A/88) foram
depositadas na CGD- Caminha, em nome do inventariado e dela11;
o) Mais referiu que actualmente ainda existe a quantia de Pte: 4 200 000$00, proveniente do inventário 114A/88, que se comprometeu a relacionar, não tendo indicado a existência de qualquer passivo12;
p) Deste modo, a Ag.e além de ser herdeira de Maximino Pinto, e de possuir uma quota-parte no referido montante de Pte: 4 200 000$00, ainda terá de esclarecer qual o destino que ela própria deu ao restantes Pte: 13 800 000$00; q) É lícito concluir que é com eles que faz face às despesas mensais;
r) Dispunha por conseguinte a julgadora de todos os elementos necessários, quer de facto, quer de direito, para além do acervo de experiência pessoal e quotidiana, para concluir que a Ag.e é possuidora de um razoável pecúlio, pecúlio esse que lhe permite suportar facilmente as despesas da acção;
s) O julgamento, firmemente alicerçado, enquadra-se bem nos poderes de livre apreciação, que são as indicáveis;
t) Deve pois ser julgado improcedente o agravo. 3. A decisão recorrida deu como provado:
a) Aurora M. F. Pinto de 56 anos de idade, vive em casa própria, e tem como único rendimento uma pensão de sobrevivência de Pte: 20 400$00;
b) É dona de um veículo Seat Ibiza, 1989;
c) Viúva de Maximino Pinto, este recebeu, a título de tornas, na partilha dos bens do casal que formara com Balbina R. Castanheiros, a quantia de Pte:13 290 250$00;
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Está junta certidão comprovativa, da relação de bens e das declarações da cabeça de casal: …mais
esclareceu que também é verdade que tem em seu poder a quantia de 4 200 c., provenientes do inventário aludido na reclamação da interessada;…quanto ao restante dinheiro recebido pelo inventariado no mencionado inventário, a cabeça de casal esclarece que o mesmo foi na totalidade gasto com despesas de saúde do falecido; mais esclarece que o dinheiro foi depositado na CGD- Caminha, em nome do inventariado e da cabeça de casal; mais esclarece que correram no Tribunal do Trabalho duas acções contra o inventariado, nas quais o mesmo foi condenado a pagar pensões a duas pessoas, em consequência de acidentes de trabalho ocorridos com dois trabalhadores de Maximino Pinto, os quais faleceram; refere que parte do dinheiro recebido em tornas no inventário supra referido foi utilizado também para o pagamento dessas pensões (PN 177/99,TC V.N. Cerveira).
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d) Maximino Pinto faleceu em 99.09.29, com testamento a favor da Ag.e, e deixou 3 filhos do primeiro casamento.
4. Com base nestes factos foi concluído:
a) Vivendo a Ag.e com o marido e beneficiário das tornas, ao tempo em que este as recebeu, e sendo herdeira legitimária e testamentária de Maximino Pinto, é perfeitamente legítimo concluir que não pode deixar de possuir um razoável pecúlio, ainda hoje;
b) 13 000 c. é uma quantia considerável, ficando assim ilidida a presunção de insuficiência económica de que beneficiava a Ag.e, de acordo com o art. 20/1 c., DL 387B/87, 29.12
5. O recurso está pronto para julgamento, nos termos do art.705 CPC.
6.Decide-se aditar à matéria de facto tomada em consideração, no despacho recorrido que Aurora M.F. Pinto e Maximino Pinto foram casados no regime de separação de bens: a referência, aliás legalmente imposta, na escritura de habilitação ao documento comprovativo, que se pressupõe ter sido examinado pelo Notário perante o qual foi feita a declaração desse regime de bens entre os conjuges estabelecido, remete-nos para a força probatória vinculada da mesma certidão do assento de casamento, donde consta obrigatoriamente o dado aditado.
Defende a Ag.e que só deve ser levado em linha de conta, para apreciação do mérito do pedido de apoio judiciário, o quantum dos rendimentos em espécie comprovados, sendo as conclusões do despacho recorrido no sentido de um convencimento de melhor fortuna baseadas em arbítrio, apenas subjectivamente talhado.
Muito pelo contrário, a Ag.a sustenta a bondade e licitude da inferência judicial no dado comezinho de não ser possível fazer face a despesas excedentárias (em relação aos rendimentos de mero titulo) sem que maiores réditos existam em carteira; e a pronuncia do tribunal remeter-nos-ia, no limite, para a insindicável livre convicção do julgador.
Porém, o certo é que apenas se demonstrou a existência de outros bens rendíveis na titularidade do marido falecido da Ag.e. Ora, estes bens, mesmo que na mão de Aurora M. F. Pinto, são-no a benefício de inventário (atento o regime de bens do casamento e não se falar de nenhuma doação), não podendo pois dispor deles, ou dos rendimentos que produzam, senão por conta da herança de que é cabeça de casal13. Assim, não se trata aqui de rendimentos próprios da Ag.e., e de bens, os quais permanecem indivisos.
Por outro lado, a circunstância de a Ap.e ter despesas superiores aos rendimentos só evidencia que passa por dificuldades financeiras (posição assumida), não tendo ficado provado que não está endividada (contra-prova a cargo da Ag.a).
Em suma inexiste qualquer outro elemento que infirme aquilo que resultou do inquérito da GNR; e não pode, em todo o caso, sequer presumir-se da simples titularidade de um automóvel que este seja utilizado, ou que as despesas inerentes sejam custeadas pelo dono.
Tal como defende a Ag.e, tomar-se-á por firme, assim, o nível de rendimentos certificados da pretendente do benefício do apoio judiciário, afinal de contas apurado pela autoridade, com competência.
O quantum cabe dentro da presunção legal de insuficiência de meios para arcar com despesas judiciárias.
Por isso mesmo, procedem as razões opostas pela recorrente à decisão que lhe foi desfavorável.
Na verdade, a livre convicção, mesmo que estivesse agora em causa, é desde logo sindicável através da consistência, ou não, dos motivos da sentença. Como vimos estes não resistem a crítica.
7. Atento o exposto, vistos os art.s 7/1,15,19,20/1 c, 23, DL 387B/87,29.12, decide-se conceder provimento ao agravo, revogando o despacho que não concedeu o benefício do apoio judiciário à Ag.e, que se substitui pela presente decisão em que lhe é concedido, na modalidade de dispensa inteira do pagamento de taxas e custas.
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O processo de inventário corre, como aliás refere a Ag.a, e está documentado ( vd. nota 11). Nele se terá de discutir se houve ou não bens da herança dissipados, como seriam aqueles que correspondessem a afectação ao pagamento de custas da responsabilidade da Ag.e.
8. Custas pela Ag.a, sucumbente14.
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