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O luto e seus destinos.

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Academic year: 2017

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RES UMO: O trabalho faz um breve percurso pela teoria freudiana do luto e procura dem onstrar, através de um fragm ento clínico, que o destino de um luto pode ser diferente da proposta freudiana: ou a elaboração, ou a queda na m elancolia. Procura enfatizar a grande dificuldade do processo de perda e valorizar outras form ações de com -prom issos possíveis de se instalarem diante de um luto não m uito bem elaborado.

Palavras - chave : luto, angústia, m orto-vivo, incorporação.

ABSTRACT: The vicissitudes of m ourning.This paper briefly follow s the Freudian theory of m ourning. Using part of a clinical case, an attem pt is m ade to dem onstrate that the vicissitudes of m ourning m ay differ from those proposed by Freud, nam ely, either ‘working through’ it or collapsing into m elancholy. Em phasis is m ade on the great difficulty involved in the m ourning process, as well as on the value of other possible sym ptom form ations in the event of m ourn-ing not beourn-ing well worked through.

Ke y w ords : m ourning, anxiety, dead-alive, incorporation.

E

m seu brilhante ensaio O luto e a melancolia, Freud ( 1915/ 1975) lançou as linhas m estras das sem elhanças e diferen-ças entre a m elancolia e o processo de luto, tornando clássico em psicanálise o destino possível de um a perda am orosa ou de um ideal: a elaboração do trabalho de luto ( a recuperação da libido e a volta ao interesse no m undo externo) , ou o fracasso dessa elaboração e a queda na m elancolia. É verdade que tam -bém falou de um a recusa da perda, que poderia levar a um a psicose alucinatória, m as o que foi absorvido pela psicanálise e tornou-se um dos m andam entos da teoria foram esses dois des-tinos: a elaboração bem -sucedida ou a m elancolia.

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O que pretendem os, neste trabalho, é considerar que são vários os destinos possíveis de um luto, desde o pleno resgate da libido a soluções sintom áticas de com prom isso: neuroses transitórias ou não; até os quadros m ais graves com o a m elancolia ou a psicose alucinatória. Muito tem os ainda a descobrir em relação a esse processo. Ao com parar m elancolia e luto, Freud ( 1915/ 1975) centra a ques-tão em torno da perda, seja de um a pessoa, seja de um ideal, e esclarece que algu-m as pessoas reagealgu-m a isso coalgu-m ualgu-m quadro de algu-m elancolia, provavelalgu-m ente devido a um a predisposição patológica. Já no luto, espera-se que, passado algum tem po, recupere-se o interesse pela vida sem necessidade de qualquer interferência tera-pêutica.

As características do luto e da m elancolia são descritas: um profundo desâni-m o, perda do interesse pelo desâni-m undo externo, inibição da atividade edesâni-m geral, inca-pacidade de am ar. A dim inuição da estim a, acom panhada de intensas auto-acusações, podendo culm inar até m esm o num a expectativa delirante de punição, é considerada um a característica exclusiva da m elancolia. Além disso, o objeto per-dido do m elancólico é m ais idealizado que o do luto, sendo que, na m elancolia, estam os lidando com um a perda de objeto que pode ser inconsciente, enquanto no luto esta perda é totalm ente consciente. A am bivalência em relação ao objeto perdido é outro aspecto fundam ental que diferencia os dois quadros, sendo m ui-to intensa nos m elancólicos, que se esquivam dela, voltando contra si a hostilida-de que sentiam contra o objeto.

Dando prosseguim ento à sua m etapsicologia da m elancolia, Freud ( 1915/ 1975) conclui que, nesta afecção, a libido livre, ao invés de se ligar a um novo objeto, volta-se para o próprio ego, e ocorre um a identificação do ego com o objeto abandonado. Daí, então, o ego passa a ser julgado por um a agência especial ( futuram ente nom eada de superego) com o se fosse um outro objeto. As au to-acu sações são, n a realidade, dirigidas con tra esse objeto perdido in tern alizado no ego.

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Abraham ( 1924/ 1970) achava que a diferença entre o luto e a m elancolia ain-da não estava plenam ente com preendiain-da, apesar ain-da form idável contribuição freu-diana. Com entou que a m etapsicologia do luto norm al era superficial; a psicanáli-se ainda não tinha conpsicanáli-seguido explicar com o psicanáli-se processava o trabalho de luto. Avançou no estudo das depressões m elancólicas e, entre outras contribuições, en-controu no processo de luto norm al um a analogia possível relacionada ao par m elancolia-m ania, apontando que em m uitos processos verificava-se um aum en-to dos desejos sexuais, um a m aior iniciativa, um engravidar.

Acom panhando Abraham ( 1924/ 1970) , concordam os que, apesar de todo estudo desenvolvido em torno do luto e da m elancolia, o processo de luto ainda perm anece assaz m isterioso, e o que tem os observado é que este processo tam bém pode envolver qualidades inconscientes, sem por isso desem bocar, necessariam ente, num a m elancolia. A experiência clínica nos revela que a perda de um a pessoa am a-da pode fazer em ergir outros tipos de perturbações psíquicas, além do quadro m elancólico. Estam os tentando am pliar os conhecidos destinos: ou a elaboração do luto, ou a m elancolia.

Tentarem os ilustrar nossa proposta com um a vinheta clínica, relativa a um de-term inado acontecim ento ocorrido há alguns anos atrás: Maria, um a m ulher no início de seus 40 anos, procurou a análise, alegando que já não agüentava tanto sofrim ento, tanta angústia. Tentava em vão se consolar com palavras tranqüi-lizadoras, racionalizadoras m as nada adiantava, a dor insistia. Seus terrores se tra-duziam num m edo incontrolável de perder os filhos. Qualquer m ínim o atraso, qualquer indício de doença e os afastam entos um pouco m ais longos eram vivi-dos com o tragédias im inentes. Não tinha a m enor dúvida de que se tratava de um sofrim ento neurótico, m as tudo era inútil, vivia avassalada pelo m edo. As coisas pioraram depois que os filhos cresceram e ganharam certa autonom ia, daí em diante sua vida tornara-se um inferno. Entretanto, não pretendia escravizar seus filhos com seus tem ores infundados. Observou que lam entava m uito isso estar ocorrendo, pois estava num m om ento particularm ente feliz de sua vida. Com o crescim ento dos filhos, voltara a ter m ais tem po para se dedicar ao trabalho, tinha um com panheiro am oroso, um a vida sexual que a satisfazia, bons am igos e um a situação financeira confortável.

Perdera o pai há uns quinze anos atrás e era m uito ligada a ele. Tinha dificulda-des com a m ãe, m as conseguira um relacionam ento razoável com ela, não diria am oroso, porém civilizado. Sofreu m uito com a m orte súbita do pai, tendo levado m uito tem po para sair de um a profunda tristeza com a perda de quem tanto signi-ficou para ela.

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No desenrolar de nossos encontros, eu pouco falava e Maria continuava avassalada pela sua angústia, perplexa e desanim ada com nossa experiência. As pro-postas psicanalíticas povoavam m inha m ente. Escutava Maria m as pouco ouvia. Nada com provava m inhas suspeitas, que aliás giravam em torno dos pressupostos teóricos psicanalíticos. Am bivalência excessiva? Medo/ desejo de m orte dos filhos? Gozo superegóico? Neurose traum ática?

Um dia, um sonho: “Hoje tive um sonho estranhíssim o. Não tinha história, nem nada... Não sei por que ele ficou m e invadindo, na verdade, era só um a im a-gem , e ela apareceu m uitas vezes hoje de novo, quando já estava acordada. Era um vidro de conserva e dentro dele havia um tum or; m ais parecia um queijo branco, com o a muzzarella de búfala, boiando num líquido. Não faço a m enor idéia do que esse sonho quer significar.” Visualizei o sonho, pensei e nada m e ocorreu. Lem -brei-m e da advertência freudiana para selecionar um pedaço do sonho e solicitar associações em cim a do fragm ento, quando nada se produzisse em torno do so-nho com o um todo. Tum or? Com ecei a repetir para m im m esm a: tum ortum or tum or, m orto! Digo: “Maria, tum or ao contrário é m orto.”

Maria com eçou, então, a fazer outras associações: o branco lem brava o lençol branco que envolvia seu pai, quando foi enterrado. Não estava aqui quando ele faleceu. Ao chegar já o encontrara no caixão.

A religião judaica enterra seus m ortos nus, com o vieram ao m undo, enrolados num lençol branco, e não se pode abrir o caixão. Maria lem brou que havia pedido insistentem ente para tocar seu pai, explicando que não pudera vê-lo m orto. Um religioso, penalizado, abriu o caixão rapidam ente, e ela o tocou. Não é possível, disse ela em ocionada, 15 anos se passaram e eu não consigo enterrá-lo!

Um queijo muzzarella de búfala, conservado num vidro. Um tum or. Um pai muito am ado, judeu, vindo da Itália com a invasão do nazism o. Um m ãe, um pai-filho, um pai m orto-vivo.

Após esse sonho, prosseguim os nossos encontros onde predom inava o assun-to do pai vivo e do pai m orassun-to. Sua angústia foi deslocada para seus filhos, eleiassun-tos, entre outras razões, por terem sido justam ente concebidos em pleno luto paterno. A contam inação da vida com a m orte se deu. Irrom peu no luto, um a brusca erup-ção de vida m esclada com a m orte.

Maria lem brou-se que, logo após a m orte de seu pai, acordava no m eio da noite tem erosa de m orrer tam bém , além disso, “provocara” um acidente de auto-m óvel na priauto-m eira seauto-m ana após o desapareciauto-m ento do pai. Esses sintoauto-m as passa-ram com relativa rapidez, m as não a tristeza, essa levara m uito tem po...

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an-davam desacom panhados, foi que irrom peram as freqüentes crises de angústia, aos seus próprios olhos injustificadas.

Retom ando a preciosa contribuição freudiana, ratificada por Abraham ( 1924/ 1970) , verificam os que, em qualquer processo de perda, o prim eiro m ovim ento é o de introjeção do objeto am ado perdido, m ecanism o que em presta vida ao obje-to, vitaliza o am or que se foi. Entretanto o que se observa, segundo esses autores, é que nos processos de luto norm al tal introjeção é rápida, transitória, e o psiquis-m o se vê obrigado a se curvar ao teste de realidade.

Concordam os que esse processo de introjeção é, efetivam ente, m uito m ais longo nos casos dos lutos não tão bem sucedidos, m as, com o já observam os, tais casos não se lim itam a um destino m elancólico. Maria, apesar de suas eclosões de angústia era um a m ulher vivaz, interessada na vida e vaidosa. Entretanto, carrega-va um processo de luto ainda por elaborar.

A introjeção de um objeto m orto é produtora de m uita angústia, m esm o quan-do diante de um a perda sem am bivalência excessiva. Sabem os da proxim idade quan-do conceito de introjeção com o da identificação, e ao convocarm os o objeto m orto ao nosso interior a fim de não nos separarm os dele, invocam os concom itantem ente um a angústia avassaladora, pois os vivos não se m isturam harm oniosam ente com os m ortos. Ao em prestarm os vida ao m orto pagam os com um pedaço de nossas vidas e, no m ínim o, com a am eaça de nossa própria m orte. Não há negociação possível com a m orte cuja m oeda não seja a própria vida. A introjeção de um m orto que se quer vivo, de um m orto-vivo, é um a solução de com prom isso pro-vocadora de intensa angústia, indutora de um pouco de m orte. Estam os supondo que, em m uitos casos, a perda por m orte e a conseqüente introjeção do objeto m orto, transform ado num m orto-vivo, provoca um a intensa angústia que não está vinculada nem à am bivalência, nem à culpa, m as sim ao desejo de se unir ao objeto, à im possibilidade de se separar dele, e ao m esm o tem po, ao terror que essa união significa: a nossa própria m orte.

Bow lby, em 1962, já havia afirm ado que a persistente busca de união com o objeto definitivam ente perdido é o principal m otivo do luto patológico, e isso sem pre aparece de form a m ascarada, distorcida.

Tem os um a vastíssim a produção na cultura de m itos, lendas, figuras de reli-gião que expressam de um a form a ou outra esse processo que tentam os descrever. São os nossos fam osos vam piros, fantasm as, zum bis, que retornam do inanim a-do, am eaçando-nos. São m etáforas, criações que não cessam de ser construídas e, atualm ente, contam os com todo arsenal tecnológico da contem poraneidade con-tribuindo para m ultiplicar essas produções.

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taram que os autores psicanalíticos perderam o sentido rigoroso e específico in-troduzido por Ferenczi em 1909. A introjeção, segundo este autor, consiste num processo que perm ite que os interesses prim itivos auto-eróticos se expandam para o m undo exterior, possibilitando a inclusão dos objetos do m undo no ego.

Para Ferenczi ( 1912/ 1991) , o hom em só é capaz de am ar a si m esm o; qual-quer am or de objeto, em últim a instância, im plica a integração desse objeto no próprio ego. É essa fusão dos objetos com o próprio ego que cham a de introjeção. Esse processo é constituinte do ego, que se am plia através das introjeções.

Ferenczi aproxim a a introjeção da transferência, e argum enta que o neurótico está continuam ente buscando objetos de transferência, ou seja, busca atrair para si próprio tudo que é possível, distribuindo seu am or e ódio até para objetos super-ficialm ente insignificantes. O resultado dessa transferência é a introjeção excessi-va, que nos neuróticos se m anifesta som ente com o um exagero daquilo que é absolutam ente norm al e constituinte de todo ser.

No início, o recém -nascido não é capaz de diferenciar o que é o m undo exter-no ou interexter-no. Ao fazer a prim eira separação entre o que lhe pertence e o que é da ordem externa, está realizando a prim eira operação projetiva, a “projeção prim iti-va”. Um a parte do m undo externo, entretanto, não cede à expulsão e se im põe ao ego, que a reabsorve, constituindo a prim eira introjeção, “a introjeção prim itiva”, am pliando o ego.

É, tam bém , graças à introjeção que o objeto externo opera com o um m ediador para o Inconsciente. Esse com ércio transform a as m oções pulsionais em fantasias desejantes com um a configuração delineada, enriquecendo o ego, dando nom e ao que não tinha, permitindo o jogo objetal, a vida de relações. A concepção ferencziana da introjeção im plica um a valorização desse conceito com o algo estruturante, cons-tituinte do ego, fundam ental ao desenvolvim ento, e os autores contem porâneos têm esvaziado esse conceito, chegando a equacionar introjeção à posse do objeto através da incorporação, com o bem observaram Abraham e Torok ( 1968,1972/ 1995) ao insistirem na distinção m etapsicológica entre introjeção e incorporação.

Retom ando a originalidade do conceito criado por Ferenczi ( 1909/ 1991) , clarificaram que introjetar é um processo de alargam ento do ego, de inclusão da libido inconsciente que investida no objeto perm ite a am pliação egóica. A opera-ção da introjeopera-ção não é com pensatória de um a perda objetal; na verdade, quase todas as características atribuídas a ela pertencem à incorporação, este sim um m ecanism o fantasm ático que entra em ação após a perda de um objeto. Na tenta-tiva de negar o objeto perdido, realiza-se a incorporação, ou seja, um a fixação, um congelam ento do objeto dentro do sujeito. O ego tenta m anter vivo o objeto im a-ginário m esm o à custa de sofrim ento, na esperança de que algum dia seus desejos possam ser realizados e paga por isso com a doença do luto.

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ao luto, ou seja, um a negação da dim ensão do significado daquela perda. O saber im plicaria um a necessária m odificação em nós m esm os que seria proporcionada pela introjeção. Ao invés da introjeção ocorre um a incorporação, e isso aponta, necessariam ente, para um a lacuna, um a falta. A incorporação não perm ite um a m etabolização do objeto no ego. O objeto, com o já observam os, perm anece fixo, congelado, dentro do ego. Nessa perspectiva, os autores recuperam a introjeção com o um m ecanism o enriquecedor e expansor dos interesses do ego, dando a ele um a im portância fundam ental no processo de luto, resgatando a form ulação ori-ginal feita por Ferenczi ( 1909/ 1991) .

Acrescentaram que as perdas que têm por destino a incorporação são aquelas que não podem ser conscientem ente adm itidas. Tais perdas têm com o conseqüên-cia um luto indizível, instalando no sujeito um a “cripta” secreta. A troca da introjeção pela incorporação deve-se ao fato de estarm os lidando com desejos proi-bidos em relação ao objeto, um luto envergonhado. Torok ( 1968/ 1995) nom eia de “fantasia do cadáver saboroso” este m orto, conservado inconscientem ente, guardado na esperança de um dia poder ser reanim ado.

Um a muzzarella de búfala num vidro de conserva — “um cadáver saboroso” — e a recusa de abrir m ão de um a posição libidinosa tão confortável: a ilusão da proteção que poupava Maria do profundo sentim ento de desam paro. Neste caso, não se tratava exatam ente de um luto envergonhado por um desejo sexual interdi-tado; a incorporação instalou-se pela recusa parcial das conseqüências daquela m orte, a perda de um objeto que significava um a prom essa de escapar da angústia ante o destino incontrolável.

A psicanálise centrou, prim eiram ente, a explicação das psiconeuroses no com -plexo de Édipo e, gradativam ente, foi dando cada vez m ais valor às perturbações nas relações de objeto pré-edípicas, com o responsáveis pela form ação dos qua-dros psiconeuróticos e, especialm ente, dos psicóticos. Abraham ( 1924/ 1970) já destacara, dentre as causas determ inantes dos quadros depressivos, um a grave le-são no narcisism o infantil provocada por sucessivos desapontam entos am orosos na relação m ãe-filho. É, aliás, esse autor quem precisa que quando a perda de um objeto am ado se transform a num quadro m elancólico, tal objeto sem pre repre-senta um objeto infantil original.

Apesar de concordam os com todo estudo psicanalítico que valorize as expe-riências infantis e a influência de fatores constitucionais na determ inação dos qua-dros neuróticos, fazem os objeção a qualquer teoria que tente estabelecer, rigida-m ente, o rigida-m origida-m ento da evolução, erigida-m que se produziriarigida-m acontecirigida-m entos que, ne-cessariam ente, predisporiam a um determ inado quadro. O que se verifica é um desenvolvim ento feito de estruturações e restruturações ao longo da vida.

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tes súbitas, precoces, violentas, perda de um filho, a elaboração pode se tornar assaz com plexa, com grandes possibilidades de um fracasso parcial deste trabalho. É um m om ento em que enorm es dificuldades se im põem ao sujeito, e alguns su-cum bem ou apenas conseguem encontrar um a m eia solução, um a m eia elabora-ção. A m orte, destino inexorável de todo ser, é dificilm ente absorvida pela civiliza-ção ocidental, que diante do golpe narcísico m ais contundente descobre cam i-nhos tortuosos na doce ilusão de um drible possível. Diante da m orte não há ne-gociação harm oniosa possível: ou ela é plenam ente aceita, ou nos cobra um peda-ço de nossas vidas. São os nossos m ortos-vivos que não nos deixam em paz, ou m elhor, som os nós que não os deixam os em paz.

O cam inho que estam os trilhando é o do conflito perm anente, da necessidade de elaboração constante do aparelho psíquico, da eterna vulnerabilidade do ho-m eho-m diante do iho-m previsível do destino.

Mesm o Klein ( 1940/ 1975) , forte adepta da im portância do fator constitucio-nal, já havia nos indicado que o sujeito depende em ocionalm ente de seus objetos am orosos, a integração plena jam ais é alcançada e estam os sem pre tendo que ela-borar a ação radical das pulsões e o sentim ento de solidão. Segundo essa autora, m esm o que se atravesse a posição depressiva construtivam ente, um quadro neu-rótico poderá ser desenvolvido. A tão pretendida estabilidade e invulnerabilidade psíquica não encontra ressonância na teorização kleiniana, onde o sujeito, tam -bém , depende do olhar am oroso do outro para m anter o equilíbrio instável de seu m undo interno, sujeito a desorganizações diante das perdas da vida.

Sem dúvida, Klein ( 1932/ 1975) valoriza extraordinariam ente a relação pre-coce com a m ãe e as prim eiras vitórias contra as pulsões destrutivas, com o condi-ção para um a boa estruturacondi-ção egóica, capaz de prom over um a relacondi-ção m ais har-m oniosa do sujeito cohar-m o har-m undo. Entretanto, isso não ihar-m plica que o sujeito, har-m ais tardiam ente na vida, não possa, de qualquer form a, fracassar na elaboração de um a perda e desenvolver um a sintom atologia específica.

Para Freud, o ego tinha sem pre que enfrentar dois tiranos inim igos: a realidade externa e as pulsões, enquanto para Klein ( 1932/ 1975) o hom em estava, sem pre, inteiram ente à m ercê das pulsões destrutivas. Winnicott ( 1963/ 1974) por sua vez, autor bem m ais otim ista que Freud e Klein, não via a realidade com o inim iga e acreditava que o processo m aturacional tinha um a natural aptidão para a saúde, em bora raram ente se alcançasse a m aturidade com pleta. Inclinava-se a conceber o hom em com o um ser viável e criativo, em bora incluísse em sua perspectiva as pulsões de m orte.

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equilí-brio psíquico não é com pletam ente estável e está sujeito às vicissitudes da vida. O am biente é fundam ental, essencial para o equilíbrio, e desorganizações, ruptu-ras, reviravoltas podem provocar sérios com prom etim entos psíquicos, pois não há nenhum a possibilidade de um a independência do am biente. O sujeito hum ano está condenado a ser alguém entrelaçado ao social, dependente das relações afeti-vas que construiu.

Com m ais um ano de análise, Maria pôde prosseguir no seu trabalho de luto, na elaboração e realização total de sua perda. Reconheceu, nesse período, que fazia, muitas vezes, exigências exageradas ao com panheiro quando este falhava em sua função protetora. Aceitou a idéia de que, provavelm ente, nunca m ais teria na vida algu ém qu e a pou passe tan to dos dissabores do dia-a-dia com o o fizera seu pai.

Finalizou seu percurso, observando que a perda do pai foi a m aior dor de sua vida. Concluím os que chegou m esm o a ter saudades da dor que sentia, pois no sofrim ento estava perto dele e hoje já se sentia longe, m uito longe.

Certam ente o que Maria desenvolveu não fora um a m elancolia m as, por outro lado, tam bém não havia conseguido elaborar com pletam ente a m orte do pai. O desejo de se unir a ele perm anecia e a angústia se fazia presente na relação com os filhos. Acreditava que não suportaria m ais viver se algo acontecesse a eles. Afora esse sintom a, era alegre, vital, interessada nas coisas, m as um resto de luto ficara, a angústia da m orte rondava, restos inconscientes, elaborações e ligações faltosas...

Recebido em 20/ 7/ 2000. Aceito em 13/ 9/ 2000.

BIBLIOGRAFIA

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