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Academic year: 2017

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É o TRABALHO NA ENFERMAGEM UM PRINCíPIO EDUCATIVO?

Delvair de Brito Alves*

RESUMO: Neste ensaio, pati mos de interpretações g ra mscianas, não a penas para identiica rmos os princípios ed ucativos que têm fu ndamentado os projetos de org a n i­ zação de Escolas de Enfermagem e do preparo de enfermeiro como, principa lmente , para i ntroduzirmos o trabalho como princípio ed ucativo fu ndamental a esses projetos.

ABSTRACT: I n this essay, based on i nterpretations by Gramsci , n ot o n ly do we identiy the educative principies wh ich are the fou ndation of the N u rsing Schools and n u rse ed ucation org a n ization projects , but also introduce work as a fu nda menta l ed ucative principie to these projects .

INTRODUÇÃO

o princípio educativo que sustenta os projetos peagógicos da enfermagem, em seus difeentes m­ veis, é redeimdo à medida que a sociedade se desen­ volve. Seria impotante buscar, de foma apofuda­ da, a compreensão de como tem se construído o princípio educativo, e que princípios educativos têm fundamentado a orgamzação das Escolas de Enfer­ magem e do preparo de enfermeiras. Entreanto, este é m contexto amplo e complexo que demanda exame apofudado da literatura de efemagem desde os seus primórdios, e que não comoa neste ensaio. Aqui, tentamos apenas uma primeia aproximação com o tema, resgatando alguns elementos da discus­ são teórica existente sobe o tabalo como pricípio educativo, especialmente aqueles oriundos do pensa­ mento de Gramsci e retomamos, apenas de foma breve, elementos que dão a marca dos princípios educativos assumidos ela enfermagem, em difeen­ tes momentos históricos.

2. O TRABALHO COMO PRINCíPIO EDUCATIVO: ALGUNS ELEMENTOS TEÓRICOS

MANACORDA (6) * * e NOSELLA ( 10) estuam

. o trabalho como pincípio educativo em Gramsci a

partir dos escitos que este pensador desenvolveu ente 1 9 1 5 e 1 937. Pa eles, a temática edagógica ocupa lugar central no ensamento de Gamsci, que toma como princípio educativo imaente da escola elementar e até mesmo de toda a escola umtia (escolas de primeio e segundo raus), o trabalho entendido como modo próprio ao homem de partici­ par ativamente da vida da natureza, para transfor­ má-Ia e socializá-la. (6)

Pa MANA CORDA (6), os escritos ente 1 9 16 e 1 9 1 8 reletem o contacto de Gamsci com a classe oeria e a crítica que ele faz à escola burguesa e ao refomismo socialista. Gramsci debate:

. . . a exigência de cultura para o proleta­ riado, ( . .) e sobretudo a necessidade de sua organização; a busca de uma relação educativa que subraia o proletariado à dependência dos intelectuais burgueses e, inalmente, o problema especico da es� cola, ( . .) a relação entre instrução huma­ nística e formação proissional, que na crítica da escola burguesa existente en­ volve também a política esolar socialista. MANACORDA (6) diz que Gmsci sugere uma escola que integre os disersos picípios educativos da desagegação escolar atual, e que se apresente como escola de cultura e de tabalo ao mesmo

tem-• Enfeneira, Professora Adjunta da Escola de Enfenagem a UFBa, Mestre em Educação e Doutoranda em Educação. • • Trabalho publicado originalmente, e m italiano, sob o título In: PRINCÍPIO EDUCATIVO I N GRAMSCI, e m 1970, por nnando

Editore. Roma. Em 1977, este mesmo trabalho é publicado em espanhol com o título: EI princípio eductivo en Gramsci, por

Salamnca. .

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po, isto é, da ciência toada produtiva e da pática tomada complexa. Pa Gansci, não se pode prepa­ rar para as atividades poissionais modenas, as quais se toam complexas e com as quais a ciência se

econtra tão intimamente entrelaçada, sem ter como base uma cultura geal formativa teórico-pática. Além de Gamsci, este autor etoma Lombardo Radi­ ce que critica os positivisas, acusandoos de identii­ car instução com educação e por imporem . . . um conteúdo determinado como típica encarnação de um ideal .. . criando assim ... 0 perigo que é próprio da escola não educativa: a esterilidade sistemática ... ( 1 3) O trabalho indusrial é colocado como base e princípio do novo homem, princípio educativo e uni­ versal de toda a sociedade modena.

O trabalho industrial, que implica, do ponto de vista intelectual, o conhecimento das leis da natureza e da sociedade e, do ponto de vista moral, o hábito de um sis­ tema de vida harmonicamente equilibra­ do, é, portanto, em última instância, o princípio educativo unitário que, marxia­ namente, Gramsci aponta. A sua é uma posição igualmente crítica com relação ao velho princípio dogmático e aristocrá­ tico e com relação s tentativas inovado­ ras que, permanecendo no interior da prática educativo-escolar imediata, cor­

rem o risco de cair, em nome da liberda­ de, no abandono ao conformismo mecâ­ nico do ambiente, sem conseguir efetuar um vínculo real e não esnobe com a ativi­ dade produtiva social. . . .) sob o signo do rabalho e da ciência, o elemento que mais tem contribuído para unicar a hu­ manidade. (6)

NOSELLA (10) diz que de acordo com MANA­ CODA, Gmsci apaece mais maxisa do que Max. D iz:

Ficará, aliás, evidente que Max, mesmo partindo da necessidade não apenas do rabalho, mas também do sobre trabalho (social), colocageralmentefora do

traba-.

lho o reino da liberdade( ... ); enquanto Gramsci ( . .) coloca o crescimento da per­ sonalidade não fora, mas sim denro do rabalho.

KUENZER (5) tmbém discute > pricípio edu­ cativo em Gmsci, ao aalisar o ensio de l° e 2° graus. Em consonância com o pensamento graiscia­ no, ela diz que o avanço a cosução de um projeto

edagógico mais articulado às necessidades da classe trabalhadora, exige que se compreenda o princípio organiativo da escola contemporânea, em suas ela­ ções com a dinamicidade do processo de constituição da sociedade. A escola tem se dividido ente forma r intelectuais e formar tabalhadores i nstrumentais.

Formar esses intelectuais é tarejà da es­ cola que, para poder exercê-Ia, deve de­ inir seu princípio educativo a partir des­ tas mesmas itnções essenciais do mundo da produção econômica e que não se res­ tringem ao modo de produzir mas abran­ gem todo o conjunto das superestruturas

a ele dialeticamente relacionados, em suas dimensõesjurídico-polílicas e ideo­ lógicas. (5)

Ao lado de escolas, que têm como tarefa a fon1a­ ção de intelectuais, têm se desenvolvido escolas vol­ tadas para o desempenho de funções instumentais deinidas pelos difeentes ramos da produção. Diz KUENZER (5)

Destaforma, a multiplicação das escolas proissionais representa não um desen­ volvimento democrático como se crê ge­ ralmente, mas ao contrário, perpetua as dferenças sociais; esta jàlsa impressão de democratização decorre do jàto de as escols proissionais permitirem certa mobilidade social . . .). sta mobilidade, no entanto, é limitada pela origem de classe, que, diicultando () acesso ao sa­ ber cientico tecnológico através da fre­ quência aos níveis mais altos do sistema de ensino, delimita ( . .) ascensão na pirâ­ mide ocupacional.

Esta autoa recorre a MANACORDA (6) , para

izer que Gramsci entende que todo o cidadão deve ser posto, mesmo que abstratamente, em condições gerais de ser dirigente. Diz ainda que, com o desen­ volvimento das sociedades, a patir do avanço cienti­ ico e tecnológico, entra em cise o pricípio educa­ tivo undamentado a div isão entre funções intelec­ tuais e instrumentais, pois é imossível separar o homo faber do homo sapiens .

Do ponto de vista do exercício proissional, à medida em que avança o desenvolvimento cientico e tecnológico, as atividades práticas se tonam cada vez mais simplicadas no fazer '. porém mais com­ plexas em função do conhecimento cientico que

encerram, de tal modo que já não há distinção entre técnica e ciência. Para o operário. que não dispõe de

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altenativas de acesso ao saber, islo signica o seu crescente distanciamento do trabalho que executa, que passa a incorporar cada vez mais um conheci­ mento cientico que ele não domina, ( . .) o 'trabalho simplicado é ruto da complexjicação do saber cientico-tecnológico ', e, portanto, exige mais co­ nhecimento do trabalhador para compreendê-lo, não obstante sua execução seja simples.(5)

Ao tomar o tabalho como princípio educativo é permitido superr a cisão entre escola clássica e esco­ la proissioal, a princípio racioal paa o capitalis­ mo, mas hoje superaa or seu próprio desenvolvi­ mento, tanto na cidade quanto no campo, ela cienti­ iação de todo e qualquer trabalho prático. A escola, que uniica cultura e trabalho, tem como inaliade a formação do homem desenvolvido multilateralmen­ te, que articula a sua capacidade podutiva às capaci­ dades de pensar, de estudar, de dirigir ou de controlar quem diige. Este princípio implica, necessariamente, a articulação entre teoria e prática e, segudo KUEN­ ZER (5) :

É

em Marx que se encontram os funda­ mentos que permitem entender a relação teoria/prática - a prxis - como processo através do qual se consrói o conhecimen­ to ( . .). O ponto de partida para essa pro­ dução são os homens em sua atividade real, no trabalho - a qiência real começa na vida real, na atividade prática.

Assim, a situação vivida pelo trabalhador a so­ ciedade capialista é complexa, vez que o capital, ao se desenvolver, exige cada vez menos qualiicação do tabalhador, enquanto que o desenvolvimento da so­ ciedade cria relações sociais e forma de viver, que exigem que este mesmo tabalador tenha cada vez mais conhecimentos que le pemitam compeender, manipular e usfuir dos beneícios do avanço te.cno­ lóico. Este conhecimento cientíico-tecnológico que está na raiz da costiuição ·da sciedade deve ser tbalhado pela escola.

Assim, a escola contemnea * passa a ter como função das arefas contnditórias : formar o cidadão da olis, sujeito e objeto de dieitos, e o tabalhador pra atuar em m prcesso podutivo que limita a sa paticipação em atividade que requeem elexão e criatividade. (5)

3. TRABALHO, PRINCíPIO EDUCATIVO PARA A ENFERMAG EM?

ü princípio educativo que dá sustenação aos pojetos edagógicos da enfermagem - em seus dife­ rentes níveis - se edeinem em unção de cada mo­ mento vivido por esse sub setor de saúde. A aproxi­ mação desse elemento requer a retomada de algumas passagens de obras ( I , 2, 3, 8, l i, 12, 14) que marcm a enfermagem, pricipalmente, por traá-la sob dife­ rentes ânulos e historicamente. Essas obas fone­ cem subsídios para airmamos que o trabalho nem sempre foi tomado como princípio educativo nos pojetos pedagógicos da enfermagem, aqui conside­ rados, não apenas aqueles deinídos por escolas mas, todos aqueles que explícia ou impliciamente confe­ rem à enfermagem determinado peril.

No periodo a.C. os escritos que se refeem dire­ amente à enfenllgem são escassos. As eferências a essa atividade vêm concomiante com as da mediciia. P AIXÃü( l l ) diz que, de váios países esudados (Egi­ to, Ídia, Palestia, Assíria e Babilôía, Pésia, China, Japão e Suécia), aenas em algns á eferências expliciadas à enfermagem:

Os hindus queriam que seus enermeiros tivessem: asseio, habilidade, inteligência, conhecimento de arte culinária e de pre� paro dos remédios. Moralmente, deve­ riam ser: puros, dedicados e cooperado­ res. (1 1)

Nessa realidade, as doeças eram consideradas decorrentes de espíritos maligos. Segundo SIL­ VA( 1 4) , essa é uma concepção própria do pré-capita­ lismo. Como exemplo cita que :

As sociedades ribais, primitivas, perce­ biam as enermidades como provocadas pelos espíritos malignos, que habitavam o interior de todos os seres (animados e inanimados) ( . .). Osfeiticeiros, em cujas mãos se colocva a tarefa de cuidar dos doentes, uniam magia e religião ao co­ nhecimento empírico de raízes, ervs e frutas. ( . .) Quanto ao cuidado dos doen­

tes e feridos, atividade complementar in­ dispensável à ura, icou a cargo das mulheres de sus famlias; tarefa, então,

A preocupação com o papel da escola contemporânea tem sido exaustivamente tratada nos últimos anos. A fonação do cidadão-trabalhador pela escola é objeto de discussão de teóricos, dentre os quais destacamos Miguel Arroyo.

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basta1te semelhane

As,

executadas por els no ambiente doméstico (. A origem etmológica do termo enermagem, na lín­ gua inglesa constitui uma das evidências da exrema semelhança existente, no pas­ sado, enre as referidas funções.

A Grécia contribuiu bastante para a evolução da medicia pois, Hiócates (460 a. C ), traz uma nova concepção de doença, ao contariar as crenças de seem as doeças causadas or maus espíritos e isis­ tir a obsevação cuidadosa dos doentes, na cultura isica, no culto à belea, a impoâcia ao dever da hospitalidade, elementos conributivos para o pro­ gresso da medicina e da enfemagem, (14)

A medicina romana, inicialmente ágica e exer­ cida por escravos, é iluenciada ela medicina grega. As necessidades decorrentes das guerras contínuas empreedidas pelo Impéio Romano, obrigam a imi­ r médicos regos. Enre os inais do século III e V d.C, a civilização omana recebe inluências do oci­ dente, atavés da difusão de suas idéias de desotis­ mo, pessimismo e fatalismo e a idéia de religião que antes ea, como a rega, terrena e prática, sem qual­ quer conteúdo espiitual ou ético, passa a contemplar

gaças espiituais numa vida depois da morte (14).

Nessas sociedades, atividades ditas de medicina e, principalmente, aquelas consideradas de enferma­ gem, são tidas como iferiores. Em Roma, os seviços de medicina e de enfermagem são coiados a estran­ geios e escravos por serem indignos do cidadão roo. (8)

Essas breves pssages sobre a origem da enfer­ magem sugerem que o prepao daqueles que exer­ cem atividades de medicia e de enfermagem, nesse peiodo, tem como elemento educativo, s idéias de m aias, de sobenatu ral, associadas a idéias de cas­

tigo. Idéis esss que mantêm o homem prisioneio

do descohecido, dicultndo a sa colocação o mundo, como sujeito não sujeitado às leis das quais não paticipa.

Ua nova visão da doença surge com o Cristia­ nismo, que a colca como cstigo divino, provenien­ te, contudo, de um Deus misericordioso e bom. Por­ tanto, m isumento podeoso de remissão dos pe­ cados, de fotalecimento da fé, eim, de apoxima­ ção com Cristo e slvação da vida etea. Aqueles que cuidam dos enfermos têm, também, a oportunidade de salvar a pópria alma. Com isto, a ova religião estimula, gandemente, o atedimeto aos obres e doentes, favoecendo a cosiuição do diacoato (diáconos e diaconisas) com vistas à pática de

«i-dade. (9) . Desta forma, o Cristianismo consegue aglutinar em tomo da enfermagem, iuras ilustres na sociedade. Consegue fazer com que muitas das suas mais distintas damas se dediquem aos cuidados dos obres e doentes. Sob a direção de São Jerônimo. destacam-se Santa Paula, Santa Fabíola e Marcela (3)

Fzendo uma análise sobre esse grupo, PAIXÃO (1 1) diz:

Era, pois, um grupo de escola, aliando grande cultura e educação a elevado es­ pírito de serviço.

É

este o primeiro grupo de mulheres, citado na história, que se dedicou a estudos profundos.

Essa ideologia continua de modo que, a organi­

ação da enfermagem sob a fonna religiosa-militar,

é grandemente inluenciada elas grandes abadessas

como Santa Radegunda (século VI) e Santa Hildegar­

a (século XI). Nessa nova forma se destacam Os Cavaleios de São João de Jerusalém, os de São Láao e os Cavaleiros Teutônicos. Os primeiros conseguem estender seus benefícios a diversos países europeus e mesmo com a expulsão dos cristãos de Jerusalém, eles tansferem seu principal hospital para Rodes e Ilha de Malta. Notabilizam-se pelos cuidados aos hasenianos. Impoante aida na construção de ma enfermagem com espírito cristão, são as ordes seculaes: Ordem dos Franciscanos, Convento das Religiosas, Ordes Teceiras. Esta última, considea­ da de grade valor paa a enfermagem pois a ela estão ligados personagens ilustes como : São Luis, Rei da Fança; Santa Isabel da Hungria; Santa Isabel de Portugal. A Ordem Dominicaa está ligada Sana

Catarina de Siena, que .. . Não se contentava com

servir doentes no hospital. Procurava-os, abandona­ dos pelas ruas ou em casebres, e providenciava sua

intenação. (1 1)

ELO (8) diz que a Idade Média e os séculos XV e XVI são épocas de intesa eligiosidade. A fé é explorada a onto de seem venidas indulgências -erdão total ou parcial dos ecados - que garantem aos obres e icos a salvação após a morte. Esse fato precipita a Reforma Protestante, ou seja, o rompimen­ to de uma parte dos crisãos com a Igeja Católica, debilitando o seu poder. Esse eiodo é conhecido

entre nós, como o período nego da enfen agem

ois ocorre o fecamento dos ospitais e a expulsão das religiosas que aí atuam. Como a enfemagem é unção exclusiva da Igeja, esse fato a atinge de modo profundo.

A falta de religioss na Alemanha, na Inglaterra e em outros países que assumem o protestantismo,

(5)

leva os govenos a tomaem, a seu cargo, os hospitais e lotá-los com mulheres da mais baixa esfera: o tipo comum da enermeira era da bêbada, desordeira, mulher de má vida. ( l I) Esse contexto faz com que as diaconisas dos primeiros séculos sejam lembradas. Entretnto, Luteo, aesar de também se preocupar com essa situação, considea essa idéia irealizável no potestantismo.

Segundo FOUCAUL T (4), a reorganiação dos hospitais militares no século XII visando o cuidado aos soldados, baseia-se na disciplia e isto muito inluencia a enfermagem. Nesse século, á uma reto­ mada da ilosoia baseada no Cristianismo, na forma­ ção de pessoas para cuidar de doentes. Surgem os precusores da enfermagem modea, ou seja, São Vicente de

p

aula e Santa Luia de Marillac, que organizam as Filhas de Caridade (conhecidas como Irmãs de Caidade). Em 1633, Santa Luiza de Maril­ lac reúne essas Filhas paa form ar-lhes o caráter e instuí-Ias nos misteres que deverim desempenhar, e São Vicente pocura formar nas senhoas ricas, men­ talidade e personalidade cristãs, fonm-Ias no espí­ rito da frateidade cristã. (1 1) Essas inlãs têm suces­

so na direção de hospitais e passam a aluar em todos os continentes, de modo que, em 1 930, há em tomo de 400.000 Imãs de Caridade.

O cristiismo intoduz, potanto, o espírito de servir, a prática de caridade, como elementos ne­ cessáios à salvação da alma.

É

este I) rincípio que passa a llacr a enfermagem como atividade a ser­ viço de Deus, dos homens e dos próprios execentes da enfermagem, um p rincípio educativo fortemente trabalhado pela precursora da enfermagem modea, Floence Nightingale, e intealiado, até mesmo na sociedade capitlista, onde, mais importante do que a slvação da alma, é a salvação dos coros necessrios ao sistella produivo. A extrema religiosidade vivida pelos exercentes a enfermagem constití um pode­ roso refoço ao espíito de subseviência origináio nos pimeios efermeios.

É

sob este teeno, religiosamente féril, que nas­ ce, com Floence Nightingale, a enfermagem moder­ na. Com a falta de pessoal religioso, coseqüente das Refomas Potestante e Católica, o pastor Flieder, do Instituto a Kaisewerth, na Alemanha, apela por pessoas . .

.

disposts à inteira abnegação de si mes­ mas a serviço do próximo. ( 1 1) A exeriêcia desse Instituto chega ao conhecimento de Florece Nightin­ gale, ilha de pais ingleses ricos, com una cultura incomum às mulheres de sua éoca: fala vários idio­ mas e domia matemática. Essa ' 'lady " estagia nesse

Istituto, após o que abe escolas (

.

. . ) às moças edu­ cadas, e cultas, como uma proissão honrosa e capaz de toná-Iasfelizes". ( 1 1 ) Com a sua atuação na Guea da Criméia ( 1 854) Floence consegue, juntamente com 3 8 voluntárias (religiosas e leigas), diminuir o índice de mortaliade entre os soldados feridos. Após a guera é contemplada pelo goveno inglês com uma doação que lhe permite abrir a Escola de Enfermagem no Hospital São Tomás, com o objetivo de eformar a enfermagem que se encontava dividida entre dois (2) grupos de essoas a seviço de doentes :

. . . 0 primeiro, diminuto, compunha-se de religiosas católicas e anglicanas, que co­ meçava/li apenas a se organizar; o segun­ do numeroso, era formado de pessoas sem educação e sem 1II0ral. A maioria se em­ briagava. ( 1 1 )

O sistema de Florence Nightingale pevê que a atividade de enfermagem só deve ser exercida or mulheres que são preparadas ou como "nurses " (es­ ponsáveis elas atividade manuais) ou como "ladies nurses "(responsáveis elo ensino, supevisão e admi­ nistração da enfenlagem).

É

unla atividade não re­ munerada, que eige espírito de abnegação, de sevir, de obediência, além de disciplina rigorosa.( l )

Esse modelo é trnsportado para o Canadá, Esta­ dos Unidos, Fraça, Alemanha, Suécia, dentre outros países, inclusive alguns da América Latina.

No Brasil, o pensamento m ístico llarca a pri­ meira concepção de saúde. Iniciada a coloniação, novas doeças são introduzidas e o seu taamento consiste em tirar do copo doente o efeito dos male­ ícios ou do desagado dos deuses. A mudaça no quado nosológico demanda assistência não aenas dos pagés, mas dos ísicos, cirurgiões, ciurgiões-bar­ beios, babeiros, algebristas, curiosos, boticários, anatôicos, curandeiros, entendidos e outros. As mu­ lhees aparecem na saúde como eligiosas, como par­ teiras leigas e como voluntárias. Às pimeias, coube o trabalho critativo e de assistêcia ao coo e ao espírito, nas Santas Casas; as parteis, instituciona­ liadas em 1 83 2, resonsabiliam-se pela ssistêcia ao parto e à paturiente e as voluntárias notabiliam­ se pelos seviços prestados à pátria. (12)

O trabalho caritativo, como precusor do taba­ lho de enfenmgem, ão se diferencia do tabalho das irmãs de caridae, dos padres, inãos ou jesuítas. No Basil, a istória destaca o trabalho do fac iscano frei Fabiano e do jesuíta pade Anchieta, a assistência à saúde. Quanto ao trabalho volu ntáio, são encontra­ dos reistos do século XVII. da atuação de Fancisca

(6)

·Sade -baiaa (asceu no ial do século XVII e moreu em 1 702) e a Justina Ferreira Neri. O tabalo voluntário de Ana Neri não tem qalquer relação com um tabalho do tipo proissional e sim, motivado pelo espíito cristão, caritativo e elo

sentimento cívico. Sua históia assemelha-se, apeas em pate, à históia de Florence Nightingale or que esta última, emboa tenha sevido à Guerra da Cri­ méia, dispunha de algum treinamento poissional, equanto que Ana Nei não dispunha de qualquer tio de treinamento. Além deste fato, Florence, tão logo terminou a Guea, passou a investir na formação de pessoal paa atuar na enfermagem. ( 12)

Ao analisar o trabalho caritativo e a idologia da submissão esta autora diz:

A vertente do rabalho caritativo e reli­ giosos foi muito importante e hegemoni­ zou a ideologia e o rabalho da enferma­ gem por longo período após o advento do Cristianismo e sua persistência como dourina religiosa poderosa em todo o mundo ocidental. Na enormagem essa inluência foi tão grande, que até hoje o seu rabalho é visto como parte da asis­ tência cariativa e, os proissionais de en­ ormagem, como exemplo de abnegação, de vida ascética e de dedicação aos po­ bres desvalidos e necessitados de ajuda. ..) A ideologia dominante na enferma­ gem brasileira, até a década de 80 pelo menos, reproduz acriticamente esta ca­ racterística da religiosidade e espírito ca­ ritativo. ( 12)

Esta marca é alimentada por Carlos Chagas, ao tomar paa si a iiciativa da ciação da primeira Escola de Enfermagem de alto padrão nos moldes Nightingale. A primeira diretoa dessa escola, uma ameicana, Miss Claa Louise Kieinger, á início ao curso em 1 9.2. 1 923 e, em 1 926, a Escola pssa a ser camada Escola de Enfermagem Anna Ney (vo­ lntia leiga, da Guea do Paaguai, que auou com prouna deicação aos soldados feridos nessa guer­

, sendo omenageada elo goveno basileiro como m ãe dos brasileiros). Essa Escola nasce para atender exigêncis do Seviço de Saúde pública e não hospi­ tlar, como ocoe em outros países. Segundo AL­ CÂNT ARA ( 1 ) , a enfermagem como proissão femi­ nina, nasce identiicada com o papel m ateno (enfer­ meia como substituta da mãe para os doentes) e com

o trabalho missionário das religiosas (sacriicado e

sublime).

O princípio educativo, expressão do ideal de sevir, sustentado pela religiosidade e pelo espírito de

sevir à pátria, continua sendo o dominante a forma­

ção de essoal para desenvolver atividades não ins­ trumentais (não manuais}na enfermagem. As deman­ as decorrentes do processo de industrialiação ba­ sileiro, ao lado da deiciência numérica de enfermei­ as, provocam o aparecimento de escolas voltadas para o desemenho de fuções instumentais, ou seja, escolas paa fOilação de auxiliaes de enfermagem (a partir da década de quarenta) e de formação de técnicos de efermagem (a partir da década de ses­ senta), todas elas reproduzindo o mesmo pincípio assumido pelas escolas de fomação de enfermeiras.

4. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realidade do inal do século X não mais comporta os princípios educativos que fundamentam a fomação de pessoal para cuidar de doentes, nos séculos e s décaas passadas. O ideal de servir

undamena-se numa eligiosidade extema, incom­ patível com a necessidade de sobreviver a sociedade contempoânea, onde as Escolas de Enfermagem têm duas tarefas contraditórias: formar o cidadão enfer­ meiro e o proissional enfeileio. A concretude desta taefa requer muita competêcia olítico-pedagógica, ois

... 0 preparo que a cidadania exige nas so­ ciedades democráticas, fundamentads na igualdade de oportunidades e nos direitos humanos, é incompatível com o preparo que o sistema produtivo requer,fundamen­ tado na hierarquia, na discipina, no auto­ ritarismo, na desqualicação. (5)

O tabalho, como a escola, tem dimensões con­ traditórias, ou seja, ele é, ao mesmo tempo, educativo e deseducativo, qaliicado e desqualiicado. Ente­ tanto, ao ser tomado como princípio educativo pelos projetos pedagógicos das Escolas de Enfermagem, oporunidades serão ciadas pa que, tanto os enfer­ meiros como as demais categorias que exercem a enfermagem, passem a compreender que a sua prática é um trablho assalariado, coletivo, fragmentado, ex­ ploado, que demanda mudanças capzes de colocar a enfermagem em osição de dignidade diante do setor saúde.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICAS

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