Generaliza¸
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oes do teorema de
representa¸
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ao de Riesz
Cesar Adriano Batista
DISSERTAC¸ ˜AO APRESENTADA AO
INSTITUTO DEMATEM ´ATICA EESTAT´ISTICA DA
UNIVERSIDADE DE S˜AO PAULO PARA
OBTENC¸ ˜AO DO T´ITULO DE
MESTRE EM CIˆENCIAS
Programa: Matem´atica
Orientador: Prof. Dr. Daniel Victor Tausk
Durante o desenvolvimento deste trabalho o autor recebeu aux´ılio financeiro do CNPq
Generaliza¸
c˜
oes do teorema de
representa¸
c˜
ao de Riesz
Este exemplar corresponde `a reda¸c˜ao final da disserta¸c˜ao devidamente corrigida e defendida por Cesar Adriano Batista e aprovada pela Comiss˜ao Julgadora.
Banca examinadora:
• Prof. Dr. Daniel Victor Tausk IME - USP
• Prof. Dr. Luiz Fichmann IME - USP
`
Agradecimentos
Agrade¸co a todos que de algum modo contribu´ıram para a concretiza¸c˜ao deste trabalho, em especial:
Aos meus amigos B´arbara, Carol, Gustavo, Nat´alia, Rodrigo, S´ılvia e Z´e, entre tantas coisas, pelo apoio, amizade, inspira¸c˜ao e presen¸ca em momentos felizes e tamb´em em outros n˜ao t˜ao felizes.
Aos meus colegas do IME Armando, Danilo, Dilene, Flausino, H´ector, Josnei, Lorena, Mariana, Nazar, N´ubia, Oscar, Pedro, Priscila, Renato, Ro-drigo Ferraz, RoRo-drigo Freire, Samir, Sandra, S´avio e Tatiane, entre outros, pelo conv´ıvio, pelas intera¸c˜oes acadˆemicas, pelas batalhas compartilhadas e pelo respeito constante.
Aos professores Alfredo Aragona, Cesar Polcino, Daniela Mariz, El´oi Medina, Iole Druck, Juan Carlos Fernandez, Leila Figueiredo, L´ucia Jun-queira, Luiz Peresi, Marcos Alexandrino, Cristina Barufi, Rosa Maria, Roseli Fernandez, Vera Carrara e Zara Abud, pela coopera¸c˜ao direta ou indireta na realiza¸c˜ao deste projeto.
Pela forma sempre atenciosa com que fui atendido, e por seu fundamental trabalho de “bastidores”, aos funcion´arios Alessandra, Emerson, Marilucia e Pinho, da secretaria de p´os-gradua¸c˜ao, Francisca e Rose, da secret´aria de gradua¸c˜ao, Carlos, Cl´audio, Creusa, Max e Rafael, da gr´afica, dona Jovita e dona Dalvina, da Copa, Francisca e Paulo, dos servi¸cos gerais, Gislaine, dona Jeane e Xavier, do CEC, Feij˜ao e S´ergio, da se¸c˜ao de inform´atica, Beth e C´elia, da biblioteca.
Ao CNPq pelo financiamento parcial deste trabalho.
Aos professores Luiz Fichmann e Pedro Malagutti por gentilmente acei-tarem compor a banca e pelas valiosas sugest˜oes que ajudaram a melhorar esta disserta¸c˜ao.
Ao meu orientador, professor Daniel Victor Tausk, por sua disponibili-dade e paciˆencia infinitas, pelas in´umeras sugest˜oes sem as quais este tra-balho certamente perderia em qualidade, e principalmente por ter aceitado novamente a tarefa nada f´acil de orientar este “filho pr´odigo”.
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A minha namorada, Ra´ıssa, por seu amor, carinho, amizade, dedica¸c˜ao, compreens˜ao e por estar ao meu lado em todos os momentos, inclusive naque-les mais dif´ıceis e quase insuport´aveis.
Resumo
Dados um espa¸co de medida (X,A, µ) e n´umeros reaisp, q∈]1,+∞[ com
1
p +1q = 1, oTeorema de Representa¸c˜ao de Riesz afirma que L
q(X,A, µ) ´e o dual topol´ogico de Lp(X,A, µ) e que L∞(X,A, µ) ´e o dual topol´ogico de L1(X,A, µ) se o espa¸co (X,A, µ) for σ-finito. Observamos que a σ-finitude
de (X,A, µ) ´e condi¸c˜ao suficiente mas n˜ao necess´aria para queL∞(X,A, µ) seja o dual de L1(X,A, µ). Os contra-exemplos tipicamente apresentados
paraL∞(X,A, µ)=∼L1(X,A, µ)∗ s˜ao “triviais”, no sentido de que desapare-cem se “consertarmos” a medidaµ, transformando-a numa medidaperfeita. Neste trabalho apresentamos condi¸c˜oes suficientes mais fracas queσ-finitude a fim de que L∞(X,A, µ) e L1(X,A, µ)∗ possam ser isometricamente iden-tificados. Al´em disso, introduzimos um invariante cardinal para espa¸cos de medida que chamaremos a dimens˜ao do espa¸co e mostramos que se o espa¸co (X,A, µ) for de medida perfeita e tiver dimens˜ao menor ou igual `a cardinalidade docontinuum ent˜ao uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para
L∞(X,A, µ)∼=L1(X,A, µ)∗ ´e que X admita uma decomposi¸c˜ao.
Abstract
Given a measure space (X,A, µ) and real numbers p, q ∈]1,+∞[ with
1
p +
1
q = 1, the Riesz Representation Theorem states that L
q(X,A, µ) is the topological dual space ofLp(X,A, µ) and thatL∞(X,A, µ) is the
topo-logical dual space of L1(X,A, µ) if (X,A, µ) is σ-finite. We observe that
the σ-finiteness of (X,A, µ) is a sufficient but not necessary condition for
L∞(X,A, µ) to be the dual of L1(X,A, µ). The counter-examples that are typically presented forL∞(X,A, µ)=∼L1(X,A, µ)∗are “trivial”, in the sense
that they vanish if we fix the measureµ, making it into aperfectmeasure. In this work we present sufficient conditions weaker than σ-finiteness in order that L∞(X,A, µ) and L1(X,A, µ)∗ can be isometrically identified. More-over, we introduce a cardinal invariant for measure spaces which we call the
dimension of the space and we show that if the space (X,A, µ) has perfect measure and dimension less than or equal to the cardinal of thecontinuum
then a necessary and sufficient condition forL∞(X,A, µ)=∼L1(X,A, µ)∗ is
Sum´
ario
Introdu¸c˜ao xiii
Cap´ıtulo 1. Preliminares 1
1.1. T´opicos de Teoria dos Conjuntos 1 1.2. Um M´ınimo de ´Algebra Linear e Espa¸cos M´etricos 8 1.3. T´opicos de An´alise Funcional 11
1.4. T´opicos de Teoria da Medida 19
Cap´ıtulo 2. Espa¸cos de medida perfeita 55
2.1. Medidas livres de blocos 55
2.2. Medidas cheias 68
2.3. Medidas perfeitas 76
2.4. Um contra-exemplo n˜ao trivial para a bijetividade da Aplica¸c˜ao
de Riesz 81
Cap´ıtulo 3. Somas 87
3.1. Soma externa 87
3.2. Norma e Soma direta de tipoLp 90 Cap´ıtulo 4. Decomposi¸c˜ao de um espa¸co de medida e o Teorema de
Riesz 101
4.1. Decomposi¸c˜oes essenciais e decomposi¸c˜oes 101 4.2. Generalizando o Teorema de Representa¸c˜ao de Riesz 112
Referˆencias Bibliogr´aficas 125
Introdu¸
c˜
ao
Os principais resultados e exemplos deste trabalho est˜ao baseados em no-tas n˜ao publicadas do Prof. Daniel Victor Tausk, do Instituto de Matem´atica e Estat´ıstica da USP. Em [10], [19], [20], [22], [23] e [25] podemos encon-trar, em linguagem completamente diferente, resultados similares `aqueles obtidos (de modo independente) pelo professor Tausk.
Seja (X,A, µ) um espa¸co de medida, i.e., X ´e um conjunto, A ´e uma
σ-´algebra de subconjuntos de X e µ : A →[0,+∞] ´e uma medida. Dada uma fun¸c˜ao mensur´avelf :X→Re p∈[1,+∞[ definimos:
kfkp =
Z
X
|f|pdµ
1
p
∈[0,+∞], e
kfk∞= infc∈[0,+∞] :|f| ≤c, µ-quase sempre ∈[0,+∞].
Denotando por M(X,A) o espa¸co vetorial real das fun¸c˜oes mensur´aveis a valores reais sobre X e por M(X,A, µ) o quociente de M(X,A) pelo subespa¸co das aplica¸c˜oes que se anulamµ-quase sempre, Lp(X,A, µ) deno-tar´a, como ´e usual, o subespa¸co de M(X,A, µ) consistindo das classes de aplica¸c˜oesfcomkfkp <+∞. Por abuso de linguagem (muito comum), dire-mos quef est´a emLp(X,A, µ) significando que a classe de aplica¸c˜oes iguais a f µ-qs est´a em Lp(X,A, µ). O espa¸co vetorial Lp(X,A, µ) torna-se uma espa¸co de Banach quando munido com a normak · kp. Dadosp, q∈]1,+∞[ com 1p +1q = 1 ent˜ao o bem conhecido Teorema de Representa¸c˜ao de Riesz
afirma que a (q, p)-aplica¸c˜ao de Riesz,
Lq(X,A, µ)∋g7−→αg∈Lp(X,A, µ)∗,
αg(f) =
Z
X
f gdµ, f ∈Lp(X,A, µ),
´e uma isometria linear, em queLp(X,A, µ)∗denota o espa¸co dual topol´ogico
de Lp(X,A, µ). Se q = 1 e p = +∞ ent˜ao a (q, p)-aplica¸c˜ao de Riesz ´e uma imers˜ao isom´etrica mas n˜ao ´e sobrejetora at´e mesmo para espa¸cos
de medida (X,A, µ) razoavelmente simples. Se, por outro lado, q = +∞
e p = 1 ent˜ao sabemos que a (q, p)-aplica¸c˜ao de Riesz ´e uma isometria linear se (X,A, µ) ´eσ-finito, i.e., seXpode ser coberto por uma quantidade enumer´avel de subconjuntos mensur´aveis de medida finita. Neste trabalho estamos preocupados em estudar condi¸c˜oes gerais sobre o espa¸co de medida (X,A, µ) mediante as quais aaplica¸c˜ao de Riesz,
(1) L∞(X,A, µ)∋g7−→αg ∈L1(X,A, µ)∗,
com αg definido como acima, ´e uma isometria linear. Observe que se X ´e um conjunto arbitr´ario, A=P(X) ´e a σ-´algebra de todos os subconjuntos de X e µ ´e a medida de contagem (µ(A) = n´umero de elementos de A), ent˜ao a aplica¸c˜ao de Riesz (1) ´e uma isometria; entretanto, se X ´e n˜ao enumer´avel ent˜ao (X,A, µ) n˜ao ´e σ-finito. Portanto, σ-finitude do espa¸co de medida n˜ao ´e condi¸c˜ao necess´aria para a aplica¸c˜ao de Riesz ser uma isometria. Em [21] ´e apresentada uma condi¸c˜ao suficiente mais fraca que
σ-finitude (e satisfeita por medidas de contagem) para a aplica¸c˜ao de Riesz ser uma isometria. A condi¸c˜ao ´e que o espa¸coX admita uma decomposi¸c˜ao; em [21] um decomposi¸c˜ao para X ´e uma parti¸c˜ao X = Si∈IXi de X em subconjuntos mensur´aveisXi, dois a dois disjuntos, com µ(Xi)<+∞ para todo i∈I, satisfazendo a seguinte propriedade: seA ´e um subconjunto de
X comA∩Xi ∈ A e µ(A∩Xi) = 0 para todo i∈I ent˜aoA´e mensur´avel e µ(A) = 0. Por exemplo, se A=P(X) e µ´e a medida de contagem ent˜ao
X=Sx∈X{x}´e uma decomposi¸c˜ao paraX. ´
INTRODUC¸ ˜AO xv
mostramos que tentar isolar os blocos infinitos n˜ao ´e a melhor estrat´egia para nos livrarmos deles. Procuramos ent˜ao consertar a medidaµdo espa¸co (X,A, µ) criando uma vers˜ao livre de blocos para ela. Num segundo mo-mento vemos, atrav´es do Exemplo 2.2.2, que a σ-´algebra A do espa¸co de medida (X,A, µ) pode n˜ao ser suficientemente “grande” para tornar men-sur´aveis as aplica¸c˜oes necess´arias para que a aplica¸c˜ao de Riesz (1) seja sobrejetora; constru´ımos o conceito de medidacheia na tentativa de corrigir essa deficiˆencia. Uma medida perfeita ser´a definida como uma medida que ´e simultaneamente completa, cheia e livre de blocos. Para espa¸cos de me-dida perfeita s˜ao “melhores” as chances da aplica¸c˜ao de Riesz (1) ser uma isometria mas, infelizmente, n˜ao necessariamente ´e esse o caso. Um contra-exemplo n˜ao trivial (ou seja, que est´a livre dos obst´aculos “ingˆenuos” para a bijetividade da aplica¸c˜ao de Riesz) ´e oferecido para evidenciar esse fato. Diante disso, dado um espa¸co de medida (X,A, µ), nossa aten¸c˜ao e esfor¸co volta-se para oferecer uma no¸c˜ao de decomposi¸c˜ao (ligeiramente diferente daquele apresentada em [21]), de tal modo que para espa¸cos de medida per-feita que admitam uma decomposi¸c˜ao tenhamos que a aplica¸c˜ao de Riesz (1) seja uma isometria.
Veremos no Cap´ıtulo 4 que uma fam´ılia essencialmente disjunta de (X,A, µ) ´e uma fam´ılia (Xi)i∈I de subconjuntos mensur´aveis deX tal que
µ(Xi ∩Xj) = 0 para todo i, j ∈ I com i 6= j. Definimos uma
decom-posi¸c˜ao essencial para (X,A, µ) como uma fam´ılia essencialmente disjunta (Xi)i∈I tal que cada Xi tem medida positiva finita, e se A⊂X ´e um con-junto mensur´avel de medida finita e µ(A∩Xi) = 0 para todo i∈I, ent˜ao
µ(A) = 0. Uma decomposi¸c˜ao para (X,A, µ) ser´a definida como uma de-composi¸c˜ao essencial (Xi)i∈I para X na qual os conjuntos Xi s˜ao dois a dois disjuntos. Mostraremos que todo espa¸co de medida (X,A, µ) admite uma decomposi¸c˜ao essencial e que se µlb(X) = +∞ (µlb a vers˜ao livre de
Riesz (1) ´e uma isometria linear, e por fim mostramos que para espa¸cos de medida perfeita de dimens˜ao menor ou igual `a cardinalidade docontinuum, sua aplica¸c˜ao de Riesz (1) ´e uma isometria linear se e somente se o espa¸co admite uma decomposi¸c˜ao.
No Cap´ıtulo 3 estudamos assomas externas e definimos os conceitos de
norma de tipo-Lp esoma de tipo-Lppara uma fam´ılia de espa¸cos de Banach. Mostramos que para uma fam´ılia (Xi,Ai, µi)i∈I de espa¸cos de medida per-feita a sua soma externa tamb´em tem medida perper-feita. Evidenciamos e provamos certas isometrias entre somas de tipo-Lp e soma externa que ser˜ao essenciais para mostrar a comutatividade do diagrama (4.2.3), fundamen-tal para provar os resultados mencionados no par´agrafo anterior sobre a aplica¸c˜ao de Riesz.
No Cap´ıtulo 1 estabelecemos as principais defini¸c˜oes, nota¸c˜oes e resulta-dos sobreteoria dos conjuntos, ´algebra linear, espa¸cos m´etricos, an´alise fun-cional e teoria da medida que ser˜ao utilizados ao longo dos demais cap´ıtulos. N˜ao pretendemos, obviamente, esgotar tais assuntos, mas somente destacar algumas no¸c˜oes diretamente relacionadas ao problema a ser estudado. Desse modo, n˜ao necessariamente ocorre uma transi¸c˜ao “suave” de uma no¸c˜ao para outra. Demonstramos boa parte dos resultados, sobretudo na Se¸c˜ao 1.4 (t´opicos de teoria da medida); para outra boa parte deles omite-se inten-cionalmente sua demonstra¸c˜ao sem nenhuma referˆencia espec´ıfica, como ´e o caso dos resultados da Se¸c˜ao 1.1 (t´opicos de teoria dos conjuntos); e para o restante dos resultados omitimos sua demonstra¸c˜ao, mas oferece-mos uma referˆencia bibliogr´afica para ela, como por exemplo oTeorema de Representa¸c˜ao de Riesz da Se¸c˜ao 1.4. Todos os espa¸cos vetoriais que figu-ram neste trabalho s˜ao reais, ou seja, R ´e o corpo de escalares. Por esse
INTRODUC¸ ˜AO xvii
pode ser deixada para o momento em que a elas for feita referˆencia. Cer-tamente existem outras defini¸c˜oes e resultados que caberiam nesse primeiro cap´ıtulo (como por exemplo outras caracteriza¸c˜oes de conjunto Lebesgue mensur´avel de R), e alguns que ali est˜ao poderiam ser suprimidos; no
en-tanto, acreditamos que nossa escolha, se n˜ao perfeita, ajudar´a o leitor a compreender melhor o conte´udo dos cap´ıtulos seguintes.
“O valor de praticar com rigor, por algum tempo, uma ciˆencia rigorosa n˜ao est´a pro-priamente em seus resultados: pois eles sempre ser˜ao uma gota ´ınfima, ante o mar das coisas dignas de saber. Mas isso pro-duz um aumento de energia, de capacidade dedutiva, de tenacidade; aprende-se a al-can¸car um fim de modo pertinente. Neste sentido ´e valioso, em vista de tudo o que se far´a depois, ter sido homem de ciˆencia.”
CAP´ıTULO 1
Preliminares
1.1. T´opicos de Teoria dos Conjuntos
Uma compreens˜ao correta sobre n´umeros ordinais e n´umeros cardinais ´e o nosso objetivo nesta se¸c˜ao. Todas as defini¸c˜oes e resultados s˜ao estabele-cidos sobre a axiom´atica ZFC (Zermelo-Fraenkel e o axioma da Escolha). Come¸camos com a seguinte:
Definic¸˜ao 1.1.1. SejamAum conjunto eRuma rela¸c˜ao bin´aria emA. A rela¸c˜aoR ´e chamada de:
(a) reflexiva em A seaRapara todoa∈A;
(b) sim´etrica em Ase para todo a, b∈A,aRbimplica bRa;
(c) antissim´etrica em A se para todo a, b ∈ A, se aRb e bRa ent˜ao
a=b;
(d) assim´etrica emAse para todoa, b∈A, seaRbent˜ao n˜ao valebRa, i.e., aRb e bRan˜ao valem simultaneamente;
(e) transitiva em Ase para todo a, b, c∈A, seaRb e bRcent˜aoaRc; (f) uma rela¸c˜ao de equivalˆencia em A se R ´e reflexiva, sim´etrica e
transitiva em A;
(g) uma rela¸c˜ao de ordem (parcial)emAseR´e reflexiva, antissim´etrica e transitiva em A;
(h) uma rela¸c˜ao de ordem estrita emA seR ´e assim´etrica e transitiva em A.
Dada uma rela¸c˜ao de ordem R em um conjuntoA, a rela¸c˜ao bin´ariaS, definida em A por aSb se e somente se aRb e a 6= b, ´e uma (rela¸c˜ao de) ordem estrita em A. Por outro lado, dada uma rela¸c˜ao de ordem estrita S
em um conjuntoA, a rela¸c˜ao bin´ariaR, definida emAporaRbse e somente seaSbou a=b, ´e uma (rela¸c˜ao de) ordem emA.
Como ´e usual, denotaremos por ∼ uma rela¸c˜ao de equivalˆencia. Em geral, uma ordem ser´a denotada por ≤ ou , e uma ordem estrita por
<ou ≺.
Definic¸˜ao 1.1.2. Dado um conjunto A, uma rela¸c˜ao de ordem ≤ (ou ordem estrita <) ´e chamada de linear ou total se dois elementos quaisquer de A s˜ao compar´aveis, ou seja, para todo a, b ∈ A temos a ≤ b ou b ≤ a
(a < bou b < a).
Definic¸˜ao 1.1.3. Um conjunto (parcialmente) ordenado ´e um par (A,≤), no qual A ´e um conjunto e ≤ ´e uma ordem em A; se ≤ ´e uma ordem total em A, dizemos que o par (A,≤) ´e um conjunto totalmente (ou
linearmente) ordenado.
Dados um conjuntoAe uma ordem estrita <emA, diremos, por abuso de linguagem, que o par (A, <) ´e um conjunto ordenado (totalmente orde-nado, se a ordem < for total); nesse caso fica subentendido que < est´a no lugar de ≤.
Observac¸˜ao1.1.4. EscreveremosA⊂B quandoAfor um subconjunto de B; seA ⊂ B e A =6 B, diremos que A ´e um subconjunto pr´oprio de B. Dados dois conjuntosA e B,B\A denotar´a a diferen¸ca entre B e A (i.e., o conjunto dos elementos de B que n˜ao est˜ao em A), e num contexto em que estiver subentendido algum “conjunto universo” X, se A ⊂X ent˜ao a diferen¸caX\A´e chamada decomplementar deA emX e denotada porAc. Definic¸˜ao 1.1.5. Seja (A,≤) um conjunto ordenado. Um subconjunto
B ⊂A´e umacadeiaemAse quaisquer dois elementos deBs˜ao compar´aveis. Definic¸˜ao 1.1.6. Sejam (A,≤) um conjunto ordenado, B um subcon-junto n˜ao vazio de A e b um elemento de A. Dizemos que, com respeito `a ordem≤:
(a) b´e o elemento m´ınimo de B seb∈B e b≤x para todox∈B; (b) b´e um elementominimal de B seb∈B e n˜ao existex∈B tal que
x6=be x≤b;
(c) b´e o elemento m´aximo deB seb∈B e x≤bpara todox∈B; (d) b ´e um elemento maximal de B se b ∈ B e n˜ao existe x ∈ B tal
1.1. T ´OPICOS DE TEORIA DOS CONJUNTOS 3
(e) b´e um limite inferior deB seb≤x para todox∈B;
(f) b ´e o´ınfimo de B nota¸c˜ao: inf(B) seb´e o maior limite inferior de B;
(g) b´e um limite superior de B sex≤b para todox∈B;
(h) b ´e o supremo de B nota¸c˜ao: sup(B) se b ´e o menor limite superior de B.
Lema 1.1.7 (de Zorn). Se toda cadeia em um conjunto parcialmente ordenado (A,≤) tem um limite superior, ent˜ao o conjunto A admite um elemento maximal.
Definic¸˜ao 1.1.8. Um isomorfismo entre dois conjuntos ordenados (P, <) e (Q,≺) ´e uma bije¸c˜ao h : P → Q tal que, para todo a, b ∈ P,
a < b se e somente se h(a)≺h(b). Se existe um isomorfismo entre (P, <) e (Q,≺) n´os dizemos que (P, <) e (Q,≺) s˜aoisomorfos.
N˜ao ´e dif´ıcil mostrar que se (P, <) e (Q,≺) s˜ao conjuntos totalmente ordenados e h : P → Q ´e uma bije¸c˜ao tal que, para todo a, b ∈ P, a < b
implicah(a)≺h(b), ent˜ao h ´e um isomorfismo entre (P, <) e (Q,≺). Definic¸˜ao 1.1.9. Dado um conjuntox, osucessor dex´e definido como o conjunto S(x) =x∪ {x}. O sucessor de x tamb´em ´e denotado porx+ 1.
Definic¸˜ao 1.1.10. Um conjunto I ´e chamado indutivo quando (a) ∅ ∈I;
(b) se n∈I ent˜aoS(n)∈I.
O axioma do infinito da teoria axiom´atica ZFC garante a existˆencia de um conjunto indutivo. Isso nos permite estabelecer a seguinte defini¸c˜ao:
Definic¸˜ao 1.1.11. O conjunto dosn´umeros naturais, denotado por ω, ´e por defini¸c˜ao a intersec¸c˜ao de todos os conjuntos indutivos (ou seja,ω ´e o menor dos conjuntos indutivos).
Como ´e usual: 0def= ∅,
1def= S(0) = 0∪ {0}={0},
2def= S(1) = 1∪ {1}={0,1},
3def= S(2) = 2∪ {2}={0,1,2},
.. .
S(n) =n∪ {n}={0,1,2, . . . , n}, para todo n∈ω,
e escrevemos ω ={0,1,2,3, . . .}. A rela¸c˜ao bin´aria ∈ no conjunto ω ´e uma ordem estrita total e ´e a ordem usual em ω.
Definic¸˜ao 1.1.12. Uma ordem total <em um conjunto A ´e chamada uma boa ordem se cada subconjunto n˜ao vazio de A tem um elemento m´ınimo. Se < ´e uma boa ordem em A ent˜ao o par (A, <) ´e chamado de conjuntobem ordenado.
´
E poss´ıvel mostrar que a ordem ∈ dos naturais ´e uma boa ordem, e portanto (ω,∈) ´e um conjunto bem ordenado.
Definic¸˜ao 1.1.13. Seja (W, <) um conjunto totalmente ordenado. Um subconjunto S ⊂W ´e chamado de um segmento inicial de W se ´e pr´oprio (i.e.,S 6=W) e se para cadaa∈S todo x < a´e tamb´em elemento deS.
Definic¸˜ao 1.1.14. Dois conjuntosA eB s˜ao chamados deequipotentes
se existe uma bije¸c˜ao deA emB.
Definic¸˜ao 1.1.15. Um conjunto A ´e finito se ´e equipotente a algum
n∈ω (nesse caso dizemos que A tem nelementos),infinito se n˜ao ´e finito, e enumer´avel se ´e finito ou equipotente aω.
Definic¸˜ao 1.1.16. Um conjunto T ´e chamado de transitivo se cada elemento deT ´e um subconjunto de T.
Todo n´umero natural ´e um conjunto transitivo. De fato, se n ∈ ω e
p∈m∈nent˜aop∈n, o que mostra quem⊂n.
1.1. T ´OPICOS DE TEORIA DOS CONJUNTOS 5
Definic¸˜ao 1.1.18. Dados dois n´umeros ordinaisα eβ, definimosα < β
se e somente seα∈β. Proposic¸˜ao 1.1.19.
(a) 0 =∅ ´e um n´umero ordinal;
(b) se α ´e um ordinal eβ ∈α ent˜aoβ ´e um ordinal;
(c) para quaisquer ordinais α e β, α ⊂ β se somente se α ∈ β ou α =β;
(d) se α eβ s˜ao dois ordinais ent˜ao, α≤β se e somente seα⊂β.
Corol´ario 1.1.20.
(a) Se α,β e γ s˜ao ordinais tais queα < β eβ < γ ent˜ao α < γ;
(b) se α, β s˜ao ordinais ent˜ao α < β e β < α n˜ao valem simultanea-mente;
(c) dados ordinais α eβ, ou α < β ou α =β ou β < α;
(d) cada conjunto n˜ao vazio de n´umeros ordinais tem um elemento m´ınimo com respeito `a ordem <;
(e) para cada ordinal α, α={β:β < α};
(f) se C ´e um conjunto1 n˜ao vazio de n´umeros ordinais eα=Tβ∈Cβ, ent˜aoα ´e um ordinal e α ´e o elemento m´ınimo de C;
(g) se C ´e um conjunto n˜ao vazio de n´umeros ordinais eα=Sβ∈Cβ, ent˜aoα ´e um ordinal e α= sup(C);
(h) para cada ordinal α, α+ 1´e um ordinal e α+ 1 = inf{β :α < β};
(i) para cada conjunto de ordinais C existe um ordinal α /∈C.
Dos itens (a) da Proposi¸c˜ao 1.1.19 e (h) do Corol´ario 1.1.20 conclu´ımos que todo n´umero natural ´e um n´umero ordinal; na verdade ´e poss´ıvel mostrar que os naturais s˜ao exatamente os ordinais finitos. Assim, pelo item (g) do Corol´ario 1.1.20, o conjunto ω tamb´em ´e n´umero ordinal; mais do que isso,
ω ´e o primeiro ordinal enumer´avel infinito.
Definic¸˜ao1.1.21. Um n´umero ordinalα´e chamado um ordinalsucessor
se α=β+ 1 para algum ordinal β, caso contr´ario α ´e chamado de ordinal
limite.
1Na verdade, dada uma propriedadeϕ(x) satisfeita por pelo menos um ordinal, ent˜ao
Seα ´e um ordinal limite ent˜aoα= sup{β :β < α}=Sβ∈αβ; o natural 0 ser´a considerado um ordinal limite e 0 = sup(∅).
Teorema 1.1.22. Todo conjunto bem ordenado ´e isomorfo a um ´unico n´umero ordinal.
Definic¸˜ao 1.1.23. Se (A, <) ´e um conjunto bem ordenado definimos o
tipo (de ordem) de (A, <), denotado por tipo(A, <), como o ´unico ordinal isomorfo a (A, <).
Definic¸˜ao1.1.24. Um n´umero ordinalα´e chamado den´umero cardinal
(ou apenas, cardinal) se n˜ao existe β < α tal queα´e equipotente a β. Todo conjunto infinito pode ser bem ordenado de muitas maneiras di-ferentes, e embora cada conjunto bem ordenado seja isomorfo a um ´unico n´umero ordinal, ele pode ser equipotente a infinitos n´umeros ordinais, por exemplo, um conjunto enumer´avel infinito ´e equipotente a ω, a ω + 1, a
ω+2, etc. Dada uma propriedadeϕ(x) satisfeita por pelo menos um n´umero ordinal, sabemos que existe o menor ordinal que a satisfaz. Essas observa¸c˜oes possibilitam-nos estabelecer a seguinte:
Definic¸˜ao 1.1.25. Seja (A, <) um conjunto bem ordenado. A cardi-nalidade de A, denotada por |A| (ou card(A)), ´e o menor n´umero ordinal equipotente aA.
Proposic¸˜ao 1.1.26.
(a) Se κ ´e um cardinal ent˜ao κ= card(κ);
(b) |A|´e um n´umero cardinal para todo conjunto A;
(c) dados dois conjuntos X eY, |X| ≤ |Y|se e somente se existe uma fun¸c˜ao injetoraf :X→Y;
(d) dados dois conjuntos X e Y, X 6= ∅, |X| ≤ |Y| se e somente se existe um fun¸c˜ao sobrejetorag:Y →X.
Observac¸˜ao 1.1.27. Se A e B s˜ao dois conjuntos ent˜ao o conjunto de todas as fun¸c˜oes de A emB ser´a denotado porBA.
Proposic¸˜ao 1.1.28. Dados dois conjuntos A eB, definimos:
(a) |A|+|B|= A× {0}∪ B× {1};
1.1. T ´OPICOS DE TEORIA DOS CONJUNTOS 7
(c) |A||B|=AB.
Teorema1.1.29 (Cantor). Para todo conjuntoX temos |X|<|P(X)|.
Teorema 1.1.30. |P(X)|= 2|X| para todo conjuntoX.
Teorema 1.1.31. |R|=|P(ω)|
Note que todo n´umero natural ´e um cardinal e ω ´e o menor n´umero cardinal infinito. Observamos ainda que todo cardinal infinito ´e um ordinal limite, e os n´umeros ordinais infinitos que s˜ao cardinais s˜ao chamados de
alephs(ℵ). Atrav´es da Proposi¸c˜ao 1.1.32 a seguir e do princ´ıpio de recurs˜ao transfinita (vide [16]), podemos a cada n´umero ordinal α associar um car-dinal ℵα, obtendo assim uma seq¨uˆencia (indexada pelos ordinais) de todos osalephs.
Proposic¸˜ao 1.1.32.
(a) Para cada cardinal κ existe um n´umero cardinal maior do que κ;
(b) se X ´e um conjunto de cardinais ent˜ao sup(X) ´e um n´umero car-dinal.
Para cada cardinal κ, o sucessor cardinal de κ, denotado por κ+, ´e o
menor n´umero cardinal maior doκ.
Definic¸˜ao 1.1.33. Sejaα um n´umero ordinal. Definimos:
ℵ0 =ω;
ℵα+1 =ℵα+;
ℵα= sup{ℵβ :β < α}=Sβ<αℵβ, se α´e um ordinal limite.
Em que claramenteℵα+1´e um sucessor cardinal, eℵα´e um dito um cardinal
limite seα ´e um ordinal limite.
Teorema 1.1.34. Se α e β s˜ao n´umeros ordinais e n ´e um n´umero natural ent˜ao:
(a) n+ℵα =n· ℵα=ℵα;
(b) ℵα+ℵβ =ℵα· ℵβ = max{ℵα,ℵβ}.
um ´unico ordinal α tal que κ = ℵα. Se α e β s˜ao n´umeros ordinais com
α < β ent˜ao ℵα < ℵβ, i.e., a seq¨uˆencia de todos os alephs ´e crescente. Observamos que, conforme defini¸c˜ao anterior, um conjunto enumer´avel ´e um conjunto cuja cardinalidade (ou cujo n´umero cardinal) ´e menor ou igual a ℵ0; al´em disso ℵ0 ´e o menor cardinal infinito enumer´avel e ℵ1 ´e o menor
cardinal infinito n˜ao enumer´avel. Como conseq¨uˆencia dos Teoremas 1.1.29 e 1.1.30 temos que κ < 2κ para todo n´umero cardinal κ, e portanto, dos Teoremas 1.1.30 e 1.1.31 conclu´ımos que |R| = |P(ω)| = 2|ω| = 2ℵ0 > ℵ0.
O n´umero cardinal 2ℵ0 ´e chamado de a cardinalidade do continuum (ou o
n´umero cardinal de R), e a conhecida Hip´otese do Continuum afirma que
2ℵ0 = ℵ1. A conjectura 2ℵα = ℵ
α+1, para todo ordinal α, ´e chamada de Hip´otese do Continuum Generalizada (GCH)2, e assim como a Hip´otese do Continuum, GCH ´e independente dos axiomas de ZFC, ou seja, GCH n˜ao pode ser provada nem refutada a partir dos axiomas de ZFC.
1.2. Um M´ınimo de ´Algebra Linear e Espa¸cos M´etricos
Dados um espa¸co vetorial V e um subespa¸co W ⊂ V, a rela¸c˜ao ∼ , definida por u ∼ v se u−v ∈ W, para cada u, v ∈ V, ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia emV. Para um vetoru∈V, indicamos por [u] a sua classe de equivalˆencia. O conjunto
V /W =V /∼ =[u] :u∈V ,
munido com as opera¸c˜oes:
(i) [u] + [v] = [u+v], para todou, v∈V e (ii) λ[u] = [λu], para todoλ∈R, e todou∈V,
´e um espa¸co vetorial sobreR, chamado deespa¸co quociente, cujo vetor nulo
´e o subespa¸coW.
Para espa¸cos vetoriais U e V denotamos por L(U, V) o conjunto de todas as transforma¸c˜oes lineares de U em V. L(U, V) ´e um subespa¸co do espa¸co vetorial de todas as fun¸c˜oes deU emV. Umfuncional linear ´e uma transforma¸c˜ao linear f :U → R, e o espa¸co vetorial L(U,R), indicado por
U∗, ´e chamado de espa¸co dual alg´ebrico deU.
1.2. UM M´INIMO DE ´ALGEBRA LINEAR E ESPAC¸ OS M´ETRICOS 9
Definic¸˜ao 1.2.1. Sejam U e V espa¸cos vetoriais sobreR e T :U →V
uma transforma¸c˜ao linear. A transforma¸c˜ao linear T∗ : V∗ → U∗ dada por T∗(g)(u) = g T(u), para todo g ∈ V∗ e todo u ∈ U, ´e chamada de transposta de T.
Proposic¸˜ao1.2.2. SejamU eV espa¸cos vetoriais sobreReT :U →V
uma transforma¸c˜ao linear. Se Uo eVo s˜ao subespa¸cos de U eV
respectiva-mente, com T(Uo) ⊂Vo, ent˜ao a aplica¸c˜ao Φ :U/Uo → V /Vo, definida por Φ [u]=T(u), ´e linear. Dizemos que Φ´e a aplica¸c˜ao linear induzidapor T emU/Uo, ou simplesmente queT induz Φ.
Demonstrac¸˜ao.
• Φ est´a bem definida.
Sejam u e v elementos arbitr´arios deU. Se [u] = [v] ent˜ao u−v∈Uo, e portanto T(u−v) ∈ T(Uo) ⊂ Vo, ou seja, T(u)−T(v) ∈ Vo; logo
T(u)=T(v), isto ´e, Φ [u]= Φ [v].
• Φ ´e linear.
Se [u],[v]∈U/Uo e α´e um n´umero real, ent˜ao:
Φ α[u] + [v]= Φ [α u+v] =T(α u+v)=α T(u) +T(v)
=αT(u)+T(v)=αΦ [u]+ Φ [v]. Com esta proposi¸c˜ao finalizamos as id´eias a respeito de ´algebra linear que quer´ıamos destacar. A partir da pr´oxima defini¸c˜ao, at´e o fim da se¸c˜ao, colocamos em foco algumas no¸c˜oes sobre espa¸cos m´etricos.
Definic¸˜ao 1.2.3. Uma m´etrica em um conjunto M ´e uma fun¸c˜ao
d : M ×M → R tal que para quaisquer x, y, z ∈ M temos satisfeitas as
seguintes condi¸c˜oes: (a) d(x, y)≥0 ;
(b) d(x, y) = 0 se e somente sex=y; (c) d(x, y) =d(y, x);
(d) d(x, y)≤d(x, z) +d(z, y).
Definic¸˜ao 1.2.5. SejaE um espa¸co vetorial real. Uma norma emE ´e uma aplica¸c˜ao k · k:E →R que associa a cada vetorx ∈E o n´umero real
kxk, chamado de a norma de x, de modo que, para quaisquer x, y ∈ E e
λ∈R, sejam satisfeitas as seguintes condi¸c˜oes:
(a) kxk ≥0 ;
(b) kxk= 0 se e somente sex= 0 ; (c) kλ xk=|λ| kxk;
(d) kx+yk ≤ kxk+kyk.
Definic¸˜ao 1.2.6. Umespa¸co vetorial real normado ´e um par E,k · k, no qual E ´e um espa¸co vetorial sobreRe k · k´e uma norma em E.
Todo espa¸co vetorial normado E,k · k torna-se de modo natural um espa¸co m´etrico (E, d), fazendo d(x, y) = kx−yk, para todo x, y ∈ E; a aplica¸c˜ao d ´e uma m´etrica em E dita proveniente da (ou associada `a, ou determinada pela) normak · k. Assim, para um espa¸co normado, entendere-mos sempre que o espa¸co m´etrico correspondente est´a munido com a m´etrica proveniente da norma.
Definic¸˜ao 1.2.7. Sejam (M, dM) e (N, dN) dois espa¸cos m´etricos. Uma aplica¸c˜ao f :M →N chama-se uma imers˜ao isom´etrica quando
dN f(x), f(y)
=dM(x, y)
para quaisquer x, y ∈ M. Neste caso, dizemos tamb´em que f preserva distˆancia.
Observamos que uma imers˜ao isom´etricaf :M →N ´e sempre injetora, uma vez que, para quaisquer x, y ∈ M satisfazendo f(x) = f(y), temos
dM(x, y) =dN f(x), f(y)
= 0, e conseq¨uentementex=y.
Definic¸˜ao 1.2.8. Sejam (M, dM) e (N, dN) espa¸cos m´etricos. Uma imers˜ao isom´etricaf :M →N sobrejetora ´e chamada de uma isometria.
Note que toda imers˜ao isom´etricaf :M →N define uma isometria de M sobre o subespa¸co m´etricof(M)⊂N. Observe ainda que para dois espa¸cos vetoriais normados E,k · kE e F,k · kF, uma aplica¸c˜ao linearT :E→F
´e uma imers˜ao isom´etrica se kT(x)kF = kxkE para todo x ∈E; neste caso
1.3. T ´OPICOS DE AN ´ALISE FUNCIONAL 11
Definic¸˜ao 1.2.9. Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Um subconjunto
Y ⊂ M ´e chamado delimitado se existe k∈R,k≥0, tal qued(x, y) ≤ k
para todo x, y∈Y. Uma fun¸c˜ao f :X → M,X um conjunto arbitr´ario, ´e dita limitada quando a imagem de f ´e um subconjunto limitado deM.
Para finalizar esta se¸c˜ao, lembramos que uma seq¨uˆencia de Cauchy em um espa¸co m´etrico (M, d) ´e uma seq¨uˆencia (xn)n≥1 de elementos deM tal
que, dado ε > 0 existe um n´umero natural n0 tal que d(xm, xn) < ε para todo m, n > n0. Lembramos ainda que toda seq¨uˆencia emM convergente
´e uma seq¨uˆencia de Cauchy, mas n˜ao necessariamente uma seq¨uˆencia de Cauchy em M ´e convergente emM. Quando em um espa¸co m´etrico (M, d) toda seq¨uˆencia de Cauchy ´e convergente, dizemos que (M, d) ´e um espa¸co m´etricocompleto. Em particular, um espa¸co normado E,k · k´e completo se o espa¸co m´etrico correspondente (E, d) ´e completo.
1.3. T´opicos de An´alise Funcional
Diante do que foi dito no final da se¸c˜ao anterior, come¸camos esta nova se¸c˜ao com a seguinte defini¸c˜ao:
Definic¸˜ao 1.3.1. Um espa¸co vetorial real normado E,k · k´e chamado de espa¸co de Banach se E,k · k´e completo.
Se E,k · k ´e um espa¸co normado ent˜ao todo subespa¸co V ⊂ E pode ser encarado como um espa¸co normado cuja norma ´e a restri¸c˜ao da norma deE. Al´em disso, seE ´e um espa¸co de Banach, sabemos que um subespa¸co
V deE ser´a um espa¸co de Banach se e somente seV for fechado em E. A seguir definimos quando uma aplica¸c˜ao linear entre espa¸cos veto-riais normados ´e dita limitada. Segundo a defini¸c˜ao 1.2.9, uma fun¸c˜ao
Proposic¸˜ao 1.3.2. Sejam E,k · kE e F,k · kF espa¸cos vetoriais reais normados e T : E → F uma aplica¸c˜ao linear. Ent˜ao s˜ao equivalentes as seguintes afirma¸c˜oes:
(a) T ´e cont´ınua;
(b) T ´e cont´ınua na origem;
(c) T ´e limitada em alguma vizinhan¸ca da origem, i.e., existem c≥0
e uma vizinhan¸ca V da origem tais que kT(x)kF ≤ c para todo x∈V;
(d) T ´e limitada na bola unit´aria de E, i.e., existe c ≥ 0 tal que kT(x)kF ≤c para todo x∈E, com kxkE ≤1;
(e) T ´e limitada na esfera unit´aria de E, i.e., existe c ≥ 0 tal que kT(x)kF ≤c para todo x∈E, com kxkE = 1;
(f) existe c≥0 tal que kT(x)kF ≤ckxkE para todo x∈E;
(g) T ´e Lipschitziana.
Demonstrac¸˜ao.
• (a)⇒(b). Imediato.
• (b) ⇒ (c). Se T ´e cont´ınua na origem ent˜ao existe δ > 0 tal que
kT(x)−T(0)kF = kT(x)kF < 1, para todo x ∈ E com kxkE < δ, ou seja, T ´e limitada na bola aberta de centro na origem e raioδ.
• (c) ⇒ (d). Se T ´e limitada em alguma vizinhan¸ca da origem ent˜ao existem r > 0 e c ≥ 0 tais que kT(x)kF ≤ c para todo x ∈ E com
kxkE ≤ r. Seja x ∈ E com kxkE ≤ 1. Ent˜ao krxkE ≤ r, e portanto
kT(x)kF = 1rkT(rx)kF ≤ rc, para todox∈E com kxkE ≤1.
• (d)⇒(e). Imediato.
• (e) ⇒ (f). Seja c ≥ 0 tal que kT(x)kF ≤ c para todo x ∈ E, com
kxkE = 1. Afirmamos que kT(x)kF ≤ ckxkE para todo x ∈ E. Com efeito, se x= 0 ent˜ao a desigualdade vale trivialmente. Por outro lado, sex6= 0 ent˜ao o vetor x
kxkE tem norma unit´aria, logo kT(x)kF
kxkE
=T(x)
kxkE
F =
T x
kxkE
1.3. T ´OPICOS DE AN ´ALISE FUNCIONAL 13
• (f) ⇒ (g). Seja c ≥ 0 tal que kT(x)kF ≤ ckxkE para todo x ∈ E. Para todo x, y∈E temos kT(x)−T(y)kF =kT(x−y)kF ≤ckx−ykE, e portantoc´e uma constante de Lipschitz para T.
• (g)⇒(a). Imediato.
Definic¸˜ao 1.3.3. Sejam E,k · kE e F,k · kF espa¸cos vetoriais reais normados. Uma aplica¸c˜ao linear T :E →F ´e ditalimitada se satisfaz uma das (e portanto todas) condi¸c˜oes que aparecem no enunciado da Proposi-¸c˜ao 1.3.2.
Observamos que se T : E → F ´e uma aplica¸c˜ao linear n˜ao nula ent˜ao sua imagem nunca ´e um conjunto limitado. De fato, se T ´e n˜ao nula ent˜ao existex∈EcomT(x)6= 0. ComokT(α x)k=|α| kT(x)kpara todoα∈ R,
temos quekT(α x)k −→+∞ quando |α| −→+∞, e portanto a imagem de
T n˜ao ´e limitada. Assim, quando associado a uma aplica¸c˜ao linear, o termo “limitada” s´o pode ser entendido no sentido da defini¸c˜ao 1.3.3.
Se E,k · kE e F,k · kF s˜ao espa¸cos vetoriais normados sobre R,
de-notamos por Lin(E, F) o conjunto de todas as aplica¸c˜oes lineares limitadas
T :E →F. N˜ao ´e dif´ıcil mostrar que Lin(E, F) ´e um subespa¸co vetorial de L(E, F), o espa¸co vetorial de todas as aplica¸c˜oes lineares deE emF.
Definic¸˜ao 1.3.4. Sejam E,k · kE e F,k · kF espa¸cos vetoriais reais normados eT ∈Lin(E, F). Definimos a norma deT por
kTk= supkT(x)kF :x∈E e kxkE ≤1 ,
ou sinteticamente,
kTk= sup
kxkE≤1
kT(x)kF.
A aplica¸c˜ao k · k: Lin(E, F)→ Rdefinida acima ´e de fato uma norma,
e ´e poss´ıvel mostrar que:
kTk= supkT(x)kF :x∈E ekxkE = 1
= infc≥0 :kT(x)kF ≤ckxkE, para todox∈E .
Proposic¸˜ao 1.3.6. Sejam E,k · kE e F,k · kF espa¸cos vetoriais nor-mados sobreR. Se F,k · k
F
´e um espa¸co de Banach ent˜aoLin(E, F), com a norma definida como em (1.3.4), tamb´em ´e um espa¸co de Banach.
Demonstrac¸˜ao. Vide [17]. SeE´e um espa¸co vetorial sobreR, vimos queE∗= L(E,R), o conjunto
de todos os funcionais lineares f : E → R, ´e chamado de espa¸co dual
alg´ebrico de E. Dado um espa¸co vetorial real normado E,k · kE, um funcional linearf :E→R´e dito limitado sef ∈Lin(E,R), ou seja, sef ´e
uma aplica¸c˜ao linear limitada. O espa¸co normado Lin(E,R) ´e chamado de
dual topol´ogico de E. Note que Lin(E, F) ´e subespa¸co vetorial deE∗. Como
neste texto (e em geral) nos preocupamos apenas com os funcionais lineares limitados, chamaremos o dual topol´ogico de E (simplesmente) de dual de
E, e por abuso de nota¸c˜ao, a partir de agora, usaremos E∗ para indicar o dual deE. Assim, dado um espa¸co vetorial real normado E,k · k,
E∗ =α:E→R:α´e funcional linear limitado = Lin(E,R) e
kαk= sup|α(x)|:x∈E e kxkE ≤1 , para todoα∈E∗.
Uma vez queR´e completo temos, pela Proposi¸c˜ao 1.3.6, queE∗´e um espa¸co
de Banach sobreR, para todo espa¸co vetorial real normado E,k · k.
A seguir, dados um espa¸co normado real X,k·ke um subespa¸co fechado
Y ⊂X, definimos uma norma no espa¸co quocienteX/Y.
Proposic¸˜ao1.3.7. SejaY um subespa¸co fechado de um espa¸co normado X,k · k. A aplica¸c˜ao k · ko :X/Y →R, definida por
[x]o = infkzk:z∈[x] , para todo x∈X, ´e uma norma no espa¸co quociente X/Y.
Demonstrac¸˜ao.
• A aplica¸c˜ao est´a bem definida.
Sejam [x],[y]∈X/Y com [x] = [y]. Ent˜ao
1.3. T ´OPICOS DE AN ´ALISE FUNCIONAL 15
• [x]o≥0 para todo x∈X.
Se [x]∈X/Y ent˜ao 0≤ kzk, para todoz∈[x], e portanto
[x]o = infkzk:z∈[x] ≥0. • Se [x]o= 0 ent˜ao [x] = [0].
Se [x] ∈ X/Y com [x]o = 0, ent˜ao infkzk : z ∈ [x] = 0; logo existe uma seq¨uˆencia (xn)n≥1, com xn ∈ [x] para todo n ≥ 1, tal que
kxnk −→ 0. Para cada n ≥ 1, existe yn ∈ Y tal que xn = x+yn; portantokx+ynk −→0, o que implicax+yn−→0, i.e.,yn−→0−x. Como (yn)n≥1´e uma seq¨uˆencia de elementos deY, eY ´e um subespa¸co
fechado de X, segue que 0−x∈Y, ou seja, [x] = [0].
• kλ xko =|λ|[x]o para todoλ∈Re x∈X.
Sejam [x]∈X/Y e λ∈R. Se λ= 0 ent˜ao a igualdade vale
trivial-mente para todo x ∈ X. Suponhamos λ 6= 0 e seja x ∈ X arbitr´ario. Ent˜aoλ[x]o =[λ x]o = infkzk:z∈[λ x] . Fazendo z=λ x+y,
y∈Y, temoskzk=|λ| kkk, em que k=x+λ1y. Da´ı,
λ[x]o= inf|λ| kkk:k∈[x] =|λ|infkkk:k∈[x] =|λ|[x]o. • [x] + [y]o ≤[x]o+[y]o.
Sejam [x],[y]∈X/Y. Dadoε >0, existemα∈[x] eβ ∈[y] tais que
kαk ≤[x]o+ ε2 e kβk ≤ [y]o+2ε. Como α ∈ [x] e β ∈[y], temos
α+β ∈[x+y]. Assim,
[x] + [y]o=[x+y]o≤ kα+βk ≤ kαk+kβk ≤[x]o+[y]o+ε,
ou seja, [x] + [y]o ≤[x]o+[y]o+ε, para todoε >0. Portanto,
[x] + [y]o ≤[x]o+[y]o. ´
E poss´ıvel mostrar que se X,k · k ´e um espa¸co de Banach e Y ´e um subespa¸co fechado deXent˜ao X/Y,k·kotamb´em ´e um espa¸co de Banach. Definic¸˜ao 1.3.8. Sejam E,k·kEe F,k·kFespa¸cos de Banach. Uma aplica¸c˜ao linear limitadaq:E →F ´e chamada de uma aplica¸c˜ao quociente
se ela ´e sobrejetora e, para todox∈E,
Isso equivale a dizer queqinduz uma isometria linear do espa¸co quociente de Banach E/Ker(q) sobre F. Mais especificamente, a aplica¸c˜ao linear limitada q:E →F ´e uma aplica¸c˜ao quociente se a aplica¸c˜ao
E/Ker(q)∋[x]7−→q(x)∈F
´e uma isometria linear.
Definic¸˜ao 1.3.9. Seja X,k · k um espa¸co vetorial normado. Uma fam´ılia (xi)i∈I de vetores deX ´e ditasom´avel quando existeα∈Xtal que, para todoε >0, existe um subconjunto finitoFε ⊂I tal que
α−X
i∈F
xi
< ε,
para todo subconjunto finito F ⊂I com F ⊃ Fε. O vetor α ∈X, quando existe, ´e ´unico e ´e chamado de asoma da fam´ılia (xi)i∈I; escrevemos
(1.3.1) α=X
i∈I
xi.
Proposic¸˜ao1.3.10. Sejam X,k·kXe Y,k·kYespa¸cos vetoriais reais normados. Se T : X → Y ´e uma aplica¸c˜ao linear limitada e se (xi)i∈I ´e
uma fam´ılia som´avel em X ent˜ao
T X
i∈I
xi
=X i∈I
T(xi).
Demonstrac¸˜ao. Seja ε > 0. Se (xi)i∈I ´e uma fam´ılia som´avel em X ent˜ao existem α=Pi∈Ixi ∈X e Fε⊂I finito tais que
α−X
i∈F
xi
X < ε kTk,
para todo subconjunto finito F ⊂ I, com F ⊃Fε. Uma vez que T ´e uma aplica¸c˜ao linear limitada e F ´e finito, temos:
T(α)−X
i∈F
T(xi) Y =
Tα−X
i∈F
xi
Y ≤ kTk
α−X
i∈F
xi
X <kTk
ε kTk =ε,
para todoF finito comFε⊂F ⊂I. Portanto a fam´ılia T(xi)i∈I´e som´avel e T(α) =Pi∈IT(xi), i.e.,
T X
i∈I
xi
=X i∈I
1.3. T ´OPICOS DE AN ´ALISE FUNCIONAL 17
Lembramos queR=R∪ {−∞,+∞}´e chamado de sistema de n´umeros
reais estendido, ou simplesmente de reta estendida. Uma descri¸c˜ao das opera¸c˜oes alg´ebricas emRe suas propriedades podem ser encontradas, entre
outros, em [22] ou [3].
Definic¸˜ao 1.3.11. Seja (xi)i∈I uma fam´ılia de n´umeros reais n˜ao nega-tivos. Definimos a soma de (xi)i∈I por
(1.3.2) X
i∈I
xi= sup
n X
i∈F
xi :F ⊂I,F finito
o
∈R.
Observac¸˜ao 1.3.12. Se (xi)i∈I ´e uma fam´ılia de n´umeros reais n˜ao negativos e φ:J →I ´e uma bije¸c˜ao ent˜ao
(1.3.3) X
i∈I
xi =
X
j∈J
xφ(j).
De fato, para cadaE⊂J finito, comoφ|E :E→φ(E) ´e uma bije¸c˜ao, temos
(1.3.4) X
j∈E
xφ(j) =
X
φ(j)∈φ(E) xφ(j) =
X
i∈φ(E) xi.
Assim, tomando os supremos das somas finitas em (1.3.4), obtemos (1.3.3). Lema 1.3.13. Se (xij)(i,j)∈I×J ´e uma fam´ılia de n´umeros reais n˜ao
ne-gativos ent˜ao
X
i∈I
X
j∈J
xij =
X
(i,j)∈I×J
xij.
Demonstrac¸˜ao. SejaH⊂I×J finito. Ent˜ao existemF ⊂I e G⊂J
finitos tais que H⊂F ×G, e assim
X
(i,j)∈H
xij ≤
X
(i,j)∈F×G
xij =
X
i∈F
X
j∈G
xij ≤
X
i∈F
X
j∈J
xij ≤
X
i∈I
X
j∈J
xij.
Portanto,
X
(i,j)∈I×J
xij = sup H⊂I×J H finito
X
(i,j)∈H
xij ≤
X
i∈I
X
j∈J
xij.
Suponhamos que existai∈I tal quePj∈Jxij = +∞. Ent˜ao
X
(i,j)∈I×J
xij ≥
X
j∈J
xij = +∞,
o que implica
X
i∈I
X
j∈J
xij ≤
X
(i,j)∈I×J
Por outro lado, se Pj∈Jxij <+∞ para todoi∈I ent˜ao, dado ε >0, para cada i ∈ I existe Gi ⊂ J finito tal que Pj∈Gixij > Pj∈Jxij −ε. Assim, para todoF ⊂I finito temos:
X
(i,j)∈I×J
xij ≥
X
(i,j)∈F×Gi
xij =
X
i∈F
X
j∈Gi
xij >
X
i∈F
X
j∈J
xij −ε|F|,
i.e., X i∈F
X
j∈J
xij <
X
(i,j)∈I×J
xij + ε|F|, para todoε >0.
Logo, Pi∈FPj∈Jxij ≤P(i,j)∈I×Jxij para todoF ⊂I finito, e portanto
X
i∈I
X
j∈J
xij = sup F⊂I F finito
X
i∈F
X
j∈J
xij
≤ X
(i,j)∈I×J
xij.
Corol´ario1.3.14. Se(xij)(i,j)∈I×J ´e uma fam´ılia de n´umeros reais n˜ao
negativos ent˜ao
X
i∈I
X
j∈J
xij =
X
j∈J
X
I∈I
xij.
Demonstrac¸˜ao. Segue imediatamente da Observa¸c˜ao 1.3.12 e do Lema 1.3.13; basta tomar a bije¸c˜aoφ:J×I ∋(j, i)7−→(i, j)∈I×J. Observac¸˜ao 1.3.15. Se (xi)i∈I ´e uma fam´ılia de n´umeros reais n˜ao ne-gativos tal que Pi∈Ixi <+∞, ent˜ao o conjunto J = {i ∈ I : xi 6= 0} ´e enumer´avel. Com efeito, para cada n´umero natural n ≥ 1, o conjunto
Jn=
i∈I :xi ≥ 1n ´e finito, sen˜ao ter´ıamos
X
i∈I
xi ≥
X
i∈Jn
xi≥
X
i∈Jn
1
n = +∞. ComoJ =Sn≥1Jn, segue que J ´e enumer´avel.
Proposic¸˜ao1.3.16. Uma fam´ılia(xi)i∈I de n´umeros reais n˜ao negativos
´e som´avel se e somente se (1.3.2)´e finito, e nesse caso (1.3.1) e (1.3.2) s˜ao iguais.
Demonstrac¸˜ao. Suponhamos que
α= supn X i∈F
xi :F ⊂I,F finito
o
<+∞.
Dadoε >0, existeF′ ⊂I finito tal que
α−ε < X
i∈F′
1.4. T ´OPICOS DE TEORIA DA MEDIDA 19
SejaF ⊂I finito tal queF ⊃F′. Ent˜ao
α−ε < X
i∈F′ xi ≤
X
i∈F
xi≤ sup F⊂I F finito
X
i∈F
xi=α≤α+ε,
ou seja,α−Pi∈Fxi
< ε. Logo (xi)i∈I ´e som´avel eα=Pi∈Ixi. Recipro-camente, suponhamos que (xi)i∈I seja uma fam´ılia som´avel. Ent˜ao existe
s∈Rtal que, dadoε >0, existeFε⊂Ifinito tal ques−ε <Pi
∈Fxi< s+ε, para todoF ⊂I finito comF ⊃Fε. SejaF′ ⊂I finito arbitr´ario. Ent˜ao
X
i∈F′ xi ≤
X
i∈F′∪Fε
xi < s+ε, e portanto
supn X i∈F
xi :F ⊂I,F finito
o
≤s+ε.
Por outro lado,s−ε <Pi∈Fxi, para todoF ⊂I finito comF ⊃Fε; logo
s−ε≤supn X i∈F
xi:F ⊂I,F finito,F ⊃Fε
o
≤supn X i∈F
xi:F ⊂I,F finito
o
.
Assim, para todoε >0 temos
s−ε≤supn X i∈F
xi:F ⊂I,F finito
o
≤s+ε,
ou seja,
s−supn X
i∈F
xi:F ⊂I,F finitoo≤ε,
para todoε >0; portanto supnX i∈F
xi :F ⊂I,F finito
o
=s <+∞
1.4. T´opicos de Teoria da Medida
Observac¸˜ao1.4.1. SejamI um intervalo da reta ea, b∈R, coma≤b.
Ocomprimento l(I) do intervaloI ´e igual ab−aseI for do tipo [a, b], [a, b[, ]a, b] ou ]a, b[, e ´e igual a +∞ se I for do tipo ]−∞, a], ]−∞, a[, ]a,+∞[, [a,+∞[ ou ]−∞,+∞[.
Definic¸˜ao 1.4.2. A medida exterior de Lebesgue em R, denotada por
m∗, ´e definida como a aplica¸c˜ao:
m∗ :P(R)−→[0,+∞]
A7−→m∗(A) = infIA,
IA=n P n≥1
l(In) : (In)n≥1 seq¨uˆencia de intervalos abertos com A⊂ S
n≥1 In
o
Definic¸˜ao 1.4.3. Um conjuntoE⊂R´e chamadoLebesgue mensur´avel
(oum∗-mensur´avel) se para todoA⊂Rtemos
m∗(A) =m∗(A∩E) +m∗(A∩Ec).
Denotamos por L a cole¸c˜ao dos conjuntos Lebesgue mensur´aveis de R.
Definic¸˜ao 1.4.4. A aplica¸c˜ao m = m∗|L : L → [0,+∞], restri¸c˜ao da
medida exterior de Lebesgue aos conjuntos Lebesgue mensur´aveis de R, ´e
chamada medida de Lebesgue na reta.
Definic¸˜ao 1.4.5. SejaX um conjunto. Uma σ-´algebra de partes deX
´e um subconjunto n˜ao vazioA ⊂ P(X) satisfazendo as seguintes condi¸c˜oes: (a) se A∈ Aent˜ao Ac ∈ A;
(b) se (An)n≥1´e uma seq¨uˆencia de elementos deAent˜aoSn≥1An∈ A. Em outras palavras, uma σ-´algebra de partes de X ´e uma cole¸c˜ao n˜ao vazia de subconjuntos de X fechada para complementa¸c˜ao e uni˜ao enu-mer´avel (infinita). Observamos que para todaσ-´algebraA de partes deX, se A, B ∈ A, ent˜ao A∪B ∈ A basta tomar a seq¨uˆencia (An)n≥1 na qual A1 = A e An = B para todo n ≥ 2
, e portanto uma σ-´algebra tamb´em ´e fechada para uni˜ao finita. Como A 6= ∅, existe um elemento A ∈ A, e portanto X = A∪Ac ∈ A e ∅ = Xc ∈ A. Observamos por fim que uma
σ-´algebra tamb´em ´e fechada para diferen¸ca e intersec¸c˜ao enumer´avel. Exemplo 1.4.6. A cole¸c˜aoL dos conjuntos Lebesgue mensur´aveis deR
1.4. T ´OPICOS DE TEORIA DA MEDIDA 21
Observac¸˜ao 1.4.7. Se (Ai)∈I ´e uma fam´ılia n˜ao vazia de σ-´algebras de partes de um conjunto X ent˜ao Ti∈IAi tamb´em ´e uma σ-´algebra de subconjuntos deX. Com efeito, Ti∈IAi =6 ∅, pois ∅ ∈ Ai para todo i∈I. Se A ∈ Ti∈IAi ent˜ao A ∈ Ai (e portanto Ac ∈ Ai) para cada i ∈ I, logo Ac ∈ T
i∈IAi. Por fim, se (An)n≥1 ´e uma seq¨uˆencia de elementos de
T
i∈IAi ent˜ao (An)n≥1 ´e uma seq¨uˆencia em Ai, para cada i ∈I; portanto
S
n≥1An∈Ai para todoi∈I, ou seja,Sn≥1An∈Ti∈IAi.
Exemplo 1.4.8. Se X ´e um conjunto n˜ao enumer´avel, ent˜ao a cole¸c˜ao
A=A⊂X:A´e enumer´avel ou Ac ´e enumer´avel
´e uma σ-´algebra de partes de X. Com efeito, temos que A 6= ∅, pois o conjunto vazio ∅ ´e enumer´avel; se A ∈ A ent˜ao A ´e enumer´avel ou Ac ´e enumer´avel, ou seja, (Ac)c ´e enumer´avel ou Ac ´e enumer´avel, o que implica que Ac ∈ A. Al´em disso, se (An)n
≥1 ´e uma seq¨uˆencia de elementos de A,
ent˜aoSn≥1An ´e enumer´avel seAn ´e enumer´avel para todo n≥1. Se, por outro lado, existir k ≥1 tal que (Ak)c seja enumer´avel, ent˜ao Sn≥1Anc ´e enumer´avel, uma vez que Sn≥1An
c
⊂(Ak)c. Portanto Sn≥1An∈ A, o que finaliza a justificativa de queA´e umaσ-´algebra de subconjuntos de X. Proposic¸˜ao1.4.9. Sejaf :X→Y uma fun¸c˜ao. SeA´e umaσ-´algebra em Y ent˜ao a cole¸c˜ao f∗A = {f−1(A) : A ∈ A} ´e uma σ-´algebra em X (chamada de σ-´algebra induzida por f (e A) em X).
Demonstrac¸˜ao. Como X = f−1(Y) e Y ∈ A temos X ∈ f∗A, e
portanto f∗A 6= ∅. Se A ∈ f∗A ent˜ao existe B ∈ A tal que A = f−1(B); logoAc= f−1(B)c =f−1(Bc) eBc ∈ A, ou seja,Ac∈f∗A. Se (An)n
≥1 ´e
uma seq¨uˆencia de elementos def∗A ent˜ao, para cada n≥1, existeBn∈ A tal queAn=f−1(Bn). Assim,
[
n≥1 An=
[
n≥1
f−1(Bn) =f−1 [
n≥1 Bn
e [ n≥1
Bn∈ A,
isto ´e,Sn≥1An∈f∗A. Portanto f∗A´e umaσ-´algebra de partes deX.
Demonstrac¸˜ao. Uma vez que f−1(Y) = X ∈ A, temos Y ∈ f∗A, e
portantof∗A 6=∅. SeA∈f∗Aent˜aof−1(A)∈ A, o que implica f−1(Ac) = f−1(A)c ∈ A,
i.e., Ac ∈f
∗A. Se (An)n≥1 ´e uma seq¨uˆencia de elementos de f∗A temos f−1 [
n≥1 An
= [ n≥1
f−1(An) ∈ A,
poisf−1(An)∈ A para cada n≥1, e assimSn≥1An∈f∗A. Portanto f∗A
´e umaσ-´algebra de partes de Y.
Proposic¸˜ao 1.4.11. Seja (fi :Xi →Y)i∈I uma fam´ılia de fun¸c˜oes. Se
Ai ´e uma σ-´algebra em Xi, para cada i∈I, ent˜ao a cole¸c˜ao
A=A⊂Y :fi−1(A)∈ Ai, para todo i∈I
´e uma σ-´algebra de partes de Y (chamada de σ-´algebra co-induzida em Y pela fam´ılia de fun¸c˜oes(fi)i∈I (e pela fam´ılia deσ-´algebras (Ai)i∈I).
Demonstrac¸˜ao. Decorre imediatamente da Observa¸c˜ao 1.4.7 e da Pro-posi¸c˜ao 1.4.10, uma vez que A=Ti∈Ifi∗Ai. Proposic¸˜ao 1.4.12. Sejam X um conjunto,A umaσ-´algebra de partes deX e(An)n≥1uma seq¨uˆencia de elementos deA. Seja(Bn)n≥1 a seq¨uˆencia dada por B1 =A1 e, para todo n≥2,
Bn=An\ n[−1
k=1 Ak.
Ent˜aoBn∈ Apara todon≥1, os conjuntos Bn s˜ao dois a dois disjuntos e
[
n≥1 Bn=
[
n≥1 An.
Demonstrac¸˜ao. B1 obviamente est´a em A, e para n ≥ 2 tamb´em
temos Bn ∈ A, j´a que A ´e fechada para uni˜ao finita e diferen¸ca. Sejam
i, j≥1 com i6=j, digamosi < j. Ent˜ao
Bi∩Bj =
Ai\ i[−1
k=1 Ak
∩Aj \ j[−1
k=1 Ak
1.4. T ´OPICOS DE TEORIA DA MEDIDA 23
Resta mostrar que Sn≥1Bn=Sn≥1An. Para isso, mostraremos antes, por
indu¸c˜ao sobre n, que Snk=1Bk = Snk=1Ak para todo n ≥ 1. Com efeito,
B1 =A1 e admitindo a igualdade v´alida para todop < n, temos:
n
[
k=1 Bk=
n[−1
k=1 Bk
∪Bn
= n[−1
k=1 Ak
∪An\ n[−1
k=1 Ak
= n[−1
k=1 Ak
∪An= n
[
k=1 Ak.
Portanto Snk=1Bk =Snk=1Ak, para todo n≥1. ComoBn⊂An para todo
n≥1, segue que
[
n≥1 Bn⊂
[
n≥1 An.
Por outro lado, se x∈Sn≥1An ent˜aox∈Ano para algumno ≥1; logo
x∈
no
[
k=1 Ak=
no
[
k=1 Bk ⊂
[
n≥1
Bn, ou seja,
[
n≥1 An⊂
[
n≥1 Bn.
Dado um subconjunto C ⊂ P(X), a σ-´algebra obtida pela intersec¸c˜ao de todas as σ-´algebras que contˆem C ´e chamada de σ-´algebra gerada por
C, e ´e denotada por [C] ou σ[C]; dizemos tamb´em queC ´e umconjunto de geradores para [C] . Observe que [C] ´e a menor σ-´algebra de partes de X
contendo C, ou seja, seA´e uma σ-´algebra de subconjuntos deX e C⊂ A
ent˜ao [C]⊂ A.
Aσ-´algebra de partes deRgerada pela cole¸c˜ao de todos os subconjuntos
abertos deR´e chamada deσ-´algebra de Borel deR. Denotamos porB(R) a
σ-´algebra de Borel, e seus elementos s˜ao chamados de conjuntos boreleanos
de R. Como todo subconjunto aberto de R ´e Lebesgue mensur´avel temos
B(R) ⊂ L. ´E poss´ıvel mostrar que [a,+∞[: a ∈ R , ]a,+∞[: a ∈ R ,
]−∞, a] :a∈R e]−∞, a[:a∈R s˜ao conjuntos de geradores paraB(R).
Lembramos ainda, que a cole¸c˜ao B(R) dosboreleanos da reta estendida ´e a
σ-´algebra gerada pelo conjunto [a,+∞] :a∈R , ou equivalentemente, os
boreleanos deR s˜ao os subconjuntosA⊂R tais queA∩R∈ B(R).
Definic¸˜ao 1.4.13. Um espa¸co mensur´avel ´e um par (X,A), no qual
A s˜ao chamados de conjuntos mensur´aveis (ou A-mensur´aveis, ou ainda, mensur´aveis com respeito a A) deX.
Definic¸˜ao 1.4.14. Seja (X,A) um espa¸co mensur´avel. Uma medida
em (X,A) (ou em A, ou emX) ´e uma fun¸c˜ao µ:A →[0,+∞], tal que as seguintes condi¸c˜oes s˜ao satisfeitas:
(i) µ(∅) = 0;
(ii) (σ-aditividade) se (An)n≥1´e uma seq¨uˆencia de elementos deA, dois
a dois disjuntos, ent˜ao
µ [
n≥1 An
=X n≥1
µ(An).
Proposic¸˜ao 1.4.15. Seja µ:A →[0,+∞]uma medida em um espa¸co mensur´avel(X,A). Ent˜ao:
(a) Se A, B∈ A eA∩B=∅ ent˜aoµ(A∪B) =µ(A) +µ(B).
(b) Se A e B s˜ao elementos de A com A ⊂ B ent˜ao µ(A) ≤ µ(B); al´em disso, se µ(A)<+∞ ent˜aoµ(B\A) =µ(B)−µ(A).
(c) Se (An)n≥1 ´e uma seq¨uˆencia de conjuntosA-mensur´aveis ent˜ao
µ [
n≥1 An
≤X
n≥1
µ(An).
Demonstrac¸˜ao.
• Prova de (a).
Decorre imediatamente da Defini¸c˜ao 1.4.14 ; basta tomar a seq¨uˆencia (An)n≥1 na qualA1 =A,A2 =B eAn=∅para todon >2.
• Prova de (b).
Se A⊂B ent˜ao B=A∪(B\A) e A∩(B\A) =∅, e portanto (∗) µ(B) =µ(A) +µ(B\A).
Como µ(B \A) ≥ 0, temos µ(A) ≤ µ(B); al´em disso, se µ(A) < +∞
ent˜ao podemos subtrair µ(A) de ambos os lados da igualdade (∗), e assim obtemosµ(B\A) =µ(B)−µ(A).
1.4. T ´OPICOS DE TEORIA DA MEDIDA 25
Se (An)n≥1´e uma seq¨uˆencia de conjuntosA-mensur´aveis ent˜ao, pela
Proposi¸c˜ao 1.4.12, existe uma seq¨uˆencia (Bn)n≥1 de conjuntos
men-sur´aveis, dois a dois disjuntos, tais que An ⊂ Bn para todo n ≥ 1 e
S
n≥1Bn=Sn≥1An. Assim,
µ [
n≥1 An
=µ [
n≥1 Bn
=X n≥1
µ(Bn)≤X
n≥1
µ(An),
uma vez queµ(An)≤µ(Bn) para cadan≥1. Observac¸˜ao 1.4.16. Se µ(X) < +∞, dizemos que µ ´e uma medida
finita, eµ´e chamada deσ-finita se existe uma seq¨uˆencia de conjuntos men-sur´aveis (En)n≥1 com µ(En)<+∞para todo n≥1 e X=Sn≥1En.
Definic¸˜ao1.4.17. Um espa¸co de medida ´e uma terna (X,A, µ), na qual (X,A) ´e um espa¸co mensur´avel e µ´e uma medida em A.
Observac¸˜ao 1.4.18. Um espa¸co de medida (X,A, µ) ´e chamado de
σ-finito se µ ´e uma medida σ-finita. Um subconjunto A ⊂ X ´e σ-finito para µ (ou apenasσ-finito) se existe uma seq¨uˆencia de elementos de A de medidaµ finita, tal queA=Sn≥1An.
Exemplo 1.4.19. O par (R,L) ´e um espa¸co mensur´avel e a medida de Lebesguem´e uma medida emL. Assim, (R,L,m) ´e um espa¸co de medida; na
verdade (R,L,m) ´e um espa¸co de medida σ-finito, poisR=S
n≥1[−n,+n]
e m [−n,+n]= 2n, para todon≥1.
Proposic¸˜ao1.4.20. Sejam Xum conjunto eAumaσ-´algebra de partes de X. Se µi : A → [0,+∞]i∈I ´e uma fam´ılia de medidas em A ent˜ao
µ=Pi∈Iµi ´e uma medida em A.
Demonstrac¸˜ao. Para cada A ∈ A, µi(A) ≥ 0 para todoi∈ I. Logo
µ(A) = Pi∈Iµi(A) ∈ [0,+∞] para todo A ∈ A, o que mostra que µ est´a bem definida. Claramente temos µ(∅) = 0. Seja (An)n≥1 uma seq¨uˆencia de
elementos de A, dois a dois disjuntos. Ent˜ao, pelo Corol´ario 1.3.14,
µ [
n≥1 An
=X i∈I
µi Sn≥1An
=X i∈I
X
n≥1
µi(An) =
X
n≥1
X
i∈I
µi(An) =
X
n≥1
µ(An),
Corol´ario 1.4.21. Seja (X,A) ´e um espa¸co mensur´avel. Se µ1 e µ2 s˜ao duas medidas em A ent˜aoµ1+µ2 ´e uma medida em A.
Demonstrac¸˜ao. Segue imediatamente da Proposi¸c˜ao1.4.20; basta con-siderar a fam´ılia de medidas µi :A →[0,+∞]
i∈I, em que I ={1,2}. Exemplo 1.4.22 (medida de Dirac). Sejam X um conjunto e x ∈ X
fixado. A aplica¸c˜ao δx:P(X)→[0,+∞], definida por
δx(E) =
1 sex∈E
0 sex /∈E,
´e uma medida em X,P(X). Com efeito, δx(∅) = 0, pois x /∈ ∅. Seja (An)n≥1 uma seq¨uˆencia de subconjuntos de X, dois a dois disjuntos. Se x∈Sn≥1An ent˜aoδx Sn≥1An= 1 e x∈Ak para algumk≥1. Como os conjuntos An s˜ao dois a dois disjuntos temos quex /∈An para todo n6=k, e assim
X
n≥1
δx(An) =δx(Ak) +
X
n≥1
n6=k
δx(An) = 1 + 0 = 1.
Se x /∈ Sn≥1An ent˜ao δx Sn≥1An
= 0 e x /∈An para todo n ≥1, o que implicaPn≥1δx(An) = 0. Em qualquer caso temos
δx
[
n≥1 An
=X n≥1
δx(An).
Exemplo 1.4.23 (medida de contagem). Sejam X um conjunto. A aplica¸c˜ao µ:P(X)→[0,+∞], dada por
µ(E) =
|E| seE ´e finito +∞ seE ´e infinito,
´e uma medida no espa¸co mensur´avel X,P(X). De fato, para cada sub-conjuntoE ⊂X temos
µ(E) =X x∈E
δx(E) = X x∈X
δx(E), ou seja, µ= X x∈X
δx.