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A escrita freudiana do pai-sintoma.

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Academic year: 2017

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RES UMO: O recurso de Freud ao texto de Dostoiévski reenvia-nos à

teoria freudiana do pai e seus im passes. Édipo, Totem e tabu e Moisés e o

monoteísmo seriam os três principais m om entos da escrita freudiana

do pai. Ao longo desses textos, apesar de recair em alguns im passes, Freud fornece elem entos para tom arm os o pai com o um sem blante e um a form ação sintom ática. No últim o m om ento dessa teorização, em Moisés, o pai irá aparecer explicitam ente com o escrita e com o sintom a.

Palavras - chave : Dostoiévski, pai, sintom a, supereu, linguagem .

ABSTRACT: Freud’s father-sym ptom w riting. The fact that Freud based his work on Dostoievski’s text recalls the Freudian theory of the

fa-ther and its im passes. Oedipus, Totem and taboo and Moses and monotheism

are the three m ain m om ents of the Freudian w riting of the father. Although, along those texts, Freud is confronted w ith som e im passes, he provides elem ents for us to take the father in a sym ptom atic

for-m ation and aspect. At the end of that analysis, in Moses, the father w ill

arise explicitly as w riting and sym ptom .

Ke y w ords : Dostoiesvski, father, sym ptom , super-ego, language.

A LEITURA FREUDIANA DE DOSTOIÉVS KI

O recurso de Freud ao texto de Dostoiévski, além de perm itir um a leitura da posição subjetiva do escritor, reenvia-nos à teo-ria do pai e seus im passes. Este recurso m ostra ainda que a relação do fundador da psicanálise com a arte literária vai m ais longe do que um a aplicação à literatura. Se a leitura psicanalí-tica perm ite identificar a posição subjetiva do autor, ela não Psicanalista; m estre

em psicologia, área de concentração em estudos psicanalíticos pela UFMG; psicóloga do Program a de Atenção Integral ao Paciente Judiciário/ PAI-PJ, do Tr ibunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

Rom in a More ira d e Ma g a lh ã e s Gom e s

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deixa, tam bém , de trazer conseqüências para a teorização da psicanálise. Ao in-terrogar a teoria, o texto literário pode levá-la a avançar. Neste sentido, conform e considera Regnault ( 1995) , a obra de arte participa da organização da teoria.

Antes de iniciar a escrita do texto Dostoiévski e o parricídio em 1926, Freud nos m ostra, em um a carta escrita a Stefan Zweig em 19/ 10/ 1920 ( FREUD, 1873-1939/ 1982) , que já vinha pensando em Dostoiévski e sua obra. Nessa carta, ao com entar o livro de Zweig, Três mestres: Balzac, Dickens e Dostoiévski,1 Freud considera que o escritor russo perm anece um enigm a, um furo no saber. Ele considera que som ente a psicanálise perm itiria esclarecer os enigm as ligados à doença do escri-tor, questionando o diagnóstico de epilepsia feito pelos m édicos e ressaltando os aspectos neuróticos que sobressaem em sua doença. Freud atribui ao escritor russo um saber sobre a equivalência entre os atos e as intenções, a qual será retom ada em Dostoiévski e o parricídio.Essa característica que ele encontra nos perso-nagens de Os irmãos Karamázovi será atribuída, em O mal- estar na civilização, à instância paradoxal nom eada de supereu.

O texto Dostoiévski e o parricídio ( 1928/ 1987) torna explícito que a questão central do sujeito histérico gira em torno de sua relação com a figura paterna, reenviando-nos à teoria do pai em Freud. A am bivalência ao pai aparece aí com o um ponto nodal da análise. Nesse texto, assim com o na carta escrita a Reik em 14/ 4/ 1929 ( FREUD, 1929b/ 1987) , Freud dem onstra certa indignação diante da covardia de Dostoiévski frente às figuras paternas.

Freud ( 1928/ 1987) parece tom ar Os irmãos Karamázovi, a obra m ais célebre do escritor russo, com o um a realização, pela via da arte, dos desejos proibidos de parricídio e de incesto, pois, m atar o pai é, para ele, um ato m ovido por um objeto incestuoso: a m ãe. Mas é justam ente Dostoiévski quem lhe m ostra que os atos podem equivaler às intenções, ao atribuir a três dos irm ãos Karam ázovi a culpa pelo assassinato do pai. Não é, pois, necessário que tenha havido um crim e para que o sujeito se sinta culpado. Freud descobre que a presença da culpa pode, ao contrário, levar ao crim e. Dostoiévski busca, entretanto, outra saída para ins-crever seu intenso sentim ento de culpa: o cam inho da criação literária. Mas, esse cam inho não o leva m uito longe: ele se m antém colado ao pai, com o exigência de norm atividade.

Ao propor a hipótese de que Dostoiévski não seria epiléptico, e sim histérico, Freud ( 1928/ 1987) aborda um a form a de satisfação irredutível ligada ao sinto-m a do sujeito que se sinto-m anifesta cosinto-m o usinto-m apego ao sofrisinto-m ento. Sua indignação refere-se ao entrincheiram ento do escritor no sentim ento de culpa, em que o am or ao pai é deter m in an te. Isso pode ser dem on strado pela vacilação de

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Dostoiévski entre tornar-se um religioso e perm anecer ateu e, principalm ente, pela aceitação de um a condenação injusta im posta pelo czar, que assum e para ele o lugar de um representante paterno.

Dostoiévski fora condenado por ter participado de reuniões em grupos de intelectuais que ganharam a reputação de politicam ente subversivos.2 Quando certa vez lhe disseram que sua condenação3 havia sido injusta, ele objetou: “tal-vez o Todo-Poderoso o tenha m e enviado para que eu pudesse apreender a essên-cia das coisas, a fim de com unicá-la ao próxim o” ( FÜLÖP-MILLER, 1954, p.57) . O único ato condenável em preendido pelo escritor foi a leitura de um a carta do crítico Bielinski escrita a Gogol,4 em que se podiam encontrar idéias subversivas ( ARBAN, 1949) . Mais tarde, em carta endereçada à esposa, ele declarou ter sido sua prisão “um providencial acidente” que o im pediu de enlouquecer ( FRANK, 1999a) .

Para que se possa avaliar a extensão da subm issão de Dostoiévski à figura pater-na que ele encontra no czar, é interessante notar o fato de que o prim eiro escrito a que ele se dedica, quando sai da prisão de Om sk, na Sibéria, após seis anos de silêncio, é um poem a com em orativo do aniversário da esposa de Nicolau I, o m esm o czar que fora responsável pela sua condenação.5 Nesse poem a escrito em 1855, Dostoiévski declara que o cum prim ento da pena que lhe foi designada fez dele um hom em :

“Perdoai-m e, perdoai-m e, perdoai m eu desejo; perdoai-m e por ousar dirigir-m e a vós. Perdoai-m e por ousar nutrir o insensato sonho de consolar vossa tristeza, de aliviar vosso sofrim ento. Perdoai que eu, um pesaroso proscrito, ouse levantar m inha

voz ante este túm ulo sagrado. Mas Deus! nosso juiz para toda a eternidade! Tu m e

2 Dostoiévski participou do círculo Petrachévski, o grupo com idéias sociopolíticas revolucio-nár ias m ais conhecido em São Petersburgo, no final dos anos 1840. O conteúdo das discussões do grupo girava principalm ente em torno da questão da em ancipação dos servos, que vinha sendo em vão esperada do czar Nicolau I. Mas a conspiração se reduzia, com o observa biógra-fo Orest Miller, a um propósito para o futuro.

3 Na ocasião da condenação de Dostoiévski, a com issão de inquérito responsável pelo caso concluiu pela não existência de um a sociedade subversiva de propaganda organizada. A conde-nação do escritor deveu-se a ele ter “alim entado projetos crim inosos, por ter propagado a carta do escritor Bielinski repleta de ultrajes contra a Igreja Ortodoxa e o Poder Suprem o, e por ter, ao m esm o tem po, desejado difundir as obras hostis ao governo” ( In: ARBAN, 1949. p.XVII) . 4 A carta se refere aos Trechos selecionados de minha correspondência, em que Gogol defende as estr uturas sociais e políticas russas com o sendo fr utos da determ inação divina, incluindo a servidão. Bielinski se m ostra indignado pelas possíveis repercussões dessas idéias e por considerá-lo um a traição dos ideais pelos quais lutava ( Frank, 1999a) .

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enviaste Teu julgam ento nas horas agitadas da dúvida, e com m eu coração descobri que lágrim as são expiação, que outra vez eu era um russo e, outra vez — um ho-m eho-m !” ( FRANK, 1999b, p.278-279)

Assim , ele confessa publicam ente que a prisão serviu à expiação de sua culpa. Contudo, essa culpa não era devida a um ato, conform e ele m esm o assum e em um a carta escrita após o cum prim ento da pena: “Eu era culpado. Reconheço-o integralm ente. Fui condenado por ter a intenção ( m as só a intenção) de agir contra o governo. Fui condenado legal e justam ente” ( FRANK, 1999b, p.288) . Vem os, dessa form a, que a equivalência entre as intenções e os atos que Freud lê em Dostoiévski a partir de seu rom ance Os irmãos Karamázovi é experim entada no real pelo escritor russo. Sua prisão é providencial no sentido em que perm ite ligar a culpa presente de form a avassaladora a um a representação ( a de um a ofensa ao czar) , correspondendo, portanto, a um a fonte de certo alívio.

Se, por um lado, é a presença do am or que im pede de colocarm os Dostoiévski entre os crim inosos, pois, com o Freud ( 1928/ 1987) observa, ele dem onstra com sua criação literária um fascínio pelo crim e, por outro lado, esse am or é determ inante em seu fracasso neurótico. Nesse sentido, o sintom a do escritor m anifesta-se com o um a exigência de expiação da culpabilidade com o condição para que ele possa criar. Essa exigência, que é sustentada pelo am or ao pai,

apre-senta-se com o um a com pulsão do destino:6 só depois de perder tudo o que

tinha no jogo, Dostoiévski podia se dedicar ao trabalho de criação literária. Em Os irmãos Karamázovi ( 1880) , a am bivalência ao pai aparece com o um a vaci-lação entre o desejo de ultrapassá-lo m anifestado pelos irm ãos Dim itri, Ivan e Sm ierdiákov, que é contrastado com o desejo de preservá-lo pela via de um am or incondicional apresentado pelo quarto irm ão, Aliócha. Mas, se Dostoiévski ca-racteriza Aliócha com o o herói da tram a, Freud ( 1928/ 1987) pondera que o herói é na realidade Dim itri, o único dentre os quatro irm ãos que dem onstrou, aos olhos de todos, ser capaz de assassinar o pai. Ele havia anunciado aos quatro cantos da cidade a sua disputa com o pai e deixado pistas de um a possível culpa-bilidade, tendo chegado a afirm ar que seria capaz de m atá-lo. Ivan, por sua vez, ao dissem inar o ateísm o na casa paterna, propondo a idéia de que se não existe Deus,

tudo é permitido, incita Sm ierdiákov a perpetrar o parricídio. Este últim o confessa o crim e a Ivan, dizendo que o considera seu cúm plice, suicidando-se logo em seguida. Ivan relata ao tribunal do júri a confissão de Sm ierdiákov, afirm ando:

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“Matou e eu o incitei a isso... Quem não deseja a m orte de seu pai?” ( DOS-TOIÉVSKI, 1880/ s.d., p.448) . Mas não tendo com o prová-lo, Ivan não consegue convencer o tribunal e Dim itri é condenado. Assim , os três irm ãos são culpados, porque desejaram a m orte do pai.7

Nesse rom ance de Dostoiévski, são m ostradas duas versões do pai: o pai ide-alizado que aparece na figura do stáriets Zózim a e o pai degradado, gozador, re-presentado pelo velho Karam ázovi. Dessa form a, o pai aparece aí não som ente em seu caráter pacificador, m as tam bém m ostra a sua face desregulada. Freud ( 1928/ 1987) considera que Os irmãos Karamázovi dá um passo à frente com relação a Édipo rei de Sófocles e a Hamlet de Shakespeare. Esse passo a m ais m anifesta-se com o um saber sobre o gozo que se torna exposto e é situado do lado do pai.

Apesar de considerar Deus com o um a exigência inelutável para conter o cri-m e e a destruição, o rocri-m ance do escritor russo cri-m ostra que o acri-m or que faz o pai existir não é dado naturalm ente. No discurso da defesa de Dim itri, vem os que um pai não é naturalm ente am ado por seus filhos: “Pai, dize-m e por que devo am ar-te, prova-m e que é um dever” ( p.483) .Nesse sentido, o texto freudiano vai mais longe, ao propor que o pai é um artifício, uma construção auxiliar. Em Dostoiévski e o parricídio, Freud considera que o destino corresponde a um a construção auxiliar (Hilfskonstruktion) que se articula ao pai. Ele afirm a que “o destino, em últim a instân-cia, não passa de um a projeção tardia do pai” ( FREUD, 1928/ 1987, p.190) .

Se Dostoiévski supõe que o pai é um a exigência norm ativa im prescindível, Freud m ostra que o pai não se reduz a um a norm a. Ao longo da teoria freudiana, o p ai vai se revelan d o co m o u m a in stân cia in co n sisten te, n ão p acificad o ra. O am or, por sua vez, assum e um papel de proteção contra a angústia, velando a inconsistência paterna e im pedindo, tanto quanto o ódio, o confronto com o desam paro irredutível que nos constitui com o seres falantes.

A PRIMEIRA TEORIA FREUDIANA DO PAI

Ao colocar Os irmãos Karamázovi ao lado de Édipo rei e de Hamlet, Freud nos reenvia à teoria do pai e seus im passes. O prim eiro im passe nessa teoria pode ser identifi-cado no Édipo tal com o form ulado em 1900.8 Nesse prim eiro m om ento de sua teorização sobre o pai, Freud considera que

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“a tristeza de um filho pela m orte do pai não consegue suprim ir sua satisfação por ter finalm ente conquistado sua liberdade. Em nossa sociedade de hoje, os pais

ten-dem a se agarrar desesperadam ente ao que resta de um a potestas patris familias agora

tristem ente antiquada.” ( FREUD, 1900/ 1996, p.284)

Nessa prim eira leitura do dram a edípico vivido pelo neurótico, Freud recorre à tragédia de Sófocles para obter um a confirm ação de suas hipóteses. Em sua explicação do desejo de m orte contra os pais, ele rem onta à prim eira escolha am orosa infantil, supondo haver um a sim etria entre m eninos — que têm a m ãe com o prim eiro objeto de am or e o pai com o rival — e m eninas — que teriam o pai com o prim eiro objeto e a m ãe com o rival. Para Freud, a tragédia de Sófocles vem confirm ar, do lado do m enino, essa hipótese.

Segundo Michel Silvestre ( 1991) , o abandono da teoria da sedução por Freud possibilita a tom ada do pai com o form ação do inconsciente, particularm ente, o do sujeito histérico. Este é o prim eiro passo para que se possa tom ar o pai com o um retorno do recalcado, form ulação que será plenam ente desenvolvida no final da obra, sobretudo em Moisés e o monoteísmo. Para que o pai retorne com o um sintom a é preciso que tenha havido previam ente um recalque. Trata-se do recalque de um desejo sexual que o sujeito situa no lugar do pai. Para o histérico, não há desejo senão do pai, deixando-nos entrever a própria estrutura do desejo que se caracteriza pelo fato de que a sua enunciação fica sem pre ao encargo do Outro.

Cabe notar que essa concepção freudiana do Édipo de 1900 lim ita as possibi-lidades de se pensar num a saída responsável. O pai, sendo causa do sofrim ento, é culpado. Por um lado, essa leitura pode ser profícua se se com eçar a pensar o m odo de constituição do neurótico, que é tam bém isolado em outros textos, com o Hamlet e Os irmãos Karamázovi. Mas ela certam ente tem lim ites, na m edida que postula o assassinato do pai com o perm itindo o acesso, sem perdas, à satisfação pulsional.

A RETIFICAÇÃO DE TOT EM E TABU

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Mas, junto à lei perm aneceu um resíduo do pai que não pôde ser assim ilado no ato de sua incorporação e que am eaça retornar sob a form a de um a culpa sangüínea, m uda, engendrando um a fantasia de expiação da culpabilidade. Trata-se de um a falha na lei, que em Além do princípio do prazer ( 1920/ 1987) será retom a-da com o conceito de pulsão de m orte. O conceito de pulsão de m orte será um a nova form a de designar esse elem ento que não se inscreve e que se m anifesta sob a form a da com pulsão à repetição: o sujeito repete experiências desprazerosas — por exem plo, seu sintom a — a despeito do desprazer que isto possa lhe causar. Esse resíduo, com o verem os adiante, será retom ado em 1923 com o conceito de supereu. A escolha de Freud por falar em incorporação (Einverleibung) , e não em assim ilação do pai, quando teoriza a identificação prim ária em O ego e o id ( 1923/ 1987) , aponta para o fato de que se trata de algo propriam ente intragável.

As form ulações de Totem e tabu m ostram que a m orte do pai não liberou o acesso à satisfação pulsional, tendo, ao contrário, intensificado a sua interdição. Após o assassinato, os filhos se viram em estado de abandono e, devido a um anseio inextinguível pelo pai (ungestilltenVatersehnsucht) , criaram um substituto, pri-m eirapri-m ente encarnado na figura do totepri-m e posteriorpri-m ente na figura de Deus, um pai glorificado.

O assassinato do pai prim evo, afirm a Freud ( 1912-1913/ 1996) , deve ter deixado traços inextinguíveis (unvertilgbare Spuren) , que perm anecem com o decor-rer do processo de civilização. Mesm o a supressão (Unterdrückung) m ais im placável deixa atrás de si m oções substitutas deform adas. Há um a consciência de culpa criativa

(schöpferischeSchuldbewußtsein) que persiste operando no inconsciente, produzindo preceitos m orais e um a necessidade de expiação.

Nesse texto, Freud se pergunta com o é feita a transm issão desses traços inextinguíveis. Ele responde que se trata de um a transm issão biológica. A heran-ça arcaica é transm itida ao longo das gerações, restando com o um vestígio atavístico que é, portanto, responsável pelo retorno do pai. Essa hipótese de um a herança arcaica transm itida geneticam ente poderá ser repensada a partir das for-m ulações de Moisés e o monoteísmo, as quais serão m ostradas adiante.

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A obediência adiada é tam bém um efeito dos restos do pai m orto. Segundo o m ito, em um prim eiro tem po, o pai, que se apresenta com o um obstáculo à satisfação, é assassinado e devorado pelos filhos que desejam se apropriar de sua força e poder, assim com o de seu lugar junto à m ãe. No segundo tem po, surge o vazio da falta do pai, lugar dem arcado pela Vatersehnsucht, sob a form a de um a saudade. Os filhos anulam o próprio ato e proíbem a m orte do totem . A lei paterna se estabelece com toda força. Mas o pai exige sacrifício ao seu gozo: é preciso apaziguar os seus restos que ainda vivem e que não puderam ser assim i-lados no ato de sua incorporação.

A obediência adiada, com o efeito dos traços inextinguíveis (unvertilgbare Spuren), restos do pai m orto, m ostra suas conseqüências ao longo da história, levando os hom ens a buscar um bode expiatório que possa assum ir o peso da culpa, por m eio de um sacrifício. A figura de Cristo é exem plar nesse sentido. Esses traços transm itidos ao longo das gerações determ inam a expiação da culpa, a qual se origina no desconhecido (unbekannt) da interdição do desejo. É sobre esse desco-nhecido, de que o neurótico não quer saber, que se tece a tela da fantasia, sua m itologia particular.

Os dois m om entos im plicados na causalidade retroativa podem dar a im pres-são de que a segunda experiência depende da existência de um a vivência ante-rior, prim ária. Porém , a própria concepção de m em ória que Freud estabelece cedo na teoria vem m ostrar que o segundo m om ento, que instaura o traum a, o insupor-tável com o não-assim ilado, pode existir sem que haja um a inscrição prévia.

No texto Lembranças encobridoras Freud considera que

“nossas prim eiras lem branças infantis nos m ostram nossos prim eiros anos não com o eles foram , m as tal com o apareceram nos períodos posteriores em que as lem branças

foram despertadas. Nesses períodos de despertar, as lem branças infantis não

emergi-ram, com o as pessoas costum am dizer; elas foram formadas nessa época.” ( FREUD,

1899/ 1996, p.304, grifos do autor)

Tal form ulação m ostra que não há um a correspondência dos traços inscritos com um a experiência infantil supostam ente anterior. A volta ao passado é feita a partir de traços que surgem no m om ento dessa volta.

Essa concepção freudiana da m em ória abre a possibilidade de tom ar a insti-tuição da lei com o um a escrita cuja letra é rasura de um traço que não tinha existência anterior, ou seja, torna-se possível prescindir da anterioridade do as-sassinato.

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significante. Dessa form a, esse ato crim inoso não pode existir com o puro ato, m as som ente com o efeito da lei significante.

Quando form ula o m ito do assassinato do pai prim evo, Freud não tem ainda a equivalência entre os atos e as intenções que ele lê em Dostoiévski e atribui, m ais tarde, ao conceito de supereu. Nesse m om ento, ele necessita de um ato que possa explicar a fantasia de expiação da culpabilidade que se constrói em torno da herança arcaica transm itida ao longo das gerações. E é devido a um retorno do am or, ou seja, ao rem orso pelo ato parricida que a lei pode se estabelecer.

A junção entre as duas narrativas m íticas, observa Doris Rinaldi ( 1996) , entre o Édipo de Sófocles e as elaborações de Totem e tabu, perm itiu que Lacan estabeleces-se um a articulação entre o pai m orto e o gozo, para além do Édipo. É necessária um a subtração de gozo a todo ser falante. O que Lacan extrai dessas form ulações freudianas é que o pai, com o função sim bólica, é um organizador da pulsão, é um a necessidade lógica que ordena o cam po da realidade na neurose. Para que a castração seja universal é necessário esse ao menos um não castrado representado pela figura do pai m ítico.

Freud se depara, em Totem e tabu, com três versões do pai: na form a do anim al totêm ico que é devorado cru, em um a reedição do crim e prim ordial, em que o pai com o m orto é incorporado, e desse ato decorre o surgim ento de um a culpa universal com um a todos os irm ãos; com o Deus onipotente, que oferece am paro e proteção aos filhos; e, finalm ente, na form a de um resíduo do pai m orto incor-porado, que se apresenta com o algo desconhecido ligado a um a culpa sangüínea (Blutschuld) , m uda, que será nom eada, em Reflexões para os tempos de guerra e morte (1915a/ 1996) , de culpa arcaica (Urschuld) . Trata-se do pior do pai, que dem anda o casti-go, na form a do sacrifício presente no sintom a neurótico. O sacrifício se relaci-ona, em últim a instância, a um a tentativa de apaziguar o pior do pai: sua face feroz e cruel.

SUPEREU, LINGUAGEM E PULSÃO DE MORTE

Esse resto do pai m orto que retorna com o exigência de sacrifício será form aliza-do em 1923, com o conceito de supereu. O rem orso aliza-dos filhos pela m orte aliza-do pai que surge com a corrente afetiva, devido à presença do am or, coincide, no m ito, com o sentim ento de culpa. A partir de 1929, quando Freud já atribui o senti-m ento de culpa ao supereu, as intenções passasenti-m a equivaler aos atos, pois o supereu não diferencia um a ação realizada de um desejo de realizá-la.

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freudiano com o censura opõe-se ao desejo inconsciente e m ostra a precariedade da lei edipiana. Ela se m anifesta com o patogenia da lei, na m edida que pode deixar de ser reguladora e se voltar contra o sujeito, im pondo-lhe exigências insaciáveis.

Em O m al- estar na civilização ( 1929a/ 1987) , Freud busca entender com o a culpa pode se produzir sem o ato. Nesse texto, ele problem atiza o papel do supereu, perguntando-se por que, para essa instância, um a intenção equivale a um ato. Na versão do m ito do assassinato do pai prim evo, a culpa surgiu com o retorno do am or, com o rem orso dos filhos pelo crim e contra o pai. Nesse caso, o rem orso se deve a um a ação que foi praticada. Com o estabelecim ento do supereu, entretanto, m atar ou não m atar o pai não faz diferença, pois em am bos os casos a culpa se produz. Esse fato de a culpa se produzir inevitavel-m ente inevitavel-m ostra a Freud que o que está einevitavel-m jogo não é uinevitavel-m a siinevitavel-m ples ainevitavel-m bivalência para com o pai, m as um conflito m ais radical entre Eros e pulsão de m orte, determ inando um a am bigüidade fundam ental da instância paterna. Se no âm -bito do m ito, a am bivalência está na base do ato de que resulta o pai m orto, na dim ensão desse conflito radical determ inado pela ação da pulsão de m orte, as intenções valem com o atos, por estarem subm etidas ao crivo de um a instância paradoxal que se alim enta da culpabilidade. O conceito de supereu, por se vincular à pulsão de m orte e por ser inseparável das form ulações de Freud sobre a linguagem , perm ite problem atizar a anterioridade do ato que conduz ao rem orso, o qual, por sua vez, fundam enta a lei.

O supereu aparece, nesse texto, com o um a instância paradoxal que exige a renúncia à pulsão e se satisfaz com isso. A renúncia à pulsão de m orte retorna então ao eu sob a form a de culpabilidade, que o supereu se em penha em alim en-tar. Ele ordena a recuperação do gozo perdido, exigindo, de form a insaciável, sacrifícios sem pre m aiores. Mas, o gozo perdido é im possível de ser recuperado e, portanto, seus m andam entos são im possíveis de serem cum pridos.

Com a incorporação da lei a distinção entre um “dentro” e um “fora” se extin-gue. Quando a autoridade está fora do sujeito, ele pode praticar ações crim inosas e se esconder, pois aquilo que o outro não vê, ele não sabe. Mas, com o estabeleci-m ento do supereu, não há coestabeleci-m o esconder as ações, taestabeleci-m pouco as intenções.

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por sua vez, é fruto de um a identificação não com os pais, m as com o supereu deles. Ele retém dos pais a função proibidora e punitiva.

A identificação prim ária ao pai constitui o ideal do eu no qual o sujeito se aliena. Mas dessa operação resta um a parte não assim ilada, ligada à pulsão de m orte: o supereu. Trata-se de um excedente pulsional que se separa do sujeito, sendo excluído pela via de um a rejeição. A ação de rejeitar (werfen) o elem ento intolerável que causa desprazer, tratada por Freud em A negativa ( 1925/ 1987) , perm ite pensar a constituição da realidade, assim com o o destino do que resta não assim ilado do pai. Esse resto rejeitado instaura-se na falha do recalque, afe-tando o sujeito sob a form a estritam ente singular de seu sintom a.

O supereu, na m edida que se vincula à pulsão de m orte, corresponde a um lim ite da possibilidade de rem em oração, apresentando-se com o um obstáculo irredutível à elaboração de saber na análise. Ele se form a a partir dos restos da palavra (W ortreste) que passam a com andar, de form a m uda e im perativa, o sujeito ( FREUD, 1923/ 1987) .

Lacan, no sem inário A ética da psicanálise ( 1959-1960/ 1988) , m ostra que en-quanto a im agem do pai ideal se m antém inabalada, a crueldade do supereu é perpetuada. O am or ao pai sustenta a im agem do pai ideal que aparece aos filhos com o onipotente. Esse pai ideal é tam bém um privador, pois ele pode coisas que os filhos não podem , privando-os de serem com o gostariam . Com a incorpora-ção da autoridade paterna, o supereu assum e o ódio que deveria se dirigir ao pai privador. Essa recrim inação contra o pai só term ina com a elaboração do luto da am bivalência. O ódio e a crueldade assum idos pelo supereu, os quais têm com o sustentação o am or ao pai ideal, podem então cessar. Com esse trabalho de elabo-ração possibilitado pela análise, o sujeito pode constatar que não se trata de um a im potência do pai para organizar toda a pulsão, m as de um a im possibilidade que lhe é inerente.

A separação entre o ideal do eu e a voz do supereu perm ite que o sujeito se depare com essa satisfação singular que lhe é própria. A prom essa de satisfação universal que o ideal do eu com porta não se cum pre. Ódio, idealização e am or são form as de encobrir a inconsistência paterna, perm itindo que o sujeito evite se deparar com o desam paro.

A ES CRITA DO PAI NO MOIS ÉS

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com um a força irredutível. Freud se surpreende com o fato de que certos preceitos da tradição não se enfraquecem com o passar do tem po, m as, antes, tornam -se m ais poderosos, exercendo influência sobre o pensam ento e as ações de um povo. Essa con stru ção textu al preten de dar con ta de com o a in flu ên cia do m onoteísm o, cuja origem ele considera egípcia, entrou em operação engen-drando o m onoteísm o judaico.

Podem os perguntar até que ponto Freud chega com sua teoria do pai nesse texto e se a escritura aí tecida não apagaria a am bigüidade radical do pai que aparecera nos textos anteriores. Nesse sentido, os traços de Javé — o Deus incon-sistente do qual Lacan fala no sem inário sobre A ética da psicanálise ( 1959-1960/ 1988) , cuja voz sai da sarça dizendo: “sou o que sou” — são apagados para darem lugar à sublim idade de Deus-Pai, que retorna com o um sintom a. A subli-m idade do deus subli-m osaico, que aparece sobretudo na rejeição das representações, im plica que a representação de Deus se dará som ente sob a form a de sua lei escrita. A representação pela im agem é interditada e seu nom e perm anece um furo da própria representação, pois o nom e de Deus é im pronunciável, indican-do um lim ite da linguagem . Mas, isso não im pede, com o observa Ram Mandil ( 1 9 9 9 ) , qu e ele seja captado pela escr ita, n o tetragram a sagrado ‘JHW H’, condensação significante pura do “sou o que sou”.

Quando Freud trata da renúncia à pulsão (Triebverzicht) no final do Moisés, essa renúncia não representa m ais um alim ento para a culpabilidade; ela im plica, ao contrário, um aum ento da confiança em si e na vida. Com o assinala Balm ès ( 1997) , além da prova de que o povo judeu foi escolhido por Deus, a religião de Moisés trouxe algo m ais a esse povo: a idéia de um Deus m ais grandioso. Crer nesse Deus im plica participar de sua grandiosidade. Assim , se por um lado Freud, no Moisés, toca o pai sim bólico, por outro lado, o supereu aparece aí em referên-cia ao caráter sublim e do deus m osaico. Seria então possível afirm ar que o supereu perdeu as características que lhe em presta a sua estreita vinculação com a pulsão de m orte?

Parece provável que não, pois Freud já nos dera elem entos em outros textos para considerarm os que o supereu encontra-se aqui novam ente m esclado ao ideal do eu. Em Os instintos e suas vicissitudes ( 1915b/ 1996) , ele perm itira separar o registro do am or, ligado ao ideal do eu, do registro pulsional. Nesse sentido, ele relaciona o orgulho do povo judeu — pela consciência de m erecer o am or de Deus-Pai — ao narcisism o, pois esse orgulho surge em referência a um Deus que fora elevado a um ideal de perfeição ética. Por outro lado, há um ganho de satisfação decorrente da renúncia pulsional, apontando para o fator quantitativo que se liga ao supereu.

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per-m itindo a sua leitura. Conforper-m e aponta Solal Rabinovitch ( 1997) , coper-m a cons-trução do Moisés, Freud faz funcionar o intervalo entre a palavra e o escrito, no qual viu operar a falsificação da letra bíblica e onde situa o segundo assassinato com o colocação em ato (Agieren) do assassinato prim evo. O segundo assassinato, o de Moisés, irá sustentar, de acordo com Freud, o desm entido (Verleugnung) do assassinato prim evo, a atuação aparecendo no lugar da rem em oração.

Essa concepção de escrita presente no texto em referência m ostra, portanto, a letra, na m edida que ela se escreve com o apagam ento dos traços. O texto bíblico deform ara, por exem plo, o fato de que o costum e da circuncisão se originara no Egito. A circuncisão é, pois, a m arca, inscrita no corpo, da origem estrangeira ( egípcia) do m onoteísm o judeu que fora desm entida.9 O saber é escrito com a deform ação (Entstellung) do texto, com suas lacunas e om issões. Freud lê tam bém , no texto bíblico, sinais de esforços que visam negar que Javé fosse um novo deus, estrangeiro aos judeus. A deform ação do texto abre espaço para Javé, glorifican-do-o. Ele recebe então, injustam ente, as honras que segundo Freud deveriam ser atribuídas a Moisés. Nesse sentido, Freud opera a escrita de um a fratura, incluin-do algo de estrangeiro, de estranho, no m onoteísm o e m antém , dessa form a, a am bigüidade do pai.

Miller ( 1998) observa que o inconsciente freudiano é “gram ática”, só se revelando na linguagem com a escritura e não com a palavra. A palavra, sendo regulada pela audição, só capta seu referente, o gozo, de form a lateral. A escritu-ra, por outro lado, dá acesso direto ao referente. A palavescritu-ra, na m edida que tem efeitos de significação, é com preendida. A escritura, por sua vez, é lida, perm i-tindo que se tenha acesso direto à linguagem fora do sentido, ao gozo.

Para Rabinovitch ( 1997) , o desm entido do assassinato prim evo, ao se fixar na letra do texto, funda o real desse assassinato. Essa seria um a form a de resposta à pergunta de Freud sobre a transm issão feita em Totem e tabu. A herança arcaica que acom panha a lei fora preservada com o escritura, transm itindo-se pela letra. De acordo com a nova causalidade instaurada por Freud, torna-se possível presu-m ir que é do saber escrito copresu-m a deforpresu-m ação que se destaca, no a posteriori, o assassinato com o anterior. Não se trata, portanto, de rastrear as pistas de um a verdade a ser reencontrada.

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A LEI É INS EPARÁVEL DO RESTO

É a voz do supereu, resto da palavra ouvida, que se instaura no vazio da falha do pai, convocando à obediência. Nesse sentido, Lacan ( 1955-1956/ 1985) esclare-ce que ouvir, em últim a instância, não é m ais que obedeesclare-cer. A obediência adiada é tam bém um a resposta com pulsiva ao supereu, cuja voz retorna conclam ando à expiação da culpa.

Essa voz insaciável do supereu pode ser ilustrada pela voz do líder que produz um estranho efeito sobre as m assas, as quais são capazes de obedecê-lo cegam en-te e de form a incondicional. Slavoj Zizek, em seu artigo A voz na diferença sexual

( 1995) , lem bra a figura de Hitler, cuja voz age com o pura enunciação destituída de significação. O efeito hipnotizante de sua fala vem expor que não im porta o conteúdo do que ele diz, m as apenas a sua vontade incondicional que se faz presente com o voz. Todo o acento recai, assim , sobre a sua vontade com o tal, em detrim ento do conteúdo da fala que rem onta à significação.

É exem plar, nesse sentido, a obediência cega de Eichm ann, o carrasco nazista, à vontade do Führer, levando-o a transform ar o im perativo categórico de Kant na m áxim a: “age de tal m aneira que se o Führer soubesse da sua ação a aprovaria” ( ARENDT, 1983, p.149) . No universo do totalitarism o só havia um a certeza: a vontade do líder. Mas, a vontade, sendo desprovida de quaisquer regras, é abso-lutam ente arbitrária.

Hannah Arendt ( 1983) observa que Eichm ann jam ais chegou a com preender as suas próprias ações, apesar de ter sido declarado “um hom em norm al” pelos psiquiatras que o exam inaram . Sua obediência cega à vontade do líder levou-o a exigir dos prisioneiros dos cam pos de concentração um a “obediência de cadáve-res” (kadavergehorsam) . O totalitarism o produziu hom ens incapazes de pensar, que som ente obedeciam às ordens do Führer. Conform e observa Nádia Souki ( 1998) , a ordem do líder que exprim ia sua vontade era, assim , confundida com a lei.

Que a voz do líder subtraída de toda significação possa exprim ir sua vontade incondicional, isso não significa absolutam ente que ela coincida com a lei. Essa confusão feita pelo carrasco nazista aponta, entretanto, para o fato de que lei e resto cam inham juntos. O resto da palavra ouvida que constitui a voz do supereu, sendo inseparável da lei, teria então um a função? Seria esse resto necessário para que a lei possa operar?

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isso m esm o, é rejeitado, forcluído. Em A negativa, Freud m ostra que a realidade só pode se constituir sobre o fundo de um a perda, pois o eu tende a rejeitar (werfen),10 através da expulsão (Außtossung) , tudo aquilo que lhe causa desprazer ou que lhe é estranho. Assim , a lei que aceitam os com o algo dado desde sem pre retém sua eficácia perform ativa justam ente de sua origem ilegal.

Lei e gozo são, dessa form a, term os inseparáveis e essenciais para que se possa dar conta da função estruturante do pai na psicanálise. O pai m orto é um operador que perm ite o esvaziam ento de gozo necessário à constituição do su-jeito. Mas Freud m ostra, com o conceito de supereu, que essa renúncia é tam bém um a form a de satisfação: ela não é jam ais apenas um assassinato do gozo. Fazer aparecer essa dim ensão do gozo do pai im plica reconhecê-lo com o um artifício, com o um sem blante.

FINALIZANDO...

Para finalizar, retom em os a relação de Freud com o escritor russo. A linha de avanço do recalcam ento, em que Freud situa Édipo rei e Hamlet, interrom pe-se com o texto de Dostoiévski, com a exposição do gozo situado do lado do pai. Nesse sentido, pode-se identificar um recuo de Freud frente ao texto de Dostoiévski. Ele chega a dizer a Reik:

“Você tem razão, tam bém , em desconfiar de que, a despeito de toda m inha adm ira-ção pela intensidade e preem inência de Dostoiévski, de fato não gosto dele. Isso se deve a que m inha paciência com as naturezas patológicas está exaurida na análise. Na arte e na vida, não as tolero. Trata-se de traços caracterológicos que m e são pessoais e

não obrigam a outros.” ( FREUD, 1929b/ 1987, p.200)

Por outro lado, Freud, nessa m esm a carta, identifica um desam paro do escri-tor russo frente às m anifestações do am or. Diante da experiência dispersiva do desam paro, Dostoiévski recorre a Deus com o única norm a capaz de regular a relação entre os hom ens. Am ar a Deus torna-se, pois, um im perativo para que a hum anidade não pereça com o tal. Para Dostoiévski, Deus é necessário para lim i-tar a vontade de satisfação irrefreável do hom em que é capaz de destruí-lo. Freud m ostra, entretanto, que a não-existência de Deus resulta justam ente em um re-forço da interdição à satisfação, a qual corresponde, em últim a instância, a um a im possibilidade que é constitutiva do ser falante com o tal.

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A proposta obscena de que tudo seja permitido pode ser atribuída à voz do supereu. Entretanto, essa proposta não se cum pre pelo fato de serm os seres de linguagem . A linguagem abre o cam po do gozo, m as este só pode se produzir precariam ente, sob a form a do sacrifício do sintom a e do m asoquism o ( MILLOT, 1989) . Assim , a satisfação jam ais é absoluta com o dem anda o supereu. O objeto é sem pre ina-dequado à satisfação, perm anecendo com o perda, resto jam ais atingido no cir-cuito da pulsão.

O assassinato do pai não abriu a via do gozo, porque esta via esteve sem pre interditada por um a falha inerente ao pai ( LACAN, 1969-1970/ 1992) . A dívida do pai é im possível de ser saldada, porque o pior de seus pecados é a sua inexistência, com o fundam ento da lei que regula o desejo. O m al-estar é, portan-to, um saldo negativo que acom panha o ser falante. Dado que o m al-estar é inerente, a clínica psicanalítica surge com o um a possibilidade que se abre, para o sujeito, de m udança na sua relação com o excedente pulsional que, de form a m uda, rege os seus im passes diante do pai, determ inando a covardia de sua posição fantasm ática.

A fantasia se constrói em torno da herança arcaica. O resto vivo do pai conclam a à expiação da culpa, dando consistência à fantasia de expiação. O herói que se desprende do texto de Freud, exem plificado por Dim itri Karam ázovi, é alguém que sobrepujou o poder do pai. Ele pretende ultrapassar o pai, m as essa ultrapas-sagem não é referida a um trabalho de luto. Trata-se, em últim a instância, de um a produção fantasm ática que coloca em jogo um a form a de satisfação desarticula-da do desejo e desarticula-da lei. Essa liberação desarticula-da determ inação paterna que se faz presente na fantasia não é possível no sentido em que a ordenação da pulsão pelo pai é necessária para que o sujeito se inscreva em um a realidade com partilhada. Entre-tanto, o texto freudiano m ostra que essa ordenação jam ais é com pleta e que o sujeito encarna o resto dessa operação, extraindo daí um a satisfação. Ele se vê, assim , frente ao desafio de liberar-se de seu em penho em recom por o pai, ser-vindo-se dele sem , no entanto, servir a ele. Essa é, aliás, a única form a de libera-ção que o texto freudiano m ostra ser possível pelo trabalho da análise — já que não é possível um a liberação da culpa — e que pode ter efeitos decisivos.

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REFERÊNCIAS

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