• Nenhum resultado encontrado

São José do Rio Pardo e sua revolta republicana

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2017

Share "São José do Rio Pardo e sua revolta republicana"

Copied!
234
0
0

Texto

(1)

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS

CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL – CPDOC

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS

DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS

SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E SUA REVOLTA REPUBLICANA

APRESENTADA POR

Liliane Faria Corrêa Pinto

(2)

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS

CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL – CPDOC

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS

DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS

PROFESSOR ORIENTADOR ACADÊMICO: Marieta de Morais Ferreira

LILIANE FARIA CORRÊA PINTO

SÃO JOSÉ DO RIO PARDO E SUA REVOLTA REPUBLICANA

Tese de Doutorado apresentada ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC como requisito parcial para a obtenção do grau de

Doutor em História, Política e Bens Culturais.

(3)

Pinto, Liliane Faria Corrêa

São José do Rio Pardo e sua revolta republicana / Liliane Faria Corrêa Pinto. – 2014.

232 f.

Tese (doutorado) – Centro de Pesquisa e Documentação de História

Contemporânea do Brasil, Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais.

Orientadora: Marieta de Moraes Ferreira. Inclui bibliografia.

1. Brasil – História – Proclamação da República, 1889. 2. São José do Rio Pardo (SP) – História. I. Ferreira, Marieta de Moraes. II. Centro de Pesquisa e

Documentação de História Contemporânea do Brasil. Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais. III. Título.

(4)

iliane Faria Corrêa Pinto

São José do Rio Pardo e sua Revolta Republicana

Tese de Doutorado apresentada ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutor em História, Política e Bens Culturais.

Data da defesa: Aprovada em:

ASSINATURA DOS MEMBROS DA BANCA EXAMINADORA

______________________________________________ Marieta de Morais Ferreira - Orientadora

____________________________________________

(Nome do Professor)

_______________________________________________

(Nome do Professor)

____________________________________________

(Nome do Professor)

____________________________________________

(5)

Dedicatória,

(6)

Agradecimentos

Ao papai, que já não está mais entre nós, pelo apoio, incentivo, companheirismo nas discussões, nas pesquisas e nas viagens a São Paulo, à mamãe e ao Luciano, pelo amor, carinho e incentivo que me possibilitaram chegar até aqui, ao Ricardo pelo amor, paciência, compreensão, atenção, apoio e incentivo, ao Seu Ricardo, D. Lena, Bruna e Lívia pelo apoio nos momentos difíceis de 2013 e 2014, ao Victor e ao Ítalo pelos comentários e incentivos que me reanimaram, ao Ricardo Bíscaro que criou a campanha

“Vamos fazer a Lili rir” e me forneceu a frase perfeita para começar a escrever “Era

uma vez...”, só para me animar nos dias de tristeza de 2013 e 2014; à Marieta pela

(7)

Resumo

A tese analisa a revolta republicana que ocorreu em São José do Rio Pardo em agosto de 1889. Para isso, estudamos a formação econômica e política da localidade. No aspecto econômico, identificamos a cidade com a região de produção cafeeira e, no político, os grupos que comandavam São José do rio Pardo. Analisamos a sociedade riopardense e os grupos que a compunham para compreender as relações entre eles e o desenvolver da revolta. Discutimos as fontes e as várias versões da revolta, bem como sua repercussão em São Paulo.

(8)

Abstract

The dissertation analyzes the Republican revolt that took place in São José do Rio Pardo in August 1889. For that, we studied the economic and political formation of the locality of São José do Rio Pardo. In the economic aspect, we identified the city with the coffee producing region and, in the politically aspect, we analyzed the groups who led Sao Jose do Rio Pardo. We studied the Riopardense society and the groups that composed it to understand the relationships between them and the developing of the revolt. We discuss the sources and the various versions of the revolt and its repercussions in São Paulo.

(9)

Índice de Tabelas, Gráficos e Mapas

Tabela 1 33

Quadro 1 34

Mapa 1 52

Mapa 2 52

Mapa 3 53

Mapa 4 53

Mapa 5 56

Quadro 2 58

Tabela 2 61

Mapa 6 61

Quadro 3 62

Quadro 4 63

Quadro 5 64

Gráfico 1 65

Gráfico 2 75

Gráfico 3 76

Quadro 6 100

Lista 1 139

Lista 2 155

Lista 3 160

(10)

Siglas

APM Arquivo Público Mineiro

FGV Fundação Getúlio Vargas

(11)

Índice

Índice 11

Introdução 12

1 São José do Rio Pardo: formação econômica e política 31

1.1 Formação política e emancipação 31

1.2 Formação econômica: o café e a terra 50

2 A sociedade riopardense 68

2.1 A formação da sociedade de São José do Rio Pardo 70

2.2 Negros e pardos em São José do Rio Pardo 78

2.3 Imigrantes italianos em São José do Rio Pardo 90

2.4 Mineiros e paulistas em São José do Rio Pardo 97

2.5 Os policiais 109

3 A revolta de São José do Rio Pardo 114

3.1 A versão republicana da revolta 123

3.2 A versão liberal da revolta 150

3.3 Refletindo sobre a revolta 173

3.3.1 Os policiais e liberais 173

3.3.2 Os italianos 177

3.3.3 Os fazendeiros, comerciantes, doutores e políticos republicanos 178

4 As ideias republicanas 181

4.1 O conflito entre republicanos e liberais 191

4.2 As visões de povo na revolta republicana 201

5 Considerações finais 215

6 Bibliografia 217

6.1 Fontes Primárias 217

6.2 Sites 221

6.3 Fontes secundárias 222

7 Anexos 234

(12)

São José do Rio Pardo e sua Revolta Republicana

Introdução

O objetivo desta tese é analisar a revolta republicana que aconteceu em São José do Rio Pardo – SP, em agosto de 1889. Tomando como ponto de partida esse evento, acreditamos poder mapear as lutas políticas travadas na região, enfatizando a ação dos diferentes grupos sociais que disputavam o poder político local, defendendo diferentes projetos políticos, liberal ou republicano.

São José do Rio Pardo é uma localidade no oeste paulista que tinha como atividade principal a produção cafeeira, composta por fazendas de pequeno, médio e grande porte. Foi formada por migrantes, em sua maioria, de origem mineira, escravos e ex-cativos e imigrantes italianos envolvidos com a cafeicultura ou em atividades urbanas de serviços. Um conflito entre monarquistas liberais e republicanos permeava a vida política da cidade na década de 1880. Ele teve início, ao que tudo indica, em 1887, com uma aliança entre ambos para a elevação da localidade à vila e, em seguida, com a traição dos liberais, que assumiram a Câmara sem o revezamento proposto pelo acordo celebrado verbalmente pelos dois grupos. No dia 24 de junho de 1889, o Dr. Fortunado dos Santos Moreira, candidato liberal às eleições a deputado geral, que aconteceriam em 31 de agosto daquele ano, chegou à cidade. Naquele dia, os republicanos fizeram uma série de afrontas aos seus inimigos políticos. Cantaram a marselhesa pelas ruas e estenderam bandeiras republicanas nas janelas dos vagões do trem.

(13)

proprietário e empregados da hospedagem e, ao chegar lá, tocou o sino chamando os praças que, reunidos e sob o comando do subdelegado, atacaram o hotel com pedras e pauladas.

Os republicanos se esconderam na casa de Honório Luís Dias e chamaram outros companheiros, como Manoel Corrêa de Souza Lima, José Antônio de Lima, Antônio Corrêa de Souza, que trouxeram entre 300 e 400 homens armados para controlar os praças liberais e tomar a cidade. Assim foi feito e São José do Rio Pardo foi proclamada como república, com o hasteamento da bandeira republicana nos edifícios públicos.

No dia seguinte, culparam o liberal capitão Saturnino Flauzino Barbosa pelo ataque e buscaram-no em sua casa. Ele fugiu, foi perseguido, preso e levado ao palacete de Honório Dias pelos republicanos. O delegado de Casa Branca foi chamado e, na parte da tarde, a revolta foi apaziguada. Porém, alguns dias depois, o conflito ainda persistia e notas eram lançadas nos jornais em repúdio às agressividades dos praças que continuavam a afligir os republicanos.

(14)

No passado a história política passou por um processo de

desvalorização, acusada de exaltar grandes personagens e de “negligenciar as massas”1.

Réne Rémond afirma que

Havia chegado a hora de passar da história dos tronos e das dominações para a dos povos e das sociedades. Quanto aos historiadores que tivessem a fraqueza de ainda se interessar pelo político, e praticar essa história superada, fariam o papel de retardatários, uma espécie em via de desaparecimento, condenada à extinção, na medida em que as novas orientações prevalecessem na pesquisa e no ensino.2

Porém, um retorno à história política se deu com a retomada desses temas pelos historiadores, que evitaram análises reducionistas e buscaram relacionar outros aspectos da cultura e sociedade com a política. De acordo com Marieta de Moraes Ferreira (2003), além da mudança de enfoque, esses historiadores buscaram uma interlocução com outros campos disciplinares, o que explica a renovação nas análises e o retorno aos temas políticos.3

Nossa pesquisa se aproxima de uma abordagem da história política, mas em menor escala. Numa tentativa de conhecer as relações existentes em São José do Rio Pardo, durante sua revolta republicana, com a política local e a regional, a economia e a sociedade do oeste paulista, associaremos a história política à social e econômica e à antropologia. Diante disso, confrontaremos a literatura a respeito da região com a experiência de revolta republicana, atingindo novas leituras para a história daquela área da província.

Os estudos acerca do oeste paulista e seus cafeicultores, em geral, afirmam que os fazendeiros de café daquela província eram grandes proprietários, republicanos, e adotavam uma leitura federalista de cunho estadunidense para a

1

FERREIRA, Marieta de Moraes. Apresentação. In.: RÉMOND, Réne (org). Por uma história política. Trad. Dora Rocha. 2. Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003, p. 5-8.

2

RÉMOND, Réne. Uma história presente. In.: RÉMOND, Réne (org), op. cit., 2003, p. 18-19.

3

(15)

república.4 Eles seriam, em sua maioria, de tendências descentralizadoras ou separatistas, por acreditarem que São Paulo era autossuficiente economicamente e não deveria sustentar outros estados. Para alguns historiadores, esses produtores de café estavam, acima de tudo, preocupados com seus interesses econômicos e a política, as relações com os governos, tinha um papel menor em suas vidas.5 Sandra Lúcia Lima afirma que os cafeicultores do oeste paulista não deixaram suas divergências de cunho político influenciarem nas decisões e empreitadas econômicas, agindo com empreendedorismo perante as questões relativas à cafeicultura.6 Segundo Caselecchi e Lima, esses fazendeiros exerciam pouca influência no Império e não conseguiam resolver ou atingir as metas progressistas que desejavam com o apoio do Estado, como a vinda de mão de obra estrangeira e o transporte ferroviário, e, assim, resolviam suas questões reunindo-se independente da opção política.7

Nesse quadro muito específico, a pesquisa visa testar a conformação política dos cafeicultores paulistas, a partir daqueles de São José do Rio Pardo, de pequeno, médio e grande porte, que atuavam juntos na cidade e produziam café para o mercado externo. A pesquisa pretende mostrar, também, a partir da revolta republicana, que os fazendeiros de São José do Rio Pardo eram republicanos com tendências radicais e travavam forte conflito com liberais pela política local, que também se refletia nas campanhas eleitorais em âmbito estadual e, possivelmente, federal. Nossa tese intenciona demonstrar que esse conflito afetava as questões econômicas, aumentando as discussões e interferindo nos processos financeiros, porém, não impedia os arranjos

4

Essa leitura para o republicanismo se aproxima do republicanismo norte americano criado pelos federalistas dos Estados Unidos no seu processo revolucionário da independência. È importante ressaltar que os federalistas estadunidenses eram centralizadores, diferente do que ocorreu no Brasil.

5

LIMA, Sandra Lúcia Lopes. O oeste paulista e a república. São Paulo: Vértice, 1986; CASALECCHI, José Ênio. O partido republicano paulista: política e poder (1889-1926). São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

6

LIMA, op. cit., 1986;

7

(16)

necessários para o desenvolvimento das ferrovias e da vinda de mão de obra imigrante para a lavoura.

Outro aspecto que envolve a nossa pesquisa são as mutuais8, pois havia um exemplar desse tipo de sociedade em São José do Rio Pardo, a Società de Mutuo Soccorso XX Septembre.9 Os estudos acerca do mutualismo no Brasil imperial e republicano apontam para a isenção política das mútuas e, muitas vezes, de seus membros. O presidente da Società de Mutuo Soccorso XX Septembre orientava os associados a se absterem de comentários políticos, confirmando as análises acerca dessas associações e seus sócios. Por outro lado, demonstramos que muitos dos italianos optaram pelos republicanos e participaram do protesto no dia da chegada do candidato liberal e da revolta, contradizendo as diretrizes da própria sociedade. Nossa hipótese é que a mútua, por meio de sua diretoria, realmente não tomaria partido, mas seus integrantes teriam feito escolhas políticas e teriam se posicionado perante o conflito.

José Murilo de Carvalho afirma que o povo não era apático, apenas reagia quando lhe convinha, quando o governo afetava diretamente suas vidas.10 Por outro lado, em São José do Rio Pardo, o conflito era visível no cotidiano da cidade e não havia como desconhecer as disputas e suas implicações práticas. Assim, as 300 ou 400 pessoas que participaram da revolta fizeram uma escolha pelo grupo que as liderava, sugerindo uma participação popular. A disputa entre republicanos e liberais distinguia os dois agrupamentos, o que também diferenciava suas opções políticas, possibilitando uma noção entre um grupo e outro e uma escolha entre lideranças e doutrinas.

8

As mútuas são sociedades sem fins lucrativos com objetivos de assistência mútua entre os associados.

9

Sociedade de Mútuo Socorro XX de Setembro (tradução nossa).

10

(17)

Durante a pesquisa, optamos por nos aproximarmos da micro-história e seus pressupostos básicos, apesar de nem sempre conseguirmos obter análises favoráveis no contexto da micro-história. Nossa análise foca em um determinado lugar e um processo, o estudo de uma revolta que fracassou e tornou-se esquecida na história, a não ser pelos riopardenses, e busca um olhar do micro para o macro, na tentativa de escrever uma nova versão para a história do oeste de São Paulo. A redução da escala é para o historiador da micro-análise uma forma de experimentação dos conceitos oferecidos pela história macro e uma possibilidade de perceber elementos, fatores e condutas que seriam impossíveis de se observar em um estudo em escala maior. Esse recurso pretende aumentar a complexidade da observação para questionar e verificar o que é comumente afirmado sobre um determinado objeto.

Para Giovanni Levi, a micro-história é um conjunto de procedimentos diversos e nem sempre coerentes que se desenvolveu como uma “reação” à “crise” das ciências humanas, ocorrida nas décadas de 1970 e 198011. Segundo ele,

Havia, contudo, várias reações possíveis para a crise, e a micro-história em si nada mais é que uma gama de possíveis respostas que enfatizam a redefinição de conceitos e uma análise aprofundada dos instrumentos e métodos existentes. Ao mesmo tempo, têm havido outras soluções propostas, absolutamente mais drásticas, que com freqüência desviam para um relativismo desesperado, para o neo-idealismo ou mesmo para o retorno a uma filosofia repleta de irracionalidade.12

Para ele, a definição de micro-história não se relaciona apenas às

microdimensões de seu objeto de estudo”13, mas aos métodos de trabalho do

historiador. A micro-dimensão sem uma detalhada análise documental não indica um trabalho de micro-história. E a redução da escala não significa, necessariamente, a

11

LEVI, op. cit., 1992.

12

Idem, p. 135.

13

(18)

mudança na dimensão do objeto, mas “um procedimento analítico, que pode ser

aplicado em qualquer lugar”14.

Jacques Revel, ao discutir a “abordagem micro-histórica”15, concorda

com Giovanni Levi na afirmativa de que a micro-história não é uma escola e nem possui um texto teórico fundador. Para ele, há quatro elementos comuns entre os diversos trabalhos de micro-história. O primeiro é a “redefinição dos pressupostos da análise sócio-histórica”16 que se fundamenta numa contraposição ao método da história social ao olhar de maneira mais minuciosa para um ponto específico da história, uma vila, um processo, uma vida, e tentar, a partir desse ponto, expandir e alçar novos entendimentos. Enquanto a história cultural se volta para a compreensão de aspectos genéricos de um tema ou um período, como a história do riso, do amor, das mulheres etc., a micro-história se volta para uma modificação na escala da análise que muda a forma de observação e troca o foco do macro para o micro.

Nesse sentido, a história da revolta republicana de São José do Rio Pardo é uma oportunidade para fazer um estudo em micro-análise, modificando a escala e o foco. A partir dos elementos proporcionados pelas fontes, discutimos como funcionavam as relações conflituosas da política local e isso nos sugeriu como seriam outras localidades do oeste paulista. Outras pesquisas em menor escala poderiam salientar nossas descobertas e direcioná-las para os estudos em macro escala.

O segundo elemento apontado por Levi é a “redefinição de estratégia

social”, pela qual os estudos históricos se voltam para uma “postura decididamente

antifuncionalista”. As pesquisas procuram aqueles que não se destacaram nas

sociedades, os fracassados, e tentam descobrir possibilidades de existência e ação desses

14

Idem, p.137.

15

REVEL, Jacques. Microanálise e construção do social. In: REVEL, Jacques. Jogos de escala: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.

16

(19)

atores sociais, encontrando novas interpretações para o passado. Seguindo esse pressuposto da micro-análise, nossos atores eram pouco conhecidos e marginais na história do processo republicano, mas, ao nos depararmos com a revolta, descobrimos que o episódio repercutiu na política provincial e na propaganda republicana nacional, colocando-os no contexto geral.

O terceiro elemento é uma “redefinição da noção de contexto” em que o

historiador não partiria do contexto geral para analisar suas fontes, mas do micro para o

geral. Além disso, o contexto macro seria apenas uma “lembrança da multiplicidade

das experiências e das representações sociais.”17 Em São José do Rio Pardo, a experiência da revolta republicana é um dos exemplos dessa multiplicidade que compõe o contexto geral. Partimos dela para compreendermos o papel da revolta e seus atores na construção do processo republicano. Por outro lado, não deixamos de abordar a relação da revolta e da cidade com o ambiente econômico, social e político em que estava inserida. Assim, a redefinição de contexto proposta pela micro-análise proporcionou uma leitura diferente acerca da localidade e das relações entre os republicanos e os liberais no contexto geral já predefinido.

O quarto elemento é a mudança na “hierarquia dos níveis de

observação” que deixa de lado a diferenciação ou contraposição entre história global e

local para afirmar que a experiência individual é única e ao estudá-la produz-se uma

versão diferente” de análise histórica. Nesse caso, nossa pesquisa tratou da

individualidade da experiência riopardense estabelecida pela revolta republicana e construiu uma versão diferente da história de São José do Rio Pardo, contribuindo com um novo olhar para o oeste paulista.

17

(20)

Diante dessas premissas, direcionaremos nossa pesquisa numa tentativa de atingir os pressupostos definidos por Revel para a micro-história. São José do Rio Pardo e sua revolta serão observados em escala menor, os personagens estudados segundo suas estratégias, em um contexto que parte do micro para atingir o macro. Nesse sentido, elaboraremos uma história de São José do Rio Pardo, da revolta republicana e, a partir daí, tentaremos compreender a participação popular no episódio e como as ideias republicanas estavam difundidas entre os grupos revoltosos.

A localidade de São José do Rio Pardo nada tem de peculiar ou especial. Por outro lado, como afirma Giovanni Levi, “o princípio unificador de toda pesquisa micro-histórica é a crença em que a observação microscópica revelará fatores

previamente não observados.”18 Nesse sentido, ao observarmos São José do Rio Pardo em menor escala será possível perceber que sua peculiaridade estava presente no conflito político que ocorria entre liberais e republicanos, culminando com a revolta riopardense, tratada em narrativa no terceiro capítulo.

O primeiro capítulo da tese trata da formação política e econômica de São José do Rio Pardo. Seu objetivo foi introduzir o leitor no contexto geral em que estava inserida a cidade para trabalharmos o contexto local. Apesar da proposta de inverter a análise, partindo do micro para o macro, era importante situar a localidade na historiografia.

Descrevemos resumidamente o desenvolvimento da região do oeste paulista desde o século XVIII até o século XIX, com a chegada dos migrantes mineiros para o plantio das lavouras de café. O intuito é salientar a presença mineira, refletindo os dados observados pelas fontes e os retratados pelos autores dedicados a estudar o oeste de São Paulo. A chegada de entrantes mineiros e a exploração da terra para o

18

(21)

plantio do café modificaram a paisagem local e res-significaram a região.19 A construção da capela, do arruamento e emancipação da vila fizeram parte do processo de ocupação local pelos mineiros.

A atividade cafeeira migrou do vale do Paraíba fluminense e paulista para o oeste de São Paulo, cujas terras férteis atraíram novos investidores e proporcionaram boas safras. A ocupação dessa última área e seu desenvolvimento estão diretamente associados à cafeicultura paulista. Nesse sentido, traçamos um apanhado historiográfico sobre a economia cafeeira. A partir do norte elaborado por Ana Luiza Martins para a análise da historiografia do café no Brasil, estudamos as discussões que envolvem as questões da produção, da história da cafeicultura e do papel e impacto da produção da rubiácea na economia nacional.20 Para completar os estudos, analisamos os dados de produção cafeeira, impostos e população da cidade de São José do Rio Pardo, adotando os números referentes à região quando não dispúnhamos dos dados locais.

Nessas tabelas, quadros e gráficos, observamos a formação da região em função do aumento da produção local. Esses dados vêm corroborar com as informações da historiografia que discute a formação e o crescimento do oeste paulista em relação ao desenvolvimento da cafeicultura.21 Mais que isso, foi possível perceber que entre os grandes produtores de café havia, também, pequenos e médios proprietários que participavam dessa economia riopardense, em menor medida, e sofriam mais com as oscilações do mercado.

O segundo capítulo trata da sociedade rio-pardense, composta pelos

mineiros e paulistas “brancos” e livres, relacionados, sobretudo, à cafeicultura, e

19

MONBEIG, op. cit., 1984, LIMA, op. cit., 1986; CASALECCHI, op. cit., 1987.

20

MARTINS, Ana Luiza. Historiografia do café: sugestão de percurso. In: II Seminário de História do Café - História e Historiografia, 2. 2008, Itu. Anais... Itu, Museu Paulista, 2008. Disponível em < http://memoria.fundap.sp.gov.br/memoriapaulista/sites/default/files/publicacao/TEXTO_COMPLETO_A NA_LUIZA.pdf> Acesso em 01 set 2013.

21

(22)

também pelos negros e pardos, escravos e ex-escravos, vinculados aos senhores e padrinhos, pelos imigrantes colonos e urbanos, associados aos cafeicultores e aos serviços e, por fim, pelos praças e soldados, membros da corporação policial. Para estudarmos esses grupos sociais riopardenses, analisamos o contexto geral da crise do sistema escravista e da imigração, para contrapô-los ao contexto particular de São José do Rio Pardo, onde essas questões interferiram diretamente no cotidiano da cidade.

A crise do sistema escravista brasileiro, ocasionada pela proibição do tráfico internacional, pelas leis do ventre livre e dos sexagenários e, consequentemente, pelo encarecimento dos cativos e pelo crescimento do movimento republicano em todos os setores da sociedade, levou ao processo de imigração, que trouxe novos braços para a lavoura cafeeira. A imigração acrescentou mais um elemento para a sociedade, especialmente, a paulista, que recebeu a maioria dos imigrantes italianos e resultou na formação de novas relações sociais.

(23)

após o desenvolvimento e o estabelecimento da “nova história”, os historiadores que combateram a narrativa tradicional perceberam que as análises quantitativas ou de caráter econômico tinham a necessidade de um texto narrativo, constituindo-se assim,

o ressurgimento da narrativa”. Essa narração é construída sobre diferentes parâmetros

e são propostos cinco pontos inovadores. O primeiro deles são os textos que tratam das

vidas, sentimentos e comportamentos dos pobres e obscuros, ao invés dos grandes e

poderosos.”22 O segundo são os historiadores dessa nova narrativa que não

abandonaram os métodos da “nova história”. No terceiro ponto, esses trabalhos usam

novas fontes como documentos criminais, compostos por depoimentos que eram antes utilizados para análises quantitativas. O quarto ponto são as histórias narradas a partir da interdisciplinaridade com a psicologia e a antropologia, no uso de análises freudianas e significados simbólicos. Por fim, o último ponto sugerido por Stone é o alvo da narrativa, que são histórias de pessoas, eventos ou um episódio cujo objetivo é compreender a sociedade a partir daquele momento da história.

Diante desse retorno da narrativa, optamos por contar uma história da revolta republicana riopardense observando as diversas versões das testemunhas do inquérito policial usado como fonte e as possibilidades de contraposição entre as informações fornecidas pelos depoentes.23 O capítulo se fundamenta em suas falas fragmentadas e escolhas por mencionar determinados momentos específicos da revolta, as quais refletiam os interesses de cada grupo e de cada depoente. Durante a análise, apropriamos dessas estratégias de depoimento para compreendermos os objetivos desses grupos conflitantes e como se posicionavam as testemunhas.

22 STONE, Lawrence. “O ressurgimento da narrativa: reflexões sobre uma velha história”,

Revista de História, Campinas, 1991, n.º 2, pp. 12-27.

23

(24)

Utilizando as ferramentas disponíveis, a narrativa tentou inserir todos os elementos que pudessem contextualizar historicamente o período e a revolta. Após uma descrição dos movimentos dos personagens, os agrupamos para facilitar a compreensão: praças; italianos residentes das cidades e nas fazendas; líderes da revolta e personagens liberais. Analisamos o papel de cada um deles na revolta e o que poderia estar por trás de suas ações, constatando que havia realmente uma predileção pela república por parte das lideranças dos italianos, apesar da necessidade de não divulgá-la por causa da sociedade italiana, bem como uma aversão dos praças ao republicanismo.

O capítulo quatro, “As ideias republicanas e as visões de povo na revolta

republicana de São José do Rio Pardo”, trata das concepções de república no oeste de

São Paulo, a partir do Manifesto Republicano de 1870 e do conceito de “povo” na

historiografia e nas fontes acerca da revolta republicana riopardense. Analisamos, também, como os modelos de república e povo eram percebidos pelos riopardenses, a partir dos depoimentos dos republicanos e liberais no inquérito da revolta republicana. O intuito é partir do micro-universo para o macro, ou seja, de São José do Rio Pardo para as concepções republicanas brasileiras. Trabalhamos, porém, com uma contraposição entre o que a historiografia relativa ao período de transição do império para a república afirma e o que as fontes revelaram.

(25)

comum em São Paulo, caracterizando o segundo como uma vertente radical do primeiro.24 A formação do PRP – Partido Republicano Paulista estava ligada à ideia de progresso e, para Casalecchi, os republicanos paulistas não entravam em conflito político com os liberais porque os interesses econômicos de ambos eram os mesmos.

Por fim, a abordagem de José Murilo de Carvalho acerca da tipologia republicana, dividida em federalistas, radicais e positivistas, foi contraposta com as fontes sobre São José do Rio Pardo. A partir da análise em escala reduzida, observamos que as categorias de Carvalho não se adequavam perfeitamente ao caso concreto riopardense.

Em relação ao conceito de povo, o debate da participação popular foi tratado por José Murilo de Carvalho, que discute o conceito e o papel do povo na transição da monarquia para a república no Rio de Janeiro. Para ele, o regime republicano não contou com a participação popular. Tomando como ponto de partida a cidade do Rio de Janeiro, ele divide o povo em três grupos, definidos em números, eleitores e aglomerados de pessoas que potencialmente agiam nas ruas por conta própria.25 Maria Tereza Chaves de Mello também discute o papel do povo na transição e afirma que não houve apoio popular à república. Segundo ela, criou-se um imaginário em torno da monarquia que depreciava o sistema e ressaltava a crise. Isso contribuiu para a aceitação da república entre os populares.26

24

ADDUCI, Cássia Chrispiniano. A „Pátria Paulista‟: o separatismo como resposta à crise final do império brasileiro. São Paulo: Arquivo do Estado, Imprensa Oficial, 2000 e ___________. “Para um

aprofundamento historiográfico: discutindo o separatismo paulista.” Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 19, nº 38, p. 101-124, 1999.

25

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1990; CARVALHO, op.cit., 2005; CASALECCHI, José Ênio. O partido republicano paulista: política e poder (1889-1926). São Paulo: Editora Brasiliense, 1987; COUTY,

Louis. “A escravidão no Brasil”. p. 102. Apud.: CARVALHO, José Murilo de. “Os três povos da

república”. In.: CARVALHO, Maria Alice Resende de (org). República no Catete. Rio de Janeiro: Museu da República, 2002, 61-87.

26

(26)

Observamos que os termos república e republicano eram adotados nos depoimentos da revolta riopardense sempre relacionados à contraposição com os liberais ou aos comentários dos pracinhas. As relações de conflito transpareciam na propaganda e nos símbolos republicanos; em contrapartida, os liberais que estavam no poder proibiam irregularmente manifestações e reuniões. Observamos que, para os republicanos, o termo povo foi incorporado ao processo político e o povo teria participado da revolta, ido para as ruas e combatido os praças e os liberais. O termo foi desconstruído pelo liberal capitão Saturnino Barbosa que desclassificou todos aqueles que poderiam constituir o povo. Para ele, caboclos, negros, imigrantes e inimigos políticos não poderiam compor o povo.

Por fim, discriminamos três hipóteses possíveis para compreendermos o papel desses homens anônimos na revolta. Com isso, discutimos a participação popular no episódio republicano, ponderando acerca das possibilidades de estratégias de escolha desse povo perante a revolta e suas lideranças.

Nas considerações finais, apontamos as possíveis pesquisas que não puderam ser realizadas e auxiliariam esse trabalho, proporcionando confirmações para as hipóteses levantadas em outras localidades.

Por fim, a pesquisa para a realização desse trabalho foi fundamentada em fontes que demandaram uma análise crítica de seu conteúdo. Emília Viotti da Costa afirma que

(27)

posta em prática e, principalmente, de ser bem sucedida quando se trata de criticar o depoimento testemunhal.27

Esse trabalho foi fundamentado nos principais documentos: os manuscritos do coronel Manoel Corrêa de Sousa Lima, o inquérito policial da revolta riopardense, registros e listagens de eleitores e impostos do município, artigos de jornais contemporâneos à revolta e registros de batismo, casamento e óbito de São José do Rio Pardo. Há outros documentos que encontramos em diversos arquivos e em suporte digital que nos possibilitaram a elaboração das diversas biografias dos personagens envolvidos na revolta.

Os manuscritos do coronel Manoel Corrêa de Sousa Lima foram escritos nas décadas de 1920 e 1930, na cidade de Nepomuceno – MG, com a proposta de contar a história da sua cidade natal e sua família. No final dos anos de 1930 ele já estava com problemas nos olhos e sua neta, Eurídice Corrêa Lima, terminou de redigir o que ele ditava. O suporte do texto são dois cadernos de contabilidade cortados ao meio, aproveitando as pautas e deixando de lado as colunas. Eles têm a capa dura marmorizada, já envelhecida, um nas cores marrom escuro e branco, e outro em preto e cinza. O texto foi escrito a mão com caneta nanquim ou bico-de-pena pelo autor até metade do segundo caderno, quando sua neta passou a redigir as palavras ditadas por ele.28 Nesse caso, os cadernos utilizados sugerem que o texto era uma primeira versão, ainda um rascunho, mas acreditamos que, como os olhos do autor o traíram, ele terminou o texto deixando algumas rasuras, palavras faltando ou erradas, e, ainda, algumas informações em branco, como datas e nomes. O importante nessa fonte é como

27

COSTA, Emília Viotti. Da monarquia a república: momentos decisivos. 8ed. rev. e ampliada. São Paulo: Editora Unesp, 2007, p. 387.

28

O suporte do texto é uma importante pista para a análise da escrita de si e da própria fonte primária. O material do documento e não só o seu conteúdo, pode indicar ao historiador características do autor ou do que ele propunha com aquela redação, o tempo em que escreveu aquelas palavras, enfim, analisá-los é uma oportunidade de obter pistas sobre o texto, a escrita de si e a relação entre o escrevente e seus escritos”. MAUAD, Ana Maria; MUAZE, Mariane. “A escrita da intimidade: diário da viscondessa do

(28)

Lima designou cada proprietário de terra, especialmente, os seus familiares que viviam em São José do Rio Pardo, e como ele mencionou os cafeicultores e comissários de café, além da pequena descrição da revolta, que faz ao falar de si na parte dedicada à esposa. Essa fonte nos foi entregue em 1999 e estava em posse de uma das netas do coronel Manoel Corrêa de Sousa Lima, Elita Corrêa Lima.

O inquérito policial foi elaborado pela Subdelegacia de Polícia de São

José do Rio Pardo, em 1889. Está arquivado na série “Processos Policiais”, do fundo

Arquivo Permanente, do Arquivo Estadual de São Paulo. É um conjunto de 112 folhas de almaço encadernadas e numeradas. O texto é escrito a mão com caneta nanquim em uma letra firme e clara. Em algumas páginas há outra letra, mas a maior parte do material foi redigida pelo mesmo escrivão. O inquérito é composto pelos depoimentos e auto de flagrante, realizados no dia 11 de agosto de 1889, pelos autos de corpo delito de alguns policiais e o levantamento dos danos ocorridos no Hotel Brasil, datados de 12 de agosto daquele ano e pelos 30 depoimentos dos envolvidos em 24 de agosto. Esse documento foi encontrado em 2005, em uma primeira visita ao Arquivo do Estado de São Paulo para identificar possíveis fontes para um estudo acerca da revolta riopardense. Essa ida ao arquivo paulista ocorreu após a primeira visita a São José do Rio Pardo, em 2000, quando descobrimos que os memorialistas locais não tinham documentos oficiais que comprovavam a revolta.

(29)

XX de Setembro estão arquivados no Centro Ítalo Brasileiro em São José do Rio Pardo e foram coletados em 2008. Os artigos de jornais contemporâneos à revolta são compostos, em maioria, por jornais da capital, arquivados no Arquivo do Estado de São Paulo e na Biblioteca Nacional, em suporte de papel e digital. Eles sugerem que a revolta teve repercussão em São Paulo e ficou conhecida na época, entrando no esquecimento posteriormente. Nos artigos, há uma discussão entre um republicano e o presidente de província que sinalizava a defesa da revolta riopardense pelo movimento republicano como uma reação justa à violência e falta de liberdade monarquista. Essas reportagens foram coletadas no Arquivo do Estado de São Paulo em 2011 e na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, via internet, desde 2012. A entrevista dada por uma das lideranças ao jornal mineiro Diário da Tarde em 1949 nos trouxe, também, pistas importantes para a pesquisa. Essa entrevista foi guardada desde a sua publicação pela família do coronel Manoel Corrêa de Sousa Lima e nos foi entregue em 1999. Por fim, analisamos também os registros de batismo, casamento e óbito de São José do Rio Pardo, arquivados na Cúria de São João da Boa Vista, em suporte de papel, encadernados nos livros originais. Esses livros foram pesquisados em 2012 e 2013. Aliado a todas essas fontes, a internet nos forneceu inúmeros documentos digitalizados e/ou transcritos encontrados a partir da incessante busca no procurador Google.

Em São José do Rio Pardo, não encontramos jornais da época, apenas exemplares posteriores ao momento da revolta. O jornal O Tiradentes daquela cidade não foi encontrado porque não há exemplares dele no arquivo local, nem na Hemeroteca da Biblioteca Nacional ou do Arquivo do Estado de São Paulo.

(30)
(31)

CAPÍTULO 1. São José do Rio Pardo: formação política e econômica

São José do Rio Pardo é um município do oeste de São Paulo. Sua história é relevante para esse trabalho porque, em seu distrito-sede, aconteceu uma revolta que proclamou a república na vila, em 11 de agosto de 1889. Denominada revolta republicana riopardense ou república antecipada de São José do Rio Pardo, o episódio contou com certa participação popular e possibilitou um enraizamento das ideias republicanas. Apesar de importante para o processo de propaganda republicana, a revolta e a localidade que a sediou são quase desconhecidas pelos historiadores e pelos trabalhos acadêmicos. Nesse sentido, para estudarmos essa revolta e compreendermos a participação popular e as ideias republicanas envolvidas, precisamos conhecer a antiga vila e seu processo de formação político e econômico.

1.1. Formação política e emancipação

(32)

criadas a partir da trajetória em direção ao oeste, mas não menciona Casa Branca, indicando a pequena importância da localidade no caminho para os Goiases.29 A freguesia de Casa Branca só foi criada em 181430, mas acreditamos que um pequeno povoado já existia no local, no último quartel do século XVIII, por estar às margens da mencionada estrada.31 Provavelmente, havia alguns engenhos, já que era comum naquela região a produção de açúcar e aguardente para o abastecimento interno.32

No início do século XIX, São José do Rio Pardo pertencia a então freguesia de Casa Branca e era, provavelmente, apenas um conjunto de fazendas sem uma sede ou núcleo. Nesse momento, o sertão do Rio Pardo era disputado por mineiros que vinham do sul de Minas e das áreas decadentes de mineração.33 Eles buscavam pastos para o gado, novas terras para a produção e novas faisqueiras.34 As primeiras migrações de mineiros se estabeleciam no Sertão da Farinha Podre, no Triângulo Mineiro, onde encontravam bons pastos, mas também índios bravos e altos índices de malária. Uma segunda leva se dirigiu para o Sertão do Rio Pardo, área com terras férteis e menos doenças tropicais que o Sertão da Farinha Podre.35 Nesse processo, esses

29

LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. História da Capitania de São Vicente. Brasília: Edições do Senado Federal, 2004, vol. 25. Carta Corográfica da Capitania de São Paulo. 1766. Disponível em <http://www.novomilenio.inf.br/santos/mapa106g.htm> Acesso em ago 2007.

30

Alvará do Príncipe Regente, de 25 de outubro de 1814. Cópia manuscrita. Caixa 45, ordem 282. Apud TREVISAN, Amélia Franzolin. A povoação dos Ilhéus, Casa Branca. São Paulo: Edições Arquivo do Estado, 1982, p. 50.

31

Hei por bem que no sertão da estrada de Goiás, do Bispado de São Paulo, d´aquém do Rio Pardo no lugar denominado da Casa Branca seja ereta uma nova Freguesia com a invocação de Nossa Senhora das Dores, a qual os moradores do dito sertão edificarão à sua custa no prefixo termo de quatro anos, e ficará limitada esta nova Freguesia desde o Rio Jaguari até o pouso do Cubatão.” (Alvará do Príncipe Regente, de 25 de outubro de 1814. Cópia manuscrita. Caixa 45, ordem 282. Apud TREVISAN, 1982, p. 50. Apud

MOTTA, José Flávio; VALENTINE, Agnaldo. “Dinamismo Econômico e Batismos de Ingênuos – A Libertação do Ventre da Escrava em Casa Branca e Iguape, Província de São Paulo (1871-1885).” Est.

econ., São Paulo, 38(2): 211-234, abr-jun 2008).

32

SIMONSEN, Roberto C. Aspectos da história econômica do café: contribuição para o Congresso de História Nacional, promovido pelo IHGB, em outubro de 1938. Rio de Janeiro: IHGB, 1938.

33

CHIACHIRI FILHO, José. Do Sertão do Rio Pardo à Franca do Imperador. Ribeirão Preto: Ribeira Gráfica e Editora Ltda., 1986.

34

A exceção a essa regra é a cidade de Caconde que tinha algumas faisqueiras no final do XVIII, mas não renderam e a exploração terminou rapidamente.

35

(33)

“entrantes” de Minas Gerais constituíam as localidades e, mais tarde, as vilas.

Confirmando essa premissa, o memorialista Rodolpho José Del Guerra afirma que os primeiros fazendeiros que chegaram à região de São José do Rio Pardo eram de Minas Gerais e adquiriram sesmarias de sesmeiros anteriores ou receberam-nas do governador ainda no primeiro quartel do século XIX.36

Carlos de Almeida Prado Bacellar afirma que mineiros ocuparam o oeste paulista a partir dos anos de 1810.37 Rodrigo Fontanari reafirma a mesma proposição para Casa Branca, povoada por mineiros e paulistas que chegaram à região para produzir café.38 Amélia Trevisan também corrobora essa afirmação da presença mineira e a dispõe em um quadro, indicando as ocupações e origens dos migrantes em 1825.

Tabela 1

Origem e ocupação de alguns dos moradores de Casa Branca, em 1825

Ocupação

Origem Lavradores Criadores Jornaleiros Negociantes Total %

São Paulo 145 45 18 4 212 51,1

Minas

Gerais 105 31 23 9 168 40,5

Outras 25 8 1 1 35 8,4

Fonte: TREVISAN, Amélia. F. Casa Branca, a povoação dos ilhéus. São Paulo: Dissertação (Mestrado em História), FFLCH-USP,1979, p.126-128 (adaptações nossas).

A partir dessa tabela, podemos perceber que a maioria dos moradores de Casa Branca em 1825 ainda era de origem paulista, números que se modificaram nas décadas seguintes.

2010/D10A127.pdf > Acesso em 24 fev 2012. A autora menciona como um exemplo ilustrativo citado por Chiachiri Filho em sua obra “Do Sertão do Rio Pardo à Franca do Imperador” a família de Hipólito Antônio Pinheiro, que seguiu esse caminho, do Sertão da Farinha Podre para o Sertão do Rio Pardo. CHIACHIRI FILHO, op. cit., 1986, p. 36.

36

DEL GUERRA, Rodolpho José. No ventre da terra mãe (São José do Rio Pardo). São José do Rio Pardo, SP: Graf-Center, 2001.

37

BACELLAR, Carlos de Almeida Prado; BRIOSCHI, Lucila Reis (orgs). Na estrada do Anhanguera: uma visão regional da história paulista. São Paulo: Humanitas FFLCH/USP, 1999.

38

(34)

Os dados coletados por Fontanari indicam a evolução demográfica da região de Casa Branca entre 1765 e 1875, período em que São José do Rio Pardo pertencia àquela vila. Nesses dados, podemos perceber que a população cresceu muito em um século de ocupação, e, no último ano do quadro, ela aumentou seis vezes em 50 anos. Esse aumento populacional foi ocasionado, provavelmente, pela chegada dos mineiros que compraram terras na região, como afirmam Bacellar, Fontanari e Trevisan.

Quadro 1

Evolução demográfica da região e depois município de Casa Branca, 1765-1875

Anos Sertão Rio Pardo

1765 124

1814 925

1825 2635

1875 12134

Fonte: FONTANARI, Rodrigo. O problema do financiamento: uma análise histórica sobre o crédito no complexo cafeeiro paulista. Casa Branca (1874-1914). Franca: [s.n.], 2011. BRIOSCHI, L. R. et. al. Entrantes do Sertão do Rio Pardo: o povoamento da freguesia de Batatais, séculos XVIII e XIX. São Paulo: CERU, 1991. GODOY, J. F. de. A província de São Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: FUNDAP, 2007.

A dinâmica de aquisição de terras e ocupação do espaço físico do sertão do rio Pardo se mostrou mais complexa que os dados dos índices populacionais. Bacellar analisa os registros de terra antes de 1850 e discute a maneira pela qual eram realizados. Os termos de divisas das propriedades eram vagos, demarcados por córregos, árvores e pelos vizinhos. As posses se davam por meio do preparo de roças, das derrubadas de matas e dos levantamentos de cruzeiros. Após a Lei de Terras, de 1850 e sua regulamentação em 1854, as grandes glebas já estavam divididas em porções menores e isso se intensificou com chegada de novas levas de mineiros.39 Em São José do Rio Pardo, observamos que alguns migrantes não se fixavam necessariamente à terra adquirida e se mudavam para outras localidades após algum tempo. As fazendas eram

39

(35)

negociadas para a aquisição de novas propriedades em outros lugares próximos, mais a oeste ou a norte do estado de São Paulo.

Um exemplo desse processo migratório de mineiros para o oeste paulista e do contínuo fluxo para novas regiões é a fazenda Pião do Rio Pardo. Segundo Maria do Carmo Di Creddo, a fazenda Pião do Rio Pardo era de propriedade de Francisco de Assis Nogueira40. Seu filho, de mesmo nome, foi um dos empreendedores das obras da capela de São José em 1865.41 Ele e sua mãe, herdeiros daquelas terras, teriam as vendido, nos anos de 1870, para se mudarem, ele para Rio Novo – MG, e sua mãe para Botucatu – SP.42 Acreditamos que a fazenda foi adquirida pelo coronel José Antônio de Sousa Lima43, mineiro e investidor na região que, ao que tudo indica, a entregou em dote a seu sobrinho e genro, Manoel Corrêa de Sousa Lima44, nos anos de 1870.45 Nos anos de 1890, Manoel Corrêa de Sousa Lima vendeu a fazenda e se mudou para Igarapava, mais ao norte do estado de São Paulo. Podemos perceber que, em cerca de 30 anos, a propriedade teve quatro possuidores, que investiram dinheiro na compra da terra e a venderam, sendo que eles se mudaram para outras localidades, não permanecendo em São José do Rio Pardo.

Há três questões importantes que podemos identificar. A primeira e a segunda se aplicam ao oeste paulista. Houve uma migração de mineiros para a região, mas eles não foram os únicos, também havia um fluxo de paulistas para aquelas áreas,

40

Segundo Rodolpho Del Guerra, a fazenda já havia sido de Alexandre Luiz de Mello, proprietário da primeira sesmaria. DEL GUERRA, op. cit., 2001.

41

Descendants of Cap. Mór Tomé Rodrigues Nogueira do Ó: Notes. Disponível em < http://www.genealogia.villasboas.nom.br/DescAncestrais/trno/pafn20.htm#243> Acesso em 12 out 2011,

17:40. NEGRÃO, Joaquim “Tininho”. História da fundação de Avaré (fatos e ficção) &causos 2. Avaré – SP: Joaquim negrão, 2007.

42

DI CREDDO, Maria do Carmo Sampaio. Terras e índios: o povoamento e a propriedade no Vale do Paranapanema. São Paulo: Arte e Ciência, 2003.

43

O coronel José Antônio de Souza Lima era negociante de café e fornecia crédito a pequenos proprietários por meio de hipotecas.

44

Manoel Corrêa de Sousa Lima foi um dos líderes da revolta riopardense. Ele era mineiro, natural de Nepomuceno, sul de Minas.

45

(36)

especialmente, antes do aumento dos preços das propriedades, como indicou os quadros e tabelas anteriores. A segunda questão e mais relevante é que as terras do oeste paulista passaram a ser bens negociáveis, vendidas, compradas e oferecidas em garantia de empréstimos.46 E, por fim, a terceira e última questão diz respeito a São José do Rio Pardo. Observamos que a migração para aquela localidade não foi estável, os migrantes se mudaram das cidades do oeste de São Paulo para outras, sem se fixar ao local, como é o caso dos diversos proprietários da fazenda do Pião do Rio Pardo. Outros personagens também se mudaram da região após adquirir terras na localidade, como a maioria dos fundadores da capela de São José, em 1865, que se mudaram para Avaré na década seguinte, vendendo suas fazendas para os entrantes que chegaram posteriormente e se estabelecerem ali. Nesse sentido, podemos perceber que a região de São José do Rio Pardo sofreu grandes mudanças populacionais pelo aumento do número de famílias de origem principalmente mineira, mas também vivenciou um fluxo de migrantes que não se fixava necessariamente à terra e se revezava com outras famílias que chegavam àquela área.

Com esse fluxo populacional em crescimento, tornou-se necessária a criação de uma capela para atender a comunidade e, com isso, a constituição de uma sede. Assim, em 1865, alguns fazendeiros se reuniram para edificar o templo e doaram terras para o patrimônio da igreja. Politicamente, isso significava o desejo de se criar uma futura freguesia e em seguida uma vila, constituindo-se, nesse sentido, uma partição do poder, com uma Câmara municipal separada da de Casa Branca. Para os historiadores de São José do Rio Pardo, esse é o mito fundador da cidade. Em 4 de abril de 1865, Antônio Marçal Nogueira de Barros, José Teodoro de Noronha, Francisco de Assis Nogueira, Raimundo Estelino Ribeiro da Silva, Luciano Ribeiro da Silva, João

46

(37)

Damasceno Negrão e Ananias Joaquim Machado47 se reuniram na casa de um deles, provavelmente, do Sr. Antônio Marçal Nogueira de Barros, para escrever a ata de fundação da capela de São José.

O primeiro alqueire já fora doado por João José de Souza, em 6 de fevereiro de 1865, com título passado na Fazenda da Laje. As outras doações foram de Cândido Faria Moraes, três alqueires, com título passado na Fazenda da Cachoeira da Boa Vista, em 17 de junho; Antônio Marçal Nogueira de Barros, três alqueires, com título passado na Fazenda Becerábia; José Teodoro Nogueira de Noronha, quatro alqueires, com título passado em São José do Rio Pardo e Cândido de Miranda Noronha, um alqueire, com título passado em São José do Rio Pardo. Os três últimos títulos foram passados em 19 de junho de 1865.48

As terras doadas para o patrimônio da igreja de São José ficavam no alto do morro, a cerca de 500 metros das margens do rio Pardo, e a aproximadamente 150 metros acima do leito.49

Mesmo depois da doação, o bispo só autorizou o início da construção da capela em março de 1870. As obras foram feitas, possivelmente, por escravos dos fazendeiros que fizeram as doações das terras. O Sr. João Baptista Blandim foi nomeado fiscal do templo e supervisionou as obras.50 Em 1872, a igreja ficou pronta e foi abençoada pelo bispo depois da regularização dos registros do patrimônio doado.51

A localidade foi elevada à freguesia pela Lei n° 43 de 16 de abril de 1874, pertencendo à vila de Casa Branca. Em 8 de maio de 1877, pela Lei nº 40, a freguesia de São José do Rio Pardo foi transferida para Caconde e, em 14 de abril de 1880, pela Lei nº 70, ela foi novamente anexada a Casa Branca. A elevação à freguesia

47

Para a biografia desses personagens, ver quadro anexo.

48

ATA de fundação da "Futura Freguesia de São José do Rio Pardo”. Disponível em <http://www.saojoseonline.com.br/himatriz.htm> Acesso em 13 jun 2013.

49

O ato de fundação para a posteridade foi arquivado na matriz de São José.

50

João Baptista Blandim era mineiro de São João Del Rei e se mudou para o oeste paulista na primeira metade do século XIX. Ver quadro anexo.

51

(38)

era o primeiro passo para a constituição de uma futura vila, já que ela era uma parte territorial vinculada às vilas,52 uma divisão administrativa e eclesiástica em que o padre, responsável pela igreja, também se responsabilizava pelos registros de batismo, casamento e óbito. Além disso, os líderes da localidade tinham o respaldo para as eleições de vereadores e podiam disputar um espaço na Câmara.

A conquista da freguesia de São José do Rio Pardo foi uma vitória dos liberais e republicanos riopardenses perante os conservadores de Casa Branca e, provavelmente, a transferência dela para Caconde também. Com o retorno para Casa Branca, os riopardenses perderam uma batalha política e, provavelmente, deram início ao processo de emancipação da localidade. Na liderança desse grupo, despontava Antônio Marçal Nogueira de Barros.

Em 1878, o Sr. Antônio Marçal Nogueira de Barros, o mesmo que doou as terras para a formação da freguesia, tornou-se vereador em Caconde, cidade da qual pertencia São José do Rio Pardo, e definiu durante seu mandato o traçado das ruas do povoado.53 Em torno da igreja foram erguidas algumas casas de fazendeiros das proximidades, uma farmácia de propriedade de Antônio Marçal e, provavelmente, uma venda. João Baptista Blandim, fiscal da localidade, ao descrever o início da povoação de

São José do Rio Pardo em uma entrevista concedida em 1917 para o jornal “Álbum

Riopardense”, diz que:

(...) recordou-se de casas esparsas, cobertas de sapé, no meio do mato. Morou numa delas, onde, tempos depois, ergueu-se o palacete de Antônio Ribeiro Nogueira (Nhô Ribeiro) (...), hoje, substituído por um

52

A freguesia na concepção do século XIX se assemelha a um distrito atual, que recebe esse nome porque tem um cartório para registro de pessoas.

53

(39)

prédio de morada e casas comerciais, na esquina da Praça XV de novembro com a rua Marechal Floriano.54

Este mesmo João Baptista Blandim permitiu, em 1878, que edificações fossem erguidas sobre os arruamentos demarcados por Antônio Marçal Nogueira de Barros e foi demitido do cargo de fiscal de quarteirão. Isso sugeria que Barros tinha poder político na vila de Caconde que permitisse definir quem ficaria como funcionário municipal no distrito. A transferência de jurisdição de uma vila para outra, como foi o caso de Casa Branca para Caconde e desta de volta para Casa Branca, pode revelar quais eram as lideranças envolvidas nas disputas de poder da freguesia de São José.

Há dois pontos a serem observados nesse caso: os valores de impostos arrecadados relativos ao café e correspondentes ao território de São José do Rio Pardo e o número de eleitores naquele território. Em relação aos impostos, a lavoura cafeeira em São José do Rio Pardo estava em expansão e a arrecadação financeira aumentava. Isso representava um ganho para a vila que sediava aquele distrito, sendo assim, importante mantê-lo dentro da jurisdição, o que gerava certa disputa pelo território riopardense. Quanto à questão eleitoral, ao que tudo indica, a situação política em Casa Branca se diferenciava em muito do quadro em Caconde. Na primeira, a maioria dos partidários e políticos era de tendência monarquista conservadora. Segundo João Silveira, havia 43 anos que a cidade era governada por conservadores.55 Já São José do Rio Pardo era formada por liberais e republicanos, sendo a maioria adepta às ideias republicanas. Nesse sentido, enquanto subordinada a Caconde, provavelmente, Antônio Marçal Nogueira de Barros fosse mais influente que quando subordinada a Casa Branca.

54

ROCHA, Octávio. Álbum Riopardense. São José do Rio Pardo, 1917. Apud. PORTAL DO TURISMO. São José do Rio Pardo. Roteiros do Brasil, Região Estradas e Bandeiras: História da Cidade. Disponível em <http://www.ferias.tur.br/informacoes/9658/sao-jose-do-rio-pardo-sp.html> Acesso em 20 dez 2013. Para o arruamento da cidade, ver mapa anexo.

55

(40)

Interessado em elevar a freguesia à condição de vila, Antônio Marçal Nogueira de Barros, juntamente com outros cidadãos riopardenses, submeteu uma solicitação à Assembleia Legislativa de São Paulo. A Lei n° 49, de 20 de março de 1885, que elevou a localidade à vila, não aconteceu sem discussões e disputas. Na reunião da Assembleia Legislativa, em 11 de fevereiro de 1885, foi lançada a solicitação de emancipação de São José do Rio Pardo. Segundo o orador do pedido, Sr. João Silveira, a localidade não havia sido contemplada no censo de 1873 por não ter população suficiente naquele período mas, em 1885, já contava com “seis mil almas aproximadamente” e era, então, uma freguesia com povo e economia suficientes para

ser emancipada.56

Em 25 de fevereiro de 1885, na 10ª sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Antônio José Corrêa, de Casa Branca, entrou com um requerimento solicitando que o território de São José do Rio Pardo se resumisse ao trecho entre o rio Pardo e o rio Fartura e não a porção correspondente à freguesia pleiteada pelos riopardenses. Com essa divisão territorial requerida pelo deputado, Casa Branca não perderia grandes fazendas produtoras de café que garantiam arrecadação de impostos para a municipalidade. Outro importante ponto era a estação do ramal do rio Pardo que seria construída em São José do Rio Pardo e, se ainda pertencesse a Casa Branca, deixaria seus subsídios no município. Além desses motivos econômicos, havia também motivações políticas para a interposição do deputado. Antônio José Corrêa era um político do partido conservador, tinha o título de Barão do Rio Pardo, e sua solicitação tinha um caráter de “vingança política”57, segundo afirmação de João Silveira. Ele contou que

56

Correio Paulistano. Assembleia Provincial, 13ª. Sessão Ordinária aos 11 de fevereiro de 1885, São Paulo, quarta feira, 25 fev 1885, ano XXXI, n° 8554.

57

(41)

O partido conservador de Casa Branca constituiu na comarca uma suserania de quarenta e três anos de domínio.

Durante esse longo reinado a força do número parecia eternizar a ditadura.

A 14 de abril de 1880 um grupo de patriotas mártires de perseguições inigualáveis, joguete de ódios políticos, fez ouvir sua voz nessa assembleia, por intermédio de seus representantes, e levantou-se possante e cheia de vida a freguesia de S. José do Rio Pardo.

A grande maioria oposicionista da nova freguesia derrotou, logo na primeira eleição municipal, o feudalismo inveterado que dominava tudo, esterilizando tudo.

Por um esforço supremo os vencidos, esmagados pelos números, lançaram mão do triste recurso da nulidade das fórmulas eleitorais para retomarem seus postos perdidos. Segundo combate, segunda derrota, segundo apelo às nulidades...

Era preciso acabar com a freguesia de S. José do Rio Pardo, o espantalho dos conservadores.

Sr. C Rodrigues – Essa é a verdade.

O Orador – Eis a causa do projeto do nobre deputado Sr. Antônio José Corrêa. Que importa a s. ex. o sacrifício de uma grande população que não é a do seu credo?

O Sr. M. Prado Junior – Só há quatro eleitores conservadores lá. O Orador – Quando, Sr. Presidente, aquela localidade mais floresce, quando a sua lavoura mais prospera, quando sua população, com um patriotismo invejável, se consagra ao engrandecimento do município por uma dedicação mutua e fraternal, é justamente, como uma punição a esse grande pecado, que se vem descentralizar, espedaçando, as forças reunidas, os fatores do progresso local!

É uma injustiça, que não encontra explicação senão no espírito de uma política doentia, que peleja para derrotar os adversários, pouco se importando que a essa derrota siga-se também o aniquilamento de municípios inteiros.

Em honra da minha consciência, da minha província e do meu partido eu condeno essa política.58

As disputas políticas entre conservadores, liberais e republicanos já se faziam presentes nas discussões de elevação de São José do Rio Pardo à vila. Sua emancipação foi uma vitória dos liberais e republicanos contra os conservadores, tanto no sentido político, como no sentido econômico. Politicamente, os liberais e republicanos de São José, em acordo contra os conservadores, conquistaram seu espaço eleitoral na vila recém-criada – mais uma que elegeria políticos liberais ou republicanos. Economicamente, com a conquista da vila, eles puderam manter os impostos relativos

58

(42)

ao café na municipalidade e ainda sediaram a estação do ramal do rio Pardo, que seria inaugurada na cidade e ligaria o oeste paulista ao sul de Minas.

Com a elevação à condição de vila, no dia 8 de maio de 1886, a Câmara foi instalada no Paço da Câmara Municipal, edificação doada por Antonio Marçal Nogueira de Barros. A Câmara foi formada pelos senhores Antonio Marçal Nogueira de Barros, Vicente Alves de Araújo Dias, Luis Carlos de Mello, Joaquim Gonçalves dos Santos, José Ezequiel de Souza, Antonio Corrêa de Souza e Saturnino Frauzino Barbosa. O Sr. Antonio Marçal Nogueira de Barros foi eleito presidente e o Sr. Joaquim Gonçalves dos Santos, o vice. O presidente e o vice eram primos e não tomaram parte nas manifestações políticas da revolta republicana que ocorreu alguns anos mais tarde. Antônio Corrêa de Souza foi um dos republicanos que ofereceu homens para a revolta, juntamente com seu filho, José Antônio de Lima. Já o capitão Saturnino Frauzino Barbosa, protagonista liberal da revolta, foi o vereador e redator da ata da sessão de eleição e posse da mesa da Câmara.59

Ainda em 1886, o coronel Antônio Marçal Nogueira de Barros, responsável pela criação da igreja e preocupado com a legitimação de sua iniciativa de fundação da cidade, enviou cartas a algumas pessoas que participaram com ele da construção do templo.60 Segundo uma das cartas, havia boatos de que tentavam incluir outros agentes no processo de criação do núcleo de povoação em torno da igreja. É interessante observar que após a elevação de São José do Rio Pardo à vila e sua subsequente instalação, o coronel, até então a liderança que despontava nos documentos, teve a necessidade de oficializar por meio de testemunhos a sua participação na construção da igreja e elevação à freguesia e vila.

59

SÃO JOSE DO RIO PARDO. Ata de instalação da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo. Disponível em <http://www.camarasjriopardo.sp.gov.br/paginas/historia.php> Acesso em 13 de jun. 2013

60

(43)

Antônio Marçal Nogueira de Barros estava se sentindo ameaçado por outras forças políticas que emergiam naquele momento. Seu intuito com as cartas de

validação de suas ações era “fazer o histórico da fundação desta Villa de S. José do Rio

Pardo”61, mas o que acontecia era uma discussão de cunho político escondida nas entrelinhas das solicitações de respostas. Não conseguimos apurar quem tinha interesse

de tirar do coronel a autoridade de “fundador” da cidade, mas isso pode ter relação com

as mudanças internas no poder da cidade, especialmente, o novo momento político em que a vila se encontrava.

Após a aliança entre liberais e republicanos riopardenses contra os conservadores de casabranquenses para a emancipação, o acordo não foi mais necessário e as divergências internas apareceram. Ao que tudo indica, Antônio Marçal Nogueira de Barros era do partido liberal e não tomou parte na revolta republicana.62

Há duas hipóteses para a preocupação de Barros. A primeira seria que os republicanos locais o pressionavam e tentavam tirar-lhe o título de fundador da cidade e, em consequência, abalavam sua liderança política. A segunda hipótese seria um cisma interno no partido liberal local e Saturnino Barbosa, o líder que despontava, estaria disputando forças com ele, com o intuito de controlar o partido. Em qualquer uma das hipóteses, Antônio Marçal Nogueira de Barros se sentia ameaçado politicamente.

Nos anos de 1880, uma vida social se estabelecia em torno da venda, da farmácia e da igreja, com as missas que aconteciam aos domingos, celebradas pelo

padre Ancasuerd. Giuseppe Manzoni contava que “Em São José há um só padre e uma

só missa. Depois da missa, a igreja se fecha e ninguém pode mais entrar. Quando o

61

DEL GUERRA, Rodolpho José. No ventre da terra mãe (são José do Rio Pardo). São José do Rio Pardo – SP: Graf-Center, 2001, p. 73.

62

Imagem

Gráfico do número de cafeicultores com suas produções cafeeiras em 1898
Gráfico 2
Gráfico 3
Gráfico 4
+2

Referências

Documentos relacionados

moldura dos faróis dianteiros, da grelha dianteira e dos farolins em Piano Black - exclusivo para os modelos mais desportivos Cooper S, Cooper SD e John Cooper Works.. Os

Este trabalho buscou, através de pesquisa de campo, estudar o efeito de diferentes alternativas de adubações de cobertura, quanto ao tipo de adubo e época de

Sendo assim, o presente estudo visa quantificar a atividade das proteases alcalinas totais do trato digestório do neon gobi Elacatinus figaro em diferentes idades e dietas que compõem

Para tanto, no Laboratório de Análise Experimental de Estruturas (LAEES), da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (EE/UFMG), foram realizados ensaios

Resultados obtidos nos levantamentos efetuados apontam para a possibilidade de se complementar a metodologia para avaliação de pavimentos atualmente disponível no Brasil através do

•   O  material  a  seguir  consiste  de  adaptações  e  extensões  dos  originais  gentilmente  cedidos  pelo 

De acordo com estes resultados, e dada a reduzida explicitação, e exploração, das relações que se estabelecem entre a ciência, a tecnologia, a sociedade e o ambiente, conclui-se

O uso da SGS permitiu a obtenção do cenário mais crítico em valores máximos de cada pixel e em probabilidade (%) de ocorrência da resistência do solo à penetração em