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(1)0. UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO – UMESP PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DA SAÚDE PROCESSOS PSICOSSOCIAIS. HAIANA MARIA DE CARVALHO ALVES. Impacto do contexto de trabalho e da resiliência sobre o bem-estar no trabalho de profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2015.

(2) 1. HAIANA MARIA DE CARVALHO ALVES. O impacto do contexto de trabalho e da resiliência sobre o bem-estar de profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Psicologia da Saúde. Área de Concentração: Psicologia da Saúde Linha de Pesquisa: Processos Psicossociais. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2015.

(3) 2. HAIANA MARIA DE CARVALHO ALVES. O impacto do contexto de trabalho e da resiliência sobre o bem-estar de profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Metodista de São Paulo, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Psicologia da Saúde. Área de Concentração: Psicologia da Saúde Linha de Pesquisa: Processos Psicossociais. Banca Examinadora:. Profa. Dra. Maria do Carmo Fernandes Martins (Presidente) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO Prof.Dr. Rafael MarcusChiuzi UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO Profa. Dra. Márcia Siqueira Andrade CENTRO UNIVERSITÁRIO FIEO.

(4) 3. Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver. Ariano Suassuna.

(5) 4. A mim, por ter transformado a conclusão desse mestrado em uma questão de honra pessoal. A Raphael, meu anjo na Terra, presente de Deus, luz da minha vida. A minha família, por todo o suporte e por cuidarem de Raphael na minha ausência..

(6) 5. AGRADECIMENTOS. Agradeço primeiramente a Deus, por ter me permitido mais essa conquista. Foi um longo caminho percorrido até aqui. Aos meus professores da graduação (UNIVASF), pela formação exemplar, competente e ética. Agradeço, em especial, aos professores que fizeram toda a diferença em minha formação enquanto profissional e enquanto “ser no mundo”: Marcelo Ribeiro, Bárbara Cabral e Verônica Côrtes. Às experiências vivenciadas dentro da Clínica Santa Terezinha (em Juazeiro/ BA), que fomentaram o meu interesse pela saúde mental. Aos estágios no Centro de Atenção Psicossocial II – André do Cavaquinho (em Petrolina/PE), pelo convívio com profissionais comprometidos com a mudança no cenário da saúde mental no Brasil e por ter conhecido pessoas tão lindas em suas fragilidades e singularidades. Ao Programa de Ensino pelo Trabalho em Saúde (PET–Saúde), pelas vivências engrandecedoras e por ter despertado em mim a vontade de ser pesquisadora. Às dificuldades vivenciadas desde o primeiro dia em São Paulo. Isso me fortaleceu. Agradeço toda a aprendizagem, sobretudo emocional, adquirida com essa vivência. A minha família, por ser meu suporte, pelo apoio e carinho. E, acima de tudo, por terem cuidado com tanto amor de Raphael. Sem a ajuda de vocês, essa conquista não teria sido possível! A Raphael, por ter suportado tão bem minha ausência e por ser esse filho maravilhoso. Obrigada, filho! Por ter se cuidado sozinho, muitas vezes. Por ser uma criança admirável e atenciosa como você é. Essa conquista é nossa!! A minha mãe, pelo apoio incondicional e exemplo, sempre. A minha orientadora, Maria do Carmo, pelo modelo profissional e ético, por ser sempre tão solícita e atenciosa. Não poderia ter tido melhor orientadora!! Obrigada! Obrigada! Ao meu irmão, Higor, por ser um tio tão presente na vida de Raphael: levando, buscando, estudando com ele... Gracias, hermano! A minha madrinha e tia Cleide, por ter me acolhido tantas vezes. A minhas primas, Paula e Patrícia, por terem me ajudado das mais diversas formas possíveis. Muito obrigada a vocês!.

(7) 6. A meu tio Beto, por todo o apoio e zelo. Por cuidar da minha mãe e do meu filho com tanta atenção. A Luísa Sampaio e Paulo Souza, pela amizade e pelo carinho. Pelo apoio e incentivo nesse caminho. A Angelo, pelos nossos anos de convivência, por todas as experiências e lições que o nosso relacionamento me proporcionou. Hoje sou muito mais forte graças a essas vivências. Às amizades que fiz na terra da garoa: Carla, Elainy e Josiane. A Carla, que me recebeu em sua casa sem nem me conhecer e que a vida tratou de nos aproximar. Obrigada pelas palavras acolhedoras e sensíveis, por ter estado próxima mesmo tão longe geograficamente. A Elainy, parceira de muitos trabalhos, viagens e da vida louca em SP. A Josiane, por ter me abrigado, me acolhido, ter suportado minhas crises de choro. Por ter me levado para sua casa e me fazer sentir “em casa”. Não há palavras para agradecer tanto cuidado! Obrigada, Josita hermosa querida! Aos professores da pós-graduação, por todo conhecimento e carinho dispensados. Agradeço, em especial, à Professora Dra. Mirlene Siqueira, pela competência profissional, pela graça da sua companhia em sala e pelos corredores, por ter me ensinado tanto! Aos meus amigos de Petrolina, que permaneceram próximos e muitas vezes me levantando mesmo: Zara, Pollyana, Jackson, Gabrielly, Juliana, Márcio e Franciane. Sem vocês, tudo teria sido muito mais difícil. Obrigada pelos conselhos, pelo ombro amigo, pelos diálogos sem fim, sobretudo pelo afeto que sempre dispensaram a mim. Aos meus primos, principalmente Camila, Vinícius e Clayton. Por me compreenderem, me apoiarem, mesmo a gente brigando e se reconciliando sempre. Meu amor infinito. Aos que indiretamente também me ajudaram a chegar aqui: Rômulo Bezerra e família. Não posso deixar de reconhecer o suporte que vocês deram a Raphael. Muito obrigada! Aos profissionais dos CAPS, pelo acolhimento e pela participação na pesquisa. A CAPES/PROSUP, pelo apoio financeiro e incentivo. A Elisângela, por ter me ajudado com os prazos, relatórios e impressões..

(8) 7. E, porque tudo na minha vida tem trilha sonora, esse momento não seria diferente: “Lá no sertão Cabra macho não ajoelha Nem faz parelha com quem é de traição Puxa o facão, risca o chão Que sai centelha Porque tem vez Que só mesmo a lei do cão... É Lampa, é Lampa, é Lampa É Lampião Meu candeeiro encantado Meu candeeiro encantado (...)” Meu Candeeiro Encantado - Lenine.

(9) 8. ALVES, H.M.C. Impacto do contexto de trabalho e da resiliência sobre o bem-estar no trabalho de profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial. 2015, 126f.DissertaçãodeMestrado em Psicologia da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde,Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, São Bernardo do Campo, 2015.. RESUMO Este estudo teve como intuito investigar o impacto do contexto de trabalho e da resiliência sobre o bem-estar no trabalho em profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Os CAPS são serviços públicos substitutivos ao modelo asilar para tratamento de pessoas em sofrimento psíquico, preconizado e fundamentado na Política Nacional de Saúde Mental (PNSM). Para medir o contexto de trabalho utilizou-se a Escala de Avaliação do Contexto de Trabalho (EACT) que investiga as condições de trabalho, a organização do trabalho e as relações sócio profissionais. Já o instrumento utilizado para medir a capacidade dos trabalhadores em manter o nível de desempenho no trabalho mesmo em situações complexas e desgastantes foi a Escala de Avaliação de Resiliência no Trabalho (EART). Por último, investigou-se o nível de bem-estar do público pesquisado através do Inventário de Bem- Estar no Trabalho (IBET-13). O bem-estar no trabalho tem sido considerado como um construto psicológico resultado de vínculos positivos com o trabalho e com a organização. Participaram 81 profissionais dos CAPS das cidades de Petrolina – PE e São Bernardo do Campo – SP, com idade média de 37 anos (DP= 10,45), em sua maioria do sexo feminino (65,4%), com níveis de escolaridade acima do ensino superior e pós-graduação completa (ambos com 29%), que se declararam casados ou em união estável (39%). Neste estudo, considerou-se bemestar no trabalho como variável critério e resiliência no trabalho e contexto de trabalho como preditores. Foram realizadas análises estatísticas exploratórias e descritivas, análises de regressão e análises de variância (ANOVA) para descrever participantes, variáveis e testar o modelo. Os resultados apoiaram parcialmente o modelo de predição, pois apenas o fator relações sócio profissionais se confirmou como preditor significativo de Bem-estar no Trabalho, e não houve predição significativa com as demais variáveis (Condições de Trabalho, Organização do Trabalho e Resiliência no Trabalho). Estes dados podem revelar que boas relações sócio profissionais tendem a aumentar o nível de satisfação e comprometimento organizacional afetivo com a instituição, bem como o aumento do nível de envolvimento desses profissionais com seu trabalho. Palavras-chave:Centros de Atenção Psicossocial; Contexto de Trabalho; Bem-estar no trabalho..

(10) 9. ALVES, H.M.C. (2015) Impact of working context and resilience on the welfare at work of professionals of mental health services. 2015 126f. Dissertation in Health Psychology, Graduate Program in Health Psychology, Methodist University of São Paulo - UMESP, São Bernardo do Campo, 2015.. ABSTRACT Well-being at work has been regarded as a psychological construct brought about by positive links with work and with the organization. This investigation, which approached the impact of working context and resilience on the well-being of the Psycho-Social Attention Center (CAPS) Professionals from two Brazilian cities aimed to add findings to the area‟s knowledge. The CAPS are public services replacing the asylum model for the treatment of people suffering from psychic problems, backed up by and with foundations on the National Policy for Mental Health (PNSM). The theoretical conception used in this work, by its turn, approaches resilience at work as a positive psychological state related to the performance at work even in complex, wearing-out situations. Regarding working context evaluation, it was considered that it is depicted as a subjective interpretation of the professionals about the working conditions, the organization of work, and the social-professional relationship. 81 professionals from the CAPS of cities Petrolina – PE and São Bernardo do Campo – SP, 37 years old on average (DP = 10.45), mostly female in sex (65.4%), with schooling above college degree and complete post-graduation (both 29%), who declared to be married or at stable unity (39%). In this study, well-being at work was considered as the criterion variable, and resilience at work and working conditions, as predictors. A quiz was applied to collect the participants‟ social-demographic data and three valid Brazilian scales, being: Well-being-at-work Inventory (IBET-13), Resilience-at-Work Scale (ERT), and Work Context Evaluation Scale (EACT). Statistical, exploratory, and descriptive analysis were carried out, as well as regression analysis, and variance analyses (ANOVA) to describe participants, variables, and test the model. The results partly backed up the prediction model, for the social-professional factor confirmed itself as significant predictor for Well-Being at Work, when there was no significant prediction from the other variables (Working Conditions, Working Organization, and Resilience at Work). These data can reveal that good social-professional relationships tend to increase the satisfaction level and affective organizational commitment with the institution, as well as the increase in the engagement level of these professionals with their work. Keywords: Psycho-Social Attention Centers; Working Context; Well-being at work..

(11) 10. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 –Modelo Teórico Hipotético.............................................................. 80 Quadro 1–Descrição dos instrumentos utilizados na pesquisa....................... 90.

(12) 11. LISTA DE TABELAS Tabela 1 –. Revisão bibliométrica de BET.......................................................54. Tabela 2 –. Revisão bibliométrica de RET.......................................................77. Tabela 3 –. Número de participantes do estudo..............................................86. Tabela 4 –. Características pessoais dos participantes...................................88. Tabela 5 – Valores de Kolmogorov-Smirnov....................................................94 Tabela 6 -. Fidedignidade dos instrumentos do estudo...................................98. Tabela 7 –. Médias e desvios padrão das variáveis do estudo.......................99. Tabela 8 –. Valores dos Quartis.....................................................................101. Tabela 9 -. Comparação entre amostras........................................................102. Tabela10 – Correlações entre as variáveis (N = 81).....................................103 Tabela 11 – Resumo do modelo de regressão...............................................105.

(13) 12. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO................................................................................................15 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA......................................................................19 2.1 A história e o trabalho em Saúde Mental no Brasil: A conexão com um contexto de trabalho empobrecido...........................................................................19 2.2 BEM-ESTAR: SUBJETIVO, PSICOLÓGICO E NO TRABALHO..................19 2.2.1 Bem-estar no trabalho.................................................................................26 2.2.1.1 Satisfação no trabalho.............................................................................40 2.2.1.2 Envolvimento com o trabalho..................................................................43 2.2.1.3 Comprometimento organizacional afetivo...............................................47 2.2.2 Revisão bibliométrica (6 anos)....................................................................53 2.3 Resiliência......................................................................................................56 2.3.1 Resiliência como traço ou processo...........................................................64 2.3.2 Resiliência no Trabalho..............................................................................69 2.3.3 Revisão bibliométrica (6 anos)...................................................................76 3 DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA, OBJETIVOS, MODELO E HIPÓTESES............................................................................................79 3.1 OBJETIVOS GERAL......................................................................................79 3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS..........................................................................79 3.3 MODELO TEÓRICO E HIPÓTESES.............................................................80 3.4 DEFINIÇÕES CONSTITUTIVAS E OPERACIONAIS....................................81 3.3.1 Definições constitutivas e operacionais das variáveis do estudo................81 3.3.1.1 Definição das variáveis que integram contexto de trabalho....................81 3.3.1.2 Definição das variáveis que integram resiliência no trabalho..................82 3.3.1.3 Definição das variáveis que integram IBET..............................................83 4 MÉTODO...........................................................................................................83 4.1TIPO DE ESTUDO..........................................................................................84 4.2 PARTICIPANTES...........................................................................................84 4.2.1Procedimentos de amostragem...................................................................87 4.3 INSTRUMENTOS..........................................................................................88 4.3.1 Instrumentos de coleta de dados................................................................88 4.4 LOCAL............................................................................................................91 4.5 PROCEDIMENTOS........................................................................................91.

(14) 13. 4.5.1 Procedimentos de coleta de dados...................................................................91 4.5.2 Procedimentos de análises de dados................................................................92 5 RESULTADOS........................................................................................................93 5.1. ANÁLISES. PRELIMINARES. E. LIMPEZA. DO. BANCO. DE. DADOS.......................................................................................................................93 5.2 PRESSUPOSTOS DA ANÁLISE DE REGRESSÃO............................................95 5.2.1. Tamanho da amostra.....................................................................................95. 5.2.2. Honestidade das correlações........................................................................96. 5.2.3. Singulidade e multicolineraidade entre as VIs...............................................97. 5.2.4. Normalidade, linearidade, independência de resíduos, valores extremose. homoscedasticidade...................................................................................................97 5.3 FIDEDIGNIDADE DAS ESCALAS.......................................................................98 5.4 DESCRIÇÃO ESTATÍSTICA DAS VARIÁVEIS...................................................99 5.5 COMPARACÃO DOS GRUPOS DE PETROLINA E SBC.................................101 5.6CORRELAÇÕES ENTRE AS VARIÁVEIS..........................................................102 5.7 REGRESSÃO – O TESTE DA HIPÓTESE PRINCIPAL....................................104 6 DISCUSSÃO.........................................................................................................106 7CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................112 REFERÊNCIAS........................................................................................................117 ANEXOS...................................................................................................................126.

(15) 14. INTRODUÇÃO. Nas últimas décadas, o conceito de trabalho vem sofrendo significativas mudanças decorrentes das alterações ocorridas na forma de produção de bens e capitação de mãodeobra consequente da produção capitalista vigente desde a Revolução Industrial, que ficou caracterizada com “[...] o processo de submissão do trabalho ao capital, com a gradativa desapropriação dosmeios de produção e a decorrente geração da força de trabalho livre” (KRAWULSKI, 1998, p. 9). As repercussões dessas mudanças têm produzido impactos sobre a força de trabalho, refletidos nas relações trabalhistas e na saúde do trabalhador. Ainda que essas relações sejam exploradas desde a Antiguidade, estudos sistemáticos acerca desse tema só começaram a ser produzidos com maior tenacidade após a Revolução Industrial, “devido à necessidade de manter-se um padrão de produção sem perda de mão de obra, muitas vezes considerada especializada pelos padrões da época, e pelo crescimento demasiado dos centros urbanos” (CODO et al., 2004, p. 277). Desde então, muitas pesquisas têm sido desenvolvidas no que se refere à díade trabalho-saúde, impulsionados por uma exigência teórica e do mercado de trabalho. No que se refere ao trabalho entre profissionais de saúde, particularmente no campo da saúde mental, muitas alterações vêm ocorrendo nos últimos anos, desde o início da Reforma Psiquiátrica Brasileira na década de 1980 até a aprovação do Sistema Único de Saúde (SUS) em 1988. Esses marcos implicaram em transformações nas práticas dos trabalhadores de saúde, bem como na ampliação do seu lócus de trabalho, antes restrito ao modelo médico-hegemônico caracterizado pela supervalorização do médico em detrimento dos outros profissionais e do hospital como instância articuladora do sistema de saúde pública (SANTOS, 2004). No entanto, a consolidação do SUS trouxe um sério problema a ser discutido sobre a gestão de trabalho em saúde, pois em sua implementação houve um agravo na precarização do trabalho em saúde representada pela desregulamentação e flexibilização na forma de contratação dos trabalhadores, inclusive sem o estabelecimento de vínculo empregatício com a administração pública [...], ocasionando uma desproteção social e desrespeito aos direitos trabalhistas com salários „achatados‟ e condições de trabalho insatisfatórias (GUIMARÃES et al., 2011, p. 2.149)..

(16) 15. Assim, a precarização do trabalho em saúde e a consequente desvalorização dos profissionais dessa área podem ocasionar diversos problemas para a condição geral da saúde e do bem-estar desses indivíduos, tais como ansiedade, medo, insegurança, tensões, o que pode, de fato, comprometer o desenvolvimento profissional desses trabalhadores, bem como adoecer esses sujeitos, prejudicando suas condições físicas, emocionais e mentais para o desempenho laboral. Nesse contexto, entende-se que más condições de trabalho possam prejudicar o bem-estar e que a resiliência, compreendida como uma capacidade desenvolvível de recuperar-se de adversidades (LUTHANS; VOLGELGESANG; LESTER, 2006), deva promovê-lo. Pesquisas sobre bem-estar no trabalho (BET) apontam que esse é um aspecto fundamental para o desempenho do trabalhador em suas práticas laborativas,. além. de. influenciar. sua. saúde. e. impactar. nos. resultados. organizacionais, no desempenho desse trabalhador, no absenteísmo e na rotatividade (SIQUEIRA; PADOVAM, 2008; DESSEN; PAZ, 2010; MARTINS; SIQUEIRA; CHIUZI, 2012). Bem-estar no trabalho é resultado de um grupo de ações que se iniciam quando o trabalhador seleciona características positivas relacionadas ao contexto de trabalho, como se sentir útil, satisfeito com as atividades que desempenha e com seu papel na organização, nutrindo bons sentimentos como envolvimento com seu trabalho ou função, sentindo, direta ou indiretamente, que seu dia foi produtivo. Dessa forma, supõe-se que foi proveitosa sua produção e, consequentemente, sente-se comprometido afetivamente com a organização que o emprega. Já as pesquisas sobre a resiliência no trabalho são relativamente recentes; o assunto ainda é pouco investigado. Segundo Rutter (1985), a resiliência se configura como uma resposta positiva dada pelo indivíduo ao estresse e às adversidade que enfrenta. No entanto, a construção de resiliência em trabalhadores é resultado de um [...] mundo em constantes alterações que traz consigo várias de rupturas, com reflexos importantes sobre a saúde do trabalhador, o qual se esforça para ajustar sua identidade à metamorfose do mundo. Como meio de ajustamento às novas condições e exigências do trabalho, à flexibilidade de ação, de estrutura e de vida pessoal, tornou-se fundamental (MALVEZZI et al., 2008, p. 103)..

(17) 16. Sabe-se que a resiliência é um assunto promissor para a compreensão dos fatores presentes nas organizações, que podem prejudicar ou ajudar os indivíduos na resolução das intercorrências cotidianas. Assim, a ampliação de pesquisas sobre a resiliência no contexto de trabalho pode enriquecer a compreensão de possíveis relações com outros construtos da área e resultar em avanços importantes na apreensão das condições fundamentais que os indivíduos necessitam para poder desenvolver habilidades adaptativas e que. sejam. capazes de. responder. positivamente aos processos cotidianos, muitas vezes estressores. Neste estudo, pretende-se estender uma investigação anteriormente realizada como trabalho de conclusão de curso (TCC), intitulada “A influência dos vínculos organizacionais na consolidação dos Centros de Atenção Psicossociais” (ALVES; RIBEIRO; CÔRTES, 2013), cujos resultados evidenciaram a necessidade de se investigar as condições de trabalho nos CAPS e o impacto delas no bem-estar e na resiliência de seus profissionais, já que o trabalho citado apontou que esses estão expostos a más condições no contexto de trabalho, que geram insatisfação: falta de insumos para execução de suas atividades, de recursos humanos e de reconhecimento profissional, acúmulo de função e sobrecarga de trabalho. Além desses, outros aspectos negativos relacionados às condições do contexto de trabalho em CAPS que os participantes da investigação de Alves et al. (2013) apontam incluem o fato de a maioria desses funcionários estar vinculada a esses serviços por meio de contratos anuais, não possuindo estabilidade e benefícios trabalhistas, tais como férias, plano de saúde, décimo terceiro salário, folga, entre outros. Isso deixa evidente a vulnerabilidade desses profissionais, que, apesar de serem profissionais de saúde mental, não possuem qualquer assistência voltada para a própria saúde. Assim, levando em consideração esses resultados e os de outros estudos (GUIMARÃES; JORGE; ASSIS, 2011; REBOUÇAS; LEGAY; ABELHA, 2007; FEURERWERKER, 2005) que apontam dados semelhantes à pesquisa realizada por Alves et al. (2013), o presente trabalho visa investigar se as condições de trabalho e a resiliência produzem impacto no bem-estar dos trabalhadores dos CAPS. Esta investigação, que aborda o impacto das condições de trabalho e da resiliência sobre o bem-estar de profissionais dos CAPS se justifica pelo potencial de poder acrescentar achados aos conhecimentos da área. Resultados de pesquisas.

(18) 17. anteriores sugerem que bem-estar e resiliência no trabalho produzem impacto sobre a saúde dos trabalhadores (MALVEZZI et al., 2008; RESENDE, MARTINS; SIQUEIRA, 2010; CHIUZI; MARTINS; SIQUEIRA, 2012; MARTINS; EMÍLIO, 2012). Além disso, compreender melhor essas relações pode resultar em benefícios aos atendidos por esses profissionais, na dinâmica dos serviços prestados por eles e em sua postura profissional. Apesar do crescimento das pesquisas sobre bem-estar no trabalho nos últimos anos devido principalmente ao “número crescente de transtornos mentais e do comportamento associados ao trabalho” (JACQUES, 2003, p. 98), no Brasil, segundo dados do INSS, os transtornos mentais ainda ocupam a terceira posição entre as causas de concessão de benefícios previdenciários como auxílio-doença, afastamento do trabalho por mais de 15 dias e aposentadorias por invalidez (BRASIL, 2001). Esses dados evidenciam que, além do alto custo para a previdência social brasileira, o adoecimento dos trabalhadores está estritamente vinculado ao trabalho em si e às relações cultivadas nestes ambientes. Estudos mais específicos sobre a resiliência e o bem-estar em trabalhadores podem colaborar para o desenvolvimento de novas habilidades nesses indivíduos, a fim de que consigam apreender melhor as condições de seu trabalho e possam, consequentemente, ter respostas mais positivas e adaptativas em relação a esse contexto, pois, segundo Waller (2001 apud Malvezziet al.,2008, p.104): [...] encontram-se indicações de que não é na ausência da adversidade, mas muitas vezes, em função de sua presença, que ocorre o processo de resiliência e é o enfrentamento mesmo da situação adversa que possibilita o crescimento psicológico do indivíduo, promovendo benefícios à saúde mental (WALLER, 2001 apud MALVEZZI et al., 2008).. Dessa forma, o trabalho terá um significado mais prazeroso e coerente para esses trabalhadores, que possivelmente adoecerão menos e prestarão serviços mais humanizados ao público que atendem. Podem, outrossim, colaborar para que melhores condições de trabalho sejam respeitadas, caso se confirme a hipótese de que elas sejam preditoras de bem-estar no trabalho, já que estudos têm revelado ser esse um preditor de resultados organizacionais e de saúde (RESENDE; MARTINS; SIQUEIRA, 2010; CHIUZI; MARTINS; SIQUEIRA, 2012; EMÍLIO; MARTINS, 2012)..

(19) 18. A segunda justificativa para a presente pesquisa refere-se ao fato de os CAPS serem instituições relativamente novas, que ainda estão em processo de consolidação e nas quais alterações importantes ainda podem ser realizadas. Essa peculiaridade abre amplas possibilidades de investigação acerca deste trabalho, desses indivíduos e de como, apesar de tantas dificuldades e intercorrências, conseguem manter o funcionamento de serviços complexos como o CAPS e gerenciar os processos emocionais e psicológicos decorrentes do trabalho..

(20) 19. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA. 2.1 A HISTÓRIA E O TRABALHO EM SAÚDE MENTAL NO BRASIL: A CONEXÃO COM UM CONTEXTO DE TRABALHO EMPOBRECIDO. A reforma psiquiátrica no Brasil começou de forma tardia, na década de 1970, paralelamente ao “movimento sanitário”, que visava à mudança dos modelos de atenção e gestão nas práticas de saúde, defesa da saúde coletiva, equidade, entre outros (BRASIL, 2005). Apesar de ser contemporâneoà Reforma Sanitária, o processo da reforma psiquiátrica brasileira tem um contexto singular, consequente de um panorama internacional de mudanças pela modificação do cuidado às pessoas com sofrimento psíquico e, dentre outras coisas, pela extinção do tratamento e violência asilar. O movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira fomentou a construção de políticas e de mecanismos substitutivos ao modelo manicomial asilar. Esse movimento teve amplo alcance político e social no Brasil, tendo como precursor a crise da Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM), resultado de reivindicações dos trabalhadores da área de saúde mental por melhores condições de trabalho. A repercussão alcançada por esse movimento culminou em vários debates e discussões sobre o tema, gerando novas propostas e consequentes mudanças na atenção à saúde, em especial na saúde mental (ALVES et al., 2013, p. 2.966). Nesse panorama de mudanças, políticas públicas foram criadas e a extinção progressiva dos hospitais psiquiátricos foi um dos pilares dessas transformações. No lugar desses, foram criados serviços comunitários substitutivos, tais como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que têm importância na conjuntura atual nos serviços públicos de saúde mental no Brasil e se configuram enquanto [...] serviços comunitários ambulatoriais e regionalizados, nos quais os pacientes deverão ter acesso a consultas médicas, visitas domiciliares, atendimentos terapêuticos individuais e/ ou grupais. Além disso, podem participar de ateliês abertos, de atividades lúdicas e recreativas promovidas pelos profissionais do serviço, de maneira mais ou menos intensiva e articulada em torno de um projeto terapêutico individualizado, voltado para o tratamento e reabilitação psicossocial, devendo também haver iniciativas extensivas aos familiares e às questões de ordem social presentes no cotidiano dos usuários (ONOCKO-CAMPOS; FURTADO, 2006, p. 1.055)..

(21) 20. Desse modo, segundo dados do Ministério da Saúde (BRASIL, 2005), o CAPS é um serviço gratuito, vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS), que atende usuários que tenham algum sofrimento psíquico. O foco principal dessas instituições é a reinserção social desses usuários, restabelecendo sua cidadania, além de fornecer apoio, atividades e ser um centro de referência para seus usuários e familiares. No que concerne à equipe técnica dos CAPS, essa geralmente inclui psiquiatras, psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, técnicos de enfermagem, farmacêuticos, técnicos administrativos, auxiliares de serviços gerais, vigilantes, técnicos educacionais e artesãos, podendo haver variações em cada tipo de serviço, segundo a necessidade de cada instituição. A portaria nº 336/GM, de 19 de fevereiro de 2004 (BRASIL, 2010), que redireciona o modelo assistencial em saúde mental, estabelece a quantidade de profissionais nesses serviços de acordo com a demanda municipal, bem como preconiza quais as atividades devem ser ofertadas e supervisionadas nessas instituições. Além dessas características operacionais do trabalho em CAPS, existe a compreensão desses trabalhadores acerca do conceito de loucura e os modos de perceber e lidar com essa realidade também pode interferir no cotidiano em saúde mental, [...] que representa grandes desafios, em virtude de sua complexidade, que comportam diversas interfaces, as quais vão da reestruturação dos serviços à qualidade da assistência prestada, passando pelas relações de trabalho e pela adoção de novos saberes, tecnologias e metodologias de trabalho (GUIMARÃES et al., 2011, p. 2.146).. Toda essa conjuntura de mudanças e de exigências, muitas vezes desconectadas, pode contribuir para a falta de articulação entre os profissionais, para o adoecimento deles, sua rotatividade e absenteísmo no serviço. Feurerwerker (2005) defende ser imprescindível perceber que, nesse processo de transição pelo qual a saúde mental vem passando no país, os profissionais desses serviços ganham uma acuidade particular, pois, devido à desarticulação política e a problemas nas gestões municipais e estaduais, são eles que operacionalizam os serviços, que prestam assistência aos usuários, e, dessa.

(22) 21. maneira, apesar do contexto de trabalho e da falta de reconhecimento profissional, são eles que mantêm os serviços funcionando. Apesar de haver poucos estudos nacionais acerca desse tema, segundo Rebouças et al. (2007), existem pesquisas internacionais que abordam este tema apontam o trabalho em saúde mental como sendo, potencialmente, um fator de estresse e esgotamento, que pode comprometer a qualidade da assistência prestada nesses serviços e, consequentemente, inviabilizar a continuidade desses estabelecimentos. Assim sendo, os aspectos relacionados à saúde e ao trabalho estão imbricados socialmente e são relevantes cientificamente, pois, segundo CODO et al. (2004, p. 276), “parte significativa dos fenômenos que a psicologia estuda provém, tem sua origem, é explicada no e pelo trabalho. O trabalho é um objeto necessário para se compreender os fenômenos psicológicos”. Dessa maneira, o trabalho pode ser compreendido como parte constitutiva do sujeito, interferindo e influenciando em suas experiências de vida e saúde no geral.. 2.2 BEM-ESTAR: SUBJETIVO, PSICOLÓGICO E NO TRABALHO. O conceito de felicidade sempre foi algo que intrigou os seres humanos, e, desde a Grécia Antiga, Aristóteles e outros filósofos já buscavam apreender seu significado, amplitude e como a felicidade poderia influenciar na vida pessoal e na dinâmica social dos seres humanos (KEYES; SHOMOTKIN; RYFF, 2002). O bem-estar, durante muito tempo, esteve associado ao conceito de felicidade, e, dessa forma, permaneceu desfavorecido no meio científico, pois os cientistas consideravam esse tema um tanto amplo e sem relevância para as pesquisas científicas (DIENER; SCOLLON; LUCAS, 2003; WILSON, 1967). Fatores sociais e históricos, como a Segunda Guerra Mundial e suas consequências, também favoreceram para que a psicologia científica detivesse sua atenção nas novas patologias e na busca de cura para as novas patologias pós-guerra. Assim, até pouco tempo atrás, não havia espaço para pesquisas que buscassem “a identificação de fatores promotores de bem-estar” (RESENDE, 2008, p. 15). As primeiras pesquisas sobre o tema usavam diversos termos para tentar compreender esse conceito, tais como: felicidade, satisfação, estado de espírito, moral, afeto positivo, avaliação subjetiva de vida, entre outros (DIENER, 1984)..

(23) 22. Apesar de o construto de bem-estar ter sido separado do conceito de felicidade procedente da filosofia, as concepções científicas mais relevantes sobre o bem-estar no campo psicológico podem, segundo Ryan e Deci (2001), ser organizadas em duas vertentes: a hedonista, que aborda a felicidade e adota uma visão de bem-estar vinculada ao prazer e ao estado subjetivo de felicidade, e a eudaemônica, que investiga o potencial humano, sua capacidade de pensar, usar o raciocínio e o bom-senso, e que seria considerada como bem-estar psicológico. O conceito de bem-estar dentro do campo da Psicologia possui várias concepções, evidenciando que existem construções teóricas divergentes com objetos de estudo distintos, dentre eles: o bem-estar subjetivo (segundo a visão hedônica), bem-estar psicológico (sobre a ótica das potencialidades intrínsecas), bem-estar social (fruto das habilidades no trato e inserção social) e bem-estar no trabalho (conjunto de vínculos positivos com o trabalho e a organização). O presente trabalho enfatizará o bem-estar no trabalho e suas principais concepções teóricas, apoiado na Psicologia Positiva, que visa investigar os aspectos positivos na relação indivíduo-organização, contrapondo-se às concepções patologizantes sobre as relações de trabalho. As pesquisas sobre a felicidade humana iniciaram-se no final da década de 1950, com o intuito de buscar e identificar os promotores de qualidade de vida. Nesse período, as investigações queriam entender sistematicamente os aspectos que favoreciam uma existência feliz, a fim de monitorar a mudança social que vinha ocorrendo no período e melhorar as condições sociais dos sujeitos (LAND, 1975). Importantes teóricos dessa fase elucidaram que, embora as pessoas vivessem em determinados ambientes, favoráveis ou não para sua qualidade de vida, de acordo com os aspectos teóricos produzidos até o período, eram os aspectos subjetivos de cada um deles, a forma como compreendiam e percebiam sua realidade, que determinariam o seu nível de bem-estar (ANDREWS; WHITNEY, 1976; CAMPBELL; CONVERSE; RODGERS, 1976). A partir desses resultados, a percepção individual de felicidade passou a ser entendida como fator extremamente relevante para a qualidade de vida das pessoas. Seguidamente, outras influentes produções teóricas destacaram que a satisfação com a vida e a felicidade seriam componentes cruciais para a qualidade de vida (BRADBURN, 1969; CANTRIL, 1965; GURIN; VEROFF; FELD, 1960). Esses resultados favoreceram o interesse por pesquisas sobre o desenvolvimento pessoal e bem-estar, que ganhou destaque na literatura científica a.

(24) 23. partir de 1960 (RYAN; DECI, 2001), com o intuito de descobrir os indicadores da felicidade subjetiva, a fim deque se pudesse monitorar o ambiente social e influenciarpolíticas públicas (KEYES; SHMOTKIN; RYFF, 2002). O termo bem-estar subjetivo foi utilizado pela primeira vez por Diener em 1984.Ao fazer uma longa revisão teórica sobre os conceitos de bem-estar e felicidade, esse autor constatou que poucos progressos conceituais haviam sido realizados desde os antigos filósofos gregos, e que o conceito de bem-estar permanecia atrelado à felicidade. Ao revisar toda a construção teórica existente até então, Diener (1984) conseguiu distribuir o conceito de felicidade em três categorias: o bem-estar definido como uma virtude ou santidade, o bem-estar como uma avaliação geral positiva da vida e, por fim, o emprego desse termo pela forma que é utilizado cotidianamente, como sendo a preponderância dos afetos positivos em detrimento dos sentimentos negativos. Ao denominar o conceito de bem-estar subjetivo (BES), Diener (1984) conseguiu estabelecer sua constituição teórica como sendo um ideal subjetivo do que seria ter uma vida, boa, justa e feliz. Isso significa que BES é um esforço pessoal para a realização do potencial humano (HUDSON, 1996) e, por isso, seria um estado desejável julgado a partir de uma perspectiva particular do sujeito. Esse conceito é composto por três características fundamentais que o distingue de outros conceitos: a subjetividade, medidas positivas e uma avaliação global. A subjetividade diz respeito a uma concepção intrínseca do indivíduo sobre sua vivência e que não pode ser avaliada mediante condições externas, e sim através do autorrelato do sujeito, que constrói essa experiência através de suas crenças, seus padrões e valores para motivar uma vida feliz. As medidas positivas configuram a prevalência de afetos positivos no estudo de BES em detrimento dos afetos negativos, e, por último, a avaliação global, que abarca todos os aspectos da vida do indivíduo, mas que possui a ênfase da sua avaliação sobre os afetos e a satisfação com os outros aspectos da vida (MELO, 2007). Assim, Campbell (1976) afirma que o BES é uma experiência interna de cada indivíduo, ou seja, ele é apreendido e avaliado por meio das experiências individuais e subjetivas, consistindo numa autoavaliação manifestada frente a sentimentos positivos que se sobressaem aos afetos negativos, pela avaliação geral com a vida como um balanço global da saúde, trabalho, independência, vida afetiva, entre outros. Ou seja, a forma como as.

(25) 24. pessoas enxergam e percebem os aspectos positivos da sua vida perpassa por questões afetivas e cognitivas (ALBURQUERQUE; TRÓCCOLI, 2004). Contudo, o BES está sendo estudado como um processo cognitivo de julgamento e atribuição de valores de acordo com a experiência emocional do sujeito, englobando os fatores emocionais subjetivos, como metas e perspectivas de vida, percepção da realidade, fatores sociais e culturais (DIENER, 2000). Os estudos acerca do bem-estar psicológico (BEP) durante muito tempo estiveram associados ao bem-estar subjetivo (BES), e com o trabalho de Ryff (1989) foi possível definir a estrutura básica que abarcaria esse conceito em sua totalidade. Em seus trabalhos, Ryff discrimina a diferença entre bem-estar subjetivo (BES) e bem-estar psicológico (BEP), definindo esse último como sendo competências do self referentes a diferentes níveis de satisfação e afetos que vão sendo desenvolvidas ao longo da vida. O principal modelo teórico utilizado na atualidade compreende seis aspectos construtores do BEP: a autoaceitação, relações positivas com os outros, autonomia, domínio ambiental, objetivo na vida e crescimento pessoal. A autoaceitação é vista como uma característica central para a saúde mental, caracterizada pela autorrealização, funcionamento ideal e maturidade. As relações positivas com os outros são expressas pela capacidade do sujeito em manter relações afetivas e empáticas com as pessoas ao seu redor através de uma relação interpessoal de confiança. A autonomia é caracterizada por aspectos como autodeterminação, independência e controle das emoções. O domínio ambiental é composto pela capacidade de escolher e criar ambientes adequados às suas condições psíquicas, ou seja, seria a habilidade de interagir e modificar o mundo externo para torná-lo mais favorável a si mesmo. Possuir um objetivo na vida é compreendido como ter senso de direção, disposição e intenção, a fim de tornar a vida significativa. E, por último, o crescimento pessoal é tido como a capacidade de manter o próprio processo de desenvolvimento, priorizando a autorrealização e a realização das próprias potencialidades. Ryff (1989; 1992) propôs esse modelo teórico o qual foi fundamentado segundo os preceitos aristotélicos de eudaimonia, que denota a busca pela excelência pessoal e não a busca de prazer, como motivação central da existência humana (QUEROZ; NERI, 2005, p. 292). Esse conceito demonstra que o senso de bem-estar psicológico é compreendido pela relação e interação entre as.

(26) 25. oportunidade e as condições de vida do sujeito, que é característico de como as pessoas organizam o conhecimento sobre si e sobre os outros e, posteriormente, as formas como respondem às demandas pessoais e sociais (QUEROZ; NERI, 2005). Outros. autores,. como. Keyes. e. seus. colaboradores. (2002),também. investigaram a relação entre os construtos bem-estar psicológico e bem-estar subjetivo.. Esses. autores. acreditavam. que. ambos. os. construtos. fossem. conceitualmente relacionados e empiricamente separados e que os resultados se divergiam apenas em relação aos dados sociodemográficos, como idade, nível de escolaridade e de personalidade. Porém, os resultados da pesquisa de Keyeset al. (2002) revelaram que essas escalas se diferem na compreensão do funcionamento psicológico positivo, no que concerne à avaliação do propósito de vida e do crescimento pessoal. BES envolve avaliações mais globais do afeto e da qualidade de vida, enquanto que BEP investiga como o indivíduo prospera frente aos desafios existenciais da vida, por exemplo, buscando objetivos de vida significativos, para que possa crescer e se desenvolver como pessoa e estabeleça laços de confiança com os outros. Assim, a dita felicidade depende do comprometimento em buscar uma vida significativa e com propósito, e por isso BEP antecede BES. Dessa forma, a pesquisa de Keyeset al. (2002) resultou na confirmação de que as duas tradições de bem-estar são empiricamente distintas, mas que se complementam no sentido de que podem ser utilizadas como variáveis mediadoras, dependendo da teoria orientadora. Assim, pode-se inferir que, quando essas variáveis existem em níveis equivalentes, BES e BEP podem complementar um ao outro, favorecendo uma percepção de autocongruência (KEYES et al., 2002). Ou, de outro modo, que, para o indivíduo alcançar níveis satisfatórios de bem-estar subjetivo, deve procurar desenvolver habilidades adaptativas frente às adversidades, possuir objetivos na vida, relações interpessoais afetivamente satisfatórias, capacidade de conviver e de alterar os ambientes a favor de si mesmo, a fim de que possa prosperar na vida. Os conceitos de bem-estar subjetivo e bem-estar psicológico foram expostos com maior cuidado teórico, pois eles ajudaram a fundamentar e consolidar o construto de bem-estar no trabalho, um dos objetos teóricos desta pesquisa..

(27) 26. 2.2.1 Bem-estar no trabalho. A concepção de bem-estar no trabalho está em construção na literatura e ainda não possui muito consenso prático. Isso é decorrente, principalmente, da variedade de abordagens e modelos teóricos encontrados sobre o tema. Por muito tempo, assim como ocorreu com as pesquisas generalistas sobre a psicologia, a literatura que estuda as relações entre características humanas e o trabalho focouse nas consequências negativas do trabalho na vida do trabalhador e, consequentemente, apreendia a organização como a principal fomentadora do adoecimento desse sujeito. A relação homem-trabalho é algo tão antigo que está vinculada à própria história do desenvolvimento do ser humano. Histórica e politicamente, a humanidade se estrutura, quase em sua totalidade, em função do conceito de trabalho (ARAÚJO; SACHUK, 2007). Até o período dos feudos, do ponto de vista econômico, o trabalho era autossuficiente porque produzia os bens necessários para a manutenção dos seus habitantes e para as trocas. Segundo Rubano e Moroz (2003), o controle do trabalho era exercido pela produção, o que permitia ao trabalhador o domínio da técnica, administração do tempo e maior liberdade, apesar da ausência dos direitos políticos. A partir desse período, o comércio ganhou impulso e as cidades começaram a surgir paralelamente aos feudos. O comércio deixa de ser restrito aos feudos e à própria cidade e passa a existir o intercâmbio de mercadorias e dos produtores. O movimento dessas relações comerciais modifica de tal forma a concepção de trabalho que a industrialização da mão de obra não tardou a chegar, ocasionando a crise no sistema feudal. Esse momento pode ser descrito como “a crise da ordem feudal, fundada na subsistência e na servidão, e o desenvolvimento do comércio e das atividades manufatureiras organizam uma nova estrutura social: a sociedade capitalista” (ARAÚJO; SACHUK, 2007, p. 58). A indústria moderna e o desenvolvimento do capitalismo caminharam juntos; as mudanças ocorridas foram drásticas no que concerne à forma de trabalhar e ao valor do trabalho. Nesse período, o trabalho ganha outra conotação e passa a ser o foco central da vida e do desenvolvimento do ser humano. Desde então, o homem perdeu a autonomia sobre sua força de trabalho e começou a depender das organizações como mediadora para o desempenho laborativo, para obtenção do seu.

(28) 27. sustento, e como principal instrumento de favorecimento ou desfavorecimento desse trabalhador. Ou seja, exceto pelos recursos individuais para o seu desenvolvimento, é a organização que possui o controle das variáveis que podem tornar esse trabalho saudável ou não, que pode favorecer o desenvolvimento profissional desse sujeito, a fim de que ele possa significar o trabalho em busca de sua autorrealização (ARAÚJO; SACHUK, 2007). No entanto, nem sempre as organizações estiveram com o olhar focado no florescimento dos seus trabalhadores. Durante muito tempo, as empresas estiveram focadas apenas na produtividade e na lucratividade, desconsiderando os aspectos referentes ao bem-estar desses trabalhadores. Com o desenvolvimento e expansão da globalização, o contexto das organizações vem se modificando com bastante rapidez e se exigem dessas organizações uma maior produtividade e flexibilidade para conseguirem adaptar-se às demandas do mundo globalizado e capitalista (ROSSEAU, 1997 apud ARAÚJO; SACHUK, 2007). Toda essa velocidade de informação e de exigências tem levado as empresas a empreenderem maior atenção na sua força de trabalho, buscando promover melhorias nas condições laborativas, bem como na qualidade de vida do trabalhador, pois hoje há uma maior compreensão do seu valor no alcance e na manutenção dos resultados organizacionais. Os estudos sistematizados acerca do bem-estar no trabalho eclodiram nos anos 1980, inicialmente com um trabalho de Warr (1987), que apresentou um modelo para a investigação da saúde mental. Esse modelo fomentou diversas sobre o bem-estar no trabalho segundo as perspectivas do bem-estar psicológico (descritores) e possuía o objetivo de compreender o impacto de variáveis do contexto de trabalho, em forma de emprego ou desemprego, sobre a saúde mental do sujeito. O modelo proposto por Warr (1987) para a investigação da saúde possui cinco dimensões: bem-estar, competência, autonomia, aspiração e integração. O bem-estar seria um estado afetivo positivo do indivíduo composto por duas variáveis: prazer e excitação. Considerava que altos níveis de prazer refletiam uma boa saúde mental e a excitação seria um componente independente e potencializadordas características,ou seja, poderiaestar associadoa altos níveis de prazer (alta saúde mental) como a baixos níveis (baixa saúde mental). A segunda variável, competência composta por habilidades emocionais, cognitivas e psicomotoras,.

(29) 28. refere-se aos recursos psicológicos adquiridos pelo sujeito para enfrentar as adversidade cotidianas e as pressões do dia a dia. O autor enfatiza que a noção de competência varia de sujeito para sujeito dependendo do contexto no qual o indivíduo está inserido. A terceira variável, a autonomia, compreende as habilidades individuais para resistir e administrar as pressões do ambiente, de forma que possa construir suas próprias opiniões e fundamentar suas ações. É a capacidade do sujeito de atuar sobre o ambiente de forma independente e interdependente, composta por suas opiniões, responsabilidade e interação social. A quarta variável, a aspiração, consiste no interesse do indivíduo pelo ambiente no qual está inserido e manifestase pelo estabelecimento de metas e pelo esforço ativo para atingi-las (WARR, 1987). Níveis moderados de aspiração revelam boa saúde mental, enquanto que níveis muito baixos ou muito altos comprometem a saúde mental do sujeito, já que ambas as polaridades revelam que o sujeito subestima ou superestima demais suas capacidades .Por último, existe a variável denominada integração, que se refere ao funcionamento integrado e geral do indivíduo. Diferentemente das outras variáveis, essa é uma dimensão qualitativa e compreende a relação entre as outras quatro componentes. Para esse autor, uma pessoa psicologicamente saudável deve possuir uma integração das quatro variáveis acima, para que possa ter uma vida equilibrada e em harmonia. Esse modelo proposto por Warr (1987) obteve boa aceitação no meio acadêmico e de pesquisa, favorecendo as pesquisas voltadas ao contexto de trabalho. As primeiras pesquisadas sobre o bem-estar no trabalho utilizavam aspectos conceituais do bem-estar subjetivo e de satisfação no trabalho para avaliar o BET, e, por isso, o conceito, até recentemente, esteve associado a afetos positivos que o indivíduo apresentava pelo seu trabalho (SOUZA-POZA; SOUZA-POZA, 2000). A revisão teórica do conceito foi realizada por Brief e Roberson (1989 apud PASCHOAL; TAMAYO, 2008), quando esses autores constataram a existência de vários outros estudos nos quais o bem-estar ocupacional não se restringia apenas a elementos afetivos como a satisfação no trabalho. Outros pesquisadores seguiram analisando o bem-estar ocupacional, e Daniels (2000), baseando-se em outras pesquisas existentes na área, as quais utilizavam o BEP no contexto de trabalho, revela que esses autores estavam misturando o bem-estar em si com os possíveis aspectos cognitivos antecedentes..

(30) 29. Dessa forma, utilizou como base em suas pesquisas o bem-estar afetivo no trabalho, pois, conforme esseautor, o aspecto mais importante do bem-estar é o afeto. Daniels (2000) buscou delimitar e sistematizar a estrutura do conceito de bem-estar no trabalho, focando sua investigação nas respostas dos indivíduos, nas características pessoais desses e nas experiências advindas do ambiente laboral. Para ele, o bemestar afetivo consiste num processo cumulativo de afetos em relação a todas as esferas da vida, e por isso poderia ser direcionado às relações de trabalho. Os afetos nessa esfera correspondem aos humores e às emoções vivenciadas pelo trabalhador em seu ambiente de trabalho e fora dele. Daniels (2000) propõe apenas a consideração do afeto na avaliação do bem-estar no trabalho, ou seja, que o bemestar deve ser investigado enquanto prevalência de emoções positivas no trabalho. Ao se falar de afeto no meio organizacional, existem duas linhas de pesquisas preponderantes no assunto: o estudo do humor e das emoções no trabalho. De acordo com Brief e Weiss (2002), durante quase um século de pesquisas, oafeto esteve erroneamente vinculado à satisfação no trabalho, sendo considerados como construtos equivalentes. Os estudos acerca das emoções e do humor no trabalho tiveram um ápice na década de 1930, fruto do fenômeno social da época que buscava compreender a importância dos sentimentos na vida do trabalhador e da ampliação. dos métodos para. sua. investigação. (FISHER;. HANNA,. 1931;. KORNHOUSE; SHARP, 1932). Os estudos realizados durante esse meio século estavam restritos aos instrumentos investigativos, não faziam uso de instrumentos qualitativos ou de entrevistas e permaneciam focados no ambiente laboral, não considerando as relações econômicas, os afetos e as relações fora desse ambiente (BRIEF; WEISS, 2001). Em meados dos anos 1980 e início dos anos 1990, os pesquisadores organizacionais redescobriram os “estados de espírito” e as emoções. Na literatura nacional, a expressão “estados de espírito”vem sendo significada como humor, e, nas pesquisas conseguintes, investigou-se que o humor é responsável por um grupo de estados de sentimentos generalizados, que não são facilmente percebidos e que não são intensos ao ponto de interromper o fluxo de pensamento ou de ações (CLARK; ISEN, 1982; THAYER, 1989). Alternativamente, as emoções estão associadas a eventos ou a ocorrências específicas e são intensas ao ponto de interromper o processo de sentimento ou o curso de uma ação (FRIJDA, 1993; SIMON, 1982; ZAJONC, 1998). No desenvolvimento teórico sobre os afetos no.

(31) 30. trabalho, o humor é compreendido em torno de duas dimensões (positivo ou negativo), pois possui menos intensidade e maior durabilidade que as emoções (WATSON, 2001), enquanto que as emoções são intensas e entendidas por suas manifestações discretas, tais como sentir medo, raiva ou alegria. Nesse aspecto, o humor pode ser considerado como um resumo afetivo da pessoa. Utilizando o conceito de saúde mental de Warr (1987) e a teoria de Ryff (1989), Van Horn et al. (2004) desenvolveram uma definição e uma estrutura sobre bem-estar laboral. O construto criado por eles abarcou a importância dos aspectos afetivos, motivacionais, comportamentais, cognitivos e psicossomáticos, sendo composto por cinco variáveis: a dimensão afetiva, o bem-estar profissional, bemestar social, cansaço cognitivo e a dimensão psicossomática. A dimensão afetiva abarca aspectos positivos e negativos como afeto, a satisfação no trabalho, o comprometimento organizacional e a exaustão emocional. Essa dimensão investiga os aspectos emocionais do vínculo organizacional, se o contexto laboral promove sentimentos de bem-estar e identificação com ele ou se o trabalho esgota afetivamente o trabalhador. O segundo componente, o bem-estar profissional, é composto por três características: autonomia, aspiração e competência profissional. Essa variável compõe a estrutura motivacional do construto, pois valia a capacidade de o indivíduo tomar suas próprias decisões, formar sua opinião sobre o contexto de trabalho, a fim de que possa estabelecer metas e objetivos para o seu desenvolvimento profissional, além de competência para lidar com os problemas ocupacionais. O. bem-estar. social,. terceiro. elemento. desse. construto,. avalia. o. comportamento laborativo por duas óticas: despersonalização e a qualidade das relações sociais no trabalho. A despersonalização, segundo o viés do esgotamento profissional, se expressa por meio de atitudes negativas ou exaustão profissional, se expressa por meio de atitudes negativas ou indiferentes frente aos colegas de trabalho. Já a concepção da qualidade das relações sociais no trabalho leva em conta a percepção de ser uma referência para os colegas de trabalho e se caracteriza pela procura por conselhos e suporte por parte desses colegas. A quarta dimensão, o cansaço cognitivo, configura-se como o aspecto cognitivo do bem-estar laboral, e abarca a capacidade do trabalhador em assimilar novas informações e, ao mesmo tempo, permanecer concentrado em suas atividades. Ou seja, o quanto que esse indivíduo consegue acumular conhecimento.

(32) 31. sem se cansar cognitivamente ou perder o foco no seu trabalho. Por fim, a dimensão psicossomática refere-se à presença ou ausência de queixas psicossomáticas, como dores de cabeça ou de estômago (VAN HORN et al., 2004). Os testes estatísticos realizados para a validação desse construto mostraram que as variáveis estavam relacionadas entre si, enfatizando sua característica multidimensional. O construto de bem-estar desenvolvido por Van Horn et al. (2004) foi muito relevante na compreensão do bem-estar laboral; no entanto, as dimensões utilizadas por eles para a construção teórica são amplas, generalistas e possuem muitos aspectos comuns a outros construtos, o que dificulta sua identificação e fortalecimentoteórico dentro dos conceitos organizacionais. Complementando a pesquisa de Van Horn et al. (2004), outros autores, como Kelloway e Barham (1999), afirmam que, quanto maior a possiblidadeque o indivíduotem de decidircomo realizar as tarefas e estruturar papéis de trabalho, menores são as consequências como sintomas psicossomáticos e afeto negativo, por exemplo. Segundo Paschoal e Tamayo (2008), a falta de controle no trabalho pode ser considerada como um tipo de estressor organizacional. No modelo de Van Horn et al. (2004), a variável denominada como autonomia equivale a essa possibilidade de modificar o ambientede trabalho,de poder expressar suas opiniões e executar suas atividades conforme sua capacidade, podendo, assim, ser considerada como um antecedente do afeto positivo. Ou, no caso da ausência da autonomia, ser antecedente do afeto negativo. Seguindo com suas investigações acerca do impacto do estresse na saúde mental dos indivíduos, Warr (1999) propôs a conceituação de bem-estar no trabalho em termos exclusivamente afetivos (humores e emoções). Mais tarde, esse mesmo autor passa a defender dois eixos centrais para a existência do bem-estar no trabalho: um considerando os sentimentos positivos vivenciados pelo indivíduo no trabalho (hedonismo), e o segundo baseado na importância do desenvolvimento de atributos pessoais, como desempenho do próprio potencial, autonomia e realização (eudaemonismo). No Brasil, a produção acerca do tema ganha amplitude com o trabalho desenvolvido por Paz (2004), que apresenta uma escala de bem-estar voltada para a avaliação dos contextos organizacionais.Baseada na abordagem sistêmica e em pesquisas sobre a saúde do trabalhador, essa autora concebe o bem-estar enquanto processo, definindo-o como a satisfação de necessidades e a realização de desejos.

(33) 32. dos indivíduos ao desempenhar seu papel na organização (DESSEN; PAZ, 2010). Essa linha teórica responsabiliza a organização pela promoção e manutenção do bem-estar dos seus funcionários, tanto na parte da promoção da saúde individual como na parte operacional, ou seja, na elaboração de ambientes e atitudes positivas frente ao trabalho. Segundo essa concepção, o bem-estar é fruto de uma relação de reciprocidade entre o empregado e a organização, e, dessa maneira, sofre influências de ambos os lados, podendo ser afetado por características dos indivíduos e organizacionais. Esse construto é fundamentado na ideia de que as organizações são ambientes abertos em permanente troca com o meio; sendo assim, o trabalhador é compreendido como agente ativo da própria saúde. A avaliação do bem-estar é baseada na percepção do próprio indivíduo sobre as relações de troca e reciprocidade que ele mantém com a organização. A noção de reciprocidade empregada nesse conceito é caracterizada pela responsabilidade do empregado e da organização, no que concerne a ofertar e manter relações e ambientes saudáveis para que haja a promoção do bem-estar do trabalhador. Nessa relação pela construção do bem-estar, cabe ao trabalhador exercer sua função e suas atividades conforme o estabelecido,para que a organização permaneça em crescimento, e, em contrapartida,a instituição empregadora deve ofertar a esse profissional os recursos necessários para a execução de suas obrigações, mas, acima de tudo,não prejudique a saúde desse trabalhador,zelando pelo seu bem-estar.Segundo Paz (2004), esse construto é composto por dois eixos: gratificação e descontentamento. O primeiro eixo é composto por sete variáveis baseadas na percepção do trabalhador, sendo essas: a) valorização do trabalho: refere-se à percepção do próprio funcionário sobre a importância do seu trabalho para si, para a organização e para a sociedade; b) reconhecimento pessoal: resulta da percepção do profissional sobre o seu trabalho e desempenho, se esses são percebidos e admirados por seus chefes e colegas, como também se seu esforço é recompensado; c) autonomia: terceiro indicador diz respeito à percepção do trabalhador sobre a liberdade para executar seu trabalho conforme seu estilo pessoal; d) quarta variável, a expectativa de vida é resultado da percepção do indivíduo sobre a possibilidade de desenvolvimento pessoal e profissional;.

(34) 33. e) os recursos financeiros, como penúltimo fator, resultam da percepção de justiça entre o trabalho desempenhado e o salário que recebe; f) e, por fim, os indicadores orgulho e suporte ambiental. O orgulho é compreendido. pelo. sentimento. positivo. de. pertença. à. instituição. empregadora, enquanto que o suporte ambiental é percebido como o apoio da chefia da chefia, dos colegas e da instituição, no que diz respeito ao suporte operacional para execução de suas atividades. Nessa concepção teórica, é importante salientar que, para o florescimento do bem-estar pessoal nas organizações, é necessário que o funcionário perceba o suporte ambiental fundamentando sua prática. Ou seja, para que esse funcionário perceba o bem-estar no trabalho, ele precisa ter o apoio material, social e tecnológico para que possa sentir orgulho em fazer parte de determinada organização. O segundo eixo desse construto é composto por uma variável, denominada desgosto ou descontentamento, que reflete o sentimento de mal-estar do trabalhador frente à não realização dos desejos e necessidades individuais, e pode ser caracterizado como a inversão do primeiro eixo desse conceito.Essa concepção teórica, apesar de ser bem elaborada e com bastante variáveis, possui baixa resolutividade em seu instrumento de medida, pois esses indicadores acabam sendo avaliados de forma muito superficial, sendo representados por um único fator global, avaliados em conjunto numa escala unifatorial. Pesquisa realizada por Dessen (2005), investigou o conceito teórico e instrumental proposto por Paz (2004), e averiguou a necessidade em aprofundar as pesquisas acerca dos fatoressugeridos pela autora, a fim de ampliar os estudos acerca da aplicabilidade do instrumento, além de sugerir novas pesquisas em outros contextos organizacionais (DESSEN; PAZ, 2010). A ampliação desses conceitos permitiu a compreensão do bem-estar no trabalho e a continuidade das pesquisas referentes a esse construto. Warr (2007), dando seguimento às suas pesquisas sobre as variáveis promotoras da saúde mental, aprofundou suas investigações sobre os efeitos do trabalho na saúde mental dos trabalhadores. Esse autor percebeu que houve um crescimento nas últimas décadas no interesse sobre a saúde mental no trabalho. Esse conceito foi fortalecido porque se enfatizou que a maioria do tempo da vida adulta é vivida dentro do.

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