I N Q U É R I T O P O L I C I A L
Conceito: A prática de um ato definido em lei como crime ou contravenção faz surgir, para o Estado, o jus puniendi, que somente pode ser concretizado por meio do processo. A pretensão punitiva do Estado somente pode ser deduzida em juízo, mediante a ação penal, ao término da qual, sendo o caso, será aplicada a sanção penal adequada.
Para que se proponha a ação penal, entretanto, é necessário que o Estado disponha de um mínimo de elementos probatórios que indiquem a ocorrência de uma infração penal e sua autoria. O meio mais comum, embora não exclusivo, para a colheita desses elementos é o inquérito policial.
À soma da atividade investigatória realizada durante o inquérito policial com a propositura da ação penal, promovida pelo Ministério Público ou o ofendido, dá-se o nome de persecução penal (persecutio criminis). Com ela se busca tornar efetivo o jus puniendi decorrente da prática da infração penal a fim de se impor ao seu autor a sanção pertinente. O inquérito policial encontra-se disciplinado nos arts. 4 a 23 do Código de Processo Penal – CPP (Decreto-Lei nº 3.689, de 03.10.1941). Segundo a definição do Professor Fernando Capez , o inquérito policial "é o conjunto de diligências realizadas pela polícia judiciária para a apuração de uma infração penal e de sua autoria, a fim de que o titular da ação penal possa ingressar em juízo".
O Professor Julio Fabbrini Mirabete enfatiza o fato de o inquérito não ser um "processo", mas sim um "procedimento administrativo" informativo, destinado a fornecer ao órgão de acusação o mínimo de elementos necessários à propositura da ação penal. Trata-se de uma instrução provisória, preparatória e informativa, que não se confunde com a instrução criminal do processo, descrita nos arts. 394 a 405 do CPP.
Podemos, portanto, notar que o inquérito policial constitui fase investigatória, operando-se em âmbito administrativo. Uma vez que o inquérito precede o início da ação penal (fase judicial), a ele não se aplicam (ou pelo menos não são de observância estritamente obrigatória) diversos dos princípios basilares informadores do processo penal, como o princípio do contraditório, o princípio do juiz natural etc.
O inquérito policial, conforme o caso, pode ser instaurado de ofício por portaria da autoridade policial e pela lavratura de flagrante, mediante representação do ofendido, por requisição do juiz ou do Ministério Publico e por requerimento da vítima.
Características: O Professor Fernando Capez, em sua obra "Curso de Processo Penal", enumera como características do inquérito policial as a seguir resumidas.
a) Procedimento Escrito: O art. 9º do CPP expressamente estatui que "todas as peças do inquérito policial serão, num só processado, reduzidas a escrito ou datilografadas e, neste caso, rubricadas pela autoridade".
Evidentemente, não seria compatível com a segurança jurídica, tampouco atenderia à finalidade do inquérito policial, qual seja, fornecer ao titular da ação penal os subsídios necessários à sua propositura, a realização de investigações puramente verbais sobre a prática de infração penal e sua autoria sem que, ao final, resultasse qualquer documento formal escrito.
b) Procedimento sigiloso: O inquérito policial deve assegurar o direito à inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem do investigado, nos termos do art. 5º, X, da CF/88. Não se deve esquecer que milita em favor de qualquer pessoa a presunção de inocência enquanto não sobrevindo o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (CF, art. 5º, LVII).
Ademais, a divulgação da linha de investigação, dos fatos a serem investigados, das provas já reunidas etc. muito provavelmente atrapalharia sobremaneira o resultado final do inquérito. Nessa esteira, o art. 20 do CPP determina:
"Art. 20. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade."
É interessante registrarmos que, em razão da presunção de inocência, o simples fato de uma pessoa possuir contra si um inquérito instaurado não pode ser mencionado pela autoridade policial na emissão de atestados de antecedentes. Entretanto, se o requerente do atestado possuir condenação penal anterior, poderá ser mencionado em seu atestado de antecedentes a instauração de inquérito. Essa regra consta literalmente do parágrafo único do art. 20 do CPP, como abaixo se lê:
"Parágrafo único. Nos atestados de antecedentes que Ihe forem solicitados, a autoridade policial não poderá mencionar quaisquer anotações referentes a instauração de inquérito contra os requerentes, salvo no caso de existir condenação anterior. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 6.900, de 14.4.1981)."
O sigilo do inquérito policial não pode ser oposto ao representante do Ministério Público, nem à autoridade judiciária.
O advogado pode consultar os autos do inquérito. Entretanto, a realização de atos procedimentais não poderá ser acompanhada pelo advogado se, por sentença judicial, for decretado sigilo em determinada investigação.
c) Oficialidade: Somente órgãos de direito público podem realizar o inquérito policial. Ainda quando a titularidade da ação penal é atribuída ao particular ofendido (ação penal privada), não cabe a este a efetuação dos procedimentos investigatórios.
d) Oficiosidade: A oficiosidade do inquérito policial significa que seus procedimentos devem ser impulsionados de ofício, sem necessidade de provocação da parte ofendida ou de outros interessados, até sua conclusão final. A oficiosidade é conseqüência do princípio da obrigatoriedade da ação penal pública (legalidade).
No que concerne à instauração, todavia, somente haverá oficiosidade relativamente aos inquéritos instaurados para apuração de crimes sujeitos a ação pública incondicionada. A instauração do inquérito, destarte, não pode ser efetivada de ofício nos crimes de ação penal pública condicionada à representação do ofendido ou requisição do Ministro da Justiça e nos de ação penal privada. Uma vez instaurado o inquérito, entretanto, os atos nele praticados o serão por iniciativa da autoridade competente, de ofício.
O oficiosidade do inquérito policial é um de seus mais importantes atributos. Abaixo, transcrevo os dispositivos do CPP relacionados a essa característica:
Art. 5º Nos crimes de ação pública o inquérito policial será iniciado: I - de ofício;
II - mediante requisição da autoridade judiciária ou do Ministério Público, ou a requerimento do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo.
§ 4º O inquérito, nos crimes em que a ação pública depender de representação, não poderá sem ela ser iniciado.
§ 5º Nos crimes de ação privada, a autoridade policial somente poderá proceder a inquérito a requerimento de quem tenha qualidade para intentá-la.
Art. 17. A autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito
Art. 19. Nos crimes em que não couber ação pública, os autos do inquérito serão remetidos ao juízo competente, onde aguardarão a iniciativa do ofendido ou de seu representante legal, ou serão entregues ao requerente, se o pedir, mediante traslado."
e) Autoriedade O inquérito deve sempre ser presidido por um autoridade pública, no caso, a autoridade policial (delegado de polícia de carreira).
f) Indisponibilidade Do princípio da obrigatoriedade decorre a indisponibilidade do inquérito policial, conseqüência de sua finalidade de interesse público.
A indisponibilidade representa um desdobramento da oficiosidade, ou seja, uma vez iniciado, o inquérito deve chagar à sua conclusão final, não sendo lícito à autoridade policial determinar seu arquivamento (art. 17 do CPP). Mesmo quando o membro do Ministério Público requer o arquivamento de um inquérito policial, a decisão é submetida ao juiz, como fiscal do princípio da indisponibilidade, que, discordando das razões invocadas, deve remeter os autos ao chefe da Instituição (Ministério Público).
É o que estabelece o art. 28 do CPP, transcrito:
"Art. 28. Se o órgão do Ministério Público, ao invés de apresentar a denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de considerar improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças de informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia, designará outro órgão do Ministério Público para oferecê-la, ou insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o juiz obrigado a atender." g) Procedimento Inquisitivo O inquérito policial é um procedimento investigatório atribuído a uma autoridade administrativa, a qual atua de ofício e discricionariamente (decorrência dos princípios da obrigatoriedade e da oficialidade da ação penal).
Como conseqüência de sua natureza inquisitiva, não se pode opor suspeição às autoridades policiais nos atos do inquérito (art. 107 do CPP). Pelo mesmo motivo, a autoridade policial pode, a seu critério, indeferir os pedidos de diligências feitos pelo ofendido ou pelo indiciado (art. 14 do CPP).
Sendo o inquérito um procedimento inquisitivo, a ele não se aplicam os princípios do contraditório e da ampla defesa. Conforme o art. 5º, LV, da CF/88, "aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes". Uma vez que a simples investigação de fato criminoso e de sua autoria não configura acusação, não ocorre o enquadramento do procedimento de inquérito policial no transcrito dispositivo.
Uma importante exceção, entretanto, ocorre no caso do inquérito instaurado pela polícia federal, a pedido do Ministro da Justiça, visando à expulsão de estrangeiro. Neste, o contraditório é obrigatório.
Valor Probatório do Inquérito Policial: Conforme reiterada jurisprudência de nossos tribunais o inquérito policial é mera peça informativa destinada a embasar eventual denúncia e, uma vez que não é elaborado sob a égide do contraditório, seu valor probatório é bastante restrito. Não se admite que a sentença condenatória seja apoiada exclusivamente nos elementos aduzidos pelo inquérito policial, sob pena de se contrariar o princípio constitucional do contraditório. O Professor Fernando Capez cita como exemplo da relatividade do valor probatório do inquérito a confissão extrajudicial, que somente terá validade como elemento de convicção do juiz se confirmada por outros elementos colhidos durante a instrução processual.
Dispensabilidade do Inquérito Policial: Conforme se infere da leitura do art. 12 do CPP, é possível a apresentação da denúncia ou da queixa mesmo que estas não tenham por base um inquérito policial. Com efeito, este dispositivo assim reza:
"Art. 12. O inquérito policial acompanhará a denúncia ou queixa, sempre que servir de base a uma ou outra."
Outro dispositivo que permite concluirmos pela não obrigatoriedade do inquérito para a apresentação da denúncia é o art. 27 do CPP, transcrito: "Art. 27. Qualquer pessoa do povo poderá provocar a iniciativa do Ministério Público, nos casos em que caiba a ação pública, fornecendo-lhe, por escrito, informações sobre o fato e a autoria e indicando o tempo, o lugar e os elementos de convicção."
Mais explícito é o art. 39 do CPP, que, tratando da representação nas ações penais públicas condicionadas, traz, em seu § 5º, expresso o seguinte:
"§ 5º O órgão do Ministério Público dispensará o inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o habilitem a promover a ação penal, e, neste caso, oferecerá a denúncia no prazo de 15 (quinze) dias."
Previsão da Incomunicabilidade do Indiciado: O art. 21 do CPP traz uma regra que grande parte da doutrina considera não recepcionada pela CF/88. É o seguinte o teor deste dispositivo:
"Art. 21. A incomunicabilidade do indiciado dependerá sempre de despacho nos autos e somente será permitida quando o interesse da sociedade ou a conveniência da investigação o exigir.
Parágrafo único. A incomunicabilidade, que não excederá de 3 (três) dias, será decretada por despacho fundamentado do juiz, a requerimento da autoridade policial, ou do órgão do Ministério Público, respeitado, em qualquer hipótese, o disposto no art. 89, III, do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (Lei no 4.215, de 27 de abril de 1963). (Redação dada pela Lei nº 5.010, de 30.5.1966)"
O mais forte argumento no sentido da não recepção deste dispositivo tem por base o art. 136, § 3º, IV, da CF, segundo o qual, na vigência do estado de defesa é vedada a incomunicabilidade do preso.
Parece evidente que se a Constituição proíbe a incomunicabilidade até mesmo na vigência de um "estado de exceção" não seria nada razoável admiti-la em condições normais como conseqüência de um simples inquérito policial.
Ademais, a incomunicabilidade afigura-se incompatível com as garantias insculpidas no art. 5º da CF/88, mormente com as plasmadas em seus incisos LXII ("a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente e à família do preso ou à pessoa por ele indicada") e LXIII ("o preso será
informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado"). De qualquer forma, há quem sustente ser ainda vigente o art. 21 do CPP, cabendo, entretanto, registrar que a incomunicabilidade em nenhuma hipótese pode ser absoluta, sendo a comunicação entre o preso e seu advogado sempre garantida, conforme o art. 7º, III, da Lei 8.906/94 (Estatuto da OAB), verbis:
"Art. 7º São direitos do advogado:
III - comunicar-se com seus clientes, pessoal e reservadamente, mesmo sem procuração, quando estes se acharem presos, detidos ou recolhidos em estabelecimentos civis ou militares, ainda que considerados incomunicáveis;"
Instauração do Inquérito: A causa usual de instauração do inquérito é a notitia criminis. O CPP, entretanto, prevê formas específicas de comunicação para o início do inquérito policial, conforme a iniciativa da ação penal exigida para a infração correspondente seja pública incondicionada, pública condicionada à representação da vítima ou à requisição do Ministério da Justiça, ou privada.
O inquérito, portanto, pode ser iniciado: (1) de ofício;
(2) mediante requisição;
(3) mediante requerimento do ofendido ou seu representante; (4) a partir de delação, feita por qualquer do povo; e (5) por auto de prisão em flagrante delito.
Conforme a iniciativa da ação penal correspondente à infração a ser apurada e a forma de início do inquérito, poderemos ter uma das seguintes peças inaugurais:
a. Auto de prisão em flagrante: em qualquer espécie de infração penal;
b. Portaria: nas ações públicas incondicionadas instauradas de ofício;
c. Requisição da autoridade judiciária ou do Ministério Público: nas ações públicas incondicionadas ou nas públicas condicionadas, desde que, nestas últimas, a requisição esteja acompanhada da representação;
d. Representação do ofendido: nas ações públicas condicionadas, quando a representação é feita diretamente à autoridade policial;
e. Requisição do Ministro da Justiça: nos crimes de ação pública condicionada em que especificamente exigida essa requisição, adiante tratados;
f. Requerimento do ofendido: na ação pública condicionada e na ação penal privada.
Instauração do Inquérito na Ação Penal Pública Incondicionada: O art. 5º, I, do CPP estabelece como regra geral que a instauração do inquérito seja feita de ofício nas ações públicas incondicionadas. A autoridade, tomando conhecimento da ocorrência do crime (cognição imediata) deve instaurar o procedimento destinado a sua apuração. Outra possibilidade é a instauração do inquérito mediante requisição da autoridade judiciária ou do Ministério Público, conforme previsto na parte inicial do art. 5º, II, do CPP.
Ainda, pode-se instaurar o inquérito a partir de requerimento da vítima, como prevê a parte final do art. 5º, II, do CPP. O requerimento da vítima, diferentemente da requisição tratada no parágrafo precedente, pode ser indeferido pela autoridade policial, por exemplo, na hipótese de esta entender que o fato narrado não configura crime, pelo menos em tese (fato atípico).
O requerimento conterá sempre que possível (Art. 5º, § 1º, do CPP): (a) a narração do fato, com todas as circunstâncias;
(b) a individualização do indiciado ou seus sinais característicos e as razões de convicção ou de presunção de ser ele o autor da infração, ou os motivos de impossibilidade de o fazer;
(c) a nomeação das testemunhas, com indicação de sua profissão e residência.
Além do ofendido, qualquer pessoa do povo, ao tomar conhecimento da prática de alguma infração penal sujeita a ação pública incondicionada, poderá comunicá-la, verbalmente ou por escrito, à autoridade policial, que mandará instaurar o inquérito, caso sejam procedentes as informações (art. 5º, § 3º).
Por último, pode o inquérito ser instaurado pela prisão em flagrante delito, hipótese em que o auto de prisão será a primeira peça do procedimento.
A instauração do procedimento de inquérito é formalizada pela edição de uma portaria pela autoridade policial, na qual esta informa haver tomado ciência da prática do crime de ação penal pública incondicionada. Não será baixada portaria quando existir requerimento, requisição ou auto de prisão em flagrante, pois estes documentos constituem, eles próprios, a peça inicial do inquérito.
O inquérito não deverá ser instaurado nas hipóteses de: (1) fato atípico;
(2) extinção de punibilidade;
(3) ser a autoridade incompetente para a instauração;
(4) não serem fornecidos elementos mínimos indispensáveis para as investigações; e
(5) a pessoa a ser indiciada já haver sido absolvida ou condenada por aquele fato criminoso.
Instauração do Inquérito na Ação Pública Condicionada: O art. 5º, § 4º, do CPP, expressamente determina:
"§ 4º O inquérito, nos crimes em que a ação pública depender de representação, não poderá sem ela ser iniciado."
O Professor Mirabete define a representação como um pedido-autorização em que o interessado manifesta o desejo de que seja proposta a ação penal pública e, portanto, como medida preliminar, seja instaurado o inquérito policial.
Podem oferecer representação: (1) o ofendido; (2) o representante legal do ofendido; e (3) o procurador com poderes especiais (art. 39, caput, do CPP).
A representação pode ser apresentada à autoridade policial, à autoridade judiciária ou ao representante do Ministério Publico. A representação torna-se irretratável após o oferecimento da denúncia.
O art. 39 do CPP trata da representação, valendo transcrevê-lo: "Art. 39. O direito de representação poderá ser exercido, pessoalmente ou por procurador com poderes especiais, mediante declaração, escrita ou oral, feita ao juiz, ao órgão do Ministério Público, ou à autoridade policial.
§ 1º A representação feita oralmente ou por escrito, sem assinatura devidamente autenticada do ofendido, de seu representante legal ou procurador, será reduzida a termo, perante o juiz ou autoridade policial, presente o órgão do Ministério Público, quando a este houver sido dirigida.
§ 2º A representação conterá todas as informações que possam servir à apuração do fato e da autoria.
§ 3º Oferecida ou reduzida a termo a representação, a autoridade policial procederá a inquérito, ou, não sendo competente, remetê-lo-á à autoridade que o for.
§ 4º A representação, quando feita ao juiz ou perante este reduzida a termo, será remetida à autoridade policial para que esta proceda a inquérito.
§ 5º O órgão do Ministério Público dispensará o inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o habilitem a promover a ação penal, e, neste caso, oferecerá a denúncia no prazo de 15 (quinze) dias."
Além das hipóteses em que a iniciativa da ação penal pública é condicionada à representação do ofendido, há casos em que a ação pública depende de requisição do Ministro da Justiça.
Nestas hipóteses, entre as quais se enquadram os crimes cometidos por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil e os crimes contra a honra do Presidente da República, a instauração do inquérito policial também dependerá da requisição do Ministro da Justiça, a qual constitui-se em um ato jurídico sem formalidades especiais, contendo as informações que possam servir à apuração do fato e da autoria.
A requisição deve ser encaminhada ao chefe do Ministério Publico o qual poderá, desde logo, oferecer a denúncia ou requisitar diligências à polícia.
Instauração do Inquérito Policial na Ação Penal Privada: Tratando-se de crime cuja ação penal Tratando-seja de iniciativa privada, o art. 5º, § 5º, do CPP determina que a autoridade policial somente poderá proceder ao inquérito a requerimento de quem tenha qualidade para intentar a ação. O CPP, em seus arts. 30 e 31, estabelece caber a iniciativa da ação privada ao ofendido ou a quem tenha qualidade para representá-lo e, no caso de morte do ofendido ou quando declarado ausente por decisão judicial, o direito de oferecer queixa ou prosseguir na ação passará ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão
Nem mesmo a autoridade judiciária ou o Ministério Público podem, por iniciativa própria, requisitar a instauração da investigação nos crimes de ação penal privada.
Concluído o inquérito policial, seus autos serão remetidos ao juízo competente, onde aguardarão a iniciativa do ofendido ou de seu representante legal, ou serão entregues ao requerente, se o pedir, mediante traslado (CPP, art. 19).
O Indiciamento: O CPP não faz referência expressa ao ato de indiciamento, mas menciona o "indiciado" em diversos de seus dispositivos (art. 6º, V, art. 14, art. 15 etc.).
O indiciamento, conforme ensina o Professor Julio Fabbrini Mirabete, é a imputação a alguém, ainda na fase de inquérito policial, portanto, administrativa, da prática do ilícito penal.
Consiste, o indiciamento, em declarar alguém, que até aquele momento era um simples suspeito, como sendo o provável autor do delito que se está investigando. As investigações passam, então, a concentrar-se sobre a pessoa do indiciado.
A autoridade policial procede ao indiciamento quando, como o nome indica, há indícios razoáveis de autoria. Ainda segundo o autor, o indiciamento não é um ato discricionário, mas, sim, um ato administrativo vinculado, uma vez que inexiste liberdade da autoridade policial sobre indiciar, ou não, alguém contra quem haja indícios de autoria de fato delitivo (não há espaço para juízo valorativo da autoridade policial quanto à conveniência ou a oportunidade de indiciamento).
A autoridade policial deve proceder à identificação do indiciado mediante o processo datiloscópico, exceto se ele já houver sido civilmente identificado, conforme expressamente prevê a Constituição de 1988, em seu art. 5º, LVIII. Entretanto, a própria CF/88 admite, nos casos em que a lei preveja, a identificação criminal do civilmente identificado. Exemplo dessa possibilidade está na Lei nº 9.034/95 – Lei do Crime Organizado, a qual estabelece, em seu art. 5º, que "a identificação criminal de pessoas envolvidas com a ação praticada por organizações criminosas será realizada independentemente da identificação civil."
Se o indiciado for menor, ser-lhe-á nomeado curador pela autoridade policial (art. 15 do CPP). O curador assistirá o indiciado no interrogatório e nos atos em que seja necessária a participação do indiciado, como acareações, simulações do delito, reconhecimento etc. O curador poderá ainda, nos termos do art. 14 do CPP, requerer diligências, que serão realizadas, ou não, a juízo da autoridade policial. A falta de nomeação do curador não torna nulo todo o inquérito e nem a ação penal subseqüente, mas acarreta a nulidade de atos como a confissão do indiciado menor ou a sua prisão em flagrante.
Prazos para finalização do Inquérito: O art. 10 do CPP estabelece os seguintes prazos para que a autoridade policial termine o procedimento de inquérito:
a. 30 dias, contados do recebimento da notitia criminis, quando o indiciado estiver em liberdade (é a regra geral);
b. 10 dias, contados a partir da data de execução da ordem de prisão, se o indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver preso preventivamente.
Encerramento do Inquérito: Concluídas as investigações a autoridade policial deve fazer um relatório detalhado de tudo o que foi apurado no inquérito, indicando as testemunhas que não foram ouvidas e as diligências não realizadas.
A autoridade não deve emitir opiniões ou qualquer juízo de valor sobre os fatos narrados, os indiciados, ou qualquer outro aspecto relativo ao inquérito ou à sua conclusão.
Concluído o relatório os autos do inquérito serão remetidos ao juiz competente, acompanhados dos instrumentos do crime e dos objetos que interessam à prova (CPP, art. 11). Do juízo, os autos serão remetidos ao órgão do Ministério Público, a fim de que este adote as providências que entender pertinentes.
Finalidade do Inquérito Policial: A prática de um ato definido em lei como crime ou contravenção faz surgir, para o Estado, o jus puniendi, que somente pode ser concretizado por meio do processo. A pretensão punitiva do Estado somente pode ser deduzida em juízo, mediante a ação penal, ao término da qual, sendo o caso, será aplicada a sanção penal adequada.
Para que se proponha a ação penal, entretanto, é necessário que o Estado disponha de um mínimo de elementos probatórios que indiquem a ocorrência de uma infração penal e sua autoria. O meio mais comum, embora não exclusivo, para a colheita desses elementos é o inquérito policial.
À soma da atividade investigatória realizada durante o inquérito policial com a propositura da ação penal, promovida pelo Ministério Público ou o ofendido, dá-se o nome de persecução penal (persecutio criminis). Com ela se busca tornar efetivo o jus puniendi decorrente da prática da infração penal a fim de se impor ao seu autor a sanção pertinente. O inquérito policial encontra-se disciplinado nos arts. 4 a 23 do Código de Processo Penal – CPP (Decreto-Lei nº 3.689, de 03.10.1941). Segundo a definição do Professor Fernando Capez (Curso de Processo Penal, ed. Saraiva, 5ª edição, São Paulo, 2000), o inquérito policial "é o conjunto de diligências realizadas pela polícia judiciária para a apuração de uma infração penal e de sua autoria, a fim de que o titular da ação penal possa ingressar em juízo".
O Professor Julio Fabbrini Mirabete (Processo Penal, ed. Atlas, 10ª edição, São Paulo, 2000) enfatiza o fato de o inquérito não ser um "processo", mas sim um "procedimento administrativo" informativo, destinado a fornecer ao órgão de acusação o mínimo de elementos necessários à propositura da ação penal. Trata-se de uma instrução provisória, preparatória e informativa, que não se confunde com a instrução criminal do processo, descrita nos arts. 394 a 405 do CPP. Podemos, portanto, notar que o inquérito policial constitui fase investigatória, operando-se em âmbito administrativo. Uma vez que o inquérito precede o início da ação penal (fase judicial), a ele não se aplicam (ou pelo menos não são de observância estritamente obrigatória) diversos dos princípios basilares informadores do processo penal, como o princípio do contraditório, o princípio do juiz natural etc.
O inquérito policial, conforme o caso, pode ser instaurado de ofício por portaria da autoridade policial e pela lavratura de flagrante, mediante representação do ofendido, por requisição do juiz ou do Ministério Publico e por requerimento da vítima.
Destinatários do Inquérito Policial: O inquérito policial apresenta como destinatário imediato o titular da ação a que preceda, a saber:
a. nas ações penais públicas: o Ministério Público, seu titular exclusivo;
b. nas ações privadas: o ofendido, titular de tais ações. O destinatário mediato do inquérito policial é o juiz, uma vez que o inquérito fornece subsídios para que ele receba a peça inicial e decida quanto à necessidade de decretar medidas cautelares.
Polícia Judiciária: A polícia judiciária é uma instituição de direito público com função auxiliar à justiça. Sua finalidade é a apuração da ocorrência de infrações penais e suas respectivas autorias, visando a fornecer elementos para a propositura da ação penal por seu titular. No âmbito estadual a polícia judiciária é atribuída às polícias civis. O art. 144, § 4º, da CF/88, estatui que "às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, incumbem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares".
Na esfera federal as funções de polícia judiciária são exercidas, com exclusividade, pela Polícia Federal, conforme expressa disposição do inciso IV do § 1º do art. 144 da CF/88.
Portanto, o inquérito policial é presidido por um delegado de polícia de carreira. A competência administrativa desta autoridade é, como regra geral, determinada em razão do local de consumação da infração (ratione loci). Nada impede, entretanto, que se proceda à distribuição da competência em função da natureza da infração penal (ratione materiae), como ocorre em alguns estados, onde existem delegacias especializadas na investigação de determinados crimes (roubos, homicídios etc.).
O território dentro do qual as autoridades policiais têm competência para desempenhar suas atribuições é denominado circunscrição (não se deve utilizar a expressão jurisdição, uma vez que as atribuições das autoridades policiais são exclusivamente administrativas).
Conforme o art. 22 do CPP, nas comarcas em que houver mais de uma circunscrição policial, e no Distrito Federal, a autoridade com exercício em uma delas poderá, nos inquéritos a que esteja procedendo, ordenar diligências em circunscrição de outra, independentemente de precatórias ou requisições.
A lavratura do auto de prisão em flagrante deve ser realizada pela autoridade policial do lugar em que se efetivou a prisão, devendo, os atos subseqüentes ser praticados pela autoridade do local em que a infração penal se consumou.
Uma observação é importante: conforme exposto no início, os princípios constitucionais aplicáveis aos processos judiciais não são de observância obrigatória no que concerne à fase de inquérito policial (administrativa). Em razão de a autoridade policial não possuir competência para processar, nem sentenciar, não está sujeito, o inquérito, à regra do art. 5º, LIII, segundo a qual "ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente".
O transcrito inciso LIII do art. 5º da CF/88, desdobra-se em dois princípios, o princípio do promotor natural (ninguém será processado senão pelo promotor de justiça previamente indicado pelas regras legais objetivas) e o princípio do juiz natural (todos têm o direito de ser julgados pelo magistrado previamente investido segundo critérios legais objetivos).
Não se pode, entretanto, alegar a existência de um "princípio do delegado natural". Por esse motivo, nossa jurisprudência não tem considerado nulos os atos investigatórios realizados fora da circunscrição da autoridade policial. Conforme entendimento do STJ (6ª T., HC 6.418-PR), "não há nulidade em o inquérito policial ser presidido por autoridade policial incompetente, nem possibilidade de relaxamento da prisão em flagrante por esse motivo".
Sob o mesmo fundamento, o de ser o inquérito uma simples peça informativa destinada a embasar eventual denúncia, entendem nossos tribunais que os vícios por acaso verificados durante a elaboração do inquérito não contaminam a fase subseqüente, da ação penal, ou seja, os vícios do inquérito não geram nulidades processuais.
Dispositivos Legais: Encerrado nosso estudo sobre o inquérito policial, considero importante a leitura dos principais dispositivos do CPP sobre o assunto, uma vez que o conhecimento da literalidade do texto legal muitas vezes é importante para a solução de algumas questões.
_______________QUESTÕES_______________ 01 – Acerca do inquérito policial assinale a opção incorreta:
(a) O réu não é obrigado a participar de reconstituição do crime, pois ninguém é obrigado a produzir prova contra si. (b) Entende a doutrina majoritária que, se o promotor detém
elementos suficientes para denunciar, não cabe pedido de prisão preventiva do acusado simultaneamente ao pedido de retorno do IP à delegacia para novas diligências.
(c) Em nenhuma situação, a autoridade policial poderá mandar arquivar autos do IP.
(d) Em caso de réu preso, a regra geral é a de que o prazo para conclusão do IP seja de 10 dias, salvo no caso de necessidade de diligências complementares, quando o juiz poderá conceder a dilatação do prazo, fundamentando a decisão, independentemente da soltura do réu.
A: se o indiciado/réu se opuser a participar da reprodução simulada do crime, nenhuma infração cometerá, uma vez que não é obrigado a acusar a si próprio, a produzir prova contra si (nemo tenetur se detegere); B: sustenta a doutrina que, se o Ministério Público requereu a devolução dos autos de inquérito para diligências complementares, porque ainda não há indícios de autoria suficientes para embasar a denúncia, também não há para justificar a decretação da custódia preventiva; C: art. 17 do CPP; D: o decêndio contido no art. 10, caput, do CPP deve ser cumprido à risca, não comportando qualquer espécie de dilação, isso porque se trata de restrição ao direito à liberdade; E: a incomunicabilidade do indiciado está prevista no art. 21 do CPP. Importante frisar que inúmeros autores consagrados sustentam a inconstitucionalidade do dispositivo.
02 – Considerando o arquivamento de inquérito policial em decorrência de atipicidade do fato imputado ao indiciado, fundamento essencial, permanente e não-passageiro da decisão judicial, assinale a opção correta.
(a) Produzidas novas provas que modifiquem a matéria de fato, pode-se desarquivar o inquérito para o oferecimento da denúncia ou queixa.
(b) Arquivado o inquérito policial, ainda assim pode ser iniciada a ação penal correspondente.
(c) A lei impossibilita que a autoridade policial, diante da notícia da existência das novas provas, efetue de ofício diligencias a respeito de fato que foi objeto do inquérito arquivado. (d) Não há possibilidade do desarquivamento do inquérito.
Regra geral, se a autoridade policial tiver notícia de provas novas (substancialmente novas), poderá proceder a novas investigações, nos termos do art. 18 do CPP e da Súmula 524 do STF. Agora, se o arquivamento do inquérito se der por ausência de tipicidade, a decisão, nesse caso, tem efeito preclusivo (produz coisa julgada material), impedindo o desarquivamento do inquérito. A esse respeito, Informativo
STF 375. Gabarito "D"
03 – Acerca do inquérito policial assinale a alternativa correta: (a) Se a ação penal foi de iniciativa privada, o inquérito será
instaurado a requerimento da vítima ou de seu representante legal.
(b) Como o inquérito é procedimento administrativo, deverá a autoridade policial garantir o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes, sob pena de haver nulidade na ação penal subseqüente.
(c) O inquérito policial pode ser arquivado, de ofício, pelo juiz, por membro do Ministério Público ou pelo delegado de polícia, desde que fique comprovado que o indiciado agiu acobertado por causa de excludente de antijuridicidade ou da culpabilidade.
(d) Uma vez relatado o inquérito policial, o Ministério Público não poderá requerer a devolução dos autos à autoridade policial, ainda que entendam serem necessárias novas diligências, imprescindíveis ao oferecimento da denúncia. Nesse caso, deverá oferecer a denuncia desde já, requerendo ao juiz que as provas sejam produzidas no curso da instrução processual.
(e) De acordo como Código de Processo Penal, a autoridade policial poderá decretar a incomunicabilidade do indiciado, pelo prazo de três dias.
04 – Em relação ao inquérito policial, assinale a opção incorreta: (a) Caso as informações obtidas por outros meios sejam
suficientes para sustentar a inicial acusatória, o inquérito policial torna-se dispensável.
(b) O MP não poderá requerer a devolução do inquérito à autoridade policial, senão para que sejam realizadas novas diligências, dado que imprescindíveis ao oferecimento da denúncia.
(c) Nas hipóteses de ação penal pública, condicionada ou incondicionada, a autoridade policial deverá instaurar, de ofício, o inquérito, sem que seja necessária a provocação ou a representação.
(d) A autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de inquérito policial, uma vez que tal arquivamento é de competência da autoridade judicial.
05 – Assinale a opção correta acerca do inquérito policial e da Ação Penal:
(a) O despacho que indefere o requerimento de abertura do inquérito policial é irrecorrível. (art. 5º , §2º , CPP)
(b) Caso seja instaurado um inquérito policial para apuração de um crime de roubo e, por não haver provas da autoria, seja arquivado o inquérito, é possível reabrir a investigação, independentemente de novas provas, se houve pressão da imprensa.
(c) Qualquer pessoa pode encaminhar ao promotor de justiça uma petição requerendo providencias e fornecendo dados e documentos, para que seja, se for o caso, instaurado inquérito policial.
(d) Considere a seguinte situação hipotética. Célia, pessoa comprovadamente carente de recursos financeiros, foi vítima de estupro, e fez a comunicação do crime à autoridade competente, solicitando providencias para apurar-lo e punir seu autor. Apurada a autoria do crime do crime e confirmada a materialidade o promotor ofereceu a denúncia. Nesta situação a representação pode ser retratada até a sentença condenatória recorrível.
06 – Com relação ao inquérito policial, assinale a opção correta:
(a) É indispensável a assistência de advogado ao indiciado, devendo ser observadas as garantias constitucionais do contraditório e da ampla defesa.
(b) A instauração de inquérito policial é dispensável caso a acusação possua elementos suficientes para a propositura da ação penal.
(c) Trata-se de procedimento escrito, inquisitivo, sigiloso, informativo e disponível.
(d) A interceptação telefônica poderá ser determinada pela autoridade policial, no curso da investigação, de forma motivada e observados os requisitos legais.
07 – Tadeu, imbuído de animus necandi, junto com Liberato, que segurou a vítima por trás, desferiu duas facadas em Aurélio, causando-lhe ferimentos. Aurélio não morreu porque os agressores foram impedidos de prosseguir no seu intento homicida por pessoas que presenciaram o fato, que também levaram a vítima para o hospital, onde recebeu atendimento eficaz. Tadeu agiu por motivo torpe, para vingar-se de anterior luta corporal em que foi vencido. Liberato concordou em ajudá-lo, mesmo desconhecendo a razão que impelia o amigo. O laudo psiquiátrico de Tadeu, realizado a pedido da defesa, concluiu o seguinte: Periciando evidencia quadro psiquiátrico compatível com transtorno mental decorrente de disfunção cerebral, anulando a capacidade de entendimento e autodeterminação; é imprescindível que o periciando seja submetido a tratamento especializado por tempo indeterminado. Com base nessa situação hipotética, julgue os itens subseqüentes.
(a) A noticia criminis do fato, quando levada, por qualquer modo, ao conhecimento da autoridade policial, implica obrigatoriamente a instauração do inquérito policial, sob pena de caracterizar o crime de prevaricação.
(b) O inquérito policial, uma vez instaurado, deve ser concluído no prazo de dez dias, se o réu estiver preso, ou se trinta dias, se responder solto, podendo esse prazo ser prorrogado, em caso de necessidade, pela própria autoridade que presidir o inquérito, quando se tratar de casos de alta complexidade ou houver pluralidade de indiciados.
(c) O inquérito policial será nulo, não havendo possibilidade de que o MP, com base nas informações nele contidas, ofereça a denúncia, se a autoridade policial tiver atuado fora dos limites da sua circunscrição.
1: em vista do princípio da obrigatoriedade (legalidade), está a autoridade policial obrigada a instaurar inquérito policial quando se tratar de crime que se apure mediante ação penal pública; 2: art. 10, § 3º, do CPP; 3: não constitui nulidade em inquérito policial o fato de a autoridade de determinada circunscrição realizar atos investigatórios em outra, o que é, diga-se, tema pacífico tanto na doutrina quanto na jurisprudência. Gabarito 1C, 2E, 3E
A Ç Ã O P E N A L
Conceito: É o “direito de exercício da atividade jurisdicional (ou o poder de exigir esse exercício)”. Mediante o exercício da ação provocasse a jurisdição, que se exerce através de um complexo de atos que é o processo.
Ação Penal: (Fernando Capez) É o direito de pedir ao Estado-Juiz a aplicação do direito penal objetivo ao caso concreto.
O Estado através do Ministério Público, exerce a ação, a fim de ativar a jurisdição penal.
Características: caráter público, direito subjetivo (faculdade ou dever), direito autônomo (independe de qualquer relação jurídica de direito material), direito abstrato (independe de provimento jurisdicional) Fundamento legal: Artigos 100 a 106, do CP., art. 24 a 62, CPP. Condições da Ação:
a) Possibilidade Jurídica do Pedido: é preciso que haja um dispositivo em lei determinando que a conduta descrita pelo
acusador e imputada ao acusado constitua delito de natureza penal( crime ou contravenção)
b) Legitimidade “ad causam”: via de regra, o Estado agirá por meio do Ministério Público. (art. 129, I, CF) e, em certos casos o particular.
c) Legitimidade passiva: do ponto de vista do acusador, à imposição de uma penalidade ao acusado. (menos de 18 anos).
d) Interesse de agir: (necessidade de agir em juízo, a adequação da medida pleiteada e a utilidade do provimento jurisdicional final. Necessidade de agir em juízo: ao contrário do processo de natureza cível, que pode p. ex, o devedor pode voluntariamente quitar sua dívida, o infrator penal jamais poderá voluntariamente submeter-se à sanção penal, sem que antes disso tenha sido devidamente julgado e condenado. Adequação da medida pleiteada: a compatibilidade entre o fato narrado pelo autor da ação e a conseqüência jurídica que ele pleiteia com fundamento nesse caso.
Utilidade do provimento jurisdicional final: a ação penal tem por finalidade impor determinada pena ao acusado. (prescrição).
Classificação: Pública – iniciada pelo Ministério Público, pode ser incondicionada ou condicionada; Privada – titularidade do ofendido ou seu representante legal, pode ser propriamente dita (exclusiva) e subsidiaria da pública.
1) Ação Penal Pública (artigo 100, do Código Penal) • Titularidade do M.P (oficialidade);
• Proposta por denúncia; • Obedece os princípios:
a) Obrigatoriedade ou legalidade – a ação penal pública somente poderá ser proposta por um órgão do Estado: MP. Havendo prova da materialidade e da autoria deverá obrigatoriamente (art. 24 do CPP) oferecer a denúncia. Exceção lei 9.099 / Transação. Abrandada pela possibilidade de transação penal (discricionariedade regrada);
b) Indisponibilidade – esta obrigatoriedade estende-se durante o processo. O MP não pode dispor da Ação Penal. (art. 42 do CPP). Abrandada pela suspensão condicional do processo;
c) Indivisibilidade - (art. 48, do CPP): alguns doutrinadores entende que a ação penal obrigatoriamente deverá ser ajuizada contra todos os autores da infração penal. O STJ entende ser a ação penal pública ser regida pelo princípio da divisibilidade. Exceto em composição civil);
d) Intranscendência. contra quem se atribui a prática da ação penal. Ação Penal Pública Incondicionada: O MP promoverá a ação independentemente da vontade ou interferência de quem quer que seja. Promovida pelo MP sem que haja necessidade de manifestação de vontade de terceira pessoa.(representação do ofendido ou requisição do Ministro da Justiça)
No silêncio da lei a Ação penal e pública incondicionada.
Ação Penal Pública Condicionada: Depende da manifestação do ofendido ou seu representante legal ou do Ministro da Justiça (artigo 100, §1º, do Código Penal, artigo 24 do CPP).
Ex: CP, art.141, II, c/c art.145, parágrafo unico; CP, art. 156, § 1º.
Art. 24, caput, do CPP e Art. 100§1º, do CP), representação do ofendido (ou de quem o represente), ou a requisição do Ministério Público. Representação: Manifestação de consentimento de que o MP possa proceder à o ajuizamento da ação penal ou de que a polícia judiciária possa proceder a instauração de inquérito policial. NÃO CONSTITUI PEDIDO, mas nada impede que o ofendido ou seu representante legal requeira a instauração de inquérito ou ajuizamento de ação penal. Além das hipóteses do próprio CP a lei 9.099 (art. 88) prevê a exigência de representação para os crimes de ações penais relativas aos crimes de lesões corporais leves e lesões corporais culposas.
Titularidade: a representação pode ser oferecida pelo ofendido ou por seu representante legal (art. 24, CPP)
Súmula 594, do STF : se um deles manifestar favorável o outro não pode impedir.
Forma: escrita ou oral(reduzida a termo)
A quem se dirige a representação: diretamente à autoridade policial, ao órgão do Ministério Público ou ao próprio Juiz.(art. 39, caput, do CPP) Prazo: 6 meses. (art. 38, caput, do CPP). Inicia-se no dia em que o ofendido ou quem quer que seja o titular do direito venha saber quem é o autor do crime.
Retratação: (art. 25 do CPP e 102 do CP): a retratação pode ocorrer enquanto o órgão acusatório não oferecer a denúncia.
Renúncia a representação: art. 74, Lei 9.099. Acordo civil homologado acarreta a renúncia ao direito de queixa ou de representação.
Requisição do Ministério da Justiça: é a autorização, fundamentada em razões políticas.
2) Ação Penal Privada
• Iniciada por queixa ou queixa-crime; • Vítima é querelante e réu querelado; • Principais princípios:
a) Oportunidade b) Disponibilidade; c) Indivisibilidade .
Personalíssima – induzimento essencial e ocultação de impedimento (art. 236 CP)
Titularidade: tem legitimidade para propor a ação penal o ofendido ou seu representante legal(menor de 18 anos) (art. 30 do CPP e art. 100, §2º, do CP).
Requerimento: o IP fica condicionado a manifestação do titular da ação penal. (art. 5º, § 5º, do CPP).(forma escrita ou oral)
Terminados o IP, 1º remessa dos autos ao juízo competente (aguarda novamente a iniciativa do ofendido) 2º translado do IP á vítima ou seu representante
Classificação: Ação Penal Privada Exclusiva, Ação Penal Personalíssima, Ação Penal Subsidiária da Pública
Ação penal Privada Exclusiva ou Ação Penal Privada Propriamente dita: proposta pelo ofendido, se maior de 21 anos e capaz, por seu representante legal, se o ofendido for menor de 18 anos; pelo representante ou pelo ofendido, se ele maior de 18 anos e menor de 21 anos (CPP, art. 34), ou no caso de morte do ofendido ou declaração de ausência, pelo cônjuge, ascendente, descendente ou irmão.(art. 31, do CPP)
OBS: não especifica seu caráter personalíssimo, nem condiciona sua propositura à inércia do Ministério Público em ajuizar a ação penal pública.
Ação Penal Personalíssima: somente o ofendido. Art. 236, parágrafo único. (única hipótese). Não lhe dá a oportunidade do art. 31 do CPP) Ação Penal Privada Subsidiária da Pública: casos em que seja ordinariamente de iniciativa pública, MP, não intenta a ação penal no prazo legal, o ofendido ou seu representante poderão subsidiariamente ajuíza-la.(art. 5º, LIX, CF e art. 29, CPP e art. 100, § 3º do CP). PRAZO: 6 meses (103, § 3°, do CP)
Renúncia: art. 104, CP
Exceção : art. 74, L. 9.099 Decadência art. 103, do CP e 38 do CPP.. Perdão
_______________QUESTÕES_______________ 01 – Assinale a opção correta de acordo com o que dispõe o CPP acerca da perempção:
(a) Na ação penal pública, a perempção é causa extintiva de punibilidade;
(b) A perempção se aplica à ação penal privada subsidiária da pública.
(c) Considera-se perempta a ação penal privada quando, iniciada esta, o querelante deixa de promover o andamento do processo durante trinta dias seguidos.
(d) A ausência de pedido de condenação, nas alegações finais, por parte do querelante, não enseja perempção.
Fundamentação: Art. 60, I do CPP.
Art. 60 - Nos casos em que somente se procede mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação penal:
I - quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30 dias seguidos.
02 – Assinale a opção correta acerca da ação penal.
(a) Se, em qualquer fase do processo, o juiz reconhecer extinta a punibilidade, deverá aguardar o requerimento do MP, do querelante ou do réu, apontando a causa da extinção da punibilidade, para poder declará-la.
(b) A renúncia ao exercício do direito de queixa, em relação a um dos autores do crime, não se estende aos demais agentes. (c) A queixa contra qualquer dos autores, do crime obrigará ao
processo de todos, e o MP velará pela sua indivisibilidade. (d) O perdão concedido a um dos querelados aproveitará a todos,
inclusive ao querelado que o recusar.
03 – A respeito das condições de procedibilidade, assinale a opção correta.
(a) Nos crimes comuns e de responsabilidade praticados pelo presidente da República, é condição de procedibilidade a autorização do Senado Federal para ser instaurado o processo.
(b) Havendo vestígios nos crimes contra propriedade imaterial, o exame pericial é condição de procedibilidade para ação penal.
(c) Nos crimes contra a honra do presidente da República, a requisição do Ministro de Justiça é condição de procedibilidade para a ação penal, que deve ser providenciada no prazo legal de seis meses a contar da data do fato.
(d) Nos crimes cometidos fora do território nacional, são condições de procedibilidade a entrada do agente no território nacional e o fato de os crimes não serem puníveis no pais em que foram praticados.
04 – Assinale a opção correta acerca da ação penal:
(a) Em se tratando de crime de ação penal pública condicionada, exige-se rigor formal na representação do ofendido ou de seu representante legal.
(b) O perdão do ofendido, seja expresso ou tácito, pode ser causa de causa de extinção da punibilidade nos crimes que se apuram por ação pública condicionada.
(c) A representação será retratável depois de oferecida a denúncia.
(d) Nos crimes contra os costumes, uma vez atestada a pobreza da vítima pela autoridade policial ou por outros meios de prova, a ação penal passa a ser pública condicionada à representação, tendo o Ministério Público legitimidade para oferecer a denúncia. (Relevante modificação produzida pela Lei 12.015/09 diz respeito à ação penal nos crimes sexuais. - Antes, a ação nestes crimes era, em regra, de iniciativa privada (art. 225, caput, CP). Hoje, é em regra, pública condicionada à representação. Será, entretanto, pública incondicionada em suas situações: se a vítima é menor de 18 anos; ou é pessoa vulnerável.
05 – Assinale a opção correta quanto à ação penal.
(a) Na ação penal pública condicionada, a representação será retratável até a prolação da sentença de primeiro grau. (b) A ação penal é pública, salvo quando a lei expressamente a
declare privativa do ofendido.
(c) O direito de queixa, nas ações penais privadas, não pode ser renunciado, pois é direito personalíssimo.
(d) Admite-se o perdão do ofendido, nos crimes de ação penal privada, em qualquer tempo e grau de jurisdição.
06 – Com relação à ação penal, é correto afirmar que: em qualquer tempo
(a) A Constituição Federal deferiu ao Ministério Público o monopólio da ação penal pública.
(b) O inquérito policial é obrigatório e indispensável para o exercício da ação penal.
(c) O princípio da indivisibilidade aplica-se à ação penal pública, já que o oferecimento da denúncia contra um dos acusados impossibilita posterior acusação de outro envolvido. (d) O prazo para a ação penal privada é de seis meses, estando
sujeito a interrupções e suspensões.
07 - Acerca da classificação da ação penal, assinale a opção correta: (a) Ação penal, sendo pública condicionada à representação,
inicia-se mediante o oferecimento de queixa por parte do ofendido ou de seu representante legal.
(b) Ação penal pública incondicionada é promovida pelo Ministério Público por meio de denúncia, que deve ser oferecida no prazo decadencial de 6 meses, contados do dia em que ocorreu a infração penal.
(c) A ação penal é pública quando a lei expressamente a declara de titularidade do Estado, o que equivale a dizer que, no silêncio da lei a respeito da ação penal, ela será exclusivamente privada.
(d) Quando o crime é de ação penal privada subsidiária da pública, o Código Penal ou lei especial, após descrever o delito, faz referencia a expressão “somente se procede mediante representação”.
(e) A ação penal pública, seja ela condicionada ou incondicionada, é promovida pelo Ministério Público por meio de denúncia, que constitui sua peça inicial.
Princípios e sujeitos processuais
01 - Acerca do princípio da inocência, assinale a opção correta: (a) Com a decisão de pronúncia, que reconhece a existência de
crime e indícios de autoria, o nome do réu pode ser incluído no rol dos culpados.
(b) A restrição à liberdade do acusado antes da sentença definitiva deve ser admitida sempre que se verificar o fumus boni iuris, independentemente da existência de periculum in mora.
(c) O juiz deve ter plena convicção de que o acusado é responsável pelo delito, bastando a dúvida a respeito da sua culpa para absovê-lo.
(d) O réu tem o dever de provar a sua inocência e cabe o acusador apresentar indícios de autoria e materialidade. 02 - Acerca dos sujeitos processuais, assinale a opção correta.
(a) A vítima pode intervir no processo por intermédio de advogado, como assistente de acusação, depois de iniciada a ação penal e enquanto não transitada em julgado a decisão final.
(b) O assistente de acusação pode arrolar testemunhas e recorrer da decisão que rejeitar a denúncia, pronuncia ou absolve sumariamente o réu, tendo o recurso suspensivo.
(c) O juiz deve declarar-se suspeito caso seja amigo ou inimigo das partes, esteja interessado no feito ou quando a parte o injuriar de propósito.
(d) A participação de membro do Ministério Público no inquérito policial acarreta o seu impedimento para o oferecimento da denúncia.