UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE LETRAS
DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA GERAL E ROMÂNICA
Neologia de imprensa do português
Mafalda Antunes
DOUTORAMENTO EM LINGUÍSTICA (LINGUÍSTICA PORTUGUESA)
UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE LETRAS DE LISBOA
DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA GERAL E ROMÂNICA
Neologia de imprensa do português
MAFALDA ANTUNES
DISSERTAÇÃO ORIENTADA POR:
PROF.ª DOUTORA MARGARITA CORREIA – FACULDADE DE LETRAS, UNIVERSIDADE DE LISBOA PROF.ª DOUTORA MARÍA TERESA CABRÉ – UNIVERSIDADE POMPEU FABRA
DOUTORAMENTO EM LINGUÍSTICA (LINGUÍSTICA PORTUGUESA)
A realização desta tese foi apenas possível graças à Bolsa de Doutoramento, com a referência SFRH/BD/29463/2006, atribuída pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), que durante quatro anos me prestou apoio financeiro. A FCT financiou, também, em 2007, a minha instalação e estadia em Barcelona para a realização de seminários de Doutoramento na Universidade Pompeu Fabra e formação no Instituto Universitário de Linguística Aplicada, assim como, as minhas deslocações a conferências internacionais durante este período. A FCT patrocinou, ainda, a reprodução gráfica deste texto.
Agradecimentos
Este trabalho representa um caminho longo, mas nunca solitário. Estou, por essa razão, muito grata a todos os que, em diferentes momentos e de diferentes formas, contribuíram para tornar este caminho mais leve e mais feliz.
À Professora Doutora Margarita Correia agradeço tudo. Por ser a pessoa mais importante neste percurso e por estar presente em todos os momentos da minha vida profissional e pessoal. Por ter sido sempre uma amiga, a melhor professora e uma verdadeira orientadora. Por respeitar o meu ritmo, transmitindo-‐me sempre a motivação de que necessitei para o continuar. Por ser sempre muito mais e melhor do que era suposto ser.
À Professora Doutora Teresa Cabré pela partilha, pela inspiração, pelo estímulo. Por me dar o privilégio de aprender com ela e me abrir as portas do IULA, mas também por me ter mostrado que a amizade faz parte deste caminho.
Ao ILTEC por ser uma casa e uma escola. O lugar onde se estuda e onde se aprende a trabalhar, partilhando. No ILTEC encontrei o verdadeiro sentido de instituição de acolhimento, o espaço e todas as condições para evoluir enquanto investigadora.
Ao grupo do IULA-‐UPF pelo modo como me recebeu e pela partilha generosa de conhecimentos, materiais e experiências. Os seminários de doutoramento que fiz na UPF e a estadia no IULA foram essenciais no desenvolvimento deste trabalho.
A todos os que colaboraram no ONP: Ana Mineiro, Maarten Janssen, Francisco Costa, Carla Viana, Sílvia Barbosa, Sóstenes Rego, Candinha Pinto, Sara Santos, Nuno Matos, Sílvia Pereira, Catarina Carvalheiro, Clara Pinto, Raquel Castaño, Maria Dória, Rita Gonçalves, Elsa Brízida, mas muito em especial à Vanessa Antunes e à Mara Moita.
Aos meus informantes não linguistas, que prontamente colaboraram nas tarefas que lhes foram propostas.
À Mara por se ter disponibilizado sempre para colaborar de maneira entusiasta e permanente. Por ter sido sempre o meu apoio, a minha companhia, e por ter contribuído para minimizar todas as distâncias.
À Tânia e ao Nuno por fazerem parte de todos os meus mundos. Porque são o melhor que a linguística me deu e porque nenhum caminho sem eles faria sentido.
Aos meus pais e à minha irmã pelo amor, pelo apoio constante e pelo respeito pelo meu trabalho, mas sobretudo por acreditarem nele e aceitarem pacientemente todas as minhas ausências ao longo dos últimos anos.
E, sempre em primeiro lugar, ao GianClaudio por me mostrar aquilo que realmente importa.
Resumo
Esta tese tem como objeto de estudo a neologia do português, tendo por base a recolha e classificação de 9164 neologismos, presentes em textos de imprensa escrita portuguesa entre 2004 e 2011, detetados no Observatório de Neologia do Português (ONP).
Com este trabalho visa-‐se obter uma representação mais clara e objetiva da variação diacrónica recente ao nível lexical, contribuindo para uma caracterização mais completa do português contemporâneo.
Além da Introdução, da Conclusão, da Bibliografia e do Anexo, esta tese apresenta quatro capítulos.
O capítulo 1, Neologia e neologismo: conceitos, tipologias e critérios, explora os conceitos de neologia e neologismo, através da apresentação do trabalho dos autores que contribuíram de forma mais significativa para a sua definição e desenvolvimento. São ainda apresentadas diferentes abordagens da classificação de neologismos e descritos critérios de deteção.
O capítulo 2, Metodologia do trabalho em neologia, descreve projetos em neologia e etapas do trabalho neológico, tendo em conta as características da deteção manual e semiautomática, as ferramentas usadas e o modo de preenchimento e exploração das fichas neológicas.
O capítulo 3, Descrição dos neologismo do ONP, apresenta a distribuição dos neologismos coletados, tendo em conta o seu modo de construção. A caracterização de cada processo é levada a cabo em três momentos: apresentação das diretrizes de classificação do NeoRom; distribuição e análise dos dados do ONP; e exposição das interferências de processos de construção que suscitam mais dúvidas na classificação.
O capítulo 4, Contributos para o aperfeiçoamento do trabalho em neologia, expõe os pontos considerados mais importantes para a otimização do trabalho do ONP. A reavaliação da tipologia de classificação usada e a aplicação de filtros de neologicidade aos dados recolhidos são apresentadas como tarefas prioritárias, assim como, a revisão do corpus de exclusão, a adaptação da ficha neológica e o modo de exploração dos dados.
Palavras-‐chave: Neologia; Neologismo; Léxico; Variação; Metodologia da Neologia; Tipologia
Abstract
The main objective of this thesis is to study Portuguese neology, based on the collection and classification of 9164 neologisms found in texts published in the Portuguese written press between 2004 and 2011, detected by the Observatório de Neologia do Português (Portuguese
Neologism Observatory – ONP).
It aims to obtain a clearer and more objective representation of recent diachronic variation on a lexical level, contributing to a more detailed characterisation of contemporary Portuguese.
Besides the Introduction, Conclusion, Bibliography and Appendix, this thesis has four chapters.
Chapter 1, Neology and neologism: concepts, types and criteria, explores the concepts of neology and neologism, through the presentation of studies by authors who have made the most significant contribution to their definition and development. Different approaches to the classification of neologisms are also presented and detection criteria are described.
Chapter 2, Methodologies for neology work, describes neology projects and stages in neology work, considering the features of manual and semiautomatic detection, the tools used and the completion and analysis of neologism records.
Chapter 3, Description of ONP neologisms, presents the distribution of the neologisms collected, in view of how they are formed. Each process is characterised in three parts: presentation of the NeoRom classification guidelines; distribution and analysis of ONP data; and a presentation of the interferences in their formation process that cause most classification difficulties.
Chapter 4, Contributions to improvements in neology studies, presents the issues considered most important for optimisation of the work of the ONP. Reassessment of the classification types used and the application of neologicity filters to the data collected are presented as priority tasks, as is the review of the exclusion corpus, the adaptation of neologism records and the way the data is used.
Key words: Neology; Neologism; Lexicon; Variation; Neology Methodology; Types of
Neologisms.
“As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores,
desenvolvem-se e fatalmente morrem. As mais afortunadas reproduzem- se. Há-as de índole agreste, cuja simples presença fere e degrada, e outras que de tão amoráveis tudo à sua volta suavizam. Estas iluminam, aquelas confundem. Há-as selvagens, irascíveis, que cheiram mal dos pés, que fungam e cospem no chão, e, logo ao lado, altivas e delicadas orquídeas.”
Índice
Resumo ... v
Abstract ... vii
Índice de figuras ... xvi
Lista de siglas ... xix
Introdução ... 3
Capítulo 1 - Neologia e neologismo: conceitos, tipologias e critérios 1.0 Introdução ... 11
1.1 Mudança e inovação lexical ... 11
1.2 O lugar da neologia ... 13
1.3 Os conceitos de neologia e de neologismo ... 16
1.3.1 Louis Guilbert ... 19
1.3.2 Alain Rey ... 23
1.3.3 Jean-‐Claude Boulanger ... 28
1.3.4 Teresa Cabré ... 35
1.3.5 Recapitulação ... 39
1.4 Tipos de neologismos ... 42
1.4.1 Quanto ao tipo de novidade que apresentam ... 42
1.4.2 Quanto à via de criação ... 47
1.4.3 Quanto ao função de criação ... 48
1.4.4 Quanto ao meio de criação ... 49
1.5 Critérios para a identificação de neologismos ... 56
1.6 Resumo ... 60
Capítulo 2 – Metodologia do trabalho em neologia 2.0 Introdução ... 63
2.1 O trabalho em neologia em Portugal ... 63
2.2 Projetos em neologia ... 65
2.2.1 NeoRom ... 66
2.2.2.1 Objetivos e aplicações do ONP ... 71
2.2.2.2 Fontes do ONP ... 72
2.2.2.3 Corpus de exclusão ... 77
2.3 O processo de deteção de neologismos no ONP ... 82
2.3.1 Deteção semiautomática ... 83
2.3.1.1 Outros sistemas de extração de candidatos a neologismos ... 84
2.3.1.1.1 Aviator (Blackwell, Collier e Renouf, 1993) ... 85
2.3.1.1.2 NeoloSearch (Janicijevic e Walker, 1997) ... 86
2.3.1.1.3 Cenit (Roche e Bowker, 1999) ... 87
2.3.1.1.4 Sextan (Vivaldi, 2000) ... 87
2.3.1.1.5 Senter (Pardo, 2006) ... 88
2.3.1.1.6 Buscaneo (Cabré e Estopà, 2009) ... 89
2.3.1.2 Ferramentas usadas no ONP ... 91
2.3.1.2.1 Legimus (Francisco Costa, 2005) ... 91
2.3.1.2.2 NeoTrack (Maarten Janssen, 2004) ... 94
2.3.1.3 Vantagens e desvantagens da deteção semiautomática ... 100
2.3.2 Deteção manual ... 101
2.3.2.1 Processo de trabalho na deteção manual ... 102
2.3.2.2 Vantagens e desvantagens da deteção manual ... 104
2.4 Os campos da ficha neológica ... 105
2.5 Seleção de neologismos e preenchimento da ficha neológica ... 106
2.6 Exploração das fichas neológicas ... 109
2.7 Resumo ... 109
Capítulo 3 – Descrição dos neologismos do ONP 3.0 Introdução ... 113
3.1 Revisão e tratamento dos dados do ONP ... 113
3.2. A classificação de neologismos ... 115
3.3 Distribuição dos neologismos ... 117
3.3.1 Distribuição dos neologismos: por ano ... 117
3.3.2 Distribuição dos neologismos: por processo de formação ... 119
3.3.3 Distribuição dos neologismos: por subprocesso de formação ... 122
3.3.3.1.1 Orientações NeoRom – FPRE ... 124
3.3.3.1.2 Dados ONP – FPRE ... 125
3.3.3.1.3 Dificuldades de classificação detetadas – FPRE ... 128
3.3.3.2 Neologismos formados por sufixação (FSUF) ... 132
3.3.3.2.1 Orientações NeoRom – FSUF ... 132
3.3.3.2.2 Dados ONP – FSUF ... 134
3.3.3.2.3 Dificuldades de classificação detetadas – FSUF ... 137
3.3.3.3 Neologismos formados por prefixação ou sufixação (FPRSU) ... 138
3.3.3.3.1 Orientações NeoRom – FPRSUF ... 138
3.3.3.3.2 Dados ONP – FPRSUF ... 140
3.3.3.3.3 Dificuldades de classificação detetadas – FPRSUF ... 141
3.3.3.4 Neologismos formados por composição (FCOM) ... 142
3.3.3.4.1 Orientações NeoRom – FCOM ... 142
3.3.3.4.2 Dados ONP – FCOM ... 142
3.3.3.4.3 Dificuldades de classificação detetadas – FCOM ... 145
3.3.3.5 Neologismos formados por composição culta (FCULT) ... 145
3.3.3.5.1 Orientações NeoRom – FCULT ... 145
3.3.3.5.2 Dados ONP – FCULT ... 146
3.3.3.5.3 Dificuldades de classificação detetadas – FCULT ... 152
3.3.3.6 Neologismos formados por lexicalização (FLEX) ... 152
3.3.3.6.1 Orientações NeoRom – FLEX ... 152
3.3.3.6.2 Dados ONP – FLEX ... 153
3.3.3.6.3 Dificuldades de classificação detetadas – FLEX ... 154
3.3.3.7 Neologismos formados por conversão (FCONV) ... 155
3.3.3.7.1 Orientações NeoRom – FCONV ... 155
3.3.3.7.2 Dados ONP – FCONV ... 156
3.3.3.7.3 Dificuldades de classificação detetadas – FCONV ... 157
3.3.3.8 Neologismos formados por sintagmação (FSINT) ... 158
3.3.3.8.1 Orientações NeoRom – FSINT ... 158
3.3.3.8.2 Dados ONP – FSINT ... 158
3.3.3.8.3 Dificuldades de classificação detetadas – FSINT ... 160
3.3.3.9 Neologismos formados por siglação (FSIG) ... 160
3.3.3.9.1 Orientações NeoRom – FSIG ... 160
3.3.3.9.3 Dificuldades de classificação detetadas – FSIG ... 162
3.3.3.10 Neologismos formados por acronímia (FACR) ... 163
3.3.3.10.1 Orientações NeoRom – FACR ... 163
3.3.3.10.2 Dados ONP – FACR ... 163
3.3.3.10.3 Dificuldades de classificação detetadas – FACR ... 164
3.3.3.11 Neologismos formados por abreviação (FABR) ... 165
3.3.3.11.1 Orientações NeoRom – FABR ... 165
3.3.3.11.2 Dados ONP – FABR ... 165
3.3.3.11.3 Dificuldades de classificação detetadas – FABR ... 166
3.3.3.12 Neologismos formados por variação (FVAR) ... 166
3.3.3.12.1 Orientações NeoRom – FVAR ... 166
3.3.3.12.2 Dados ONP – FVAR ... 167
3.3.3.12.3 Dificuldades de classificação detetadas – FVAR ... 168
3.3.3.13 Empréstimos (E) ... 168
3.3.3.13.1 Orientações NeoRom – E ... 168
3.3.3.13.2 Dados ONP – E ... 169
3.3.3.13.3 Dificuldades de classificação detetadas – E ... 171
3.3.3.14 Empréstimos adaptados (EA) ... 172
3.3.3.14.1 Orientações NeoRom – EA ... 172
3.3.3.14.2 Dados ONP – EA ... 173
3.3.3.14.3 Dificuldades de classificação detetadas– EA ... 173
3.3.3.15 Neologismos semânticos (S) ... 174
3.3.3.15.1 Orientações NeoRom – S ... 174
3.3.3.15.2 Dados ONP – S ... 174
3.3.3.15.3 Dificuldades de classificação detetadas– S ... 175
3.3.3.16 Neologismos sintácticos (SINT) ... 176
3.3.3.16.1 Orientações NeoRom – SINT ... 176
3.3.3.16.2 Dados ONP – SINT ... 177
3.3.3.16.3 Dificuldades de classificação detetadas – SINT ... 177
3.3.3.17 Outros neologismos (O) ... 178
3.3.3.17.1 Orientações NeoRom – O ... 178
3.3.3.17.2 Dados ONP – O ... 178
3.3.3.17.3 Dificuldades de classificação detetadas – O ... 179
Capítulo 4 – Contributos para o aperfeiçoamento do trabalho do ONP
4.0 Introdução ... 185
4.1 Uma nova abordagem na classificação de neologismos ... 186
4.1.1 Tipologias para a classificação de neologismos ... 187
4.1.1.1 A proposta de Sablayrolles (1996, 1997, 2002) ... 187
4.1.1.2 A proposta de Cabré (2004, 2006) ... 192
4.1.1.3 Contributos para revisão da classificação ... 199
4.1.2 Escalas de neologicidade ... 209
4.1.2.1 A aplicação de Cabré et al. (2004) e Cabré e Estopà (2009) ... 210
4.1.2.2 Aplicação de filtros para determinar escalas de neologicidade ... 214
4.1.2.2.1 Seleção dos neologismos ... 215
4.1.2.2.2 Filtros aplicados e resultados ... 219
4.2 Uma nova abordagem na deteção e registo de neologismos ... 233
4.2.1 Otimização do corpus de exclusão do ONP ... 233
4.2.2 Otimização dos campos da ficha neológica ... 235
4.2.3 Otimização da exploração dos dados ... 240
4.3 Resumo ... 241 Conclusão ... 243 Bibliografia ... 251 Anexo ... 269
Índice de figuras
Capítulo 2
Figura 1 Ficha neológica do projeto NeoRom ... 69
Figura 2 Imagem da primeira base de dados do ONP ... 70
Figura 3 Exemplos de seleção de neologismos no ONP ... 81
Figura 4 Imagem do Legimus ... 92
Figura 5 Imagem do tratamento de um candidato a neologismo no NeoTrack ... 97
Figura 6 Exemplos de candidatos descartados no NeoTrack ... 99
Figura 7 Exemplo de ocorrência da unidade ad-‐hoc no CETEMPúblico ... 99
Figura 8 Exemplo da segunda fase da deteção manual de neologismos ... 102
Figura 9 Exemplo de candidato não atestado no VOP ... 102
Figura 10 Exemplo de candidato sem ocorrências no CETEMPúblico ... 103
Figura 11 Campos da ficha neológica para os neologismos detetados manualmente 103 Figura 12 Registo do neologismo panforte ... 104
Figura 13 Sistema de busca do NeoTrack ... 109
Capítulo 3 Figura 14 Distribuição dos neologismos do ONP por ano em tokens e types ... 118
Figura 15 Distribuição dos neologismos do ONP por grandes tipos ... 120
Figura 16 Distribuição dos neologismos formais do ONP ... 121
Figura 17 Tabela de processos e subprocessos disponíveis no ONP ... 122
Figura 18 Tabela de ocorrências dos subtipos de neologismos do ONP ... 123
Figura 19 Gráfico com as ocorrências de cada subtipo de neologismos do ONP ... 124
Figura 20 Prefixos identificados nos dados do ONP e sua distribuição ... 126
Figura 21 Distribuição dos prefixos por eixos de significação ... 127
Figura 22 Assistematicidades de classificação de neologismos no NeoRom (1) ... 130
Figura 23 Assistematicidades de classificação de neologismos no NeoRom (2) ... 130
Figura 24 Sufixos identificados nos dados do ONP e sua distribuição ... 135
Figura 25 Classe gramatical dos neologismos derivados por sufixação ... 136
Figura 26 Estrutura interna dos neologismos do ONP formados por composição ... 142
Figura 27 Tendência de algumas palavras na formação de compostos (1ª posição) .. 144
Figura 28 Tendência de algumas palavras na formação de compostos (2ª posição) .. 144
Figura 29 Distribuição dos neologismos formados por composição culta ... 146
Figura 31 Classificações de blog observadas no NeoRom ... 164
Figura 32 Distribuição dos neologismos por empréstimo do ONP ... 169
Capítulo 4 Figura 33 Proposta de grelha tipológica de Sablayrolles (1997: 31) ... 190
Figura 34 Proposta de grelha tipológica do NEOFRAN ... 191
Figura 35 Proposta de grelha tipológica de Cabré (2006b: 248-‐249) ... 194
Figura 36 Opções de classificação em tuitar ... 200
Figura 37 Opções de classificação em anti-‐carjacking ... 201
Figura 38 Opções de classificação em powerpoint ... 201
Figura 39 Opções de classificação em caetano-‐guterrista ... 202
Figura 40 Opções de classificação em *grafitti ... 203
Figura 41 Opções de classificação em rede social ... 203
Figura 42 Opções de classificação em mupi ... 204
Figura 43 Opções de classificação em ebriorexia ... 206
Figura 44 Opções de classificação em desamigar ... 207
Figura 45 Diferentes tipos de escalas de neologicidade ... 217
Figura 46 Distribuição dos neologismos de acordo com as repetições ... 218
Figura 47 Gráfico representativo da repetição de lemas ... 218
Figura 48 Número de neologismos que ocorrem com x tokens ... 219
Figura 49 Aplicação do Filtro 1 – neologismos com mais de 20 tokens ... 220
Figura 50 Aplicação do Filtro 1 – neologismos entre 11 e 20 tokens ... 220
Figura 51 Aplicação do Filtro 1 – neologismos com 10 tokens ... 220
Figura 52 Aplicação do Filtro 1 – neologismos com 9 tokens ... 220
Figura 53 Aplicação do Filtro 1 – neologismos com 8 tokens ... 220
Figura 54 Aplicação do Filtro 1 – neologismos com 7 tokens ... 221
Figura 55 Aplicação do Filtro 1 – neologismos com 6 tokens ... 221
Figura 56 Aplicação do Filtro 1 – neologismos com 5 tokens ... 221
Figura 57 Neologismos excluídos através da aplicação do Filtro 1 ... 223
Figura 58 Codificação da constância de ocorrência dos neologismos ... 224
Figura 59 Exemplo da distribuição das ocorrências de blogger ... 225
Figura 60 Ocorrências por ano de neologismos com oito ou mais tokens ... 225
Figura 61 Ocorrências por ano de neologismos entre sete e cinco tokens ... 226
Figura 63 Aplicação do Filtro 3 ... 229
Figura 64 Distribuição dos neologismos de acordo com classificação do Filtro 3 ... 231
Figura 65 Resultados da aplicação dos filtros de neologicidade propostos ... 232
Figura 66 Aplicações dos neologismos que passam os filtros de neologicidade ... 232
Figura 67 Proposta de remodelação ficha neológica ... 236
Figura 68 Marcação do tipo de neologismo (passo 1) ... 238
Figura 69 Marcação de neologismo formal (passo 2) ... 238
Figura 70 Marcação de neologismo por mudança gramatical (passo 2) ... 238
Figura 71 Marcação de neologismo por empréstimo (passo 2) ... 239
Figura 72 Marcação de neologismo por variação (passo 2) ... 239
Figura 73 Marcação de outros neologismos (passo 2) ... 239
Lista de siglas
Instituições, projetos e observatóriosILTEC Instituto de Linguística Teórica e Computacional FLUL Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa CLUL Centro de Linguística da Universidade de Lisboa IULA Instituto Universitário de Linguística Aplicada UPF Universidade Pompeu Fabra
NeoRom Rede de Observatórios de Neologia das Línguas Românicas ONP Observatório de Neologia do Português
OBNEO Observatório de Neologia do IULA-‐UPF
NEOFRAN Observatoire de Néologie du français de France ONLI Osservatorio Neologico della Lingua Italiana ONEROM Observatorul Neologic Român
Redip Rede de difusão internacional do português: rádio, televisão e imprensa
Dicionários
DHLP Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa
DLPC Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea DLP Dicionário da Língua Portuguesa
DLP-‐AO Dicionário da Língua Portuguesa – Acordo Ortográfico
Páginas, bases de dados e ferramentas
VOP Vocabulário Ortográfico do Português PLP Portal da Língua Portuguesa
MorDebe Morphological Database
CETEMPúblico Corpus de Extractos de Textos Electrónicos MCT/Público NeoTrack Neologism Tracker
AVIATOR Analysis of Verbal Interaction and Automated Text Retrieval CENIT Corpus-‐based English Neologism Identifier Tool
SEXTAN Sistema d'Extracció Automàtica de Neologia SENTER Sentence splitter
Processos de formação de neologismos
FPRE Formado por Prefixação FSUF Formado por Sufixação
FPRSU Formado por Prefixação ou Sufixação FCOM Formado Composição
FCULT Formado Composição Culta FLEX Formado por Lexicalização FCONV Formado por Conversão FSINT Formado Sintagmação FSIG Formado por Siglação FACR Formado por Acronímia FABR Formado por Abreviação FVAR Formado por Variação
E Empréstimo
EA Empréstimo Adaptado
S Neologismo Semântico
SINT Neologismo Sintático
Jornais e revistas
P Público
PR Pública
DN Diário de Notícias
V Visão
CI Courrier Internacional
i Jornal i
T Tabu
S Sábado
SOL SOL
MH Meia Hora
CM Correia da Manhã
U Única
D Destak
M Metro
JN Jornal de Notícias
G Global NS NS VG Vogue A Actual Mx Máxima El Elle E Expresso DD Diário Digital
Introdução
Perguntar o que quer e o que pode esta língua é como perguntar o que querem e podem aqueles que a falam. A língua, como todos nós, quer palpitar, crescer, tornar-‐se flexível e colorida, expandir-‐se, enfim, viver. (…) A linguagem, concretizada nas línguas, é a “maravilhosa invenção” de que nos falam Galileu, Descartes, Chomsky. E a língua portuguesa é uma das suas concretizações. Ela reflecte, também, a excepcionalidade dessa maravilhosa invenção.
Maria Helena Mateus (2005: 1-‐2)
As línguas adaptam-‐se às mudanças do mundo e, como tal, não são objetos estáticos, alterando-‐se constantemente e de modo nem sempre previsível ou sistemático. Das diversas mudanças que se podem observar nas línguas, interessa, nesta tese, estudar aquelas que se dão na componente lexical, isto é, nas unidades lexicais usadas nos diferentes vocabulários que constituem o léxico do português europeu.
Observemos as seguintes palavras usadas no léxico da língua portuguesa:
suborçamentaçãos.f, milagrários.m., verdess.m.pl, smartphones.m.,
etnoculturaladj., teadorarv., semiurbanoadj., risottos.m, asinhaadv.,
butterscotchs.m, alegristaadj., apps.f, pensageiros.m., inutensílios.m.,
aprendizerv., axis mundiloc., conversetas.f, post its.m., leixarv.,
desamigarv., caça-‐talento s.m., refrabicarv., temakis.m, bullying s.m.
Esta lista de palavras permite extrair algumas constatações que parecem não suscitar dúvidas. São elas:
• há palavras que conhecemos; • há palavras que desconhecemos;
• temos um grau de familiaridade diferente com cada palavra; • conhecemos o significado da maioria das palavras;
• as palavras respondem a diferentes tipos de necessidades discursivas; • as palavras não apresentam todas a mesma estrutura;
• as palavras não têm todas a mesma proveniência; • as palavras têm diferentes categorias gramaticais;
• há palavras mais recentes; • há palavras mais antigas; • há palavras em desuso.
Contudo, não parece que possamos afirmar sem quaisquer dúvidas ou unanimemente:
• quais destas palavras são neologismos em português; • quais destas palavras são arcaísmos em português;
• quais destas palavras fazem parte do léxico do português sem qualquer marca relativa ao seu tempo de permanência na língua.
Também não parece, tendo em conta a definição mais comum de neologismo, isto é, “uma palavra nova”, que possamos afirmar indiscutivelmente que:
• todas as palavras novas são neologismos;
• todas as palavras que não são usadas no dia a dia são arcaísmos; • palavras que já existem não podem ser consideradas neologismos; • todos os neologismos resultam dos mesmos processos de formação;
• neologismos regulares devem ter o mesmo estatuto que os importados ou daqueles que resultam de manipulação consciente.
Esta tese tem como objeto de estudo a neologia do português e os seus produtos, os neologismos. No entanto, para estudar os neologismos importa perceber o papel da neologia na mudança do léxico de uma língua, assim como, o seu lugar nos estudos linguísticos e as relações que tem com outras disciplinas.
A definição de neologismo não depende da perceção individual de cada falante e não é consensual ou estática. O conceito de neologismo é metodológico e pragmático1 e, deste modo, uma palavra pode apenas ser considerada um neologismo em função de uma determinada definição e adequada aos objetivos da sua recolha e observação.
O que é então uma palavra nova na língua? Nova em relação a quê? Em relação a que momento no tempo? Nova dependendo do conhecimento lexical de cada falante? E usada por quem? Criada por que razões e com que métodos? Individualmente, pontualmente ou pela comunidade linguística? Será o sentimento de novidade suficiente para identificar um neologismo? Como lidar com a desatualização dos dicionários que podem funcionar como corpus de exclusão? O que fazer das unidades lexicais do discurso que não despertam qualquer sentimento de novidade aos falantes, resultando, apenas, de atualização de competência derivacional? E as palavras já existentes que aparecem em contextos inusitados, exibindo significados inesperados? Será que as unidades que derivam de sufixação avaliativa ou de sufixos muito produtivos no português, quando se juntam a bases já atestadas, se consideram neologismos? Todas as palavras não atestadas nos dicionários, como locuções latinas por exemplo, são neologismos? E as palavras inventadas?
Para que uma palavra se considere um neologismo é fundamental que responda a um conjunto de critérios e não apenas a um só, o que torna a sua definição dependente da articulação de diversos fatores que assumem diferentes graus de importância e diferentes medidas de implementação.
A recolha sistemática de neologismos é fundamental para a descrição de uma língua e contribui para a atualização de materiais de estudo, que poderão ter as mais diversas aplicações.
O primeiro objetivo desta tese é o de refletir sobre a noção de neologismo, contribuindo para uma definição mais estável e consensual deste conceito, o que se reflectirá numa identificação mais sistemática e numa análise mais representativa do mesmo.
Importa descrever também, neste trabalho, o modo como foi processada a deteção das palavras que constituem o corpus de neologismos do português europeu, assim como explorar as vantagens e as limitações do tipo de recolha utilizado.
Pretende-‐se, num outro momento, descrever os neologismos detetados entre 2004 e 2011 e proceder à sua análise através de uma abordagem conduzida pela observação dos dados (data driven).
Neste trabalho, alguns dos principais objetivos relacionados com a exploração do corpus de neologismos são:
1) classificar os neologismos recolhidos de acordo com o processo de formação exibido, discutindo criticamente as tipologias utilizadas;
2) obter uma representação clara e objetiva da variação diacrónica ao nível lexical, contribuindo para uma caracterização mais cabal do português contemporâneo;
3) compreender o processo de integração dos neologismos através da relação existente entre os neologismos que se instalam na língua e aqueles que registam apenas uma utilização pontual;
4) identificar as áreas de intervenção mais necessárias no sentido de otimizar a deteção, classificação e exploração de neologismos.
Esta tese encontra-‐se dividida em quatro capítulos além da introdução, da conclusão, da bibliografia e do anexo.
No capítulo 1, Neologia e neologismo: conceitos, tipologias e critérios, pretende-‐se delimitar a área de estudo da neologia e posicioná-‐la nos estudos linguísticos, através da exploração dos conceitos de neologia e neologismo e da exposição do modo como alguns dos autores contribuíram para o estudo deste domínio. Serão também apresentadas as diferentes tipologias de neologismos de acordo com diferentes perspetivas de análise, isto é, quanto ao tipo de novidade que apresentam; quanto à sua via de criação; quanto à função que têm e quanto ao meio pelo qual foram criados. Os critérios mais usados para a identificação de neologismos serão apresentados e discutidas as suas vantagens e desvantagens, assim como, descrita a importância da sua conjugação.
No capítulo 2, Metodologia do trabalho em neologia, procura-‐se descrever o modo como se trabalha em neologia, em particular aquele que é desenvolvido no âmbito do Observatório de Neologia do Português (ONP). Para tal, será descrita sumariamente a evolução do trabalho em neologia em Portugal, assim como, os projetos em neologia que se relacionam diretamente com este: o NeoRom e o ONP. A metodologia de trabalho do ONP será apresentada tendo em conta as características das fontes de deteção de neologismos, do corpus de exclusão, das
ferramentas disponíveis para a recolha semiautomática de neologismos, do modo como se processa a deteção manual e da exploração dos dados.
No capítulo 3, Descrição dos neologismos do ONP, após se descrever o processo de revisão e tratamento dos dados, será apresentada a distribuição e caracterização dos 9164 tokens, equivalentes a 7767 types, detetados no ONP, entre os anos de 2004 e 2011. A descrição dos neologismos será feita tendo em conta o processo ou subprocesso de formação que está na sua origem e será explorada através da descrição das linhas de orientação de classificação adotadas no ONP, da distribuição e exemplificação dos dados e da indicação das principais dificuldades de classificação verificadas em cada tipo ou subtipo de neologismo.
No capítulo 4, Contributos para o aperfeiçoamento do trabalho em neologia, serão apresentadas aquelas que se consideram ser as revisões mais necessárias para que o trabalho em neologia seja melhorado. Por ser o ponto que mais dúvidas suscita, será feita uma proposta de revisão na classificação de neologismos com base em propostas de diferentes autores e também de acordo com as características observadas nos neologismos detetados. Os problemas observados em relação à classificação motivaram uma revisão nos dados já coletados através da aplicação de uma escala de neologicidade, propondo-‐se, deste modo, a aplicação de filtros lexicográficos, de frequência e cognitivos mais apertados, testados numa amostra dos dados. Serão, por fim, apresentadas propostas de revisão do corpus de exclusão, dos campos da ficha neológica e do método de exploração dos dados no trabalho desenvolvido do ONP.
No fim de cada capítulo será possível consultar uma síntese do trabalho efetuado, com a recapitulação dos aspetos considerados mais relevantes.
Pode ainda ser consultado, no final deste trabalho, um anexo constituído por alguns contextos que ilustram os processos de construção dos neologismos representados no corpus do ONP.
Este é um trabalho descritivo, razão pela qual todos os exemplos de neologismos apresentados ao longo desta tese serão grafados tal como se encontram registados nas suas fontes, independentemente de constituírem erros ortográficos.
Capítulo 1
Neologia e neologismo:
conceitos, tipologias e critérios
1.0 Introdução
Neste primeiro capítulo pretende-‐se refletir sobre os conceitos de neologia e neologismo. Para melhor compreender estes conceitos, que apresentam definições tão frequentes quanto complexas, importa ter em conta a componente onde surgem e a influência que têm na construção, manutenção e atualização da língua.
As noções de neologia e neologismo serão exploradas percorrendo os trabalhos dos autores que mais contribuíram para a sua definição e desenvolvimento, procurando compreender de que modo um estudo que consiste na observação da componente lexical e das alterações que nela se dão pode contribuir para um melhor conhecimento da(s) língua(s).
As causas que motivam o surgimento de uma unidade lexical numa língua podem ser as mais diversas, assim como os meios que são usados para a criar ou identificar. Uma vez detetados, os modos como os neologismos são tratados, agrupados e classificados são também muito diversificados e dependentes dos objetivos de cada estudo. Diferentes autores têm proposto diferentes tipologias de classificação de neologismos que serão apresentadas ainda neste capítulo.
Apresentar-‐se-‐ão, por fim, os diferentes critérios existentes para a deteção de neologismos, a saber: o critério temporal ou diacrónico, o critério psicológico, o critério da instabilidade formal, o critério lexicográfico e o critério lexicográfico alargado.
1.1 Mudança e inovação lexical
As línguas são dinâmicas, heterogéneas e mutáveis e, por esta razão, tão difíceis de definir e complexas de tratar. Contudo, nem sempre temos essa noção e estas características passam impercetíveis para a maioria dos falantes. A língua desenvolve-‐se sem que disso nos demos conta, tal como podemos observar nas palavras de Martinet (1972: 177)2:
Para se convencer de que as línguas mudam com o tempo, bastará a um português percorrer os cancioneiros medievais ou mesmo, sem recuar tanto, as obras de Bernardim Ribeiro ou João de Barros. No entanto, ninguém tem a impressão de que a língua que fala se modifique durante a sua vida ou que não se exprimam de maneira uniforme as várias gerações coexistentes. Tudo conspira para convencer os indivíduos da imobilidade e homogeneidade da língua que praticam: a estabilidade da forma escrita, o conservantismo da língua oficial e literária, a incapacidade em que se encontram de se lembrarem de como falavam dez ou vinte anos antes. (...) É facto, todavia, que a todo o momento a língua está a evoluir.
Se entendermos uma língua como um conjunto de regras, isto é, como “um sistema gramatical pertencente a um grupo de indivíduos”, tal como definida por Cunha e Cintra (1984: 1), podemos perceber que os níveis de mudança podem ser os mais variados e ocorrer nas diferentes componentes da gramática. Podemos observar mudanças no léxico, mais facilmente identificáveis no surgimento de novas palavras ou desaparecimento de outras, mas também no funcionamento da sintaxe e da morfologia, na passagem do uso de certas palavras para outros registos ou no modo como os sons são produzidos. De modo menos natural, e mais percetível, a ortografia de uma língua também pode sofrer alterações. Podemos então perceber que as alterações na língua não têm todas o mesmo peso ou a mesma visibilidade e que a componente lexical é aquela onde estas mudanças se manifestam de modo mais evidente, tal como considera Correia (1998: 59):
(...) se é verdade que a mudança afecta todas as componentes do conhecimento linguístico (fonológica, morfológica, sintáctica, semântica e pragmática), é também verdade que essa mudança é fundamentalmente visível ao nível do léxico.
A autora atribui esse facto a duas razões fundamentais: por um lado, sendo a componente lexical menos estruturada e o conhecimento lexical mais consciente, a mudança processa-‐se mais livremente e com mais rapidez, afetando unidades e não tanto a estrutura do léxico; por outro lado, uma vez que designamos a realidade e traduzimos o conhecimento que temos dessa realidade através de unidades lexicais, parece natural que a componente lexical seja a que reflete mais diretamente todas as alterações e toda a evolução que o meio vai sofrendo.
Tudo pode mudar numa língua e essas alterações não se dão apenas internamente no seio do sistema linguístico, há também vários fatores externos que podem contribuir para a sua mudança, fatores esses que podem ser: históricos, sociais, geográficos, culturais ou políticos.
Tal como podemos observar nas palavras de Cardeira (2006: 13) “Contar a história do Português é mostrar as mudanças linguísticas que lhe foram dando forma”. A língua portuguesa, tal como todas as línguas vivas, não é uma exceção. Também ela se caracteriza pela mudança, em particular na componente lexical. Novas palavras surgem ao mesmo tempo que outras deixam de ser usadas ou, ainda, outras adquirem novos significados.
Os fatores que contribuem para a mudança na língua podem ser, como vimos, diversos, mas a razão pela qual essas mudanças ocorrem é apenas a de otimizar a comunicação, adequando a língua e respondendo às necessidades comunicativas dos falantes que, também elas, se vão alterando. A ausência dessas necessidades comunicativas bloquearia a mudança e teria como consequência inevitável a morte da língua.
O estudo que se pretende apresentar nesta tese incidirá nas mudanças que se verificam no léxico da língua portuguesa, sendo essencial, para este efeito, caracterizar as palavras que surgem e as que adquirem novos significados. Este trabalho permitirá uma visão mais precisa da evolução da língua, pois só através de uma observação sistemática do léxico podemos caracterizar e conhecer essa mudança.
1.2 O lugar da neologia
Como se observou, se encararmos a língua como um sistema, verificamos que a mudança pode ocorrer a nível fonético-‐fonológico, a nível morfossintático, a nível pragmático ou a nível lexical.
Concebendo a neologia como um processo de criação lexical e o neologismo como um resultado desse processo, verificamos que essa criação:
• é feita através do recurso a diferentes meios de construção de palavras que podem resultar de produtividade ou de criatividade – relação com a morfologia;
• ocorre frequentemente nas linguagens especializadas ou através da adaptação ou proposta das suas denominações – relação com a terminologia; • tem como principais aplicações a atualização de dicionários gerais de língua e dicionários especializados – relação com a lexicografia e com a terminografia; • auxilia o estabelecimento de critérios que orientam a criação lexical – relação
com a política e planificação linguística;
• representa a mudança lexical e contribui para a abordagem dos fenómenos evolutivos da língua – relação com a história da língua;
• reflete toda e qualquer mudança na estrutura social – relação com a sociolinguística.
Pode-‐se assim situar a neologia de acordo com três vertentes distintas: (i) a motivação para a sua existência;
(ii) a área de estudo onde se enquadra;
(iii) as relações com outras áreas e os contributos que presta.
Do ponto de vista da motivação para a formação de neologismos, ela é claramente social na medida em que a língua é influenciada por todas as mudanças produzidas no seio de uma sociedade e a neologia não é concebida sem estar relacionada com as transformações que naquela se produzem, sejam elas políticas, culturais, científicas, técnicas ou outras. Todo esse movimento de transformação do mundo, acompanhado pelo surgimento de novas palavras, é referido em Guilbert (1973: 24), que considera que a causa para o surgimento de neologismos não se limita à intenção criadora dos falantes, mas que resulta também a própria evolução: