1.4 Tipos de neologismos 42
1.4.1 Quanto ao tipo de novidade que apresentam 42
Os neologismos podem surgir numa língua através de diferentes modos, apresentando tipos de novidade distintos. Rey (cf. 1.3.2) apresenta três tipos de neologismos: os neologismos formais (que incluem os empréstimos), os neologismos semânticos e os neologismos pragmáticos. Esta tipologia é seguida por Correia (1998: 61) e definida do seguinte modo:
45 No sentido da criação de palavras através dos recursos da própria língua. 46 No sentido da importação e/ou adaptação de palavras de outras línguas.
‘novidade formal’ (a sua forma significante é nova): quando o neologismo apresenta uma forma não atestada no estádio anterior do registo de língua (ex.: derivados e compostos novos, palavras de origem estrangeira);
‘novidade semântica’: quando o neologismo corresponde a uma nova associação significado-‐significante, isto é, uma palavra já existente adquire uma nova acepção;
‘novidade pragmática’: quando a neologia resulta da passagem de uma palavra previamente usada num dado registo para outro registo da mesma língua. A novidade pragmática implica, normalmente, novidade semântica47.
De acordo com a autora, uma palavra que apresenta novidade formal ou é construída através do recurso a processos morfológicos e/ou sintáticos de construção de palavras, ou é importada. Uma palavra que apresenta novidade semântica adquire uma aceção diferente da(s) que tinha. A novidade pragmática consiste na mudança de registo linguístico de uma palavra, evidenciando um significado que é normalmente diferente(s) daquele que possuía anteriormente.
No que se refere aos neologismos formais importa igualmente fazer a distinção entre os neologismos criados internamente no seio de uma língua e aqueles que são importados de outras línguas. Deste modo, na perspetiva dos processos disponíveis para a incorporação de palavras novas na língua, existem duas vias principais pelas quais surgem os neologismos:
• Formação através dos recursos próprios da língua – neologismos internos. • Importação de palavras de outras línguas – neologismos externos.
Os neologismos formados internamente caracterizam-‐se pelo recurso a processos de formação de palavras próprios da língua em causa. Esses processos de criação lexical inerentes ao sistema linguístico podem ser morfológicos, sintáticos, semânticos e fonológicos. A maioria destes processos é bastante frequente e quase impercetível pela familiaridade que os falantes têm com este recurso e pela espontaneidade com que são formados. Trata-‐se, portanto, do tipo de formação mais frequente nas línguas vivas.
47 “Tal não acontece, porém, no caso de, por exemplo, unidades lexicais que passaram da gíria dos marginais dos
bairros lisboetas para registos menos marcados socialmente, como a linguagem dos jovens e até o registo familiar. Exs.: chavalo, garina, o/a bófia, etc. Estes apresentam, portanto, novidade estritamente pragmática. Um mesmo neologismo pode, então, evidenciar, ao mesmo tempo, tipos de novidade diferentes, o que acontece com frequência.” Correia e Lemos (2005: 18).
Quando nos referimos à criação fonológica podemos falar de sequências totalmente inéditas como as criações ex nihilo ou da produção onamatopaica. Dos processos internos, a neologia fonológica é a mais rara, pois encontra-‐se diretamente relacionada com a criação oral de um neologismo, criação que é sempre limitada aos recursos do sistema fonético-‐fonológico e sujeita às suas leis combinatórias. De acordo com Guilbert (1972: 18-‐19), em princípio, todas as sequências fonológicas que respeitem o sistema combinatório da língua em questão devem poder integrar-‐se na língua. No entanto, este ato de criação encontra-‐se inibido pela coação social da significação, ainda que o signo linguístico seja arbitrário (isto é, sem um vínculo direto à realidade significada) e, em princípio, disponível para todos os significados que lhe queiramos atribuir.
A criação ex nihilo é a mais rara48 e consiste na criação integral de uma
palavra simples, ou seja, de um elemento fonológico inédito com um significado inédito. O exemplo mais citado na literatura (Guilbert, 1972; Correia, 1998; Cabré, 1993, entre outros) é o da palavra gás/gaz, interpretada como uma transposição de uma adaptação fonética da forma grega Khaos com o significado emprestado de “substance subtile”, tal como indica Guilbert (1972: 19). Por outro lado, se ao exemplo de gás juntarmos o exemplo de kodak, também referido na literatura para ilustrar este processo de formação, verificamos que ambos constituem importações, razão pela qual, a criação ex nihilo, pode ser considerado também um processo de neologia externa.
A criação de sequências fonológicas encontra-‐se ainda relacionada com as produções onomatopaicas que, apesar de constituírem sequências inéditas, se encontram ligadas ao referente que as motiva e pretendem ser uma reprodução do som que as representa, mas sempre condicionada pelas regras do sistema fonológico funcionando por aproximação.
48 Correia e Lemos (2005: 23-‐24) consideram que a raridade deste processo se pode justificar através do modo
como funciona a memória lexical: “(...) existe evidência de que, no léxico mental, as palavras se encontram armazenadas em função das relações de vária ordem que estabelecem entre si, relações formais, morfológicas, semânticas e referenciais, sintagmáticas, pelo que parece óbvio o papel da motivação na construção de novas unidades, até porque a inexistência desta motivação dificulta o armazenamento e o processamento das palavras.”
Uma sequência inédita pode também acontecer pela criação de elementos fonológicos já existentes através da utilização de abreviaturas (manif = manifestação), pela transposição de expressões condensadas graficamente (vj =
vídeo jockey) e mesmo mediante a adaptação de palavras estrangeiras importadas
(blog) que servem de base para criar uma derivação na língua que realiza o empréstimo (blogar).
É possível compreender, deste modo, a estreita relação entre casos de neologia fonológica e os empréstimos, pois, em muitos destes, os neologismos deste tipo surgem precisamente como forma de adaptação da palavra estrangeira que está na sua origem.
Os restantes modos de formação interna de neologismos podem ser morfológicos, sintáticos ou semânticos. Os recursos morfológicos para gerar novas palavras são os mais frequentes na criação neológica. Como indicado em Correia e Lemos (2005: 24):
(...) parte-‐se de elementos pré-‐existentes (unidades lexicais e afixos) e, com base num conjunto de regras interiorizadas e partilhadas pelos falantes, juntam-‐se esses elementos, de modo a obter novos itens, de estrutura normalmente transparente, ou seja, itens ou palavras cuja estrutura morfológica é perceptível e cujo significado é coerente com essa estrutura.
Destes recursos fazem parte os processos de derivação, composição, lexicalização, conversão e outros processos deformacionais (como as amálgamas, truncações, siglas e acrónimos). Os processos associados normalmente à criação morfológica são caracterizados, por Guilbert, como pertencentes à neologia sintática49. Para o autor (1972: 19), a neologia sintática é entendida como qualquer
formação que é produzida através de elementos previamente existentes na língua, combinação essa que se pode realizar a partir do ponto de vista lexical (base e afixo) ou fraseológico50. A neologia sintática inclui assim os processos de derivação, composição, derivação sintagmática, locuções e siglação.
49 Processos que consistem na mudança de subcategoria gramatical (género, número, mudança de regime verbal,
etc.) de uma unidade já existente, que, por sua vez, Guilbert (1972) considera uma forma neologia semântica.
50 “(...) toute formation qui s’opère par la combinaison d’éléments préexistents dans la langue. La combinaison se
présente sous un aspect lexical (base et affixe) mais aussi sous un aspect phrastique.” / “(...) qualquer formação que se dá através de uma combinação de elementos pré-‐existentes na língua. A combinação é apresentada sob um aspeto lexical (base e afixo), mas também sob um aspeto frásico.” [tradução minha]
A neologia semântica diz respeito ao significado e envolve uma mutação semântica sem que haja a necessidade de criação de uma substância significante nova. É deste modo que uma palavra já existente adquire uma aceção nova. A propósito da neologia semântica, Guilbert (1972: 21-‐22) considera que o significado se manifesta no lexema51 tanto pelo agrupamento dos seus traços, como pela função sintática52 que corresponde à sua categoria gramatical, assim como pelo uso que faz o seu locutor, indivíduo pertencente a um grupo sociocultural. Rey (1976: 12), por sua vez, ao apresentar os diferentes tipos de novidade (formal, semântica e pragmática), evidencia o facto de os neologismos semânticos apresentarem novidade semântica, mas destaca que não são apenas estes: qualquer neologismo que apresente uma novidade formal pode apresentar em simultâneo novidade semântica, que pode ser total (no caso dos empréstimos), parcial (palavras derivadas ou compostas) ou muito fraca (siglas e acrónimos), como referido anteriormente, em 1.3.2. A novidade semântica, de acordo com Rey (1976: 12) diz respeito a todos os neologismos sem exceção.
Por fim, a propósito dos neologismos internos, Guilbert (1972: 23) considera ainda a passagem dos neologismos da língua oral para a língua escrita como um modo de formação de neologismos. É esta passagem de um código para outro que o autor designa neologia gráfica.
Os neologismos externos são aqueles que são formados numa língua diferente daquela que acolhe o neologismo, de acordo com os processos de formação de palavras próprios, e que são depois importados por outra língua.
51 Entendido de acordo com a definição apresentada no Dicionário de Termos Linguísticos “Unidade mínima
distintiva do sistema semântico de uma língua que reúne todas as flexões de uma mesma palavra, flexões essas comummente vistas como palavras diferentes. O lexema é uma unidade abstracta. Para Martinet, os lexemas são monemas lexicais que pertencem a inventários ilimitados, por oposição aos monemas gramaticais ou morfemas.” http://www.ait.pt/index2.htm [12 de julho de 2011]
52 “La seconde forme de néologie sémantique est celle qui affecte la catégorie grammaticale du léxeme, et qu’on
appelle parfois néologie par conversión. L’essence du changement nous paraît de caractère sémantique, la catégorie grammaticale n’étant que le moyen de réalisation de la mutation. Ainsi belle employé comme substantif fémimnin (les belles) implique un changement sémantique qui dépasse la simple mutation de l’adjectif féminin, même appliqué à une femme, en substantif.” Guilbert (1972: 22) / “A segunda forma de neologia semântica é a que afeta a categoria gramatical do lexema, e às vezes chamada de neologia por conversão. A essência da mudança parece-‐nos de caráter semântico, a categoria gramatical é apenas o meio de alcançar a mudança. Assim, belle/belo empregado como substantivo feminino (as belas) envolve uma mudança semântica que vai além da simples transformação do adjetivo feminino, mesmo aplicada a uma mulher, como substantivo.” [tradução minha]
Constituem formações lexicais provenientes de outro código e incluem os estrangeirismos propriamente ditos e os empréstimos adaptados53. Ora, se tivermos em conta uma unidades como risoto, verificamos que há uma adaptação ortográfica desta palavra no português (do italiano risotto). A adaptação de um neologismo à língua de acolhimento pode processar-‐se a nível fonológico54, morfológico ou semântico55, além do ortográfico.
Este tipo de inovação lexical externa é muitas vezes polémico e visto como uma ameaça para a língua que recebe essas unidades; no entanto, a importação de palavras sempre foi um fator de enriquecimento lexical, tão necessário quanto inevitável.
Um neologismo pode assim apresentar tipos distintos de novidade que, como foi apresentado, pode ser formal, semântica e pragmática. Por sua vez, os mecanismos usados para a sua incorporação podem ser a construção de palavras novas, a reutilização de palavras existentes ou a importação de outras línguas.