2.2 Projetos em neologia 65
2.2.2.2 Fontes do ONP 72
Os meios de comunicação têm como principal objetivo dar conta de acontecimentos ou mudanças recentes, daquilo que é novidade, e, por isso, as temáticas abordadas são não só muito diversificadas, mas também muito abrangentes. Associada a este facto, conhece-‐se a existência de um vasto número de fontes de informação escritas, transmitidas em suporte de papel ou em linha. Em cada uma destas fontes podemos ainda ter acesso a um elevadíssimo número de autores, com as mais diversas opiniões, especialidades e características na sua escrita. Sabemos, ainda, que nos jornais e revistas escrevem também especialistas
dos mais diversos domínios, são transcritas entrevistas, são escritas crónicas, artigos de opinião e apresentados registos científicos, técnicos, literários, etc.
De toda esta diversidade resulta uma matéria-‐prima explorável e bastante rica que torna tudo o que é veiculado pelos meios de comunicação social uma fonte privilegiada para a deteção de conceitos e palavras novas, havendo, deste modo, maiores probabilidades de encontrar neologismos associados a variados domínios de experiência e de saber. Esta ideia é apresentada em Pascual (1992: 75-‐76), que considera:
(…) el lenguaje periodístico es una de las parcelas de la comunicación lingüística donde el neologismo tiene un indiscutible derecho de ser reconocido como moneda de uso legal. 90
O autor afirma ainda que a linguagem jornalística (utilizada nos jornais, na rádio ou na televisão) é, pelas suas características, uma linguagem sectorial em que o jornalista precisa de ter em conta um certo grau de criatividade linguística e utilizar uma linguagem científico-‐técnica ponderada e adequada da comunicação de massas no mundo contemporâneo. É importante, deste modo, cativar o leitor, prendê-‐lo ao texto, evitando que a potencial opacidade de termos científicos e técnicos prejudique a intenção do texto.
Nas duas décadas que separam o texto de Pascual aqui citado e o presente, muito mudou, talvez não na questão da linguagem jornalística e na produção de neologismos que nela se verifica, mas na forma de difusão. A Internet é, atualmente, o meio de difusão de notícias mais rápido e aquele que atinge um número mais elevado de pessoas. Esta relação é proporcional ao número de neologismos detetados ou à sua possibilidade de deteção. Serão as notícias em linha um novo género? Lewis (2003: 95) procura responder a esta pergunta constatando a mudança ao nível da difusão das notícias e das respetivas audiências:
Yet at the start of the twenty-‐first century, it seems that mass communication is giving ground to a many-‐to-‐many model of communication, implemented via internet, which rolls together the point-‐to-‐point model of the telephone with
90 “(…) a linguagem jornalística é uma das parcelas da comunicação linguística na qual o neologismo tem um
the one-‐to-‐many model of print and broadcast. (…) News sources are changing, and so are news audiences. Moreover, what counts as news may be changing.91
A autora (2003: 102) considera que o modo de difusão de notícias mais tradicional não se vai extinguir, mas que há uma reestruturação a decorrer e uma mudança moderada:
Online news will not oust traditional news forms. But, as a growing part of the system of news production and circulation, it is redefining older news structures, and subtly changing the way we conceive news.92
No entanto, a influência da Internet não se manifesta apenas nas mudanças das características das notícias, na informação veiculada, nem na dimensão ou na velocidade de propagação. Há também características próprias desta linguagem que fazem da mesma objeto de reflexão. David Crystal (2005) fala-‐nos do papel da Internet e da comunicação mediada por computador, considerando que a Internet motivou, desde o seu aparecimento e utilização generalizada, o aparecimento de novos tipos de expressão, que se verificam quer nas novas convenções introduzidas93, quer no aparecimento de neologismos de diferentes tipos, com
diferentes estruturas e diferentes construções, neste caso particular, todos relacionados com a Internet (cf. Crystal, 2005: 94-‐95):
• Termos que designam áreas e funções, especificam operações e comandos:
file, edit, view, copy, paste, refresh, toolbars, send, save, etc.
• Mensagens de erro: proibido, operação ilegal, não encontrado, erro 404, etc.
• Termos associados ao uso do hardware do computador: freeze, lock, down,
crash, bomb, client (a máquina, não o utilizador), etc.
91 “Agora no início do século XXI, parece que a comunicação em massa está a dar lugar a um modelo de
comunicação de ‘muitos para muitos’, implementado através da Internet, o que relaciona o modelo ‘ponto a ponto’ do telefone com o modelo de ‘um para muitos’ da impressão ou da transmissão. (…) As fontes das notícias estão a mudar, assim como as audiências. Além de que, o que é considerado ums notícia também pode estar a mudar.” [tradução minha]
92 “As notícias em linha não vão destituir as formas tradicionais de notícias. Mas, como uma parte crescente do
sistema de produção e circulação de notícias, está a redifinir as estruturas antigas das notícias, e subtilmente a mudar a o modo como nós concebemos notícias.” [tradução minha]
93 Uso de símbolos ( :-‐), :-‐( ), de maiúsculas (MUITO – significa gritar), de grafologia distinta (AltaVista,
CompuServe, net.citizen, e-‐book), de abreviaturas (d+, fds, b4, thx, CUl8er) – as quais são designadas como ‘técnicas de rébus’.
• Termos para a população de utilizadores da Internet: netters, netties,
cybersurfers, nerds, newbies, surfers, etc.
• Termos que resultam da combinação de palavras, com click, por exemplo:
cost-‐per-‐click, click-‐and-‐buy, double-‐click, clickthrough rate, etc.
• Termos que revelam a produtividade dos formantes cyber e hyper:
cyberspace, cyberculture, cybersex, cyber rights, hypertext, hyperlonk, hyperzine, etc.
• Truncações e amálgamas: infonet, datagram, internauta, etc. • Acrónimos: BCC, DNS, FAQ, HTML, ISP, URL, etc.
• Combinações de letras e números: W3C, P3p, Go2Net, etc.
Para Crystal (2005: 95), a passagem de palavras novas do registo escrito através do computador para o registo oral acaba por ser um sinal de que estamos perante uma nova variedade:
É sempre um sinal claro de que uma “nova variedade” chegou quando as pessoas em outras situações lingüísticas começam a repeti-‐las na fala. Portanto, é de grande interesse notar o modo como as características do netspeak já começaram a ser usadas fora das situações de comunicação mediada por computador (…).94
Retomando o ONP e o tema deste ponto – as fontes usadas para a deteção de neologismos no ONP –, importa referir que as principais fontes do ONP são jornais ou revistas, diários ou semanários, disponibilizados na Internet; no entanto, as fontes impressas são também usadas. Foram, inicialmente, selecionados dois jornais generalistas nacionais: o Diário de Notícias e o Público (no ano de 2004). Tratando-‐se de dois jornais diários, foram escolhidos por serem considerados representativos da língua geral na imprensa e por serem jornais de grande tiragem, que incluem diversas secções, abordando os mais variados aspetos da vida em sociedade. Outra das razões que esteve na base desta escolha foi o facto de estes se encontrarem, em 2004, disponíveis em linha, o que permitiria a deteção semiautomática de neologismos e o seu descarregamento através da aplicação
Legimus.
No ano de 2005 mantiveram-‐se as duas fontes de consulta iniciais, os jornais
Diário de Notícias e Público, e, pontualmente, começou-‐se a recorrer a outras fontes,
tais como a revista Única (do jornal Expresso), o Jornal de Notícias, a revista Visão ou o sítio da Lusa. Em 2006 mantém-‐se o recurso às fontes do ano anterior e começa-‐se a deteção manual também no Courrier Internacional. No ano de 2007 continuaram alargar-‐se as fontes, nunca deixando de recorrer às fontes de consulta anteriores, altura em que o ONP começou a beneficiar de colaboração voluntária, diversificando-‐se assim as fontes de extração, mas mantendo-‐se os critérios definidos inicialmente. Assim, entre outras, acrescentaram-‐se às fontes de extração a revista Pública, o jornal Sol e a revista Sábado.
Os anos de 2008 e 2009 caracterizam-‐se por uma diversificação ainda superior nas fontes de deteção de neologismos alargando-‐as para cerca de 30 fontes distintas das quais se destaca a presença dos jornais diários de distribuição gratuita:
Destak, Metro, Meia Hora e Global; e ainda, o jornal i e o jornal Correio da Manhã.
Em 2010 e 2011, o corpus de extração continuou a manter as fontes até aqui usadas e a promover recolha manual, essencial para a deteção de neologismos semânticos, sintagmáticos, formais por lexicalização, sintáticos e alguns casos de conversão. O objetivo é continuar a alargar o corpus de extração e estendê-‐lo àquilo a que Lewis (2003: 99) chama “online news style”. Estes novos estilos de notícias em linha: “electronic forms of news dissemination include multimedia ‘webcasts’, e-‐ zines, news alert services, news tickers, e-‐journal and (we)blogs, newsgroups, personalized news trackers and email” revelam novas convenções estilísticas.
No entanto, a produção de neologismos não acontece apenas na forma escrita, razão pela qual, e à semelhança do trabalho desenvolvido pelo OBNEO95 desde 2000, se pretende no futuro fazer a deteção de neologismos em textos orais no ONP. A língua oral, pela espontaneidade que a caracteriza, comparativamente à sua forma escrita, permite aceder a um nível de criatividade linguística que favorece o aparecimento de novas unidades lexicais. Para fazer este tipo de trabalho é necessária uma adaptação nos campos da ficha de registo de cada neologismo
95 Observatório de Neologia do Instituto Universitário de Linguística Aplicada, da Universidade Pompeu Fabra em
(campo de transcrição fonética, marcas metalinguísticas, características do emissor, etc.), assim como a obtenção de um corpus de dados orais devidamente transcrito96.