• Nenhum resultado encontrado

A inserção das Guianas no pensamento estratégico brasileiro: do período colonial ao presente

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A inserção das Guianas no pensamento estratégico brasileiro: do período colonial ao presente"

Copied!
115
0
0

Texto

(1)UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM GEOGRAFIA. REGIVALDO SENA DA ROCHA. A INSERÇÃO DAS GUIANAS NO PENSAMENTO ESTRATÉGICO BRASILEIRO: DO PERÍODO COLONIAL AO PRESENTE. Natal/RN 2016.

(2) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. REGIVALDO SENA DA ROCHA. A INSERÇÃO DAS GUIANAS NO PENSAMENTO ESTRATÉGICO BRASILEIRO: DO PERÍODO COLONIAL AO PRESENTE. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação e Pesquisa em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como pré-requisito para a obtenção do titulo de Mestre em Geografia.. Aprovado em: 05/08/2016. _______________________________________________________ Prof.º Dr. Edu Silvestre de Albuquerque Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Orientador _______________________________________________________ Prof.° Dr. Henrique Alonso de Albuquerque Rodrigues Pereira Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Examinador Interno. _______________________________________________________ Prof.º Dr. Augusto Wagner Menezes Teixeira Junior Universidade Federal da Paraíba - UFPB Examinador Externo. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. ii.

(3) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. iii.

(4) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Aos meus pais, Lourdes Sena e João Reginaldo, aos meus irmãos e a minha querida e companheira de sempre, minha Esposa Shirley.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. iv.

(5) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. AGRADECIMENTOS. Primeiramente, agradeço a Deus pela oportunidade de viver novamente, depois da luta travada em busca da vida, e de poder cotidianamente realizar os sonhos que haviam ficado para trás. Agradeço a minha família pelo apoio incondicional, a minha esposa amada, (Shirley) pelo carinho, dedicação e apoio que de sua parte nunca me faltaram. Aos professores do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que desde o inicio sempre me apoiaram nessa trajetória. Ao meu orientador Prof. Edu Silvestre de Albuquerque, por ter abraçado esse projeto de pesquisa e pelas enormes contribuições e o apoio em minha formação. Aos professores Eugênia Dantas e Adriano Troleis, pela compreensão nas minhas ausências da secretaria EaD, e pelo apoio incondicional nesta jornada em busca de novos conhecimentos. Enfim, a todos que como eu acreditam que o conhecimento é uma via pela qual o homem pode mudar a sua trajetória de vida e assim transformar o mundo a sua volta. Aos amigos, Aracildo, Allan, Hiran, Gervásio e Jânio, juntos dividimos angustias e risos, vivemos o cotidiano da academia sem perder o foco em nossos objetivos acadêmicos. A professora Miriam Hermir Zaar, que sempre acreditou no meu trabalho e ajudou em minha formação como Pós-Graduando.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. v.

(6) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. ROCHA, Regivaldo Sena da – A Inserção das Guianas no Pensamento Estratégico Brasileiro: do Período Colonial ao Presente. Dissertação de Mestrado, Programa de PósGraduação e Pesquisa em Geografia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, Natal – RN, Brasil. Orientador: Prof. Dr. Edu Silvestre de Albuquerque RESUMO Para a concretização deste trabalho realizamos um levantamento bibliográfico de caráter histórico e geográfico acerca da inserção das Guianas no pensamento estratégico brasileiro. As leituras realizadas demonstraram que, apesar do pressuposto usualmente aceito de que os países da América do Sul se desenvolveram inteiramente de costas uns para os outros, o subcontinente já nasce unificado ainda no período colonial em termos de estratégias dos atores hegemônicos europeus. Mesmo o isolamento terrestre das Guianas não impediu que primeiro Portugal e depois o Império do Brasil considerassem a região como fundamental nos seus respectivos pensamentos estratégicos. Em verdade, o Brasil herda parte de suas raízes políticas e geopolíticas da estrutura do pensamento estratégico lusitano. O interesse lusitano e brasileiro nas Guianas era tanto em relação aos limites de fronteira para expansão territorial, quanto em relação à projeção de ameaças externas que a partir da região pudessem questionar a soberania portuguesa e brasileira sobre áreas maiores da Amazônia. Nesse percurso tentamos demonstrar que a região das Guianas estava precocemente inserida no contexto geopolítico Sul-Americano, mesmo estas nações sendo de matrizes colonizadoras distintas dos demais países do continente. Visamos esclarecer que a região das Guianas nunca foi um "vazio geopolítico", como demonstraram os diversos episódios de fixação das linhas de fronteira pelos portugueses, estes sabendo utilizar muito bem dos princípios do Utis Possidetis. No período republicano brasileiro ocorre também uma ampliação desse temor de ameaça à soberania enquanto uso dessa região como plataforma para operações cubanas que poderiam transformar o próprio Brasil numa zona de influência do bloco comunista. Na atualidade a IIRSA, a UNASUL e o CDS assumem um papel importante na retomada dos princípios estratégicos e geopolíticos historicamente pensados pelo Brasil para o continente Sul-Americano, fomentando projetos de infraestrutura e de melhoria das comunicações do Brasil com a região das Guianas, e nesta, entre seus vizinhos, integrando agora também por meios terrestres uma região que já nasceu integrada do ponto de vista estratégico. Palavras-Chaves: Geopolítica do Brasil, Guianas, Pensamento Estratégico Brasileiro.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. vi.

(7) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. ABSTRACT To achieve this study conducted a bibliographic study of historical and geographical character on the entry of the Guianas in the Brazilian strategic thinking. The readings taken showed that, despite the assumption usually accepted that the countries of South America have fully developed of a back to each other, the subcontinent is born unified even in the colonial period in terms of strategies of European hegemonic actors. Even terrestrial isolation of Guyana did not prevent first Portugal and then the Empire of Brazil consider the region as critical in their strategic thinking. In fact, Brazil inherits part of its political and geopolitical roots of the structure of the Portuguese strategic thinking. The Lusitanian and Brazilian interest in the Guianas was both for border limits for territorial expansion, and in relation to the projection of external threats from the region could question the Portuguese and Brazilian sovereignty over the Amazon larger areas. In this way we try to demonstrate that the region of the Guianas was inserted early in the geopolitical context South American, even these nations being distinct colonizing matrices of other countries of the continent. We aim to clarify that the region of the Guianas was never an "empty geopolitical", as shown by the many episodes of fixing of boundary lines by the Portuguese, they know very well use the principles of Uti Possidetis. In the Brazilian republican period also occurs an expansion of this threat of fear of sovereignty while using this area as a platform for Cuban operations that could transform Brazil itself in an area of influence of the communist bloc. At present IIRSA, UNASUR and the CSD play an important role in the resumption of strategic and geopolitical principles historically designed by Brazil to the South American continent, promoting infrastructure projects and improving communications between Brazil and the region of the Guianas, and this among its neighbors, integrating now also by terrestrial means a region that was born integrated strategic perspective. Keywords: Geopolitics of Brazil, Guianas, Brazilian Strategic Thinking.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. vii.

(8) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. LISTA DE SIMBOLOS E SIGLAS. AM - Estado do Amazonas BIRD - Banco Interamericano de Desenvolvimento BVD - Base pela Renovação e pela Democracia CARICOM - Comunidade do Caribe CDS - Conselho de Defesa CECA - Comunidade Européia do Carvão e do Aço CELAC - Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos CGSB - Coordenadoria Guerrilheira Simon Bolívar CMA - Comando Militar da Amazônia CRS - Complexo Regional de Segurança EID - Eixo de Integração e Desenvolvimento EMFA - Estado Maior das Forças Armadas END - Estratégia Nacional de Defesa EUA - Estados Unidos da America EAU - Emirados Árabes Unidos FARC - Forças Armadas Revolucionárias Colombianas FMI - Fundo Monetário Internacional IIRSA - Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana Km² - Kilometros quadrados LBD - Livro Branco de Defesa MERCOSUL - Mercado Comum do Sul NAFTA - Tratado Norte Americano de Livre Comercio (North American Free Trade Agreement) NDP - Partido Nacional Democrático NF - Coalizão Nova Frente para a Democracia e o Desenvolvimento NFO - Nova Forma de Operar NPS - Frente Nacional do Suriname OCX - Organização para Cooperação de Xangai OEA - Organização dos Estados Americanos OMC - Organização Mundial do Comércio ONU - Organização das Nações Unidas. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. viii.

(9) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. OSL - Operação Selva Livre OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte PA - Estado do Pará PCN - Programa Calha Norte PDN - Política de Defesa Nacional PIB - Produto Interno Bruto PNC - Partido do Congresso Nacional Popular PPP - Partido Progressista do Povo RJ - Estado do Rio de Janeiro RO - Estado de Rondônia RR - Estado de Roraima SIPLEX - Sistema de Planejamento Estratégico do Exercito Brasileiro SIVAM - Sistema de Vigilância da Amazônia SP - Estado de São Paulo SPA - Partido Trabalhista do Suriname VHP - Partido da Reforma Progressista TCA - Tratado de Cooperação Amazônica TEH - Teoria da Estabilidade Hegemônica TIAR - Tratado Interamericano de Assistência Recíproca UE - União Européia UNASUL - União das Nações Sul-americanas UP - União Patriótica. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. ix.

(10) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. SUMÁRIO. INTRODUÇÃO................................................................................................................... 12. CAPÍTULO 1: O Espaço Guianense: Entre o Isolamento Geográfico Sul-Americano e a Apropriação Geopolítica pelos Estados Limítrofes............................................................... 18. 1.1 - A Geopolítica Portuguesa na América do Sul: Desconstruindo Tordesilhas................ 19. 1.2 - Os Tratados de Madri e de Santo Ildefonso: A Fixação dos Limites Políticos na América do Sul...................................................................................................................... 25. 1.3 - A Segurança da Guiana Francesa Aparece no Epicentro da Geopolítica Lusa............. 27. 1.4 - A Geopolítica no Período Republicano: As Guianas e outras Disputas de Fronteira... 30. CAPÍTULO 2: A técnica como Instrumento do Imperialismo Lusitano............................. 34. 2.1 - A Questão da Emergência da Técnica na Vertebração do Espaço Sul-Americano...... 34. 2.2 - A Integração Física Regional como Base para os Demais Processos Integracionistas. 38. 2.3 - Resgatando o Pensamento Geopolítico Brasileiro para a Integração Física SulAmericana.............................................................................................................................. 40. 2.3.1 - O Lento Avanço das Estradas Rumo ao Espaço Amazônico................................ 42. 2.4 - A Geopolítica do Pós-Independência: Conflitos, Pactos e Cooperação na América do Sul..................................................................................................................................... 44. 2.4.1 - A Segurança do Espaço Guianense na Atualidad................................................ 47. 2.5 - A IIRSA e o Projeto de Globalização.......................................................................... 49. 2.5.1 - Panorama Econômico e Social dos Países do Escudo Guianês............................ 51. 2.5.2 - Panorama Histórico do Eixo do Escudo Guianês................................................. 55. 2.5.3 - Panorama da IIRSA.............................................................................................. 60. 2.5.4 - Fronteiras versus IIRSA........................................................................................ 63. 2.6 - As Fronteiras: Velhos e Novos Significados................................................................ 65. CAPÍTULO 3: Programa Calha Norte: Sua Importância para a Segurança Regional........ 69. 3.1 - Amazônia: Perspectiva Histórica Política e Militar...................................................... 69. 3.2 - O Brasil, de Territórios a Estados................................................................................. 73. 3.3 - A Criação dos Comandos Militares, a Reorganização Territorial das Forças Armadas do Brasil................................................................................................................. 76. 3.4 - As FARC e a Ameaça Colombiana............................................................................... 79. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. x.

(11) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. 3.4.1 - A Região da Fronteira Brasil-Colômbia e a Atuação do Exército Brasileiro....... 82. 3.5 - O Valor Geopolítico do Platô das Guianas na Política Nacional de Defesa e na Estratégia Nacional de Defesa............................................................................................... 84. 3.5.1 - O Brasil e sua Política de Defesa.......................................................................... 92. CAPÍTULO 4: A Visão Brasileira de "Margem de Autonomia Relativa" da Política Externa dos Estados das Guianas.......................................................................................... 94. 4.1 - O Conselho de Segurança Sul-Americano (CDS)........................................................ 94. 4.1.1 - CDS, Realismo ou Neorrealismo?......................................................................... 95. 4.1.2 - O CDS e a Perspectiva Liberal.............................................................................. 97. 4.1.3 - A Perspectiva Liberal e a Integração Europeia..................................................... 98. 4.1.4 - A Perspectiva da Teoria da Estabilidade Hegemônica.......................................... 100. 4.1.5 - CDS (Conselho de Segurança) ou CRS (Complexo Regional de Segurança)?.... 101. CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................. 105. REFERÊNCIAS.................................................................................................................. 108. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. xi.

(12) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. LISTA DE FIGURAS. Figura 1. Bula Inter Coetera, redefinida para Linha de Tordesilhas................................ 21. Figura 2. Rotas Marítimas Portuguesas............................................................................ 35. Figura 3. Eixos de Integração e Desenvolvimento da IIRSA........................................... 50. LISTA DE TABELAS. Tabela 1. Dados Econômicos e Sociais (Brasil, Guiana, Suriname e Venezuela).......... 52. Tabela 2. Relação PIB e Investimento Militar................................................................ 55. Tabela 3. Síntese das Propostas de Redivisão do Território Nacional do Brasil............ 76. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. xii.

(13) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. INTRODUÇÃO INTRODUÇÃO Um título alternativo sugerido para nosso trabalho foi “A desconstrução da idéia do desenvolvimento de costas uns para os outros na América do Sul", onde o estudo de caso das Guianas contribuiria para embasar a assertiva do título. Entretanto, esse redirecionamento temático e metodológico da pesquisa somente ocorreu já ao final, uma vez que nossa metodologia sempre teve por objetivo geral a caracterização da política externa brasileira em relação às unidades políticas da área conhecida por Platô das Guianas, inclusive com a etapa não alcançada de realização de entrevistas in loco com autoridades desses países. Esperávamos desta forma, superar o problema da absoluta escassez de dados acerca da área de defesa dos países guianos, porém a escassez de tempo e de recursos financeiros nos levou à encontrar uma abordagem mais teórica acerca da temática em análise. No percurso acadêmico temos que fazer algumas escolhas bibliográficas para subsidiar a análise pretendida, no entanto, essas escolhas não pretendem vencer toda a bibliografia necessária para dar conta da abordagem histórica, tendo a plena consciência que há muita bibliografia a ser pesquisada, principalmente na área de história, para subsidiar pesquisas futuras relacionadas à temática do nosso trabalho. É importante esclarecer que de maneira alguma, nosso trabalho se colocou o desafio de resgatar a evolução histórica das unidades políticas guianas, embora no decurso de nossas análises, tivemos de fazer escolhas relacionadas à seleção de eventos históricos que acompanhavam o tema em análise, e igualmente sem exauri-los. Muito há ainda a se pesquisar em fontes e referências históricas para que se possa dar conta da história regional. Outro ponto a ser esclarecido em nosso trabalho, está relacionado à ideia de segurança coletiva. Nada ainda efetivamente existe em termos de organizações de segurança regional na América do Sul, sendo que a UNASUL-CDS representam ainda tão somente expectativas de parte dos governos nacionais do subcontinente em termos de cooperação da área de defesa e segurança. Optamos por incluir neste trabalho os documentos oficiais sobre essa pretendida comunidade de segurança, conscientes de que fugimos da temática central de nosso trabalho. Ao longo da história, as construções de natureza geopolítica – sejam elas, Impérios, Sistemas Coloniais, Estados Nacionais ou Processos Integracionistas modernos –. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 13.

(14) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. têm considerado o conjunto de técnicas apropriáveis naquele momento, e que, por sua vez, representam a resposta possível diante da geografia (física e humana) na qual se projetam. De modo que Milton Santos (1994) rotularia a Geografia como uma filosofia das técnicas, ressaltando a importância do estudo das técnicas para o entendimento da estruturação do espaço. João Phelipe Santiago (2013) destaca que já na geografia ratzeliana subjazem uma teoria do Estado e outra das Técnicas, apresentadas não separadamente, mas numa simbiose perfeita no interior das análises geopolíticas das redes de comunicação européias. No Brasil, quem primeiro procurou organizar as redes de comunicação brasileiras segundo nossas características geográficas foi o geopolítico militar Mário Travassos. Já ao iniciar o século XX, este procurou articular a projeção continental brasileira ao desenho de uma geografia das comunicações assentada nas possibilidades e necessidades territoriais brasileiras. Entretanto, queremos demonstrar na presente dissertação que o vetor da Técnica já está presente no subcontinente sul-americano desde a formação dos sistemas coloniais de além-mar pelas potências européias. Naquele momento, a América do Sul é incorporada aos objetivos geopolíticos das potências européias e, a partir dos séculos seguintes, essa incorporação deixa de ser apenas simbólica para esboçar uma integração comercial aos fluxos europeus. Assim, a formação do sistema-mundo, do qual nos fala Imannuel Walerstein (1990), não é um processo recente; este vem se delineando historicamente desde o século XV, com as navegações e o sistema econômico mercantilista. Essa primeira fase da globalização envolveu a procura por novas rotas marítimas para as Índias, e que resultou no estabelecimento das primeiras feitorias comerciais européias nas fímbrias da própria Índia, e também na China, Japão e América do Sul. Nesta última, a colonização se faz justamente a partir da contínua ocupação dessas faixas marítimas, que inclusive ensejou o estabelecimento de rotas marítimas para a navegação de cabotagem e de interior (Laguna dos Patos-Guaíba, Rio São Francisco, Rio da Prata e Rio Solimões-Amazônas). Outro diálogo que aqui estabelecemos é com a proposta miltoniana de periodização do território brasileiro em função dos estágios de desenvolvimento técnico. A primeira fase seria de domínio dos meios chamados “naturais” (como o extrativismo do paubrasil); a segunda fase de implantação dos meios técnicos (como os engenhos na Zona da Mata nordestina e as charqueadas rio-grandenses) que teriam formado “arquipélagos”. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 14.

(15) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. mecanizados pelo território brasileiro; e por fim, a terceira fase marcada pela universalização do “meio técnico-cientifico-informacional” para o conjunto do território nacional (SANTOS e SILVEIRA, 2001). Essa periodização dá conta da demonstração da seletividade operada pelo capital no território brasileiro desde que por aqui se estabelece o processo de produção de valor, porém, é acanhada ao situar a tecnificação do território brasileiro como um processo tardio. Assim, Milton Santos vai apontar uma “suposta fase de proto-unificação do território nacional (remetendo à tese dos “arquipélagos econômicos”) e uma fase tardia de integração nacional plena” (ALBUQUEQUE, 2007, p. 77). O renomado economista Caio Prado Junior (1945 apud ALBUQUERQUE, 2007) aponta que a navegação de cabotagem e de interior assegura ainda no período colonial a integração territorial brasileira, viabilizando movimentos militares para a segurança do território e importante comércio inter-regional. Com efeito, a navegação fluvial permitiu a interiorização da colonização, caso da ocupação da região amazônica pela calha do Amazonas, e do sertão nordestino pelo São Francisco1. E ao lado dos grandes rios que terminam na fachada atlântica, a própria costa constituía importantes vias de comunicação para a integração territorial brasileira. Assim, se desfaz ou minimamente se relativiza a tese do isolamento dos “arquipélagos” econômicos, bem como se antecipa em muito a fase de integração territorial brasileira. Agora, é claro que o avanço na utilização dos meios técnicos vai trazer o aprofundamento desses contatos costeiros e pelo interior do território. O advento do capitalismo industrial vai trazer novas técnicas aplicadas ao processo fabril e às comunicações, viabilizando a ocupação agrícola das áreas mais interiores dos continentes (HOBSBAWN, 1979). Esse é o período da formação das vastas unidades geoeconômicas do sistema-mundo, caso do Pampa Sul-Americano com seus ricos pastos naturais e relevo plano ocupados pela produção ganadeira e depois de trigo (HOBSBAWN, 1979).. Talvez. dessa. empiria. histórica. baseada. nas. especializações. produtivas. regionais/nacionais que se alimentam as teses de que os países sul-americanos se desenvolveram de costas uns para os outros, numa análise essencialmente economicista. É sobre este ponto que nos debruçamos em especial nesta dissertação, destacando o caso das Guianas, mas que são perfeitamente extrapoláveis para os demais compartimentos 1. Aliás, “o Velho Chico” é lembrado nos livros escolares brasileiros justamente como “rio da integração nacional”.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 15.

(16) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. geográficos sul-americanos. A integração das Guianas as dinâmicas sul-americanas ainda não ocorreu para a quase totalidade dos autores que se debruçam sobre a integração regional, ou ocorre de forma ainda lenta e muito recentemente (GANGER, 2013). Entretanto, queremos demonstrar que essas visões estão assentadas no moderno conceito de integração regional, portanto, uma leitura apenas econômica, reduzindo a compreensão da técnica ao aspecto produtivo e desconsiderando suas implicações geopolíticas. Nesse sentido, as Guianas também cedo são inseridas na dinâmica da segurança sul-americana, quando países como o Brasil demonstram preocupações em sua política externa quanto à presença européia tão próxima de nossas fronteiras. A dificuldade de acesso por terra não impediu que os exércitos imperiais brasileiros encontrassem certa facilidade na tomada desses territórios. Sendo assim, o Brasil logo sente a necessidade de inclusão das Guianas na agenda de segurança nacional, nascendo prematuramente no âmbito do Estado brasileiro, provavelmente como seguimento da visão geopolítica lusitana e da imposição da realidade de fragilidade de nossas fronteiras setentrionais em decorrência da presença de interesses de atores extra-regionais. Com essas colocações passamos a nos questionar se de fato podemos relativizar a situação de isolamento geopolítico das Guianas? E se existe um plano de longo prazo do Estado brasileiro para a região das Guianas? Parece-nos, que os argumentos vigentes e amplamente aceitos de que não havia possibilidade de acesso por transportes diante do obstáculo da densa floresta amazônica deixam de levar em conta a via atlântica, um imenso corredor de transportes capaz de romper com o isolamento sul-americano ou de quase todo ele sempre que necessário. Isso não significa deixar de reconhecer que o desenvolvimento de novas técnicas e usos econômicos do território guianense tragam novas possibilidades para aprofundar a sulamericanização desse compartimento geográfico, redefinindo o próprio conceito de segurança coletiva regional. O geopolítico britânico Halford Mackinder (1904) destaca pioneiramente o crescimento da importância da dimensão terrestre nas preocupações geopolíticas em geral e no fenômeno da guerra em particular. Dizia ele que a oposição ao tradicional poder marítimo era agora algo possível com o advento da máquina a vapor aplicada aos transportes sobre trilhos, anunciando o redesenhar do mapa europeu a partir dos interesses dos poderes alemão e russo, e como que predizendo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria. Com efeito, o próprio modo de fazer a guerra vai evoluir nesse momento de modo a convergir à integração das comunicações dos vastos espaços nacionais com a formação de sistemas. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 16.

(17) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. econômicos integrados nacionalmente, como lembra Clausewitz com seu conceito de guerra total2, e que fundamenta o moderno conceito de logística nascido da última grande guerra mundial. Desde então, o capitalismo vem evoluindo em alguns polos como economias integradas nacionalmente, casos de EUA e Japão, e/ou regionalmente, caso europeu (FIORI, 2009). Importante notar que o conceito de “meio técnico-científico-informacional” formulado por Milton Santos (1996) para explicar as mudanças aceleradas no aparato produtivo e nas comunicações a partir da década de 1970, capta justamente essa maturação do sistema logístico da guerra total. Essa nova logística lança a economia e a guerra a um novo patamar escalar. Nos modernos processos de integração econômica, a globalização se faz em ritmos diferenciados, onde grande parte dos atores nacionais obedece a uma lógica agora macroregional. Essa nova lógica estratégica, Rogério Haesbaert (1991) vai definir como "blocos internacionais de poder", derivado da emergência de uma ordem multipolar no pós-guerra fria onde o poder estará ainda mais vinculado as questões econômicas e as transformações capitalistas (ciclos de acumulação e crise). Com efeito, Haesbaert (1991) acerta ao perceber as mudanças na divisão internacional do trabalho no sentido da emergência de mercados comuns regionais (UE, NAFTA, Mercosul), mas erra ao acreditar que as composições político-militares, como a OTAN, e os Estados nacionais perderiam força nesse novo cenário ditado pelas empresas transnacionais e organismos supranacionais como FMI, Banco Mundial e OMC. Na verdade, Haesbaert. não percebeu que o próprio conceito de segurança. nacional passa a assumir essa lógica macroregional, sendo a OTAN apenas um embrião do que está por vir em outras partes do mundo, como a Eurásia (OCX) e América do Sul (UNASUL-CDS). Em diversas regiões do mundo tem se discutido acerca da necessidade de constituição de arranjos regionais de defesa, prevalecendo nesses arranjos às proximidades regionais tanto no âmbito econômico (indústria de defesa) quanto de segurança coletiva. Na Metodogia utilizaremos o método geopolítico a partir dos pressupostos ratzelianos de valor político do território (posição geográfica e características do território) e. 2. Guerra total é um conceito dito moderno de um conflito, de alcance ilimitado; no qual as partes beligerantes entram numa fase de mobilização total de todos os seus recursos - humanos, industriais, agrícolas, militares, naturais e tecnológicos para o esforço de guerra.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 17.

(18) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. da geoestratégia do poder nacional para a organização das redes de comunicação. Assim, propomos uma releitura miltoniana do vetor da técnica a partir de sua dimensão geopolítica. Assim, nosso objetivo principal é sistematizar o pensamento geopolítico, no âmbito do Estado brasileiro, acerca da importância das Guianas para a segurança nacional brasileira. Para tanto, nos valemos de pesquisas bibliográficas sobre o histórico da política externa lusitana e brasileira para com a região das Guianas desde o período colonial e imperial até os tempos atuais. Na atualidade, analisamos os programas Calha Norte e IIRSA, bem como as propostas de segurança coletiva regional da UNASUL-CDS. Para tanto, No primeiro capítulo resgatamos a apropriação política das Guianas nas estratégias geopolíticas portuguesa e depois brasileira, que remete às etapas de descobrimento/colonização européia do subcontinente e de consolidação dos Estados Nacionais pela região. Destacando-se os eventos da ocupação da Guiana Francesa pelo Império brasileiro como forma de retaliação à invasão napoleônica de Portugal, e de desconfiança de marxificação da região pelo regime militar brasileiro durante a Guerra Fria. No segundo capítulo traçamos o desenho da infraestrutura de integração física dos territórios guianos entre si e com o Brasil, especialmente o âmbito da IIRSA, para analisá-lo em seus aspectos geopolíticos. No terceiro e último capítulo abordaremos as ações militares atuais através do Programa Calha Norte e a visão brasileira acerca da segurança das Guianas no âmbito dos documentos oficiais Estratégia Nacional de Defesa e Livro Branco de Defesa, bem como analisamos a proposta de integração regional na área de defesa, incluindo a proposta de segurança coletiva regional do CDS-UNASUL.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 18.

(19) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. CAPÍTULO 1 O Espaço Guianense: Entre o Isolamento Geográfico Sul-Americano e a Apropriação Geopolítica pelos Estados Limítrofes A abordagem geopolítica envolve as projeções de poder no espaço geográfico, este entendido como um sistema multidimensional (RAFESTINN, 1993). O espaço é uma totalidade formada por sentidos e por significados que nos leva a considerá-lo como sendo um conjunto de possibilidades. Entendemos com isto, que a abordagem do espaço, e consequentemente do território, deve considerar todo o conjunto material e imaterial nele existente: (...) o território se forma a partir do espaço, ele é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível. Ao se apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente (por exemplo, pela representação), o ator ‘territorializa’ o espaço. (RAFESTINN, 1993, p. 143).. Essa idéia traz consigo a percepção de que em todo o espaço em análise deve ser levado em conta as possibilidades em suas multidimensões, seja ela política, econômica, cultural ou espacial. Podemos ir ainda mais além, pois ao falarmos de espaço pela dimensão da linguagem é possível que estejamos tratando de diferentes ações movidas por diferentes atores numa simultaneidade de eventos no mesmo espaço. A região de Essequibo é um desses subespaços contidos simultaneamente nos discursos de poder dos Estados da Guiana e da Venezuela. Entendemos que toda prática espacial é de certa forma induzida por um sistema de ações ou de comportamentos que se traduz num discurso e numa produção territorial. Se os discursos são mais cambiantes e mesmo simultâneos ao envolverem atores diversos, geralmente a produção territorial é algo mais estático e único. Sobre este último, resulta num sistema de tessituras, de nós e de redes. (...) organizadas hierarquicamente [que] permitem assegurar o controle sobre aquilo que pode ser distribuído, alocado e/ou possuído, permitindo ainda por e manter várias ordens. Enfim, permitem realizar a integração e coesão dos territórios. (RAFESTINN, 1993, p. 151).. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 19.

(20) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Encerrando assim a discussão, mas não finalizando em nível de teoria geográfica, entendemos o espaço em análise como um sistema que constitui o invólucro no qual convergem as relações de poder. Isto significa que a América do Sul, e em especial as Guianas, deve ser compreendida como um espaço multidimensional, que além do valor econômico, está fortemente carregada de um sentido (geo) político. Assim, se é verdadeiro que as Guianas permaneceram e permanecem ainda isoladas economicamente do restante da América do Sul (e também do ponto de vista das ligações terrestres), de modo algum isto pode significar que do ponto de vista geopolítico este subespaço já não tenha sido prematuramente apropriado a partir de um sentimento de segurança regional sul-americana. Este capítulo visa justamente situar essa apropriação do espaço guianense no terreno das possibilidades, aparecendo desde cedo na linguagem e nas ações dos Estados colonizadores e dos Estados limítrofes. Vencida a etapa do descobrimento/colonização, a segurança regional passou a ser vista pelos atores sul-americanos como ameaçada por essas apropriações geopolíticas exógenas ou extra-regionais, primeiro numa referência às antigas potências colonizadoras, depois em referência à influência comunista a partir de Cuba (Guerra fria). O interesse do Estado brasileiro na região das Guianas remete à herança da política externa lusitana, e por consequência, à reprodução por parte do Brasil da visão geopolítica portuguesa em relação ao espaço guianense. Assim, passamos a resgatar esses eventos de apropriação geopolítica da região pela Coroa Portuguesa, supondo-se assim, que já se encontrava uma apropriação simbólica desse espaço guianense pelo Estado português desde o período colonial; depois resgatamos eventos durante o Império do Brasil até chegar ao período republicano. Passamos assim por diversos conflitos no período de fixação das fronteiras do território lusitano até meados do pós-Segunda Guerra Mundial, quando essas nações passaram a constituir-se em países independentes, com a exceção da Guiana Francesa.. 1.1 - A Geopolítica Portuguesa na América do Sul: Desconstruindo Tordesilhas O veneziano Marco Polo deixara os europeus assombrados com as riquezas que havia encontrado em suas viagens (1271-1295), registrando suas aventuras em seu livro Mirabilia Mundi, porém a ciência geográfica daquela época ainda estava enquadrada no domínio aristotélico (planisfério ou espaço plano), o que permitia a navegação com segurança apenas. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 20.

(21) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. pelo Mediterrâneo, e fazia do Caminho das Índias ainda um sonho distante e inacessível. A perspectiva da descoberta do Novo Mundo levou a Escola de Sagres ao aperfeiçoamento de suas técnicas de navegação, que seria posteriormente fundamental à coroa portuguesa nas empreitadas de além-mar. Mediante as bulas dos papas católicos Nicolau V, Calisto III e Xisto IV3, a Coroa portuguesa vai de certa forma assegurar o domínio das terras e mares descobertos sob o influxo do infante D. Henrique e seus sucessores. Assim, Portugal chega à Índia, assegurando o controle de faixas costeiras e ilhas ao longo da África Oriental até o cabo da Boa Esperança, depois no Índico desde o Oriente Médio até a Indochina e China. Com isso Portugal possuía estratégicos pontos de apoio logístico no longo caminho até as Índias. No retorno de uma destas viagens, Colombo vai anunciar em 9 de março de 1493 ao Rei de Portugal o descobrimento de novas terras ocidentais, que segundo os cálculos errôneos de Ptolomeu e Marinus de Tiro com relação à circunferência e tamanho da Terra, o navegador genovês acreditava ter encurtado a distância à famosa Cipango (Japão). De modo, que os Reis Católicos de Portugal e de Espanha se apressam em obter do Papa Alexandre VI o reconhecimento dessas terras (bula inter coetera)4, que lhes atribui de certa forma a posse de todas as terras e ilhas que haviam sido descobertas e por descobrir com léguas a oeste de qualquer das ilhas dos Açores e Cabo Verde (Figura 1). D. João II sentiu-se prejudicado com a bula papal, e ameaçou mandar uma armada às regiões descobertas por Colombo. Esta ameaça resulta em negociações diplomáticas entre as nações ibéricas visando delimitar as soberanias sobre o território da América. Assim, antes mesmo da ocupação efetiva, o espaço americano já era alvo de disputa geopolítica entre Portugal e Espanha para se apropriarem das riquezas e território na vasta região descoberta. De modo que em 7 de junho do mesmo ano, as potências ibéricas assinam o Tratado de Tordesilhas, que como bem entendeu Henry Harrisse, “forma o primeiro Capítulo da História Diplomática da América” (1897 apud MENDONÇA, 2013, p. 54).. 3. De início, as bulas eram identificadas pelo selo de chumbo que garantia a autenticidade do documento no qual era aplicado. Seu uso é muito antigo e foi adotado pelos papas pelo menos desde o século VI, continuando a ser usado até hoje. 4. A Bula Inter Coetera foi a primeira bula do Papa Alexandre VI, editada em 4 de maio de 1493. Pelos seus termos, o chamado "novo mundo" seria dividido entre Portugal e Espanha, através de um meridiano situado a 100 léguas a oeste do arquipélago do Cabo Verde: o que estivesse a oeste do meridiano seria espanhol, e o que estivesse a leste, português.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 21.

(22) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Figura 1 - Bula Inter Coetera, redefinida para Linha de Tordesilhas.. Fonte: Ministério do Meio Ambiente, 2012. Elaborado por Jânio Guedes, 2016.. O Tratado de Tordesilhas determinava que os limites entre as duas nações signatárias ficavam fixados não mais a 100 léguas, e sim a 370 léguas do Meridiano de Greenwich. O conhecimento técnico lusitano na construção de caravelas, nos instrumentos e cartografia de navegação e no conhecimento dos navegadores sobre as correntes marítimas fora decisivo para esse expansionismo territorial português5. No oceano Atlântico, a corrente das Canárias e a do Golfo serviam de estradas marítimas para interligar o Novo Mundo à Europa.. 5. Os navegadores portugueses exploravam as correntes quentes provenientes de zonas equatoriais, como a das Guianas, a do Golfo do México (Gulf Stream), a do Brasil e a do Sul Equatorial, e as correntes frias, essas oriundas das regiões polares ou frias, como a do Labrador, a de Humboldt, a das Malvinas, e de Benguela e a Circumpolar Antártica.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 22.

(23) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Entretanto, o Novo Mundo vai ser alvo da cobiça de diversas nações europeias, que viriam a desafiar os limites geopolíticos de Tordesilhas. A posse efetiva e não apenas jurídica dos novos territórios se fazia urgente, pois representava a base material para a realização de uma série de empreendimentos mercantis pelas potências europeias no Novo Mundo. O interesse da Coroa de Espanha estava mais direcionado ao norte do Equador, e se volta também à América do Sul com a prata encontrada às margens do rio que posteriormente seria denominado de “Rio da Prata”. Os interesses da Coroa de Portugal estavam mais direcionados à América do Sul, mas encontrando a concorrência de outras nações europeias na porção setentrional da América do Sul. A escritura de Saragoça havia definido a demarcação geopolítica e territorial da Ásia, repartindo entre as duas nações os tesouros das ilhas Molucas (à Oeste da América do Sul), e com isso os empreendimentos náuticos de espanhóis e portugueses silenciaram-se momentaneamente em relação à América do Sul. Mas em 1532, o Rei D. João III institui o sistema de capitanias hereditárias, essas se estendendo desde Pernambuco até o rio da Prata, o que causou protestos do lado espanhol. O monarca se viu forçado a não exceder o paralelo de 28° S, o que o levaria as imediações de Laguna, em Santa Catarina. Nesse primeiro momento, as disputas em termos de apropriações de territórios se voltaram para a bacia do Prata, onde os espanhóis buscavam equilibrar a balança de poder contra-atacando as pretensões portuguesas à margem esquerda do rio da Prata. Em 1580 ocorre a fusão entre as coroas na União Ibérica, acarretando assim no virtual desaparecimento das grandes rivalidades coloniais. Mas por outro lado, agora os franceses passavam a cobiçar as terras sul-americanas, aliando-se a grupos indígenas nos atuais Rio de Janeiro e Maranhão, de onde estenderam-se pelas margens do Amazonas, causando grandes problemas à colonização portuguesa. Nesse período, o foco da segurança regional ibérica e mais exatamente portuguesa sai dos limites meridionais para centrar as atenções na Amazônia, com o intuito dos portugueses de frear as incursões frequentes de franceses, flamengos (holandeses) e ingleses na região 6:. 6. Em represália aos holandeses que aliados aos índios haviam edificado o forte de Nassau e o forte Orange à margem esquerda do Xingu, os portugueses erguem o forte de Belém do Pará, o qual no futuro se tornaria a capital da província, criando-se assim uma bipartição do poder na colônia, pois a partir daí institui-se o governo separado do Maranhão, obedecendo assim, à necessidade de confiar às novas conquistas à guarda de colonos mais próximos e mais bem aparelhados para a defesa.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 23.

(24) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN A criação de duas capitanias hereditárias, sujeitas ambas à coroa portuguesa, em território indiscutivelmente espanhol, pelo espírito e pela letra de Tordesilhas: a de Cametá concedida a Feliciano Coelho de Carvalho, limitada a oeste pelo Xingu na margem direita, a de cabo do Norte na margem esquerda do Amazonas, concedida a Bento Maciel Parente, limitada a oeste pelo Peru. (ABREU, 1934 apud MENDONÇA, 2013, p. 58).. Tais violações territoriais ao Tratado de Tordesilhas que, por consequência, exigiram a constituição de duas capitanias, a de Cametá e a do Cabo Norte pelos portugueses em território indiscutivelmente espanhol, permitiram a estes últimos alargar os domínios que no futuro dimensionaria a grandeza da nação brasileira. Ao retornar de sua viagem a Quito, Pedro Teixeira toma posse em 1639 das terras compreendidas entre o Aguarico, afluente do Napo, e o oceano Pacífico, mesmo sem nenhuma autorização legal. Em 1640 ocorre o fim da união dos dois reinos ibéricos, e Portugal separa-se da Espanha, porém inicialmente a situação na América não sofre alterações sensíveis. Com o passar do tempo e de forma gradual a população lusa da colônia brasileira vai se estendendo ao Sul, acompanhando o litoral. A fundação de Curitiba para dar suporte a penetração ao interior na busca de ouro, simboliza essa determinação portuguesa em impulsionar a penetração também na Bacia do Prata, considerada por muitos como o limite austral do Brasil. Aproveitando do erro estratégico espanhol em não ocupar efetivamente a margem esquerda do Prata, Portugal questiona o traçado sul da linha de Tordesilhas, se ela começaria a ser traçada pela foz do Prata ou pelo golfo de São Matias, na Patagônia. Com esta abordagem esperava a coroa portuguesa ampliar suas possessões na Bacia do Prata. Em 1674, o Rei D. Pedro II atende à solicitação de Salvador Correia de Sá e doa uma capitania ao Visconde de Asseca e outra a João Correia de Sá, referente a trinta léguas de terras que estavam sem donatário e que se estendiam até a foz do Prata. E seis anos depois, D. Manuel Lobo então governador do Rio de Janeiro funda uma colônia quase defronte a Buenos. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 24.

(25) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Aires, que viria a se tornar a Colônia do Sacramento 7, o posto mais avançado da América Portuguesa no Prata8. No século seguinte, em Utrecht são celebrados vários Tratados que dizem diretamente aos limites norte do Brasil, dente eles o convênio firmado a 11 de abril de 1713, onde a França renunciava, segundo o artigo VIII, a: Todo e qualquer direito de pretensão que pode ou poderá ter sobre a propriedade das terras chamadas do Cabo Norte e situadas entre o rio Amazonas e o de Oiapoque, sem reservar ou reter porção alguma das ditas Terras, para que elas sejam possuídas daqui em diante por sua Majestade Portuguesa, seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros, com todos os direitos da Soberania, Poder absoluto em inteiro Domínio.. O Artigo X do mesmo convênio trazia mais definido os objetivos políticos da Coroa Portuguesa: As duas margens do rio das Amazonas, assim Meridional como Setentrional, pertencem em toda a Propriedade, Domínio e Soberania a Sua Majestade Portuguesa, e promete ainda, que nem ele (Luís XIV), nem seus Descendentes, Sucessores e Herdeiros farão jamais alguma pretensão sobre a navegação e uso do dito Rio com qualquer pretexto que seja.. Esse tratado que menciona a região hoje equivalente à parte do Estado do Pará, que posteriormente seria delimitado com a Guiana Francesa, esse tratado foi utilizado ulteriormente pela diplomacia brasileira quase dois séculos depois para reivindicar sua posse. O domínio da vastidão territorial da metade norte da colônia brasileira foi facilitada com a ocupação exclusiva de ambas as margens e da desembocadura do rio Amazonas, meta esta atingida com o afastamento dos espanhóis e franceses daquela região pelos Tratados firmados em 1713. Ali o recuo da Linha de Tordesilhas foi mais intenso, com o Grande Rio representando a estrada de penetração dos luso-brasileiros atrás das riquezas da região.. 7. A Colônia do Sacramento ficava situada a dez léguas de Buenos Aires, ocupando uma posição privilegiada em todas as operações comerciais, onde ali se estabeleciam todos os tipos de comércio, desde o contrabando até os forasteiros que chegavam em busca da prata espanhola. O célebre Alexandre de Gusmão, diplomata e Secretário Privado do Rei D. João V, defendia esse comércio ilegal e a presença portuguesa no Prata pelas vantagens que trazia ao erário português. 8. A presença portuguesa na região nunca foi bem aceita pela coroa espanhola, motivando diversas invasões. Até que finalmente Sacramento é devolvida aos espanhóis em 1750, como condição imposta pelo Tratado de Madri.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 25.

(26) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. 1.2 - Os Tratados de Madri e de Santo Ildefonso: A Fixação dos Limites Políticos na América do Sul Ao ser celebrado a 13 de janeiro de 1750, o Tratado de Limites entre as Coroas da Espanha e de Portugal, demarcava as fronteiras de cada qual na América do Sul, sendo considerado um marco da diplomacia luso-brasileira (MENDONÇA, 2013). Esse tratado traz consigo princípios jurídicos fundamentais da diplomacia brasileira, pois foi a partir dele que se definiu a configuração geográfica do Brasil atual. Seu idealizador foi Alexandre de Gusmão, considerado pelo internacionalista Rodrigo Octavio como o ‘precursor de Monroe’ do pan-americanismo. O artigo XXI daquele tratado menciona que: Sendo a guerra ocasião principal dos abusos, e motivo de se alterarem as regras mais bem concertadas, querem suas Majestades Fidelíssima, e Católica, que se (e Deus não permita) se chegasse a romper o conflito armado entre as duas Coroas, se mantenham em paz os Vassalos de ambas, estabelecidos em toda a América Meridional, vivendo uns com os outros como se não houvera tal guerra entre soberanos, sem fazer-se a menor hostilidade, nem por si sós, nem juntos com os seus Aliados. (MENDONÇA, 2013, p.69).. Caso ocorresse o irromper a guerra na Europa entre as duas coroas, deveriam os colonos na América Meridional se manter em paz. Com essa colocação surgia de forma sintetizada, as idéias pacifistas e a política da boa vizinhança que o Brasil levará consigo no seio de sua política externa. Chegavam a Buenos Aires em 1752, os responsáveis pela demarcação das fronteiras na América do Sul, os quais deveriam começar ao leste, iniciando as margens do Atlântico. Em 9 de outubro do mesmo ano, ocorre a primeira conferência dos demarcadores chefes, tendo a frente dos interesses português Gomes Freire de Andrade e do lado espanhol o Marquês de Valdelírios. E novamente a região do Prata se tornou o centro das atenções, em razão de povoados indígenas das Missões se negarem a mudar de lado. Este obstáculo foi contornado em meados de 1756, quando as forças espanhola e portuguesa partiam das margens do Rio Negro, com cerca de 3 mil homens, para eliminar a resistência indígena9.. 9. Enfim, como nos coloca Renato Mendonça (2013 PÁGINA 74) “o Tratado de Madri chegava à sua cristalização: a troca da Colônia do Sacramento pelos Sete Povos das Missões, uma vez estes domados, ocupados e entregues aos portugueses”.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 26.

(27) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Enquanto esses eventos ocorriam ao sul, no norte do subcontinente que era “a verdadeira fronteira viva do Brasil, para pontos de contato sensíveis do continente europeu Brunhes e Vallaux” (MENDONÇA, 2013, p.83), a demarcação não avançava tão rapidamente mesmo com os esforços dos demarcadores. As grandes distâncias e suas matas densas tornavam a tarefa um tanto difícil, assim a luta ali era contra uma floresta indomável e pouco conhecida. Ainda assim, o comissário principal da parte portuguesa, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do famoso Marquês de Pombal, realizou um trabalho notável de penetração no Amazonas. Dom José de Iturriaga, chefe da comissão espanhola de demarcação, havia chegado ao Orinoco; e uma das primeiras providências tomadas por ele foi a fundação em 1756 da vila de São Fernando de Atabapo, que serviria como posto de abastecimento. Na prática, as comissões das duas cortes ibéricas nunca se encontraram nos trabalhos de demarcação do território no norte. Portugal sabiamente não deixou de tirar proveito dessa situação enquanto de fato não se cumpria o Tratado de 1750, e dilatava seu território com a instalação de novas capitanias, que seriam o embasamento do princípio do uti possidetis alegado por Portugal para abranger os seus vastos domínios na América do Sul10. O novo tratado de limites firmado na cidade de Santo Idelfonso, em 1º de outubro de 1777, reforçava a vantagem política de Portugal ao reconhecer o princípio do uti possidetis, retomado do Tratado de 1750. Com esse novo tratado cessaram a maior parte das dúvidas e conflitos entre as duas coroas, tornando assim as fronteiras das colônias sul-americanas mais seguras e tranquilas em relação a conflitos interestatais. Foram constituídas posteriormente quatro divisões de trabalho para demarcar as fronteiras, a primeira começando do Chuí até o Iguaçú; segunda, do Igureí ao Jauru; a terceira, do Jauru ao Japurá; e por fim, a quarta, do Rio Negro em diante. Porém, os trabalhos não avançaram muito, salvo nos segmentos de fronteira do Chuí ao Iguaçu e do Javari ao Japurá. Assim, na prática o Tratado de 1777 não teve plena implementação, pois essas demarcações não se efetivaram. Logo após sobreveio à Guerra de 1801, quando o Brasil optou pela via do conflito com a Espanha para reconhecer suas fronteiras. Foi nesse vai e vem. 10. Portugal instalou ainda a capitania de “São José do Javari”, no Rio Negro, aproveitando-se do ritmo lento dos espanhóis na porção setentrional amazônica.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 27.

(28) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. nas demarcações que a colonização portuguesa foi estruturando internamente a unidade nacional.. 1.3 - A Segurança da Guiana Francesa Aparece no Epicentro da Geopolítica Lusa Grandes mudanças ocorrem com a chegada da corte portuguesa ao Brasil em 1808, em decorrência da invasão francesa de Portugal. Naquele momento, a França napoleônica avançava por todo o continente europeu, e, por sua larga vantagem bélica, ia submetendo um a um os países contrários a sua política expansionista. Porém, a grande rival que impedia seu domínio sobre a Europa ocidental era a Inglaterra, protegida em sua posição insular e com larga superioridade nos combates no mar (MACKINDER, 1904). A Inglaterra também dispunha de ampla frota comercial, levando os franceses a decretarem o bloqueio continental na tentativa de isolar os ingleses no contexto europeu. Tradicional aliado britânico, os portugueses se recusam a participar do bloqueio naval, optando pelo exílio político. Em maio de 1808, D. João VI declara guerra à França, dirigindo um manifesto às nações no qual explicava os seus motivos. Como represália ordena a conquista da Guiana Francesa, a qual viria a ocorrer em 3 de dezembro de 1808. Essa expedição real partiu do Pará, e seguiu até a baia do Oiapoque, liderada por uma corveta inglesa sob o comando de Sir James Lucas Yeo, com mais 3 barcas canhoneiras e 3 transportes. Esses navios conduziam a tropa brasileira formada por 700 homens, 4 peças de artilharia e 20 obuses11. As tropas desembarcaram na margem esquerda do rio Oiapoque, e a 15 de dezembro atacam e tomam o forte Approuague, após sucessivos combates. Finalmente, em 12 de janeiro de 1809 é assinada a rendição na cidade de Borda entre o comandante das tropas brasileiras e inglesas e o governador da possessão francesa, entregando assim esse território ao príncipe regente D. João VI. A Guiana Francesa já era alvo da cobiça portuguesa desde o seu descobrimento e colonização pelos franceses. O vácuo de poder deixado pela França naquela colônia em decorrência de sua atenção estar voltada aos conflitos no continente europeu, foi aproveitada pelos portugueses.. 11. Um tipo de peça de artilharia cujo calibre é inferior ao de um canhão (de 15 a 25 calibres) e superior a um morteiro.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 28.

(29) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Dessa forma, Portugal subtraia daquela colônia diversas plantas e experiências botânicas, como por exemplo, a fruta pão, que com certo sacrifício os ingleses haviam transportado da Polinésia em fins do século VXIII, e a cana de Caiena que teve bastante influência no revigoramento dos canaviais do Brasil posteriormente. Carta Régia de 6 de junho de 1809, dirigida ao então capitão-general do Pará, recomenda a este uma maior rapidez na realização da remessa das plantas de Caiena (cana de açúcar), que viriam a beneficiar tantos lugares no Brasil, expressando de certa forma em seu texto que essa deveria ser realizada antes de uma paz geral que pudesse privar a coroa portuguesa de um domínio da qual já estava de posse. Mas a motivação geopolítica era mais relevante, envolvendo diretamente o interesse dos europeus na América do Sul. Havia um receio enorme por parte de Portugal de que essa colônia fosse apropriada pelos ingleses como forma de retaliação à França, avançando os limites coloniais sul-americanos dos ingleses. Assim desde cedo, a segurança das Guianas no contexto da segurança sul-americana entra na agenda política de Portugal, depois como herança manifesta na geopolítica do nascente Estado brasileiro, traçando movimentos de aproximação e afastamento, avanços e recuos em suas relações políticas com as Guianas. A fragilidade da coroa espanhola diante do avanço napoleônico na Europa também se traduziu no enfraquecimento de seus laços coloniais. D. João VI queria aproveitar o fato de ser casado com uma princesa espanhola (Carlota Joaquina), para alegar direitos sobre a região do Prata, reavivando assim o velho sonho português de estender as fronteiras do Brasil até o Prata. A Guerra com o Uruguai e a Argentina para a criação da Província Cisplatina12, a questão de Chiquitos13 e até mesmo a Guerra do Paraguai14 se inserem nesse esforço lusobrasileiro.. 12. Com a promessa da neutralidade argentina, o governo de Portugal enviou ao Uruguai o Exército do general Lecor, o qual ocuparia essa província em 1816 e, em seguida convencendo a população uruguaia a se anexar ao império português em 1821. Com a independência do Brasil em 1822, o Uruguai se tornaria a Província Cisplatina, suas ligações históricas e culturais com as demais províncias do rio da Prata provocariam o início de uma luta pela anexação a estas províncias que se estenderia por três anos, quando finalmente foi firmado um tratado entre o Brasil e as províncias unidas do Rio da Prata (atual Argentina), reconhecendo a existência de um Estado Tampão entre os dois países, a República da Banda Oriental do Uruguai. 13. A ocupação de parte do território do Alto Peru, atual Bolívia, pelas tropas imperiais brasileiras, provocou forte reação de Sucre, que enviou tropas com ordens para expulsar os invasores, invadindo a província do lado brasileiro. O governo imperial, ao tomar conhecimento dos fatos mandou que se anulassem as decisões do governo provinciano de Mato Grosso, e determinou o retorno das tropas brasileiras até o território matogrossense, dessa forma o incidente foi resolvido sem maiores repercussões. 14. O Paraguai era asfixiado por sua mediterraneidade, desejando geopoliticamente uma saída natural para o mar, e para isso esperava contar com o esfacelamento da Confederação das Províncias Unidas do Rio da Prata para. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 29.

(30) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. Na Amazônia, Portugal detinha e exclusividade da navegação de seus rios que desaguavam em território brasileiro (apenas em 1867 que a navegação internacional do Amazonas seria permitida às nações amigas). Mas apesar dos avanços representados pelos Tratados de Madri e Santo Ildefonso, o Brasil tinha questões fronteiriças com a maioria dos países da América do Sul, como a Bolívia, Colômbia, Peru, Guianas, Suriname e Uruguai, somente solucionadas entre o final do século XIX e o inicio do século XX, com a intervenção e sutileza diplomática do Barão do Rio Branco. No que tange à restituição da Guiana Francesa - sob ocupação do reino português desde 1809 -, as negociações entre o Império brasileiro e a França são retomadas. O que de fato viria a ocorrer em 9 de junho de 1815, data da assinatura do ato final no Congresso de Viena, expressando em seu artigo 107 que caberia ao Império português a restituição da Guiana Francesa, nos seguintes termos: Sua alteza real o príncipe Regente do Reino de Portugal e do Brasil, para manifestar de maneira incontestável a sua consideração particular para com a sua majestade Cristianíssima, obriga-se a restituir a sua Dita Majestade a Guiana Francesa até o rio Oiapoque, cuja embocadura está entre o quarto e o quinto grau de latitude setentrional, limite que Portugal considerou sempre como o que fora fixado pelo Tratado de Utrecht. (apud MENDONÇA, 2013, p. 124).. Com esse acordo Portugal contribuía para a fixação definitiva de suas fronteiras naquela região. Comentando o teor desse dispositivo, escreveu o Barão do Rio Branco: Os plenipotenciários franceses aceitavam a restituição nestes termos, que precisavam com clareza o limite marítimo do Oiapoque, ficando apenas por fixar a linha interior de fronteiras; mas, apesar disso, a França renovou as suas antigas pretensões a outro limite marítimo. (BRANCO, 1938, p. 353).. Graças aos diplomatas portugueses que com bastante astucia, cautela e clareza, redigiram os termos de restituição dessa colônia a França, caso não o fosse, teríamos privado o território brasileiro de boa parte de sua faixa marítima ao norte. O Barão do Rio Branco posteriormente utilizaria os termos do tratado para definir as fronteiras e solucionar a questão do Amapá. Por fim, a contenda com a França foi encerrada com a assinatura da convenção. anexar os territórios de Missiones, Entre Rios e Corrientes, o que exigia o controle do Rio Grande do Sul. Essa é a origem e a explicação para a política de alinhamentos durante a Guerra do Paraguai.. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 30.

(31) Dissertação de Mestrado, PPGE/UFRN. entre Brasil e França em 28 de agosto de 1817, estabelecendo as reais condições de restituição da Guiana Francesa. Dessa forma, a geopolítica portuguesa contribuiu para a formação da nação brasileira e de seus limites fronteiriços com as demais colônias espanholas e com as potências europeias, deixando de herança não somente um país unido em um vasto território, mas também transformando a nação brasileira no maior país do continente. Esse gigantismo territorial brasileiro e a continuidade do regime imperial seriam mal vistos pelas recém-independentes nações sul-americanas, resultando em novos conflitos entre 1816 e 1870 e numa crescente rivalidade geopolítica entre Brasil e Argentina. Somente ocorre certa estabilidade política e militar no subcontinente a partir da implantação do regime republicano brasileiro em 1889, quando os limites de fronteira entre a nação brasileira e seus vizinhos foram definidos pelas vias diplomáticas.. 1.4 - A Geopolítica no Período Republicano: As Guianas e outras Disputas de Fronteira A questão da delimitação e demarcação de fronteiras havia sido ainda mais grave no caso da Amazônia Setentrional, onde os vastos espaços são acompanhados até hoje de certa rarefação populacionais e densidade da floresta. Anteriormente, o Tratado de Utrecht havia definido que a fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, seria o rio Vicente Pinzón (que para o Brasil corresponderia ao rio Oiapoque), porém, em grande parte desse rio havia a presença de população francesa. Este fato era alegado pela França para estender seus limites territoriais em direção ao rio Amazonas, alegando que o rio Vicente Pizón definido no tratado seria o Araguari e não o Oiapoque. A querela se perpetua por mais de um século, havendo lutas e conflitos em torno dessa região, até que as duas nações resolveram submeter à contenda à arbitragem do presidente suíço Walter Hauser. Em 1900, a arbitragem consulta os tratados de Madri e de Santo Idelfonso, e profere ganho de causa ao Brasil, fixando a fronteira do Oipoque como sendo a definitiva entre as duas nações. No caso da Guiana Inglesa, sua colonização foi estabelecida no século XIX, com os ingleses conquistando terras de Holanda e Venezuela. Os ingleses também tentaram se expandir em direção a nascente do rio Amazonas, reivindicando a posse dos campos de. Regivaldo Sena da Rocha, Agosto/2016. 31.

Referências

Documentos relacionados

Os principais objectivos definidos foram a observação e realização dos procedimentos nas diferentes vertentes de atividade do cirurgião, aplicação correta da terminologia cirúrgica,

O relatório encontra-se dividido em 4 secções: a introdução, onde são explicitados os objetivos gerais; o corpo de trabalho, que consiste numa descrição sumária das

psicológicos, sociais e ambientais. Assim podemos observar que é de extrema importância a QV e a PS andarem juntas, pois não adianta ter uma meta de promoção de saúde se

Os principais resultados obtidos pelo modelo numérico foram que a implementação da metodologia baseada no risco (Cenário C) resultou numa descida média por disjuntor, de 38% no

Essa diferença de requisitos estabelecidos para cada sexo acontece pautada segundo duas justificativas: a capacidade física e a maternidade. Com a cirurgia de mudança de sexo

Ainda no primeiro capítulo serão apresentadas as estruturas de Private Equity e Venture Capital como fonte de recursos de pequenas e médias empresas, e a forte interligação dessas

de professores, contudo, os resultados encontrados dão conta de que este aspecto constitui-se em preocupação para gestores de escola e da sede da SEduc/AM, em

The phyloge- netic analysis of this region showed 100% sequence iden- tity among geographical isolates from Portugal as well as with isolates from Japan, China, South Korea and