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Desportos de aventura na natureza : uma revisão conceptual

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Academic year: 2021

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(1)Desportos de Aventura na Natureza: uma revisão conceptual. Pedro Delgado Paiva. Porto, 30 de Maio de 2008.

(2) Desportos de Aventura na Natureza: uma revisão conceptual. Pedro Delgado Paiva.

(3) Desportos de Aventura na Natureza: uma revisão conceptual. Monografia realizada no âmbito da disciplina de Seminário do 5º ano da licenciatura em Desporto e Educação Física, na área de Recreação, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Orientador: Professora Doutora Ana Luísa Pereira Pedro Delgado Paiva. Porto, 30 de Maio de 2008.

(4) À Maria Luís. Que o Sol resplandeça no teu percurso, Que o futuro te seja brilhante….

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(6) Agradecimentos À Professora Doutora Ana Luísa Pereira, pela disponibilidade que sempre demonstrou, pelos valorosos conselhos e pareceres, pelo auxílio e apoio, pela boa-disposição com que sempre me recebeu e, acima de tudo, pela atitude e dedicação com que encara a sua profissão. A todos os professores do gabinete de Recreação, pela postura e carinho para com os seus “protegidos”, com quem estabelecem, a par das óbvias relações de profissionalismo, ligações de afeição e cordialidade. À minha família: Aos meus pais, heróis que amo muito, pelo apoio, carinho e confiança; À minha avó e tio, por me suportarem, sempre; A todos, pelo constante incentivo… pelo bem-querer… por tudo. Aos meus amigos: Ao Damião, por estar sempre lá; Aos Manos e Maninha – Pedro, Tiago e Ju – pelo constante estímulo; A todos – Ari, Zé, Sérgio, Rita, Catas, Nabais, Paty… – pelo apoio; Aos amigos da Tribo do Lagarto e da Turma F, pela companhia no trajecto; À Telma, por me carregar até aqui; Ao meu Raio de Sol, por iluminar o meu caminho; À Lúcia, pelo carinho… por me fazer sonhar…. I.

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(8) Índice Geral Agradecimentos ....................................................................................................... I Índice Geral ............................................................................................................ III Resumo ...................................................................................................................V Abstract .................................................................................................................VII Résumé ..................................................................................................................IX Lista de Abreviaturas..............................................................................................XI 1. Introdução........................................................................................................ 1 2. Desenvolvimento do Problema ........................................................................ 5 2.1 Objecto de Estudo: do quadro axiológico à legitimação da prática ............ 7 2.1.1 Contexto Social: valores, dinâmica e necessidades ............................ 7 2.1.2 Caracterização: das origens ao público-alvo ..................................... 17 2.1.3 Razões da procura e afirmação......................................................... 27 2.2 Temas de interesse na investigação do objecto de estudo...................... 33 2.2.1 Aventura: sensações e necessidades ............................................... 33 2.2.2 Consumo: sociedade e produto consumível...................................... 43 2.2.3 Problemática Ambiental: do meio e da educação.............................. 55 2.3 Perspectivas de Futuro ............................................................................ 75 3. Conclusões .................................................................................................... 81 4. Referências Bibliográficas ............................................................................. 91. III.

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(10) Resumo Vivemos actualmente uma outra sociedade, um período de complexidade e inquietação onde se avultam valores e necessidades, frutos de uma aparente radicalização dos princípios do período da Modernidade (Lipovetsky, 1989; Gervilla, 1993; Giddens, 1994). Associadas à emergência destes novos princípios, carências e valores, surgem novas actividades de lazer, profundamente relacionadas com a Aventura e o contacto com a Natureza (Betrán e Betrán, 1995a; Guzmán, 2002; Costa e Correas, 2005). Neste trabalho, baseado numa exaustiva revisão bibliográfica, procurámos entender estas novas práticas desportivas, identificando as suas principais características e analisando as suas dinâmicas com a sociedade actual. Entre as principais conclusões do nosso trabalho podem ser destacadas: a proposta do conceito de Desportos de Aventura na Natureza, que nos parece uma alternativa viável para a definição do nosso objecto de estudo; o enorme potencial destas práticas para fornecer resposta a todo um leque de necessidades hoje em evidência na nossa sociedade, dos quais destacamos a carência de emoções, riscos, sensações, ruptura com a continuidade da vida, divórcio com o espaço e tempo quotidiano e escape para o ambiente natural; uma tendência profunda à Mercantilização da Aventura que, associada a uma forte resposta empresarial e a uma produtiva relação com as novas formas de turismo activo, torna o nosso objecto de estudo em mais um produto de consumo; o enorme potencial do referido objecto de estudo para a Educação Ambiental e promoção de novos valores ecológicos de protecção da Natureza. Palavras-Chave: Pós-Modernidade; Desportos de Aventura na Natureza; Mercado da Aventura.. V.

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(12) Abstract Nowadays we experience another society, a complexity and disquiet period where new values and requirements, seeds of a perceptible radical shift of the principles of Modernity, breed (Lipovetsky, 1989; Gervilla, 1993; Giddens, 1994). Related to the surge of these new principles, needs and values, a perceptible bourgeoning of new leisure activities, deeply associated with the Adventure and the experience of Nature, is noticed (Betrán e Betrán, 1995a; Guzmán, 2002; Costa e Correas, 2005). With the conception of this work we attempt, through an exhaustive and meticulous bibliographic review, to understand the new sport activities, identifying its key characteristics and analyzing its dynamic relations with the contemporary society. Amongst our primary conclusions there can be enlightened: our proposal of the concept “Adventure Sports in the Nature”, which we believe provide a viable alternative to the nomination and conceptualization of our subject; the vast potential of these practices to provide answers to an allcomplex set of necessities in evidence nowadays, of which we can stand out the need of emotions and sensations, the risk-seeking tendency, the requirement of rupture with the continuity of life itself and the escape from the time and space of the everyday life towards the natural environment; a deep tendency to the pronouncement of the adventure market, associated to a strong and ever growing business reply and a productive relation with the new forms of active tourism, which establishes our subject as another consumption commodity; the large potential of our subject to the Environmental Education and the promotion of new ecological values and nature protection ideals. Keywords: Postmodernity; Adventure Sports in the Nature, Adventure Market.. VII.

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(14) Résumé Actuellement on vivons dans une outre société, un période de complexité et inquiétude ou se amplifie valeurs et nécessités, conséquence de une apparent radicalización des débuts de la Modernité (Lipovetsky, 1989; Gervilla, 1993; Giddens, 1994). Associé à l’émergence de ces nouveaux principes, besoins et valeurs, se posent de nouvelle activité de loisirs, profondément reporté à l’Aventure et aux contacte avec la Nature (Betrán e Betrán, 1995a; Guzmán, 2002; Costa e Correas, 2005).. Dans notre travaille, basée à une exhaustif révision. bibliographique, nous cherchons d’attendu cette nouvelle pratiques sportives, identifié cette principaux caractéristiques et analyser cette dynamique avec la société actuelle. Parmi les principaux conclusions de notre travaille, on peut mettre en évidence: la notre propose de le concept de Sport d’Aventure dans la Nature, que on croyions êtres une alternatif pour la définition e conceptualisation du notre objecte d’étude; l’énorme potentiel de cette pratique, pour donnée une réponse à tout un group de nécessités qui nous trouvons aujourd’hui dans notre société, ou se détache le besoin d’émotion, du risque, de la sensation, de la rupture avec la continuité de la vie, le divorce avec l’espace et le temps de quotidienne et l’évasion pour la nature; une profond tendance aux marché de l’Aventure qui, associé a une fort réponse de l’entreprise et a une productif relation avec le nouvelle forme du tourisme actif, il prend le notre objecte de l’étude dans un n’outre produit pour consumé; le grand potentiel du dit objecte d’étude pour le Education Ambiant et la promotion de nouveaux valeurs écologiques de protection de la nature. Mots-Clés: Postmodernité; Sport d’Aventure dans la Nature; Marché de l’Aventure.. IX.

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(16) Lista de Abreviaturas. AFEN – Actividades Físicas de Exploração da Natureza AFAN – Actividades Físicas de Aventura na Natureza AEISAD – Associação Espanhola de Investigação Social Aplicada ao Desporto CTP – Confederação do Turismo Português TV – Televisão PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente CMAD – Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento CNUMAD – Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento CECS – Conferência Europeia sobre Cidades Sustentáveis E.A. – Educação Ambiental DAN – Desportos de Aventura na Natureza. XI.

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(18) 1. INTRODUÇÃO.

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(20) Introdução. 1. Introdução Segundo Constantino (1997), no final do século passado foi possível assistir ao aparecimento de novos paradigmas civilizacionais (p.117), que lenta mas profundamente alteraram os estilos e os modos de vida, as relações sociais, as expectativas e motivações dos cidadãos (idem). De facto, com uma rápida análise aos trabalhos de autores como Lipovetsky (1989), Gervilla (1993), Giddens (1994), Fernandes (1999) ou Beck (2000), podemos entender a emergência de uma outra sociedade, na qual se estabelecem novos valores e princípios, bem como um novo leque de necessidades para as quais o indivíduo, enquanto ser situado, procura resposta ou forma de supressão. Dada a amplitude do fenómeno desportivo – e atendendo ao facto de, como afirma Bento (1997), cada época ter o seu desporto e o seu cidadão, ambos dependentes de mutações sociais, sobretudo nos planos dos valores, direitos e necessidades –, as alterações do quadro axiológico levaram a que, como afirma Garcia (1997), mesmo nas revistas sobre educação física e desporto mais conceituadas internacionalmente, novas palavras, novos conceitos (…) surgissem para situar, qualificar, explanar ou explicar a sociedade em que vivemos (p. 15). É neste versátil cenário de mudanças culturais, económicas, ideológicas e de alterações dos paradigmas, dos conceitos e mentalidades – no qual o hedonismo e o lazer assumem uma dimensão fundamental (Elias, 1992; Pereira e Félix, 2002) –, que podemos considerar o surgimento de todo um conjunto de práticas corporais (Betrán e Betrán, 1995a) desenvolvidas em contacto com a natureza, cuja experiência envolve risco, emoção, prazer e cujo incremento não pode ser desvalorizado (Pereira e Félix, 2002; Costa e Correas, 2005). Actividades Físicas de Exploração da Natureza ou Desportos de Aventura são apenas exemplos do vasto legado terminológico hoje existente para a objectivação destas práticas, que ocorre em estudos através dos quais, diversos os autores dão prossecução a artigos e investigações sob temáticas tão variadas 3.

(21) Introdução. como o Turismo (Fernández, 2002; Costa, 2006), a Educação Ambiental (Chao, 2004; Marinho, 2004) ou a dimensão simbólica da Aventura (Feixa, 2002). Estas novas práticas oferecem, aparentemente, resposta às necessidades impostas pelas formas de vida hoje aceites e experimentadas (Elias, 1992; Betrán e Betrán, 1995a; Pereira e Monteiro, 1995), tornando-se um objecto de estudo capaz de gerar um extenso e complexo espólio bibliográfico, que reúne tópicos de interesse articuláveis de forma evidente com variadíssimas áreas da nossa sociedade. Assim, e perante um tão vasto legado de obras e artigos – que focam os aspectos práticos das actividades em causa, a sua ética, as responsabilidades, as razões, as preocupações, os contextos, a relevância, a coerência e as perspectivas das partes envolvidas no fenómeno –, torna-se fundamental procurar entender de forma mais evidente que relação ou relações se estabelecem entre estas e os novos valores, princípios e carências dos seres humanos, enquanto seres sociais. É nossa intenção, através de uma exaustiva revisão bibliográfica, estudar a temática das Actividades de Ar Livre, com o intuito de entender as suas interactividades com os valores e consequências da sociedade actual. Para tal, dividimos o nosso trabalho em 3 partes fundamentais: Num primeiro capítulo dedicar-nos-emos ao exame do nosso objecto de estudo na sua relação com o quadro axiológico, procurando definir plenamente a imagem destas novas práticas e da sociedade em que as mesmas se estabelecem; Num segundo capítulo procuraremos descrever e compreender as grandes questões que hoje surgem associadas ao nosso objecto de estudo, e que hipoteticamente definem os grandes tópicos de relação com as principais instâncias da sociedade actual; Num terceiro capítulo procuramos estabelecer um possível cenário de futuro para o nosso objecto de estudo, admitindo que todos os factores considerados ao longo da revisão bibliográfica poderão de alguma forma ser intervenientes no seu delineamento e que a exactidão da prognose, pela vastidão de variáveis envolvidas, será potencialmente complexa.. 4.

(22) 2. DESENVOLVIMENTO DO PROBLEMA.

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(24) Desenvolvimento do Problema. 2.1 Objecto de Estudo: do quadro axiológico à legitimação da prática 2.1.1 Contexto Social: valores, dinâmica e necessidades En nuestra sociedad pluralista y relativista todo vale, todo fluye y nada permanece, lo nuevo rápidamente se hace viejo. (Gervilla, 1993: 18). Como referimos na introdução do nosso trabalho, ocorrem transformações na sociedade actual que são acompanhadas por modificações profundas nas crenças e atitudes do ser humano, que se verificam também nas novas posturas face ao fenómeno desportivo. Como afirma Bento (1997), não é estranho que se procure debater e reformular a temática do desporto, num início de século tão dinâmico do ponto de vista da mutação de princípios e valores sociais e de tão evidentes alterações de crenças respeitantes à cidadania. Para um melhor entendimento do nosso objecto de estudo, será imperativo conhecer e entender esta mutável sociedade a que nos referimos, procurando compreender as mudanças axiológicas que lhe são subjacentes. Vivemos um período de complexidade e inquietação, no qual as sociedades – de crise permanente, do efémero e do transitório (Gervilla, 1993), numa situação de vazio, ou, a um nível mais profundo, de transição (Sousa Santos, 2002) – parecem claramente devedoras do processo e projecto da modernidade (Silva, 2002: 32). Este parece ser o núcleo do problema do novo quadro social (Lipovestsky, 1983; Gervilla, 1993; Silva, 2002), impossível de definir, por si só, de modo exacto e consensual, compreensível apenas na relação com o seu anterior – que se entende de oposição, ruptura, crítica, distanciamento, fracasso, projecto inacabado (Gervilla, 1993) ou transição com momentos de ruptura e momentos de continuidade (Sousa Santos, 2002: 92).. 7.

(25) Desenvolvimento do Problema. Para Lipovetsky (1983), Gervilla (1993), Silva (2002) ou Lyotard (2003), referimo-nos ao contexto social actual como Pós-Modernidade, mas esta perspectiva está longe de ser consensual. Segundo Sousa Santos (2002), a considerar-se a extinção da modernidade, esta seria complexa, definindo-se parcialmente como um processo de superação – na medida em que são cumpridas algumas das promessas desse projecto, e até em excesso – e de obsolescência – pela irremediável incapacidade do cumprimento das restantes. Mas a extinção não é um termo recorrente e a perspectiva de ordem parece ser outra. Autores como Giddens, Beck e Lash (2000) negam a entrada na PósModernidade, defendendo uma modernidade tardia (Giddens, 1994) ou uma modernização reflexiva (Beck, 2000) – uma ordem nova na qual as consequências da modernidade se tornam mais radicalizadas e universalizadas (Giddens, 1994: 2). Também Pereira e Félix (2002) referem a radicalização dos princípios existentes e vividos, afirmando os novos valores como resultantes desse processo e seguindo uma linha de pensamento mais ou menos consensual. Como afirma Beck (2000), a modernização reflexiva pode ser vista como uma radicalização da modernidade, que quebra os contornos da sociedade industrial e origina um período de autoconfrontação. Perante as diferentes opiniões relativas à época de crise na qual vivemos, impõe-se que, para sua melhor compreensão, entendamos o processo evolutivo que lhe é inerente e que passamos a analisar de forma resumida. Segundo Gervilla (1993), com o eclodir do Renascimento a ideologia Deus-Homem-Mundo ganhou posição fundamental na sociedade, tendo mais tarde sido substituída pelo dogma do Antropocentrismo, que colocava o Homem no centro de tudo. Com o declínio da Igreja Católica e a revolta contra as instituições estabelecidas, o tempo da austeridade dos costumes dá lugar a uma certa exuberância da vida (Garcia, 2005:17) e o Homem, através da Ciência, substitui Deus no centro da sociedade – as explicações científicas tomam o lugar das anteriores explicações divinas e as crenças religiosas são remetidas para a esfera da vida privada (Touraine, 1994).. 8.

(26) Desenvolvimento do Problema. Registaram-se séculos de profundas mudanças, que afectaram de forma evidente vários domínios da sociedade como o conhecimento, tecnologia, economia, política e religião (Silva, 2002). O sucesso da Ciência, a separação das doutrinas religiosas e a afirmação da Razão Pura, representam o culminar do projecto de emancipação e libertação da espécie humana (Gervilla, 1993) e com o progresso baseado na Ciência e na Razão – factor que fornecerá explicação para tudo, uma vez que tudo é, à partida, inteligível (Gervilla, 1993) – surge a sociedade moderna, não em simultâneo por todo o mundo, mas com evidente prioridade nas sociedades ocidentais (Silva, 2002). A modernidade não representa a mudança pura, mas a difusão dos produtos de actividade racional, científica, tecnológica e administrativa (Touraine, 1994, p.21) em sociedades enquadradas por Estados-Nações, marcadas pela expansão industrial – que reorganizou as classes e originou processos de urbanização característicos –, pelo forte crescimento demográfico da população e pelo valorizar o tempo de trabalho (Silva, 2002). O projecto da modernidade parece ter estado intrinsecamente relacionado com o capitalismo – expressão do período no plano económico (Touraine, 1994) – e com a industrialização, baseando-se em dois pilares fundamentais – o da regulação e o da emancipação (Sousa Santos, 2002) – e revelando como características de identidade: o domínio racional das coordenadas do espaço e do tempo; o desenvolvimento de mecanismos e processos de dexcontetualização e recontextualização dos factos e actos; a apropriação reflexiva do conhecimento – com a revisão contínua dos objectivos e estratégias de acção; a circulação de informação e produtos por diferentes contextos sociais; o desenvolvimento dos sistemas abstractos científicos e técnicos – que garantiam formas de interpretação e acção cujos fundamentos e legitimidade eram virtualmente universais (Giddens, 1994; Silva, 2002). Terá prevalecido, nesta época, a pluridimensionalidade institucional, sendo o capitalismo, a vigilância, o poder militar e o desenvolvimento industrial as dimensões a ponderar (Giddens, 1994).. 9.

(27) Desenvolvimento do Problema. Para Lipovetsky (1983:11), a sociedade moderna era conquistadora, crente no futuro, na ciência e na técnica; instituiu-se em ruptura com as hierarquias de sangue e a soberania sacralizada, com as tradições e os particularismos, em nome do universal, da razão, da revolução. O autor refere-se a esta época no pretérito perfeito, sendo ele próprio um dos maiores apoiantes do seu término ou superação. Como já referimos, o novo quadro social – independentemente da terminologia pela qual optemos para a sua nomeação – não pode ser visto sem a compreensão da falência, da superação, da vitória ou da destruição criativa do processo da modernidade – ou de parte do mesmo. Vivemos agora numa era onde vigora o descrédito da Razão, a perca do fundamento, o surgir da fragmentação moral, o esteticismo, a dissolução do sentido histórico e o pensamento débil (Gervilla, 1993). Uma época de descontextualização e recontextualização das formas sociais industriais (Beck, 2000). Uma sociedade cosmopolita global cujos contornos ainda mal conseguimos vislumbrar (Giddens, 2002), na qual se exige uma disciplina emocional global (Elias, 1992), onde o risco faz parte do quotidiano (Beck, 1992) e em que aparece, com força crescente, a obsessão pela diferença e especificidade (Touraine, 1994). A tão objectivada e fundamentada Razão, que imperava e se havia tornado o princípio e o meio da emancipação – libertação do indivíduo face aos constrangimentos arbitrários do costume, da tradição ou da dominação (Silva, 2002) –, é posta em causa. O descrédito e desencanto pela Razão, referidos por Gervilla (1993) e Fernandes (1999), apoiam-se na insegurança, nos enganos e nas decepções criadas pela tomada de posição do progresso tecnológico, a par dos acontecimentos históricos desprovidos de sentido racional – como as duas Grandes Guerras Mundiais, Hiroshima, extermínios étnicos, as guerras do Vietnam e do Golfo Pérsico, entre outros (Lipovetsky, 1983; Gervilla, 1993). Somos conduzidos a um relativismo e subjectivismo que afecta todos os âmbitos do ser, do conhecer e do viver, originando um pluralismo e politeísmo de valores que torna difícil distinguir os mesmos dos seus antónimos – assim se justifica a perda de fundamento: deixamos de ter uma razão para conhecermos uma 10.

(28) Desenvolvimento do Problema. pluralidade de razões, uma multiplicidade de formas de justificação (Gervilla, 1983). Tudo aquilo que provém do passado e se apresenta como provido de racionalidade tende a ser reinterpretado, reavaliado ou mesmo abandonado (Fernandes, 1999). Nesta época – chamemos-lhe, como muitos, Pós-Modernidade –, o prazer tende a ditar as regras de desenvolvimento (Lipovetsky, 1989). O hedonismo estabelece-se como um dos valores mais significativos da sociedade e a busca do prazer assume um papel fundamental na cultura actual, na qual o indivíduo adquire um estatuto de centralidade (Pereira e Félix, 2002). Nesta perspectiva, como explica Heinemann (1994), as investigações sobre a alteração de valores da nossa. sociedade. parecem. indicar. uma. diminuição. da. importância. da. competitividade na vida social e a substituição do resultado futuro pelo desfrute do presente. Mais importante do que o esforço é a busca do máximo de prazer no que se faz (Pereira e Félix, 2002). O hedonismo reporta-nos aos processos – segundo. Pereira. (2004),. transformações. características. da. sociedade. contemporânea – de personalização e individualização referidos por Lipovetsky (1983) numa sociedade que pretende viver livre e sem coacção, escolher sem restrições o seu modo de existência (p.10), que pretende viver já, aqui e agora (p.11), no presente e não já em função do passado e do futuro (p.49) e na qual o indivíduo subsiste como um valor principal, intocável, indiscutível através das suas múltiplas manifestações (Costa, 2006: 15). Segundo Lipovetsky (1983), o valor da realização pessoal, do respeito pela singularidade subjectiva, da personalidade incomparável (p.9) foi promovido e incarnado pelo processo de personalização, processo visto como o novo modo de organização e orientação da sociedade, que se pretende com o mínimo possível de coacção e o máximo possível de opções, com o mínimo de austeridade e o máximo de desejo, com o mínimo de constrangimento e o máximo de compreensão (p. 8-9). O indivíduo vira-se para si próprio e passa a estar no centro da sua acção, onde as questões pessoais se tornam essenciais e a realização. 11.

(29) Desenvolvimento do Problema. pessoal se destaca como objectivo principal, orientando a actuação pelo princípio do prazer (Giddens, 1994). O fenómeno de individualização – o direito de o indivíduo ser absolutamente ele próprio, de fruir ao máximo a vida (…) inseparável de uma sociedade que erigiu o indivíduo livre em valor principal (…) transformação dos estilos de vida associada à revolução do consumo (Lipovetsky, 1983: 9) – é, para Fernandes (1999), um movimento através do qual, sem perder totalmente os ligames sociais ou romper com os mesmos, a pessoa se afirma em crescente autonomia e age com um certo distanciamento do seu meio ambiente. Segundo o autor, o indivíduo, que surgia dissolvido na colectividade e numa existência essencialmente. comunitária,. adquire. por. este. processo. a. liberdade. e. subjectividade, tendo os outros como fonte alimentadora do crescimento e desenvolvimento pessoal. Segundo Tulloch e Lupton (2003), o processo de individualização oferece tanto a liberdade de escolha, como a esmagadora responsabilidade inerente à mesma – esta, passível de fornecer novos riscos, a associar aos já verificados na sociedade. Nesta sociedade, também sociedade de risco, os processos industriais e paradigmas sociais a ele relacionados produzem riscos que – devido aos modelos de globalização da modernidade tardia – ignoram fronteiras geográficas, sociais e socioeconómicas (Beck, 1992). A globalização – um fenómeno revolucionário, de natureza política, tecnológica, cultural e económica, profundamente influenciada pelo progresso dos sistemas de comunicação – ajuda a definir este importante período de transição, no qual as mudanças que afectam quase tudo o que fazemos não estão confinadas a uma única parte do globo (Giddens, 2002). Os riscos globais verificados na nossa sociedade são resultados, também, embora não só, das dramáticas mudanças nas estruturas das vidas privadas, que enfraqueceram as tradições e obrigaram ao processo de individualização (Beck, 1992). Na opinião de Touraine (1994), o indivíduo é agora um ser activo, centrado em si próprio e ansioso pela auto-realização, o que uma vez mais nos conduz ao 12.

(30) Desenvolvimento do Problema. tema do prazer. O hedonismo, durante muito tempo exclusivo das classes privilegiadas, foi sendo transformado em comportamento quotidiano pela sociedade de consumo (Betrán e Betrán, 1995a) e originando, a par do fenómeno de individualização, as individualidades hedonistas e narcisistas referidas por Gervilla (1983), Lipovetsky (1983) e Lyotard (2003). Para Lipovetsky (1983), é claro que o processo de personalização continua a alargar as fronteiras da sociedade de consumo, cujo fim foi precipitadamente anunciado. A sociedade de consumo que ainda hoje vivemos – surgida em estreita ligação com a sociedade moderna, com a produção de massa, com a melhoria dos rendimentos e bem-estar e com o alargamento dos mercados – não surge apenas ligada às necessidades de escoamento comercial de produção em série e às melhorias de rendimentos, mas também à aquisição de certos direitos por parte dos trabalhadores, traduzidos na redução dos horários de trabalho, no direito ao descanso semanal e nos períodos de férias remuneradas, que conduzem à libertação de um tempo individual (Silva, 2002). Também Garcia (2005) explica que o tempo de trabalho (p.15) tem vindo a baixar de forma notória, tendo como consequência um aumento do tempo de não trabalho (idem), tornando os conceitos de recreação, lazer e tempos livres em expressões quase definidoras da nossa época. Segundo a sua opinião, o lazer, mobilizando toda a sociedade quer para a sua vivência quer para a sua reflexão (idem), constitui-se num fenómeno social total, isto é, segundo Durkheim (1987: 39), toda a maneira de fazer, fixada ou não, susceptível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior: ou então, que é geral no âmbito de uma dada sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifestações individuais. Aliado à redução de tempo de trabalho, ao aumento da esperança média de vida, ao aumento dos patrimónios familiares, ao maior tempo de escolaridade obrigatória e tardia inserção no mercado de trabalho, a uma precipitada reforma das populações, à melhoria dos cuidados médicos que proporcionam uma maior mobilidade aos indivíduos de idades mais avançadas e à diminuição de 13.

(31) Desenvolvimento do Problema. importância dos tradicionais modelos de conduta ditados por factores sociais como o sexo e a idade entre outros (Heinemann, 1994; Garcia, 2005), surge um caos de práticas corporais ante o homem pós-industrial (Betrán e Betrán, 1995a). Note-se que, como afirma Garcia (2005), se é difícil para o homem o trabalho, mais difícil se torna o divertimento (p.22). Segundo o autor, a organização social sofre pelo surgimento do ócio – que torna imperioso o aumento e diversificação das ofertas de lazer, não se esgotando esta premissa na oferta desportiva – e com a crescente valorização da parcela de tempo a que se podem atribuir sentidos pessoais diferenciados. A ampla variedade de actividades de lazer existentes estabelece-se, actualmente – e em resposta a esta e outras necessidades –, como um dos principais traços de identidade das sociedades do nosso tempo (Elias, 1992). Por tudo o anteriormente analisado, podemos afirmar que a PósModernidade optou pelo singular, a sociedade como meio, sempre ao serviço e subordinação da pessoa, na qual a postura tipo é bem expressa na atitude dos jovens, desresponsabilizada e despreocupada, posição de quem só tem uma vida que viver e um presente que gozar (Gervilla, 1993), mais do que uma ética, uma estética (Betrán e Betrán, 1995a; Pereira e Félix, 2002), ou uma estética sem ética (Gervilla, 1993), que juntamente com a fragmentação moral gera valores de afectividade, sentimento, prazer, narcisismo, novidade e aculpabilidade (Pereira e Félix, 2002). É nesta sociedade – hedonista, pós-industrial, individualista, narcisista, de múltiplos valores e razões, ainda e cada vez mais de consumo de massa, que busca o prazer, a realização, o presente e com cada vez mais espaço para o lazer e ócio – que procuramos entender o nosso objecto de estudo. Esta sociedade de transição, de novas revoluções tecnológicas, mas com fundamentalismos religiosos renascidos, de integração económica planetária, mas de insubsistência alargada a grandes porções da população, de progresso científico, mas de dúvida imposta pela epistemologia do mesmo avanço (Silva, 2002), de serviços, de computadores e de actividade mental (Betrán e Betrán, 1995a), que, ao legitimar o individualismo hedonista conjugado ao prazer de 14.

(32) Desenvolvimento do Problema. consumo, fez com que novas actividades físicas e desportivas surgissem e adquirissem lugar de destaque (Pereira e Félix, 2002). As práticas corporais de carácter recreativo afirmam-se então como a principal forma de utilização do ócio activo nos países economicamente desenvolvidos do ocidente (Bétran, 1995) e entre elas destacam-se as Actividades Físicas no Meio Natural, conhecidas popularmente por Desportos de Aventura, que têm tido uma difusão vertiginosa nos últimos anos e consolidado o seu lugar com cada vez mais ímpeto na sociedade (Betrán e Betrán 1995b; Miranda, Lacasa e Muro, 1995). Entendido o quadro axiológico actual, importa agora focar atenções no nosso objecto de estudo, atendendo a esta realidade que o enquadra e no qual o mesmo subsiste. Conhecendo os valores e atitudes da sociedade, torna-se fundamental entender a forma como os mesmos o influenciam, o fundamentam ou a ele se opõem. Desta forma, passamos a analisar as suas características, formas, origens e razões, tendo sempre como pano de fundo – perfeitamente interactivo – o contexto social contemporâneo.. 15.

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(34) Desenvolvimento do Problema. 2.1.2 Caracterização: das origens ao público-alvo Cada época tem o seu desporto porque tem o seu cidadão. Um e outro resultantes de mutações sociais, sobretudo no plano dos valores, dos direitos, dos interesses, dos problemas e das necessidades. (Bento, 1997: 95). A não sujeição a uma regulamentação fixa, a grande flexibilidade de horários, formas, intensidades, modos e ritmos de prática – variáveis ao gosto dos praticantes –, a originalidade e criatividade, a troca do paradigma do esforço pela perspectiva do prazer sensório-motor e as fortes componentes de aventura e sensação são, segundo Miranda, Lacasa e Muro (1995), as características correntes a todo o conjunto de actividades que aqui estudamos, e que têm como denominador comum a sua prática num ambiente natural, proporcionador de uma estreita dialéctica com a natureza (Pereira e Monteiro, 1995: 111). O que procuramos neste capítulo é a breve caracterização do nosso objecto de estudo, importante para o seu pleno entendimento e para a melhor compreensão das suas questões e temas de interesse. São as Actividades de Aventura, as Actividades de Ar Livre ou Desportos Sliz – o problema da terminologia será abordado um pouco mais à frente – cuja génese ocorreu, atendendo às ideias de Domingo (1991), Betrán e Betrán (1999) e Rico (2002), durante a década de 1960, tendo uma forte difusão nas tendências sociais das décadas de 1970 e 1980. Na opinião dos autores supracitados, as primeiras modalidades deste âmbito terão surgido na costa oeste dos Estados Unidos da América – com o nascer de novas práticas na natureza e o reformular de antigas actividades praticadas no meio natural –, sendo importadas depois para o resto das sociedades economicamente avançadas. As suas origens são diversas e dependem de cada modalidade em concreto. O seu palco são os principais meios físicos conhecidos ao homem – 17.

(35) Desenvolvimento do Problema. aéreo, terrestre ou aquático (Betrán e Betrán, 1995b; Guzmán, 2002; Melo, 2003) – e como modalidades podem ser referidas: Asa Delta, Parapente, Queda-Livre, Base Jump, Bicicleta Todo-Terreno, Cicloturismo, Street Luge, Ski, Snowboard, Passeio Pedestre e Equestre, Montanhismo, Trekking, Orientação, Espeleologia, Escalada, Mergulho, Surf, Body-Board, Wakeboard, Windsurf, Rafting, Canoagem, Hidrospeed e Canyoning, entre muitas outras (Betrán e Betrán, 1995b; Funollet, 1995; Guzmán, 2002; Melo, 2003). Para Costa (2006), como seus atributos particulares, são evidenciados: o risco e a incerteza associadas à aventura, o desenvolvimento articulado com a expansão das novas tecnologias, a concepção recreativa em oposição à competição clássica das práticas desportivas tradicionais e a sua relação próxima com a natureza. Na opinião de Melo (2003), estas podem mesmo definir-se simplesmente pelo meio em que se praticam – necessariamente um ambiente natural ou um local de paisagem humanizada mas de forte componente natural – que ajuda a estabelecer – pela sua imprevisibilidade e características – o risco e aventura que lhes são inegáveis (Holyfield, 1999; Costa e Correas, 2005). As forças e condições totalmente imprevisíveis que oferecem, o risco e a aventura (Krein, 2007), são o motor principal destas práticas, que se baseiam no aproveitamento das energias livres (Betrán e Betrán, 1995a; Guzmán, 2002) para proporcionar todo o leque de sensações – mergulho, vertigem, velocidade, desequilíbrio, quedas, deslize, incerteza, liberdade e adrenalina (Guzmán, 2002; Marinho, 2004) –, que as tornam tão apelativas e procuradas. Desta forma, a sua essência é muitas vezes entendida como uma oposição entre o ser humano e o meio natural – pelo confronto que se origina entre o indivíduo e as forças –, embora a perspectiva mais sensata deva considerar o praticante em comunhão com a natureza (Costa e Correas, 2005). Para alguns autores, a dimensão da aventura a que nos referimos não deixa de ser imaginária ou simbólica (Feixa, 2002; Marinho, 2004) – esta é uma temática que mais tarde abordaremos, num capítulo inteiramente dedicado ao seu. 18.

(36) Desenvolvimento do Problema. estudo – e a relação entre o nosso objecto de estudo e as novas tecnologias é mais do que evidente (Betrán e Betrán, 1995a). O que parece ser um facto é que os novos desportos surgem associados aos paradigmas da realização pessoal, melhoria da qualidade de vida e hedonismo, deixando para trás as condições fundamentais do rendimento, esforço, tensão, competição e procura de marcas de maior performance, características do desporto clássico (Domingo, 1991; Betrán e Betrán, 1995a e 1995b; Miranda et al., 1995). A motivação do desportista está contida no próprio exercício físico e nas sensações que a sua prática produz, sendo desnecessária outra justificação para a sua procura, que não a satisfação produzida pela acção (Guzmán, 2002). Como foi anteriormente referido, é importante mencionar a existência de uma infinidade de termos que pretendem designar e caracterizar estas práticas (Marinho, 2004, p:51). Esta parece ser uma questão premente e que nos proporciona todo um quadro de problemas, associados à dialéctica dos autores e investigadores, bem como à etimologia dos termos envolvidos e à multiplicidade de formas de interpretação que os mesmos comportam em si ao longo dos tempos. Marinho (2004) escolheu o conceito “Atividades na Natureza” procurando esclarecer os equívocos – existentes do seu ponto de vista – manifestados pelo emprego de termos como desporto – pela falta de institucionalização e burocratização destas práticas – e radical – explicando que uma caminhada pelo bosque pode ser meramente tranquila. Na mesma perspectiva, Funollet (1995) nega os conceitos de Aventura – por considerar que a mesma é uma concepção muito subjectiva – e de Risco – por considerar que este limita à partida o públicoalvo passível de ser aliciado. Para Guzmán (2002), a aquisição de características próprias por parte de algumas das actividades, justifica a necessidade de procurar aglutinar as mesmas em grupos com distintas terminologias – no caso do autor, os Desportos de Sliz.. 19.

(37) Desenvolvimento do Problema. Com base nos trabalhos de autores como Betrán e Betrán (1995b), Funollet (1995), Miranda et al. (1995), Fernández (2002), Guzmán (2002), Marinho (2004), Costa e Correas (2005) procuramos apresentar uma lista das denominações propostas ao longo do tempo, bem como esclarecer as suas interpretações ou as causas que levaram ao seu uso. Desta forma e segundo os autores supracitados, são ou foram nomenclaturas sugeridas, as seguintes: - Novos Desportos: conceito proposto numa tentativa de destacar, nestas novas práticas, um carácter inovador e estruturalmente distinto do verificado na concepção clássica do Desporto; - Desportos Californianos: termo proposto numa clara tentativa de estabelecer a relação com a origem de algumas das actividades em causa; - Desportos Fun: conceito que estabelece uma clara e objectiva relação com o divertimento que tais práticas proporcionam; - Actividades Outdoor, Actividades (Físicas) na Natureza e Desportos na Natureza: conceitos que procuram claramente enfatizar o local ou meio no qual as práticas se desenvolvem; - Actividades Físicas de Aventura, Desportos de Aventura, Desportos de Risco, Desportos Radicais e Extreme Sports: termos que referenciam e dão enfoque à incerteza, risco e perigo físico objectivado; - Desportos Selvagens e Desportos em Liberdade: conceitos que remarcam o carácter natural, libertador e incerto, característico das práticas alvo, em ruptura com a estrutura e civilização dos Desportos da modernidade;. 20.

(38) Desenvolvimento do Problema. - Desportos Tecnológicos e Desportos Tecno-Ecológicos: termos que procuram estabelecer uma clara referência à simbiose entre tecnologia e o objecto de estudo; - Actividades Deslizantes, Desportos Glisse e Desportos de Sliz: termos que procuram enfatizar o deslizamento como a forma fundamental de deslocamento nestas actividades, cuja principal energia de propulsão advém das próprias forças da natureza. A lista previamente apresentada estaria incompleta sem a inclusão de outras terminologias que foram surgindo – referenciadas pelos mesmos autores – e que agrupam em si conceitos anteriormente referidos. São exemplos: Actividades Físicas de Plena Natureza e Actividades Desportivas no Meio Natural – ainda no contexto de ênfase ao meio de prática; Actividades de Desafio na Natureza, Actividades de Aventura no Ar Livre e Actividades Desportivas de Recreio e Turísticas de Aventura – no contexto da procura de sensações; Actividades Deslizantes de Aventura e Actividades Deslizantes de Aventura e Sensação na Natureza – no contexto dos Desportos de Sliz. A juntar a este extenso reportório, devemos ainda considerar um importante leque de denominações, mais recentes, abordadas por vários autores e muito bem evidenciadas por Pereira e Félix (2002), que não servindo directamente para nomear o nosso objecto de estudo, acabam por a ele se relacionar. Segundo as autoras, pode ser considerado natural que também as novas formas de turismo incluam actividades vinculadas à natureza, dando origem a denominações como Turismo de Natureza, Eco-Turismo ou Turismo Aventura – este tema será posteriormente desenvolvido no nosso estudo. Existem duas denominações que, pelo seu frequente uso nos trabalhos mais recentes, não poderão deixar de ser analisadas. São elas: Actividades Físicas de Exploração da Natureza (AFEN) e Actividades Físicas de Aventura na Natureza (AFAN). 21.

(39) Desenvolvimento do Problema. O conceito de AFEN é clarificado por Constant (1994, cit. Pereira e Monteiro, 1995: 111 e Guilherme, 2004: 16), que nos explica que as Actividades Físicas de Exploração da Natureza caracterizam-se por movimentos realizados com ou sem engenhos, num meio natural, complexo, variado e por vezes variável, com controlo de eventuais riscos. Segundo Pereira e Monteiro (1995), no âmbito das AFEN podemos encontrar um leque variado de actividades, que se estende da corrida de orientação e passeios pedestres ao surf e escalada. O termo AFEN é utilizado no Currículo Nacional do Ensino Básico1 e nos Programas Nacionais de Educação Física2 pelo Ministério da Educação, incluindo nos mesmos e como conteúdos. temáticos:. a. Canoagem,. o. Cicloturismo,. o. Golfe,. o. Montanhismo/Escalada, o Tiro com Arco, a Prancha à Vela, a Vela e o Campismo/Pioneirismo (Jacinto et al., 2001; Maria e Nunes, 2007). Pereira e Monteiro (1995) são peremptórios em referir, como valores fundamentais das AFEN, as fortes componentes de incerteza, conquista e liberdade – propícias à emoção e aventura, que criam situações específicas de aprendizagem, apaixonantes para os jovens. Estas fortes componentes de risco e aventura são apropriadas de forma muito mais evidente no segundo termo que aqui analisamos, este aparentemente em voga no vocabulário dos investigadores e autores da área. Referimo-nos às AFAN, conceito apresentado pela primeira vez por Betrán e Betrán em 1994, no Congresso Nacional de AEISAD (Betrán e Betrán, 1995a). Segundo os autores, as AFAN devem ser entendidas como aquelas actividades físicas de tempo livre que buscam a aventura imaginária – emoções e sensações perspectivadas como hedonistas e fundamentalmente individuais –, numa relação com o ambiente ecológico ou natural, situadas e em comunhão com os valores da Pós-Modernidade. Com o recurso à expressão Actividade Física, os autores procuram a ruptura com o termo Desporto – que consideram. 1. Ver Currículo Nacional do Ensino Básico – Competências Essenciais. 2. Ver Programas de Educação Física estipulados para 1º, 2º e 3º Ciclo do Ensino Básico. 22.

(40) Desenvolvimento do Problema. regulamentado, institucionalizado, competitivo e profundamente associado aos valores da modernidade –, surgindo o conceito de Natureza numa referência ao meio comum de prática das actividades. Este meio é ainda salientado como um dos factores de grande popularização das práticas, pela necessidade de evasão do meio urbano e escape do quotidiano habitual, mas fundamentalmente pela resposta emocional que o praticante sente na sua prática – liberdade, sentimento ecológico, paz, harmonia ou por vezes desequilíbrio e vertigem. Feixa (2002), optando igualmente pela terminologia AFAN, procura realçar a dimensão imaginária ou simbólica da aventura – cenário para a gestão controlada das emoções, nas quais as acções se subordinam às percepções e os riscos reais aos imaginários –, exacerbando a opinião de Betrán e Betrán (1995b), que embora afirmando uma tendência geral para a supressão do conceito de aventura – uma vez que o público-alvo pode sentir-se intimidado pelo factor risco – , aplicam o termo na sua nomenclatura, reconhecendo importância à busca de sensações inerentes à prática de tais actividades. Independentemente das dificuldades sentidas na escolha de uma nomenclatura ou denominação geral e universalmente aceite, os trabalhos sobre as Actividades de Ar Livre – ou qualquer outro conceito que se pretenda usar – multiplicam-se e confluem para tópicos de interesse. Embora o espólio terminológico existente seja muito vasto, os trabalhos mais recentes têm optado pela terminologia de AFAN – como é o caso de Costa (2006), Cunha (2006), Mota (2006) e Resende (2006) –; conceito bem estruturado mas obviamente passível de críticas por parte de outros autores e investigadores. Parece-nos admissível observar que este universo carece de uma terminologia universal e de concordância, facto que facilitaria a definição do objecto de estudo, bem como a organização da globalidade dos trabalhos na sua temática. Apesar da sua nomenclatura ser discutível, parece concreto que o tipo de actividades que aqui estudamos, surge hoje como oferta plural a um público diversificado, sendo o aumento do número de praticantes estabelecido como uma das suas principais características (Rico, 2002). Esta ideia é abordada por 23.

(41) Desenvolvimento do Problema. Fernández (2002), que afirma que o Desporto Aventura – há muito praticado apenas por uns quantos “loucos e aventureiros” – se estende agora a um novo público-alvo, que busca o risco e prazer da aventura, convertendo-se num objecto de consumo de massa. Embora tópicos de interesse, a busca do risco, da aventura e a perspectiva do consumo estão longe de ser as únicas razões que justificam o aumento do número de praticantes, sendo este incremento hipoteticamente justificável por um vasto conjunto de razões que legitimam a prática e que analisaremos no capítulo subsequente. O que é certo é que, parecemos estar perante o afirmar cada vez mais seguro da natureza como cenário pretendido para as actividades desportivas, num espaço que se pretende aberto e cuja variabilidade se contrapõe à clausura do quotidiano (Pereira e Félix, 2002). A variedade de contextos no qual a prática é procurada serve, por agora, para nos permitir entender a vastidão cada vez mais notória do público-alvo objectivado. Segundo os peritos, os praticantes procuram as Actividades Físicas na Natureza em três âmbitos distintos: o pedagógico ou educativo, o competitivo e o turistico-recreativo (Bétran e Bétran, 1999; Rico, 2002). Com campos tão distintos e aos quais se relacionam objectivos tão díspares, é no mínimo lógico que se considere o alargar do número e das características dos consumidores envolvidos como um facto. Como referimos anteriormente, os conteúdos curriculares do sistema educativo começam a dar importância às actividades desenvolvidas no meio natural para o desenvolvimento e formação de valores ambientais. Thomas e Raymond (1998), esclarecendo que muitas instituições escolares não perdem a oportunidade de proporcionar aos seus alunos experiências e viagens de estudo temáticas, referem-se à importante função das actividades ditas de aventura na educação e formação das crianças, expondo brevemente o seu relevante papel na aquisição de objectivos como consciência ambiental e a sua potencialidade para o desenvolvimento social e pessoal. Pereira e Monteiro (1995) e Guilherme (2004) evidenciam bem a importância da presença de conteúdos deste género nos 24.

(42) Desenvolvimento do Problema. programas de Educação Física Escolar e Nichols (2000), que se foca no conceito de educação aventura, aviva o seu potencial para o crescimento pessoal das crianças e jovens, esclarecendo a sua possibilidade para a formação de adultos. Todo o conjunto de indivíduos que procuram o meio natural para participar em algum tipo de competição ou evento desportivo, pode ser englobado no âmbito competitivo ou profissional referido por Rico (2002). Aparentemente, também este grupo parece ter tendência a um crescimento – utilizemos a título de exemplo a exposição de Silva (2003) sobre o sucesso das Corridas de Aventura em Portugal, ou a de Leite, Vinha e Almeida (2002) sobre as Corridas de Orientação. Mas como refere Palmer (2002), o número cada vez maior de praticantes atraídos pelos Extreme Sports varia entre o dos “adeptos hard-core” – completamente fundidos com o estilo e conhecimento técnico da sua disciplina preferida – e o dos “guerreiros de fim-de-semana” – que não praticam e possuem pouco domínio técnico. Para além dos paradoxais “atletas profissionais” das actividades de lazer, a imagem do atleta consumidor – comprador de experiência – é cada vez mais usual, muito pela crescente oferta de produtos por parte das empresas de animação turística (Betrán e Betrán, 1999). Já não é apenas uma minoria, dominadora de técnicas desportivas especializadas, a que procura os espaços naturais, sendo cada vez mais amplo o extracto de população que acede a estes meios, sem possuir uma estupenda forma física e domínio técnico prodigioso (Rico, 2002). Segundo Pereira e Félix (2002), não é estranho que se verifique a vinculação entre este tipo de actividades e as novas formas de turismo activo e, como nos expõe Costa (2003), são cada vez mais as entidade turísticas que se associam às empresas de Desportos Aventura, para satisfazer as necessidades e desejos dos seus clientes. Segundo a opinião da Confederação de Turismo Português (CTP, 2005), os “consumidores” do Ecoturismo e do Turismo Aventura são geralmente indivíduos com mais de 30 anos, aproximadamente na faixa etária dos 40, ainda que também se encontrem viajantes na faixa dos 40-60 anos de idade. 25.

(43) Desenvolvimento do Problema. Podemos então afirmar que, o espectro do actual público-alvo do nosso objecto de estudo é vastíssimo. Para Rico (2002), são os jovens e adultos de nível socioeconómico médio-alto os principais demandantes das Actividades de Aventura na Natureza, representando as crianças, idosos e populações especiais fracções menos evidentes desse espectro. No entanto, como tivemos a hipótese de compreender, aquela que parecia a loucura de uns poucos, converte-se na dedicação e paixão de muitos, que cada vez mais numerosos constituem um grupo. onde. não. há. tendência. a. marginalizar. raças,. sexos,. medidas. antropométricas, estados físicos ou idades (Betrán e Betrán, 1999). O nosso objecto de estudo é complexo. O seu sucesso e afirmação são inegáveis e o crescente público-alvo que lhe surge vinculado é prova visível desse facto – quer se entenda como causa, quer como efeito. São muitas as suas características, variando do meio especificamente distintivo onde ocorrem à multiplicidade de sensações e sentimentos que podem proporcionar. É uma miríade de termos a que o pretende nomear ou identificar, circunstância que dificulta o seu estudo e o escrutínio lógico da sua essência. Durante esta breve caracterização, algumas das propriedades específicas das actividades aqui em causa foram abordadas escassamente e de forma subtil, entenda-se, pela sua coerência com outras partes do nosso trabalho onde lhes é atribuída evidente importância e reflexão. Entendendo um pouco melhor o nosso objecto de estudo e a sociedade em que se engloba, importa agora entender a interacção ou conjunção verificada, que leva à adesão e eleição deste tipo de actividades por parte da população.. 26.

(44) Desenvolvimento do Problema. 2.1.3 Razões da procura e afirmação Nuevos. tiempos,. nuevos. costumbres,. nuevos usos, nuevos hábitos, nuevas demandas y nuevas ofertas (...) (Betrán e Betrán, 1995a: 17). Como foi anteriormente analisado, foi a plena identificação das Actividades Físicas de Aventura na Natureza com os valores e atitudes da Pós-Modernidade, que permitiu a sua progressiva integração na nossa sociedade de consumo e serviços (Betrán, 1995). As modificações económicas, sociais e políticas do século passado – das quais emergem valores como o hedonismo, o consumismo, o individualismo, o gosto pelo risco, a superação e exaltação, a busca das origens e subsequentes buscas da natureza e dos valores ecológicos – levaram a uma crescente procura das actividades de ócio, desportivas e na natureza (Pereira e Félix, 2002). Os “Novos Desportos” aparecem associados aos paradigmas da auto-realização, livre expressão, afirmação e melhoria da qualidade de vida (Domingo, 1991; Betrán e Betrán, 1995a e 1995b; Miranda et al., 1995) e, como veremos neste capítulo, são várias as razões que conduzem à sua procura e contribuem para a sua cada vez mais evidente afirmação. O risco físico e o contacto directo com a natureza, que faziam parte do quotidiano habitual das sociedades pré-industriais, sendo ritualizados, vividos em contexto de guerra, de festa ou subsistência, tornavam desnecessária a criação de cenografias especiais para a gestão controlada das emoções (Feixa, 2002). Hoje são menos frequentes e mais reprováveis a forte excitação colectiva e individual, as explosões incontroladas e as suas manifestações públicas, a menos que expressas num cenário socialmente aceite (Elias, 1992). A vida nestas sociedades industriais. modernas. caracteriza-se,. entre. outros,. pelos. excessos. de. regulamentação e de sentimento de segurança, que originam monotonia e falta de surpresas, levando assim à perda de emoções e sensações e a uma diminuição 27.

(45) Desenvolvimento do Problema. da gratificação e satisfação em respeito à própria conduta (Heinemann, 1994; Costa e Correas, 2005). Para trás ficou a época em que, para ser digno da sua própria humanidade, o homem devia aperfeiçoar-se e progredir através do trabalho – usando o mesmo como forma de aprendizagem ao respeito pela própria vida, de aquisição de qualidades morais, fortificação da saúde, vontade e perseverança – e tem agora lugar uma era na qual é necessária a “paixão da mudança”, o gosto pela iniciativa, pelo risco e pelas experimentações ultra-rápidas (Lipovetsky, 1994:142). Vivemos um tempo cronometrado, comprado, calculado e compulsivo, até por vezes nos momentos de lazer (Marinho, 2004). Vivemos numa cidade de betão – de urbanização desregrada, com zonas marginalizadas, novos focos de pobreza e exclusão, aumento do tráfego, degradação dos espaços públicos, elevados índices de poluição e excesso de mecanicismos (Pereira e Monteiro, 1995; Constantino, 1997) –, vivemos o cansaço, o stress, contaminação e ruídos que a caracterizam (Fernández, 2002), e vivemos preocupados com a sua incompatibilidade com o homem no plano ecológico, antropológico e social – a relação cidade-cidadão é uma afinidade de aperto e constrangimento, com o desejo de divórcio baseado na fuga para a natureza (Bento, 1997). A vida ao ar livre – por intermédio das Actividades na Natureza – passa a ser encarada pelo homem como espaço privilegiado para o aproveitamento do tempo de lazer, como “válvula de escape” do quotidiano repetitivo e maculado, como resposta à necessidade de reencontro com a natureza – a “sua natureza” –, como momento socialmente aceite para a vivência e expressão de excitação, local para procura de novas sensações, aventuras e emoções, perdidas no meio urbano e social actuais (Elias, 1992; Pereira e Monteiro, 1995; Rico, 2002; Chao, 2004; Costa e Correas, 2005). O descobrimento de um novo meio, desconhecido e misterioso, apenas domesticado, desprovido das comodidades habituais, permite a fuga da rotina quotidiana e da cidade viciada, a procura da satisfação associada à estimulação emocional carregada de tensões agradáveis, a superação do tédio diário (Feixa, 2002; Costa e Correas, 2005) e até a adesão a uma moda ecológica, que se associa ao consumo da natureza (Chao, 2004). 28.

(46) Desenvolvimento do Problema. Muitos praticantes experimentam os desportos de Natureza por mera curiosidade, ou porque as chamadas “actividades radicais” ou “de aventura” estão na moda (…) outros encaram a actividade como um desporto como outro qualquer, desprezando tanto os riscos pessoais e ambientais, como as potencialidades educativas (Melo, 2003:16). No entanto, para os indivíduos verdadeiramente. interessados. em. actividades. desportivas,. a. interacção. potenciada pelos Desportos de Aventura entre o ser humano e o mundo natural é valorosa, pelas experiências excepcionalmente atléticas que proporciona – umas das principais atracções destas práticas é a oportunidade de ter um oponente tão extraordinário como uma onda de 10 metros ou um pico de 8000 metros de altura (Krein, 2007). Para além de tudo isso, as novas actividades que envolvem risco podem ainda oferecer ao seus praticantes, de forma consciente ou não, um sentido de identidade pessoal que a sociedade em crise de valores já não lhes confere (Almeida, 1997), uma hipótese de crescimento e desenvolvimento pessoal (Costa e Correas, 2005) e de controlo e responsabilidade sobre a própria existência (Krein, 2007). Como explicam Miranda et al. (1995), são múltiplos os factores que justificam os fenómenos de crescimento e consolidação destas práticas físicas e desportivas no contexto social actual, factores que passamos a analisar tendo como referência os trabalhos de Betrán (1995), Betrán e Betrán (1995b), Miranda et al. (1995), Pereira e Monteiro (1995), Feixa (2002), Pereira e Félix (2002) e Rico (2002): - A vasta gama de actividades existentes – quase ao gosto e desejo do consumidor – e a alternativa viável que constituem aos modelos desportivos tradicionais – ainda mais pela harmonia com os valores da Pós-Modernidade – levam cada vez mais os cenários naturais a destacar-se como espaços para o aproveitamento do tempo livre dos indivíduos, libertos das suas obrigações quotidianas;. 29.

(47) Desenvolvimento do Problema. - A grande flexibilidade destas actividades permite-lhes chegar até grupos de. consumidores. muito. diferenciados. –. entre. os. quais. se. destacam,. especialmente, os aderentes à sub-cultura juvenil e os aspirantes a “sempre jovens” – público-alvo crescente que contribui para o aumento de procura destas práticas; - As sensações e emoções que suscitam, o sentimento de liberdade e prazer que proporcionam, o simbolismo que lhes é inerente, a necessidade mínima de institucionalização e de regularidade de prática, contribuíram exacerbadamente para a sua grande popularidade, a qual foi ainda mais fortalecida pela resposta empresarial que permitiu ao praticante obter um serviço total com o mínimo de preocupações ou conhecimentos; - Os avanços tecnológicos – que permitiram optimizar os materiais, equipamentos e artefactos necessários – tornaram mais simples e seguro o acesso a estas práticas; - A crescente adesão às actividades relacionadas com a natureza, seguida de perto pelos agentes económicos e pelos media que nela encontram mais uma forma de incremento das relações de consumo, criou uma moda do natural, à qual não escapa o turismo activo – relação de recíproca publicitação e fortalecimento; - Este tipo de práticas – que apresentam características muito próprias e diferenciadas – fazem delas modelos de educação por excelência, contribuindo para a sua crescente procura no contexto da formação e instrução. A forte necessidade de sensações e emoções (Pereira e Monteiro, 1995; Miranda et al., 1995; Feixa, 2002), aparentemente perdidas ou minimizadas numa urbanização demasiado poluída, regrada e mecanizada (Marinho, 2004; Costa e Correas, 2005), são, sem dúvida, grandes factores de influência para o aparecimento e consolidação das actividades realizadas em exploração e contacto com o meio natural (Costa e Correas, 2005), até porque este divórcio, e prossecução da vontade e necessidade individual, acabam por ter profunda relação com as dinâmicas e valores da nossa sociedade. 30.

(48) Desenvolvimento do Problema. Entre os vários agentes que contribuem para a sua popularidade, destacamos: as fortes actividades empresarial e comercial que orbitam em torno deste fenómeno e o surgimento e afirmação das novas formas de turismo activo, que acabam por demonstrar estreita ligação com as nossas actividades. Depois de conhecida a realidade da nossa sociedade, entendido o nosso objecto de estudo e abordada a dinâmica entre ambos – analisada sob a forma de razões que incentivam e condicionam a relação – consideramos importante, até para consolidação da investigação de alguns temas já analisados, estudar as grandes questões associadas ao nosso objecto de estudo, que representam plenamente os problemas sociais e a forma como a prática aqui objectivada oferece interacção com os mesmos.. 31.

(49)

(50) Desenvolvimento do Problema. 2.2 Temas de interesse na investigação do objecto de estudo 2.2.1 Aventura: sensações e necessidades Actualmente, la prática deportiva en el médio natural se llama de forma genérica deportes de aventura, y a veces deportes de riesgo. (Funollet, 1995: 125). O nível e tipo de risco presenciais – substancial hipótese de lesão ou mesmo morte para o praticante – continuam a ser para muitos, características definitivas ou pelo menos conceitos intimamente associados ao nosso objecto de estudo (Holyfield, 1999; Palmer, 2002; Varley, 2006; Jirásek, 2007; Krein, 2007) e, no entanto, ou talvez por causa deste facto, a popularidade dos Desportos de Aventura aumenta significativamente, fazendo crescer o número de adeptos do extremo (Palmer, 2002; Jirásek, 2007). Não deixa de ser verdade que os perigos inerentes a estas práticas aparecem cada vez mais orientados e conduzidos. Como nos explicam Betrán e Betrán (1999), a notoriedade da oferta empresarial associada a estas experiências, tem, paradoxalmente, a sua sustentação na busca e fornecimento da maior segurança possível nas suas práticas, estabelecendo o risco como uma dimensão imaginária (Feixa, 2002). Até os atletas e aficionados despendem de enormes esforços para limitar o risco das suas actividades, recorrendo a materiais específicos e ao desenvolvimento de conhecimentos e capacidades, com o objectivo de tornar o ambiente o mais seguro possível (Krein, 2007). Mas, apesar da retórica que sugere que estas actividades são desportos sem azares ou perigos, as coisas podem correr e, por vezes, correm mal (Palmer, 2002). O que procuramos entender neste capítulo são os verdadeiros valores e dimensões do risco, da emoção e das sensações intrínsecas às Actividades de Aventura, analisando igualmente as razões que levam à procura da ocupação do tempo de lazer com práticas, notória ou subjectivamente, perigosas. 33.

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dever de fundamentação - artigos 124.º e 125.º do CPA - se as propostas ou pareceres em que se baseiam contêm os necessários fundamentos” 59. De acordo com a corrente