Socialização, desporto e qualidade de vida: exemplo dos praticantes de Karate-Do

Texto

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Resumo

Este trabalho incidiu sobre a temática, ainda pouco explorada no nosso país, da observação sociológica das artes marciais, nomeadamente, do Karate-Dō. Esta abordagem sociológica do tema teve como conceito central a socialização, ou seja, o grupo de praticantes de Karate-Dō como instrumento de socialização dos indivíduos, nos diferentes domínios de vida, interligando esta socialização com os resultados de qualidade de vida percecionada. Foi ainda adicionado um fator diferenciador da prática de Karate-Dō, o método de treino utilizado – tradicional ou desportivo – de forma a tornar ainda mais abrangente a observação da temática. A abordagem teórica escolhida para enquadrar este conceito de socialização foi a proposta por Pierre Bourdieu, nomeadamente com o conceito do habitus e as suas disposições para a ação. Optou-se por um estudo exploratório com uma abordagem metodológica mista – quantitativa e qualitativa – por forma a compreender de maneira mais abrangente o conceito e interligação em questão e as suas nuances. Os dados recolhidos resultaram da realização de 78 inquéritos por questionário e 6 entrevistas semiestruturadas a praticantes de Karate-Dō adultos e com experiência de prática, a nível nacional, de ambos os métodos de treino.

Concluiu-se sumariamente que o método de treino não é um fator decisivo na prática, que os praticantes de Karate-Dō apresentam um elevado nível de qualidade de vida percecionada e que os praticantes reconhecem a prática de Karate-Dō como um instrumento de socialização. Dentro desta última conclusão foi possível identificar que o habitus marcial poderá estar relacionado com o Budō no sentido que este é a reconhecida matriz cultural e filosófica do Karate-Dō. Superficialmente foi possível identificar dois aspetos relacionados com as disposições do habitus marcial do Karate-Dō: a prática como forma de atingir a perfeição/mestria e a consciência de si e dos outros.

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Abstract

Title: Socialization, Sport and Quality of Life: Karate-Do athletes example

This study was about the, little explored theme in Portugal, of sociological point of view of martial arts, more precisely, Karate-Dō. The approach of this theme had as main concept socialization, more precisely how the group of Karate-Dō athletes work as socialization instrument of the individuals, in different life domains, connecting the socialization with the results of subjective quality of life. Has also added one distinctive factor in the Karate-Dō practice, the training method – traditional or sports – to make a more comprehensive observation of the main theme. The main theoretical approach of socialization concept chosen was the approach proposed by Pierre Bourdieu, more precisely the habitus concept and its dispositions to action.

We opted by an exploratory study with a mixed methodology approach – quantitative and qualitative – to understand on a more comprehensive way the concept and the different connections in cause and its slightly changes. The data recorded resulted from 78 inquiries by questionnaire and 6 semi-guided interviews to Karate-Dō adult athletes with practice experience, at national level, from both training methods.

We concluded that the training method is not a decisive factor on the way that karateka look at their practice, that karateka shows a high level of subjective quality of life and that karateka recognize the belonging to Karate-Dō group as socialization instrument. In this last conclusion was possible to identify that martial habitus could be related to Budō concept in the way that this concept is the recognized cultural and philosophical matrix of Karate-Dō. Superficially could be identified two main aspects related to the dispositions of the martial habitus of Karate-Dō: the practice as way to achieve perfection/mastery and the conscience of self and others.

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Agradecimentos

Sempre fui ensinado que devemos ser agradecidos por tudo o que se sucede na nossa vida e a todos que a fazem mais rica. Num percurso longo como este que foi o desenvolvimento deste estudo e desta tese muitos momentos fantásticos foram vividos e muitas pessoas entraram na minha vida sendo determinantes para o completar deste caminho.

Começo por agradecer ao Prof. Doutor José Saragoça, o meu orientador. Foi um verdadeiro suporte e pilar nestes anos de “luta”, não esquecerei os nossos momentos de discussão aberta e franca que me fizeram crescer imenso em sabedoria e experiência e por ter compreendido as esperas e ter sabido motivar quando foi preciso. Não é por ter sido o “meu” orientador, mas considero que foi a melhor orientação que poderia ter desejado.

Em termos académicos tenho ainda de agradecer a algumas pessoas que foram essenciais para o desenvolvimento deste trabalho em diferentes campos. Um especial agradecimento à Prof. Doutora Maria dos Anjos Dixe pela sua eterna disponibilidade e paciência para me apoiar no adequado enquadramento metodológico do trabalho. Ao Prof. Doutor João Apóstolo e ao Prof. Doutor Wojciech Cynarski pela sua fundamental colaboração na construção do instrumento e partilha de conhecimento solidária com alguém que não conhecem pessoalmente. Agradeço ainda aos meus amigos e especialistas em língua inglesa Doutor João Damas e Mestre Pedro Reis que foram uma enorme mais valia tanto na colaboração no desenvolvimento deste trabalho como a escutarem as minhas intermináveis questões existenciais e a motivarem-me para continuar.

Tenho muito a agradecer a todo o “mundo” do Karate-Dō que me acolheu aos 9 anos de idade e marcou de forma marcante a minha vida e a pessoa que me tornei, tornando-me mais resiliente e persistente. A todos os meus amigos que partilharam e partilham o dojo nestes 24 anos de prática ininterrupta de Karate-Dō, em especial aos meus camaradas no projeto que abraçamos de forma tão intensa neste período de tempo, Carlos Santos e José Severino, que tanto

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estiveram lá quando eu não estive, e que em tanto ajudaram neste trabalho; a todos os sensei com quem passei horas de aprendizagem atenta, em especial ao “meu” sensei, aquele que sempre me inspirou e me transmitiu ensinamentos para a vida como karateca e ser humano, Pedro Neves; por fim a todos os atletas que viram em mim, numa fase da sua vida, uma inspiração e ouviram os meus ensinamentos, em especial aqueles que se mantiveram e mantém ao longo dos anos. Acreditem que este trabalho é tanto meu como vosso.

Aos meus amigos que me aturaram nos meus devaneios e desmotivações e me souberam sempre “dar a volta”. Peço desculpa pelos momentos que não estive presente, e agradeço por todo o apoio e compreensão que me deram. Vocês sabem bem quem são.

À minha família com a qual perdi momentos especiais, mas que sempre lá estiveram, com um sorriso e com um abraço e que me fizeram terminar este caminho. Em especial aos meus avós Mila e Horácio que sempre estiveram lá deste o primeiro dia da minha vida a apoiar as minhas escolhas e a ajudarem a atingir todos os meus objetivos. À minha família “emprestada” - os meus sogros Joaquim e Irene, os meus cunhados Verónica e Isaías, que desde o momento que me receberam nas suas vidas me fizeram sentir acarinhado e especial, peço desculpa por momentos que não estive e agradeço por todo carinho e motivação. Em especial aos meus sobrinhos Daniel e Beatriz que, apesarem de ainda não entenderem a dimensão deste trabalho, que este caminho do tio os inspire a querer sempre mais e melhor para eles. Aos meus avós Fernando e Rosa, e aos meus tios Lina e Manuel obrigado por compreenderem a distância. Também é vosso, em parte, este trabalho.

Tenho de agradecer muito carinhosa e atenciosamente aos meus pais – João e Isabel – por me terem educado da forma como o fizeram e me terem dado todas as ferramentas e oportunidades de ir construindo o meu caminho, e por me terem transmitido que o caminho somos nós que o fazemos a pulso e com o nosso esforço. Ao meu irmão mais novo Diogo, a quem eu tento sempre carinhosamente inspirar nos seus próprios sucessos com os meus sucessos, este caminho foi longo, mas a proximidade entre nós foi maior, agradeço por me aturares as minhas “tonteiras” e desabafos.

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Não menos especial ou importante, agradeço à minha companheira de vida Liliana que está sempre ao meu lado nestas minhas aventuras e que constrói este caminho que é nosso, este foi apenas mais um passo nos inúmeros que se nos sucederam neste período de tempo. És especial e tu sabes bem que sem ti este caminho nunca teria sido construído.

Por último aos meus filhos, Afonso e Rafael que são a razão da minha vida. Tudo o que faço, faço-o para vos tornar melhores com o meu exemplo, espero que olhem, do futuro para agora, e tenham orgulho do que o vosso pai construiu e vos transmitiu. Sei que vos irei compensar pela ausência e menor paciência ao longo de toda uma vida.

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Percebe o que não pode ser visto com os olhos. Miyamoto Musashi

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ÍNDICE

p. INTRODUÇÃO 26 1 ENQUADRAMENTO TEÓRICO 32 1.1 SOCIALIZAÇÃO 33 1.1.1 Definição 33

1.1.2 Funcionalismo estrutural e teorias do conflito 37

1.1.3 Interacionismo simbólico 41

1.1.4 Socialização no pensamento sociológico contemporâneo – a abordagem de Pierre Bourdieu

45

1.2 DESPORTO E DESPORTIVIZAÇÃO DA SOCIEDADE 53

1.2.1 Desporto e Sociologia 53

1.2.2 Socialização através do desporto 62

1.2.3 Karate-Dō: um desporto… 69

1.3 QUALIDADE DE VIDA 88

1.3.1 (In)definição do conceito 88

1.3.2 Qualidade de vida: objetiva vs. subjetiva 91

1.3.3 Modelos explicativos da qualidade de vida 96

2 METODOLOGIA 104

2.1 DA PERGUNTA DE PARTIDA AO MODELO DE ANÁLISE 105

2.2 NATUREZA E DESENHO DO ESTUDO 110

2.3 CAMPO DE ANÁLISE E AMOSTRAGEM 112

2.4 TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE RECOLHAS DE DADOS 114

2.4.1 Análise documental 115

2.4.2 Questionário 116

2.4.3 Entrevista 121

3 - RESULTADOS 124

3.1 DADOS SÓCIODEMOGRÁFICOS E DESCRITIVOS DA PRÁTICA DE KARATE-DŌ

126

3.2 QUALIDADE DE VIDA E KARATE-DŌ 146

3.3 MÉTODO DE TREINO COMO FATOR DIFERENCIADOR DA PRÁTICA

156 3.4 HABITUS MARCIAL - VALORES, PRINCÍPIOS E

COMPORTAMENTOS SOCIAIS 166 4 - CONCLUSÃO 196 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 207 APÊNDICES ANEXOS

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LISTA DE FIGURAS

p.

Figura 1 – Esquema explicativo da teoria da ação social proposta por Bourdieu

52

Figura 2 - Pirâmide do desporto 54

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LISTA DE QUADROS

p.

Quadro 1 – Dojokun ("as instruções do local de treino da Via"), segundo estilo

84

Quadro 2 - 20 princípios do Karate-Dō, segundo Funakoshi 85 Quadro 3 - Indicadores objetivos (representa os dados sociais

independentemente da avaliação individual) (adaptado de Rapley, 2003)

94

Quadro 4 - Indicadores subjetivos (pontos de vista e avaliações dos indivíduos das condições sociais) (adaptado de Rapley, 2003)

96

Quadro 5 – Taxonomia dos modelos de qualidade de vida (adaptado de Brown et al, 2004)

99

Quadro 6 – Relação entre pergunta de partida, questões subsidiárias, objetivos e hipóteses

108

Quadro 7 - Desenho de investigação (Explicativo sequencial) (Creswell, 2009)

110

Quadro 8 – Técnicas de recolha de dados utilizadas (com objetivo e objeto)

114

Quadro 9 – Etapas da construção de um questionário, retirado de Hill e Hill (2000)

117

Quadro 10 – Estrutura do questionário 118

Quadro 11 – Personal Wellbeing Index – relação entre questões e domínios

120

Quadro 12 – Distribuição segundo a idade (estudo PWI) 149 Quadro 13 – Resultados dos testes estatísticos entre as variáveis

idade, escolaridade, atividade profissional e género, e entre qualidade de vida no geral e diferentes domínios

150

Quadro 14 – Resultados da correlação de Pearson entre qualidade de vida no geral e influência percecionada da prática de Karate-Dō na qualidade de vida, por domínios

153

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conforme o método e resultado de significância estatística entre a variável “método de treino” e as variáveis relacionados com os aspetos da prática de Karate-Dō

Quadro 16 – Comparação dos resultados médios de resposta conforme o método e resultado de significância estatística entre a variável “método de treino” e as variáveis relacionados com os valores associados à da prática de Karate-Dō

157

Quadro 17 – Comparação dos resultados médios de resposta conforme o método e resultado de significância estatística entre a variável “método de treino” e as variáveis relacionados com os valores associados à da prática de Karate-Dō

159

Quadro 18 – Comparação dos resultados médios de resposta conforme o método e resultado de significância estatística entre a variável “método de treino” e as variáveis relacionados com a atitude em diferentes aspetos da vida e a sua influência pela prática de Karate-Dō

160

Quadro 19 – Comparação dos resultados médios de resposta conforme o método e resultado de significância estatística entre a variável “método de treino” e a variável relacionados com a influência na formação da personalidade pela prática de Karate-Dō

161

Quadro 20 – Comparação dos resultados médios de resposta conforme o método e resultado de significância estatística entre a variável “método de treino” e as variáveis relativas à influência da prática de Karate-Dō na perceção de qualidade de vida, por domínios

162

Quadro 21 – Comparação dos resultados médios de resposta conforme o método e resultado de significância estatística entre a variável “método de treino” e as variáveis relativas à perceção de qualidade de vida, por domínios

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LISTA DE GRÁFICOS

p.

Gráfico 1 – Distribuição segundo o género 126

Gráfico 2 - Distribuição segundo o grupo etário (desportivo) 128 Gráfico 3 - Distribuição segundo a escolaridade 129 Gráfico 4 - Distribuição segundo o distrito de residência 131 Gráfico 5 - Distribuição segundo a situação profissional 132

Gráfico 6 - Distribuição segundo graduação 133

Gráfico 7 - Distribuição segundo tempo de prática 134 Gráfico 8 - Distribuição segundo idade de início da prática de

Karate-Dō

135

Gráfico 9 - Distribuição segundo estilo praticado 137 Gráfico 10 - Distribuição do número de associações a nível nacional

registadas na FNK-P, segundo estilo

138

Gráfico 11 - Distribuição segundo função no dojo 139 Gráfico 12 - Distribuição segundo método de treino 140 Gráfico 13 - Distribuição segundo prática de outro desporto 142 Gráfico 14 - Distribuição segundo opção pelo Karate-Dō 144

Gráfico 15 - Distribuição segundo PWI 147

Gráfico 16 - Distribuição, segundo perceção da influência da prática de Karate-Dō na qualidade de vida, por domínios

152

Gráfico 17 - Distribuição segundo motivo do início e manutenção da prática de Karate-Dō

167

Gráfico 18 - Distribuição segundo valorização de aspetos relacionados com o Karate-Dō

169

Gráfico 19 - Distribuição segundo valorização da importância de determinadas características de um praticante de Karate-Dō

172

Gráfico 20 - Análise de conteúdo por temas - valores enquanto pessoa 174 Gráfico 21 - Distribuição segundo comparação dos valores do

Karate-Dō com contextos sociais

176

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24 da vida

Gráfico 23 - Distribuição segundo influencia do Karate-Dō na formação da personalidade

181

Gráfico 24 - Análise de conteúdo por palavras - porquê da influência na personalidade

183

Gráfico 25 - Análise de conteúdo por temas - significado de ser karateca

184

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INTRODUÇÃO

O texto aqui apresentado constitui o resultado do desenvolvimento da investigação realizada sob o título Socialização, Desporto e Qualidade de Vida:

o exemplo dos praticantes de Karate-Dō, realizada na Universidade de Évora,

entre os anos de 2012 e 2017, e cujo objetivo central foi a obtenção do grau de Doutor em Sociologia.

O interesse por esta temática resulta da união das duas "paixões" (em termos de áreas de conhecimento) da minha vida – a qualidade de vida e o Karate-Dō. A primeira "paixão" surgiu da minha formação, no nível de licenciatura, em Enfermagem, que desde logo colocou no centro da minha vida a promoção de qualidade de vida dos utentes que cuido nos mais diversos contextos. Esta "paixão" foi ainda mais alimentada na minha formação, ao nível de mestrado, em Enfermagem de Saúde Mental, originando em mim uma maior compreensão da real importância deste conceito nas suas diferentes vertentes na vida dos indivíduos e, consequentemente, da sociedade em que vivemos, sendo algo indissociável do contexto social de cada um de nós e, portanto, de todos nós.

A segunda "paixão" acompanhou-me (e acompanha-me) ao longo de toda a minha vida desde a infância. O Karate-Dō, para mim, é mais do que um simples desporto; faz parte de mim e influenciou diretamente a minha forma de estar na vida e observar o mundo e, como tal, sempre me perguntei se esta perceção é só minha ou transversal a todos os praticantes de Karate-Dō, razão pela qual não poderia deixar de abraçar este domínio neste projeto tão importante para mim.

Tendo em conta as temáticas observadas, é possível dizer que este estudo se insere na área da Sociologia do Desporto.

Confesso que foram dificuldades adicionais a ultrapassar a pertença ao grupo de praticantes de Karate-Dō e as questões emocionais inerentes, por forma a observar o objeto de estudo de forma cientificamente correta, tal como a formação numa área relacionada, mas distinta, da Sociologia, o que exigu um

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esforço extra para compreender o ponto de vista sociológico e, assim, remodelar a minha forma de pensar.

A temática do meu estudo está diretamente relacionada com uma sentida e percecionada filosofia enquadradora da prática de Karate-Dō enquanto transmissora de valores, princípios, conceitos e atitudes, em suma modelos de comportamento, tal como modeladora de práticas e comportamentos sociais. Esta está relacionada também com a rápida mudança que o Karate-Dō está a sofrer atualmente, isto é, uma maior complexidade organizativa a nível federativo, a massificação da competição desportiva, a experiência olímpica para 2020, a distinção marcada da abordagem tradicional, e a convivência no contexto desportivo nacional com as restantes modalidades.

Postos estes aspetos, a questão formulada foi a seguinte: “A prática de Karate-Dō em Portugal funciona como instrumento de socialização, em ambos os métodos de treino, influenciando a qualidade de vida tal como percecionada dos praticantes?”

Esta questão global e abrangente, pelo seu grau de complexidade, pode ser dividida em várias questões subsidiárias que permitem uma reflexão mais profunda, concreta e objetiva, tendo em conta os diferentes conceitos associados a esta mesma questão.

"Os praticantes entendem que a sua qualidade de vida percecionada é influenciada pela prática de Karate-Dō?". Esta questão está diretamente

relacionada com a noção de qualidade de vida dos praticantes e da relação estabelecida por estes entre a prática de Karate-Dō e a sua qualidade de vida percecionada nos diferentes domínios (nível de vida económico, saúde, expectativas com a vida, relações interpessoais, segurança, pertença à comunidade e espiritualidade).

Outra questão levantada é: "Será o método de treino um aspeto

diferenciador na forma como os praticantes percecionam os modelos de comportamento e a sua qualidade de vida?", está relacionada com a

especialização dos praticantes por método de treino – isto é, se optam pelo treino tradicional ou desportivo – cujos objetivos são manifestamente distintos,

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para além da componente técnica do treino. Esta especialização poderá implicar uma perceção distinta dos mesmos conceitos, valores, princípios e padrão de comportamento desejado, universais do desporto Karate-Dō, repercutindo-se numa diferente perceção da qualidade de vida nos diferentes domínios.

A terceira questão subjacente que surgiu: "Os praticantes reconhecem o

Karate-Dō como instrumento de socialização?". Esta questão encaminha

para o conjunto de valores e princípios integrados na pertença ao grupo de praticantes de Karate-Dō (Budō), sobretudo na forma como estes são incorporados no padrão de comportamentos sociais dos praticantes, ou seja um habitus dos praticantes de Karate-Dō.

Postas estas questões, o objetivo central deste estudo passou por compreender de que forma são reconhecidos e incorporados no padrão de

comportamento social dos praticantes, os valores e princípios do Karate-Dō,

consoante o método de treino praticado, e os seus resultados efetivos em termos de qualidade de vida percecionada dos praticantes.

Optou-se pelo desenvolvimento de um estudo de âmbito exploratório por se enquadrar numa realidade pouco explorada e por se pretender que seja uma base ampla para estudos posteriores. Seguiu-se uma orientação metodológica com uma abordagem mista (quantitativa e qualitativa), num desenho de estudo designado de explicativo sequencial, onde primeiro é realizada a componente quantitativa de maior dimensão e analisados os dados, seguindo-se uma componente qualitativa menos extensiva, baseada nos dados recolhidos anteriormente. Esta abordagem tem como principal vantagem para este estudo permitir a explicação mais aprofundada da perspetiva dos praticantes, tornando a análise mais abrangente. Como refere Domínguez e Hollstein (2014) devido a esta sistemática integração de estratégias qualitativas e quantitativas, os desenhos com método misto criam oportunidades especiais para a melhoria da qualidade dos dados.

Este trabalho encontra-se dividido em três partes.

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Esta parte, que pretende introduzir a temática em estudo recorrendo ao conhecimento científico mais atual na área da Sociologia, foi estruturada de acordo com os conceitos centrais do estudo: Socialização, Desporto e Qualidade de Vida.

Inicia-se o enquadramento pelo conceito de socialização, procurando a sua definição de acordo com diferentes autores, tornando-a o mais abrangente e atual possível. Seguiu-se a explicitação do conceito de acordo com as designadas correntes sociológicas clássicas: funcionalismo estrutural, teorias do conflito e interacionismo simbólico. No final deste subcapítulo procura-se desenvolver mais objetivamente a perspetiva contemporânea (que foi sentida por mim, como investigador, como central para a observação do conceito de socialização neste estudo em particular) de Pierre Bourdieu, nomeadamente, o seu conceito de habitus.

O subcapítulo dedicado ao conceito de desporto inicia-se pela abordagem sumária ao conceito, encaminhando-o para a Sociologia como ciência que se debruça sobre este fenómeno, esclarecendo o desenvolvimento deste campo especifico da Sociologia e interligando-o com o conceito anterior de socialização. Com esta abordagem pretende-se compreender de forma profunda e abrangente a maneira como desporto funciona como instrumento de socialização, ou melhor, como funciona a socialização através do Desporto, que é, no fundo, o tema central deste estudo. Termina-se abordando o Karate-Dō especificamente, esclarecendo a sua evolução, quer no mundo, quer em Portugal, e a filosofia e código de valores, princípios e padrão de comportamento ligado a este.

O enquadramento teórico termina na abordagem ao conceito de qualidade de vida. Para além da explicitação do conceito (ou das dificuldades na definição do mesmo), é ainda enfatizada a distinção entre a qualidade de vida objetiva e subjetiva, sendo este o enfoque da investigação. A abordagem termina com apresentação de diferentes modelos explicativos da qualidade de vida, permitindo um enquadramento mais aprofundado.

A segunda parte é dedicada à descrição das escolhas metodológicas e dos procedimentos concretizados. Aqui, são explicitadas as hipóteses de

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investigação, tal como o modelo de análise desenvolvido, terminando nos instrumentos utilizados – análise documental, questionário e entrevista. Neste sentido, e esclarecida a utilização do instrumento Personal Wellbeing Index para a observação da qualidade de vida percecionada.

A terceira parte apresenta o trabalho empírico propriamente dito.

A apresentação e discussão dos resultados realiza-se de forma prática recorrendo às hipóteses de investigação levantadas. Inicia-se com um subcapítulo designado Dados sociodemográficos e descritivos da prática

de Karate-Dō onde é realizada a descrição da amostra de praticantes

participantes no estudo, permitindo observar a sua homo ou heterogeneidade, relativamente a aspetos como o género, idade, atividade profissional, estilo de Karate-Dō, função no dojo, método de treino, etc. Em seguida, aborda-se um subcapítulo denominado Qualidade de Vida e Karate-Dō onde se analisa o nível de qualidade de vida dos praticantes de Karate-Dō, procedendo a uma comparação interna e externa, e estuda a associação deste com a prática específica de Karate-Dō. O subcapítulo seguinte Método de treino como fator

diferenciador da prática cruza os diferentes aspetos abordados ao longo do

estudo (perceção dos valores, princípios, padrão de comportamento e qualidade de vida) com o método de treino praticado. O último subcapítulo desta parte é designado Habitus marcial - valores, princípios e

comportamentos sociais, onde são apresentados e discutidos os resultados

relacionados a perceção dos praticantes da influência do Karate-Dō nestes diferentes aspetos, recorrendo, em larga medida, aos dados qualitativos para uma descrição mais rica destas perceções, e, assim, procurar um breve vislumbre do habitus deste grupo de praticantes.

No final é realizada a conclusão de todo o estudo. Aqui, são refletidas as respostas às questões que o estudo revelou originando novas questões ou são retomadas as questões iniciais, discutindo-se a perceção dos praticantes, lançando desafios para o futuro.

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ENQUADRAMENTO TEÓRICO

“Se os factos não encaixam na teoria, muda os factos” (Albert Einstein)

Esta frase inspiradora de Einstein abre o caminho para o objetivo deste capítulo. Na verdade, para se conhecerem os factos é preciso, antes de mais, conhecer a teoria.

Neste capítulo pretende-se, então, conhecer o «estado da arte» atual relativamente aos conceitos centrais em questão neste trabalho – socialização, desporto e qualidade de vida – sendo o suporte dos factos apresentados noutro capítulo deste trabalho. A abordagem aqui realizada procurou ser, em simultâneo, abrangente e concisa, isto é, tentou-se enquadrar os diferentes conceitos no “oceano” teórico existente sem nunca perder o objetivo concreto pela qual estes são importantes para este trabalho. Esta preocupação originou uma observação dos diferentes conceitos numa perspetiva do mais amplo para o mais concreto.

Este capítulo encontra-se subdividido em três subcapítulos subordinados cada um destes a um dos conceitos referidos anteriormente, pela ordem apresentada. Ou seja, será apresentado um subcapítulo relativo ao conceito de socialização, direcionado para a abordagem teórica de Bourdieu; outro subcapítulo orientado para o conceito de desporto, onde se integram os aspetos específicos do Karate-Dō; e o terceiro subcapítulo é subordinado ao conceito de qualidade de vida.

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33 1.1 SOCIALIZAÇÃO

“O bebé ingressa neste mundo como um organismo biológico preocupado com o seu próprio conforto físico. Em breve torna-se um ser humano, com um conjunto de atitudes e valores, gostos e recusas, metas e propósitos, padrões de atuação e um conceito profundo e duradouro da espécie de pessoa que é. Cada pessoa incorpora todos esses traços e atributos mediante um processo que chamamos de socialização.” (Horton e Hunt, 1981: p.77)

Esta frase espelha bem a razão pela qual a socialização é um dos conceitos fundamentais da Sociologia enquanto ciência.

Cada teórico e pensador da Sociologia enquadra as suas diferentes abordagens e teorias em redor deste conceito charneira, construindo diferentes pontos de vista deste processo que possibilita aos humanos viverem em sociedade. Como pode ser deduzido, é um conceito tão complexo como a sociedade em que os humanos vivem.

Neste subcapítulo dedicado ao conceito de socialização será primeiro abordada a definição do conceito, seguindo-se a sua observação segundo as correntes clássicas da Sociologia e, por fim, abordado o conceito segundo a teoria contemporânea proposta por Bourdieu.

1.1.1 Definição

“Tornar-se homem, hominizar-se é, para o indivíduo, antes de mais, socializar-se” (Javeau, 1998).

Socialização, em termos gerais, pode ser definida como “o processo pelo qual a criança indefesa gradualmente se torna uma pessoa auto-consciente e bem informada, dotada nas formas da cultura em que ele ou ela nasceu” (Giddens, 2006: p.163).

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Coakley (1998, p.88) descreve socialização como sendo:

“O processo ativo de aprendizagem e desenvolvimento social que ocorre quando as pessoas interagem umas com as outras e tornam-se familiarizadas com o mundo social onde vivem, e quando elas formam ideias acerca de quem são, e fazem decisões acerca dos seus objetivos e comportamentos.”

Este conceito é, portanto, e tal como foi referido anteriormente, de enorme abrangência e complexidade. Antes de mais, é algo entendido não como um conceito único e estanque, mas sim como um processo complexo e interligado com um objetivo bem definido: tornar um ser humano num elemento da sociedade humana.

“A socialização é o processo interativo pelo qual os indivíduos adquirem valores, atitudes, competências e conhecimento – em suma, a cultura – da sociedade a que pertencem” (Coser et al, 1983: p.107). O processo de socialização de um indivíduo envolve, portanto, os processos pelos quais os seres humanos são induzidos a adotar padrões de comportamento, normas, regras e valores do seu mundo social (Outhwaite, 2002). Neste sentido, também Schaefer (1983) define o conceito de socialização como “o processo pelo qual as pessoas aprendem as atitudes, valores e ações apropriadas para os indivíduos como membros de uma cultura particular” (Schaefer, 1983: p.100).

O processo que se designa por socialização é aquele pelo qual os indivíduos integram as normas, os códigos de conduta e a cultura da sociedade a que pertencem. A socialização pode ser vista na perspetiva do condicionamento (um indivíduo limita-se a integrar passivamente as regras do meio em que vive), mas também numa relação mais interativa entre indivíduo e sociedade (Molénat, 2011: p.214).

A socialização pode ser então encarada como um processo de interiorização por parte de um indivíduo de normas, crenças, valores, atitudes, padrões de comportamento e expectativas de um determinado grupo social ou sociedade, provocado pela pertença a este/esta, permitindo assim a perpetuação desse

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mesmo grupo social ou sociedade. Horton e Hunt (1981: p.77) descrevem a socialização como “o processo pelo qual uma pessoa internaliza as normas dos grupos em que vive, de modo que surja um “eu” distinto, único para um dado indivíduo”. Ou seja, a socialização é bem mais do que o simples processo de reproduzir comportamentos, mas sim é o interiorizar do social em si próprio (Javeau, 1998).

Coser et al (1983) referem que a socialização permite o fenómeno de reprodução social descrevendo-o como o processo pelo qual as sociedades transmitem os valores e comportamentos sociais de uma geração para a outra, perpetuando-se. Giddens (2006) completa que a socialização permite o fenómeno de reprodução social – o processo pelo qual as sociedades têm uma continuidade estrutural ao longo do tempo. Ou seja, onde os mais novos aprendem pelas maneiras de fazer dos mais velhos os valores, normas e práticas sociais, perpetuando assim as características da sua sociedade bem para além do seu período de vida (Giddens, 2006).

A socialização é realizada pela sociedade. Mais precisamente é realizada através das interações humanas (Schaefer, 1983). O mesmo autor (1983: p.100) refere relativamente a isto:

“Nós vamos, obviamente, aprender em grande medida a partir daqueles que são mais importantes na nossa vida – membros da família direta, melhores amigos, professores, e por aí fora. Mas também aprendemos de pessoas que vimos na rua, na televisão, em filmes e revistas. Através da interação com pessoas tal como através das nossas próprias observações, nós descobrimos como nos comportar ‘adequadamente’ e o que esperar dos outros se seguirmos (ou desafiarmos) as normas e valores da sociedade”

Falamos então, na prática, da socialização ser realizada por diferentes agentes dentro da sociedade.

Giddens (2006: p.166) define agentes de socialização como “grupos ou contextos sociais nos quais ocorrem processos significativos de socialização”. A socialização acontece através da interação de diferentes agentes de

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socialização, como grupos de pares e família, mais as instituições sociais formais e informais, onde podemos encaixar o grupo de praticantes de Karate-Dō.

Estes agentes podem ser informais ou formais e têm diferentes pesos e importância ao longo da vida do indivíduo e de acordo com os papéis que este desenvolve. Entre os agentes informais contamos com a família e os grupos de pares, já nos formais podemos enquadrar a escola, o local de trabalho, o grupo religioso, o governo ou os media (Giddens, 2006).

Apesar do próprio conceito de socialização poder encaminhar para a infância como principal momento de aprendizagem do ser humano, a verdade é que o processo de socialização acompanha o ser humano ao longo de toda a vida. Os autores definem dois tipos principais de socialização: primária, secundária. Ao processo que envolve um indivíduo tornar-se um ser social adulto, aprendendo intensamente os aspectos culturais onde se insere, com principal enfoque na infância, com o principal agente de socialização sendo a família, chama-se socialização primária (Giddens, 2006). O mesmo autor (2006) continua dizendo que a socialização secundária acontece a partir da adolescência e entra pela maturidade, com outros agentes de socialização como os grupos de pares, escola, trabalho e media, sendo onde os indivíduos aprendem valores, normas e crenças que fazem os padrões culturais da cultura onde se inserem. “A socialização primária é a primeira socialização que o indivíduo sofre na sua infância, e graças à qual se torna um membro da sociedade. A socialização secundária consiste em todo o processo posterior que permite incorporar um indivíduo já socializado em novos sectores do mundo objetivo da sua sociedade” (Berger e Luckmann, 1986: p. 178). Dito de outra forma, a socialização secundária acontece ao longo da vida e diz respeito à integração do indivíduo nos diversos “submundos” (conjunto de situações interdependentes com as quais o ator ainda não foi confrontado) a que o seu itinerário o conduz (Javeau, 1998). Giddens (2006), dá alguns exemplos:

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• Os adultos maduros comprometem-se com o trabalho e assumem a responsabilidade de uma vida marital, preocupando-se com as mudanças nas suas carreiras profissionais e na educação dos filhos; • Os idosos têm de lidar com a saída do mundo do trabalho e com a

finitude da sua vida, lutando com as dificuldades física e de saúde por forma a manter a sua vida ainda gratificante.

Alguns autores consideram a possibilidade de ressocialização de uma pessoa. Este conceito está ligado a mudanças rápidas e radicais de ambiente social. Assim, num processo de ressocialização os comportamentos antigos que eram benéficos para os papéis anteriores são removidos porque já não são necessários (OpenStax, 2012). Geralmente acontece nas chamadas instituições totais, onde se isola o indivíduo da sociedade (Goffman, 1961). “A ressocialização é necessária quando uma pessoa se muda para um lar de idoso, para uma escola interna ou prisão, neste novo ambiente as regras antigas já não são aplicam” (OpenStax, 2012: p.112).

Em seguida iremos aprofundar a abrangência do processo de socialização integrando-o nas teorias mais marcantes e reconhecidas da Sociologia.

1.1.2 Funcionalismo estrutural e teoria do conflito

Em Sociologia, como em todas as ciências, existem diversos pontos de vista e correntes de pensamento que evoluíram ao longo do tempo através das diferentes contribuições de diferentes autores e de diferentes formas de pensamento derivadas das épocas históricas que decorreram. Como refere Dubar (2005: p.XIII), “socialização faz parte desses conceitos básicos da sociologia que possuem tantos universos de significação como pontos de vista sobre o social”.

Diversos autores (Ritzer, 1993; Giddens, 2006; Mooney et al, 2007) entendem três correntes de pensamento sociológico como sendo as clássicas e mais

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influentes da Sociologia como ciência. Estas são: funcionalismo estrutural, conflito social e interacionismo simbólico.

Nesta divisão será abordada a perspetiva da socialização de acordo com estas três correntes.

A Socialização, para o Funcionalismo estrutural

A perspetiva funcionalista tem por base os trabalhos de Herbert Spencer, Emile Durkheim, Talcott Parsons e Robert Merton. Foi a abordagem predominante na Sociologia até aos anos 60 (Ritzer, 1993; Giddens, 2006). É considerada uma abordagem de ponto de vista macro.

No quadro da corrente do funcionalismo estrutural a sociedade é vista como um organismo vivo em que cada parte deste contribui para a sua sobrevivência, ou seja, esta perspetiva enfatiza a forma como as partes da sociedade estão estruturadas para manter a sua estabilidade (Schaefer, 1983). Ou seja, a visão central deste pensamento teórico é a de que “a sociedade é um sistema complexo em que várias partes trabalham em conjunto para produzir estabilidade e solidariedade” (Giddens, 2006: p.20). Mooney et al (2007) reforçam esta definição referindo que a sociedade é um sistema de diferentes partes intercomunicantes que trabalham em conjunto com harmonia para manter o estado de equilíbrio social do todo.

O conceito central desta corrente é o conceito de «função», como definido por Merton (1968). Estas são as consequências observáveis e positivas de uma estrutura social que ajuda a sociedade a sobreviver, adaptar-se e ajustar-se (Ritzer, 2015).

Merton (1968) especificou ainda que existem dois tipos de funções de cada instituição social: as manifestas e as latentes. As funções manifestas são as consequências de um processo social que são antecipadas e esperadas (Mooney et al, 2007). O mesmo autor (2007 refere que as funções latentes são as consequências não procuradas desse processo social. Giddens (2006) entende que as funções manifestas são aquelas que são conhecidas e apercebidas pelos participantes de determinada atividade social. Já as funções

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latentes são aquelas das quais os participantes não se apercebem. Reforçando esta visão, Schaefer (1983) refere que:

• As funções manifestas são as funções abertas, conhecidas e conscientes, que envolvem as consequências desejadas e reconhecidas de uma instituição social.

• As funções latentes são as funções inconscientes ou cobertas que refletem os objetivos escondidos de uma instituição social.

Um exemplo prático é dado pelo mesmo autor. Diz Schaefer (1983) que o ensino superior tem como funções manifestas a aquisição de conhecimentos, a preparação para uma carreira profissional, e a certificação das competências académicas e da excelência e como funções latentes o conhecer novas pessoas e encontrar parceiro sexual.

Esclarecidos os principais pontos desta abordagem teórica, e tendo em conta a observação de Durkheim, é relativamente simples entender como funciona a socialização de um indivíduo nesta perspetiva. Esta é, para começar, um pré-requisito fundamental a todas as sociedades. O indivíduo, ao longo da vida, vai encontrando diferentes instituições sociais que têm funções específicas de influência sobre o indivíduo, sejam manifestas ou latentes, que lhes transmitem normas, valores, crenças, capacidades, atitudes e formas de fazer, as quais resultam em estabilidade e equilíbrio de todo o sistema social do qual o indivíduo faz parte. Esta influência é diferenciada por desempenhar papéis sociais específicos:

“Por exemplo, cada instituição social contribui para uma função importante na sociedade: a família providencia um contexto de reprodução social, de estimulação e socialização das crianças; a educação oferece uma forma de transmitir as técnicas, conhecimento e cultura da sociedade aos jovens; a política providencia uma forma de governação dos membros da sociedade; a economia providencia a forma produção, distribuição e consumo dos bens e serviços; e a religião providencia orientação moral e uma saída para adoração de um poder superior.” (Mooney et al, 2007)

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A Socialização, para o Teoria do Conflito

A perspetiva do conflito social surgiu como uma alternativa à perspetiva funcionalista, sendo sua contemporânea (Ritzer, 1993). É uma abordagem baseada nos trabalhos de Karl Marx e Max Weber, considerada uma abordagem de ponto de vista macro.

Tal como na perspetiva funcionalista para os teóricos do conflito social a sociedade também é composta por estruturas no seu interior (Giddens, 2006). A principal diferença está em que nesta perspetiva os diferentes grupos e interesses (estruturas sociais) competem pelo poder e pelos recursos (Mooney et al, 2007), ao invés de favorecerem a estabilidade e o equilíbrio. Como refere Giddens (2006: p.22):

“Os teóricos do conflito rejeitam a ênfase no consenso dos funcionalistas. Ao invés eles enfatizam a importância das divisões na sociedade. E, ao fazê-lo, concentram-se nas questões de poder, desigualdade e luta.”

Schaefer (1983: p.16) descreve esta perspetiva da seguinte forma:

“A perspetiva da teoria do conflito assume que o comportamento social é melhor entendido em termos de conflito ou tensão entre grupos. Este conflito não necessita de ser violento; pode ter a forma de negociações laborais, políticas partidárias, competição por membros entre grupos religiosos, ou disputas sobre os cortes no orçamento de Estado”.

Resumidamente, “enquanto a teoria funcionalista observa o lado positivo da sociedade, a teoria do conflito enfoca no seu lado negativo” (Ritzer, 2015: p.30).

Os indivíduos competem por recursos sociais, políticos e materiais, como poder político, tempo de lazer, dinheiro, habitação e diversão. As estruturas e organizações sociais (como grupos religiosos, governos e empresas) que são vistas nesta perspetiva teórica refletem a competição por estes recursos nas

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suas visíveis desigualdades. Ou seja, alguns indivíduos ou organizações são capazes de obter e manter mais recursos e poder do que outros (Ritzer, 2015). A socialização é então observada como um processo pelo qual os indivíduos são designados para diferentes/desiguais grupos que competem entre si pelos recursos, sendo fundamental para a manutenção da dominância dos mais poderosos.

Ambas as correntes teóricas abordadas anteriormente focam-se na forma com os aspetos alargados da sociedade, como as instituições e grandes grupos sociais, influenciam o mundo social – é designada de macro sociologia. Em seguida será observada a perspetiva segundo a corrente do interacionismo simbólico, uma corrente que se insere na designada micro sociologia. Esta corrente foca-se, ao contrário das anteriores, nos pequenos detalhes das dinâmicas psicossociológicas da interação dos indivíduos em pequenos grupos.

1.1.3 Interacionismo simbólico

O interacionismo simbólico tem por base os trabalhos de George Simmel (1908), Charles Cooley (1922) e George Herbert Mead (1934). Apesar de as suas raízes remontarem à primeira metade do século XX, a sua implementação como teoria sociológica sólida e consistente só decorreu a partir dos anos 60 (Ritzer, 1993). É considerada uma abordagem de ponto de vista micro.

“Esta perspetiva generaliza acerca das formas diárias e fundamentais de interação social. É o enquadramento sociológico que permite a observação dos seres humanos como vivendo num mundo cheio de objetos significantes. Estes ‘objetos’ podem incluir coisas materiais, ações, outras pessoas, relações, e até símbolos.” (Schaefer, 1983: p.17)

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É uma abordagem focada na interação interpessoal e no conceito de símbolo. Símbolo pode ser entendido como algo que está em vez de outra coisa. Ou seja, “as palavras que usamos para descrever alguns utensílios são, na verdade, símbolos que representam o que realmente queremos” (Giddens, 2006: p.23). Blumer (1986: p.78) descreve mais detalhadamente esta abordagem, referindo:

“Uma interação simbólica refere-se, claro, ao caráter distintivo e peculiar da interação que acontece entre os seres humanos. Esta peculiaridade consiste no facto de os seres humanos interpretarem ou ‘definirem’ as ações uns dos outros ao invés de reagirem às ações uns dos outros. A sua ‘resposta’ não está ligada diretamente às ações do outro, mas sim ao significado que eles ligam a essas ações. Ainda, a interação humana é mediada pelo uso de símbolos, pela interpretação, ou pelo descortinar o significado das ações do outro.”

Ou seja, para os interacionistas simbólicos a sociedade é composta por interações sempre presentes entre indivíduos que partilham símbolos e os seus significados. Giddens (2006) reforça que esta perspetiva teórica tem grande enfoque na relação “cara-a-cara” da vida quotidiana, sendo esta troca constante de símbolos e significados que molda a sociedade e as instituições sociais.

Resumindo os aspetos centrais da corrente do interacionismo simbólico, Blumer (1986) refere o seguinte:

• Os humanos agem perante as coisas na base dos significados que atribuem a essas mesmas coisas;

• O significado dessas mesmas coisas deriva, ou emerge, da interação social que o indivíduo tem com os outros e com a sociedade;

• Esses significados são geridos, e modificados, através do processo interpretativo utilizado pela pessoa de acordo com as coisas que ele/ela encontra.

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Deste modo, a nossa noção de sociedade e a nossa identidade e sentido de “eu” (self) são moldados pela interação social (Mooney et al, 2007).

Por seu turno, Erving Goffman (1956) apresenta o interacionismo simbólico de forma ligeiramente diferente, adicionando-lhe uma perspetiva teatral. O próprio autor (1956: p. 1) refere:

“A perspetiva aqui empregue é a de uma atuação teatral; os princípios derivam dos dramatúrgicos. Eu devo considerar a forma como o indivíduo em situações quotidianas se apresenta a si próprio e às suas atividades perante os outros, as formas como ele guia e controla a impressão que os outros formam dele, e o tipo de coisas que ele pode ou não pode fazer enquanto mantém a atuação perante os outros”.

Na verdade, Goffman usa a premissa de que, em interação, cada pessoa comporta-se (conscientemente ou não) em determinadas formas na tentativa de gerir as impressões que os outros possam tirar dela, na prática, cada indivíduo monta um “show” ou atuação para os outros (Pascale, 2011). No entanto, a base desta atuação é a interpretação e o descortinar dos significados dos símbolos que usamos na nossa linguagem expressa, sendo uma abordagem profundamente ligada ao conceito de self tal como, primeiro Cooley, e depois Mead, se referem.

Para os interacionistas simbólicos como Goffman e Cooley a socialização é entendida como a emergência do “eu” (self) social através das interações sociais.

Cooley argumenta que o sentido de self (eu) desenvolve-se através de duas linhas paralelas: uma em que a criança desenvolve um sentido de poder (agência) através da sua habilidade de manipular o ambiente social e físico que a rodeia, e uma em que a criança se torna consciente do facto de a sua autoimagem se refletir no imaginário dos outros em redor dela. Neste sentido, o self (eu) existe como um facto imaginário: as pessoas imaginam como são vistas pelos outros e agem em conformidade (Pascale, 2011).

Mead (1934) como “social behaviorist” que se definiu, transportou este conceito do campo da psicologia para a sociologia:

“Foi sem dúvida George Herbert Mead, em sua obra intitulada Mind, Self and Society [Espírito, si-mesmo e sociedade] (1934), quem primeiro descreveu, de maneira coerente e argumentada, a socialização como

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construção de uma identidade social (um self, no vocabulário de Mead) na e pela interação – ou comunicação – com os outros.” (Dubar, 2005: p.115).

O self é, no seu fundamental, a capacidade de se considerar a si próprio como um objetivo; este self tem a capacidade peculiar de ser sujeito e objeto, segundo Ritzer (1993).

Mead refere-se ao “eu” (self) como algo profundamente social, isto é, a nossa sensação do “eu” (self) apenas existe pela constante interação com os “eu's” (self’s) dos outros (Elliot, 2008). O self surge com o desenvolvimento e através da atividade social e das relações sociais (Ritzer, 1993). “Eu(s)” (self’s) apenas podem existir em relações permanentes com outros “eu(s)” (self’s) (Mead, 1934). O mesmo autor (1934) continua referindo que não pode ser traçada uma linha claramente distintiva entre o “eu” (self) de um indivíduo e o “eu” (self) dos restantes, porque o nosso “eu” (self) só existe e entra na nossa experiência do mundo enquanto os “eu” (self) dos outros existirem e estes entrem na nossa experiência também.

Em suma, é impossível imaginar o self sem a existência de experiências sociais:

“É por isso que G. H. Mead insiste nos riscos constantes de "dissociação

do Si-mesmo" que acompanha a socialização (op.cit., p. 122): entre um "mim" que implica necessariamente um esforço de conformidade ao grupo para ser (re)conhecido e um "eu" que sempre corre o risco de ser enfraquecido ou ignorado pelos outros, o Si mesmo (self) em construção corre o risco de se encontrar dividido entre a identidade coletiva sinónima de disciplina, de conformismo e de passividade e a identidade individual sinónima de originalidade, de criatividade, mas também de risco e de insegurança.” (Dubar, 2005: p.119).

Tendo em conta esta definição e a forma como o “eu” (self) é abordado, resulta simples de compreender que a estrutura do “eu” (self) expressa ou reflete o padrão de comportamento geral do grupo social ao qual o indivíduo pertence, tal como a estrutura de todos os outros indivíduos que pertençam a este grupo social (Mead, 1934).

Assim, ao socializarem, os indivíduos “criam a sociedade tanto quanto reproduzem a comunidade” (Dubar, 2005: p.119).

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Após esta abordagem das teorias clássicas será abordada a perspetiva sociológica contemporânea proposta por um dos sociólogos contemporâneos mais influentes - Pierre Bourdieu.

1.1.4 Socialização no pensamento sociológico contemporâneo – a abordagem de Pierre Bourdieu

As escolas referidas anteriormente são consideradas as três correntes clássicas do pensamento em Sociologia. No entanto, o pensamento sociológico desenvolveu-se e evoluiu com o tempo. No final do século XX e início do século XXI surgiram autores cujo pensamento e obra se tornaram tão influentes e importantes na Sociologia, que o pensamento sociológico moderno não faz sentido sem a sua integração.

Segundo Ritzer (1993) existem quatro linhas de desenvolvimento do pensamento sociológico a partir do fim do século XX: integração micro-macro; integração ação-estrutura; sínteses teóricas; metateorização.

Nos últimos anos, tem sido ressuscitado na Sociologia, pela mão de alguns teóricos, o hábito como digno de consideração. Entre estes pensadores surge Pierre Bourdieu com o seu notável trabalho sobre as formas de conduta “habituadas” (Swartz, 2002)

“Pierre Bourdieu, como sociólogo francês, no seu início de carreira, foi influenciado por Durkheim e as ideias estruturalistas. Bourdieu tentou combinar o funcionalismo de Durkheim e as ideias estruturalistas nos seus estudos iniciais. No entanto, ele começou a utilizar dominantemente as abordagens Marxistas e Weberianas com o tempo. Ao fazer esta combinação ele apontou a uma nova compreensão, ou a uma nova forma de analisar a sociedade” (Öztürk, 2005).

Bourdieu pode ser então associado à corrente do funcionalismo com ligações ao estruturalismo (Ritzer, 1993). Segundo o mesmo autor (1993) pretendeu também na sua teoria superar a distinção entre objetividade e subjetividade,

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que no seu ponto de vista é falsa e artificial. Costa e Murphy (2015) vão mais longe referindo que o trabalho de Bourdieu demonstra uma “cruzada” para transcender um conjunto de dicotomias interligadas como: estrutura-agência; subjetividade-objetividade; teoria-prática.

Bourdieu assenta a sua abordagem teórica da ação social em três conceitos base: habitus, campo e capital. Estes conceitos são anteriores a Bourdieu, remontando até aspetos filosóficos propostos por Aristóteles, mas especialmente assentes nos clássicos da Sociologia como Durkheim. No entanto, este aborda-os de forma diferente, oferecendo uma total nova perspetiva sobre os mesmos (Wacquant, 2007; Gomes de Sá, 2014).

O capital é a forma como Bourdieu designa os recursos disponíveis e necessários para ação do indivíduo na sua ação social (Swartz, 2002). Existem diferentes tipos de capital que se encontram distribuídos de forma desigual na sociedade, sendo os mais importantes, o económico, cultural, social e simbólico. O capital, nas suas diferentes formas, é uma forma de poder:

“O mundo social pode ser concebido como um espaço multidimensional que pode ser construído empiricamente pela descoberta dos principais fatores de um dado universo social, ou, em outras palavras, pela descoberta do poder em forma de capital que são ou podem tornar-se eficientes” (Bourdieu, 1987).

Os tipos e o volume de capital disponível em conjunto com as disposições moldam as possibilidades para a ação (Swartz, 2002). Isto é, por exemplo, uma pessoa com elevado capital económico (convertido em dinheiro) dificilmente irá desenvolver expectativas culturais se não investir os seus recursos financeiros em investimento cultural, como ensino superior.

O campo é entendido, resumidamente, como o espaço social, ou contextos sociais estruturados, onde decorre a ação. Bourdieu usa este conceito para analisar a sociedade moderna como um espaço de conflito e competição por diferentes tipos de capital (Swartz, 2002; Öztürk, 2005). Este conceito pode ser descrito da seguinte forma:

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“Campo é um conjunto de espaços multidimensionais de posições e obtenção de posições dos agentes cuja posição é o resultado das interligações entre habitus das pessoas e o seu lugar num campo de posições. O lugar de um agente num campo de posições é definido pela distribuição das apropriadas formas de capital” (Öztürk, 2005).

No fundo, a sociedade pode ser vista como um complexo conjunto de vários campos como o campo económico, artístico, religioso, legal e político (Swartz, 2002).

O conceito de habitus é conceito central e conciliador de toda a teoria proposta por Bourdieu.

Este conceito remonta ao conceito de “hexis” empregado por Aristóteles para designar as disposições adquiridas do corpo e da alma (Dubar, 2005). Este conceito é descrito pelo próprio (1980, p.88), citado em Dubar (2005, p.78):

"Sistemas de disposições duradouras e transponíveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípios geradores e organizadores de práticas e de representações".

Bourdieu (1990, p.53) completa esta definição como:

“Sistema de duráveis, transponíveis disposições, estruturas estruturadas predispostas para funcionar como estruturas estruturais, isto é, como princípios que geram e organizam práticas e representações que podem ser objetivamente adaptadas aos seus resultados sem pressupor um foco consciente nos fins ou na mestria expressa das operações necessárias para os atingir”.

Wacquant (2007) observa, de certo modo, o conceito de habitus de uma forma mais clara, abrangente e compreensível na prática:

“o habitus é uma noção mediadora que ajuda a romper com a dualidade de senso comum entre indivíduo e sociedade ao captar “a interiorização da exterioridade e a exteriorização da interioridade”, ou seja, o modo como a sociedade torna-se depositada nas pessoas sob a forma de

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disposições duráveis ou capacidades treinadas e propensões estruturadas para pensar, sentir e agir de modos determinados, que então as guiam em suas respostas criativas aos constrangimentos e solicitações de seu meio social existente”.

Pode-se então dizer que habitus tem um lugar especial no conjunto de conceitos e ferramentas de Bourdieu:

“Com este conceito o autor tentou aceder aos comportamentos, perceções e crenças internalizadas que os indivíduos traduzem em práticas que transferem para e dos espaços sociais onde interagem. Habitus é mais do que experiência acumulada; é um processo social complexo no qual o indivíduo e as disposições coletivas sempre estruturantes se desenvolvem na prática para justificar as perspetivas, valores, ações e posições sociais individuais” (Costa e Murphy, 2015: p.4).

Ritzer (1993), por sua vez, entende o habitus como incluindo as estruturas mentais ou cognitivas mediante as quais as pessoas existem no mundo social. No fundo, e muito resumidamente, podemos entender o conceito de habitus como um conjunto de padrões adquiridos de pensamento, comportamento e gosto. Ou seja, a forma como o indivíduo incorpora a sociedade (ou os campos) no seu sentir, pensar e agir. É neste sentido que o conceito de habitus pode ser considerado a abordagem deste teórico ao processo de socialização. Uma ligação direta entre os conceitos é nos dada por Costa e Murphy (2015) quando referem que as experiências mais precoces dos agentes irão construir o habitus primário (socialização primária) enquanto o habitus secundário (socialização secundária) é uma esquema disposicional adquirido num estadio mais tardio em contextos especializados como a escola, trabalho ou pertença a grupos específicos (como a os clubes ou grupos desportivos). Este segundo tipo de habitus é mais encorajador de alterações nas práticas do indivíduo do que o primeiro, que tende para a constância e a defesa contra a mudança. O processo de interiorização pelo qual é desenvolvido habitus é entendido por Bourdieu de forma similar a Mead e à tradição do interacionismo simbólico de formação do self (da autoidentidade) (Swartz, 2002). Ou seja, e segundo o

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mesmo autor (2002), as disposições do habitus são adquiridas de forma informal através da experiência da interação social, por processos de imitação, repetição, role-play, e participação em jogos.

É um conceito simultaneamente abrangente e complexo pelo que é fundamental tentar desconstruí-lo por forma a compreender toda esta sua abrangência e complexidade.

Por forma a podermos entender o habitus temos de o observar em relação com as estruturas sociais (campos) onde este é produzido e alterado (Costa e Murphy, 2015). Os mesmos autores (2015: p.8) concluem que:

“Habitus encapsula a ação social através de disposições e pode ser largamente explicado como um processo evolutivo através do qual os indivíduos agem, pensam, percecionam e abordam o mundo e o seu papel nele. Habitus denota uma forma de ser. Mais, como passado assimilado sem clara consciência, habitus é um arquivo de experiências pessoais assentes nos aspetos distintivos das viagens sociais individuais. As disposições individuais são um reflexo das suas trajetórias vividas e justificam as suas abordagens à prática”.

Bourdieu (1977; 1998) como citado em Öztürk (2005) refere que os indivíduos, nas suas ações, incorporam a estrutura e as organizações sociais, ou seja, desenvolvem o mesmo habitus, caso sejam sujeitos às mesmas condições. Os indivíduos fazem isto pela exteriorização dos seus interesses individuais, pontos de vista, e disposições para a ação. Wacquant (2007: p.67-68) reforça este ponto de vista quando se refere ao principio de “sociação”:

“’sociação’ porque nossas categorias de juízo e de ação, vindas da sociedade, são partilhadas por todos aqueles que foram submetidos a condições e condicionamentos sociais similares (assim, podemos falar de um habitus masculino, de um habitus nacional, de um habitus burguês etc.); individuação porque cada pessoa, tendo uma trajetória e uma localização únicas no mundo, internaliza uma combinação incomparável de esquemas”.

É este aspeto que torna a questão do habitus problemática segundo Lahire. Bernard Lahire tem sido, em simultâneo, um influente crítico e admirador do

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trabalho de Bourdieu. Lahire questiona, maioritariamente, a aplicação dos conceitos de Bourdieu, nomeadamente, o habitus e as disposições, na prática, criticando sumariamente o seu otimismo e inoperacionalidade em termos metodológicos. Setton (2009: p.298-299) resume esta crítica de Lahire, referindo:

“Segundo Lahire, não se pode pensar o indivíduo contemporâneo sendo regido apenas por um único princípio de conduta. Hoje, cada vez mais as crianças são socializadas com base em uma multiplicidade de princípios, o que poria em xeque a teoria do habitus. Ele considera que Bourdieu engessou a própria sociologia ao consolidar um único olhar sobre a teoria das disposições culturais, a teoria do habitus. Os indivíduos, segundo ele, não agiriam de forma homogênea nas muitas situações de vida, não agiriam coerentemente o tempo todo a partir de um sistema de disposições homogêneo, coerente e único. Apoiado no conceito de habitus, Lahire afirma que Bourdieu constrói um homem perfeito, enquanto a realidade demonstra ser o indivíduo altamente complexo”.

No fundo, Lahire considera que a perspetiva é demasiado unificadora e homogénea na observação das práticas, sugerindo uma abordagem mais individualizada e plural – uma sociologia do indivíduo:

De modo semelhante ao globo terrestre, conjunto das diversas teorias da ação têm dois grandes polos: o da unicidade do ator e o de sua fragmentação interna. Por um lado, se esta procura de sua visão do mundo, de sua relação com mundo ou da "fórmula geradora de suas praticas" e, por outro lado, admite-se a multiplicidade dos conhecimentos e do saber-fazer incorporados ou incorporados, das experiencias vividas, dos "eus" ou dos "papeis" incorporados pelo ator (repertório de papeis, estoque de conhecimentos, reserva de conhecimentos disponíveis...). (…) O interesse principal da primeira posição está bem expresso por Pierre Bourdieu quando ele explica que a sua teoria do habitus permite "construir e compreender de maneira unitária as dimensões da pratica que frequentemente são estudadas em ordem dispersa (Bourdieu & Wacquant, 1992: 107)" (Lahire, 2002).

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Referências

  1. Steinmayr
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