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A Escola de Aprendizes Marinheiros e as crianças desvalidas: Desterro (SC), 1857-1889

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Sumário

INTRODUÇÃO...02

CAPÍTULO I – DIMENSÕES CONTEXTUAIS DA INSTALAÇÃO DA ESCOLA DE APRENDIZES MARINHEIROS DE SANTA CATARINA...11

1 – Aspectosda Historicidade Desterrense ...12

2 – O Avanço do Processo Civilizatório em Desterro...26

2.1 – O Olhar Médico Sobre as Condições Sanitárias de Desterro...32

3 – A Instalação da Escola de Aprendizes Marinheiros em Santa Catarina...37

CAPÍTULO II –ASPECTOS DA ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DA ESCOLA DE APRENDIZES MARINHEIROS DE SANTA CATARINA...52

1 – Quem eram os alunos da Escola de Aprendizes Marinheiros de Santa Catarina? ...54

2 –Elementos do Cotidiano da Escola de Aprendizes Marinheiros...62

2.1 – O Aprendizado Realizado Pelos Aprendizes Marinheiros...74

3 – Antigas Companhias de Aprendizes Marinheiros Dão Origem as Novas Escolas de Aprendizes Marinheiros...79

4 –A Visão das Autoridades Sobre a Escola de Aprendizes Marinheiros...87

CONSIDERAÇÕES FINAIS...90

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INTRODUÇÃO

A presente pesquisa situa-se no campo da História da Educação e busca realizar um estudo sobre a participação da Escola de Aprendizes Marinheiros na educação das crianças pobres, em meio a um processo empreendido pela elite desterrense de tentativa de (re)enquadramento destas crianças no espaço público que vinha sendo delineado no período em estudo: 1857-1889, de modo que não mais configurassem uma ameaça à imagem de civilidade que tal elite tentava conferir à Cidade.

Este estudo tem por objetivos responder questões como: se esta Escola efetivamente contribuiu para retirar as crianças pobres das ruas; se necessitava destas crianças para compor o seu efetivo pessoal visando formar o quadro de marinheiros brasileiros e satisfazer, desta maneira, suas próprias necessidades vitais; se os interesses das crianças pobres, entre os quais podemos citar as constantes brincadeiras realizadas nos espaços públicos como ruas e praças, foram colocados em choque com as posturas que começaram a ser propagadas pela elite que vinha se constituindo em Desterro (atual Florianópolis) durante o período estudado; se a educação foi utilizada por esta elite (em gestação) como um dos meios para solucionar o problema das crianças nas ruas, por ela consideradas desprovidas, e quais eram suas reais finalidades ao propagar uma busca de possibilidade para sanar este problema.

Tal período foi escolhido por ser 1857 o ano da criação da Escola de Aprendizes Marinheiros em Santa Catarina, sendo que meu trabalho pretendeu, como vimos, analisar se e como tal Escola foi utilizada por esta elite em constituição, uma vez que esta lutava para se consolidar no poder neste momento histórico e buscava, então, conseguir estruturar e desenvolver

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um projeto civilizatório em meio ao processo de construção da Nação. Já o final do estudo foi definido como sendo o ano de 1889, que representa um marco histórico-político nacional, graças a proclamação da República Brasileira, já que, até onde pude avançar na investigação, não encontrei um marco finalizador inerente ao meu próprio objeto.

No que se refere ao mencionado projeto civilizatório, ELIAS (1994, p. 13-16-17) considera que o homem ocidental não apresentou sempre o mesmo padrão comportamental que estamos acostumados a reconhecer como sinal característico do homem “civilizado”. Para perceber como se processou essa mudança, esse afirmado processo civilizador ocidental, em que realmente ele consistiu, torna-se necessário tecer considerações que clareiem de que maneiras o comportamento e a própria afetividade dos povos ocidentais sofreram alterações, de forma lenta e gradual, após a Idade Média. Nesta direção o autor afirma que a estrutura do comportamento civilizado está estreitamente inter-relacionada com a organização das sociedades ocidentais sob a forma de Estados. Ele trabalha um único aspecto que engloba a história do processo de formação e estruturação do Estado, o problema do “monopólio da força”. Em sua concepção fica fácil compreender que a partir desta monopolização da violência física como ponto de intersecção de grande número de interconexões sociais ocorreram profundas e radicais mudanças em todo o aparelho que modela o indivíduo, o modo de operação das exigências e proibições sociais que lhe moldam a constituição social e, acima de tudo, os tipos de medos que desempenham um papel em sua vida. Como esboço de uma Teoria de Civilização, dá ênfase as ligações já mencionadas entre as mudanças processadas na estrutura da sociedade e mudanças ocorridas na estrutura comportamental, na própria constituição psíquica do indivíduo.

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No que tange ao processo de constituição das “Nações”, na tentativa de melhor compreendê-lo, reporto-me à HOBSBAWM (1998, p.13), este afirma que as nações não são”tão antigas quanto a história”, e que o sentido moderno deste vocábulo não é mais velho que o século XVIII considerando-se ou não o variável período que o precedeu. Para ele é muito difícil definir o que é uma nação e, na verdade, segundo o seu pensamento, isto não poderia ser diferente, pois estamos lidando com entidades historicamente novas, emergentes, mutáveis e, ainda hoje, longe de serem universais em um quadro de referência dotado de permanência e universalidade. Com base em suas colocações posso afirmar que a nação pode ser concebida como uma entidade social desde que seja relacionada a uma determinada forma de Estado territorial moderno, o “Estado - nação”.

Para realizar um estudo sobre esta temática HOBSBAWM (Op.cit. p.18-19 e 20) sugere que a melhor postura para o estudioso no estágio inicial de seu trabalho é o agnosticismo e, assim sendo, não trabalhar com uma definição a priori do que venha a constituir uma nação. Ele próprio em seu estudo adota uma hipótese inicial de trabalho onde a nação é concebida como sendo qualquer corpo de pessoas suficientemente grande cujos membros consideram-se como membros de uma “nação”. Esclarece que não podemos estabelecer se um grupo de pessoas considera-se ou não como membro de uma “nação” apenas com base no depoimento de escritores ou porta-vozes políticos de organizações que demandam o status de “nação” (grifos do autor) para aquele corpo. Para estudar as nações as análises devem priorizar as condições econômicas, administrativas, técnicas, políticas além de outras exigências não especificadas pelo autor. Por outro lado, deixa bem explícito que em razão disto as nações são para ele fenômenos duais, construídos essencialmente pelo alto, mas que, no entanto, não podem ser compreendidas

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sem ser analisadas de baixo, ou seja em termos de suposições, esperanças, necessidades, aspirações e interesses de pessoas comuns, as quais não são necessariamente nacionais e menos ainda nacionalistas.

Para desenvolver minha pesquisa considerei relevante historicizar relações e determinações sociais que se estabeleceram nos meados do século XIX, em Desterro, visando compreendê-las, isto não significa que fui buscar no passado, justificativas para o momento presente, pois tal intenção me levaria a desconsiderar a história tal como esta se realiza em cada época, marcada por seu contexto específico. Na realização desta contextualização procuro visualizar meu objeto de estudo buscando fazer uma relação entre o local e o universal o que, segundo MARX, é imprescindível, pois a História é mundial e os indivíduos também são universais e não apenas locais 1.

No que se refere ao trabalho com as fontes, na busca de respostas às questões elaboradas, me apoio em THOMPSON (1981, p. 38 e 57) que concebe a pesquisa histórica como tendo por finalidade possibilitar a explicação e a compreensão da história ‘real’. Este autor deixa claro que a evidência histórica existe, em sua forma primária, não para revelar seu próprio significado, mas para ser interrogada por mentes treinadas numa disciplina de desconfiança atenta. Sendo assim, cabe ao pesquisador certa cautela, pois perguntas abertas, inocentes, podem ser uma máscara para atribuições exteriores, e que mesmo as técnicas de pesquisa empírica mais sofisticadas e supostamente neutras (...) podem ocultar as mais vulgares intromissões ideológicas.

Ainda com base nos ensinamentos de THOMPSON (Op.Cit.p.49-54) compreendo que as pesquisas históricas estão visceralmente ligadas ao

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conhecimento e a capacidade do pesquisador imiscuir-se na vida social característica de determinado momento histórico. Tal procedimento, segundo o autor, propicia uma melhor argüição às fontes e maior clareza para poder interpretá-las. Não posso fazer perguntas inadequadas à minha fonte, às minhas evidências, pois corro o grande risco de realizar um discurso abstrato, a-histórico.

Tenho consciência que o trabalho com as fontes deve ser realizado mediante uma constante vigilância epistemológica através da qual devo apegar-me ao método com o qual me proponho a trabalhar, no caso o Método Dialético Histórico, pois se não tiver esse cuidado posso acabar (re)afirmando as falas contidas no discurso oficial, permanecendo assim no âmbito do senso comum, da “pseudoconcreticidade” que é um conhecimento reprodutivo, conservador e que se encontra preso ao imediatamente dado, ao empírico (KOSIK, 1976).

Encontrei ao longo de minha pesquisa muitas dificuldades na localização de fontes primárias inerentes ao meu objeto. Um dos obstáculos que tive de transpor foi a reforma pela qual passou o setor da História Catarinense da Biblioteca Pública Estadual de Santa Catarina (BPESC) que permaneceu fechado por quase todo um período de dois anos, coincidindo com o destinado a este estudo, somente reabrindo ao público no final de novembro último2.

2- Quando da liberação do citado setor para pesquisas, rapidamente para lá me desloquei, mas então, como durante a espera busquei fontes em outros locais, como o Arquivo Público e inclusive cópias de Leis que fazem parte da Coleção de Leis da Província de Santa Catarina, fornecidas por GONÇALVES (aluna do curso de mestrado da UFSC que defendeu sua dissertação sobre a Gênese da Diretoria de Instrução Pública

na Província de Santa Catarina - 1830-1858, elaborada sob a orientação da Professora Marli Auras. A

defesa ocorreu no dia 22 de agosto de 2000)que as entregou à professora Marli para que pudessem servir de fonte para futuras pesquisas do período referente ao século XIX, não encontrei nenhum dado que viesse a enriquecer consideravelmente o acervo que já tinha sido coletado.

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Meu percurso na coleta de dados foi marcado por visitas realizadas à Escola de Aprendizes Marinheiros (segundo semestre de 2000), que atualmente ainda permanece em atividades em Florianópolis. Nesta repartição tive acesso ao livro Histórico da Escola de Aprendizes Marinheiros de

Santa Catarina (a obra não apresenta especificação sobre seu autor ou

autores), no qual pude observar que só existem dados mais detalhados sobre a atuação desta Escola durante o século XX, quando passou a funcionar no atual prédio que se localiza no bairro do Estreito, tendo sua pedra fundamental sido lançada em 19 de abril de 1943 e suas instalações inauguradas a 29 de outubro de 1950. Sobre o período relativo a minha pesquisa somente contem menção à data de 27 de agosto de 1840, como sendo a da criação das Companhias de Aprendizes, embriões das atuais Escolas de Aprendizes Marinheiros, através da Lei nº 148, pelo Imperador D. Pedro II, e que a Companhia de Aprendizes Marinheiros de Santa Catarina, somente foi criada em 24 de outubro de 1857, pelo Decreto nº 2003. Após tal constatação dirigi-me até a Capitania dos Portos de Santa Catarina, na qual descobri que seus arquivos foram em grande parte destruídos quando da transferência desta de sua sede, que se localizava na rua Antônio Luz nº 206 no centro de Florianópolis, para a localidade do Estreito, bairro da parte continental, passando a ocupar uma nova instalação sediada na rua 14 de Julho, nº 440. Tal transferência ocorreu em dezembro de 1997.

Em conversas que tive, durante o mês de agosto do ano de 2000, com o senhor Idiomar Virginio Vieira – conhecido como “seu Mazico” – que ocupava o cargo de Auxiliar Operacional de Serviços Diversos da Marinha há 42 anos, tendo 76 anos de idade (no momento de nosso encontro), o mesmo me confidenciou que ele próprio havia queimado, por ordem do Capitão Tenente Eddie Gilvanni, grande parte dos documentos que estavam

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arquivados na antiga sede da Capitania dos Portos, na própria churrasqueira desta. Ainda me informou que outra parte da papelada foi doada para entidades beneficentes que poderiam vendê-la para reciclagem e desta forma arrecadariam verbas.

Acredito importante mencionar que o “seu Mazico” me foi indicado como fonte pelo Tenente Paulo César Siqueira Paiva que me atendeu quando de minha ida até a Capitania dos Portos e que o indicou como a pessoa capaz de lembrar de fatos importantes que pudessem me ajudar. Descobri ainda nesta visita à Capitania, por intermédio do próprio Tenente Siqueira, que o Capitão dos Portos na época da mudança de endereço era o Capitão Tenente Eddie Gilvanni de Castro Henriques – o que comprovou a informação fornecida pelo “seu Mazico” de que teria sido ele o autor da ordem de queima dos arquivos –, outro dado obtido foi sobre a nomeação do Capitão dos Portos que se processa a cada dois anos.O Tenente Siqueira me forneceu o endereço completo do 5º Distrito Naval, localizado atualmente no Estado do Rio Grande do Sul, para onde eu remeti uma correspondência. Como resposta recebi um telefonema da Tenente Maria Emília que informou estar me enviando, também por correspondência, o material que tinham disponível e o endereço do Serviço de Documentação da Marinha (SDM), localizado no Rio de Janeiro, que talvez pudesse me ajudar fornecendo-me maiores informações. Enviei uma nova correspondência destinada a este órgão para verificar se existiam fontes que pudessem me fornecer dados sobre o funcionamento interno da Escola de Aprendizes Marinheiros de Santa Catarina naquela época, como por exemplo, que disciplinas eram lecionadas, seus conteúdos, quem eram as pessoas encarregadas de ministrá-las, quem eram os alunos que freqüentavam esta escola militar, os motivos que levaram a sua criação aqui em Santa Catarina, etc. Infelizmente ao receber a resposta do referido órgão da

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Marinha descobri que estes, ou não tinham realmente nenhum dado relevante para o desenvolvimento de meu estudo, ou estavam boicotando o acesso ao mesmo.

Após tantos contratempos fui aos poucos encontrando, com o auxílio das funcionárias do Arquivo Público do Estado de Santa Catarina (APESC), documentos antigos, do século XIX, que se referiam ao meu objeto de estudo e que possibilitaram em grande parte a realização desta Dissertação de Mestrado que ora apresento aos leitores interessados.

Para expor os dados, levantados ao longo de minha pesquisa, decidi organizá-los sob a forma de dois capítulos. No capítulo inicial, trabalho com aspectos referentes à instalação da Escola de Aprendizes Marinheiros em Santa Catarina. Para tal senti necessidade de deixar claro algumas facetas do contexto histórico, que marcava o momento no qual meu objeto de pesquisa está inserido (1857-1899). Sendo assim, procuro demonstrar o processo que se desenvolvia, tanto a nível local como nacional, onde a elite em constituição tentava moldar um projeto civilizatório e no interior deste almejava traçar linhas divisórias entre espaços públicos e privados, empenhando-se na construção da Nação. Aqui busquei apoio sobretudo em documentos oficiais, entre os quais encontram-se os Avisos enviados ao Presidente da Província de Santa Catarina pelo Ministério da Marinha, as Falas e Relatórios dos Presidentes da Província, o Regulamento para a praça do mercado da cidade de Desterro, a Coleção de Leis do Império do Brasil, a Coleção de Leis da Província de Santa Catarina, os Regulamentos para a organização, comando e administração das Companhias de Aprendizes Marinheiros, e ainda vários Decretos Imperiais. Tais fontes são referentes ao período enfocado (meados do século XIX) e encontradas no APESC e na BPESC. Para desenvolver o segundo e último capítulo trabalhei com uma abordagem que visou analisar

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aspectos internos da organização e funcionamento desta instituição, bem como tentei captar o olhar com que as autoridades e outros segmentos da sociedade percebiam esta Escola. Para poder realizar tal intento, debrucei-me sobre os documentos oficiais, encontrados no APESC e BPESC, já mencionados. Além dos documentos citados, também foram pesquisados Relatórios e Ofícios enviados pelo Comando Geral da Companhia de Aprendizes Marinheiros aos Presidentes da Província de Santa Catarina e Relatórios enviados pela Secretária de Polícia aos referidos Presidentes. Também lancei mão de estudos realizados sobre o período, na Província de Santa Catarina, como apoio para poder tecer minhas considerações.

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CAPÍTULO I: DIMENSÕES CONTEXTUAIS DA INSTALAÇÃO DA ESCOLA DE APRENDIZES MARINHEIROS DE SANTA CATARINA.

Ao longo deste capítulo é minha intenção, possibilitar ao leitor, compreender alguns aspectos referentes aos inícios da formação da Escola de Aprendizes Marinheiros em Santa Catarina. Com tal intuito, procuro fornecer dados que favoreçam a compreensão do momento histórico, próprio ao meu objeto de pesquisa, ou seja, a partir de meados do século XIX até suas décadas finais, mais precisamente, como já especificado anteriormente, durante o período compreendido entre os anos de 1857 e 1889.

Visando satisfazer tal proposição, inicialmente desenvolvo algumas considerações a respeito do cotidiano, característico do povoado da Vila de Desterro, local escolhido para a instalação da referida Escola, em Santa Catarina, e também procuro compreender as possíveis justificativas para esta escolha. Na tentativa de evidenciar dimensões da teia de relações e determinações sociais que permearam tal acontecimento, tento demonstrar o processo que se desenvolvia tanto a nível local como nacional, onde a elite desterrense, ainda em constituição, tentava moldar um projeto civilizatório que se encontrava intimamente ligado à definição e organização dos espaços públicos no interior de um processo muito mais amplo que era o da construção da Nação.

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1- Aspectos da historicidade Desterrense.

A Ilha de Santa Catarina só começaria a ser povoada de maneira efetiva pelos portugueses a partir de meados do século XVII. Desde as primeiras tentativas de estabelecer povoamentos, como no caso de Desterro,

CABRAL (1972, p.85) afirma que uma população escrava já se fazia

presente. Este autor menciona que os escravos, no momento da fundação de Desterro, eram de origem indígena. Tal fato seria explicável devido as primeiras vilas terem sido fundadas por santistas ou vicentistas, que teriam reduzido os indígenas a esta condição, pois eram os maiores escravocratas da costa brasileira, e também porque nesta época não se teria estabelecido tráfico maior com a costa d’África.

A escravidão em Santa Catarina teve suas peculiaridades, devido a sua economia ser mais voltada para a subsistência do que para uma economia de exportação. No território sul brasileiro não ocorreu o estabelecimento de grandes latifúndios que fossem destinados à produção de matéria prima para abastecer o mercado europeu. Em decorrência disto não se desenvolveu nenhum grande mercado de escravos e a escravidão muito pouco pôde representar para sua economia, devido à exigüidade do seu número com dedicação nas fainas agrícolas (CABRAL, 1951 p.89).Os escravos estavam mais vinculados aos serviços pertinentes à navegação e, principalmente, aos domésticos e urbanos.(CABRAL, Op. Cit., ibdem.).

Com a Provisão de 11 de agosto de 1738 o território Catarinense foi separado da Capitania de São Paulo, formando uma Capitania independente desta, mas que passaria a ser subordinada diretamente a Capitania do Rio de Janeiro. A Vila de Nossa Senhora do Desterro passou a ser sua Capital. Muitos militares e seus familiares se estabeleceram na nova Capitania de

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Santa Catarina; seu primeiro governador foi o Brigadeiro José da Silva Paes, que foi incumbido, pelo Rei de Portugal, de edificar fortificações na Ilha, visando protegê-la de invasões estrangeiras, transformando-a assim em uma base militar. CABRAL (Op. Cit,p.10) afirma que, com tal Provisão, atendia a Metrópole às constantes sugestões de Silva Paes, libertando o extremo sul do Brasil da Capitania de São Paulo e submetendo-o diretamente ao governo do Rio de Janeiro, a fim de melhor aparelhá-lo para servir de ponto de apoio à conquista e, principalmente, à fixação do português à margem esquerda do Prata3.

Silva Paes ao assumir o governo da Capitania de Santa Catarina em 7

de março de 17394, encontrou o povoado de Desterro praticamente

abandonado, devido ao ocorrido em 1689, quando piratas que haviam sido, dois anos antes, aprisionados por Dias Velho - fundador de Desterro - teriam regressado à Ilha e, como vingança, matado o mesmo (FLORES, 2000, p. 37). O governador nomeado comunicou, à Corte Portuguesa, que seria necessário não apenas fortificar, mas também colonizar a Capitania e solicitou em carta, enviada à Metrópole em 23 de março de 1742, a vinda de casais das ilhas dos Açores para realizar o povoamento de Santa Catarina5.

Com base em colocações feitas por FLORES (Op. Cit., p.38), a tarefa de povoar a Ilha não seria simples, pois era praticamente impossível conseguir transferir populações de outras localidades do Brasil, uma vez que, devido a

3-Conf. Nelma Baldin em seu estudo sobre A Intendência da Marinha de Santa Catarina e a Questão da

Cisplatina, p.60. O Rio da Prata foi importante pólo de atração da expansão portuguesa para o sul do

Brasil. O governo português compreendera a importância política e econômica do rio e tratara de assenhorear-se do estuário do mesmo. O rio permitia acesso e controle para o interior do continente sul-americano e oferecia oportunidades de ações contrabandistas até o Alto Peru, tornando-se portanto, de valor estratégico para a política expansionista portuguesa.

4- Conf. Oswaldo Rodrigues Cabral em sua obra Os Açorianos - p.10, apesar de Silva Paes ter sido nomeado governador da Capitania de Santa Catarina pela Carta Régia de 11 de agosto de 1738, só teria desembarcado em Desterro, para tomar posse, em 7 de março do ano seguinte.

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grande extensão de terras e as múltiplas oportunidades voltadas à agricultura e à atividade extrativa, era grande o desinteresse por uma região que ainda se encontrava desprovida de quaisquer atrativos econômicos. Continuando, a autora esclarece como a mão de obra escrava seria inviável, diante dos interesses de âmbitos políticos e estratégicos da Coroa Portuguesa. Um soldado escravo não correspondia à política de povoamento e de economia de abastecimento comercial6.Talvez por ter conhecimento dessa situação Silva Paes solicitou a vinda de açorianos, para efetivar o povoamento da Capitania. Tal solicitação, não foi recebida com simpatia pelo Conselho Ultramarino7, sendo assim o Monarca despachou de maneira protelatória o solicitado8.

Apenas em 1746, em virtude dos apelos da própria população do arquipélago dos Açores, que se encontrava densamente povoado e em crise de subsistência, é que o Rei de Portugal, resolveu atender tanto a antiga solicitação do governador da Capitania de Santa Catarina, como ao povo das Ilhas que pedia permissão para emigrar para o Brasil em busca de melhores condições de vida. Assim em 8 de agosto de 1746 o Conselho Ultramarino decidiu satisfazer as solicitações e em 31 do mesmo mês editou uma Resolução que anunciava:

El Rei, Nosso Senhor, atendendo às representações dos moradores das Ilhas dos Açores, que têm pedido mandar tirar delas o número de casais que for servido,

6- FLORES, op. cit., p.38.

7 De acordo com Maria Bernadete Ramos Flores, em sua obra, POVOADORES DA FRONTEIRA – Os

casais açorianos rumo ao Sul do Brasil, p. 24 – o rei português para facilitar seu trabalho na conquista,

povoamento e administração das colônias portuguesas, cria o Conselho dos Negócios Estrangeiros da Guerra, Marinha e Ultramar, assim recorria a seus conselheiros, pedindo pareceres sobre os assuntos referentes às colônias. No decorrer de seu trabalho, a autora passa a referir-se a tal conselho como Conselho Ultramarino. 8-CABRAL, 1951, p. 13.

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e transportá-los à América, donde moradores, reduzidos aos males que traz consigo a indigência em que vivem, e ao Brasil um grande benefício em povoar de cultores alguma parte dos vastos domínios do dito Estado, foi servido por Resolução de 31 de agosto do corrente ano, posta em consulta do seu Conselho Ultramarino de 8 do mesmo mês, fazer mercê aos casais das ditas Ilhas que quiserem ir estabelecer no Brasil de lhes facilitar o transporte e estabelecimento, mandando-os transportar à custa da sua Real Fazenda não só por mar, mas também por terra, até os sítios que se lhes destinarem para as suas habitações, não sendo homens de mais de 40 anos e não sendo as mulheres de mais de 30; (...)9.

Como já dito nas colocações anteriores, a intenção dos portugueses ao povoar o território catarinense era o de protegê-lo de invasões estrangeiras e consolidar o seu domínio sobre a região Sul do Brasil. Desta maneira, a distribuição dos colonos açorianos10 deveria se dar em pequenas propriedades, voltadas para a subsistência das famílias e visando povoar a maior extensão territorial possível. Em carta enviada ao governador da Capitania de Santa Catarina, Francisco Antônio da Veiga Cabral, no ano de 1778, o Marquês de Lavradio afirmava:

9- MATTOS, Jacinto A. de , Colonização do Estado de Santa Catarina, p. 11 e 12. Apud CABRAL Op. Cit., p. 15.

10- De acordo com dados fornecidos por FLORES op. cit., p. 49, as viagens, saindo de Açores, rumo à Ilha

de Santa Catarina, ocorreram entre outubro de 1747 e novembro de 1753. A população de Santa Catarina

nesta época era de 4194 habitantes, recebeu no período entre os anos de 1748 e 1756, cerca de 6071 imigrantes açorianos, ampliando em 140% o índice populacional.

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Tinha-se determinado, sim, para essa Capitania, como para a do Rio Grande, que a repartição das terras devia ser feita a proporção dos meios que tivessem as pessoas por quem se repartiam, fazendo-se estas repartições com tal cuidado que os pobres não ficassem desacomodados, sendo quanto a mim um engano o dizer-se que é preciso uma grandíssima extensão de terra a um lavrador para criar os seus gados e fazer uma importante lavoura porque ainda que isto por uma parte seja certo, pela outra se vê que é contribuir para enriquecer uma família com o prejuízo de muitas outras que ali podiam ser estabelecidas, as quais ainda que cada uma delas fôsse menos rica do que seria a daquele, teriam todos com que passar comodamente; eram mais os acomodados e igualmente maior o número de famílias que aumentariam a povoação (...)11.

Apesar da pretensão do governo português de estabelecer os açorianos em pequenas propriedades, aconteceu possibilitar-se a existência de proprietários de grandes extensões de terras, ao lado de pequenos proprietários rurais, que por vezes recebiam tão pequenas porções de terra, que estas acabavam sendo insuficientes para tirarem sequer o seu próprio sustento. Isto fica evidente numa correspondência, enviada em data anterior a citada acima, pelo mesmo Marquês de Lavradio a Veiga Cabral:

(...) porém a indigência em que tem deixado viver os 11- Carta do Marquês do Lavradio, de 4 de dezembro de 1788. Apud CABRAL Op. Cit., p. 54 e 55.

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mesmos Povos, a ambição com que alguns particulares têm conseguido possuírem consideráveis porções de terra, sem meios nem forças para as cultivarem, a pouca caridade que tem havido com os pobres, deixando-os desacomodados, sem se lhes ministrarem os meios de que necessitam para poderem ganhar o sustento para as suas famílias, tudo tem concorrido para que as Povoações se não aumentassem, as terras pareçam estéreis, os vastos e excelentes campos se achem desertos e afinal nem o Soberano, nem os Vassalos se aproveitem de um País que promete tanta abundância e que pode fazer a felicidade dos seus habitantes e nada menos concorre para o atraso daquele estabelecimento12.

Diante das reclamações do Marquês de Lavradio, cabia ao então governador da Capitania realizar uma redistribuição das terras, na qual deveria dividir e conceder, as fartas extensões devolutas, principalmente no continente, às famílias dos povoadores que estivessem “desacomodados” na Ilha13.

Um outro fato, que evidencia a intenção portuguesa de ocupar e defender o Sul do Brasil, o que implicava em manter bem guarnecida a Ilha de Santa Catarina, era a obrigatoriedade que os colonos tinham de, ao chegarem ao seu destino, passarem a incorporar as chamadas Companhias de

12- Carta do Marquês do Lavradio, 23 de abril de 1778 – Idem p. 55. 13- CABRAL Op. Cit., p. 57.

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Ordenanças, que eram uma espécie de guarda territorial, formada pela população civil, a princípio por homens com idade entre 20 e 60 anos. O que se verificou, porém, foi que todos os homens saudáveis quisessem ou não14, acabaram sendo nelas engajados.

De acordo com FLORES (Op. Cit., p.64.), a Ilha de Santa Catarina, que era guarnecida por fortalezas, era sempre governada por militares que não hesitavam em meter os lavradores nos exercícios15, pois estes governadores acreditavam que o caminho a trilhar para proporcionar melhores maneiras de adiantar a Capitania não era fazer com que os habitantes, embora tivessem emigrado para se dedicarem à agricultura, a fim de aumentar a produção, portanto as riquezas da terra, além de enriquecê-la de novos povoadores, cuidassem de tais obrigações, mas sim adestrá-los convenientemente no manejo das armas, pois de nada adiantaria povoá-la e enriquecê-la, se não pudessem conservá-la16. Apesar do Rei ter isentado os novos povoadores do serviço nas tropas militares, segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, no ano de 1756, ao que parece, a Coroa Portuguesa optou por esquecer a promessa realizada aos povoadores açorianos de que estariam isentos do serviço militar e realizou o recrutamento destes para completar o número de soldados das tropas militares17.

Em seu trabalho sobre A Sociedade Brasileira e a Historiografia

Colonial, Laima Mesgravis18, deixa evidente como existia uma prepotência 14- CABRAL, 1972, P. 12.

15- Desde 1835 era comum a nomeação de militares para governarem Santa Catarina com a intenção de controlar os movimentos revolucionários relacionados com a Revolução Farroupilha e República Juliana. Eram objetivos dos dirigentes do país garantir a preservação da unidade territorial da nação, a defesa da

monarquia e do governo representativo, a manutenção da escravidão e a ordem social estabelecida. Estas questões exigiam que fossem colocados à frente da administração provincial, indivíduos com capacidade de arquitetar estratégias para sufocar qualquer agitação que colocasse em risco tais objetivos (SCHIMDT,

1996, P. 18).

16- CABRAL, op.cit., p. 14. 17- CABRAL, 1951, p. 48.

18- MESGRAVIS , Laima. A Sociedade Brasileira e a Historiografia Colonial. In FREITAS, Marcos Cezar (org.). Historiografia Brasileira em perspectiva. 3ª ed. São Paulo: Contexto, 2000.

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por parte dos militares rasos ou de baixa patente, que eram geralmente protegidos pelos seus superiores e pelas próprias autoridades no geral. Essa prepotência era exercida sobre a população pobre, sobre os escravos e qualquer individuo que não fosse reconhecido como seu superior na hierarquia militar ou social. Para esta autora, tal situação permitia transparecer uma formação impregnada pelo vício da constante utilização, que a elite fazia, do monopólio da força armada. Ao continuar suas colocações, afirma que o vício já começava pela forma de recrutamento, onde todas as violências eram permitidas, só restando lavradores pobres, desocupados e marginalizados de toda sorte, pela exclusão dos que tivessem padrinhos fortes19.

Em Desterro, este procedimento de recrutamento também se dava de maneira compulsória e era visto como um verdadeiro castigo. Atingia tanto aos classificados pelas autoridades como marginais e vagabundos de profissão, para os quais o recurso das autoridades era meter-lhes uma farda nas costas e esperar que rispidíssimos Regulamentos lhes impusessem uma disciplina que a vida civil não conseguira criar20, como também acabava por atingir homens que tinham ocupação como lavradores ou qualquer outro ofício. CABRAL esclarece porque o recrutamento era visto pela população como castigo e um dos mais temidos:

(...) havia razão para temer o recrutamento, pois os homens bons, recrutados entre a população civil, tirados das suas ocupações, entravam para uma sociedade que lhes era inteiramente desconhecida, diferente, e para toda a vida, à qual teriam de se

19- Id. Ibdem, p. 46. 20- CABRAL, 1972, p. 9

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acomodar – ou viver em eterno conflito com os superiores, com os companheiros, com meio mundo21.

Pelo que é exposto por este autor, em sua obra Nossa Senhora do

Desterro – Memória, o indivíduo ao ser recrutado para a chamada primeira

linha era excluído da vida civil de maneira definitiva, pois passava então a incorporar a tropa, sendo que, nela, poderia atingir qualquer dos extremos, ou chegar a General ou ser pendurado numa corda; só não podia era sair. Para sair, só morto, velho ou estropiado, defunto ou quase22.

Ainda no que tange a esta questão do recrutamento em Desterro, outro dado de indispensável menção, é o fato de que era comum o recebimento de ordens provenientes do governo do Rio de Janeiro, solicitando ao Presidente da Província de Santa Catarina que enviasse menores que deveriam encontrar-se na faixa etária entre dez e dezesencontrar-sete anos de idade, para incorporarem o quadro de alunos da Companhia de Aprendizes Marinheiros da Corte, além de recrutas com idades entre dezessete e trinta anos para completar o quadro da Companhia do Corpo de Imperiais Marinheiros23. Os menores poderiam ser obtidos utilizando-se de várias formas, que inclusive eram sugeridas pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha, que falava em nome do Imperador D. Pedro II:

(...) Determina Sua Magestade O Imperador, que V. Exª. procure enviar para esta Côrte o maior numero que puder obter de taes menores, de dez até desesete

21- Id. Ibdem, p. 11. 22- Id. Ibdem, p. 9.

23- Conf. Livros de Avisos: Presidente da Província/Ministério da Marinha, mais precisamente nos avisos nº 29, de 27 de abril de 1849 e nº 14 do ano de 1850, expedido em 12 de fevereiro (APESC).

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annos de idade, empregando para esse fim, não só os meios de persuasão, e mesmo dando alguma quantia, a titulo de gratificação, aos Paes, ou a quaesquer outras pessôas delles encarregadas,mas tambem o de engajamento, e, em ultimo caso, o de recrutamento d’aquelles que sem arrimo vagarem pelas ruas (...)24.

De acordo com este Aviso, enviado ao Presidente da Província de Santa Catarina no ano de 1849, torna-se claro que até as crianças eram vítimas do Recrutamento compulsório em Desterro. Tanto os adultos como os menores que fossem recrutados, acabavam aprisionados na cadeia enquanto esperavam para serem transportados até o Rio de Janeiro, onde seriam engajados na Companhia de Aprendizes Marinheiros ou no Corpo de Imperiais Marinheiros, de acordo com a idade, como já especificado anteriormente.

Em resposta ao officio de V.Exª. nº 34 datado de 24 do corrente mês; tenho de declarar-lhe que, não havendo nessa Província lugar seguro para a detenção dos indivíduos recrutados para o serviço d’Armada, pode V.Exª. fasel-os recolher á Cadêa, e usar dos meios á sua disposição para effetuar o recrutamento (...)25.

24- Aviso circular nº 29, de 27 de abril de 1849, enviado pelo Ministério da Marinha ao Presidente da Província de Santa Catarina – livro de Avisos: Presidente da Província/Ministério da Marinha – Ano 1849 – p. nº 16 (APESC).

25- Aviso circular nº 31, de 31 de junho de 1850, enviado pelo Ministério da Marinha ao Presidente da Província de Santa Catarina – Livro de Avisos: Presidente da Província/Ministério da Marinha – Ano 1850 – p. nº 19 (APESC).

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Pelo que foi exposto até o presente momento, verificamos que a população pobre vivia oprimida pela elite em constituição, que exercia seu domínio por intermédio do monopólio da força.

Para compreender como se formava a elite desterrense, neste momento histórico, recorro a PEDRO (1995 p. 21) que nos mostra como a mesma se encontrava em processo de constituição dentro de um contexto marcado pelas atividades ligadas ao Porto de Desterro. Tais atividades foram intensificadas a partir de meados do século XIX, fato que colaborou para a formação de um setor de armadores e construtores de navios. Este setor aliado a um grupo de comerciantes emergentes no cenário econômico desterrense, passaram a constituir uma espécie de “embrião de uma esfera pública burguesa”. Começa a constituir-se, no interior do processo de formação do Estado Nacional Brasileiro, uma “esfera pública” que se mescla com o “poder público”, também em constituição, composto em sua origem por funcionários civis e militares de altas patentes encarregados da administração de Santa Catarina.

De acordo com GONÇALVES (2000 p. 23), embora a maioria da população desterrense tivesse permanecido nas atividades agrícolas, as atividades urbanas desenvolveram-se muito mais, passando a influenciar em maior escala a vida das pessoas, contribuindo para a progressiva consagração de hábitos e práticas mais citadinas do que rurais.

Com base nas afirmações feitas por OLIVEIRA (1990, p.194.) constatamos que durante a década de 1850 houve uma certa aceleração nas funções comerciais de Desterro, não apenas como centro de consumo de parte da produção provincial, mas, sobretudo, como porto de escoamento da produção da Província para outras partes do Império, e para o exterior, e de entrada de gêneros provenientes de outras localidades para serem consumidos na Província.

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Conforme a fala do Presidente da Província de Santa Catarina em 185526, Desterro que até então era iluminada por candeeiros cujo combustível era o óleo de baleia, passa a ter sua iluminação feita com lampiões abastecidos com gás. Desta mesma década datam outros importantes fatos que marcaram a história catarinense como a autorização para a edificação do primeiro mercado público em 1851, a instalação da primeira Caixa Econômica em 1854 e no mesmo ano a criação do Monte Pio dos Servidores do Estado, além da fundação da Companhia de Aprendizes Marinheiros em 1857 (que é alvo específico de minha pesquisa).

Um outro aspecto que é mencionado por GONÇALVES (Op. Cit) como influente no rumo dado à Província nessa década foi a administração do Presidente João José Coutinho. Para esta autora este Presidente destacou-se dos demais governantes, no período em estudo, devido a sua permanência no cargo por um maior tempo e porque era bacharel formado pela Faculdade de Direito de São Paulo. Isto refletiu em sua atuação como governante da Capitania de Santa Catarina.

O carioca João José Coutinho governou a Capitania de Santa Catarina desde 24/01/1850 até 21/10/185927. No decorrer dos nove anos de sua administração ocorreram fatos marcantes como a fundação das colônias Blumenau, Joinvile e Dona Francisca; instalou-se a Biblioteca Pública e o Liceu Provincial e ainda neste período deu-se início, como já mencionado, as obras do primeiro Mercado Público de Desterro; houve a criação do “Monte Pio dos Servidores do Estado”, com a instalação da Caixa Econômica; foi

26- Fala do Presidente da Província de Santa Catarina João José Coutinho apresentada à Assembléia legislativa Provincial em 1º de março de 1885, p. 18.

27- Conf. Carlos Humberto Corrêa em sua obra Os Governantes de Santa Catarina de 1739 a 1982. Apud.

SCHMIDT, Leonete Luzia, A Constituição da Rede de Ensino Elementar em Santa Catarina: 1830 1859. Dissertação (Mestrado em Educação) Florianópolis, UFSC. 1996. Mimeo.

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fundada a Companhia de Aprendizes Marinheiros e colocada a pedra fundamental do Teatro Santa Isabel, que atualmente chama-se Teatro Álvaro de Carvalho. Outro dado importante de ser mencionado era sua habilidade como político que o levou a manter uma posição de certa “neutralidade”, através da qual, procurava não satisfazer apenas os anseios e reivindicações do seu próprio partido de origem que era o partido conservador28.

A formação de Coutinho, como bacharel em direito, foi marcada por uma crença no fundamento jurídico do poder, que era tido como um instrumento de controle do acesso à propriedade e também como mecanismo controlador das massas trabalhadoras29.

Neste período a população catarinense tinha por base de suas atividades econômicas a pesca e o cultivo da mandioca. Esta era utilizada para a produção da farinha que ocupava a posição de produto principal, tanto ao nível de consumo pela população local como no âmbito comercial em geral.

De acordo com o Presidente da Província de Santa Catarina, João Carlos Pardal, em Relatório enviado à Assembléia Legislativa Provincial no ano de 1838, algumas famílias desterrenses, além de se dedicarem à pesca e a agricultura, também realizavam outras atividades como a construção de navios, dos quais poucos tinham mais de cem toneladas e também se dedicavam a fabricação de cerâmica que consistia basicamente em peças para o uso culinário e outros artesanatos como a tecelagem e ainda a confecção de flores de escamas, conchas e penas.

A bucólica Nossa Senhora do Desterro vivia nesta época do seu porto

28-SCHMIDT, op. cit p. 56 - 58.

29-ADORNO, Sérgio. Os Aprendizes do Poder. O bacharelismo liberal na política brasileira. Apud. SCHMIDT, op. cit. p. 56

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e das lides do mar. GONÇALVES (Op. Cit.p.19) nos mostra que, excetuando os indígenas que com a presença do homem branco viam-se pressionados a penetrar cada vez mais em direção ao sertão, os demais habitantes catarinenses se distribuíam em povoações situadas, via de regra, próximas às áreas litorâneas. Isto concorria para que o principal meio de transporte fosse o marítimo. A autora afirma que com a inclusão da economia catarinense no circuito do comércio agrário-exportador nacional, o Porto de Desterro tornou-se o principal da Província. O principal produto destinado à este comércio era, como já mencionado, a farinha de mandioca, mas além desta também comercializava-se em menor escala o milho, arroz, café, aguardente, alho, cebola, feijão, cana-de-açúcar, algodão, linho, óleo de baleia, madeiras e peixe seco30.

A movimentação no Porto de Desterro, como já afirmei anteriormente, contribuiu para a afirmação de um grupo ligado a atividade comercial, que se incorporou à elite em constituição. CABRAL (1987. p.100) nos esclarece que foi esta elite a responsável pela construção dos primeiros sobrados, situados nas ruas que saiam ou convergiam para a praça central, e também a importar mobílias, a adquirir chácaras destinadas a estação de veraneio em locais distantes do centro de Desterro. Menciona também o aparecimento de alguns hotéis, sendo que nos meados do século XIX existiam em Desterro o Hotel do Café, o Hotel Brasil e o Hotel Vapor (este possuía um restaurante) e pensões.

30- Conf. Joana Maria Pedro em sua obra Mulheres honestas e mulheres faladas – uma questão de classe. p. 28; Célia Maria e Silva em seu artigo Ciclos de Kondratieff e pequena produção mercantil pesqueira. In GEOSUL Revista de Geociências Programa de Pós-Graduação em Geografia v.14/.nº

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2- O Avanço do Processo Civilizatório em Desterro.

No interior do processo que visava a construção da nação brasileira, encontramos a elite tentando fazer avançar um processo civilizatório, no qual estavam inclusos planos de urbanização e modernização. Em meio a este cenário, Desterro, que segundo afirmações de GERBER31, era vista pela elite como sendo uma cidade “enferma”, pois não provia seus habitantes de saneamento básico, então propícia àquelas reformas idealizadas pelas elites locais, que empunhavam a determinação de acoplar a idéia de higienização da cidade com a de seu embelezamento, começa a desenvolver, como observamos nas colocações anteriores, gradualmente, o seu processo de urbanização e modernização. Cabe salientar, que este processo civilizatório, como já nos alertou ELIAS (Op. Cit.), foi sendo forjado com base no “monopólio da força” e que, juntamente com a urbanização e modernização, trouxe consigo a definição e organização do espaço público. Seguindo o pensamento de GERBER (Op. Cit. p.32) pude perceber que o saneamento urbano, através das normas de higiene, acaba evidenciando a arquitetura da cidade como símbolo que separa os homens de acordo com sua classe sócio-econômica, justificando, assim, o poder de um segmento sobre o outro.

OLIVEIRA (Op. Cit., p. 196) afirma que no decorrer do século XIX,

o modo de problematizar as questões urbanas tornou-se fortemente marcado pelo tema da salubridade e pelas concepções médico-higienistas. A questão da salubridade do espaço urbano tornou-se um foco para a dispersão de uma pluralidade de intervenções no território da cidade. Desta forma vários agentes que não eram médicos (engenheiros, cronistas dos jornais, poetas, 31- GERBER, Diana. O saneamento em Florianópolis: Projeto de Modernização e Estratégias de poder

In Esboços – Revista do Programa de Pós-Graduação em História. Coordenadora: Profª Maria

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comerciantes, autoridades do governo provincial, padres etc.), passaram sob a ótica do saber médico-higienista a fazer diagnósticos e detectar os problemas da Cidade. Assim sendo, concordo com OLIVEIRA, que diz parecer que o discurso médico-higienista não teve no médico a sua voz privilegiada, mas foi veiculado por uma diversidade de agentes no decorrer do século XIX, o que não excluiu de maneira alguma os emissários propriamente médicos32.

O saber médico legitimava o discurso normalizador, que passou a ser utilizado como um importante instrumento, pelos vários segmentos sociais que pleiteavam os espaços urbanos, em disputa pelo estabelecimento da instância e do valor competente para julgar as práticas sociais, distinguindo o tolerável e o intolerável.É justamente esta uma das características da medicalização da sociedade, este tipo de contaminação que torna o saber médico o detentor da verdade mais profunda sobre o homem e os seus fazeres, conferindo a este saber o estatuto de principio fundamental para a avaliação das práticas humanas33.

GERBER (Op. Cit., p. 32), esclarece que essa concepção de projeto

urbano encontrava-se embasada num processo de “homogeneização”, onde a área central da cidade deveria deixar transparecer uma única classe e a periferia adjacente deveria conter, tentando ocultar, o que de mais feio existia na cidade, a pobreza.

De acordo com dados obtidos através da historiografia desterrense, posso afirmar que sua população, no geral, durante o século XVIII e princípio do XIX vivia em estado de grande pobreza. A indigência e a falta de trabalho atingiram, nessa época, extensões nunca dantes verificadas34. No ano de 1790 a situação econômica da população catarinense encontrava-se na maior 32-OLIVEIRA op. cit. p. 197.

33-Id. Ibdem.

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penúria. A atividade agrícola estava praticamente abandonada, os egressos dos trabalhos rurais eram lançados às vilas e assim aumentava o número de indigentes em toda a Capitania catarinense35.

Podemos evidenciar em Desterro a intervenção nos fluxos urbanos, visando obter esta “homogeneização”, mencionada por GERBER, através da dizimação das “barraquinhas” que existiam no largo da matriz, nas quais se realizava o comércio de alimentos que eram trazidos de áreas interioranas da Ilha e de algumas localidades próximas ao continente. De acordo com Henrique Luiz Pereira Oliveira36, a demolição destas “barraquinhas” era formulada como uma questão de polícia e, além disto, era vista como necessária para o avanço do processo de modernização e embelezamento de Desterro. Tal fato afetava o uso dos espaços urbanos e ainda favoreceu a configuração de duas facções no interior da elite desterrense, que, dando continuidade ao pensamento deste autor, vieram a compor os núcleos originários dos dois primeiros partidos políticos da Província de Santa Catarina. Estas facções seriam, de um lado a liderada por Jerônimo Francisco Coelho, denominada de “judeus”, que eram defensores da idéia de se construir um mercado fora da praça; e de outro lado encontravam-se os “cristãos”, facção formada por comerciantes que defendiam a criação do novo mercado na extremidade da praça próxima à praia37. Oswaldo Rodrigues Cabral38 informa que a proposta dos “cristãos” foi a vencedora e que a edificação do novo mercado estava concluída no ano de 1851.

35- Id. Ibdem. 36-Id. Ibdem, p. 201.

37- Conf. João Alfredo Medeiros Vieira em sua obra História do Poder Judiciário em Santa Catarina, p. 72 e 73, a facção formada por Jerônimo Francisco Coelho, que foi um dos fundadores da Sociedade Patriótica Catarinense e também responsável pela circulação do jornal O Catarinense (1831) – primeiro jornal de Desterro – constituiu posteriormente o Partido Liberal, que possuía por base eleitoral os militares e pequenos funcionários, já a outra facção formada por comerciantes e funcionários dos mais altos escalões, originaram o Partido Conservador.

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Este novo espaço destinado ao comércio teve um regulamento próprio, composto por 74 artigos, nos quais estavam contempladas disposições que visavam o estabelecimento de uma ordem sanitária e disciplinar a utilização deste espaço público39. Isto fica evidente na citação abaixo:

Proibia-se o ajuntamento de escravos e a circulação de “pretos de ganho e mendigos”, bem como proibia-se jogos, danças, tocatas e outros divertimentos. Além destas medidas, relativas ao policiamento dos costumes, diversas prescrições visavam estabelecer um controle sanitário, regulamentando as condições para o comércio das mercadorias. Desta forma o espaço do mercado, enquanto espaço de fluxo de mercadorias e de mediações sociais – não restritas ao econômico – foi investido enquanto espaço da ordem, espaço de delimitação das relações40.

Com o avançar do processo civilizatório, dentro das práticas que visavam a urbanização, proliferaram-se, como nos informa OLIVEIRA (Op. cit.p.196), novas percepções do espaço urbano que possibilitaram novas leituras da realidade, inclusive daquelas que já eram conhecidas e que acabaram tendo suas significações alteradas, visando enquadrar o que até então era rotineiro com as novas necessidades de uma nação que se pretendia civilizada. Desta maneira ações antes consideradas práticas costumeiras, passaram a ser rotuladas como problemas sociais que precisavam ser 39- “Regulamento para a praça do mercado da cidade de Desterro da Província de Santa Catarina”, 21/12/1850 (APESC).

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contidos ou mesmo solucionados.

Foram detectados, ao final da primeira metade do século XIX, alguns pontos da cidade de Desterro que foram apontados como focos de desordem sanitária: o hospital militar, que situava-se no meio do pequeno centro urbano; as paredes e arredores dos templos, locais onde se enterravam os mortos para mantê-los no espaço do sagrado; e as barraquinhas de comércio que existiam na praça central da cidade, junto ao mar (que foram alvo da discussão anterior sobre a intervenção nos fluxos urbanos, processada em Desterro). Neste mapeamento também aparecem alguns agentes da desordem sanitária: os doentes (especialmente os soldados que circulavam por Desterro); os cadáveres; e os que freqüentavam as barraquinhas, sobretudo à noite: escravos libertos, “brancos vadios” e prostitutas41.

Desta maneira observo que, neste momento, emergem agentes sociais, que não podem ser apontados como novos, pois já existiam no cotidiano desterrense, mas somente agora, em meio à definição dos padrões de conduta e dos usos considerados toleráveis do espaço público, que acompanham o processo de urbanização, passam a configurar uma ameaça, um problema social.

Em meio a este cenário, onde a preocupação com o que ocorre nos espaços públicos passa a ser uma constante, a questão do infanticídio emerge como algo que mancha a imagem de civilidade que as elites desterrenses tentam construir.O avanço do processo civilizatório gerou a necessidade de dar um fim a esta prática, ou seja, as crianças não deveriam mais serem abandonadas para morrer nas ruas, afinal que povo civilizado adotaria tal prática?

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A adoção de procedimentos visando diferençar a prática do infanticídio, que consistia em provocar diretamente a morte da criança ou abandoná-la à morte, da prática de expor recém-nascidos com a expectativa de que estes fossem recolhidos em vida42 evidencia a necessidade crescente de conferir um caráter mais civilizado a práticas costumeiras realizadas no espaço urbanizado.

OLIVEIRA (Op.cit., p. 36) julga ser correta a afirmação de que a

prática de expor crianças recém-nascidas, os expostos43, só configurou um

“problema social” nas áreas urbanas e também que a institucionalização de

uma assistência às crianças expostas acabou constituindo um equipamento urbano que passou a ser utilizado como meio para atingir a tão almejada civilidade.

Um efeito destes procedimentos, ao nível do governo dos costumes, foi sua depuração; desestimulo a práticas como o aborto e o infanticídio; eliminação do mórbido espetáculo de crianças mortas nos espaços de circulação pública. Depuravam-se os costumes da experiência da morte: o ato de matar fetos ou crianças; o espetáculo de crianças mortas.Isto não quer dizer que eliminou-se a morte, pois a mortalidade das crianças entregues a casa dos expostos e repassados às amasfoi sempre muito elevada44.

42-OLIVEIRA, op. cit., p. 55.

43-Eram aquelas crianças que foram deixadas (expostas) ao nascer, em um lugar onde pudessem ser achadas

por alguém que as recolhesse e providenciasse sua criação. Estas crianças eram designadas por expostas, enjeitadas, crianças achadas, ou ainda, crianças recém-nascidas abandonadas (OLIVEIRA, op.cit., p. 5).

44- OLIVEIRA, op.cit., p. 63. Ainda conforme este mesmo autor, amas eram mulheres que viviam nas áreas urbanas provenientes das camadas mais pobres da população e que se apresentavam para criar os expostos

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Em Desterro esta assistência aos expostos no início do século XIX, concretizou-se com a criação de uma “roda dos expostos” 45 no ano de 1828, junto ao Imperial Hospital de Caridade, onde passou a funcionar a “Casa dos Expostos” 46. Este mecanismo da roda pode ser visto como um dos muitos equipamentos urbanos que foram criados ao longo do século XIX, visando, como já dito, depurar os costumes e conferir maior civilidade a Cidade. A própria Companhia de Aprendizes Marinheiros, apesar de não ter sido criada com esta finalidade, acabou sendo vista pelas autoridades locais como um destes equipamentos, que poderiam auxiliar no avanço do processo civilizatório em Desterro (esta questão será mais bem tratada adiante, no segundo capítulo desta dissertação).

2.1- O Olhar Médico sobre as condições sanitárias de Desterro.

Desterro, no início da década de 1860, foi qualificada como sendo um caos sanitário pelo médico Dr. João Ribeiro de Almeida que se encontrava a serviço do exército47. Este enviou, ao governo da Província de Santa Catarina,

recebendo além das mensalidades, uma ajuda em roupa para as crianças(Op. cit. p.150). Estas cuidavam dos mesmos até a idade de seis anos, quando então deveriam ser encaminhados a uma escola para freqüentar as aulas de primeiras letras e aprender arte ou ofício, que seriam exercidos pelos mesmos para beneficiar os seus pais de criação (OLIVEIRA, op. cit p. 180).

45-A origem das rodas dos expostos, conf. Maria Luiza Marcilio em seu texto A roda dos expostos e a

criança abandonada na História do Brasil. 1726-1950. In História Social da Infância no Brasil,

encontra-se ligada ao emprego de cilindros rotatórios de madeira usados pelos mosteiros ou conventos medievais para se efetuar o envio de objetos, alimentos e mensagens aos seus residentes, sem que estes vissem quem os estava a depositar com a nítida finalidade de evitar qualquer contato dos religiosos enclausurados com o

mundo exterior, garantindo-lhes a vida contemplativa escolhida (p. 55). Os mosteiros medievais costumavam

receber crianças que eram doadas por seus pais para o “serviço de Deus”, assim sendo alguns pais que precisavam abandonar seu filho utilizavam-se da roda dos mosteiros para depositarem o bebê. Desse uso impróprio das rodas dos mosteiros, surgiria a idéia para receber os expostos, sendo as rodas fixadas nos muros dos hospitais a partir dos séculos XII e XIII, com a finalidade de “cuidar” das crianças abandonadas.

46- OLIVEIRA, op. cit., p. 148.

47- Apesar da polêmica existente sobre a utilização do termo Exército para nos referir a Guarda Nacional que era responsável pela defesa do território brasileiro no século XIX, opto por utilizá-lo devido ao mesmo ser empregado em documentos desta época, como por exemplo o Relatório apresentado ao Vice-presidente da

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um detalhado relatório sobre as condições sanitárias de Desterro: Ensaio

sobre a salubridade, Estatística e Patologia da Ilha de Santa Catarina e em particular da cidade de Desterro48.

Em alguns trechos deste relatório fica evidente a conotação da questão médica com a instauração da civilidade em meio à população, perante o aumento da aglomeração desta no espaço urbano, que precisa ser organizado; o que denota a relevância que passou a ser atribuída a higienização e a salubridade para o avanço do processo civilizatório:

Não basta que os homens gozem dos alimentos materiais da vida; é também indispensável que sejam observadas as leis impostas pelas condições materiais da aglomeração da grande família humana. Da falta de pureza d’aqueles alimentos, da inobservância destas leis resulta a insalubridade, que vem contrariar o exercício livre, regular e fácil das funções do organismo, isto é, o que se chama saúde (...). À salubridade, a propriedade e a indústria nem sempre vivem em boa harmonia. Do conflito de seus mútuos direitos e recíprocos deveres surgem constantemente queixas e recriminações, mais ou menos bem fundadas, mais ou menos exageradas. Para avaliar o dano e

Província de Santa Catarina pelo Presidente Adolpho de Barros Cavalcanti d’Albuquerque Lacerda em 1868 (APESC), entre outros.

48- ALMEIDA, João Ribeiro de. Ensaio sobre a Salubridade, Estatística e Patologia da Ilha de Santa

Catarina e em particular da cidade de Desterro. Desterro, Typ. J. J. Lopes, 1864, apud CARNEIRO, A., Enciclopédia de Santa Catarina, vol. 13 (cópia datilografada – setor de Santa

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regular o direito tornou-se indispensável uma legislação especial. Nenhuma nação civilizada deixou de legislar nesse sentido. Entre nós, a criação da Junta Central de Higiene Pública na corte, das Comissões de Higiene nas grandes províncias e de Provedorias de Saúde Pública nas outras de menor importância, o regulamento de Higiene e Polícia Sanitária provam que o Brasil, embora tardiamente e de modo bem incompleto, também se compenetrou da necessidade de providenciar sobre o grave assunto, de que ora me ocupo49.

O Drº João Ribeiro, entretanto acaba por constatar que estas providências não foram adotadas em Santa Catarina, onde não ocorreu a instalação de uma Provedoria de Saúde Pública e nem sequer o seu regulamento era conhecido por quem cabia fiscalizar sua execução.

A que seria devida a falta de criação da Provedoria nesta Província? Não seria por ventura necessária? (...) As condições de insalubridade pululam, a mortalidade é extraordinária e, entretanto, embalados pela fama, que lhes chega de torna viagem, de salubridade desta Ilha, seus habitantes não curam de indagar as causas d’aquela insalubridade tão patente, d’aquela mortalidade tão aterradora. A salubridade de

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Santa Catarina é, para aqueles que não conhecem esta Ilha de perto, coisa proverbial, dogmática mesmo. Como todos, também tinha essa crença; mas uma estada de três anos e meio foi de sobra para provar-me a evidência que o provérbio era falso e a reputação imerecida50.

Com base na análise realizada por OLIVEIRA (Op. cit., p. 207 e 208), sobre o relatório do Drº João Ribeiro, posso afirmar que este médico recortou o espaço urbano desterrense e projetou uma imagem do mesmo como sendo o lugar da promiscuidade e da insalubridade, apresentando tanto a cidade, como a sua população, como sendo um todo orgânico que necessitava de tratamento. OLIVEIRA deixa claro que as práticas médico-higienistas ocuparam uma posição de destaque no processo de redefinição dos modos de vida urbanos, passando a interferir na estruturação física das cidades, alterando e controlando os próprios costumes e condutas dos seus habitantes e também intervindo na circulação de referências subjetivas. A veiculação da norma enquanto programa de verdades, e a produção de uma nova percepção do espaço urbano supõem um conjunto de práticas capaz de dar-lhes consistência, práticas enfeixadas e operadas por determinados equipamentos urbanos51.

Para evidenciarmos como a normatização das práticas médico-higienistas foram desenvolvidas em Desterro, tomo como exemplo ilustrativo o Código de Posturas da Câmara Municipal da Capital52, que passou a 50- Id. Ibdem, p. 03.

51- OLIVEIRA, op. cit., p.208.

52- Lei nº 1.238 de 22 de outubro de 1888, que aprova o Código de Posturas da Câmara Municipal da

Capital, do qual refiro-me em especial ao título 3º, Capítulo II – Saneamento, artigo 53, parágrafos 1º, 2º, 3º,

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vigorar no ano de 1888 expressando ser absolutamente proibido adotar medidas como lançar qualquer tipo de lixo, entulhos, nos quintais, praças, ruas, praias ou nos terrenos que se encontram no perímetro urbano e povoações; conservar porcos dentro da área urbana e seus arredores, ou mesmo trazê-los a solta nas outras povoações; estender couros salgados nas praças, ruas e praias, conservar, nas áreas públicas, quaisquer materiais que exalem mau cheiro ou que possam vir a atrapalhar o trânsito público; lavar quer seja em casa ou nas fontes roupas de hospital ou de pessoas que possuíssem qualquer doença infecto-contagiosa, as quais só poderiam ser lavadas na foz dos rios; etc. Tais determinações visavam o estabelecimento de normas de conduta para a população e conferir a cidade características de civilidade. Os indivíduos que cometessem alguma infração perante o estipulado no dito Código de Posturas, seriam penalizados com multas que variavam entre os valores de 5$000 a 10$00053. O avanço do processo civilizatório exigia a construção de espaços públicos onde cada um dos grupos sociais deveria aprender a se portar na presença de outros desenvolvendo comportamentos e formas de ver a realidade desejados54 pelas elites.

53- Tais multas eram estipuladas na Lei nº 1238 de 22 de outubro de 1888. APESC.

54- Conf. Aline Ayres Mendes em sua dissertação de Mestrado – Formação da Província de Santa

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3- A Instalação da Escola de Aprendizes Marinheiros em Santa Catarina.

Para perceber a necessidade e importância da instalação da Escola de Aprendizes Marinheiros na Província de Santa Catarina precisamos realizar um “inventário” da história do Período Colonial Brasileiro. Tal intento se torna relevante para que a investigação desta instituição em Santa Catarina possa remontar ao processo que lhe deu origem e assim possibilitar a compreensão de sua gênese, favorecendo a captação de algumas (das várias) facetas presentes em sua constituição. O mesmo ainda é fundamental na busca da identificação das relações e tensões existentes no contexto histórico, uma vez que entendo não ser o movimento de formação de um determinado processo social correspondente, de modo linear, a idéia de começo, de origem. Há um processo histórico complexo, com intrincadas mediações, no qual este começo se encontra inserido.

MAIA (1965, p. 14) afirma que desde a tomada de posse das terras

brasileiras pelos portugueses, estes tinham consciência da influência do poder marítimo na defesa do Brasil e conseqüente conservação da sua unidade territorial. Só uma marinha numerosa e forte, como era então a portuguesa, poderia de fato manter a indispensável comunicação entre a colônia e a metrópole, protegendo-lhe ainda o imenso litoral contra as tentativas de estabelecimento dos colonos de outras nações européias.

No decorrer do século XVI, os interesses de Portugal encontravam-se voltados para o desenvolvimento de seu potencial marítimo devido em grande parte à sua conexão com o comércio e navegação com as Índias Orientais, que possibilitavam rotatividade e amortização rápida dos capitais investidos.O Brasil adquiria importância como ponto para fornecimento de alimentos e

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água potável aos navios da armada portuguesa que seguiam viagem para aquelas regiões. Assim a Administração Colonial tinha como fim básico produzir e controlar um fluxo de riquezas para a Metrópole. Como o mar era o meio de comunicação da época, criou-se todo um sistema de transporte, manutenção e equipamento55, visando satisfazer este fim.

Desde o início do período colonial, a riqueza florestal do Brasil foi um incentivo para o desenvolvimento e aprimoramento da construção naval. Ao longo da costa, junto aos portos que iam fundando, apareciam de ordinário os estaleiros de construções, modestos a princípio, atendendo apenas às necessidades das comunicações litorâneas, logo depois maiores e mais importantes, lançando ao mar navios apropriados à navegação transatlântica56. Em várias Capitanias houve a instalação de estaleiros, a Bahia, por ser a sede do governo colonial, foi o local onde primeiramente desenvolveu-se a construção naval, posteriormente, em 1666, foi instalada no Rio de Janeiro uma fábrica de fragatas e no ano de 1669 iniciou-se a construção do primeiro estaleiro que deu origem ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Outras Capitanias como Pará57, Pernambuco, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Alagoas, também tiveram criados arsenais da marinha ou armazéns navais58.

Santa Catarina no princípio do século XIX era formada por pequenas vilas que cresciam de maneira lenta. A capital, que como já visto era a Vila de Nossa Senhora do Desterro, via seu desenvolvimento atrelado em grande 55- Conf. Nelma Baldin em sua obra A Intendência Da Marinha De Santa Catarina E A Questão Da

Cisplatina, p.7 e 8.

56-MAIA, op. cit., p. 28 e 29.

57-No Pará, devido ao seu exuberante solo, existia uma grande riqueza em madeiras apropriadas para a construção naval, em virtude disto o seu arsenal foi um dos que apresentou maior produtividade e importância. Também a eficiência e produtividade do arsenal catarinense, entre outros, foi digno de menção (MAIA , op. cit., p. 29).

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escala ao movimento de seu porto59. Este era localizado numa posição privilegiada, sendo ponto intermediário entre o Rio de Janeiro e Montevidéu. Portanto, importante à política portuguesa nas suas tentativas de arrebanhar a Banda Oriental do Uruguai ao seu império americano. Era também seguro e podia abrigar uma grande frota de guerra ou mercante60. O porto de Desterro era freqüentemente visitado por navios que necessitavam ser abastecidos de gêneros alimentícios e de água potável, que aqui eram encontrados frescos e fornecidos a preços moderados61.

Anteriormente, ao longo deste primeiro capítulo, deixei evidente a preocupação do governo português em firmar posição no litoral sul brasileiro, visando garantir acesso ao Rio da Prata. Para satisfazer tal pretensão ocorre a fundação da Colônia do Sacramento na margem esquerda do Rio da Prata, quase defronte a Buenos Aires em território pertencente a Espanha, no ano de 1680, por D. Manoel Lobo, governador do Rio de Janeiro, que neste momento faz da Ilha de Santa Catarina a sua base de aprovisionamento62. Portugal tinha consciência, que seus interesses nesta área só se concretizariam se investisse em baluartes de apoio para eventuais ações militares, tais baluartes deveriam ser instalados no litoral. De acordo com a citação a seguir podemos constatar que a Ilha de Santa Catarina foi escolhida como ponto 59- Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808 a região Sul teve um certo incremento em suas atividades comerciais. O porto de Desterro tornou-se ponto de ligação entre o Rio de Janeiro e Montevidéu e o comércio desterrense teve uma certa expansão. Em 1812, Desterro enviou em 150 navios que

partiram para o Rio de Janeiro, farinha de mandioca, aguardente, azeite de baleia, arroz, trigo, feijão, couro, carnes, alhos, linho fino, cânhamo, batatas, telhas, cal, madeiras e louça de barro (BALDIN, op. cit.

p. 12). A partir do ano de 1816, com a intensificação da campanha para a ocupação da Cisplatina, o comércio do porto de Desterro teve um deslocamento para o sul, mas não abandonou suas exportações para o norte,

sendo que entre 1818 e 1819 entraram no Rio de Janeiro procedentes de Santa Catarina,, 97 embarcações comerciais e saíram do Rio de Janeiro com direção a Santa Catarina 112 embarcações (BOITEUX,

Henrique. Os nossos almirantes ; séries biográficas. Apud. BALDIN, op. cit., p. 12). 60- BALDIN, op. cit., p. 10.

61- Para obter mais informações verificar a obra de Emmanuel D. Bennigsen, Visitas de russos a Santa

Catarina. Notícias Bibliográfica e Histórica, Campinas, Puc (80): 83, mar../abr., 1977. Apud. BALDIN , P.

10.

Referências

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