estratégico para consolidar os planos portugueses:
Base logística – considerou-se assim a ilha se Santa Catarina, por estar em situação geográfica privilegiada entre o porto do Rio de Janeiro e o de Buenos Aires e por ter servido de ponto para a manutenção e o aprovisionamento das embarcações que se dirigiam para o Prata63.
Podemos evidenciar, pelas colocações expostas até o presente momento, que Santa Catarina possuía uma importância estratégica no processo de defesa e domínio das terras brasileiras pelos portugueses.
No que se refere à Marinha Brasileira, MAIA (Op.cit., p.52) afirma que a grande maioria dos historiadores navais vê a fundação da mesma no momento da transferência da família real portuguesa para o Brasil no ano de 1808, mas em sua opinião, entretanto, a Marinha Brasileira nasceu com a independência. A necessidade vital da consolidação de uma foi a determinante imperiosa da criação da outra64. Por ser um país essencialmente marítimo, possuindo uma disposição topográfica que lhe dificultava o estabelecimento de comunicação por meios terrestres, entre seu vasto território, o Brasil não poderia se desenvolver sem uma marinha capaz de estabelecer essa necessária comunicação e também proteger seu comércio e garantir a manutenção de sua unidade territorial, defendendo-o inclusive de ataques externos, visando garantir a sua soberania65.
É importante ter claro que durante o Período Colonial a grande 63-BALDIN, Nelma. Op. cit. p.4.
64-MAIA, op. cit .p. 53. 65-Id. Ibdem.
preocupação do governo português era com a proteção das terras brasileiras, visando conservar sua Colônia, o que explica em grande parte a tradição militar que marca o século XVIII. Já com a Proclamação da Independência Brasileira, no século XIX, o foco da atenção passa a ser a formação do Estado Brasileiro, quando se verifica uma constante preocupação com a construção de uma nação civilizada, principalmente durante o Segundo Reinado, sob o governo do Imperador D. Pedro II conhecido como um monarca ilustrado que se dedicou à arte de educar, de civilizar.
Retomando a questão da Marinha Brasileira, MAIA afirma que a forma como se processou a organização do seu quadro pessoal, tanto no referente à oficialidade quanto a marinhagem, sempre deixou muito a desejar. A partir do período regencial e mais acentuadamente no transcorrer do Segundo Reinado é que de maneira lenta e gradual, essa organização passou a adquirir um caráter racional 66. Por intermédio de um decreto legislativo de 15 de outubro de 1836 o governo brasileiro foi autorizado a organizar as chamadas “Companhias Fixas de Marinheiros”, compostas de 100 praças cada uma. Desta forma foram criadas quatro companhias no Rio de Janeiro, sendo que estas eram constituídas individualmente por um comandante-geral e:
(...) 1 primeiro-tenente, 2 guardas marinhas, 1 contramestre, 1 guardião, 1 primeiro-furriel, 1 segundo furriel, 4 cabos marinheiros, 18 primeiros-marinheiros, 18 segundos-marinheiros, 26 terceiros-marinheiros, e 26 aprendizes marinheiros67.
66-Id. Ibdem, p. 226. 67-Id. Ibdem, p. 212 e 213.
Isto visando amenizar um dos grandes problemas enfrentados pela Marinha Brasileira desde sua origem, que era o de prover a necessidade de marinheiros, em meio a um país com vasto litoral, mas que não possuía Marinha Mercante ou indústrias marítimas. Conforme colocações de MAIA, entre os anos de 1830 e 1840 esta necessidade aparece nos relatórios dos Ministros da Marinha desse período e para satisfazê-la começou-se por engajar jovens, de 12 a 16 anos embarcando-os em navios de mais de 20 bôcas-de-fogo, a bordo dos quais criaram-se para êles escolas de instrução primária, ao mesmo tempo que faziam a aprendizagem da arte de Marinheiro68. Essas crianças, como explicitei anteriormente, eram obtidas, entre outras formas, por meio de recrutamento compulsório e eram organizadas, posteriormente, em Companhias distintas destas que surgiram como um complemento do sistema adotado pelo Governo para educar os marinheiros, que eram destinados aos serviços da Marinha de Guerra do Brasil, as denominadas Companhias de Aprendizes Marinheiros, cuja primeira foi instalada no Rio de Janeiro. A prática tendo mostrado a superioridade do marinheiro procedente da Companhia de Aprendizes sobre o recrutado sem a mais elementar educação, multiplicou-se a instituição instalando-se companhias de aprendizes em diversas Províncias, a começar pela do Pará e sucessivamente por outras situadas no litoral e também na de Mato Grosso69.
A primeira destas Companhias foi criada, como dito acima, no Rio de Janeiro por decreto de 27 de agosto de 1840, após foram criadas a do Pará, em 4/1/1855; da Bahia, em 27/1/1855; de Pernambuco e Santa Catarina, em 24/10/1857; do Maranhão, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, em 12/1/1861; do Espírito Santo, em 8/2/1862; do Ceará e do Paraná, em 25/11/1864; de
68-Id. Ibdem, p. 227. 69-Id. Ibdem, p. 229.
Sergipe e de Santos, em 29/2/1868; da Paraíba, em 17/1/1871; do Rio Grande do Norte, em 16/12/1872; do Piauí, em 18/6/1873 e de Alagoas, em 2/1/187570.
Nos autores e nos documentos consultados, não encontrei qualquer explicação para a escolha das Províncias onde foram instaladas as Companhias de Aprendizes Marinheiros. Suponho, entretanto, pelas leituras realizadas, que a razão pode estar relacionada com a presença, nestas províncias, de Arsenais da Marinha desde o Período Colonial, o que já explicitei no decorrer deste escrito. Este fator talvez pudesse esclarecer o porque de ter sido o Pará a primeira Província, após o Rio de Janeiro (então sede do Governo Imperial), escolhida para a instalação de uma destas novas instituições militares, uma vez que foi esta Província detentora de um dos maiores Arsenais da Marinha com grande produtividade e eficiência71, o que acarretaria a necessidade de mão de obra qualificada para o desenvolvimento das atividades navais. E, principalmente, pode estar intimamente ligada a constante preocupação dos governantes, desde o Período Colonial Brasileiro (perpassando por todo o Primeiro e Segundo Reinados), com a proteção do imenso litoral brasileiro, com vistas a garantir a unidade territorial.
A Companhia de Aprendizes Marinheiros de Santa Catarina foi criada pelo decreto 2003 de 24 de outubro de 1857, juntamente com a de Pernambuco72.
O comunicado oficial que transmitiu ao então Presidente da Província de Santa Catarina, João José Coutinho, uma cópia do citado decreto, bem como do regulamento para a organização, comando e administração das 70- Id. Ibdem, p. 329.